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segunda-feira, 11 de março de 2019

No dia de hoje… 11 de março de 1989: o massacre à mando dos coronéis na fazenda Santa Elmira, no Salto do Jacuí completa 30 anos



11 de março de 1989: o Massacre da Fazenda Santa Elmira, no município de Salto Jacuí, no Estado do Rio Grande do Sul, completa 30 anos

pela Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos

No dia de hoje…

11 de março de 1989: o Massacre da Fazenda Santa Elmira, no município de Salto Jacuí, no Estado do Rio Grande do Sul, completa 30 anos. A Fazenda era tida como improdutiva e grupos de camponeses ocupavam o local, como protesto pela demora na execução de políticas de reforma agrária.
Tiros, gente ferida, aviões soltando bombas de efeito moral e de gás lacrimogêneo. 19 camponeses foram mortos a tiros, 400 ficaram feridos e 22 foram presos.
O fato histórico está documentado no livro “O Massacre da Fazenda Santa Elmira”, lançado em 2002, pela Novak Multimedia e escrito por Frei Sérgio, que estava no local e que também foi vítima do massacre.
Ele conta que ajudava na busca de uma solução pacífica, no dia exato do massacre, junto às famílias que estavam acampadas na Fazenda e sofriam ameaças de despejo. Tais ameaças haviam sido decretadas por decisões judiciais que não continham qualquer consideração pela batalha histórica que estava sendo travada. Frei Sérgio relata ainda que procurava, por rádio amador, passar mensagens de negociação de dentro do acampamento, para a Brigada Militar que cercava o local naquele dia. Mesmo assim, os agentes do Estado atacaram.
Depoimentos dão conta de que o massacre foi protagonizado por 1.200 policiais. Os aviões foram providenciados por organizações civis de latifundiários. O dia, nesse longínquo ano de 1989, é considerado um marco na luta do Movimento dos Sem Terra (MST).
A Constituição brasileira – de 1988 – garante o direito à propriedade, porém com reservas: o direito à herança não é previsto constitucionalmente; a propriedade, qualquer que seja ela, deve cumprir a sua função social.
Singelamente, isto significa que uma propriedade rural não é de exclusiva titularidade de seu dono. Ela deve produzir grãos e/ou servir à criação de gado em geral, em percentual definido em legislação. A função de servir ao olhar contemplativo de seus supostos proprietários não é prevista na Constituição. É preciso dizer “supostos proprietários” pois as certidões de propriedade legalizada de grande parte dos latifúndios brasileiros não resistiam, em 1988, à regra da verificação vintenária.
Na verdade, a luta pela terra no Brasil é tão antiga quanto a colonização. Muitos tombaram nessa batalha, que teve como grande expoente as Ligas Camponesas. Elas tiveram seu início na década de 40, quando a condição dos trabalhadores rurais no Nordeste já era insustentável, tanto pelas condições climáticas, quanto pela exploração da mão de obra pela oligarquia rural.
As Ligas resistiram por quase 03 décadas, mas foram sufocadas nos anos 60 pela ditadura militar, sendo paulatinamente substituídas pelo MST. As causas que defendiam, entretanto, denominadas no governo de João Goulart de “reformas de base”, eram legítimas e factíveis.
Eventuais abusos cometidos, basicamente contra o patrimônio dos proprietários de terras improdutivas, poderiam ser coibidos com base na legislação vigente, mas as respostas estatais vinham sempre com grave violência contra a integridade física e a dignidade dos manifestantes, como se vê na foto aqui publicada.
Houve uma tentativa – frustrada – de se criar um Plano Nacional de Reforma Agrária já no Governo Sarney. Novamente, latifundiários e conservadores bloquearam qualquer possibilidade de isso acontecer.
Com a promulgação da Constituição em 1988, chamada de Constituição Cidadã inspirada em sinceros objetivos de justiça social, os canais que levariam a uma reforma agrária, lamentavelmente, fecharam-se ainda mais e a luta tornou-se mais acirrada.
O noticiário jornalístico, especialmente na televisão, empenhou-se em criar um sentimento de animosidade em relação aos movimentos de sem-terras. E a reforma agrária, que foi a marca do desenvolvimento de diversas economias, como as do Japão e dos Estados Unidos, por aqui se tornou um estigma político, combatido com forças do Estado.
A soma de fatores que levou ao Massacre de Santa Elmira garante a falta de solução da questão até os dias de hoje.
“Para que não se esqueça…”
P.S. – As informações aqui divulgadas foram extraídas de textos da Wikipédia.
O presente texto faz parte de uma série de relatos que estamos publicando diariamente, sobre eventos relacionados a graves lesões a direitos humanos. Nossa intenção é dar visibilidade à I Caminhada do Silêncio, em prol das vítimas de violações estatais, que a CEMDP está organizando para o dia 31 de março de 2019, em São Paulo.
Maiores detalhes sobre a Caminhada podem ser vistos emhttps://www.facebook.com/events/2327473097484498??ti=ia.
*** É possível abrir a página, mas o acesso tem sido lento, por motivos alheios à nossa vontade. Contamos com sua compreensão e apoio para divulgação.

domingo, 1 de julho de 2018

O peso kármico da história do Brasil, por Leonardo Boff



"Apliquemos esta lei kármica à nossa situação. Não sera difícil reconhecer que somos portadores de um pesadíssimo karma, em grande escala, derivado do genocídio indígena, da super-exploração da força do trabalho escravo, das injustiças perpretadas contra grande parte da população, negra e mestiça, jogada na periferia, com famílias destruídas e corroídas pela fome e pelas doenças. A via-sacra de sofrimento desses nossos irmãos e irmãs tem mais estações do que aquela do Filho do Homem quando viveu e padeceu entre nós. Excusado é citar outras maldades."


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O peso Kármico do Brasil, por Leonardo Boff

A amplitude da crise brasileira é de tal gravidade que nos faltam categorias para elucidá-la. Tentando ir além das clássicas abordagens da sociologia crítica ou da história, tenho-me valido da capacidade elucidativa das categorias psicanalíticas da “sombra”e da “luz” generalizadas como constantes antropológicas, pessoais e coletivas. Ensaiei uma compreensão possível que nos vêm da teoria do caos, capítulo importante da nova cosmologia, pois deste caos, em situação de altíssima complexidade e jogo de relações, irrompeu a vida que conhecemos, inclusive a nossa. Esta mostrou-se capaz de identificar aquela Energia Poderosa e Amorosa que tudo sustenta, o Princípio Gerador de todos os Seres e abrir-se a Ele em veneração e respeito.

Perguto-me que outra categoria estaria no repositório da sabedoria humana que nos poderia trazer alguma luz nas trevas nas quais estamos todos mergulhados. Foi então que me lembrei de um diálogo instigante entre o grande historiador inglês Arnold Toynbee e Daisaku Ikeda, eminente filósofo japonês (cf. Elige la vida, Emecé. B.Aires 2005) que durou vários dias em Londres. Ambos creem na realidade do karma, seja pessoal, seja coletivo. Prescindindo das várias interpretações dadas a ele, me parecia ter encontrado aqui aqui uma categoria da mais alta ancestralidade, manejada pelo budismo, hinduismo, jainismo e também pelo espiritismo para explicar fenômenos pessoais e coletivos.

O karma é um termo sânscrito originalmente significando força e movimento, concentrado na palavra “ação” que provocava sua correspondente “re-ação”. Este aspecto coletivo pareceu-me importante, por que, não conheço (posso estar equivocado) no ocidente nenhuma categoria conceptual que dê conta de um sentido de devir histórico de toda uma comunidade e de suas instituições nas suas dimensões positivas e negativas. Talvez, devido ao arraigado individualismo, típico do Ocidente, não tenhamos tido as condições de projetarmos um conceito suficientemente abrangente.

Cada pessoa é marcada pelas ações que praticou em vida. Essa ação não se restringe à pessoa mas conota todo o ambiente. Trata-se de uma espécie de conta-corrente ética cujo saldo está em constante mutação consoante as ações boas ou más que são feitas, vale dizer, os “debitos e os créditos”. Mesmo depois da morte, a pessoa, na crença budista, carrega esta conta por mais renascimentos possa ter, até zerar a conta negativa.

Toynbee dá-lhe outra versão que me parece esclarecedora e nos ajuda entender um pouco nossa história. A história é feita de redes relacionais dentro das quais está inserida cada pessoa, ligada com as que a precederam e com as presentes. Há um funcionamento kármico na história de um povo e de suas instituições consoante os níveis de bondade e justiça ou de maldade e injustiça que produziram ao largo do tempo. Este seria uma espécie de campo mórfico que permaneceria impregnando tudo.

Não se requer a hipótese dos muitos renascimentos porque a rede de vínculos garante a continuidade do destino de um povo (p.384). As realidades kármicas impregnam as instituições, as paisagens, configuram as pessoas e marcam o estilo singular de um povo. Esta força kármica atua na história, marcando os fatos benéficos ou maléficos. C.G.Jung em sua psicologia arquetípica notara, de alguma forma, tal fato.

Apliquemos esta lei kármica à nossa situação. Não sera difícil reconhecer que somos portadores de um pesadíssimo karma, em grande escala, derivado do genocídio indígena, da super-exploração da força do trabalho escravo, das injustiças perpretadas contra grande parte da população, negra e mestiça, jogada na periferia, com famílias destruídas e corroídas pela fome e pelas doenças. A via-sacra de sofrimento desses nossos irmãos e irmãs tem mais estações do que aquela do Filho do Homem quando viveu e padeceu entre nós. Excusado é citar outras maldades.

Tanto Toynbee quanto Ikeda concordam nisso:”a sociedade moderna (nós incluídos) só pode ser curada de sua carga kármica, através de uma revolução espiritual no coração e na mente(p.159), na linha da justiça compensatória e de políticas sanadoras com instituições justas. Sem esta justiça minima a carga kármica não se desfará. Mas ela sozinha não é suficiente. Faz-se mister o amor, a solidariedade a compaixão e uma profunda humanidade pra com as vítimas. O amor será o motor mais eficaz porque ele, no fundo “é a última realidade”(p.387). Uma sociedade incapaz de efetivamente amar e de ser menos malvada, jamais desconstruirá uma história tão marcada pelo karma. Eis o desafio que a atual crise nos suscita.

Não apregoaram outra coisa os mestres da humanidade, como Jesus, São Francisco, Dalai Lama, Gandhi, Luther King Jr e o Papa Francisco? Só o karma do bem redime a realidade da força kármica do mal.

E se o Brasil não fizer essa reversão kármica permanecerá de crise em crise, destruindo seu próprio futuro.
Leonardo Boff escreveu O destino do homem e do mundo, 12. ed., Vozes 2012.

sexta-feira, 17 de outubro de 2014

Luiz Fernando Vianna, articulista da Folha, afirma que Aécio é o representante e paladino dos senhores feudais e elitistas de sempre


O artigo a seguir, de Luiz Fernando Vianaa, foi extraído do site da Folha de São Paulo:



A volta do senhor


17/10/2014  02h00

RIO DE JANEIRO - Aécio Neves não deve apenas às suas eventuais qualidades a ascensão impressionante de sua candidatura. O ódio que, espalhado pelas duas campanhas, domina o segundo turno indica que ele encarna aspirações mais profundas.

O senador mineiro é branco, conquistador, bem educado, rico de berço, nunca trabalhou (a não ser em política), está no topo das sociedades rural (sua família é dona de fazendas) e urbana (frequenta as praias, boates e os restaurantes da zona sul carioca). Representa o cume da pirâmide econômica e cultural brasileira, o ponto para onde boa parte da classe média olha com admiração e inveja.

Um montante desses eleitores cogitou votar em Marina Silva. Mas ela é autodeclarada negra, ex-doméstica, analfabeta até os 16 anos, nortista, carola, de saúde frágil e, mais grave, é cria do PT. Não faz parte do clube. Não é confiável.

O sentimento antipetista, que se fortaleceu com a piora da economia e com as graves denúncias de desvios de recursos da Petrobras, encontrou em Aécio o seu colo natural.

A legítima irritação com a corrupção faz ressurgir o grito do "mar de lama", que já elegeu Jânio Quadros e Fernando Collor, tendo antes contribuído para a morte de Getúlio Vargas –cujo fiel ministro da Justiça era Tancredo Neves, avô de Aécio.

O Bolsa Família dá condições mínimas de vida a 50 milhões de pessoas e aquece a economia de pequenos municípios; o Luz para Todos leva energia elétrica a cafundós esquecidos; o ProUni, o Fies e as cotas põem pobres nas universidades. Programas como esses são rechaçados por certas camadas da população, pois bagunçam um contrato social de 500 anos.

Sob um talvez sincero discurso de mudança, Aécio oculta um de restauração quase monárquica, de devolução do poder aos senhores de sempre. Muda-se para não mudar. 



Luiz Fernando Vianna, carioca, jornalista, foi repórter e coordenador de produção da Sucursal do Rio. É autor de livros sobre música popular brasileira , entre eles "Geografia Carioca do Samba" e "Aldir Blanc - Resposta ao Tempo". Escreve às segundas e sextas.