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terça-feira, 14 de julho de 2020

Gilmar tem razão: o Exército - que, ao contrário dos de países democráticos, no Brasil se acha acima de críticas - está associado ao genocídio liderado por Bolsonaro; STF deveria julgá-los. Artigo de Mauro Lopes


   O jornalista Mauro Lopes, editor do 247, escreve sobre a acusação do ministro do STF, Gilmar Mendes, de que o Exército está associando-se ao genocídio promovido por Bolsonaro. “Um olhar sereno para a lei brasileira que trata do genocídio, sancionada em 1956 por Juscelino Kubitschek não deixa margem a dúvidas: trata-se de um genocídio o que está em curso no país. O STF irá punir os genocidas? Este é o tema a ser colocado em pauta, e não a reação furibunda dos fardados.
Gilmar Mendes, Jair Bolsonaro com militares
Gilmar Mendes, Jair Bolsonaro com militares (Foto: STF | PR)

O tema no país desde sábado (11) é o genocídio. Quem colocou o tema na agenda foi Gilmar Mendes, um ministro do STF assertivo, para dizer o mínimo. Ele disse numa live que “o Exército está se associando a esse genocídio”, referindo-se ao fato de a  principal Força armada ser conivente com a política de Jair Bolsonaro na pandemia de coronavírus e, conforme precisou no domingo, pelo fato ter ocorrido uma verdadeira ocupação militar do Ministério da Saúde. A crítica de Gilmar provocou uma tempestade na caserna e os comandantes soltaram uma nota ao estilo dos “pronunciamentos” dos militares de toda a América Latina durante os anos de chumbo da ditadura.
A nota dos militares manifesta “repúdio” a Gilmar, que sequer teve direito ao tratamento respeitoso de ministro do Supremo e foi tratado apenas como “senhor”. No texto, invocam a Lei do Genocídio em vigor no país. Estamos num tempo em que tudo está mesmo de ponta cabeça. Porque a leitura da Lei brasileira desautoriza por completo os comandantes militares e dá razão a Gilmar!
Um olhar sereno para a lei brasileira que trata do genocídio, sancionada em 1956 por Juscelino Kubitschek não deixa margem a dúvidas: trata-se de um genocídio o que está em curso no país. O STF irá punir os genocidas? Este é o tema a ser colocado em pauta, e não a reação furibunda dos fardados.O que diz a Lei 2889 sancionada por JK? Comete crime de genocídio:
“Art. 1º Quem, com a intenção de destruir, no todo ou em parte, grupo nacional, étnico, racial ou religioso, como tal:
a) matar membros do grupo;
b) causar lesão grave à integridade física ou mental de membros do grupo;
c) submeter intencionalmente o grupo a condições de existência capazes de ocasionar-lhe a destruição física total ou parcial;
d) adotar medidas destinadas a impedir os nascimentos no seio do grupo;
e) efetuar a transferência forçada de crianças do grupo para outro grupo.”
Ora, alguém tem dúvida de que é exatamente isso que Bolsonaro está realizando, com a participação ativa dos militares no Ministério da Saúde e em todo canto de seu governo?
Há dezenas de evidências de que o crime de genocídio, como caracterizado na lei brasileira, está em curso. Dois exemplos:
1. Em 8 de julho último, Bolsonaro sancionou com 16 vetos a lei aprovada no Congresso Nacional que criou o Plano Emergencial para Enfrentamento à Covid-19 nos territórios indígenas, quilombolas e de povos tradicionais. Os vetos tipificam o crime de genocídio pois, com eles, Bolsonaro fez com que  o Estado brasileiro ficasse desobrigado de: oferecer acesso à água potável e garantir a distribuição de produtos de higiene e limpeza às aldeias, quilombos e áreas dos povos tradicionais. Bolsonaro também vetou a elaboração de ações específicas para ampliar os leitos hospitalares, a liberação de verba emergencial para a saúde indígena, projetos de instalação de internet nas aldeias, distribuição de cestas básicas e o acesso facilitado ao auxílio emergencial.
2. A ata de uma reunião promovida pelo Ministério Público Federal em Roraima no dia 2 de julho último mostra que o coordenador do Distrito Sanitário Especial Indígena Leste, Tércio Pimentel, admitiu que o Ministério da Saúde, comandado pelo general  Eduardo Pazuello está distribuindo aos povos originários cloroquina para “tratamento” da Covid-19. Um documento obtido pela equipe de jornalistas de O Globo contradiz a versão do Ministério da Saúde de que comprimidos de cloroquina enviados para as terras indígenas Yanomami e Raposa Serra do Sol eram destinados apenas ao tratamento da malária e não para a Covid-19. A cloroquina é condenada para tratamento de infecção por coronavírus por autoridades médicas em quase todo o mundo. Até nos EUA de Trump o medicamento foi proibido para tratamento da doença, pelas mortes que causa (leia aqui). 
Em outras palavras, Bolsonaro, com a contribuição ativa dos militares, em relação aos povos indígenas, quilombolas e povos tradicionais, está agindo para “matar membros do grupo”, para “causar lesão grave à integridade física ou mental de membros do grupo” e está submetendo “intencionalmente o grupo a condições de existência capazes de ocasionar-lhe a destruição física total ou parcial”. A distribuição em massa de cloroquina e os vetos na lei do Plano Emergencial são provas mais que suficiente de que Bolsonaro e os militares estão incursos nas previsões da Lei do Genocídio brasileira.
Espera-se agora que o STF seja acionado pelos povos indígenas, quilombolas e tradicionais. E que o julgamento faça Justiça
Gilmar tem razão. 
Participe da campanha de assinaturas solidárias do Brasil 247. Saiba mais.

domingo, 19 de agosto de 2018

Glenn Greenwald em vídeo, discute as relação do impeachment com as eleições de 2018


Sobre a máfia que promoveu o golpe, incluindo criminosos hoje bastante conhecidos como tais, veja o vídeo do jornalista investigativo e ganhador do Pulitzer, Glenn Greenwald:



Dois anos após o impeachment de Dilma Rousseff, vemos com clareza quem participou da deposição da ex-presidente e com que intenções. Isso é importante não apenas para entender o passado, mas também para compreender o que está acontecendo nestas eleições. Assista ao novo vídeo reportagem de Glenn Greenwald!

domingo, 3 de setembro de 2017

Bob Fernandes: "A Lei é para Todos", mas isso só no filme da Lava Jato...


"O filme custou R$ 16 milhões. É segredo quem são os financiadores.

No filme, um dos heróis é o juiz Moro. Como se sabe, juiz não acusa, juiz julga. Moro é o julgador na Lava Jato.

A Lava Jato está longe de acabar. E Moro, que ainda vai julgar muito, estava na pré-estreia como convidado especial.

Assistindo a si mesmo num filme que toma partido, que tem lado."




Do Canal da Tv Gazeta:




Aconteceu na segunda-feira, 28, em Curitiba, a pré-estreia do filme da Lava Jato: "Policia Federal, a Lei é para Todos".

O filme custou R$ 16 milhões. É segredo quem são os financiadores.

No filme, um dos heróis é o juiz Moro. Como se sabe, juiz não acusa, juiz julga. Moro é o julgador na Lava Jato.

A Lava Jato está longe de acabar. E Moro, que ainda vai julgar muito, estava na pré-estreia como convidado especial.

Assistindo a si mesmo num filme que toma partido, que tem lado.

Na plateia, delegados da Polícia Federal. Entre eles Igor de Paula e Marcio Anselmo, ex-coordenadores na Lava Jato.

Pós-eleição, novembro de 2014, e Julia Duialibi revelava no Estadão: Igor de Paula, Marcio Anselmo, Érika Marena e outros delegados tinham perfis fechados no Facebook...

...Nesses perfis, frases como "Esse é o cara" elogiavam Aécio Neves. E, na reprodução de um link, exposta a cobrança: "O Brasil precisa se livrar de Dilma e eleger Aécio".

Delegados na pré-estreia. Um deles, em 2014, ao comentar frase de Lula, escancarou: "Alguém segura essa anta, por favor?".

O filme da Lava Jato usa áudio de comentário feito por mim no Jornal da Gazeta, em 24 de novembro de 2014. A frase usada foi:

-No Brasil, se não se fizer acerto não se coloca um paralelepípedo...

Título daquele comentário: "Empresário põe a nú cínicos e hipócritas".

O comentário abordava artigo do empresário Ricardo Semler. Que escrevera na Folha de S.Paulo:

-Desde os anos 70 até recentemente (...) cobravam 10% na importação de petróleo (suborno na Petrobras).

Em 2014 Semler ironizava a "elite escandalizada com os desvios na Petrobras". E provocava:

-Onde estavam os envergonhados do país nas décadas em que houve evasão de R$ 1 trilhão por parte dos empresários?

Aqui, por anos, lembramos: o DNA desse Sistema político apodrecido já estava nos computadores dos empreiteiros. Então já há anos em posse da Lava Jato.
Dizíamos então: a opção por investigar e expor apenas uma parte do Sistema político-partidário-empresarial era um erro grave...

...Quando todos fossem expostos, o que era inevitável e aconteceu, viveríamos decepção, desencanto, desalento e indiferença...

O que vivenciamos hoje?

sexta-feira, 1 de setembro de 2017

Do ConJur: Recheado de Clichês, filme sobre "Lava Jato" é reducionista e achata personagens. Artigo de Pedro Canário



Desde o lançamento de Tropa de Elite, em 2007, o cinema brasileiro aposta em produzir retratos irreais de policiais. Recheado de clichês, Polícia Federal – a Lei é para Todos, do diretor Marcelo Antunez, é o mais novo descendente dessa linhagem.
10 anos de policiais
no cinema nacional
Tropa de Elite (2007)
Segurança Nacional (2010)
Tropa de Elite 2 (2010)
Federal (2010)
Assalto ao Banco Central (2011)
Operações Especiais (2014)
Polícia Federal – a Lei é
para Todos
 (2017)
ConJur assistiu à pré-estreia do filme em São Paulo, a convite da Associação dos Delegados da Polícia Federal (ADPF). A sessão aconteceu no cinema do shopping Eldorado e ocupou todas as oito salas convencionais do Cinemark, com capacidade para 1.478 pessoas.
O filme conta histórias do início da operação “lava jato” sob o ponto de vista dos delegados que trabalharam nas investigações em Curitiba — e só deles. O filme tem 121 minutos e dá pra contar nos dedos as aparições de agentes da PF, que fazem breves figurações. Todos os momentos são conduzidos pelos delegados, que aproveitam espaços do roteiro para disparar chavões do senso comum, como “o sistema é feito para não funcionar”; “esse país...”; ou “me sinto como se estivesse dando socos num muro”.
Mas o nível da discussão fica claro já nos primeiros segundos de filme, quando aparece um aviso: “Os fatos aqui narrados aconteceram entre 22 de abril de 1500 e março de 2016”.
A história é conduzida pelo delegado Ivan Romano, vivido por Antonio Calloni. A personagem é uma representação do delegado Igor Romário de Paula, coordenador da “lava jato”, mas concentra episódios e conversas protagonizadas também por outros dois profissionais.
Todos os delegados e os dois procuradores da República que aparecem no filme tiveram os nomes trocados. Já os réus, investigados e delatores são chamados pelos nomes, cargos e atividades de verdade mesmo.
Deltan Dallagnol e Carlos Fernando dos Santos Lima viraram Ítalo e Pedro Henrique, e no filme são quase um casal: terminam frases um do outro e quase não aparecerem separados. Marcelo Serrado é Sergio Moro e captou com precisão os trejeitos do magistrado — só não reproduziu o sotaque de Maringá (PR), terra natal de Moro, e preferiu continuar com o carioca mesmo. Como também o fizeram todos os demais atores que interpretam paranaenses.

Divulgação

O roteiro do filme é conduzido pelo bom mocismo dos delegados, sempre por meio de declarações, quase nunca diálogos, com falas de alto teor de responsabilidade cívica. Por isso são necessários pontos de descanso para a história ser explicada.
O delegado Ivan faz o papel de narrador — como o capitão Nascimento de Tropa de Elite —, que também faz um apanhadão dos escândalos de corrupção vividos pelo Brasil desde seu descobrimento, com direito a citação do padre Antônio Vieira e “ao mar de lama de Getúlio Vargas”, expressão usada por Carlos Lacerda quando ele estava em campanha para derrubar o adversário.
Digno de nota que a narração de Ivan vai do “mar de lama” com ilustrações do suicídio de Getúlio para casos que ficaram conhecidos durante o governo Sarney. Os fatos que aconteceram entre 1500 e 2016 tiveram uma pausa entre 1964 e 1985, justamente o período em que o país esteve sob ditadura militar (embora a História mostre casos patentes de corrupção no periodo).
Às vezes a narração é interrompida pelas descobertas dos delegados. O “maluco do Júlio”, que na vida real é o delegado Márcio Anselmo, vivido pelo ator Bruno Gomlevsky, é responsável pela maior parte dos avanços importantes da operação. Suas ideias geniais são sempre desenhadas numa lousa e explicadas didaticamente pela delegada Bia, personagem de Flávia Alessandra — representando a delegada Erika Marena.
Sem contar a defesa explícita do ponto de vista dos delegados sobre a “lava jato” e o nojo que eles explicitam de corrupção, o filme poderia ser uma ópera, ou um musical. Os personagens entram em cena, dão a fala e saem. E a fala quase sempre serve para expor o roteiro, nunca para desenhar algum tipo de personalidade nos protagonistas.
O único deles que tem alguma nuance é Júlio, retratado como um descontrolado, mas que precisa estar em casa com os pais, diante da doença da mãe. Os demais se limitam aos papéis que representam.
Ivan é o retrato da sensatez e da letra fria da lei. Partem sempre dele momentos de temperança em relação aos demais investigadores, ávidos para ir para cima dos corruptos. Bia é a mandona, impaciente e desiludida, autora de declarações do tipo “se for pro Supremo, acabou” ou “eles devem achar que a gente é imbecil”.
Lula é um velhaco, o barão ofendido por, tão poderoso, ser desafiado pela audácia dos representantes da lei (“quando eu for eleito de novo, vou me lembrar de cada um de vocês”, diz a um Ivan aborrecido).
Não se pode alegar surpresa com o maniqueísmo do roteiro nem com a defesa de cada passo dado pelos delegados. O filme — cuja produção custou R$ 16 milhões de investidores — conta com apoio quase irrestrito da cúpula da Polícia Federal.