Do canal Mídia Ninja:
domingo, 12 de janeiro de 2025
segunda-feira, 13 de maio de 2024
Rio Grande do Sul: a catástrofe provocada e a Chance para superar as suas causas, por Jessé Souza
É a chance de mostrar na cara dos negacionistas que a culpa não é da natureza, mas sim deles próprios
Do site ICL Notícias:
Todos nós ficamos chocados com as cenas de uma Porto Alegre, no Rio Grande do Sul, arrasada, e um estado que enfrenta a destruição social e econômica.
Nessa hora trágica, a desigualdade onipresente brasileira se manifesta, mais uma vez, já que os ricos podem se movimentar e se resguardar, mas os pobres, com casas e sonhos destruídos, não têm a mesma mobilidade.
Apesar de toda a destruição e da compaixão com as vítimas — o estado vai ter que ser reconstruído — existe um aspecto de oportunidade e de chance nesta tragédia.
É a chance de mostrar na cara dos negacionistas que a culpa não é da natureza, mas sim deles próprios. É uma oportunidade também para expor as contradições do agro (suposto pop) selvagem nacional e do seu potencial destrutivo.
Refazer a cadeia de causa e efeito é fundamental agora. E ela nos leva à crítica de todo um modelo de capitalismo selvagem baseado na destruição da natureza e no saque da riqueza de todos. É preciso aproveitar as janelas de oportunidade que se abrem.
O Rio Grande do Sul e o calor intenso em muitas capitais no outono mostram, sobejamente, que não temos tempo a perder. E quem atrasa qualquer projeto nacional para uma transição de matriz energética é o agronegócio e seus aliados no sistema financeiro.
É preciso apontar o dedo e mostrar o verdadeiro culpado. O negacionismo bolsonarista também pode ser contraposto de outra maneira a partir de agora.
O fundamental é que essa janela de oportunidade seja percebida pelos que podem alavancar e elevar a racionalidade mínima de uma sociedade entregue à propaganda e a manipulação do pior tipo. A humanidade e seu aprendizado, infelizmente, vivem das catástrofes.
A Segunda Guerra Mundial pariu um mundo, para citar apenas um exemplo dentre muitos, que elevou a humanidade a outro patamar civilizatório. A democracia, o respeito a autonomia dos povos, o acordo social-democrata, todos são decorrentes do aprendizado do pós-guerra.
As situações limite impõem a reflexão sobre o que é essencial e o que é secundário, e este é um grande processo de aprendizado civilizatório.
A tragédia do Rio Grande do Sul é a nossa maior catástrofe até aqui. Precisamos usar este fato, além de ajudar as vítimas, obviamente, para nos contrapor aos negacionismos, que servem ao capital predador, e conseguir também um outro patamar civilizatório para o país.
A luta contra a desigualdade e o cuidado da natureza precisam andar juntos e serem postos acima de qualquer outra coisa. E a inundação do estado gaúcho nos fornece a melhor janela de oportunidade que poderíamos ter.
Mas é preciso primeiro inteligência, para compreender a importância da chance, e, depois, coragem para agir. A urgência deste assunto é para ontem.
segunda-feira, 1 de agosto de 2022
Boaventura de Sousa Santos sobre as transições opostas do século 21
Ambas ocorrem simultaneamente. A democracia cede a “novas” ditaduras. Mas em vez da ideia positivista de “progresso” surge a de justiça social e ambiental. Só uma destas transformações perdurará. Quem quer a segunda precisa frear a primeira

Ao longo dos últimos cem anos falou-se muito de transições entre tipos de sociedade e entre civilizações, e construíram-se muitas teorias da transição. Segundo o antropólogo francês Maurice Godelier, a transição é a fase particular de uma sociedade que encontra cada vez mais dificuldades em reproduzir o sistema econômico e social sobre o qual se funda e começa a reorganizar-se sobre a base de outro sistema que se transforma na forma geral das novas condições de existência. As transições mais estudadas nas ciências sociais foram as seguintes: da idade medieval para a idade moderna, do feudalismo para o capitalismo, do capitalismo para o socialismo, da ditadura para a democracia. Nas últimas décadas, com o colapso da União Soviética, têm sido muito estudadas as transições do socialismo de tipo soviético para o capitalismo.
Os sinais dos tempos obrigam-nos a pensar em dois tipos de transição ainda pouco estudados: a transição da democracia para ditaduras de tipo novo; e a transição epocal do paradigma moderno da exploração sem limites dos recursos naturais (a natureza nos pertence) para um paradigma que promova a justiça social e ecológica, tanto entre os humanos como entre os humanos e a natureza (pertencemos à natureza). A primeira transição aponta para uma profunda crise da democracia, enquanto a segunda aponta para a crise profunda dos modelos de desenvolvimento econômico-social que têm dominado nos últimos cinco séculos. São transições de sinal contrário porque, se a primeira transição se consumar, é difícil imaginar que a segunda possa ocorrer. É bom ter isto presente, uma vez que, quem quiser que a segunda transição ocorra, tem de lutar para que a primeira não ocorra. Explicarei por quê.
A crise da democracia
O modelo de capitalismo que hoje domina é cada vez mais incompatível com a democracia, mesmo com a democracia de baixa intensidade em que vivemos, uma democracia centrada em democratizar as relações políticas e deixando que continuem a imperar os despotismos nas relações econômicas, sociais, raciais, etnoculturais e de gênero. Refiro-me à prioridade dos mercados sobre os Estados na regulação econômica e social; à transformação em mercadoria de tudo o que puder gerar lucro, incluindo o nosso corpo e a nossa mente, as nossas emoções e sentimentos, as nossas amizades e os nossos gostos; relações internacionais dominadas pelo capital financeiro e pelos super-ricos.
O crescimento global das forças de extrema direita é o mais visível sintoma da crise profunda da democracia. Mas há outros: a facilidade com que a guerra de informação impede o pensamento e excita as emoções que incitam ao conformismo ou à revolta contra os falsos agressores; a recorrente eleição de governantes medíocres incapazes de governar e de pensar estrategicamente; o contra-reformismo conservador dos tribunais e a impunidade dos poderosos; a criação artificial de um ambiente de crise permanente cujos custos são sempre suportados pelas classes sociais mais vulneráveis; é o comportamento dos partidos de extrema direita que quanto mais antidemocrático e violento mais lhes permite subir nas sondagens. Não se pode excluir a possibilidade de o agravamento da crise socioeconômica levar ao colapso das instituições democráticas. O que aconteceu no Sri Lanka no passado dia 9 de julho é um aviso perturbador: inconformados com a carestia de vida e o colapso da economia, a multidão invadiu o palácio presidencial e o presidente, incapaz de resolver os problemas do país, fugiu para o estrangeiro.
A desfiguração da democracia é cada vez mais patente. Tendo como original objetivo garantir o governo das maiorias para benefício das maiorias, a democracia está a ser convertida num governo de minorias para benefício das minorias. Se no início da invasão da Ucrânia se fizesse um inquérito à opinião pública europeia sobre a continuidade da guerra ou a imediata negociação da paz, estou certo que a resposta a favor da paz seria avassaladoramente majoritária. No entanto, aí está a continuidade da guerra com a sua incontestável e, até agora, única certeza: os grandes derrotados são o povo ucraniano e os restantes povos europeus. Nada disto vai ocorrer em vão. Será bom tomar nota desde já que foram os governos mais autoritários (Hungria, Turquia) e os partidos de extrema-direita os que menos entusiasmo mostraram pela vertigem bélica e antirrussa que os neoconservadores norte-americanos conseguiram impor na Europa através de uma guerra de informação sem precedentes. É assim que, em nome da democracia, se promove a autocracia.
As novas ditaduras que se vão anunciando no horizonte não proíbem a diversidade política partidária; eliminam antes a diversidade ideológica entre as diferenças partidárias. Não eliminam a liberdade; reduzem esta a um menu de liberdades autorizadas. Não hostilizam o exercício da cidadania; induzem os cidadãos a hostilizá-lo ou a ser-lhe indiferente. Não reduzem a informação; aumentam-na até à exaustão pela repetição sempre igual e sempre diferente do mesmo. Não eliminam a deliberação política; fazem com que ela seja tanto mais dramática quanto mais irrelevante for a deliberação, deixando para entidades não democráticas as “verdadeiras” decisões, sejam tais entidades Bilderberg, Google, Facebook, Twitter, BlackRock, Citigroup, deep state, etc.
A crise ecológica e o extrativismo
As regiões do mundo que mais intensamente sofrem com a crise ecológica são a África, algumas ilhas do Pacífico e alguns países do sul da Ásia (Bangladesh), mas onde ela tem sido mais vivamente discutida é na Europa e na América Latina. Perante a atual onda de calor e suas consequências, o Secretário-Geral da ONU declarou recentemente que a humanidade está perante uma escolha existencial: “ou ação coletiva ou suicídio coletivo”. Já em fins de maio de 2020, a temperatura ao norte do Círculo Polar Ártico chegou a 26ºC. Um pouco mais ao sul, na Sibéria – aquela região do mundo que se usa como referência de algo muito frio – as temperaturas atingiram 30°C. O gelo do Oceano Glacial Ártico conheceu em 2020 o maior declínio já registrado em apenas um mês.
Entretanto, está em construção um novo continente, o continente dos plásticos em pleno Oceano Pacífico, estendendo-se da Califórnia ao arquipélago do Havaí. Ao longo de muitos milhares de anos, os seres humanos têm-se concentrado nas regiões tropicais e temperadas da Terra. A manter-se o atual ritmo de aquecimento global, entre 1 e 3 bilhões de pessoas estarão nos próximos 50 anos fora do nicho climático onde se concentra atualmente a maioria da população mundial – a zona sul-oriental do continente asiático. Um dos países mais gravemente atingidos pelas cheias associadas às monções é Bangladesh, com cerca de um quarto do seu território inundado, uma situação que afeta mais de 4 milhões de pessoas.
A injustiça ambiental é hoje uma das mais sérias e talvez a menos discutida. O dióxido de carbono (CO2) responsável pelo aquecimento global permanece na atmosfera por muitos milhares de anos. Calcula-se que 40% do CO2 emitido pelos humanos desde 1850 continua na atmosfera. Assim, embora a China seja hoje o maior emissor de CO2, a verdade é que, se tomarmos como referência o período 1750-2019, a Europa é responsável por 32,6% das emissões, os EUA, 25,5%, a China, 13,7%, a África 2,8% e a América Latina, 2,6%. Torna-se cada vez mais evidente que a ação coletiva pedida por Antonio Guterres não pode deixar de ter em conta esta dimensão da injustiça histórica (quase sempre sobreposta à injustiça colonial).
Os modelos de desenvolvimento industrial em vigor desde o final do século XVIII assentam na exploração sem limites dos recursos naturais. As suas duas versões históricas – o capitalismo e o socialismo soviético (entre 1917 e 1991) – foram muito semelhantes na sua relação com a natureza. O produtivismo foi o outro lado do consumismo, e ambos assentaram no crescimento econômico infinito. A Europa recorreu ao colonialismo e ao neocolonialismo para se apropriar dos recursos naturais de que carecia e que abundavam em outras regiões do mundo. Nestas, as elites econômicas e os Estados encontraram na intermediação da exploração nos recursos naturais uma das principais fontes do seu poder econômico. Até hoje.
Na América Latina, este modelo econômico é atualmente designado por neoextrativismo para o distinguir do extrativismo que dominou durante o período do colonialismo histórico. Neste continente, está aberto o debate sobre a transição deste modelo de desenvolvimento para outro, ecologicamente sustentável, designado por bem viver, uma expressão trazida ao debate pelo movimento indígena. É ele que mais se tem distinguido na luta por uma outra concepção de natureza assente na ideia de que a natureza é a fonte de toda a vida, incluindo a vida humana, devendo, por isso, ser respeitada, sob pena de cometermos o “suicídio coletivo” de que fala Guterres. Uma das principais linhas de fratura no interior das forças políticas de esquerda é entre aqueles que querem manter o modelo neoextrativista para gerar recursos que melhorem as condições de vida da maioria da população empobrecida, e aqueles para quem este modelo não só destrói a já precária sobrevivência das populações das regiões onde são explorados os recursos, como também perpetua o poder das elites rentistas, agrava ainda mais a desigualdade social e produz o desastre ecológico.
Na Europa, o debate parece limitar-se às modalidades da transição energética. Não está no horizonte a alteração dos modelos consumo. É uma ecologia dos ricos que se satisfaz com carros elétricos, desde que cada família de classe média continue a ter dois carros, esquecendo, aliás, que as baterias dos carros elétricos usam recursos minerais não renováveis (lítio). Para a perspectiva dominante, é anátema diminuir o consumo não essencial ou propor uma economia de não-crescimento.
Referi acima que a crise da democracia e a crise ecológica estão ligadas. A guerra da Ucrânia, ao implicar o aprofundamento da crise da democracia, implica também o aprofundamento da crise ecológica. Basta ter presente como a crise da energia fóssil provocada pela guerra fez evaporar todos os bons propósitos da transição energética e das energias renováveis. O carvão regressou do exílio e o petróleo e a energia nuclear estão a ser reabilitados. Por que é que perpetuar a guerra é mais importante do que avançar na transição energética? Que maioria democrática decidiu nesse sentido?
quinta-feira, 3 de março de 2022
Painel do Clima adverte: o calor pelo descaso com o clima e meio ambiente pode sair de controle
Mesmo mantendo o aumento da temperatura em 1,5 °C, a degradação natural pode ser irreversível, adverte um dos mais mais preocupantes relatórios do IPCC. O aquecimento também tornará o mundo mais doente, avaliam os cientistas

O Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC) publicou no dia 28 passado o segundo volume da sua sexta avaliação do estado do planeta, que trata dos efeitos das transformações globais sobre as sociedades. O primeiro volume, em agosto, havia relatado as últimas evidências científicas sobre o assunto: elas são inequívocas, reafirma-se agora. “A mudança climática é uma ameaça ao bem-estar humano e à saúde planetária”.
Com mais de 3.500 páginas, o relatório detalha os efeitos concretos observados até hoje. Na América do Norte, por exemplo, as mudanças climáticas reduziram a produtividade agrícola em 12,5% desde 1961. Essas consequências estão em curso e podem se agravar dependendo do ritmo em que as medidas de retificação vierem a ser aplicadas. Uma das três conclusões cruciais do documento diz respeito à saúde, conforme observou a revista The Atlantic, citando o IPCC.
“As mudanças climáticas afetaram negativamente a saúde física das pessoas em todo o mundo e a saúde mental das pessoas nas regiões avaliadas”, escreve o relatório. Observa-se que aumentaram os riscos de dengue, uma doença viral transmitida por mosquitos. O aumento atingiu todos os continentes, exceto Antártida e Austrália. Também o vírus da Chikungunya ganhou espaço no mundo mais escaldante. A mesma preocupação vale para patógenos como o coronavírus – que se readaptam de animais para pessoas, conforme se alteram as condições ambientais.
Como as alterações se tornam mais frequentes, mais vírus poderão migrar para os humanos. A probabilidade da transmissão de doenças pela água aumentou em alguns pontos do planeta. Observa-se também crescimento no risco de algas tóxicas espalharem-se pelos oceanos e mares. O ar em muitas partes do mundo ficou mais sujo de partículas de poeira e de fumaça, piorando a saúde do coração e dos pulmões.
O aumento da temperatura da superfície terrestre, desde o período de referência em 1850-1900, foi da ordem de 1 °C – muita coisa, tendo em vista a imensa massa da Terra. E tudo indica que a elevação está se acelerando. Toda prudência é pouca, nesse cenário. Mas ela tem sido suficiente? Não, calculam cientistas. Em um estudo publicado recentemente na revista Nature, um grupo de pesquisadores levantou os vastos recursos gastos por governos para escapar da recessão.
Foram quantias sem precedentes e ampliadas no período da pandemia, observaram. Entre 2020 e 2021, o grupo do G20, das 20 maiores economias globais, despendeu pelo menos 14 trilhões de dólares – equivalente à produção econômica da China. Mas a ação climática recebeu menos do que devia – apenas 6% do total. Com certeza, seria preciso destinar a maior parte desse montante para reforçar os sistemas de saúde, salários e bem-estar geral da população, ponderam os cientistas. Mas tendo em conta a urgência apresentada pelas mudanças climáticas, os investimentos feitos em seus projetos deixaram muito a desejar.
FLÁVIO DIEGUEZ
quarta-feira, 10 de novembro de 2021
Georges Monbiot: A narrativa simplória de que a catástrofe climática pode ser revertida por ações individuais esconde o temor dos poderosos de que nos juntemos por uma ação política efetiva
Monbiot: “não acredite em poupar canudinhos”
Há um truque por trás da narrativa que reduz nossa ação contra a catástrofe climática a escolhas individuais de consumo. Significa desprezar a ação política, única força capaz de evitar o pior – e aquela que o poder econômico mais teme…

Por George Monbiot
Há um mito sobre os seres humanos que resiste, apesar de todas as provas em contrário. Ele diz que nós colocamos sempre a nossa sobrevivência em primeiro lugar. Isto é verdade para outras espécies. Quando confrontadas com uma ameaça iminente, como o inverno, elas investem grandes recursos para evitá-la ou resistir a elas: migrar ou hibernar, por exemplo. Os seres humanos são uma questão diferente.
Quando confrontados com uma ameaça iminente ou crônica, como o colapso climático ou ecológico, parece que saímos do nosso caminho para comprometer a nossa sobrevivência. Nós nos convencemos que não é tão grave, ou mesmo que não está acontecendo. Duplicamos na destruição, trocando nossos carros comuns por utilitários esportivos, voando para Oblivia em um vôo de longo curso, queimando tudo isso em um frenesi final. No fundo da nossa mente, há uma voz sussurrando: “Se fosse realmente tão sério, alguém nos impediria”. Se tratarmos destes assuntos, fazemo-lo de formas mesquinhas, simbólicas, cômicas e mal combinadas com a escala da nossa situação. É impossível discernir, na nossa resposta ao que sabemos, a primazia do nosso instinto de sobrevivência.
Eis o que nós sabemos. Sabemos que as nossas vidas dependem inteiramente de sistemas naturais complexos: a atmosfera, as correntes oceânicas, o solo, as teias de vida do planeta. As pessoas que estudam sistemas complexos descobriram que eles se comportam de forma consistente. Não importa se o sistema é uma rede bancária, um Estado-nação, uma floresta tropical ou uma plataforma de gelo antártico; seu comportamento segue certas regras matemáticas. Em condições normais, o sistema se regula a si mesmo, mantendo um estado de equilíbrio. Ele pode absorver estresse até um certo ponto. Mas então, de repente, ele vira. Ultrapassa um ponto de viragem, depois cai em um novo estado de equilíbrio, que muitas vezes é impossível reverter.
A civilização humana depende dos estados de equilíbrio atuais. Mas, em todo o mundo, sistemas cruciais parecem estar se aproximando dos seus pontos de ruptura. Se um sistema se quebrar, é provável que arraste outros consigo, provocando uma cascata de caos conhecida como colapso ambiental sistêmico. Isto é o que aconteceu durante as extinções em massa anteriores.
Aqui está uma das muitas maneiras em que isso poderia ocorrer. Uma faixa de savana, conhecida como cerrado, cobre o Brasil central. Sua vegetação depende da formação de orvalho, que depende, por sua vez, de árvores de raízes profundas que extraem as águas subterrâneas, liberando-as para o ar através de suas folhas. Mas, nos últimos anos, vastas extensões do cerrado foram desmatadas para a plantação de cultivos – principalmente soja para alimentar as galinhas e porcos do mundo. À medida que as árvores são cortadas, o ar torna-se mais seco. Isto significa que as plantas menores morrem, garantindo que ainda menos água circule. Em combinação com o aquecimento global, alertam alguns cientistas, este ciclo vicioso poderia – em breve e de repente – atirar todo o sistema para a desertificação.
O cerrado é a nascente de alguns dos grandes rios da América do Sul, incluindo aqueles que correm para o norte na bacia do Amazonas. Como menos água alimenta os rios, isso pode exacerbar o estresse que aflige as florestas tropicais. Elas estão sendo devastadas por uma combinação mortal de derrubada, queima e aquecimento, e já estão ameaçadas com um possível colapso sistêmico. Tanto o cerrado como a floresta tropical criam “rios no céu” – correntes de ar úmido – que distribuem a chuva pelo mundo e ajudam a impulsionar a circulação global: o movimento do ar e das correntes oceânicas.
A circulação global já parece vulnerável. Por exemplo, o meridional atlântico de inversão da circulação (AMOC), que fornece calor dos trópicos em direção aos polos, está sendo perturbada pelo derretimento do gelo ártico, e começou a enfraquecer. Sem ela, o Reino Unido teria um clima semelhante ao da Sibéria.
A AMOC tem dois estados de equilíbrio: ligado e desligado. Está ligada há quase 12.000 anos, após um devastador estado de mil anos fora chamado de Younger Dryas (12.900 a 11.700 anos atrás), que causou uma espiral global de mudanças ambientais. Tudo o que sabemos e amamos depende da permanência da AMOC no estado.
Independentemente do sistema complexo que está sendo estudado, há uma maneira de saber se ele está se aproximando de um ponto de viragem. As suas saídas começam a oscilar. Quanto mais perto o seu limiar crítico se aproxima, mais selvagens são as flutuações. O que vimos este ano é um grande tremeluzir global, à medida que os sistemas terrestres começam a quebrar. As cúpulas de calor sobre a costa ocidental da América do Norte; os enormes incêndios ali, na Sibéria e ao redor do Mediterrâneo; as inundações letais na Alemanha, Bélgica, China, Serra Leoa – estes são os sinais que, em código climático morse, soletram “ponto de ruptura”.
Você pode esperar que uma espécie inteligente responda a esses sinais rápida e conclusivamente, alterando radicalmente sua relação com o mundo vivo. Mas não é assim que nós funcionamos. A nossa grande inteligência, a nossa consciência altamente evoluída que em outros tempos nos levou tão longe, agora trabalha contra nós.
Uma análise do grupo de sustentabilidade da mídia Albert descobriu que “bolo” foi mencionado 10 vezes mais vezes do que “mudança climática” nos programas de TV do Reino Unido em 2020. O “ovo escocês” recebeu o dobro das menções de “biodiversidade”. O “pão de banana” bateu a “energia eólica” e a “energia solar” juntas.
Reconheço que os meios de comunicação social não são sociedade e que as estações de televisão têm interesse em promover o pão de banana e os circos. Poderíamos discutir até que ponto os meios de comunicação estão refletindo ou gerando mais apetite por bolo que preocupação com o clima. Mas suspeito que, de todas as formas pelas quais podemos medir nosso avanço na prevenção do colapso ambiental sistêmico, a relação entre o bolo e o clima é o índice decisivo.
A relação atual reflete um compromisso determinado com a irrelevância face a uma catástrofe global. Sintonize praticamente qualquer estação de rádio, a qualquer momento, e você pode ouvir a frenética distração operando. Enquanto ao redor do mundo os incêndios crepitam, as enchentes varrem os carros das ruas e as plantações secam, você ouve um debate sobre se é melhor sentar ou ficar de pé enquanto puxa suas meias, ou uma discussão sobre charcutaria para cães. Não estou inventando estes exemplos: tropecei neles enquanto passeava entre canais em dias de desastre climático. Se um asteroide se dirigisse para a Terra, e ligássemos o rádio, provavelmente ouviríamos: “Então o tema quente de hoje é – qual é a coisa mais engraçada que já te aconteceu enquanto comias um kebab?” É assim que o mundo acaba, não com um estrondo, mas com uma brincadeira.
Diante de crises em uma escala sem precedentes, nossas cabeças estão cheias de balbuciar insistentemente. A banalização da vida pública cria um loop: torna-se socialmente impossível falar de qualquer outra coisa. Não estou sugerindo que devemos discutir apenas a catástrofe iminente. Sou apenas contra os banimentos.
Não é só nos canais de música e entretenimento que prevalece esta irrelevância mortífera. A maioria das notícias políticas não passa de fofoca: quem está dentro, quem está fora, quem disse o quê a quem. Cuidadosamente evita-se o que está por baixo: o dinheiro negro, a corrupção, a mudança do poder para longe da esfera democrática, o colapso ambiental que faz um disparate das suas obsessões.
Tenho a certeza que não é deliberado. Acho que ninguém, perante a perspectiva de um colapso ambiental sistêmico, se está dizendo a si próprio: “Rápido, vamos mudar o assunto para charcutaria para cães.” Funciona a um nível mais profundo do que este. É um reflexo subconsciente que nos diz mais sobre nós mesmos do que as nossas ações conscientes. A conversa no rádio soa como os sinais distantes de uma estrela moribunda.
Há algumas espécies de libélulas cuja sobrevivência depende da quebra da película superficial da água de um rio. A fêmea a rompe – é uma proeza para uma criatura tão pequena e delicada – e depois nada pela coluna de água para pôr os seus ovos no leito do rio. Se ela não conseguir perfurar a superfície, ela não pode fechar o círculo da vida, e sua prole morre com ela.
Esta também é a história humana. Se não conseguirmos furar a superfície vítrea da distração, e nos envolvermos com o que está por baixo, não garantiremos a sobrevivência de nossos filhos ou, talvez, de nossa espécie. Mas parecemos incapazes ou relutantes em quebrar o filme da superfície. Eu penso neste estranho estado como a nossa “tensão superficial”. É a tensão entre o que sabemos sobre a crise que enfrentamos, e a frivolidade com a qual nos distanciamos dela.
A tensão superficial domina mesmo quando afirmamos estar lidando com a destruição dos nossos sistemas de suporte de vida. Concentramo-nos naquilo a que chamo de micro-bolhas consumistas (MCB): pequenas questões como colherinhas de plástico e copos de café, em vez das enormes forças estruturais que nos conduzem à catástrofe. Somos obcecados por sacos de plástico. Acreditamos que estamos fazendo um favor ao mundo ao rejeitar sacolas plásticas, embora, em uma estimativa, o impacto ambiental de produzir uma sacola de algodão orgânico seja equivalente ao de 20.000 sacolas plásticas.
Estamos justamente horrorizados com a imagem de um cavalo marinho com a cauda enrolada em torno de um cotonete, mas aparentemente despreocupados com a eliminação de ecossistemas marinhos inteiros pela indústria pesqueira. Nós abanamos a cabeça, e continuamos a comer nossa rota através da vida marinha.
Uma empresa chamada Soletair Power recebe ampla cobertura da mídia por sua alegação de estar “combatendo as mudanças climáticas” ao capturar o dióxido de carbono exalado por trabalhadores de escritório. Mas sua unidade sugadora de carbono – uma torre de aço e eletrônica ambientalmente cara – extrai apenas 1kg de dióxido de carbono a cada oito horas. A humanidade produz, principalmente através da queima de combustíveis fósseis, cerca de 32 bilhões de kg de CO2 no mesmo período.
Não acredito que o nosso foco em soluções microscópicas seja acidental, mesmo que seja inconsciente. Todos nós somos especialistas em realçar as coisas boas que fazemos para ofuscar as más. As pessoas ricas podem convencer-se de que se tornaram verdes porque reciclam, enquanto esquecem que têm uma segunda casa (sem dúvida a mais extravagante de todas as suas agressões ao mundo vivo, já que outra casa tem de ser construída para acomodar a família que deslocaram). E suspeito que, em algum recanto profundo e não iluminado da mente, nós nos asseguramos de que se nossas soluções são tão pequenas, o problema não pode ser tão grande.
Não estou dizendo que as coisas pequenas não importam. Estou sustentando que elas não devem importar, e excluir com isso as coisas que importam mais. Todas as pequenas coisas contam. Mas não muito.
O foco na MCB está alinhado com a agenda corporativa. O esforço deliberado para nos impedir de ver o panorama geral começou em 1953 com uma campanha chamada Keep America Beautiful (Mantenha os EUA bonitos). Foi fundado por fabricantes de embalagens, motivados pelos lucros que poderiam obter com a substituição de embalagens reutilizáveis por plástico descartável. Acima de tudo, eles queriam rejeitar as leis estaduais que obrigam a devolver e reutilizar as garrafas de vidro. Keep America Beautiful transferiu a culpa pelo tsunami do lixo plástico que os fabricantes causaram para os “bichos do lixo”, um termo que inventou.
A campanha “Love Where You Live”, lançada no Reino Unido em 2011 por Keep Britain Tidy, Imperial Tobacco, McDonald’s e o fabricante de doces Wrigley, pareceu-me desempenhar um papel semelhante. Tinha o bônus adicional – como se destacava fortemente nas salas de aula – de conceder a exposição do Imperial Tobacco às crianças em idade escolar.
O foco corporativo no lixo, ampliado pela mídia, distorce nossa visão sobre todas as questões ambientais. Por exemplo, um recente levantamento das crenças públicas sobre a poluição dos rios descobriu que “lixo e plástico” era de longe a maior causa nomeada pelas pessoas. Na realidade, a maior fonte de poluição da água é a agricultura, seguida pelo esgoto. O lixo está muito abaixo da lista. Não é que o plástico não seja importante. O problema é que é quase a única história que nos chega.
Em 2004, a empresa de publicidade Ogilvy & Mather, que trabalha para a gigante petrolífera BP, levou esta mudança de culpa um passo à frente ao inventar a pegada pessoal de carbono. Foi uma inovação útil, mas também teve o efeito de desviar a pressão política dos produtores de combustíveis fósseis para os consumidores. As companhias petrolíferas não pararam por aí. O exemplo mais extremo que vi foi um discurso do chefe executivo da companhia petrolífera Shell, Ben van Beurden, em 2019. Ele nos instruiu para “comer sazonalmente e reciclar mais”, e repreendeu publicamente seu motorista por comprar uma cestinha de morangos em janeiro.
A grande transição política dos últimos 50 anos, impulsionada pelo marketing corporativo, foi uma mudança da abordagem coletiva dos nossos problemas para a abordagem individual. Em outras palavras, ela nos transformou de cidadãos em consumidores. Não é difícil ver por que temos sido levados por este caminho. Como cidadãos, unidos para exigir mudanças políticas, somos poderosos. Como consumidores, somos quase impotentes.
Em seu livro Vida e Destino, Vasily Grossman observa que, quando Stalin e Hitler estavam no poder, “um dos traços humanos mais surpreendentes que veio à tona foi a obediência”. O instinto de obedecer, observou ele, era mais forte que o instinto de sobreviver. Agir sozinho, ver-nos como consumidores, fixar-se em MCB e em trivialidades de ilusão da mente, mesmo quando o colapso ambiental sistêmico se aproxima: estas são formas de obediência. Preferimos enfrentar a morte civilizacional do que o constrangimento social causado por suscitar assuntos incômodos, e os problemas políticos envolvidos na resistência a forças poderosas. O reflexo da obediência é a nossa maior falha, a dobra no cérebro humano que ameaça as nossas vidas.
O que vemos se quebrarmos a tensão superficial? A primeira coisa que encontrarmos, a aproximar-se das profundezas, deveria nos assustar. Chama-se crescimento. O crescimento econômico é universalmente aclamado como uma coisa boa. Os governos medem o seu sucesso na sua capacidade de obtê-lo. Mas pensem por um momento no que isso significa. Digamos que atingimos o modesto objetivo, promovido por organismos como o FMI e o Banco Mundial, de um crescimento global de 3% ao ano. Isso significa que toda a atividade econômica que você vê hoje – e a maioria dos impactos ambientais que ela causa – dobra em 24 anos; em outras palavras, até 2045. Depois, duplica novamente até 2069. Depois, de novo em 2093. É como a maldição Gemino em Harry Potter e nos Salões da Morte, que multiplica o tesouro no cofre Lestrange até ameaçar esmagar Harry e seus amigos até a morte. Todas as crises que procuramos evitar hoje tornam-se duas vezes mais difíceis de resolver do que a atividade econômica global duplica, depois duas vezes mais, e depois duas vezes mais.
Já chegamos ao fundo do poço? De modo algum. A maldição Gemino é apenas um resultado de uma coisa que quase não ousamos mencionar. Assim como já foi blasfemo usar o nome de Deus, até a palavra aparece, na sociedade educada, para ser tabu: capitalismo.
A maioria das pessoas luta para definir o sistema que domina as nossas vidas. Mas se você pressioná-los, é provável que murmurem algo sobre trabalho duro e empreendedorismo, comprar e vender. É assim que os beneficiários do sistema querem que ele seja entendido. Na realidade, as grandes fortunas acumuladas sob o capitalismo não são obtidas desta forma, mas através da pilhagem, do monopólio e do roubo de rendas, seguidos da herança.
Uma estimativa sugere que, ao longo de 200 anos, os britânicos extraíram da Índia, a preços correntes, 45 trilões de dólares. Eles usaram esse dinheiro para financiar a industrialização interna e a colonização de outras nações, cuja riqueza foi então pilhada também.
O saque ocorre não só através da geografia, mas também através do tempo. A aparente saúde das nossas economias de hoje depende da captura das riquezas naturais das gerações futuras. É isso que as empresas petrolíferas, ao tentar nos distrair com MCB e pegadas de carbono, estão fazendo. Esse roubo do futuro é o motor do crescimento econômico. O capitalismo, que soa tão razoável quando explicado por um economista convencional, não é, em termos ecológicos, nada mais que um esquema em pirâmide.
Dificilmente importa o quão verde você pensa que é. A principal causa do seu impacto ambiental não é a sua atitude. Não é o seu modo de consumo. Não são as escolhas que você faz. É o seu dinheiro. Se você tem dinheiro excedente, você o gasta. Embora tente se convencer de que é um mega-consumidor verde, na realidade você é apenas um mega-consumidor. É por isso que os impactos ambientais dos muito ricos, por mais corretos que sejam, são maciçamente maiores do que os de todos os outros.
A prevenção de mais de 1,5C de aquecimento global significa que a nossa média de emissões não deve ser superior a duas toneladas de dióxido de carbono por pessoa por ano. Mas o 1% mais rico do mundo produz uma média de mais de 70 toneladas. Bill Gates, de acordo com uma estimativa, emite quase 7.500 toneladas de CO2, na sua maioria provenientes do voo em seus jatos particulares. Roman Abramovich, os mesmos números sugerem, produz quase 34.000 toneladas, em grande parte através do seu gigantesco iate.
As múltiplas casas que as pessoas ultrarricas possuem podem estar equipadas com painéis solares, seus supercarros podem ser elétricos, seus aviões particulares podem funcionar com bioquerosene, mas esses ajustes fazem pouca diferença para o impacto geral de seu consumo. Em alguns casos, eles o aumentam. A mudança para biocombustíveis, favorecida por Bill Gates, está agora entre as maiores causas de destruição do habitat, pois as florestas são derrubadas para produzir pellets de madeira e combustíveis líquidos, e os solos são destruídos para produzir biometano.
Mas mais importante do que os impactos diretos dos super ricos é o poder político e cultural com o qual eles bloqueiam mudanças efetivas. O seu poder cultural depende de um conto de fadas hipnotizante. O capitalismo nos convence de que somos todos temporariamente milionários envergonhados. É por isso que toleramos isso. Na realidade, algumas pessoas são extremamente ricas porque outras são extremamente pobres: a riqueza maciça depende da exploração. E se todos nós nos tornássemos milionários, cozinharíamos o planeta em pouco tempo. Mas o conto de fadas da riqueza universal, um dia, assegura a nossa obediência.
A difícil verdade é que, para evitar uma catástrofe climática e ecológica, precisamos de nos nivelar por baixo. Temos de perseguir o que a filósofa belga Ingrid Robeyns chama de limitarianismo. Assim como existe uma linha de pobreza abaixo da qual ninguém deve cair, existe uma linha de riqueza acima da qual ninguém deve subir. O que precisamos não são de impostos de carbono, mas sim de impostos sobre a riqueza. Não nos deve surpreender que a ExxonMobil favoreça um imposto sobre o carbono. É uma forma de MCB. Trata apenas de um aspecto da crise ambiental, enquanto transfere a responsabilidade dos principais culpados para todos. Pode ser altamente regressiva, o que significa que os pobres pagam mais do que os ricos.
Mas os impostos sobre a riqueza atacam o cerne da questão. Eles devem ser suficientemente altos para quebrar a espiral de acumulação e redistribuir as riquezas acumuladas por poucos. Eles poderiam ser usados para nos colocar em um caminho totalmente diferente, que eu chamo de “frugalidade privada, luxo público“. Enquanto não há espaço ecológico ou mesmo físico suficiente na Terra para que todos possam desfrutar do luxo privado, há o suficiente para proporcionar a todos o luxo público: parques magníficos, hospitais, piscinas, galerias de arte, quadras de tênis e sistemas de transporte, playgrounds e centros comunitários. Cada um de nós deve ter os seus próprios pequenos domínios – frugualidade privada – mas quando queremos abrir as nossas asas, podemos fazê-lo sem confiscar recursos de outras pessoas.
Ao consentirmos na destruição contínua dos nossos sistemas de suporte de vida, acomodamos os desejos das corporações ultra-ricas e poderosas que elas controlam. Permanecendo presos no filme de superfície, absorvidos em frivolidade e MCB, concedemos-lhes uma licença social para operar.
Só resistiremos se deixarmos de consentir. Os defensores da democracia do século XIX sabiam disso. As sufragistas sabiam disso, Gandhi sabia disso, Martin Luther King sabia disso. Os manifestantes ambientais que exigem mudanças sistêmicas também compreenderam essa verdade fundamental. Nas sextas-feiras para o futuro, o surgimento do Green New Deal, a Extinction Rebellion e as outras revoltas globais contra o colapso ambiental sistêmico, vemos pessoas, na sua maioria jovens, que se recusam a consentir. O que elas entendem é a lição mais importante da história. A nossa sobrevivência depende da desobediência.
