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terça-feira, 29 de maio de 2018

Manifesto de acadêmicos e intelectuais internacionais, incluindo nomes como Boaventura de Sousa Santos, Noam Chomsky, Slavoj Zizek e Thomas Piketty, entre outros, pedem a urgente liberdade de Lula




Trezentos acadêmicos e intelectuais acabam de lançar um manifesto intitulado "Lula da Silva é um prisioneiro político. Lula Livre!"; o documento declara que a comunidade internacional deve pedir sua imediata libertação. O manifesto é assinado por juristas, intelectuais e acadêmicos de grande peso, como  Tariq Ali, Noam Chomsky, Angela Davis, Leonardo Padura, Thomas Piketty, Boaventura de Sousa Santos e Slavoj Žižek.

247 - Trezentos acadêmicos e intelectuais acabam de lançar um manifesto intitulado "Lula da Silva é um prisioneiro político. Lula Livre!", denunciando a prisão do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. A petição discute em detalhe a natureza arbitrária do processo conduzido pelo juiz federal Sérgio Moro contra Lula, afirmando que ele é nada menos do que um prisioneiro político. O documento declara que a comunidade internacional deve trata-lo como tal e demanda sua imediata libertação. O manifesto é assinado por juristas, intelectuais e acadêmicos de grande peso, como  Tariq Ali, Noam Chomsky, Angela Davis, Leonardo Padura, Thomas Piketty, Boaventura de Sousa Santos, Slavoj Žižek, Karl Klare e Friedrich Müller.
O manifesto é apoiado por acadêmicos e intelectuais de todo o mundo, mas principalmente dos EUA e da Europa. Ele será traduzido para outras línguas e está aberto para apoio acadêmico adicional no site https://chn.ge/2kpoxzi.
A petição declara que "os abusos do poder judiciário contra Lula da Silva configuram uma perseguição política mal disfarçada sob manto legal. Lula da Silva é um preso político. Sua detenção mancha a democracia brasileira. Os defensores da democracia e da justiça social no Oriente e no Ocidente, no Norte e no Sul do globo, devem se unir a um movimento mundial para exigir a libertação de Lula da Silva."
O manifesto é endossado por juristas mundialmente famosos, tais como Karl Klare, Friedrich Müller, António José Avelãs Nunes e Jonathan Simon. Eminentes pesquisadores do poder e da perseguição judicial (Lawfare), como John Comaroff, Eve Darian-Smith, Tamar Herzog e Elizabeth Mertz, também são apoiadores.
Adicionalmente, a petição é subscrita por intelectuais de renome global como Tariq Ali, Robert Brenner, Wendy Brown, Noam Chomsky, Angela Davis, Axel Honneth, Fredric R. Jameson, Leonardo Padura, Carole Pateman, Thomas Piketty, Boaventura de Sousa Santos e Slavoj Žižek.
Sociólogos proeminentes como Fred Block, Mark Blyth, Michael Burawoy, Peter Evans, Neil Fligstein, Marion Fourcade, Frances Fox Piven, Michael Heinrich, Michael Löwy, Laura Nader, Erik Olin Wright, Dylan Riley, Ananya Roy, Wolfgang Streeck, Göran Therborn, Michael J. Watts e Suzi Weissman também assinaram o manifesto.
O documento é apoiado por especialistas reconhecidos e diretores de centros de pesquisa em Estudos Latino-Americanos como Alex Borucki, Aviva Chomsky, Brodwyn Fischer, Barbara Fritz, James N. Green, Victoria Langland, Mara Loveman, Carlos Marichal, Teresa A. Meade, Tianna Paschel, Erika Robb Larkins, Aaron Schneider, Stanley J. Stein e Barbara Weinstein.

Ademais, é endossado por economistas globalmente reconhecidos como Dean Baker, Ha-Joon Chang, Giovanni Dosi, Gérard Duménil, Gary Dymski, Geoffrey Hodgson, Costas Lapavitsas, Marc Lavoie, Thomas Palley, Robert Pollin, Pierre Salama, Guy Standing, Robert H. Wade e Mark Weisbrot.

domingo, 28 de janeiro de 2018

Mensagem do jurista e sociólogo Boaventura Souza Santos aos democratas brasileiros


   "Para alguém, como eu e tantos outros que nas últimas décadas se dedicaram a estudar o sistema judicial brasileiro e a promover uma cultura de independência democrática e de responsabilidade social entre os magistrados e os jovens estudantes de direito, este é um momento de grande frustração. Para alguém, como eu e tantos outros que estiveram atentos aos objectivos das forças reacionárias brasileiras e do imperialismo norte-americano no sentido de voltarem a controlar os destinos do país, como sempre fizeram mas pensaram que desta vez as forças populares e democratas tinham prevalecido sobre eles, este é um momento de algum desalento. As emoções fortes são preciosas se forem parte da razão quente que nos impele a continuar, se a indignação, longe de nos fazer desistir, reforçar o inconformismo e municiar a resistência, se a raiva ante sonhos injustamente destroçados não liquidar a vontade de sonhar." - Boaventura Souza Santos, Jurista e sociólogo português



do Público (republicado pelo GGN)
por Boaventura Sousa Santos
A democracia brasileira está em perigo, e só as forças políticas de esquerda e de centro-esquerda a podem salvar.
Dirijo-me aos democratas brasileiros porque só eles podem estar interessados no teor desta mensagem. Vivemos um tempo de emoções fortes. Para alguém, como eu e tantos outros que nestes anos acompanhamos as lutas e iniciativas de todos os brasileiros no sentido de consolidar e aprofundar a democracia brasileira e contribuir para uma sociedade mais justa e menos racista e menos preconceituosa, este não é um momento de júbilo. Para alguém, como eu e tantos outros que nas últimas décadas se dedicaram a estudar o sistema judicial brasileiro e a promover uma cultura de independência democrática e de responsabilidade social entre os magistrados e os jovens estudantes de direito, este é um momento de grande frustração. Para alguém, como eu e tantos outros que estiveram atentos aos objectivos das forças reacionárias brasileiras e do imperialismo norte-americano no sentido de voltarem a controlar os destinos do país, como sempre fizeram mas pensaram que desta vez as forças populares e democratas tinham prevalecido sobre eles, este é um momento de algum desalento. As emoções fortes são preciosas se forem parte da razão quente que nos impele a continuar, se a indignação, longe de nos fazer desistir, reforçar o inconformismo e municiar a resistência, se a raiva ante sonhos injustamente destroçados não liquidar a vontade de sonhar. É com estes pressupostos que me dirijo a vós. Uma palavra de análise e outra de princípios da ação. 
Porque estamos aqui? Este não é o lugar nem o momento para analisar os últimos 15 anos da história do Brasil. Concentro-me nos últimos tempos. A grande maioria dos brasileiros saudou o surgimento da operação Lava-Jato como um instrumento que contribuiria para fortalecer a democracia brasileira pela via da luta contra a corrupção. No entanto, em face das chocantes irregularidades processuais e da grosseira seletividade das investigações, cedo nos demos conta de que não se tratava disso mas antes de liquidar, pela via judicial, não só as conquistas sociais da última década como também as forças políticas que as tornaram possíveis. Acontece que as classes dominantes perdem frequentemente em lucidez o que ganham em arrogância. A destituição de Dilma Rousseff, a Presidente que foi talvez o Presidente mais honesto da história do Brasil, foi o sinal que a arrogância era o outro lado da quase desesperada impaciência em liquidar o passado recente. Foi tudo tão grotescamente óbvio que os brasileiros conseguiram afastar momentaneamente a cortina de fumo do monopólio mediático. O sinal mais visível da sua reação foi o modo como se entusiasmaram com a campanha pelo direito do ex-Presidente Lula da Silva a ser candidato às eleições de 2018, um entusiasmo que contagiou mesmo aqueles que não votariam nele, caso ele fosse candidato. Tratou-se pois de um exercício de democracia de alta intensidade.
Temos, no entanto, de convir que, da perspectiva das forças conservadoras e do imperialismo norte-americano, a vitória deste movimento popular era algo inaceitável. Dada a popularidade de Lula da Silva, era bem possível que ganhasse as eleições, caso fosse candidato. Isso significaria que o processo de contra-reforma que tinha sido iniciado com a destituição de Dilma Rousseff e a condução política da Lava-Jato tinha sido em vão. Todo o investimento político, financeiro e mediático teria sido desperdiçado, todos os ganhos econômicos já obtidos postos em perigo ou perdidos. Do ponto de vista destas forças, Lula da Silva não poderia voltar ao poder. Se o Judiciário não tivesse cumprido a sua função, talvez Lula da Silva viesse a ser vítima de um acidente de aviação, ou algo semelhante. Mas o investimento imperial no Judiciário (muito maior do que se pode imaginar) permitiu que não se chegasse a tais extremos.
Que fazer? A democracia brasileira está em perigo, e só as forças políticas de esquerda e de centro-esquerda a podem salvar. Para muitos, talvez seja triste constatar que neste momento não é possível confiar nas forças de direita para colaborar na defesa da democracia. Mas esta é a verdade. Não excluo que haja grupos de direita que apenas se revejam nos modos democráticos de lutar pelo poder. Apesar disso, não estão dispostos a colaborar genuinamente com as forças de esquerda. Porquê? Porque se vêem como parte de uma elite que sempre governou o país e que ainda não se curou da ferida caótica que os governos lulistas lhe infligiram, uma ferida profunda que advêm do fato de um grupo social estranho à elite ter ousado governar o país, e ainda por cima ter cometido o grave erro (e foi realmente grave) de querer governar como se fosse elite.
Neste momento, a sobrevivência da democracia brasileira está nas mãos da esquerda e do centro-esquerda. Só podem ter êxito nesta exigente tarefa se se unirem. São diversas as forças de esquerda e a diversidade deve ser saudada. Acresce que uma delas, o PT, sofre do desgaste da governação, um desgaste que foi omitido durante a campanha pelo direito de Lula a ser candidato. Mas à medida que entrarmos no período pós-Lula (por mais que custe a muitos), o desgaste cobrará o seu preço e a melhor forma de o estabelecer democraticamente é através de um regresso às bases e de uma discussão interna que leve a mudanças de fundo. Continuar a evitar essa discussão sob o pretexto do apoio unitário a um outro candidato é um convite ao desastre. O patrimônio simbólico e histórico de Lula saiu intacto das mãos dos justiceiros de Curitiba & Co. É um património a preservar para o futuro. Seria um erro desperdiçá-lo, instrumentalizando-o para indicar novos candidatos. Uma coisa é o candidato Lula, outra, muito diferente, são os candidatos de Lula. Lula equivocou-se muitas vezes, e as nomeações para o Supremo Tribunal Federal aí estão a mostrá-lo.
A unidade das forças de esquerda deve ser pragmática, mas feita com princípios e compromissos detalhados. Pragmática, porque o que está em causa é algo básico: a sobrevivência da democracia. Mas com princípios e compromissos, pois o tempo dos cheques em branco causou muito mal ao país em todos estes anos. Sei que, para algumas forças, a política de classe deve ser privilegiada, enquanto para outras, as políticas de inclusão devem ser mais amplas e diversas. A verdade é que a sociedade brasileira é uma sociedade capitalista, racista e sexista. E é extremamente desigual e violenta. Entre 2012 e 2016 foram assassinadas mais pessoas no Brasil do que na Síria (279.000/256.000), apesar de este último país estar em guerra e o Brasil estar em “paz”. A esquerda que pensar que só existe política de classe está equivocada, a que pensar que não há política de classe está desarmada.

domingo, 20 de março de 2016

Estudantes brasileiros, com o apoio do reconhecido sociólogo português Boaventura Sousa Santos, fazem ato contra o Golpe em Coimbra

Estudantes brasileiros fazem ato na Universidade de Coimbra
Alexandre Neubauer
Em defesa do Estado Democrático de Direito, alunos brasileiros da Universidade de Coimbra, em Portugal, organizaram, nessa sexta-feira, um ato solidário ao Brasil com o apoio do jurista e sociólogo português Boaventura de Sousa Santos, além da presença de estudantes de diversas nacionalidades.
Boaventura discursou sobre a sua tese da Epistemologia do Sul e o poder imperialista que os Estados Unidos exercem na América Latina. Após se solidarizar com os brasileiros, o sociólogo relacionou a atual conjuntura política do Brasil com a tentativa de golpe institucionalizada pelas oligarquias locais.
Fonte: Jornal GGN

quarta-feira, 16 de março de 2016

Carta Internacional de Apoio ao ex-Presidente Lula contra o massacre fascista e midiático de sua reputação (apoio de Leonardo Boff, Boaventura de Sousa Santos, Ignacio Ramonet e outros signatários)



Lula, quer gostemos ou não, se tornou um ícone de um político que pensou nos pobres do mundo, primeiro do Brasil e depois da África. No interior da macroeconomia capitalista imposta ao mundo todo conseguiu cavar espaços ou abrir cunhas que permitissem a inclusão de toda uma Argentina na cidadania, tirando-os daquilo que Gandhi chamava de “a forma mais aviltante e assassina que existe que é a fome”. E ainda inaugurou políticas sociais que resgataram a dignidade dos ofendidos e humulhados. Esse dado de puro humanitarismo granjeou-lhe o reconecimento internacional. Esta lista de notáveis do mundo inteiro reconhece esse fato e ao mesmo mostra a estreanheza e até a indignação de grupos que vem da velha ordem, filhos da Casa Grande e seus aliados, que não visam a discutir politicamente projetos,  ideias e visões generosas do mundo, mas destruir a liderança de Lula e destrui-lo como pessoa no intento de voltar ao poder central que nunca se importou com a sorte de milhões de cidadãos relegados à marginalidade, à pobreza e à morte prematura. São inimigos da vida, da justiça sicietária e do povo. Mas  a história não tolera para sempre uma sociedade montade sobre a  insensibilidade, a falta de humanidade e de coração. Ela possui, como pensavam os filósofos gregos, o seu “logos”interno, o sentido sagrado das coisas que mais cedo ou mais tarde acabará por impor-se e condenar à irrisão os seus negadores. É o que esperamos e estamos seguros de que  história não nos defraudará. Lula pertence a esse lado luminoso da realidade, reconhecido pelos notáveis do mundo e que susbcrevem esta carta de apoio. Leonardo Boff

                  Lettera aperta in solidarietà a Luiz Inácio Lula da Silva

Noi firmatari manifestiamo la nosta piena solidarietà all’ex presidente del Brasile Luiz Inácio Lula da Silva, che è sottoposto ad un vero massacro contro la reputazione sua e della sua famiglia; i sui diritti sono calpestati da parte di settori del Sistema Giudizario brasiliano.
Questa caccia è culminata, venerdì 4 marzo 2016, nell’arresto politico e mediatico, con accomagnamento coatto per deporre, di una persona che mai si sottrasse nel rispondere alla Giustizia e la quale non era stata previamente convocata né intimata.

L’arbitrio è sttao addiritura criticato da un coponente della Suprema Corte Brasiliana, il Ministro Marco Aurélio Mello, da giuristi brasiliani di fama internazionale, come Fábio Konder Comparato e Celso Bandeira de Melo, da José Gregori, dall’ex ministro della Gistizia del Governo Fernando Henrique Cardoso e da Giudici membri della Associazione di Giudici per la Democrazia del Brasile, che in Nota Ufficiale hanno affermato:

“Non si combatte la corruzione corrompendo la Costituzione”.

Tutta l’operazione ha beneficiato dell’accompagnamento privilegiato da parte dei mass media conservatori, informati con antecedenza della tempistica della cattura del principale leader popolare brasiliano.

Uno dei più diffuso quotidiani del paese, ‘Folha de São Paulo’, ha esplicitamente informato di essere giunta all’edificio in cui risiede l’ex presidente alle ore 5,15 del mattino di venerdì.

La Polizia Federale è giunta sul luogo alle h. 5,40.
Luiz Inácio Lula da Silva è uno dei più significativi leader mondiali, e durante la sua amministrazione ha contribuito a porre una pietra miliare contro la fame e la miseria; da esse, durante i suoi due mandati conseutivi, 40 milioni di brasiliani sono stati liberati.

I programmi sociali che hanno consentito questo risultato sono stati citati a esempio dall’ Onu e dalla Fao e adottati in diversi paesi.
L’accerchiamento attorno all’ex presidente Luiz Inácio Lula da Silva si integra in un movimento più generale osservabile in questo momento in tutta l’America Latina.

Il lungo procrastinarsi della crisi mondiale ha inasprito la disputa per il profitto in economie colpite duramente dalla contrazione del commercio estero.
Il leader brasiliano disturba in quanto simbolo di una agenda oggi contestata dalle élites mondiale come non funzionale agli interessi dei mercati: lo sviluppo, associato alla universalizzazione dei diritti sociali e alla democratizzazione dei processi decisionali di Stato.
Referenze storiche come Lula sono un patrimonio inestimabile dell’umanità.
Chiediamo alle autorità brasiliane un impegno maggiore per fare cessare la persecuzione che colpisce al momento l’ex presidente inieme alla sua famiglia e ai suoi collaboratori e per porre fine alle violazioni dei diritti, che lo colpiscono.
Seguono le firme:
Alba Carosio (Universidade Central da Venezuela)
Angel Quintero Rivera (Universidad de Puerto Rico)
Aníbal Quijano (Sociólogo, Peru)
Arturo Escobar (Universidade da Carolina do Norte, EUA)
Atilio Borón (sociólogo argentino)
Baltazar Garzón (Juiz aposentado, Espanha)
Boaventura de Sousa Santos (Universidade de Coimbra, Portugal)
Carmen Beramendi (Diretora da FLACSO, Uruguai)
Daniel Filmus (Ex-ministro da Educação, Argentina)
Domênico Losurdo (Filósofo italiano)
Eduardo A. Rueda (Professor da Pontificia Universidad Javeriana, Colômbia)
Eduardo Rinesi (Ex-reitor da Universidade de General Sarmiento, Argentina)
Fernanda Saforcada (Diretora Académica do Clacso, Argentina).
Fernando Mayorga (Universidad Mayor de San Simón, Bolivia)
Florencia Saintout, (Universidade Nacional de La Plata, Argentina)
Gabriela Diker (Reitora da Universidad de General Sarmiento, Argentina)
Gerardo Caetano (Universidad de la República, Uruguai)
Horacio A. López. (Subdiretor Centro Cultural de la Cooperación, Argentina.)
Ignacio Ramonet (Jornalista, França)
Jorge Beinstein (Economista, Argentina)
Juan Carlos Monedero (Universidade Complutense, Espanha)
Julian Rebon (Membro do Comitê Diretivo do Clacso, Argentina)
Leonardo Padura (Escritor Cubano)
Leticia Salomón (Universidad Nacional Autónoma de Honduras)
Luciano Concheiro (Universidad Autónoma de México)
Mario Burkun (Economista, Argentina)
Nicolás Trotta (Reitor da UMET, Argentina)
Pablo Gentili (CLACSO, Argentina)
Pablo González Casanova (Universidad Nacional Autónoma do México)
Partito della Rifondazione Comunista (Partido italiano)
Raúl Zaffaroni (Ex-juiz da Suprema Corte de Justiça, Argentina)
Rita Segato (Intelectual feminista, Argentina)
Suzy Castor (CRESFET, Haití)

domingo, 4 de janeiro de 2015

Boaventura de Sousa Santos reflete sobre os preparativos do capitalismo para uma insana Terceira Guerra Mundial


A Terceira Guerra Mundia?


Boaventura de Sousa Santos

Tudo leva a crer que está em preparação a terceira guerra mundial, se entendermos por “mundial” uma guerra que tem o seu teatro principal de operações na Europa e se repercute em diferentes partes do mundo. É uma guerra provocada unilateralmente pelos EUA com a cumplicidade ativa da Europa. O seu alvo principal é a Rússia e, indiretamente, a China. O pretexto é a Ucrânia. 

Num raro momento de consenso entre os dois partidos, o Congresso dos EUA aprovou no passado dia 4 de dezembro a Resolução 758 que autoriza o Presidente a adotar medidas mais agressivas de sanções e de isolamento da Rússia, a fornecer armas e outras ajudas ao governo da Ucrânia e a fortalecer a presença militar dos EUA nos países vizinhos da Rússia. A escalada da provocação à Rússia tem vários componentes que, no conjunto, constituem a segunda guerra fria. Nesta, ao contrário da primeira, a Europa é um participante ativo, ainda que subordinado aos EUA, e assume-se agora a possibilidade de guerra total e, portanto, de guerra nuclear. Várias agências de segurança fazem planos já para o Day After de um confronto nuclear.

Os componentes da provocação ocidental são três: sanções para debilitar a Rússia; instalação de um governo satélite em Kiev; guerra de propaganda. As sanções são conhecidas, sendo a mais insidiosa a redução do preço do petróleo, que afeta de modo decisivo as exportações de petróleo da Rússia, uma das mais importantes fontes de financiamento do país. O orçamento da Rússia para o próximo ano  foi elaborado com base no preço do petróleo à razão de 100 dólares por barril. A redução do preço combinada com as outras sanções e a desvalorização do rublo agravarão perigosamente o déficit orçamental. Esta redução trará o benefício adicional de criar sérias dificuldades a outros países considerados hostis (Venezuela, Irã e Equador). A redução é possível graças ao pacto celebrado entre os EUA e a Arábia Saudita, nos termos do qual os EUA protegem a família real (odiada na região) em troca da manutenção da economia dos petrodólares (transações mundiais de petróleo denominadas em dólares), sem os quais o dólar colapsa enquanto reserva internacional e, com ele, a economia dos EUA, o país com a maior e mais obviamente impagável dívida do mundo.

O segundo componente é o controle total do governo da Ucrânia de modo a transformar este país num estado satélite. O respeitado jornalista Robert Parry (que denunciou o escândalo do Irã-contra) informa que a nova ministra das finanças da Ucrânia, Natalie Jaresko, é uma ex-funcionária do Departamento de Estado, cidadã dos EUA, que obteve cidadania ucraniana dias antes de assumir o cargo. Foi até agora presidente de várias empresas financiadas pelo governo norte-americano e criadas para atuar na Ucrânia. Agora compreende-se melhor a explosão, em fevereiro passado, da secretária de estado norte-americana para os assuntos europeus, Victoria Nulland: “Fuck the EU”. O que ela quis dizer foi: “Raios! A Ucrânia é nossa. Pagamos para isso”.

O terceiro componente é a guerra de propaganda. Os grandes media e seus jornalistas estão a ser pressionados para difundirem tudo o que legitime a provocação ocidental e ocultarem tudo o que a questione. Os mesmos jornalistas que, depois dos briefings nas embaixadas dos EUA e em Washington, encheram as páginas dos seus jornais com a mentira das armas de destruição massiva de Saddam Hussein, estão agora a enchê-las com a mentira da agressão da Rússia contra a Ucrânia. Peço aos leitores que imaginem o escândalo mediático que ocorreria se se soubesse que o Presidente da Síria acabara de nomear um ministro iraniano a quem dias antes concedera a nacionalidade síria. Ou que comparem o modo como foram noticiados e analisados os protestos em Kiev em fevereiro passado e os protestos em Hong Kong das últimas semanas. Ou ainda que avaliem o relevo dado à declaração de Henri Kissinger de que é uma temeridade estar a provocar a Rússia. 

Outro grande jornalista, John Pilger, dizia recentemente que, se os jornalistas tivessem resistido à guerra de propaganda, talvez se tivesse evitado a guerra do Iraque em que morreram até ao fim da semana passada 1.455.590 iraquianos e 4801 soldados norte-americanos. Quantos ucranianos morrerão na guerra que está a ser preparada? E quantos não-ucranianos?

Estamos em democracia quando 67% dos norte-americanos são contra a entrega de armas à Ucrânia e 98% dos seus representantes votam a favor? Estamos em democracia na Europa quando países da UE membros da NATO podem estar a ser conduzidos, à revelia dos cidadãos, a travar uma guerra contra a Rússia em benefício dos EUA, ou quando o parlamento europeu segue nas suas rotinas de conforto enquanto a Europa está a ser preparada para ser o próximo teatro de guerra, e a Ucrânia, a próxima Líbia?

As razões da insanidade 

 Para entender o que se está a passar é preciso ter em conta dois fatos: o declínio dos EUA enquanto país hegemônico; o negócio altamente lucrativo da guerra. O declínio do poder econômico-financeiro é cada vez mais evidente. Depois do 11 de Setembro de 2001, a CIA financiou um projeto chamado “projeto profecia” destinado a prever possíveis novos ataques aos EUA a partir de movimentos financeiros estranhos e de grande envergadura. Sob diferentes formas, esse projeto tem continuado, e um dos seus participantes prevê o próximo crash do sistema financeiro com base nos seguintes sinais: a Rússia e a China, os maiores credores dos EUA, têm vindo a vender os títulos do tesouro e em troca têm vindo a adquirir enormes quantidades de ouro; estranhamente, este títulos têm vindo a ser comprados em grandes quantidades por misteriosos investidores belgas e muito acima da capacidade deste pequeno país (especula-se se o próprio banco de reserva federal não estará envolvido nesta operação); aqueles dois países estão cada vez mais a usar as suas moedas e não os petrodólares nas transações de petróleo (todos se recordam que Saddam e Kadafi  procuraram usar o euro e o preço que pagaram pela ousadia); finalmente, o FMI (o cavalo de Troia) prepara-se para que o dólar deixe de ser nos próximos anos a moeda de reserva e seja substituída por uma moeda global, os SDR (special drawing rights).

Para os autores do projeto profecia, tudo isto indica que um ataque aos EUA está próximo e que para este se defender tem de manter os petrodólares a todo o custo, assegurando o acesso privilegiado ao petróleo e ao gás, tem de conter a China e tem de debilitar a Rússia, idealmente provocando a sua desintegração, tipo Jugoslávia. Curiosamente, os “especialistas” que veêm na venda da dívida uma atitude hostil por parte de potências agressoras são os mesmos que aconselham os investidores norte-americanos a procederem da mesma maneira, isto é, a desfazerem-se dos títulos, a comprar moedas de ouro e a investirem em bens sem os quais os humanos não podem viver: terra, água, alimentos, recursos naturais, energia.

Transformar os sinais óbvios de declínio em previsões de agressão visa justificar a guerra como defesa. Ora a guerra é altamente lucrativa devido à superioridade dos EUA na condução da guerra, no fornecimento de equipamentos e nos trabalhos de reconstrução. E a verdade é que, como escreveu Howard Zinn, os EUA têm estado permanentemente em guerra desde a sua fundação. Acresce que, ao contrário da Europa, a guerra nunca será travada em solo norte-americano, salvo, claro, o caso de guerra nuclear. Em 14 de Outubro de 2014, o New York Times divulgava o relatório da CIA sobre o fornecimento clandestino e ilegal de armas e financiamento de guerras nos últimos 67 anos em muitos países, entre eles, Cuba, Angola e Nicarágua. Esta notícia serviu para que Noam Chomsky dissesse em “The Laura Flanders Show” que aquele documento só podia ter o seguinte título: “Yes, we declare ourselves to be the world´s leading terrorist state. We are proud of it” (“Sim, declaramos que somos o maior estado terrorista do mundo e temos orgulho nisso”).

Um país em declínio tende a tornar-se caótico e errático na sua política internacional. Immanuel Wallerstein refere que os EUA se transformaram num canhão descontrolado (a loose canon), um poder cujas ações são imprevisíveis, incontroláveis e perigosas para ele próprio e para os outros. A consequência mais dramática é que esta irracionalidade se repercute e intensifica na política dos seus aliados. Ao deixar-se envolver na nova guerra fria, a Europa, não só atua contra os seus interesses econômicos, como perde a relativa autonomia que tinha construído no plano internacional depois de 1945. A Europa tem todo o interesse em continuar a intensificar as suas relações comerciais com a Rússia e em contar com esta como fornecedora de petróleo e gás. As sanções contra a Rússia podem a vir a afetar mais a Europa que a Rússia. Ao alinhar-se com o militarismo da OTAN onde os EUA têm total preponderância, a Europa põe a economia europeia ao serviço da política geoestratégica dos EUA, torna-se energeticamente mais dependente dos EUA e dos seus estados satélites, perde a oportunidade de se expandir com a entrada da Turquia na União Europeia. E o mais grave é que esta irracionalidade não é o mero resultado de um erro da avaliação dos interesses dos europeus. É muito provavelmente um ato de sabotagem por parte das elites neoconservadoras europeias no sentido de tornar a Europa mais dependente dos EUA, tanto no plano energético e econômico, como no plano militar.

Por isso, o aprofundamento do envolvimento na OTAN e o tratado de livre comércio entre a UE e os EUA (parceria transatlântica de investimento e comércio) são os dois lados da mesma moeda.  

Pode argumentar-se que a nova guerra fria, tal como a anterior, não conduzirá a um enfrentamento total. Mas não esqueçamos que a primeira guerra mundial foi considerada, quando começou, uma escaramuça que não duraria mais de uns meses. Durou quatro anos e custou entre 9 e 15 milhões de mortos.  

Fonte: Carta Maior

sábado, 18 de outubro de 2014

O sociólogo e cientista político português Boaventura Sousa Santos afirma que "Apoiar Dilma é um ato de celebração da Cultura"




"É imperioso reconhecer que nos último 12 anos o Brasil deu um salto qualitativo no aprofundamento e na diversificação das questões culturais"


Boaventura Sousa Santos

O texto a seguir, de Boaventura de Sousa Santos, foi extraído do site da revista Carta Maior:

  O melhor espelho de um país é a sua cultura porque é por via da cultura que somos o que somos. Por via da economia somos apenas o que temos e o que temos pode-nos ser retirado com alguma facilidade em tempos em que dominam os mercados globais e os seus patrões, os barões financeiros. 

 A cultura, uma vez cultivada, cola-se à pele do povo e muito dificilmente pode ser retirada. É também o melhor investimento no futuro do país, pois um país cioso da sua cultura e das suas culturas é um país capaz de afirmar a sua identidade e as suas aspirações num mundo interdependente. A cultura é ainda a melhor arma para o aprofundamento da democracia, pois cidadãos e cidadãs cultos são menos facilmente manipuláveis, tendem a ser politicamente mais ativos e o seu ativismo tende a ser mais esclarecido.

 Se tudo isto é verdade, é imperioso reconhecer que nos últimos 12 anos o Brasil deu um salto qualitativo no aprofundamento e na diversificação da cultura, permitindo novas manifestações e mesmo novas concepções de cultura, novos projetos culturais de novos agentes culturais, grupos sociais até agora silenciados ou marginalizados. Esse salto qualitativo tambem ocorreu no grau de exigência dos cidadãos em relação à classe política, uma transformação de que esta, em geral , não se deu conta.


  Olhando os factos, a transformaçaqo cultural do Brasil é extraordinaria durante os governos do PT. O orçamento da Cultura no governo federal saltou de R$ 287 milhões em 2003 para R$ 2,2 bilhões em 2010. E a grande ação implementada nos últimos 12 anos em termos de políticas tem nome: Cultura Viva, o programa, lançado em 2004 pelo então ministro Gilberto Gil, que estabelece e promove uma rede de pontos e "pontões" de cultura espalhados pelo país.

  A lógica da política cultural foi invertida: em vez de levar 'alta cultura' à população, o governo atual decidiu dar apoio às iniciativas culturais e populares já em curso, fortalecendo a diversidade sociocultural brasileira. Essa guinada buscou reconhecer e valorizar manifestações e 'identidades' culturais em seus 'territórios'. Por todo o lado que vou no Brasil deparo-me com a presença dessa transformação cultural.
  Ainda recentemente tive ocasião de participar nas atividades do Instituto Trocando Ideias, de Porto Alegre, no Rio Grande do Sul, que desenvolve um desses pontos de cultura . A comunidade indígena pataxó que visitei em Porto Seguro, na Bahia, também tem o seu ponto de cultura. O Cultura Viva ganhou tal projeção que se tornou política de Estado, assegurada por lei. Um outro grande feito do atual governo foi a aprovação e adoção do Marco Civil da Internet (http://culturadigital.br/marcocivil/), que estabelece princípios, garantias, direitos e deveres para o uso da Internet no Brasil. Trata-se de uma legislação inovadora no sentido da regulação de um setor sociocultural importantíssimo.

  A continuidade desta vibrante politica cultural pressupõe a vontade política do governo para a fazer prevalecer perante outras prioridades que sempre se manifestam e muitas vezes com mais poder de influência do que a dos que defendem uma politica cultural atuante, solidária, emancipadora. Não tenhamos ilusões: essa vontade está apenas consolidada e garantida na proposta do governo Dilma.

  Por isso a apoio.