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quinta-feira, 1 de maio de 2025

Papa Francisco, a mídia e a (falta de) Ética, por Dora Incontri

 


Escolho hoje para falar do trecho de entrevista, que está tanto no Youtube, quanto nas redes sociais, “Los quatro pecados del periodismo”.


Jornal GGN:


    screenshot


Papa Francisco, a mídia e a (falta de) Ética

por Dora Incontri

Correm na internet incontáveis textos, frases, entrevistas, sermões, manifestações do já saudoso Papa Francisco e que devem ressoar (assim esperamos) por muitos anos, para iluminar caminhos neste mundo tão cheio de sombras. Escolho hoje para falar do trecho de uma entrevista, que está tanto no Youtube, quanto nas redes sociais, “Los quatro pecados del periodismo”. No final deste texto, direi por que escolhi tratar este tema.

Quando me formei em Jornalismo, na Cásper Líbero, no início dos anos 80, já recusei de saída um cobiçadíssimo emprego na maior revista brasileira, porque via como a mídia corporativa cometia o primeiro pecado apontado por Francisco: a desinformação. Ele se refere a dar uma notícia pela metade, omitir informações. E para que isso? Para manipular, para direcionar o leitor aos interesses defendidos pela linha editorial do órgão em questão. Um exemplo bem concreto nos últimos dias: os grandes veículos de comunicação, que nem é preciso mencionar, não puderam escapar, por conta da repercussão, de noticiar a greve de fome de Glauber Braga, contra o seu pedido de cassação do mantado de deputado. Mas, como davam a notícia? Que ele havia agredido o representante do MBL. Mas não diziam o motivo: que esse sujeito o estava assediando há tempos, com ofensas pessoais à sua mãe, naquele momento no leito de morte. Essa parte da história não aparecia. A manipulação contribuiu para o resultado, por enquanto negativo, da reversão da cassação.

O segundo mal da mídia é a calúnia. Gravíssima, desumana e crime previsto no Código Penal. Lançada tantas vezes com objetivos de destruição de alguma pessoa pública ou mesmo apenas para vender o jornal, o canal ou angariar mais likes. Mesmo se houver desmentido, mesmo se houver processo, demorado, o estrago já foi feito, às vezes até com o suicídio do caluniado.

Como terceira infração à ética jornalística, Papa Francisco aponta a difamação. Ele cita como exemplo, pessoas que tiveram algum deslize no passado e já pagaram por isso, e que têm direito a uma imagem sem mancha, mas a mídia não perdoa. Podemos estender isso para exemplos de divulgação de notícias que prejudicam a vida e a imagem de alguém, sem nenhuma necessidade, apenas, mais uma vez, por motivos sórdidos de lucro.

E por fim, Francisco evoca a cropofilia e traduz com graça: amor ao cocô. É o prazer mórbido e comercial de publicar escândalos, crimes sangrentos, notícias sujas, verdadeiras ou não. No meu tempo de faculdade, isso se chamava imprensa marrom. Mas hoje, mesmo grandes veículos de comunicação que se arrogam seriedade e, às vezes até se propõem como de esquerda, cometem esse pecado repulsivo.

O leitor, o ouvinte, a massa que não sabe se orientar no meio de tantos desvios, fica à mercê da manipulação desses órgãos. E assim, pessoas têm reputações assassinadas, entre calúnias, difamações ou meias verdades. Factóides são criados, lawfares são perpetrados, com o apoio irrestrito dessa mídia tão “pecadora”, nos termos do querido Francisco. E o povo é inclinado aos ventos políticos opressores, de extrema direita, que desatendem suas reais necessidades.

Dedico esse texto ao meu grande amigo Alysson Leandro Mascaro. O vídeo do Papa lhe foi enviado, com o seguinte comentário: “Você tem sido alvo desses quatro males. Mas há de superar.” Assino embaixo. Quem quiser saber mais, assista à entrevista de Alysson Mascaro ao 247, publicada no dia 25 de abril último.

Dora Incontri – Graduada em Jornalismo pela Faculdade de Comunicação Social Cásper Líbero. Mestre e doutora em História e Filosofia da Educação pela USP (Universidade de São Paulo). Pós-doutora em Filosofia da Educação pela USP. Coordenadora geral da Associação Brasileira de Pedagogia Espírita e do Pampédia Educação. Diretora da Editora Comenius. Coordena a Universidade Livre Pamédia. Mais de trinta livros publicados com o tema de educação, espiritualidade, filosofia e espiritismo, pela Editora Comenius, Ática, Scipione, entre outros.

segunda-feira, 3 de junho de 2024

Francisco: Um Papa Consciente Vindo do Sul Global?

 

Há uma dimensão geopolítica pouco notada, no papado de Francisco. Ele deseuropetizou a igreja – da composição do Colégio dos Cardeais ao comando das ordens católicas. Sua aposta: Velho Continente, “criança mimada”, não pode comandar mais nada


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Loup Besmond de Senneville, no La Croix International, com tradução no IHU

Em seus 10 anos na cátedra de Pedro como primeiro papa latino-americano da história, Francisco ajudou a mudar o equilíbrio geográfico dentro da Igreja Católica.

Dezenas de milhares de pessoas inundaram a Praça São Pedro, convocadas pela famosa fumaça branca que, apenas uma hora antes, subia do telhado da Capela Sistina. Um novo papa havia sido eleito! Naquela noite fria e chuvosa – no dia 13 de março de 2013 – o homem que apareceu na varanda da Basílica de São Pedro era desconhecido da maioria das pessoas presentes na praça embaixo.

Tratava-se de Jorge Mario Bergoglio, o então cardeal jesuíta de Buenos Aires, que escolheu “Francisco” para ser seu nome papal. “Vocês sabem que o dever do conclave era dar um bispo a Roma”, disse ele em suas primeiras palavras como papa. “Parece que os meus irmãos cardeais foram pegá-lo quase no fim do mundo”, acrescentou ele, uma clara referência à sua Argentina natal, na América do Sul.

E esse novo papa era de fato um estrangeiro ou forasteiro – de três maneiras diferentes.

Primeiro, ele não era da Europa.

Segundo, ele não era da Itália.

E, terceiro, era um estranho à cultura da Cúria Romana, antipatia que ele nunca disfarçou como cardeal-arcebispo na capital argentina.

De fato, os sentimentos de Bergoglio em relação à burocracia vaticana eram tão conhecidos que algumas pessoas esperavam – e outras temiam – que ele seria o responsável pela grande mudança da Igreja Católica do Norte para o Sul.

Europa, uma criança mimada

A relação do Papa Francisco com a Europa tem sido tema de discussões intermináveis nesses últimos 10 anos.

“Ele vê a Europa como uma criança mimada”, confidenciou um de seus amigos. Francisco também se referiu à Europa como uma “velha senhora cansada”, onde não há grande futuro para a Igreja. O papa jesuíta não faz nada para esconder isso: ele teme um fechamento muito grande da Igreja no Ocidente, onde não vê mais dinamismo.

Por considerar que o Velho Continente foi “mimado” no passado, sobretudo pelas numerosas viagens de seus antecessores, Francisco prefere fazer suas próprias visitas pastorais a países da periferia, como a Albânia ou o Chipre.

Ele se afastou de nações com tradição católica antiga, como Espanha e França. É verdade que ele visitará a Marselha por algumas horas em setembro, mas deixou claro que seu tempo na cidade portuária do sul da França não será uma viagem à França propriamente dita. Em vez disso, será apenas um pit stop, permitindo que ele se junte a uma reunião de bispos europeus antes de seguir para a Mongólia.

“Sem dúvida, ele sente que seu papel não é organizar visitas para compensar a falta de iniciativa das Igrejas europeias”, disse um dos assessores mais próximos do papa.

Uma mudança de paradigma

Em contraste, cada vez mais escritórios da Cúria e as principais ordens religiosas do mundo fizeram a mudança de suas lideranças para o Sul global. O padre-geral da Companhia de Jesus (jesuítas), a ordem do próprio papa, é atualmente um padre venezuelano chamado Arturo Sosa. E o mestre da Ordem dos Pregadores (dominicanos), o Pe. Gerard Timoner, é das Filipinas.

As principais congregações missionárias também fizeram essa mudança, como mostra a eleição em 2010 do ganense Richard Baawobr como primeiro superior geral africano dos Padres Brancos.

Nas universidades pontifícias, a “mudança de paradigma” provocada pela chegada de Francisco à liderança da Igreja Católica foi percebida por todos.

“O fato de ele vir do Sul é um teste para a Igreja, especialmente porque questiona a relação dos católicos do Ocidente com a Igreja não ocidental”, observou Paul Béré, um jesuíta biblista de Burkina Faso.

Em 2019, Béré recebeu o Prêmio Ratzinger, uma espécie de “Prêmio Nobel de Teologia”. Mas ele disse que há muito tempo sofre críticas de colegas europeus que veem nele “um teólogo de segunda categoria”.

“Quando ouço as críticas de certos cardeais ocidentais a respeito do papa, reconheço-me nele”, disse o jesuíta africano. “Fui submetido às mesmas críticas durante anos. Muitas vezes me olhavam com pena, fazendo-me entender que nada de bom ou sério podia sair da África, porque era uma teologia que não se baseava nos cânones ocidentais”, lembrou.

Os efeitos da colonização

Além de uma abordagem teológica clássica, Francisco também se concentrou em novos temas e questões. A ecologia é obviamente um deles, como evidenciado por sua encíclica Laudato si’, de 2015.

“Ele ampliou o perímetro do papado”, disse um veterano observador do Vaticano. “A partir de agora, não se pode mais dizer que o papel do papa se limita à liturgia e à moral.”

Isso também tem a ver com a atenção inédita que ele tem dispensado aos povos indígenas e originários, principalmente da Amazônia e do Canadá, com cujos representantes ele já se encontrou várias vezes em Roma.

Francisco viajou para a cidade de Quebec, Edmonton e Iqaluit, no extremo norte do Canadá, em julho passado, para pedir desculpas pelos abusos e pelos crimes cometidos em internatos católicos no século XIX. Condenando os “terríveis efeitos da colonização”, ele insistiu que a Igreja não é europeia.

É em nome desse mesmo princípio que ele tem resistido, desde o início da guerra na Ucrânia, à tentação de ser visto como o “capelão do Ocidente”.

“Não resta nada, exceto os argentinos”

Sua desconfiança nos Estados Unidos também alimentou a ideia de que seu posicionamento se deve em grande parte à história de seu país. A Argentina manteve uma relação desigual com o gigante norte-americano, e o papa culpa este último em parte pela quase falência de seu país no início dos anos 2000.

“Não resta nada, exceto os argentinos”, reclamou um membro da velha guarda do Vaticano. Na verdade, Francisco fez de um número impressionante de seus compatriotas altas autoridades da Cúria Romana ou membros de seu círculo interno de conselheiros.

Eles incluem Emilce Cuda, secretária de 57 anos da Pontifícia Comissão para a América Latina em Roma, assim como Víctor Manuel Fernández, arcebispo de La Plata, de 60 anos, que atuou como escritor fantasma de alguns dos documentos mais importantes do papa. Há também o ex-padre lefebvriano, Pablo Enrique Suarez. Membro argentino da Fraternidade de São Pio X até 2019, ele mora na residência papal Santa Marta e assessora Francisco nas questões tradicionalistas.

A grande presença de argentinos não é nada fora do comum, dizem pessoas próximas a Francisco. Elas apontam que o número de poloneses trabalhando no Vaticano, inclusive no serviço diplomático, realmente disparou durante o longo reinado de João Paulo II como papa. Alguns reclamam que, mesmo hoje, eles ainda estão super-representados.

Em uma Roma que permanece muito italiana, Francisco também trouxe uma mudança clara, alterando profundamente o equilíbrio geográfico dentro do Colégio dos Cardeais.

Quando foi eleito em 2013, havia 60 europeus em um total de 117 cardeais eleitores. Desde então, Francisco duplicou o número de asiáticos que podem votar no próximo conclave, reduzindo em um terço o número de italianos na mesma situação. O número de eleitores norte-americanos caiu de 20 para 16 eleitores, enquanto os latino-americanos passaram de 13 para 19.

Esse reequilíbrio tem um objetivo claro: ancorar o deslocamento da Igreja rumo ao Sul global.


terça-feira, 8 de agosto de 2023

Papa Francisco ataca capitalismo unipolar, imperialista e desumano, e visualiza socialismo cooperativo multipolar. Artigo do jornalista César Fonseca

 " (...) o seu sonho é o socialismo não o capitalismo, num cenário global em que jamais se pode esperar cooperação no discurso do capitalismo unipolar"

Papa Francisco

Papa Francisco (Foto: Reuters)

Os governos capitalistas ocidentais – europeus e americano, especialmente – não engolem o Papa Francisco, porque o seu sonho é o socialismo não o capitalismo, num cenário global em que jamais se pode esperar cooperação no discurso do capitalismo unipolar, enquanto o mundo multipolar cooperativo ainda é uma construção incerta, no ambiente de ameaça de conflito nuclear entre as suas potências atômicas.

São a inclusão social e a solidariedade, e não a exploração do capital que alimenta a indústria armamentista, o foco do chefe da Igreja Católica, como destacou durante a última semana em Portugal, na Jornada Mundial da Juventude. Claudicante, tentando vender otimismo, Francisco, na verdade, revelou expressão de desespero psicológico, quando se sabe que cerca de 22% dos jovens estão desempregados, segundo a ONU.

Ele buscou animá-los com a narrativa da esperança e do acolhimento, que, para bom entendedor, é tudo que não seja predação capitalista comandada, atualmente, pelo mercado financeiro especulativo. O mercado não cria mais emprego, renda, consumo, produção e arrecadação e investimento, mas destruição, desigualdade, concentração de renda, desemprego, desespero e violência. 

O catolicismo está diante do desafio de ser explícito – sem tergiversações – com sua base religiosa para falar a verdade sobre conflitos que inviabilizam o futuro da juventude que sonha com a estabilidade do emprego e da renda.

Tal possibilidade virou, no cenário do capitalismo especulativo, utopia, em meio à qual o que funciona são narrativas de fake News do radicalismo político de direita fascista, cujo objetivo, como, historicamente, se sabe, é destruir a classe trabalhadora, somente possível com supressão da democracia, como Hitler e Mussolini demonstraram na segunda guerra mundial. 

BANCARROTA DO CRISTIANISMO - O Vaticano, no cenário do capitalismo pós-guerra fria, adepto da desregulamentação total das fronteiras nacionais, para livre circulação do capital, vacilou, abandonando a doutrina cristã para apoiar o nazifascismo em administrações papistas altamente controvertidas, aliando-se ao capital contra o comunismo soviético. 

O nazifascismo perdeu a guerra, mas ganhou a paz, na medida em que prosperou com a sobrevivência do neoliberalismo, na guerra fria. Agora, porém, mostra-se incapaz de criar expectativas para a humanidade, diante de radicalismos que ganham espaço, principalmente, no compasso do fracasso da social-democracia e da fuga da esquerda com seu compromisso com o socialismo, destroçado, sobretudo, com a tragédia da expansão dos emigrantes.

O câncer da imigração dos países pobres para os ricos foi a resposta da exploração colonialista, que funciona, atualmente, como a volta do chicote no lombo de quem mandou dar, motivo de expansão da ideologia direitista radical no velho Continente e nos Estados Unidos. 

O discurso humanista europeu e americano, diante do fenômeno da imigração, virou fumaça. A Igreja, frente ao desastre social-democrata esquerdista no capitalismo cêntrico, sob desconfiança generalizada dos mercados especulativos, tenta, com Francisco, acenar para o nacionalismo desenvolvimentista anti-imperialista, na periferia capitalista, visando o mundo multipolar. 

Para ter alguma dose de chances nessa trajetória, altamente, espinhosa, o líder católico visualiza nova geopolítica mundial que se amplia com a abertura de fronteiras na Rota da Seda, rumo à Eurásia, sob comando da China, vitoriosa sobre o capitalismo de desastre especulativo norte-americano.

BRICS E NEONACIONALISMO - É ela que traça os caminhos alternativos à geopolítica atlanticista ocidental americana, para construção do mundo multipolar que a China e Rússia tentam expandir pela Ásia, África, Oriente Médio e América Latina, na construção de neo-nacionalismo cooperativo, antineoliberral, por meio dos BRICs.

Tenta-se, dessa forma, construção de novo sistema monetário internacional alternativo ao de Bretton Woods, criado em 1944 pelo poder bélico americano, exaurido pelo neoliberalismo. Trabalha em favor dessa hipótese a estratégia imperialista desastrosa de sancionar os que não seguem sua cartilha, cujo efeito destrutivo é a fuga da moeda americana, rumo à desdolarização e à construção de relações comerciais em moedas locais, no rastro da pregação multipolar chinesa-russa.

Enquanto isso ainda não passa de articulações poderosas sem amplo efeito demonstrativo prático, a ideologia imperialista busca a predominância em discursos de fake news. Por meio dele, arregimenta ideologicamente o Ocidente em torno da narrativa de que a paz está bloqueada pela Rússia, responsável por guerra que pode ser interminável, quando, na prática, ocorre o contrário, como se conscientiza a própria inteligência americana.

Lança, portanto, incertezas que colocam a humanidade em estresse total, ideal satisfatório para a indústria da guerra, com a qual o imperialismo de Tio Sam enriquece o mercado financeiro que a banca.

Nesse contexto de total indefinição, Papa Francisco, consciente do estrago social e político da guerra, especialmente, sobre os jovens desempregados e desesperados, como atesta sua passagem por Portugal, aposta no mundo multipolar, porque o unipolar, para a humanidade, deixou de ser útil.

terça-feira, 28 de agosto de 2018

O catolicismo nos Estados Unidos e a tentativa de golpe contra o Papa Francisco



 "O ataque ao Papa Francisco do último fim de semana também deve ser lido dentro da luta pela supremacia dentro do catolicismo estadunidense conservador, entre a velha escola neoconservadora e o novo integralismo medievalista. O ataque contra o Papa Francisco fracassou, mas não está claro o que acontecerá com a cultura católica conservadora nos Estados Unidos: se ela recuará para um neoconservadorismo que ainda mantém algum sentido das instituições (eclesiásticas ou não), ou se tomará o caminho de um jacobinismo católico que não tem medo de flertar com a ideia de um novo cisma do Ocidente."

]A US flag billows in front of a mural of Pope Francis across the street from Madison Square Garden in New York. (Timothy A. Clary/AFP/Getty Images)

Publicado originalmente no Instituto Humanitas Unisinos. Republicado pelo DCM:
“Hoje a nova geração de católicos estadunidenses de direita (tanto leigos quanto padres e seminaristas, mas também alguns bispos) interpreta um catolicismo teologicamente neo-ortodoxo, moralmente neointegralista, politicamente antiliberal e anti-internacionalista, esteticamente neomedieval.”
A opinião é do historiador italiano Massimo Faggioli, professor da Villanova University, nos Estados Unidos. O artigo foi publicado em HuffPost.it, 27-08-2018. A tradução é de Moisés Sbardelotto.
Eis o texto.
Na sua carta de 20 de agosto a todo o povo de Deus, Francisco identificou no clericalismo a verdadeira chaga da Igreja: prova disso é a tentativa de golpe de Estado do fim de semana, com o memorial publicado pelo ex-núncio nos Estados Unidos, Carlo Maria Viganò.
A manobra foi estudada minuciosamente tanto nos tempos quanto nos modos – especialmente olhando para os jornalistas hostis a Francisco que se prestaram a isso – e fracassou, pelo menos quanto à tentativa de empurrar o papa a renunciar. Mas, para entender o que está acontecendo na Igreja, este momento deve ser analisado na rota entre os Estados Unidos e o Vaticano.
Por um lado, a manobra mostra uma soldagem entre uma agenda pessoal, fruto de sonhos de carreira despedaçados por parte de grupelhos adversos no pequeno mundo vaticano, e um vasto projeto ideológico e teológico que toma forma nos Estados Unidos desde as primeiras semanas do pontificado de Francisco.
Ainda em julho de 2013, antes mesmo de Francisco tomar a iniciativa mais significativa do pontificado, uma parte da Igreja e do episcopado estadunidense não hesitou em manifestar o seu descontentamento em relação a um pontificado, o de Francisco, não suficientemente conservador e alinhado com o conservadorismo político que havia se radicalizado desde 2008, ou seja, após a eleição à presidência de Barack Obama. Esses bispos e intelectuais católicos veem no Papa Francisco, desde o início, uma espécie de Obama da Igreja e adotam com Francisco uma tática semelhante à adotada para Obama: a deslegitimação.
Lidando com o escândalo dos abusos sexuais nos Estados Unidos desde 2002, os bispos estadunidenses nomeados por João Paulo II e Bento XVI não podem se irritar com o papado por ter criado uma classe episcopal inepta para tratar da única questão em relação à qual deveriam ser confiáveis, ou seja, “lei e ordem”. O momento oportuno para atacar Francisco foi oferecido pela tempestade perfeita do verão de 2018 – o rescaldo da viagem ao Chile, as revelações sobre o ex-cardeal Theodore McCarrick, as investigações sobre alguns seminários nos Estados Unidos e, finalmente, o relatório do Grande Júri da Pensilvânia.
Quem pensou essa operação aceita o risco de apontar para o Papa Francisco sem se importar com o fato de que um ataque a Francisco sobre a questão dos abusos necessariamente envolveria os seus dois antecessores imediatos. A tentativa de golpe contra Francisco fala sobre o estado em que se encontra a oposição extremista contra Francisco, especialmente nos Estados Unidos: o fato de a ala tradicionalista aceitar o risco de prejudicar Bento XVI João Paulo II – no panteão católico estadunidense, vistos como o oposto de Francisco – diz muito sobre o seu desespero.
A escolha do Papa Francisco de não se defender das acusações contidas no memorial, durante a coletiva de imprensa da volta da Irlanda, também deve ser lida como uma recusa a levar em consideração as acusações contra outros – incluindo Bento XVI – formuladas nesse documento.
Muitos no Vaticano, mais cedo ou mais tarde, terão que dar explicações: mas essa é uma questão que não afeta Francisco em primeira pessoa, que sempre se manteve longe dos grupelhos curiais postos em questão pelo ex-núncio. Viganò e um certa direita católica nos Estados Unidos, que o núncio em Washington frequentou entre 2011 e 2016, às vezes dando a impressão de trabalhar mais pelos ideólogos daquela ala do que pelo papa (como no caso do encontro entre o papa e Kim Davis, durante a visita de Francisco aos Estados Unidos), usaram-se reciprocamente.
Tanto Viganò quanto essa parte da Igreja contestam Francisco por uma atitude diferente da Igreja em relação à questão homossexual, que, na opinião deles, faz parte do problema da pedofilia na Igreja. Mas é uma convergência de interesses que não tem nada a ver com a luta contra a chaga dos abusos sexuais.
Depois, há um segundo elemento da operação. Além dessa convergência entre a agenda pessoal de Viganò e a agenda ideológica do mundo estadunidense e anglo-saxão hostil a Francisco, o outro elemento-chave para compreender a operação e o motivo pelo qual ela fracassou é a transição de um certo tipo de catolicismo conservador para outro nos Estados Unidos.
Observando as publicações e os artigos de jovens jornalistas e intelectuais da nova geração de católicos estadunidenses (nascidos nos anos 1980-1990), é perceptível como eles não representam mais o catolicismo neoconservador “das antigas” (um nome acima de todos: George Weigel), aquele que chegou ao poder com o Partido Republicano, especialmente com George W. Bush em 2000 e nos Estados Unidos pós-11 de setembro de 2001.
Mas hoje a nova geração de católicos estadunidenses de direita (tanto leigos quanto padres e seminaristas, mas também alguns bispos) interpreta um catolicismo teologicamente neo-ortodoxo, moralmente neointegralista, politicamente antiliberal e anti-internacionalista, esteticamente neomedieval.
É o catolicismo cada vez mais visível na revista-farol da reação conservadora à teologia liberal, First Things, na qual as duas tendências e as divergências entre si são visíveis. Nessa transição de um tipo de conservadorismo católico para outro, nota-se uma diferença de ênfases nas críticas ao Papa Francisco. Ambos são muito críticos à teologia do Papa Francisco. A nova ala extremista e neointegralista, que lembra em alguns aspectos a Action Française de Charles Maurras nos anos 1920 (condenada por Pio XI), não hesita em identificar no Papa Francisco um papa herege ou não católico. Mas a velha geração de católicos neoconservadores não está disposta a arruinar a Igreja a fim de se livrar do Papa Francisco: e foi aí que faltou o apoio à operação Viganò.
O ataque ao Papa Francisco do último fim de semana também deve ser lido dentro da luta pela supremacia dentro do catolicismo estadunidense conservador, entre a velha escola neoconservadora e o novo integralismo medievalista. O ataque contra o Papa Francisco fracassou, mas não está claro o que acontecerá com a cultura católica conservadora nos Estados Unidos: se ela recuará para um neoconservadorismo que ainda mantém algum sentido das instituições (eclesiásticas ou não), ou se tomará o caminho de um jacobinismo católico que não tem medo de flertar com a ideia de um novo cisma do Ocidente.

segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

Mauro Lopes: 2017 começará com agravamento do confronto na Igreja entre ultraconservadores e o Papa Francisco


A verdadeira guerra que quatro cardeais e segmentos ultraconservadores movem contra o Papa deixou definitivamente os bastidores, acontece à luz do dia e deve agravar-se no início de 2017. A sucessão de confrontos entre o grupo apoiado por uma agressiva mídia católica conservadoras e Francisco mudou de qualidade em novembro e tornou-se uma crise aguda.
Apesar de o primeiro movimento público ter sido assumido por cardeais quatro cardeais conservadores, os alemães Walter Brandmüller e Joachim Meisner e mais Carlo Caffarra (italiano) e Raymond Burke (norte-americano), a liderança pública das afrontas ao Papa têm sido lideradas por este último, que se apresenta como um porta-voz dos conservadores da Igreja.
As ações dos conservadores acontecem em torno da exortação Amoris Laetitia (Alegria do Amor) lançada pelo Papa depois do Sínodo da Família e especialmente a questão do direito à comunhão de casais divorciados casados pela segunda vez. Mas a disputa verdadeira acontece em torno da decisão de Francisco de de retomar a opção preferencial pelos pobres e retomar as diretrizes do Concílio Vaticano II.
A sequência e velocidade da crise a partir de meados de novembro é de fato impressionante:
  • 14 de novembro – os quatro cardeais vazaram ao vaticanista conservador Sandor Magister uma carta privada que haviam endereçado a Francisco em setembro apresentando as agora famosas “dubia” (dúvidas); o objetivo foi decretar que a indissolubilidade do casamento seria uma “norma moral absoluta” para os católicos -o que carece de amparo histórico.
  • 16 de novembro – apenas dois dias depois do vazamento a Magister, o site conservador Infovaticana veiculou entrevista de Burke na qual ele afirmou que seu grupo poderá decretar  “um ato formal de correção de um erro grave” contra o Papa, se ele não ceder às ameaças (aqui).
  • 18 de novembro – o Avvenire jornal dos bispos italianos publicou entrevista com Francisco na qual ele reagiu com vigor à ofensiva dos cardeais conservadores, acusando-os de fazerem críticas desonestas para fomentar a divisão na Igreja e de apegarem-se a um “legalismo” de fundo ideológico (aqui).
  • 20 de novembro – o bispo Fragkiskos Papamanolis, presidente da Conferência Episcopal da Grécia saiu na defesa de Francisco e divulgou uma carta aberta aos quatro cardeais, dizendo que eles deveriam, por dever de honestidade, renunciar às suas cadeiras no Colégio Cardinalício.
  • 26 de novembro – o Papa enviou carta a 800 gestores das organizações religiosas participantes do Simpósio sobre Economia da Congregação para os Institutos de Vida Consagrada e as Sociedades de Vida Apostólica, contendo dura advertência quanto à “hipocrisia dos consagrados que vivem como ricos fere a consciência dos fiéis e prejudica a Igreja”. Este é um tema que confronta Francisco diretamente com os conservadores.
  • 30 de novembro – divulgado texto de um dos mais destacados teólogos da Igreja, o italiano Bruno Forte, arcebispo de Chieti-Vasto, em defesa do Sínodo da Família e da Amoris Latetitia, colocando-os em linha direta com o Vaticano II. Foi no prólogo do livro do também teólogo e sacerdote Jesús Martínez Gordo, da diocese de Bilbao, intitulado Estive divorciado e me acolhestes –leia aqui.
  • 8 de dezembro –  numa ação coordenada por Raymond Burke, patrono da Ordem de Malta, a direção da organização destituiu seu grão-chanceler, Albrecht von Boeselager, cargo de nomeação direta do Papa. Burke foi colocado à frente da Ordem por Francisco em 2014, que o removeu do poderoso  Supremo Tribunal da Assinatura Apostólica do Vaticano -apesar da inexpressividade da Ordem de Malta, Burke encontrou mais um meio de confrontar Francisco e conseguir repercussão, mobilizando apoios entre os conservadores.
  • 19 de dezembro – em entrevistas a veículos conservadores dos EUA, Burke apresentou como que dois “ultimatos” ao Papa. Ao LifeSite, assegurou que se o Papa não responder às “dubia” seu grupo irá divulgar a anunciada “correção formal” a Francisco logo depois da solenidade da Epifania, que será celebrada em 8 de janeiro de 2017 (aqui); ao portal Catholic World Report Burke foi ainda mais longe e insinuou que o Papa é herege, ameaçando com a destituição: “Se o Papa professar uma heresia formalmente deixaria, por esse ato, de ser Papa. É automático.” Espertamente, para evitar uma punição direta, disse a seguir que “não estou dizendo que o Papa Francisco está em heresia” (aqui).
  • 22 dezembro – o Papa nomeou uma comissão para investigar a destituição do grão-chaceler da Ordem de Malta.
  • 22 de dezembro – depois de ter abalado a Cúria romana no discurso de Natal em 2014 quando atacou o que qualificou de “15 doenças curiais”, Francisco voltou à carga este ano numa duríssima advertência contra as “resistências maliciosa” de “mentes distorcidas” contra as reformas da Igreja (aqui).
  • 24 dezembro – a cúpula da Ordem de Malta reagiu de maneira sem precedentes a um Papa e contesta a comissão nomeada por Francisco, qualificando o gesto de “inaceitável” (leia aqui a reportagem de Religion Digital sobre o assunto).
Não é à toa que nos corredores do Vaticano, altos funcionários chamam Francisco à boca pequena de “esse argentinozinho”.
 Para termos uma ideia do que Francisco enfrenta é preciso retroceder na história. Ao ser apresentado ao mundo, o novo Papa surgiu no balcão do Vaticano vestido de branco, sem ouro algum. Num gesto inédito, curvou-se diante da multidão que ocupava a Praça São Pedro e pediu que as pessoas rezassem por ele. Com isso, rompeu uma tradição milenar de identificar o Papa com um monarca, abalada com a nomeação de João XXIII e o Concílio Vaticano II, há 50 anos, mas reconstruída por João Paulo II (1978-2005) e Bento XVI (2005-2013). Na noite de na noite de sua eleição, em 13 de março de 2013, o mundo viu um Papa humilde, sem ornamentos e vestes pomposas. O novo papa curvou-se [Clique aqui para o vídeo da apresentação do novo papa ao povo; vá até 7min20 e veja a cena]

Francisco curva-se diante do povo na praça São Pedro na noite de sua eleição, em 13 de março de 2013 –ao lado dele, o cardeal brasileiro dom Cláudio Hummes
O equilíbrio de forças no interior da Igreja, fortemente impactado pela onda conservadora dos últimos 35 anos, parece manter Francisco em relativo isolamento na cúpula católica, agravado pela onda conservadora que varre o planeta. Mas o cenário é paradoxal, pois este é o Papa mais popular da história, superando João Paulo II. Segundo seus aliados e alguns vaticanistas, Francisco está, aos poucos, modificando o perfil da Igreja. É o que diz dom Cláudio Hummes, o cardeal brasileiro que se tornou conhecido mundialmente pelo fato de, estando ao lado do Papa no exato momento de sua eleição, cumprimentá-lo sussurrando em seu ouvido uma frase que inspirou Bergoglio a escolher o nome de Francisco: “Não se esqueça dos pobres”.
Hummes assegura que a imensa maioria dos cardeais está ao lado do Papa: “Sem querer relativizar este fato, são quatro cardeais. E na Igreja somos mais de 200. Sem querer relativizar demasiadamente, são quatro de um grupo enorme que está dando todo o seu apoio ao Papa”. Não são apenas quatro; nas últimas semanas pelo menos outros três cardeais acorreram em apoio ao grupo original (George Pell, prefeito da Secretaria de Economia do Vaticano, alvo de um processo no qual é pesadamente acusado de encobrir casos de pedofilia na Austrália;  o arquiconservador Robert Sarah, prefeito da Congregação para o Culto Divino; Renato Martino, presidente emérito do Pontifício Conselho de Justiça e Paz).
‎Os movimentos no tabuleiro da Igreja estão sendo pensados de olho no próximo Papa, pois Francisco, aos 80 anos, não terá tempo para concluir suas reformas. Ele sabe disso e está redesenhando o colégio eleitoral do próximo papa com frieza e tirocínio típicos dos jesuítas. Para o teólogo brasileiro César Kuzma, Francisco “não joga no escuro e nem mesmo faz apostas para ver onde vai dar, ao contrário, ele sabe o que quer e sabe o que deve buscar. Ele também sabe que não terá um Pontificado longo e que não terá como resolver e mudar tudo.”
Por isso, ao nomear 13 cardeais com direito a voto (menos de 80 anos de idade) em 19 de novembro, ele é responsável por 1/3 do total de indicações do colégio de cardeais com direito a voto neste momento (44 de um total de 121). Em três rodadas de nomeações desde 2013, o Papa já conseguiu um feito memorável na história da Igreja: acabou com a maioria europeia. São agora 54 cardeais do Velho Continente contra 67 do resto do mundo.
É de se esperar mais uma ou duas rodadas de nomeações cardinalícias à frente. Com isso, o cálculo e a esperança dos conservadores para o próximo Papa pode estar em risco. O que explicaria a radicalização da luta no interior da Igreja nas últimas semanas.
O início de 2017 promete tensão e ações agressivas na disputa pelo perfil da Igreja Católica que se apresenta aos fiéis e ao mundo.
‎[por Mauro Lopes]
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[Uma primeira versão desta reportagem foi publicada originalmente na revista eletrônica Calle2, em 17 de dezembro, e, coautoria com Sérgio Kraselis, por ocasião do 80º aniversário do Papa Francisco – a versão original está aqui e republicada pela agência de notícias do Instituto Humanitas Unisinos, clique aqui e pelo site da Associação Rumosaqui]

quarta-feira, 23 de novembro de 2016

Globo golpista ataca a CNBB (e, indiretamente, o Papa Francisco) por causa de seu senso de responsabilidade, por J. Carlos de Assis





"Ao tempo em que demite mais uma leva de jornalistas, alguns dos quais antigos colaboradores do jornal líder da direita econômica brasileira, o Globo abre suas páginas a uma estranha personagem chamada Eurico Borba para achincalhar a hierarquia da CNBB, que emitira uma nota de repúdio à PEC-55/241. Está aí uma coisa que o velho Roberto Marinho não faria. Ele respeitava a Igreja, tinha relações muito fortes com o Cardeal Dom Eugênio Salles e, principalmente, não dispensava leitores, mesmo que fossem de esquerda.

"Essa irmandade Globo/Borba mostra a extrema decadência do jornal e a emergência de figuras turvas fabricadas pelas contradições da política brasileira."

Movimento Brasil Agora
Ataque à CNBB por causa de seu senso de responsabilidade política
por J. Carlos de Assis
Ao tempo em que demite mais uma leva de jornalistas, alguns dos quais antigos colaboradores do jornal líder da direita econômica brasileira, o Globo abre suas páginas a uma estranha personagem chamada Eurico Borba para achincalhar a hierarquia da CNBB, que emitira uma nota de repúdio à PEC-55/241. Está aí uma coisa que o velho Roberto Marinho não faria. Ele respeitava a Igreja, tinha relações muito fortes com o Cardeal Dom Eugênio Salles e, principalmente, não dispensava leitores, mesmo que fossem de esquerda.
Essa irmandade Globo/Borba mostra a extrema decadência do jornal e a emergência de figuras turvas fabricadas pelas contradições da política brasileira. O Globo dos três Marinhos, assim como Borba, está em tremenda confusão. Sabidamente em crise, recorre ao remédio tradicional dos empresários idiotas: corta no produto. É fato que o jornal não tem muito a oferecer a sua clientela, exceto aqueles que ele próprio deformou ao longo do tempo. As novas gerações não suportam Globo. Sua salvação tem sido pendurar-se na televisão.
Vejamos o Borba. O fato de destaque em sua biografia é ter sido presidente do IBGE em 1992/93. Tem um livro escrito, “Reflexões sobre a crise global”, do qual li três linhas da síntese: “Trata da questão do trabalho com reflexões sobre a propriedade, historicamente adquirida, da propriedade dos postos de trabalho por parte dos trabalhadores que nele operam e realizam suas vidas, proporcionando condições para que o capitalista concretizem seus intentos.” É claro que o texto está truncado. Mas não tão truncado quanto a cabeça do autor.
Nivelar propriedade privada dos meios de produção com “propriedade” dos postos de trabalho é uma aberração conceitual. Os postos de trabalho, no capitalismo, não são do trabalhador; são dos capitalistas. É por ser dono do posto de trabalho que o capitalista se apropria do trabalho produzido pelo trabalhador. Do contrário, o trabalhador jamais proporcionaria “condições para que o capitalista concretiz(asse) seus intentos”. Precisa de ler mais? Ora, é esse teólogo de botequim que resolveu dar lições de comportamento político à CNBB, que nada faz além de cumprir sua responsabilidade política.
Os franceses costumam dizer: a quelque chose malheur est bon! Em  tradução livre, para alguma coisa serve a estupidez! Esse artigo de Borba, que sustenta que a nota da CNBB sobre a PEC confunde católicos, chega no momento certo para que se destaque a importância do documento sobre a mais nefasta iniciativa de lei em décadas. Chamada de PEC da Morte, ou de AI-5 da economia política brasileira, se aprovada ela liquidaria com o setor público e a economia por 20 anos, caso não explodisse antes uma guerra civil.
Não sou católico praticante, mas acredito na sinceridade dos que creem na intervenção do Espírito Santo em ações humanas. Se de fato acontece, uma prova foi a nota da CNBB sobre a PEC da Morte. Com extrema serenidade, sem os arroubos autoritários e arrogantes de Borba, os três principais dirigentes da CNBB expuseram com clareza as ameaças contidas na proposta de emenda, em especial para as áreas sociais de saúde, educação e previdência.
Mas a CNBB não se restringe à retórica. Com sua autorização, a Comissão de Justiça e Paz está coordenando, junto com o Movimento Brasil Agora, o que pretende ser uma mega-manifestação contra a PEC no próximo 9 de dezembro (4 dias antes da votação da matéria no segundo turno no Senado), em Brasília, Rio de Janeiro, Curitiba e Recife, e eventualmente em outras capitais. Será um ato cívico-religioso para convencer os senadores a barrar a PEC. A ideia é expressar, juntando religiosos e leigos, em manifestação pacífica, o repúdio da opinião pública, em seu mais alto grau, a este AI-5 da economia política brasileira, ou PEC da Morte.
fonte: Jornal GGN