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sexta-feira, 14 de agosto de 2020

Contra a Democracia, a luta corrupta "contra a corrupção" dos que não são neoliberais. Por Ricardo Manoel de Oliveira Morais



É interessante notar (e também lamentar) que sempre que uma determinada forma de “luta contra a corrupção” toma corpo na história republicana do Brasil, acaba-se com a república, mas nunca com a corrupção. A corrupção, aliás, parece se aprofundar.

A luta corrupta contra a corrupção

Do site Justificando:


Terça-feira, 11 de agosto de 2020

A luta corrupta contra a corrupção

Imagem: Fotógrafo/Agência


Por Ricardo Manoel de Oliveira Morais

É interessante notar (e também lamentar) que sempre que uma determinada forma de “luta contra a corrupção” toma corpo na história republicana do Brasil, acaba-se com a república, mas nunca com a corrupção. A corrupção, aliás, parece se aprofundar.


E digo que “parece se aprofundar” porque os períodos que se seguem ao suposto “triunfo da lei” contra o “lamaçal da corrupção” são marcados pela ausência de transparência. Com isso, não seria prudente afirmar, de modo categórico, que a corrupção se aprofunda. Mas deixemos o “parecer” de lado, ao menos por enquanto. Examinemos, um pouco, alguns elementos cíclicos de nossa história mais ou menos recente. E quando digo cíclico é porque a “luta contra a corrupção” segue um padrão mais ou menos preestabelecido. Embora a noção cíclica da história tenha caído em desuso, cedendo a uma concepção progressista das famosas “linhas do tempo”, uma análise dos loopingshistórico-temporais podem apontar que o “legado” lavajatista não será nada além de um vácuo, apropriável pelo que se tem de pior na arena política. 

Antes de continuar o texto, gostaria de salientar que as incoerências apontadas nas formas corruptas de combate à corrupção não podem levar à falsa crença de que não se deve combater a corrupção. A tentativa de usurpação da coisa pública merece a repressão estatal. Por outro lado, faz parte do apontado “ciclo da corrupção” que a luta contra a corrupção assuma tonalidades hipócritas (para se dizer o mínimo), criando uma aura angelical em torno de indivíduos que corrompem a lei e esfacelam as instituições para “acabar com a corrupção”. E o mais trágico deste processo está no fato de que, quase sempre(e eu enfatizo o “quase sempre”), aqueles que menos sofrem com a degradação institucional cíclica são aqueles que provocaram este processo. 

De forma bastante resumida, eu descreveria o “ciclo do combate corrupto à corrupção” da seguinte forma: 1) inicialmente surgem certos fatos que, de efetivamente, podem ser classificados como atos de corrupção; 2) a partir disso, algumas vozes de uma suposta e elevada retidão moral passam a denunciar estas formas de corrupção como sendo sistêmicas; 3) os “arautos da moralidade”, tomados pela vontade de se apropriar de uma fatia do poder político, começam a dar eco a estas vozes; 4) este eco ganha uma força social, passando a intimidar a institucionalidade para que ela chancele este embate, o que leva a uma fratura da institucionalidade; 5) com o esfacelamento institucional e o fantasma da “corrupção sistêmica” a espreita, a sociedade se volta a uma saída messiânica associada a um “conservadorismo” pouco inteligente, nada empático e deliberadamente cego. A partir daí, o que resta de institucionalidade fica à mercê “de um soldado e um cabo”. 

Quanto à primeira parte do ciclo, os exemplos históricos se multiplicam.  Como aponta Wanderley dos Santos, em A democracia impedida, “A denúncia de corrupção sistêmica, outra coincidência propagandística associada a um e outro golpe, acompanha na verdade a política conservadora brasileira desde o retorno de Getúlio Vargas ao governo, em 1951, em vitória de eleições tão limpas quanto conseguiam sê-las nos anos 50”. Após um atentado frustrado à vida de Carlos Lacerda, a Força Aérea abre um inquérito militar para investigar este ato, conduzindo-o a partir de uma instância denominada “República do Galeão”. 

Neste momento, as vozes udenistas vociferavam moralidade, abrindo mão da soberania nacional sem qualquer pudor. Pedia-se ajuda aos EUA para resolver a situação. Dizia-se que o país se afundava em um mar de lama. A moralidade estava constantemente a serviço de um conservadorismo derrotado eleitoralmente. Paradoxalmente, um inquérito militar levou à intimidação de civis. Oficiais de alta patente demandaram a renúncia do presidente. O presidente perde a vida. Se havia ou não corrupção, nunca se descobriu. Mas o que havia de institucionalidade, começa a se corroer. 
Um outro exemplo do início do ciclo, com uma forte essência udenista, se deu com Aécio Neves. Este, denunciando a corrupção sistêmica do governo federal, se negava a aceitar uma derrota eleitoral. Enquanto pedia a recontagem dos votos, associava-se a nomes conhecidos da “República de Curitiba”. E claro, é impossível compreender esta trama sem fazer menção à Vaza Jato. Sob o pretexto de combate à corrupção, os arautos da moralidade trocavam informações com os EUA (soa familiar?), afrontavam a institucionalidade ao intimidarem as instâncias superiores e insuflavam a população contra o STF, seja por manifestações, seja por jejuns religiosos. Em suma, corrompiam para (supostamente) combater a corrupção. 

E se em 64 Lacerda não teve qualquer pudor em colocar toda a institucionalidade nas mãos dos militares na esperança de sair vencedor nas próximas eleições, o mesmo se deu com Aécio. Aécio, frustrada a tese da “fraude eleitoral”, resolveu dar eco ao combate à corrupção, colocando a sua integridade a prova em um processo de impedimento. Vale ressaltar que nem sua integridade nem a institucionalidade sobreviveram. Moro também fez parte deste processo de corrosão. Diria que ele já vem colhendo os frutos de sua integridade abalada. No entanto, ainda é um pouco cedo para futurologias. Sabemos como os udenistas e os militares corromperam a institucionalidade em 64. Mas e hoje?

Descreveria que não há (ainda) algo como os atos institucionais. No entanto, a sociedade já vem fazendo as suas Marchas da Família com Deus pela Liberdade. Não sei se Deus está lá. Muito menos a liberdade. Mas sim, há uma estética fascista. Há um forte messianismo (“a culpa não é minha, eu votei no Aécio”; “somos todos cunha”; “fechados com Bolsonaro”). Há um conservadorismo pouco inteligente (afinal, não se pode dizer que arriscar a própria vida em meio à pandemia seja uma atitude lá muito genial). Há uma total ausência de empatia. Há uma cegueira deliberada (não importam as ligações com as milícias, com esquadrões da morte, com esquemas de desvio de dinheiro público).  Quanto à ausência dos atos institucionais, acredito que eles não existem formalmente. No entanto, os milicianos que compõem governo já vêm evidenciando o que pensam da institucionalidade, principalmente quando se negam a aceitar “julgamentos políticos” (o que não fizeram quando Collor e Dilma eram Presidentes). 

Quando enumerei os pontos do ciclo da corrupção, mencionei que ao final a corrupção se aprofunda. Pois bem. Deixemos de lado a questão do Regime Militar de 64 (hoje em dia é importante especificar de qual regime falamos, pois podemos estar nos referindo do Regime Militar de 19). Já existem muitos estudos sobre os escândalos de corrupção neste período ditatorial, escândalos que a cegueira deliberada de alguns não os permitem ver. Não existem mais estudos porque ocorreram “queimas de arquivo”. No entanto, como ainda resta alguma publicidade no que diz respeito aos atos do atual governo e alguns vazamentos a jato, vemos o que não queremos: os “paladinos da moralidade” corromperam para acabar com a corrupção. 

Interessante paradoxo: a corrupção está na luta contra a corrupção. Há uma forte semelhança com a anedota do filho que questiona o pai sobre pena de morte. Diz o filho: “pai, se matarmos todos os bandidos, o mundo seria melhor?”. O pai responde: “provavelmente não meu filho, já que sobrariam só os assassinos”. 

Mas o que isso quer dizer? Para esta pergunta apenas tenho algumas pistas. Um juiz acertar a ordem de operações policiais midiáticas com o órgão de acusação é um ato de corrupção. Um procurador da república ocultar uma cooperação internacional e recusar que a cúpula de sua instituição tenha acesso a dados investigativos são atos de corrupção. Um juiz opinar sobre a capacidade de uma procuradora em proceder interrogatórios e sugerir a sua troca é um ato de corrupção. Um juiz vazar conversas sigilosas é um ato de corrupção. Um juiz compor um governo que ele ajudou a eleger ferindo a lei é um ato de corrupção. A grande mídia defender que o lavajatismo avançou no combate à corrupção, desconsiderando os atos de corrupção deste “movimento”, é um ato de corrupção. 

Sobre o atual governo e sua “luta contra a corrupção”, acho que os seus atos falam por si, assim como dos 30% de cegos deliberados existentes no que sobrou da 6ª República.


Ricardo Manoel de Oliveira Morais é doutor em Direito Político pela UFMG. Mestre em Filosofia Política pela UFMG. Bacharel em Direito (FDMC) e em Filosofia (FAJE). Professor.

domingo, 19 de agosto de 2018

Glenn Greenwald em vídeo, discute as relação do impeachment com as eleições de 2018


Sobre a máfia que promoveu o golpe, incluindo criminosos hoje bastante conhecidos como tais, veja o vídeo do jornalista investigativo e ganhador do Pulitzer, Glenn Greenwald:



Dois anos após o impeachment de Dilma Rousseff, vemos com clareza quem participou da deposição da ex-presidente e com que intenções. Isso é importante não apenas para entender o passado, mas também para compreender o que está acontecendo nestas eleições. Assista ao novo vídeo reportagem de Glenn Greenwald!

terça-feira, 1 de agosto de 2017

Luis Nassif: Mídia usa estilo Lava Jato para condenar a Lava Jato (depois do golpe consolidado e Moro e Dellagnol terem feito o papel esperado)




  "O MPF está provando, agora, do veneno que criou com os jogos midiáticos. Como passou a falar para o tribunal da mídia, está sendo condenado agora, pela PF, se valendo do mesmo tribunal. E será assim, daqui por diante. Do mesmo modo da opinião da delegada que defendeu a não concessão de benefícios a Sérgio Machado, por sua delação. Pode até ter razão, mas delegada questionar delação do MPF é da mesma natureza que procuradores de Curitiba questionarem o Ministro da Justiça. Provam do próprio veneno." - Luis Nassif




Hoje, na Folha, ficou nítida a nova forma de desqualificação dos trabalhos da Lava Jato. Trata-se do pente fino da Polícia Federal sobre as inconsistências das denúncias do MPF e das delações premiadas.
O que garantia a blindagem da Lava Jato, até agora, era o forte espírito corporativo do Ministério Público Federal, a coesão do grupo de Curitiba e o apoio incondicional da mídia, enquanto os alvos fossem adversários políticos.
A forte blindagem da opinião pública, o espírito de manada, inibia todas as críticas. As avaliações sobre a falta de experiência da banda brasiliense da Lava Jato, sobre os exageros da quantidade de delatores de Curitiba, tudo isso ficava entre quatro paredes. No máximo, eram sussurradas críticas do Ministro Teori Zavascki sobre a inconsistência técnica de muitas das denúncias, o estilo panfletário substituindo a apresentação escassa de provas documentais.
Não que não houvessem provas. O problema é que se criou um vício circular. Numa ponta, o poder e a ânsia de bater recordes por parte dos procuradores, de fazer da operação a maior da história, a maior do planeta. De outro, a extrema facilidade em transformar qualquer frase em manchete condenatória, por parte de uma mídia que terceirizou a editoria de Lava Jato para a força tarefa. E, através da mídia, inibiam a atuação dos tribunais superiores.
Obter mais de cem delações de uma mesma empresa é uma bobagem ciclópica. Informações não circulam livremente. Há um grupo restrito na cúpula que controla as informações e as ações. E, na base, pessoas que assistem os movimentos sem ter noção completa do todo.
Por isso mesmo, incluí-los nas delações significa abrir uma enorme guarda para a exploração de conflitos de interpretação pelos advogados de defesa e, agora, pela mídia, em sua investida para esvaziar a Lava Jato.
O carnaval da Folha de hoje, contra a Lava Jato, é em cima de um factoide – da mesma natureza dos factoides plantados pela Lava Jato. A maneira como um delator relatou o mesmo episódio para o MPF e para a PF é significativa para se entender como é o jogo de indução na delação, mas, mais do que isso, como é o jogo de interpretações pela mídia.
Objetivamente, o delator Cláudio Mello Filho  disse que procurou o senador Renan Calheiros para apresentar pleitos da Odebrecht. Na conversa, Renan teria solicitado contribuições para sua campanha. Não houve nenhum condicionamento explícito de apoio às medidas em troca das contribuições de campanha.
O trecho da delação é o seguinte:
“Em determinado momento da conversa, ele me disse que seu filho seria candidato ao governo de Alagoas e me pediu expressamente, que eu verificasse se a empresa poderia contribuir. Acredito que o pedido de pagamento de campanha a seu filho ao governo do Estado de Alagoas, justamente no momento em que se apresentavam os aspectos técnicos relevantes, era uma contrapartida para o forte apoio dado à renovação dos contratos de energia, inclusive publicamente, e que culminou na edição da MP n. 677/15. Entendi, na oportunidade, que esses pagamentos, caso não fossem realizados, poderiam vir a prejudicar a empresa de alguma forma.
(...) Soube posteriormente que foram doados oficialmente R$ 320 mil a pretexto de campanha, sendo R$ 200 mil para a candidatura direta e R$ 120 mil através do diretório estadual do PMDB/AL e depois repassado para a campanha da candidatura, conforme tabela abaixo”.
(...) Minha ação foi de transmitir e apoiar internamente o pedido feito pelo Senador Renan Calheiros, porque era do meu interesse atendê-lo, tendo em vista que a minha empresa tinha agenda institucional permanente no Senado Federal”.
Ou seja, Mello não tinha sequer o controle sobre as doações, já que tinha que defende-las perante o Departamento de Operações Estruturadas da Odebrecht. Se fosse propina – isto é, pagamento de dinheiro amarrado a uma contrapartida – o dinheiro seria carimbado.
No depoimento no inquérito da PF:
"Que para o declarante a doação foi realmente uma doação eleitoral e não pagamento de propina"; "Que Renan não condicionou a sua atuação política à retribuição financeira da Braskem".
A rigor, não há nenhuma contradição entre o depoimento ao MPF e à PF. A rigor, também não há uma informação objetiva que justificasse a abertura do inquérito. Mas o PGR e o MPF tinham suas preferências políticas e sua pretensão de bater recordes mundiais. É esse o teor do questionamento da PF. Qual a razão para abrir o inquérito, desperdiçando recursos e dispersando as investigações?
O MPF está provando, agora, do veneno que criou com os jogos midiáticos. Como passou a falar para o tribunal da mídia, está sendo condenado agora, pela PF, se valendo do mesmo tribunal. E será assim, daqui por diante. Do mesmo modo da opinião da delegada que defendeu a não concessão de benefícios a Sérgio Machado, por sua delação. Pode até ter razão, mas delegada questionar delação do MPF é da mesma natureza que procuradores de Curitiba questionarem o Ministro da Justiça. Provam do próprio veneno.
Na fase inicial, os jacobinos de Curitiba chegaram a denunciar delegados da PF que apuravam a autoria das gravações clandestinas colocadas em celas da delegacia. Os abusos não poupavam ninguém, jornalistas, delegados ou advogados, que também tiveram seus telefones grampeados.
Por outro lado, o excesso de protagonismo dos procuradores provocou ciumeira da corporação da PF. E o desmonte do grupo de trabalho da PF completou a obra. Não existem mais delegados da Lava Jato, mas delegados da PF investigando denúncias apuradas pela Lava Jato.
Agora, todos os abusos que serviram para derrubar Dilma, crucificar o PT e condenar Lula serão utilizados como provas para evitar a condenação de José Serra, a prisão de Aécio Neves e a queda de Temer.
Simples assim.
Fonte: Jornal GGN

domingo, 2 de julho de 2017

The Intercept Brasil: A TURMA DO GRANDE ACORDO ATACA JANOT SOB AS BÊNÇÃOS DO ALGORITMO DA SORTE NO STF


"Cansado de passar vergonha no exterior, Michel Temer cancelou ida à reunião do G20 e decidiu ficar no Brasil para administrar os vexames internos. Acuado pelas denúncias, perdido, sem saber como Deus o colocou no comando do país, o presidente não eleito perdeu a linha em um pronunciamento raivoso, jurando inocência e atacando Janot sem sequer citá-lo diretamente. Embutido no ataque ao procurador geral da República havia também um recado velado para sua base no congresso. Era como se dissesse : “acabou a paciência, turma! Vamos para cima do Janot!”."




A turma do grande acordo ataca Janot sob as bênçãos do algoritmo da sorte no STF

João Filho — The Intercept
Na berlinda, Temer faz de tudo para barrar a Lava Jato; enquanto a sorte não para de sorrir aos tucanos nos sorteios do Supremo.

CANSADO DE passar vergonha no exterior, Michel Temer cancelou ida à reunião do G20 e decidiu ficar no Brasil para administrar os vexames internos. Acuado pelas denúncias, perdido, sem saber como Deus o colocou no comando do país, o presidente não eleito perdeu a linha em um pronunciamento raivoso, jurando inocência e atacando Janot sem sequer citá-lo diretamente. Embutido no ataque ao procurador geral da República havia também um recado velado para sua base no congresso. Era como se dissesse : “acabou a paciência, turma! Vamos para cima do Janot!”.
O pronunciamento de Temer está alinhado à recente subida de tom nos ataques ao procurador feitos por Gilmar Mendes, o juiz que o absolveu no TSE mesmo diante de uma pororoca de provas. Dias antes, o juiz também partiu para cima de Janot sem citá-lo e afirmou que “tudo sugere” uma conspiração contra Michel Temer.
No dia anterior à escolha de Raquel Dodge para a Procuradoria Geral da República e da sessão sobre a validação da delação da JBS no STF, Temer e Gilmar Mendes jantaram juntos. Estiveram também presentes no jantar Eliseu Padilha e Moreira Franco, ambos citados na Lava Jato. O encontro não foi registrado na agenda oficial de nenhum dos presentes. Apesar de imoral, o jantar do juiz com um provável réu que irá julgar não chega a escandalizar, já que não é uma novidade.
Desde as vésperas do impeachment articulado por Temer e sua turma, aconteceram pelo menos 9 encontros entre os dois – todos fora das agendas oficiais, claro, assim como os encontros que teve com Joesley na calada da noite. Procurados pela imprensa, todos os participantes afirmaram que o jantar serviu apenas para discutir a reforma política. Sabendo que estão com a corda no pescoço e conhecendo suas biografias, pode-se afirmar com certa tranquilidade que esta pauta não é a principal preocupação de nenhum dos quatro no momento.
O curioso é que essa indignação repentina tenha vindo à tona no momento em que Temer e sua turma estão na berlinda e fazendo o diabo para obstruir a Lava Jato e concluir o Grande Acordo Nacional.
Logo no dia seguinte ao jantar amistoso, Gilmar Mendes subiu ainda mais o tom dos ataques contra Lava Jato, Janot e o MPF em sessão no STF, mostrando que não medirá esforços na defesa dos seus camaradas. Criticou os abusos do que chamou de “direito penal de Curitiba”, ironizou o acordo de delação de Joesley dizendo que “poderíamos pedir o perdão a Fernandinho Beira-Mar e Marcola”, se revoltou – sem citar nomes – contra os vazamentos da Lava Jato dizendo que “esse tipo de gente é capaz de plantar cocaína no carro de um filho nosso” e afirmou que “o combate ao crime não pode ser feito cometendo novos crimes”.
Por mais que as intenções do juiz não sejam as mais nobres, as críticas aos abusos do Ministério Público e da Lava Jato são válidas. O curioso é que essa indignação repentina tenha vindo à tona no momento em que Temer e sua turma estão na berlinda e fazendo o diabo para obstruir a Lava Jato e concluir o Grande Acordo Nacional. Os abusos, antes toleráveis, passaram a ser motivo de revolta depois que passaram a atingir o mesmo grupo político com o qual Gilmar costuma jantar e participar de churrascadas.

Sorteios da sorte
Na última terça-feira, a ministra Carmen Lúcia redistribuiu a seus colegas cinco inquéritos através de sorteio eletrônico. Para a presidente do STF, eles não teriam relação com a Lava Jato e por isso foram retirados da relatoria do ministro Fachin. Tudo certo até aí, o problema fica por conta do sorteio. Há tempos uma grande desconfiança paira sobre a lisura do processo, e os últimos resultados só fizeram aumentá-la.
Um dos inquéritos contra Aécio Neves caiu nas mãos de Alexandre de Moraes, seu colega de partido até um dia antes de se tornar ministro do STF de Temer. O Procurador Geral da República atribui a Moraes a participação em um esquema com Aécio e Temer para tentar barrar a Lava Jato, como mostra esse trecho do pedido de abertura de inquérito:
“Mais especificamente sobre a Lava Jato, o senador teria tentado organizar uma forma de impedir que as investigações avançassem, por meio da escolha dos delegados que conduziriam os inquéritos, direcionando as distribuições, mas isso não teria sido finalizado entre ele, o MICHEL TEMER e o ex-Ministro da Justiça e atual Ministro do Supremo Tribunal Federal, ALEXANDRE DE MORAES. A partir de 29min40s, AÉCIO comenta:
‘(…) O que vai acontecer agora, vai vir inquérito sobre uma porrada de gente, caralho, eles aqui são tão bunda mole, que eles não notaram o cara que vai distribuir os inquéritos para os delegados, você tem lá, sei lá, tem dois mil delegados na polícia federal, aí tem que escolher dez caras. O do MOREIRA, o que interessa a ele, sei lá, vai pro João, o do AÉCIO vai pro 14 luiscarloscrema.com Zé. O outro filho da puta vai pro, foda-se, vai para o Marculino, nem isso conseguiram terminar, eu, o ALEXANDRE e o MICHEL’”.
Esse é o tamanho da bizarrice que vive o Brasil. Moraes será o relator do inquérito de Aécio e, sabe-se, isso pode ser decisivo na decisão do STF. Relatores podem tomar algumas decisões importantes sem consultar outros ministros e influenciar diretamente no resultado do julgamento, como já vimos em outros casos.
Aécio tem uma sorte gigantesca, maior que o propinoduto que construiu na Cidade Administrativa.
Aécio tem uma sorte gigantesca, maior que o propinoduto que construiu na Cidade Administrativa. Na semana anterior, um outro inquérito do qual é alvo foi redistribuído também através do sorteio eletrônico e caiu no colo de um outro grande amigo seu, Gilmar Mendes. Sim, ele mesmo. Aquele nobre magistrado para o qual Aécio telefona quando precisa de uma ajudinha nas votações no Congresso. Aquele que suspendeu interrogatório do tucano no inquérito sobre Furnas.

(Pedro Lareira/Folhapress)
Portanto, boa parte dos inquéritos contra o tucano terão relatoria de juízes que não são apenas seus amigos, mas aliados que tramam jogadas políticas pouco republicanas quando estão longe dos holofotes. Em maio do ano passado, Gilmar chegou a barrar um inquérito contra o tucano e suspendeu seu depoimento. A fé no amigo é tanta que a defesa de Aécio pediu para que o último inquérito, ainda sob relatoria de Fachin, vá também para Gilmar Mendes.
Mas a sorte tucana nos sorteios do STF é uma benção muito maior, não acabou aí. O inquérito do Rodoanel em São Paulo, aberto contra o senador Serra e o ministro das Relações Exteriores Aloysio Nunes, também caiu nos braços de Gilmar Mendes, para a alegria da massa cheirosa.

Charge de Mário César - masquemario.net
Nas redes sociais, ninguém se conforma com os impressionantes resultados dos sorteios no STF. A sorte tucana faria inveja até mesmo ao falecido deputado João Alves, que jurou ter ganhado 200 vezes na loteria.
Tornar o processo de sorteio transparente não tem sido uma prioridade para o STF. Ao assumir a presidência do tribunal, em setembro do ano passado, Carmen Lúcia determinou que o processo passasse por auditoria apenas em julho deste ano. Mas uma auditoria não basta, o algoritmo precisa ser divulgado, já que ninguém sabe como ele funciona. Qual seria o motivo para o STF esconder o código fonte do algoritmo?
Imagino que seja do interesse do tribunal acabar de vez com as suspeitas que rondam os sorteios.  Ano passado, um cidadão requisitou ao tribunal a divulgação, o que foi negado. A justificativa é de que “não há previsão legal”, o que soa estranho, porque, além da Lei de Acesso à Informação, o regimento interno do STF é claríssimo:  “O sistema informatizado de distribuição automática e aleatória de processos é público, e seus dados são acessíveis aos interessados”. Não há nenhuma justificativa plausível para que  o STF não cumpra a lei e torne públicos e transparentes os processos de sorteios decisivos para o rumo da nação.
E assim, aos trancos e barrancos, mas com muita sorte, o Grande Acordo Nacional vai sendo costurado. Com sorteio, com STF, com tudo. Até aqui, todas as profecias da famosa conversa entre Jucá & Machado vão se confirmando. A única que parece que ficou longe de se concretizar é a “o primeiro a ser comido vai ser o Aécio.”

ENTRE EM CONTATO:


João Filhojoao.filho@​theintercept.com@jornalismowando

domingo, 4 de junho de 2017

The Intercept: A realidade paralela dos políticos das elites





A realidade paralela dos políticos brasileiros

João Filho — 8h53
Governo patina cada vez mais na lama da corrupção, economia continua em frangalhos, mas políticos brasileiros seguem fingindo que está tudo bem.


QUANDO FOI PERGUNTADO sobre sua experiência na área da segurança pública, o novo ministro da Justiça de Temer disse que ela se limitava ao fato de ter sido assaltado. Para dar aquela incrementada no currículo, afirmou também ser sobrinho de duas senhoras que já foram vítimas da violência urbana. Essa declaração dada sem nenhum constrangimento mostra que Torquato Jardim vive numa realidade paralela e, portanto, está em sintonia com o quadro atual da democracia brasileira.
Com essas credenciais, Torquato passa a ocupar a vaga deixada por Serraglio que, não sabemos se já foi assaltado, mas é integrante de um grupo político com vasta experiência em assaltar os cofres públicos. Diferente de Torquato, Serraglio não teve carreira de destaque na área jurídica – muito menos na política –  e a única coisa que o credenciava ao cargo era o fato de ser homem forte de Cunha que, segundo Renan Calheiros, “manda no governo Temer de dentro da prisão”.
Temer resolveu tirar Serraglio do cargo justamente na semana em que foram publicadas conversas de Aécio criticando a fraqueza do ex-ministro, a quem chamou de “um bosta do caralho” por não conseguir domar a Lava Jato. Para evitar que Serraglio voltasse para a Câmara e fizesse com que seu suplente Rocha Loures (PMDB-PR), o Homem da Mala, perdesse o foro privilegiado, Temer tentou empurrá-lo para o Ministério da Transparência. Mas, por algum motivo ainda desconhecido, a manobra não foi bem sucedida. Serraglio negou o convite e reassumiu seu mandato na Câmara. Agora, Loures – o homem que Temer considera ser “da sua mais estrita confiança” –  foi preso e pode virar o mais novo delator da praça. E tudo o que Temer não precisava agora é de outro amigo “falastrão”.
Como se nada estivesse acontecendo, o presidente ilegítimo foi a São Paulo para se reunir com empresários, grandes investidores nacionais e estrangeiros. Diferentemente das reuniões clandestinas que costuma ter com empresários na calada da noite, o jantar aconteceu às claras no Hotel Hyatt. Temer sequer lembrou da crise política e, segundo o Valor, ninguém ali estava interessado nela mesmo:
“Convidados ouvidos pelo Valor disseram que, para a maioria, saber das perspectivas de continuidade das reformas foi mais importante do que eventuais informações sobre as denúncias que envolvem Temer”
Não importa que as pesquisas indiquem que a grande maioria da população seja contra as reformas e deseje a convocação de eleições diretas. Temer tomou o poder com apoio maciço da FIESP e do mercado e é para eles que irá prestar contas. Um presidente de uma empresa estrangeira chegou a bater o martelo“Se o governo conseguir aprovar a reforma trabalhista, ninguém mais tira ele da Presidência. Porque tudo o que se quer é que as reformas sejam aprovadas”.
Quem também estava despreocupado com o lamaçal na qual Temer está mergulhado era o nosso ilustríssimo prefeito João Doria Jr. Ele, que se mostrou revoltado com a corrupção logo após a divulgação dos áudios da delação da JBS que complicam Temer, não parecia nem um pouco preocupado e fez o que faz de melhor: intermediar a relação entre governo e empresários.
“Temer mostrou-se interessado em ouvir os empresários após seu discurso de cerca de 15 minutos. O prefeito de São Paulo, João Doria, decidiu, então, assumir, o papel de “mestre de cerimônias” e provocar os empresários a falar. ‘Puxa a fila e fala sobre isso’, disse Doria a um executivo que tentava elogiar o trabalho da equipe econômica.”
Enquanto trata moradores em situação de rua como lixo a ser varrido e multiplica as cracolândias pela capital paulista, o homem que diz representar o novo na política busca estreitar os laços entre o empresariado/mercado e o governo das velhas raposas da politicagem. Apostando na desgraça da classe política, Doria vai se apresentar nas eleições de 2018 como um cidadão revoltado com a corrupção, apesar de continuar sendo um bajulador de empresários e de políticos corruptos.
No último dia 17, Doria foi a Nova York receber da Câmara do Comércio Brasil-EUA o prêmio de Personalidade do Ano. O Homem da Mala atravessou o oceano para prestigiar a pataquada do seu aliado político, enquanto pipocavam as denúncias contra ele no Brasil. Loures é amigo de Doria e sempre foi habitué dos eventos promovidos pela empresa de lobby do prefeito.
O Homem da Mala abraça João Doria Jr em evento da Lide. (Foto: Reprodução/Facebook Rodrigo Rocha Loures)
Também vivendo uma vida louca numa realidade paralela, Michel Temer apareceu no Twitter, como se nada estivesse acontecendo, para fazer um anúncio histórico à nação:
Com o crescimento de 1% do PIB no primeiro trimestre em relação ao último do ano passado, Temer quer passar a ideia de que finalmente colocou a economia nos trilhos. O crescimento foi mascarado pela agropecuária, que teve um crescimento de 13% graças à safra recorde de grãos. Diferentemente do ano passado, em 2017 o clima ajudou e a produção de milho e soja teve a maior alta dos últimos 20 anos – o que não irá se repetir nos próximos trimestres.
O presidente comemora o “fim da recessão” fingindo não saber que o consumo das famílias continua caindo e o desemprego aumentando. Ou seja, o país está perdendo de 7 a 1 e ele está gritando “É TETRAAAA!” Aécio é outro que segue convicto numa realidade paralela. Enquanto diversos áudios de suas conversas nada republicanas são divulgados, o mineiro aparece nas redes trabalhando normalmente.
Nem parece que seus parentes foram presos e ele só não está na cadeia porque ainda desfruta de foro privilegiado.
Mas Aécio tem ido além. Em uma das conversas interceptadas, o senador usou as expressões  “motoqueiros malucos”  e “passeio de moto”. A conversa é claramente cifrada e nem o tucano mais fanático acreditaria que o assunto principal é moto. Para a PGR e a PF, os “motoqueiros malucos” são os delatores, enquanto “passeio de moto” significa delação. Mas o mineirinho tem apostado firme na realidade paralela e enviou para STF quatro fotos que provariam que aquela foi apenas uma conversa entre amigos motociclistas.
Então ficamos assim: todo brasileiro tem currículo para ser ministro da Justiça. Doria não tem nada a ver com a velha política. O Brasil saiu da recessão. E Aécio não rouba, só faz motocross.

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João Filhojoao.filho@​theintercept.com@jornalismowando