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sexta-feira, 31 de julho de 2020

Águas cercadas: como o agronegócio e a mineração destrutiva secam rios no Brasil



Conflitos pelo uso da água crescem a cada ano e atingem diretamente populações locais; conheça alguns casos

Ribeirinhos do rio São Francisco e de outros aquíferos do semiárido são atingidos frontalmente pelo avanço do agronegócio e da mineração - Foto: Fábio Pozzebom/Agência Brasil

do Brasil de Fato

Águas cercadas: como o agronegócio e a mineração secam rios no Brasil

Lu Sudré
Brasil de Fato | São Paulo (SP) |
A margem do rio é toda cercada, toda tomada. Alguns pescadores que não moram nas beiradas, moram mais afastados, ficam sem acesso. Tem vez que eles caminham longe para poder encontrar uma brecha… O rio está todo cercado pelos donos das roças, tem muitas que é do agronegócio mesmo. Elas pegam a margem toda, não deixam um corredor pras pessoas terem acesso”.
O relato é de uma nordestina que só não se diz pescadora desde que nasceu por não ter vindo ao mundo dentro das águas do rio. Aos 64 anos, Maria Alice Borges sente na pele as mudanças na vida da população que, assim como ela, mora perto da Lagoa do Curralinho, em Itamotinga, no município de Juazeiro (BA).
Após a transposição do São Francisco e chegada da Companhia Hidrelétrica (Chesf), que explora a bacia hidrográfica, ela afirma que a presença de grandes empresas do agronegócio se fortaleceu por toda a região, criando uma realidade trágica por todo perímetro do rio.
Enquanto as águas são usadas para a irrigação do monocultivo de cana e frutas, os pescadores perdem a possibilidade de manter seu modo de vida tradicional e assistem ao fluxo do rio diminuir nos escassos pontos de acesso livre.
De acordo com a Agência Nacional de Águas e Saneamento (ANA), o setor do agronegócio consome 70% das águas no país.
“Aqui na região tem a Ebraz, a Agrovale que é da cana, tem uma grande que é dos japoneses… E de jeito nenhum eles vão dar acesso pras pessoas passarem”, reitera Maria Alice, que já perdeu a conta de quantas empresas atuam na região.
As limitações não estão somente relacionadas ao acesso à margem do rio e também são resultado das transformações impostas por sucessivos megaprojetos na região. A atuação da Usina Hidrelétrica de Sobradinho  – inaugurada pelo governo militar em 1982 –, por exemplo, já fez com que a trabalhadora perdesse seu barco de pesca.
“O rio sobe e o rio desce de acordo com a necessidade da Chesf. Quando querem que aqui tenha água de acordo com interesse de alguém, ela solta a água sem medir as consequências para os ribeirinhos, para os pescadores com embarcações das águas do rio. E dos pequenos agricultores, que plantam feijão e mandioca, não querem saber. A água vem e toma tudo.”
A ÁGUA TEM SIDO CADA VEZ MAIS TOMADA POR GRANDES CORPORAÇÕES E PROJETOS DE IRRIGAÇÃO
Segundo Cristina Nascimento, coordenadora da Articulação no Semiárido Brasileiro (ASA), o perímetro do rio São Francisco é o grande exemplo da expansão do chamado agrohidronegócio. “O mercado olhou para o Nordeste como um lugar de oportunidade a partir da água. Sempre se avaliou que as terras não dariam frutos. Mas água, em boa quantidade, com a outorga do Estado garantindo a autorização para produção, é uma mina”, afirma.
“A água tem sido cada vez mais tomada por grandes corporações e projetos de irrigação, com grandes estruturas hídricas direcionadas para as indústrias. Essa população fica cada vez mais à margem do acesso ao direito. No nosso olhar, a desigualdade social é explicitada no nosso país pelo não acesso”, critica a ativista.
“O rio está todo cercado pelos donos das roças”, lamenta a pescadora Maria Alice / Foto: Arquivo Pessoal
Acirramento 
Relatório da Comissão Pastoral da Terra (CPT)  publicado em abril deste ano, atestou um aumento de 77% nos confrontos pelo uso da água no Brasil. Enquanto em 2018 foram identificados 276 conflitos, em 2019 o número chegou a 489 casos envolvendo mais de 69 mil famílias. O maior já registrado até hoje.
Os conflitos se deram predominantemente pelo uso e pela preservação da água (59,51% dos casos), mas também na luta contra a construção de barragens e açudes (25,7%), em mobilizações contra a apropriação privada dos recursos hídricos e em casos de cobrança do uso da água no campo (14,72 %).
documento considera questões provocadas pela mineração, pela presença de empresários de diversos setores, por hidrelétricas e pela ação ou omissão dos governos federal, estaduais e municipais.
Vítimas do derramamento de óleo na região Nordeste, os pescadores foram afetados em 199 dos conflitos registrados pela CPT, aproximadamente 41% do total. Outras populações atingidas são os ribeirinhos, pequenos proprietários e quilombolas.
Bahia, Sergipe e Minas Gerais concentram 61% dos conflitos. Não por coincidência, ressalta Ruben Alfredo Siqueira, um dos coordenadores da CPT, são essas as regiões mais cobiçadas pela mineração e pelo agronegócio atualmente.
Em entrevista ao Brasil de Fato, Siqueira lamenta que os conflitos remontem a época da ditadura, quando o Centro de Documentação Dom Tomás Balduino foi criado para acompanhar e monitorar episódios de violência contra comunidades tradicionais e trabalhadores do campo vítimas da expansão do latifúndio.
TEM UM DISCURSO DE GERAÇÃO DE EMPREGO E RENDA, DE PROGRESSO. MAS O QUE FICA DESSAS EMPRESAS QUE ATUAM DE FORMA NEOCOLONIAL É O ESTRAGO
Agora, é a água por baixo da terra que está no centro da disputa. Novamente, a atuação da Agrovale, dona da maior área plena de irrigação da cana-de-açúcar no Brasil, é citada.
De acordo com o integrante da CPT, a adutora da empresa atravessava várias comunidades entre Juazeiro (BA) e Petrolina (PE), impedindo o acesso direto da população. Sem outra alternativa, as comunidades locais chegaram a fazer furos na tubulação para acessar as águas do São Francisco.
“Eles estavam cercados de cana, não tinham acesso ao rio, não tinham água. Foi uma luta até que se obrigou a empresa, como parte da negociação das outorgas públicas, a liberar água para as comunidades por onde passava a adutora. E isso não foi prejuízo para a empresa, ficou como negociação, abatimento de imposto”, comenta.
Ruben exemplifica o cenário com outro caso de apropriação particular de um açude no município de Nordestina, pela Companhia de Ferro Ligas da Bahia (Ferbasa).
“Os açudes de várias comunidades, de pescadores inclusive, são onde a empresas captam água [para lavagem do minério] e devolvem o rejeito. Imagina o caos, o conflito que é. Tem um discurso de geração de emprego e renda, de progresso. Mas o que fica dessas empresas que atuam de forma neocolonial é o estrago”, critica.
“Ninguém vai morrer de sede”
O município de Correntina, no oeste baiano, foi palco de um dos conflitos mais intensos por água da história do país. Rica em recursos hídricos e cobiçada por empresas mantidas pelo capital estrangeiro há décadas, o município de pouco mais de 33 mil habitantes viu um dos seus principais rios evaporar.
As comunidades rurais de Fundo e Fecho de Pasto, que sobrevivem por meio da irrigação tradicional do rio Arrojado, integrante da bacia do rio Corrente e um afluente do São Francisco, e da criação de gado, foram frontalmente atingidas com a chegada da Fazenda Igarashi, focada na produção agrícola para exportação.
Tudo começou em 2015, quando Instituto do Meio Ambiente e Recursos Hídricos (Inema) concedeu a Lavoura e Pecuária Igarashi Ltda o direito de retirar do rio Arrojado uma vazão de 182.203 m³/dia, durante 14 horas/dia, para a irrigação de mais de 2.539 mil hectares.
Com o passar do tempo, além da percepção da população, também o Ministério Público do estado constatou que apenas 12 bombas de captação de água ligadas por 12 minutos reduziam o nível da água do rio em 15 centímetros. A água usada cotidianamente pelo povo estava sumindo.

Conflitos pela água no Brasil 3 / Arte: Fernando Bertolo/Brasil de Fato
Ação direta
Em 2017, em resposta à escassez que afetou os moradores, mais de 500 pessoas se manifestaram e destruíram maquinários das fazendas do grupo. O confronto direto gerou um prejuízo estimado pela empresa de R$60 milhões.
NINGUÉM VAI MORRER DE SEDE NA BEIRA DOS NOSSOS RIOS.
O estopim, que ganhou a mídia nacional, era um grito contra a secagem de dezenas de nascentes e regos responsáveis por um sistema de irrigação coletivo e centenário, protegido pelos agricultores e quilombolas.
“Eles se reuniram, entraram na empresa e quebraram tudo. Derrubaram as torres de energia e colocam fogo nas motobombas. No domingo seguinte, tinha 12 mil pessoas na rua em Correntina em apoio à ação feita por esses ribeirinhos. Correntina está sofrendo. Há grandes piscinões que pegam água dos aquíferos para as motobombas alimentarem os pivôs centrais. É uma coisa absurda”, relata Ruben.
“‘Ninguém vai morrer de sede na beira dos nossos rios’. É um grito de guerra que virou uma palavra de ordem e está aí até hoje”, reforça.
População de Correntina ocupou as ruas em defesa do rio Arrojado / Foto: ASA
O coordenador da CPT complementa ainda que a região do Matopiba, que engloba áreas de quatro estados brasileiros, Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia, começou a ser delimitada pelo governo federal para o agronegócio em 2013.
Ele define o projeto como uma expressão da “financeirização da natureza”, já que incentiva a especulação de terras agrícolas no Cerrado pelo capital estrangeiro. “Eles correm para alguma economia real para embasar, via lastro, a continuidade da especulação. É o capital financeiro agrário”, diz.
Privatização desenfreada
Na avaliação do sociólogo Roberto Malvezzi, membro das Equipes de Assessoria da Rede Eclesial Pan-Amazônica e da Comissão de Ecologia Integral da CNBB, o momento político brasileiro nunca foi tão favorável às empresas privadas do setor da água, a exemplo do novo marco do saneamento básico.
Para avançar em direção às águas dos rios e dos aquíferos de água doce disponíveis no mundo, ele explica que a chamada oligarquia transnacional das águas, que também conta com grandes empresas engarrafadoras como Ambev e Coca-Cola, tentam subverter a lógica da água como um direito humano fundamental a partir de uma nova narrativa.
“A narrativa é a de que a melhor forma de gerenciar um recurso escasso dotado de valor econômico, é sua privatização. Transformaram isso em política no mundo inteiro. Na verdade, há uma escassez social: O manancial está ali mas está inapropriado. A pessoa está ali mas não pode acessar aquela água. Os canais estão cercados, as pessoas que estão na vizinhança não podem nem pegar um balde de água. Aquela água já tem dono. É esse tipo de escassez que precisamos considerar”, defende.
“Perímetro da morte”
Na Chapada do Apodi, formação montanhosa brasileira localizada na divisa entre os estados do Rio Grande do Norte e do Ceará, o agronegócio e sua ampla demanda por irrigação também estão presentes.
Os aquíferos Açu e Jandaíra são os alvos principais da fruticultura da região, principalmente para a produção de melão, melancia e mamão. Agnaldo Fernandes, agricultor e líder comunitário da região, detalha que mais de 16 áreas de assentamento da reforma agrária na região estão ameaçadas em períodos de seca devido à criação do grande perímetro irrigado, chamado pelos movimentos sociais como “perímetro da morte”.
A ÁGUA É PRIVADA, AS EMPRESAS A SUGAM E INVIABILIZAM O MODO DE VIDA CAMPONÊS.
Assim como em Correntina, segundo ele, a implantação de grandes e médios empreendimentos do agronegócio no território tem secado os lençóis freáticos da região. Agnaldo conta que as empresas como a Agrícola Famosa, apoiada pela Bayer, e Melão Mossoró, são algumas das responsáveis por comprometer o abastecimento de água comunitário na região.
“O poço da comunidade está há 100 metros de profundidade, no máximo, enquanto a empresa chega e perfura poços de até 500 metros de profundidade. Onde vai faltar água primeiro? Para as pessoas. A água é privada, as empresas a sugam e inviabilizam o modo de vida camponês”, lamenta.
Além da ameaça à soberania alimentar,  ele afirma que o agrohidronegócio que afeta a região cria um imbróglio político, já que o fornecimento de água passa ser utilizado como barganha eleitoral por parte de alguns políticos.
Enquanto a população vive sob ameaça, Agnaldo alerta que as empresas seguem “conquistando” novos limites territoriais. “Em Baraúnas se perfura o chão todo e não encontra mais água. As empresas vão migrando. Para nós, não. Não temos essa facilidade. Temos uma identidade muito forte com a terra”.
Água envenenada
Os ativistas do Apodi também denunciam há décadas o intenso uso de agroquímicos na região, e os impactos da prática para a saúde pública e para o meio ambiente. Foi por ser um expoente dessa luta que o ativista José Maria Filho, conhecido como Zé Maria do Tomé, foi assassinado em 2010, em Limoeiro do Norte, no Ceará.
A alta aplicação de agrotóxicos é uma preocupação da pescadora Maria Alice lá na Bahia, às margens do São Francisco. “É agrotóxico demais lançado no rio porque as plantações estão nas margens. Se são irrigadas, esse veneno cai no rio. E aí nos sentimos prejudicados. Sou uma das que não têm acesso à água tratada, bebemos água direto do rio. Ou seja: podemos estar bebendo água envenenada. Sem contar que os peixes sofrem. Não sabemos quando comemos um peixe sadio ou se está com agrotóxico”, desabafa a senhora de 64 anos.
Frente ao cenário, Cristina Nascimento, da ASA, alerta que as multinacionais lucram em cima da chamada “indústria da seca” no semiárido brasileiro.
“A prioridade sempre foi o desenvolvimento econômico. O social, na perspectiva do direito, acontece para justificar a necessidade das obras, mas o acesso ao bem e à água, por exemplo, não é algo previsto”, diz ela.
“Guerras pela água”
Se depender das sinalizações do Congresso Nacional, o alto número de conflitos por água deve se acirrar ainda mais. A opinião de Ruben Siqueira, membro da coordenação nacional da CPT, se baseia no fato de que, na esteira da aprovação do novo marco do saneamento, há também uma ameaça apresentada pelo projeto de lei projeto de lei 495 de 2017, de autoria do senador Tasso Jereissati.
A proposta que cria o chamado Mercado de Águas ainda não está em pauta mas prevê a mudança essencialmente o aspecto mais central da Lei das Águas, que instituiu o Sistema Nacional de Gerenciamento de Recursos Hídricos (SINGREH) e estabeleceu a água como um bem público inalienável. Ou seja, que não pode ser controlada por particulares.
VAMOS VIVER GUERRAS PELA ÁGUA
De acordo com o texto de Tasso, a mudança na lei introduziria um “instrumento destinado a promover alocação mais eficiente dos recursos hídricos”. O projeto prevê que aqueles que detêm outorga de determinadas águas, ou seja, a autorização para usá-las, majoritariamente setores do agronegócio e produtoras de refrigerantes, possam negociar águas excedentes com outros outorgados de uma mesma bacia hidrográfica.
Caso o projeto seja aprovado, para Ruben, o futuro será de alta conflitividade diante da mercantilização escancarada, já facilitada na área do saneamento.
“Vai ser uma Correntina por dia. Em todas as suas facetas e tendões, esse polvo do capital só dá tiro certeiro. Entra em um negócio com garantia legal, institucional, com certeza da lucratividade. E caem fora quando não mais interessa. Se o projeto do Jeiressati for aprovado, ai completa. É a cereja do bolo. Vamos viver guerras pela água”, sustenta o coordenador da CPT.
Edição: Rodrigo Chagas

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domingo, 9 de julho de 2017

O G20 como campo de batalha sobre o clima. Artigo da Deutsche Welle



Presidência alemã do G20 mira mudança climática no encontro em Hamburgo. Uma das grandes questões é se os demais 19 países estarão debilitados após a saída dos EUA do Acordo de Paris – ou ainda mais determinados. Deutsche Welle
Hamburg Protest gegen G20 (picture-alliance/dpa/D. Reinhardt)
Com fantasia de líderes como Trump, Merkel e Putin, grupo protesta em Hamburgo
Líderes das 20 economias mais poderosas do planeta se reúnem neste fim de semana na cidade alemã de Hamburgo. Entre eles, a "premiê do clima" Angela Merkel e o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que chocou o mundo ao retirar seu país do Acordo de Paris.
Com a Alemanha na presidência rotativa do G20, Merkel não se esquiva daquele que promete ser um tópico controverso. Berlim recentemente estabeleceu sua agenda para a conferência, confirmando o clima global como um dos temas centrais.
"A mudança climática estará no topo da agenda", diz Alois Vedder, diretor do departamento de política da WWF Deutschland. "A questão é: qual pode ser o resultado, depois que os EUA se retiraram do Acordo de Paris? Como os demais outros 19 países vão prosseguir? Eles continuarão a se ater ao acordo e assegurarão que suas metas sejam alcançadas?"
A ex-secretária executiva da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre a Mudança do Clima (UNFCCC) Christiana Figueres se reuniu a cientistas e líderes empresariais internacionais para compor uma lista de desejos para o G20, publicado como artigo pela revista Nature.
Ele enfatiza seis metas que o G20 estabeleceu para si até 2020, relativas a energia verde, infraestrutura de baixas emissões, transporte, uso de terras, indústria e finanças. O ano 2020 tem grande importância: não só é a primeira oportunidade para os EUA abandonarem o acordo do clima, como também o "ponto sem retorno", a partir do qual, segundo cientistas, se a temperatura global não cair, a meta dos 2ºC se torna praticamente inalcançável.
"Estamos no limiar de poder virar para baixo a curva das emissões de gases-estufa até 2020, como a ciência exige, para proteger as Metas de Desenvolvimento Sustentável da ONU, e em particular a erradicação da pobreza extrema", afirmou Figueres no comunicado.
Wael Hmaidan, diretor da Climate Action Network (CAN) International, saudou essa análise, dizendo que "caso acordada, ela poderia representar um resultado muito ambicioso e bem-vindo" para a cúpula.
Infografik G20 CO2 Verbrauch POR

O fator Trump
Diante do pano de fundo do G20, há pressão maciça do público em geral, de grupos da sociedade civil, cientistas e personalidades públicas para que se aja em prol do meio ambiente. O artigo da Nature  vem na esteira de posicionamentos de outros setores da sociedade.
Na segunda quinzena de junho, Merkel participou da cúpula Civil 20 em Hamburgo, em que grupos da sociedade civil, inclusive o CAN, apresentaram suas reivindicações ao Grupo dos 20.
"A liderança alemã do G20 tem sido muito aberta para a participação da sociedade civil. Temos visto que ela leva nossos comentários muito a sério", relata Hmaidan, acrescentando que a "abertura e transparência" da Alemanha representa um importante precedente para o futuro do grupo.
Alois Vedder concorda: "A presidência alemã ampliou a agenda para incluir mais tópicos ambientais e sociais. Parece ambicioso, mas o importante é qual será o resultado final."
Apesar desses sinais positivos, a expectativa é que a cidade-sede da cúpula será inundada por ainda mais manifestantes, protestando por mais ação contra a pobreza global e a favor do meio ambiente.
Permanece em aberto quanto se poderá alcançar sem ter a bordo o segundo maior emissor de gases-estufa, os EUA. Enquanto alguns temem que a rejeição do Acordo de Paris por Trump enfraqueça a determinação dos demais países do G20, certos observadores acreditam que o fato até mesmo a fortalecerá.
Até o momento, a União Europeia e a China vêm emitindo sinais fortes de que estão dispostas a redobrar seus esforços a fim de compensar a ausência americana. Dentro dos EUA, algumas cidades e estados se comprometeram a combater o aquecimento global, independente do desligamento anunciado pela Casa Branca.
Outro foco de atenção na cúpula de Hamburgo são países como a Arábia Saudita e a Rússia, que apresentam um histórico de "fazer corpo mole" frente a mudança climática. Segundo Wael Hmaidan, ambos fizeram progressos desde a assinatura do Acordo de Paris, com os sauditas investindo em energias renováveis, e os russos sinalizando que estão a postos para combater o aquecimento global. A atual conferência será um teste para seu comprometimento.
"A Arábia Saudita é uma aliada próxima dos EUA, tendo recentemente assinado um acordo armamentista com o governo Trump", lembra o diretor da Climate Action Network. "É importante ver como isso vai afetar o posicionamento deles quanto à mudança climática", e este é um "grande teste" para o quanto Riad está sob a influência do presidente americano em relação a "outras agendas", como a questão do clima, aponta Hmaidan.
Infografik G20 Reichtum POR
Clima e finanças interligados
Especialistas ressaltam que, além do comprometimento com medidas diretas para reduzir as emissões de CO2, são também essenciais para combater a mudança climática acordos relativos à missão central do G20, de desenvolvimento econômico e regulamentação financeira.
"É importante o G20 assegurar que o futuro sistema financeiro seja combatível com o Acordo de Paris", explica Hmaidan. "Queremos que os países continuem onerando a emissão carbônica, a fim de ajudar a transição de economias baseadas em combustíveis fósseis para a energia renovável."
Para o ativista do clima, o G20 deveria adicionalmente impor um prazo para o fim dos subsídios à indústria de combustível fóssil. Ambientalistas também exigem ação para assegurar que tanto o investimento em desenvolvimento quanto a regulamentação dos mercados financeiros estejam alinhados com o Acordo de Paris e as metas de sustentabilidade das Nações Unidas.
"A cúpula precisa avançar na regulamentação dos mercados financeiros para riscos ambientais: essa é tanto uma questão ambiental quanto social", exige Alois Vedder, do WWF. "Há fundos de aposentadoria que ainda investem em combustíveis fósseis: isso coloca tanto o risco de desastre climático, quanto o de as pessoas perderem suas aposentadorias, se esses investimentos forem mal, porque o setor teve que ser fechado."
Vedder frisa que estão também na pauta do encontro a poluição marinha e – fato inusual para uma cúpula do G20 – o tráfico de animais selvagens. No entanto – num momento em que a Alemanha procura realçar sua imagem como líder em ação climática global e salvadora do Acordo de Paris, enfrentando o imprevisível presidente dos EUA – tudo indica que a mudança climática desempenhará um papel ímpar e polêmico nas conversas em Hamburgo.


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sábado, 29 de outubro de 2016

A vida como imperativo cósmico, por Leonardo Boff






Durate séculos os cientistas tentaram explicar o universo por meio de leis físicas, expressas por equações matemáticas. O universo era representado como uma imensa máquina que funcionava sempre de forma estável. A vida e a consciência não tinham lugar nesse paradigma. Era assunto das religiões.

Mas tudo mudou quando a partir dos anos 20 século passado, o astrônomo Hubble provou que o estado natural do universo não é a estabilidade mas a mudança. Ele começou a se expandir a partir da explosão de um ponto extremamente pequeno mas imensamente quente e repleto de virtualidades: o big bang. A partir daí formaram-se os quarks e os léptons, as partículas mais elementares que, uma vez, combinadas, deram origem aos prótons e nêutrons, base dos átomos.

Expansão, auto-organização, complexificação e emergência de ordens cada vez mais sofisticadas são características do Universo. E a vida?

Não sabemos como surgiu. O que podemos dizer é que a Terra e o inteiro Universo trabalharam bilhões e bilhões de anos para criar as condições do nascimento desta belíssima criança que é a vida. É frágil porque pode facilmente adoecer e morrer. Mas também é forte, porque nada até hoje, nem os vulcões, nem os terremotos, nem os meteoros, nem as dizimações em massa em eras passadas, conseguiram extingui-la totalmente.

Para que surgisse a vida foi preciso que o Universo fosse dotado de três qualidades: ordem, vinda do caos,complexidade, oriunda de seres simples e informação, originada pelas conexões de todos com todos. Mas faltava ainda um dado: a criação dos tijolinhos com os quais se constrói a casa da vida. Esses tijolinhos foram forjados dentro do coração das grandes estrelas vermelhas que arderam por vários bilhões de anos. São os ácidos químicos e demais elementos que permitem todas as combinações e todas as transformações. Assim não há vida sem que haja a presença do carbono, do hidrogênio, do oxigênio,do nitrogênio, do ferro, do fósforo e dos 92 elementos da escala periódica de Mendeleev.

Quando estes vários elementos se unem, formam o que chamamos de molécula, a menor porção de matéria viva. A união com outras moléculas criou os organismos e os órgãos que constituem os seres vivos, das bactérias aos seres humanos.

Foi mérito de Ilya Prigogine, prêmio Nobel de química de 1977, ter mostrado que a vida resulta da dinâmica da auto-organIzação intrínseca do próprio universo. Revelou também que existe uma fábrica que produz continuamente a vida. O motor central desta fábrica da vida é formado por um conjunto de 20 animoácidos e 4 bases nitrogenadas.

Os aminoácidos são um conglomerado de ácidos que combinados permitem surgir a vida. Eles se compõem com quatro bases de nitrogênio que funcionam como uma espécie de quatro tipos de cimento que unem os tijolinhos formando casas, as mais diversificadas. É a biodiversidade.

Temos, portanto, a mesmo código genético de base criando a unidade sagrada da vida, dos micro-organimos até os seres humanos. Todos somos, de fato, primos e primas, irmãos e irmãs, como o afirma o Papa em sua encíclica sobre a ecologia integral (n.92) porque somos formados pelos mesmos 20 aminoácidos e as 4 bases nitrogenadas (adenina, timina, guanina e citosina).

Mas faltava um berço que acolhesse a vida: a atmosfera e a biosfera com todos os elementos essenciais para a vida: o carbono, o oxigênio, o metano,o ácido sulfúrico, o nitrogênio e outros.

Dadas estas pré-condições, eis que há 3,8 bilhões de anos, aconteceu algo portentoso. Possivelmente do mar ou de um brejo primitivo onde borbulhavam todos os elementos como uma espécie de sopa, de repente, sob a ação de um grande raio relampejante vindo do céu, irrompeu a vida.

Misteriosamente ela está aí já há 3,8 bilhões de anos. No minúsculo planeta Terra, num sistema solar de quinta grandeza, num canto de nossa galáxia, a 29 mil anos luz do centro dela, aconteceu o fato mais importante da evolução: a irrupção da vida. Ela é a mãe originária de todos os viventes, a Eva verdadeira. Dela descendem todos os demais seres vivos, também nós humanos, um sub-capítulo do capítulo da vida: a nossa vida consciente,

Por fim, ouso dizer com o biólogo também prêmio Nobel Christian de Duve e o cosmólogo Brian Swimme, que o Universo seria incompleto sem a vida. Sempre que se atinge certo nível de complexidade, a vida surge como um imperativo cósmico, em qualquer parte do Universo.

Devemos superar a ideia comum que o universo é uma coisa meramente física e morta, com pitadinhas de vida para completar o quadro. Essa é uma compreensão pobre e falsa. O universo parece estar cheio de vida e é para isso que ele existe, como o berço acolhedor da vida, especialmente da nossa.

Leonardo Boff escreveu com M.Hathaway O Tao da Libertação,  premiado em 2010 nos USA com a medalha de ouro em nova ciência e cosmologia.

Fonte: Leonardo Boff Wordpress

domingo, 23 de agosto de 2015

Capitalismo X Meio Ambiente: "Modelo de economia está está em guerra com a vida na Terra", afirma a ambientalista Naomi Klein



"Mudanças climáticas têm muito mais a ver com capitalismo do que com carbono", diz Naomi Klein

Texto originalmente publicado por Creative Commons, traduzido e apresentado pelo Portal Eco D

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  A nova obra de Klein vai argumentar que a mudança climática não é apenas outro item a ser habilmente arquivado entre impostos e assistência médica
Foto: Troy Page / t r u t h o u t

O novo livro da autora e ativista Naomi Klein vai explorar como nosso atual ''modelo de economia está em guerra com a vida na Terra''.

O título do livro não é difícil de ser entendido: Isso muda tudo: Capitalismo versus Meio ambiente.
Esperado para setembro, o novo trabalho da jornalista, ativista e intelectual canadense Naomi Klein tem sido divulgado em um vídeo que expõe seus principais temas e argumento central.

''Em dezembro de 2012, um grupo de cientistas foi até o palco da União Geofísica Americana para apresentar um artigo'', diz a narradora do vídeo - a própria Klein - enquanto imagens mostram o crescimento urbano e a queimada de lavouras.

E a narração continua:

O artigo foi intitulado ''A Terra está ferrada?''. E sua resposta foi: ''Sim. Bastante.'''

É para onde a estrada onde estamos está nos levando, mas isso tem menos a ver com carbono do que com o capitalismo. Nosso modelo de economia está em guerra com a vida na Terra. Não podemos mudar as leis da natureza, mas podemos mudar nossa economia falida.

E é por isso que as mudanças climáticas não significam apenas um desastre. É também nossa grande chance de exigir - e construir - um mundo melhor. Mudar ou ser mudado. Mas não se enganem... isso muda tudo.
Assista:



De acordo com a editora Simon & Schuster, Isso muda tudo é uma ''brilhante explicação de como nossa crise climática nos desafia a abandonar o centro da ideologia do 'mercado livre' do nosso tempo, reestruturar a economia global e refazer nossos sistemas políticos''.

Descrita como mais importante e visionário do que seu best-seller anterior, Doutrina do Choque, a nova obra de Klein vai argumentar que a mudança climática não é apenas outro item a ser habilmente arquivado entre impostos e assistência médica. É um alerta que nos chama a ajustar nosso sistema econômico que já está nos extinguindo de diferentes formas.

Klein argumenta meticulosamente que a redução maciça da emissão de efeito estufa é a nossa melhor chance de simultaneamente diminuir as desigualdades, repensar nossas democracias falidas e reconstruir nossas tristes economias locais. Ela expõe o desespero ideológico daqueles que negam a mudança climática, as ilusões messiânicas dos pretensos geoengenheiros e o derrotismo trágico de muitas iniciativas verdes tradicionais.

Temos de entender o fato de que a revolução industrial que levou prosperidade a nossa sociedade está agora desestabilizando o sistema natural do qual dependem nossas vidas.
Esses argumentos não serão novos para quem segue o trabalho de Klein - e os argumentos similares de muitos outros nos últimos anos - mas a expectativa é de que assim como na abordagem anterior sobre o capitalismo moderno em Doutrina do Choque, ela vai apresentar sua análise mais completa da situação atual e sua visão do futuro.

Em discurso para um dos maiores sindicatos do Canadá, Klein disse aos membros da Unifor que se foi o tempo em que os trabalhadores e os interesses industriais entregam suas mentes ao que dita a ciência climática sobre o modelo econômico vigente do capitalismo global dominado pelas corporações.

Ela também discutiu a ideia de que as mudanças climáticas não devem ser vistas como um desastre, mas como uma enorme oportunidade para reformar o paradigma político e a luta por justiça global. Ela declarou à plateia de trabalhadores:

A ideia que quero trazer a vocês é que a questão das mudanças climáticas - quando toda a sua economia e implicações são entendidas - é a mais poderosa agenda progressista que já existiu para a igualdade e a justiça social.

Mas primeiro nós temos que parar de fugir da crise climática, parar de deixar isso para os ambientalistas e nos confrontarmos com o problema. Temos de entender o fato de que a revolução industrial que levou prosperidade a nossa sociedade está agora desestabilizando o sistema natural do qual dependem nossas vidas.
''As mudanças climáticas", ela acrescentou, ''não são um item para você adicionar à lista de coisas com as quais se preocupar. São um alarme para a civilização''.

(Via Jon Queally, do Common Dreams)

sexta-feira, 28 de novembro de 2014

Leonardo Boff e o novo Paradigma que se esforça para emergir em meio às reações do capitalismo e do fundamentalismo

Segue texto de Leonardo Boff, retirado de seu blog:

Características do novo paradigma cosmológico emergente



Criança geopolítica assistindo ao nascimento do Novo Homem. Pintura de Salvador Dali

Muito se fala hoje de quebra de paradigmas. Mas há um grande paradigma, formulado já há quase um século, que oferece uma leitura unificada do universo, da história e da vida. Ousamos apresentar algumas figuras de pensamento que o caracterizam.

1) Totalidade/diversidade: o universo, o sistema Terra, o fenômeno humano estão em evolução e são totalidades orgânicas e dinâmicas construídas pelas redes de interconexões das múltiplas diversidades. Junto com a análise que dissocia, simplifica e generaliza, faz-se mister síntese pela qual fazemos justiça a esta totalidade. É o holismo, não como soma, mas como a totalidade das diversidades orgânicamente interligadas.

2) Interdependência/re-ligação/autonomia relativa: todos os seres estão interligados pois um precisa do outro para existir e coevoluir. Em razão deste fato há uma solidariedade cósmica de base que impõe limites à seleção natural. Mas cada um goza de autonomia relativa e possui sentido e valor em si mesmo.

3) Relação/campos de força: todos os seres vivem numa teia de relações. Fora da relação nada existe. Junto com os seres em si, importa captar a relação entre eles. Tudo está dentro de campos pelos quais tudo tem a ver com tudo.                                                              

4) Complexidade/interioridade: tudo vem carregado de energias em diversos graus de intensidade e de interação. Matéria não existe. É energia altamente condensada e estabilizada e quando menos estabilizada como campo energético. Dada a interrelacionalidade entre todos, os seres vem dotados de informações cumulativas, especialmente os seres vivos superiores, portadores do código genético. Este fenômeno evolucionário vem mostrar a intencionalidade do universo apontando para uma interioridade, uma consciência  supremamente complexa. Tal dinamismo faz com que o universo possa ser visto como uma totalidade inteligente e auto-organizante. Quanticamente o processo é indivisível mas se dá sempre dentro da cosmogênese como processo global de emergência de todos os seres. Esta compreensão permite colocar a questão de um fio condutor que atravessa a totalidade do processo cósmico que tudo unifica, que faz o caos ser generativo e a ordem sempre aberta a novas interações (estruturas dissipativas de Prigogine). A categoria Tao, Javé e Deus heuristicamente poderiam preencher este significado.

4) Complementariedade/reciprocidade/caos: toda a realidade se dá sob a forma de partícula e onda, de energia e matéria, ordem e desordem, caos e cosmos e, a nível humano, da forma de sapiens e de demens. Tal fato não é um defeito, mas a marca do processo global. Mas são dimensões complementares.

5) Seta do tempo/entropia: tudo o que existe, pre-existe e co-existe. Portanto a seta do tempo confere às relações um caráter de irreversibilidade. Nada pode ser compreendido sem uma referência à sua história relacional e ao seu percurso temporal. Ele está aberto para o futuro. Por isso nenhum ser está pronto e acabado, mas está carregado de potencialidades. A harmonia total é promessa futura e não celebração presente. Como bem dizia o filósofo Ernst Bloch: “o gênesis está no fim e não no começo”. A história universal cái sob a seta termodinâmica do tempo, quer dizer: nos sistemas fechados (os bens naturais limitados da Terra) deve-se tomar em conta a entropia ao lado da evolução temporal. As energias vão se dissipando inarredavelmente e ninguém pode nada contra elas. Mas o ser humano pode prolongar as condições de sua vida e do planeta. Como um todo, o universo é um sistema aberto que se auto-organiza e continuamente transcende para patamares mais altos de vida e de ordem. Estes escapam da entropia (estruturas dissipativas de Prigogine) e o abrem para a dimensão de Mistério de uma vida sem entropia e absolutamente dinâmica.

6) Destino comum/pessoal: Pelo fato de termos uma origem comum e de estamos todos interligados, todos temos um destino comum num futuro sempre em aberto. É dentro dele que se deve situar o destino pessoal e de cada ser, já que em cada ser culmina o processo evolucionário. Como será este futuro e qual seja o nosso destino terminal caem no âmbito do Mistério e do imprevisível.

7) Bem com cósmico/bem comum particular: O bem comum não é apenas humano mas de toda a comunidade de vida, planetária e cósmica. Tudo o que existe e vive merece existir, viver e conviver. O bem comum particular emerge a partir da sintonia com a dinâmica do bem comum universal.

8) Criatividade/destrutividade: O ser humano, homem e mulher, no conjunto dos seres relacionados e das interações, possui sua singularidade: é um ser estremamente complexo e co-criativo porque intervem no ritmo da natureza. Como observador está sempre inter-agindo com tudo o que está à sua volta e esta inter-ação faz colapsar a função de onda que se solidifica em partícula material (princípio de indeterminabilidade de Heisenberg). Ele entra na constituição do mundo assim como se apresenta, como realização de probabilidades quânticas (partícula/onda). É também um ser ético porque pode pesar os prós e os contras, agir para além da lógica do próprio interesse e em favor do interesse dos seres mais débeis, como pode também agredir a natureza e dizimar espécies (nova era do antropoceno).

9) Atitude holístico-ecológica/antropocentrismo: A atitude de abertura e de inclusão irrestrita propicia uma cosmovisão radicalmente ecológica (de panrelacionalidade e re-ligação de tudo), superando o histórico antropocentrismo. Favorece outrossim sermos cada vez mais singulares e ao mesmo tempo, solidários, complementares e criadores. Destarte estamos em sinergia com o inteiro universo, cujo termo final se oculta sob o véu do Mistério situado no campo da impossibilidade humana.

10) O possível se repete. O impossível acontece: o Mistério.