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segunda-feira, 17 de fevereiro de 2020

Boaventura de Sousa Santos sobre os sinais não governamentais de desenvelhecimento do mundo



Pessoas de todas as idades voltam a se insurgir. Buscam zonas libertadas de capitalismo, colonialismo e patriarcado. Sondam economias comunitárias, indígenas, feministas, cooperativas. E os poderes: irão finalmente envelhecer?

Beirute, Líbano, novembro de 2019: como em Santiago, Bogotá, Paris, Quito, Roma ou Alger, “os poderes que produziram o envelhecimento do mundo serão cada vez mais confrontados”

Por Boaventura de Sousa Santos
Na vida pessoal, o envelhecimento depende menos da idade fisiológica do que da idade social. A idade social é inversamente proporcional à capacidade de pensar, sentir e viver o novo como futuro, como tarefa, como presente por experimentar. É-se tanto mais jovem quanto maior é a capacidade de viver a vida como se ela fosse uma experiência de constantes recomeços que apontassem não para repetições do passado, mas antes para futuros – mapas por explorar e caminhos por trilhar com disponibilidade para enfrentar riscos, assumir ignorâncias e responder a desafios novos. É o futuro como antecipação, como “ainda não”, como latência, como potência. Como sabemos que nunca vivemos senão no presente, o futuro é sempre o presente incompleto, o presente como tarefa, como acontecimento, pelo qual somos pessoalmente responsáveis. Ter futuro é ser dono do presente. Pelo contrário, é-se tanto mais velho quanto mais se vive convencido de que o mundo já decidiu por nós o que podemos esperar ou não esperar e que, consequentemente, o futuro está fechado para nós. Envelhecer é, pois, viver de repetição ou em repetição como se cada repetição fosse única e irrepetível. É passar os dias como se fossem os dias a passar com a indiferença do passeio diário.
São três os modos de viver de repetição: como se o passado fosse um eterno presente e tanto as rotinas como as instituições e as notícias o confirmassem dia-a-dia (envelhecimento por morte viva); como se o passado tivesse passado e tivesse deixado no seu rastro um vazio inabarcável que só o jogo de cartas, a televisão ou a conversa sobre doenças pode iludir (envelhecimento por vida morta); ou, finalmente, como se tanto o passado como o futuro estivessem igualmente distantes e inacessíveis, criando assim um pânico insuperável que só o gasto excessivo do corpo no álcool, nas drogas, na academia, na igreja ou na terapia pudesse iludir (envelhecimento por vida sem morte).
Nas sociedades de corpos industrializados e informatizados em que vivemos foram criados serviços públicos e privados para dar assistência às pessoas que têm mais dificuldades com a repetição da repetição. No fundo, trata-se de normalizar a decadência. Nestas sociedades o envelhecimento é sempre o resultado de um esgotamento crónico de energias gastas ou por gastar. Consiste em pôr convictamente o letreiro de lotação esgotada à porta do teatro da vida, mesmo que há muito se não represente nele uma peça, ou mesmo que nunca se tenha feito nele um primeiro ensaio. No caso das duas primeiras formas de envelhecimento, o objetivo é investir no passado como se não tivesse passado. Consiste cada vez mais na comercialização de serviços de co-envelhecimento. São, em geral, eficazes porque a invenção da repetição oculta astuciosamente a repetição da invenção. A ideia básica é que as experiências de envelhecimento, por mais insuportáveis, são sempre mais suportáveis quando partilhadas. No caso da terceira forma de envelhecimento, em vez da onipresença do passado, procura-se a oniausência do passado, um eterno presente que dispensa o futuro de ter de assombrar os vivos com as más notícias que ainda não são. São as técnicas de envelhecimento por rejuvenescimento. É uma versão modificada da metáfora do filme The Curious Case of Benjamin Button, baseado no conto de F. Scott Fitzgerald, no qual o protagonista nasce velho e vai rejuvenescendo à medida que o tempo passa até morrer bebê. Nas técnicas de envelhecimento por rejuvenescimento, o relógio da estação de trem da pequena cidade do sul dos EUA, em vez de andar para trás, pára, e com ele pára o tempo também.
Como referi, a idade social não coincide com a idade fisiológica, mas a descoincidência é maior ou menor consoante os períodos históricos, os contextos sociais e os fatores coletivos que os caracterizam. O mesmo acontece com as sociedades. O mundo industrializado em que vivemos começou a envelhecer aceleradamente na década de 1980. De repente, o futuro fechou-se, o novo senso comum de que não havia alternativa à sociedade capitalista injusta, racista e sexista em que vivíamos entrou nas nossas casas mais rapidamente do que qualquer pizza delivery ou ubereats, propagou-se pelos noticiários, pelas redes sociais emergentes, pela sabedoria prêt-à-porter da comentocracia. Novas experiências e expectativas de vida coletiva estavam para sempre desacreditadas, o mundo era naturalmente injusto, os ricos eram ricos porque mereciam e os pobres eram pobres de tudo, mas sobretudo de juízo; tínhamos de viver com a imperfeição, ainda que a pudéssemos minorar substituindo a racionalidade dos mercados pela irracionalidade do Estado, à custa do qual viviam os menos capazes de sobreviver numa sociedade competitiva.
A primeira-ministra da Inglaterra, Margaret Thatcher, decretou melhor que ninguém a morte do futuro: “There is no Alternative”, a célebre TINA. E Francis Fukuyama transformou essa morte no triunfo final da sociedade ocidental – “o fim da história” – prevalecendo-se do fato de que Friedrich Hegel, estando morto desde 1831, não poderia insurgir-se contra tão idiota interpretação da sua filosofia da história. O cimento desarmado com a queda do Muro de Berlim foi-se rearmando em mil cemitérios do futuro que se foram construindo em todo o mundo. E muitos foram necessários para enterrar tanto futuro.
Este grande procedimento para envelhecer o mundo traduz-se hoje predominantemente na primeira forma de envelhecimento que referi acima, o envelhecimento por morte viva. Mas as duas outras formas de envelhecimento estão igualmente presentes. O envelhecimento por vida morta é a forma de envelhecimento preferida pelos fundamentalismos religiosos. Atuam sobre o vazio causado pelo passado e prometem fazê-lo renascer sob a forma de um futuro glorioso num outro mundo. Para os promotores deste envelhecimento, a vida que vivemos está morta e só pode ressuscitar quando os relógios da história começarem a andar para trás ou quando todos, em uníssono, começarem a dar a hora derradeira da eternidade. Não há responsabilidade social pela injustiça. Há, sim, culpa por sofrê-la, e a única solução é expiá-la.
A terceira forma de envelhecimento (vida sem morte) é a que domina na geração dos millenials, a que nasceu no início do período em que o teatro do mundo fechava a cortina de um futuro diferente e melhor. Foi uma geração condenada a nascer velha. Nasceram sem o passado do futuro porque a ideia da alternativa tinha entretanto desaparecido do horizonte. Por isso, nunca lhes ocorreu derrubar o sistema injusto que lhes roubava a esperança de um futuro diferente e melhor. O seu objetivo foi ter êxito pessoal dentro do sistema. Sacrificaram tempo, direitos, lazer e prazer na esperança de uma vitória que, para a grande maioria, nunca chegou. Queriam vencer o sistema, vencendo no sistema. Era isto que o sistema queria para mais eficazmente os vencer. Essa geração é hoje a que domina na terceira forma de envelhecimento (vida sem morte).
A geopolítica das estratégias de envelhecimento merece uma análise mais detalhada que não cabe aqui fazer. Basta por agora ter em mente que nem o mundo envelheceu uniformemente, nem as formas de envelhecimento se distribuíram por igual no planeta. Foi sobretudo no chamado norte global que, paradoxalmente, as pessoas passaram a querer viver mais tempo sem, no entanto, serem consideradas velhas. O que quero salientar neste momento é que estão a surgir sinais concludentes de que o processo de envelhecimento do mundo não é irreversível. Não se trata de rejuvenescer, o que, como referi acima, é uma forma de enganar o envelhecimento. Trata-se antes de desenvelhecer, ou seja, de voltar a acreditar num futuro diferente e na capacidade para lutar por ele.
Trata-se de rejeitar a repetição infinita do presente porque tal repetição está a conduzir-nos inexoravelmente para o abismo. Emerge uma vontade do novo que não seja uma barbárie porque a barbárie é onde estamos já. Por todo o mundo estão a surgir levantes de pessoas de todas as idades fisiológicas porque, como disse, a diferença fisiológica não conta na perspectiva do envelhecimento ou desenvelhecimento do mundo. Presenças coletivas de jovens e velhos enchendo as ruas e as praças públicas do mundo contra a política da repetição e os políticos repetidos, do Chile à Itália, do Líbano à Índia. São os novos insurgentes inconformados com a iminente catástrofe ecológica, a concentração escandalosa da riqueza, a captura das instituições democráticas por anti-democratas, a irracionalidade dos mercados ditos racionais, o roubo de proporções gigantescas da nossa privacidade e da nossa intimidade pelos novos robber-barons Google, Facebook, Amazon ou Alibaba, a indiferença grotesca pelo sofrimento de imigrantes e refugiados mortos no mar, na selva, no deserto ou depositados em campos de concentração, como se Auschwitz fosse apenas uma memória cruel, hoje superada pela vitória do bem sobre o mal.
As forças políticas de direita, que sempre se alimentaram do envelhecimento do mundo, clamam assustadas contra o que designam como desaforo, como se não fosse desaforo tudo o que levou os novos jovens e os novos velhos a decidir virem para a rua desenvelhecer. As mesmas forças argumentam que não há propostas, ou seja, repetições, as únicas novidades que reconhecem. Mas a verdade é que há propostas. Da Índia ao Chile, as forças repressivas e os partidos políticos confrontam-se com a indignação dos desenvelhecidos contra a letra morta de tanta constituição. Confrontam-se com propostas de assembleias constituintes populares plurinacionais. Confrontam-se com propostas de transportes públicos eficientes e gratuitos como exercício da economia de cuidado para com a natureza. Mas confrontam-se, sobretudo, com a celebração da diversidade nacional, cultural, religiosa, sexual, com a procura de zonas libertadas de capitalismo, colonialismo e patriarcado, com a busca de formas de economia comunitária camponesa, indígena, familiar, feminista, cooperativa.
Na medida em que o mundo desenvelhecer, os poderes que produziram o envelhecimento do mundo e fizeram dele a indústria da sua eternização vão ser cada vez mais confrontados com o desaforo causado pelo seu desaforo. Irão envelhecer?
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segunda-feira, 7 de outubro de 2019

Como o Sínodo Panamazônico pode nos surpreender em defessa da Amazônia e da Vida contra a exploração destrutiva do capitalismo neoliberal, por Leonardo Boff






Entre os dias 6-27 de outubro acontecerá em Roma o Sínodo Panamazônico. Já em 1974 o Papa Paulo VI instituíu a figura do Sínodo, primeiro dos dos Bispos, com representantes de todos os continentes mas também os Sínodos regionais como o Sínodo dos Bispos holandeses em 1980 e o Sínodo dos bispos alemães que está ocorrendo em 2019 e outros.
O sínodo, cujo significado etimológico significa “fazer um caminho juntos” representa uma ocasião para as Igrejas locais ou regionais tomarem o pulso do caminhar de suas igrejas, analisando os problemas, identificando os desafios e buscando juntos caminhos de implementação e atualização do evangelho.
Especial relevância é o Sínodo Panamazônico, pois revela um duplo grau de consciência  no próprio tema básico: “Novos caminhos para a Igreja e para a Ecologia integral”.Trata-se de definir um outro tipo de presença da Igreja nas Américas e especificamente nesta vasta região amazônica que recobre 9 países numa extensão de mais de 8 milhões de kilômetros quadrados. O outro grau de consciência desponta na importância que a Amazônia possui para o equilíbrio da Terra e para o futuro da vida e da humanidade.
A Igreja romano-católica na América Latina e na Amazônia era uma Igreja-espelho da Igreja-mãe da Europa. Depois de cinco séculos era se transformou numa Igreja-fonte, com um rosto afro-índio-europeu. Na homilia de abertura do Sínodo, no dia 4 de outubro, o Papa Francisco disse claramente:” Quantas vezes o dom de Deus foi, não oferecido, mas imposto! Quantas vezes houve colonização em vez de evangelização! Deus nos preserve da ganância dos novos colonialismos”. Numa outra ocasião em Puerto Maldonado no Peru, fez um pedido de perdão, nunca feito por nenhum Papa antes:”Peço humildemente perdão, não apenas pelas ofensas da própria Igreja mas pelos crimes contra os povos originários durante a conquista da América”.
No Instrumento de Trabalho, em preparação ao Sínodo, se pede que sejam ordenados “viri probati”, quer dizer, homens casados, comprovamente honrados, especialmente indígenas, para serem ordenados sacerdotes. O bispo emérito do Xingu, a maior diocese do mundo, Dom Erwin Kräutler, sugeriu ao Papa que ao invés de dizer “viri probati”(homens) se diga “personae probatae (pessoas comprovadas),o que inclui as mulheres. Diz ele: elas nas comunidades fazem tudo o que o padre faz, menos consagrar o pão e o vinho. Por que não conceder-lhes também esta missão? Maria, deu à luz Jesus, o Filho de Deus. Suas irmãs, as mulheres, por que não podem representá-lo? Ademais o texto diz que se dará às mulheres uma missão especial. Bem poderia ser, como é feito em todas as demais igrejas cristãs, que mulheres se tornem, a seu jeito, também sacerdotes.
Esse Papa é inovador e corajoso. Dizem os melhores teólogos que não há nenhum dogma e nenhuma doutrina que impeçam às mulheres de representar o Cristo. Teologicamente não é o padre que consagra. É Cristo quem consagra. O padre apenas lhe dá visibilidade. Só o patriarcalismo ainda reinante impede de ordenar mulheres.
A questão mais aguda e importante é a salvaguarda do bioma amazônico. Essa vasta região foi objeto de pesquisa de grande cientistas já há dois séculos. Dizia Euclides da Cunha em seus ensaios amazônicos:”A inteligência humana não suportaria o peso da realidade portentosa da Amazônia; terá que crescer com ela, adaptando-se-lhe, para dominá-la (Vozes 1976,p.15). Ela é o grande filtro do mundo que sequestra o dióxido de carbono, mitiga o aquecimento global e nos entrega oxigênio. Nela a biodiversidade é tanta que “em poucos hectares da floresta amazônica existe um número de espécies de plantas e de insetos maior que toda a flora e fauna da Europa”nos diz o grande especialista E.Salati.
Mas seu significado maior reside na imensidão das águas, seja dos rios volantes (umidade das árvores, mil litros por copas de 20 metros) seja da superfície do rio, seja do imenso aquífero Alter do Chão. Sem a preservação da floresta em pé, o Amazonas pode se transformar num deserto como o Saara que há 15 mil anos era uma espécie de Amazônia,com o rio Nilo desaguando no Atlântico. Cinquenta billhões de toneladas de dióxido de carbono seriam lançadas ao céu, caso a Amazônia fosse desflorestada, tornando impossível a vida no sul do Continente.
O papa se referiu à situação da Amazônia ao analisar a situação atual do mundo,”a Terra é cada vez mais interconectada e habitada por povos que fazem parte de uma comunidade global; por exemplo, o problema dos incêndios na Amazônia, não é apenas daquela região. É um problema mundial, assim como o fenômeno migratório”.
Mais e mais cresce a consciência de que o bioma amazônico é um Bem Comum da Terra e da Humanidade. O apelo à soberania de cada país, se move ainda no velho paradigma que dividia o planeta em partes. Agora se trata de reunir as partes e construir a Casa Comum para nós e para toda a comunidade de vida. O Brasil não é dono da Amazônia (63%), é apenas seu administrador, agora sob o novo governo, de forma altamente irresponsável. Faz pouco caso dos incêndios e em função dos minérios, do petróleo, de hidrelétricas e de outras riquezas, incentiva grandes projetos que ameaçam os povos originários – aqueles que sabem cuidar e preservar a floresta – e o equilíbrio ecológico de toda a Casa Comum.
Corre um projeto subscrito por dezenas de caciques, bispos, autoridades, cientistas e outros a ser apresentado no Sínodo que é de declarar a “Amazônia, santuário intangível da Casa Comum”!
Como a UNESCO já tombou vários biomas em vários países, por que não fazê-lo da Amazônia, na qual se joga, em parte, o futuro da vitalidade da Terra e de nossa civilização?
Leonardo Boff é ecoteólogo, filósofoe escritor.

quarta-feira, 2 de outubro de 2019

A busca destrutiva de Bolsonaro pelos minérios da Amazônia, a degradação ambiental e o falso e cínico discurso de que tal degradação é crescimento e ajudará os pobres....



  • O mundo está perto do esgotamento de seus recursos.
  • Há uma enorme desigualdade de renda. Mas qualquer tentativa de melhoria na situação dos mais pobres acelerará mais ainda o esgotamento das reservas, se a redução da desigualdade se der em ambiente de crescimento econômico.
  • Como os mais ricos são os grandes consumidores de recursos naturais, o único caminho seria reduzir o crescimento e a desigualdade. Assim, os mesmos recursos seriam repartidos por mais pessoas, sem esgotar os recursos naturais.

A falsa relação entre redução das desigualdades e preservação ambiental, por Luis Nassif



O sociólogo e economista Marcelo Medeiros deu uma entrevista instigante ao Valor. Nela, diz ser impossível reduzir a desigualdade pelo modelo atual de crescimento.
Sua lógica é simples:
  • O mundo está perto do esgotamento de seus recursos.
  • Há uma enorme desigualdade de renda. Mas qualquer tentativa de melhoria na situação dos mais pobres acelerará mais ainda o esgotamento das reservas, se a redução da desigualdade se der em ambiente de crescimento econômico.
  • Como os mais ricos são os grandes consumidores de recursos naturais, o único caminho seria reduzir o crescimento e a desigualdade. Assim, os mesmos recursos seriam repartidos por mais pessoas, sem esgotar os recursos naturais.
A redução das desigualdades é fundamental por diversos motivos. Mas não como condição essencial para o meio ambiente.
A razão é simples.
Apenas um percentual da renda dos mais ricos se destina ao consumo. Quanto mais rico, mais a parcela maior de renda se destinará a acumulação e ao reinvestimento. Já a renda do mais pobre se destina totalmente ao consumo.
A explosão do consumo de commodities, alimentos e minérios, nas últimas décadas, se deveu ao enorme processo de inclusão ocorrido nos BRICs, especialmente na China e na Índia.
Evidentemente, a única forma de reduzir desigualdade não é a renda. O orçamento público pode ser um formidável indutor de distribuição de renda indireta, ampliando os gastos com saneamento, educação, saude, renda básica. Mas este é o primeiro passo da inclusão. O segundo passo é a autonomia financeira da família e sua entrada no mercado de consumo.
Não significa que se deva reduzir o ritmo de inclusão, para não exaurir as possibilidade do planeta. Significa que a inclusão deve obrigar a uma radicalização nas outras formas de preservação ambiental.
A segunda grande dúvida é a distribuição de renda sem crescimento. Lula conseguiu tirar 40 milhões de família da miséria porque, na outra ponta, o crescimento da economia permitia ganhos para os diversos setores econômicos. E aí se entra em um campo político, desconsiderado tanto por Medeiros como por André Lara Rezende, outro defensor da tese do não crescimento.
Já se formou um consenso entre a Nova Esquerda europeia que não se consegue reduzir a desigualdade através de política fiscal, porque o poder político acumulado pelos donos de capital impede qualquer avanço.
Em um país de mentalidade colonial, como o brasileiro, o quadro é muito mais complexo.

quinta-feira, 2 de junho de 2016

"Democracia brasileira está sob ataque", afirma Naomi Klein

Segundo a pesquisadora internacional, o programa defendido pelo governo interino de Michel Temer teria condições políticas de ser implementado através de eleições. “Não há dúvida de que a democracia brasileira está sob ataque. É um tipo diferente de golpe”, afirma. “Eles estão explorando uma situação de caos, uma falta de democracia, para impor algo que eles não conseguiriam sem crise e com uma democracia real”,  afirma Naomi Klein.

Em entrevista exclusiva, autora de "Doutrina do Choque" também debate alternativas às crises econômica e ambiental



São Paulo, 
"O fato de que Dilma foi reeleita certamente frustou as elites brasileiras", disse a autora / Mariusz Kubik

A Doutrina do Choque, publicado em 2007, marcou uma geração ao apresentar como, ao contrário do que se afirmava, a implementação do neoliberalismo tinha poucas relações com o avanço da democracia liberal pelo mundo. A jornalista canadense Naomi Klein, autora da obra, afirmava: as visões da Escola de Chicago foram primeiramente postas em prática em regimes autoritários, justamente porque contrariam as necessidades da maior parte da população.
As ideias neoliberais, para Klein, se aproveitariam de momentos de crise para avançar. Ela concedeu uma entrevista exclusiva para o Brasil de Fatona qual analisou o momento vivido por nosso país à luz dos debates de seu livro.
Segundo ela, o programa defendido pelo governo interino de Michel Temer teria poucas condições políticas de ser implementado através de eleições. “Não há dúvida de que a democracia brasileira está sob ataque. É um tipo diferente de golpe”, afirma. “Eles estão explorando uma situação de caos, uma falta de democracia, para impor algo que eles não conseguiriam sem crise e com uma democracia real”, completa.
Confira a entrevista abaixo.
Brasil de Fato - Em seu livro, você denuncia o que considera a falsa relação entre neoliberalismo e democracia política. As ditaduras militares latino-americanas ocupam um papel importante no seu argumento. Você poderia explicar isso para nós?
Naomi Klein - O argumento que eu desenvolvo neste livro é o de que nos contaram um conto de fadas sobre como esta forma extrema do capitalismo colonizou o mundo. Essa versão fantasiosa é a de que ela se espalhou pacificamente através das democracias, que a teriam escolhido. Entretanto, se olharmos para a história dos primeiros lugares onde o neoliberalismo foi imposto, ele foi imposto exatamente no oposto [do que nos é dito]: foi necessária uma derrubada da democracia para que ele se desenvolvesse.
As raízes do pensamento neoliberal estão na Universidade de Chicago, que recebeu muito apoio dos industriais norte-americanos, que estavam bastante preocupados com uma virada à esquerda nos EUA. Ela recebeu apoio, por exemplo, do presidente do Citibank. Havia muita preocupação de que, nos anos 1960, o espectro ideológico estivesse se movendo muito à esquerda.
O que é muito interessante é que quando houve um presidente [norte-americano] de direita no final dos anos 1960 e início dos 1970, Richard Nixon, apesar de ele ter contratado conselheiros que vieram da Universidade de Chicago, eles não conseguiram impor essas mesmas ideias neoliberais extremas em uma democracia, porque essas ideias eram muito impopulares. É famoso o fato de que Nixon foi contra os conselhos dados pelos economistas da Escola de Chicago, como Milton Friedman. Ele introduziu uma série de regulações ambientais e medidas de controle de salários e preços, porque a inflação estava muito alta. Friedman disse que "Richard Nixon foi o presidente mais socialista dos EUA" [risos]. O que é importante é que enquanto este projeto falhou nos EUA naquele momento, esses mesmos economistas introduziram as ideias neoliberais na América Latina durante a década de 1970, mas apenas após a realização de golpes de Estado. 
O exemplo mais famoso é o Chile: após a queda do [presidente Salvador] Allende, quando os militares fizeram uma parceria com os economistas da Escola de Chicago, tornando o país um laboratório para essas ideias. Friedman sempre afirmou que a implementação dessas ideias através da brutalidade não tinha relação com as ideias em si, mas pessoas como Orlando Letelier [diplomata chileno durante o governo Allende] diziam que eram dois lados da mesma moeda: nunca é possível introduzir, através da democracia, esse tipo de ideias em países com uma grande população pobre que se beneficia de políticas redistributivas.
Você demonstrava esperança sobre a resistência aos "choques", já que as pessoas teriam aprendido com experiências anteriores. Como você vê, por exemplo, o que aconteceu na Europa após 2008, quando a crise financeira internacional estourou e políticas de austeridade foram implementadas nos países do sul daquele continente?
Esta é uma pergunta muita boa. Eu publiquei A Doutrina do Choque em 2007, pouco antes do colapso financeiro. Honestamente, eu diria que quando escrevi, eu era ingênua. No meu entendimento de como resistir a esta tática, eu acreditava que se as pessoas realmente entendessem a tática - as crises e o caos sendo aproveitados pelas elites para defender políticas inaceitáveis que as enriquecem e empobrecem a maioria - e dissessem "não", a resistência funcionaria. Mas eu acho que o que nós vemos com a experiência do que ocorreu na Grécia e na Espanha, e, na verdade, em todo o sul da Europa, é que resistir somente dizendo "não" - "não queremos a austeridade" - é apenas o primeiro passo, não é suficiente.
O caso do Syriza é exemplar: mesmo quando governos antineoliberais ganham, há maneiras de cercá-los. É necessário haver um "não" forte à "doutrina do choque", mas, especialmente em momento de grandes crises econômicas, também deve haver um "sim" no qual acreditar: deve haver uma articulação simultânea das alternativas à "doutrina do choque", que devem ir além do status quo. Esses momentos de crises demandam uma reposta. As crises dizem que alguma coisa está errada com o sistema. Nós sabemos que a direita tem a tática do choque, mas também deve haver o que eu chamo de "choque popular": uma forma alternativa de responder às crises.
Essa é a razão pela qual eu escrevi This Changes Everything [Isto Muda Tudo, sem edição em português], porque vivemos em um tempo de múltiplas crises, nas quais o sistema está falhando em várias dimensões. Está falhando economicamente, mas também ecologicamente. O que eu acredito é que nós precisamos responder a essas múltiplas crises desenvolvendo uma visão corajosa sobre como a próxima economia deva ser, que possa nos tirar dessa situação de crises em série.
A falha da centro-esquerda, em geral, foi a de não conseguir articular uma alternativa audaciosa o suficiente não só ao neoliberalismo, mas à economia extrativista de forma ampla.
Como você analisa o impeachment contra a presidenta Dilma Rousseff? Alguns analistas brasileiros utilizam suas ideias para explicar o que está ocorrendo. Você concorda com eles?
Eu vi essas análises aplicando a doutrina do choque ao que está acontecendo neste momento no Brasil, e eu penso que elas são convincentes. O fato de que ela [Dilma] foi reeleita certamente frustou as elites brasileiras. Também está claro que há temores [dos políticos] em serem investigados nos escândalos [de corrupção], o que também impulsionou este desejo [de ver Dilma fora do governo]. Eu não sei qual é a grande motivação, mas há diversas coisas acontecendo: o desejo de se livrar das acusações de corrupção e o oportunismo de "nunca desperdiçar uma crise". Esta é uma frase de Rahm Emanuel, prefeito de Chicago. Ele impôs uma série de políticas neoliberais que foram incrivelmente destrutivas, particularmente para a educação e para a habitação.
O PT, sob nenhum aspecto, foi perfeito. Entretanto, a redistribuição levou a uma redução da desigualdade e se combateu a pobreza extrema. Isso é significativo e criou as condições para a reeleição.
Eu realmente não sei qual foi a força motriz, mas a reeleição de Dilma certamente desmoralizou as elites brasileiras e as fez entender que não tinham as condições [políticas] de impôr essas políticas lucrativas para elas. 
Responder a crises não é algo novo. O que eu argumento no livro ADoutrina do Choque é que o neoliberalismo foi uma maneira oportunista de fazer isso, não para resolver as causas das crises, mas apenas para impor políticas que enriquecem as elites e causam mais crises. É isso que estamos vendo no Brasil.
O FMI [Fundo Monetário Internacional] acabou de publicar um relatório há alguns dias no qual diz que o neoliberalismo falhou completamente: não produziu crescimento, produziu desigualdade massiva e instabilidade. E essas são precisamente as políticas que estão sendo impostas no Brasil como uma suposta solução à crise econômica, ainda que saibamos que não funciona. Isso não ocorre porque as elites brasileiras não leram o relatório do FMI, mas sim porque são políticas incrivelmente lucrativas para uma minoria da população. Eles estão explorando uma situação de caos, uma falta de democracia, para impor algo que eles não conseguiriam sem crise e com uma democracia real.
Você concorda com a ideia de que se trata de um golpe?
Não há dúvida que a democracia brasileira está sob ataque. O combate à corrupção foi apenas um pretexto para se livrar da presidenta eleita democraticamente. É um tipo diferente de golpe. Não se trata de um golpe militar, com tanques nas ruas - e nós não devemos dizer que são a mesma coisa -, mas, efetivamente, há um profundo ataque à democracia acontecendo.
A “história oficial” do neoliberalismo aponta os governos Reagan [EUA] e Thatcher [Reino Unido], em países tidos como democráticos, como a origem dessas políticas. Em seu livro, porém, você cita como Thatchercombateu os sindicatos. Até mesmo em democracias, o neoliberalismo é autoritário? Devemos esperar a mesma situação no Brasil?
O que eu argumento em A Doutrina do Choque é que Thatcher não foi capaz de impôr a agenda neoliberal no Reino Unido no seu primeiro mandato. Ela até escreveu uma carta a [Friedrich von] Hayek que eu cito no livro: em uma democracia, é impossível fazer o que foi feito no Chile. O que aconteceu é que a Guerra das Malvinas [da Inglaterra contra a Argentina] estourou e ela explorou o sentimento hipernacionalista e se reinventou como a "primeira-ministra para tempos de guerra", tal como Churchill, e conseguiu ganhar sua reeleição, e então atacou os sindicatos.
Os sindicatos são sempre uma grande barreira à implementação da agenda neoliberal. Eu conto a história do que ocorreu na Bolívia nos anos 1980, quando líderes sindicais eram sequestrados para que não pudessem se organizar, enquanto o choque neoliberal era imposto.
Obviamente, haverá algum tipo de estratégia para desmobilizar. Mas eu acredito que, no Brasil, o jogo ainda não terminou. As histórias estão mudando a todo momento, as pessoas estão fazendo exatamente o que elas deveriam fazer, resistindo nas ruas. Os vazamentos das conversas revelando a trama antes do golpe continuam a criar uma crise [política]. Isso precisa ser divulgado fora do Brasil, colocando pressão sobre governos estrangeiros. Nós não precisamos aceitar a ideia de que tudo vai continuar como está.
Recentemente, tivemos um grande desastre ambiental no Brasil. Em sua última obra, This Changes Everything, você coloca que o capitalismo não só aumentou as desigualdades, mas, hoje, também representa um risco para a própria existência da humanidade. Pode nos explicar isso?
O que sabemos é que se continuarmos fazendo o que estamos fazendo, alcançaremos um nível de aquecimento insustentável. Estamos em um momento em que o capitalismo e a busca pelo crescimento perpétuo estão em guerra contra a vida na Terra. Estamos chegando a um nível em que boa parte do planeta será inabitável por humanos. Está acontecendo mais rápido do que o imaginado. O branqueamento dos corais ano passado foi em uma escala sem precedentes. A Índia e o Paquistão estão passando por ondas de calor de 51º C - algo que os humanos não conseguem aguentar. E isso representa, na média global, um aumento de apenas 1º C - e nós estamos caminhando para um aumento de 6º C, a não ser que ações governamentais diferentes das que estão sendo implementadas até agora sejam tomadas.
As crises são sinais nos dizendo que há algo errado na forma como organizamos nossa sociedade. As crises econômicas apontam para o fato de que é algo sistêmico. Quando nós pensamos nas décadas de 1920 e 1930, quando ocorreu a Grande Depressão, a esquerda respondeu com alternativas muito fortes: propostas sobre como reinventar aquele sistema. Quando nós enfrentamos um choque climático - enchentes, incêndios, grandes tempestades - nós devemos responder tentando mudar o sistema para que nós paremos de enfrentar esses choques.
O Acordo de Paris [sobre o clima] não está próximo o suficiente das nossas necessidades, ele não tem poder vinculativo - é por isso que Donald Trump disse que cancelaria [a participação dos EUA no acordo].
Isso está ocorrendo porque temos um sistema que nos encoraja a empreender uma busca pelo crescimento infinito a qualquer preço. Nós temos economias extrativistas, e vemos que governos de esquerda também falharam em confrontar essa lógica. Isso é verdade para a Venezuela, o Equador e para o Brasil também.
É por isso que digo que, nesses momentos de crise, o sistema revela a si mesmo como irrealizável. Nós devemos dizer "não" à doutrina do choque, mas também devemos ir além, propor um "sim". Temos que elaborar uma visão que vá até a raiz, tanto da instabilidade econômica, como da ecológica. Nesse momento, esse é o verdadeiro desafio para as brasileiras e os brasileiros. O que nós sabemos de outros países é que o "não" sozinho não é suficiente, porque em crises econômicas, as pessoas querem soluções. Elas não querem a doutrina do choque, então a pergunta é: Qual a solução? Qual o plano?
Essa era minha próxima pergunta…
Eu não posso responder para o contexto brasileiro, mas eu posso dizer que no Canadá, onde vivo, estive envolvida em um processo com diversos movimentos sociais que culminou no Manifesto do Salto [Leap Manifesto]. É uma antevisão da sociedade que queremos: como passar de uma economia extrativista - que explora sem fim a Terra, os corpos e a sociedade - para um modelo que respeite o planeta e que garanta o respeito pelo outro. Nós elaboramos 15 demandas por políticas que nos fariam chegar lá. Foi um processo maravilhoso de conectar movimentos - ambientalistas; organizações contra austeridade, contra tratados de livre comércio como o TTPP; a favor dos direitos indígenas.
Nossa perspectiva se fundamentou na visão de mundo dos povos originários, aprendendo com as primeiras nações do nosso país. Defendemos, por exemplo, o uso de energia 100% renovável, mas queremos também mudar a forma de propriedade: nem o controle das grandes corporações, nem do grande poder estatal, queremos controle comunitário. Além disso, os primeiros beneficiários desse novo modelo devem ser as comunidades atingidas pela indústria suja. Assim, [no Canadá], em primeiro lugar os indígenas e, logo em seguida, os latinos e negros.
É o que chamamos de transição justa para a próxima economia. Nós tentamos elaborar isso, talvez seja útil para as pessoas no Brasil conhecerem e se inspirarem a realizar um processo semelhante: se juntar e imaginar o desenho de uma economia pós-extrativista.
Edição: Simone Freire