Mostrando postagens com marcador Crise econômica e falência do neoliberalismo. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Crise econômica e falência do neoliberalismo. Mostrar todas as postagens

domingo, 5 de janeiro de 2014

Para entender a Crise do Capitalismo, intensificada a partir de 2008




Professor da secular Universidade de Coimbra, Portugal, António Avelãs Nunes discorre sobre as causas da crise mundial, a partir da estreiteza do modelo neoliberal, e seu impacto, especialmente na Europa, desde 2008.

Transcrevemos aqui sua entrevista concedida ao jornal Correio da Paraíba por ocasião do recebimento do título de Doutor Honoris Causa pela Universidade Federal da Paraíba, UFPB, em entrevista publicada dia 08 de janeiro de 2012.

Entrevista:

- Professor, como se explica essa sucessão de crises econômicas que vêm atingindo a Europa?

- A crise começou por não ser uma crise europeia. É uma crise do capitalismo como um todo e ela surgiu mais uma vez, como em 1929, no centro do capitalismo e com muitos pontos em comum com a crise de 29.

- O senhor se refere aos Estados Unidos?

- Sim, foi o berço da crise, o maior país do mundo capitalista. Como em 1929, a crise se deve a um período de euforia nas bolsas com desenfreada especulação financeira, ou seja, de jogo de papeis em bancos buscando ganho fácil em cima de juros em detrimento do investimento na produção real de bens.

- O que realmente aconteceu?

- O capital financeiro (especialmente bancário) descobriu uma maneira de se remunerar a partir da especulação sem ter as dificuldades do capital aplicado, produtivo, que dá emprego, e sem os riscos da atividade produtiva normal. Depois, com a consolidação da ideologia neoliberal (após Reagan e Thatcher e com Collor e FHC no Brasil), ou seja, com a liberalização absoluta dos movimentos de capitais – impostas pelos grandes senhores do mundo – o capital financeiro tem se dedicado aos jogos de cassino, a apostar perigosamente para ganhar muito em pouco tempo. Por isso alguns autores tratam o capitalismo atual como capitalismo de cassino. Veja que os bancos apostaram e criaram a crise e foram os que mais receberam dinheiro dos governos depois de esta instalada. Essa tem sido a grande prática do capitalismo nos últimos anos com riscos diagnosticados há muitos anos.

- O senhor poderia ser mais preciso em relação a esse espaço de tempo?

- O próprio Keynes, há 50 anos, alertou para isso: “vamos mal se o capital financeiro se sobrepor ao capital produtivo”. E particularmente Keynes tinha uma grane aversão ao que ele chamava de “rentista” (o que vive de rendas de aplicações financeiras em bancos) e tem uma expressão famosa dele em que defendeu a eutanásia dos rentistas, ou seja, daqueles que vivem das rendas do seu dinheiro, dos que não poupam para a atividade produtiva.

- Que solução o senhor vê para o problema?

- Tenho defendido que o estado deveria intervir com oferta de moeda para evitar que a oferta fosse inferior à procura e assim evitando subir a taxa de juros (exatamente o oposto do que propagam os arautos do neoliberalismo para quem quanto mais auto a taxa de juros, melhor para uma minoria e pior para toda a humanidade). É preciso que o Estado venha a intervir para reduzir a taxa de juros e acabar com o rentista, o endeusado “investidor” especulativo.

- O que realmente esses “rentistas” trouxeram de mau para o mercado?

- Produtos financeiros derivados que são, nada mais nada menos, que objetos de apostas, no capitalismo de cassino em que se transformou o mundo do capitalismo. (Veja-se o documentário de Michael Moore Capitalismo, uma história de amor, sobre o jogo sujo por trás da criação dos tais “derivativos” das bolsas de valores) Os capitalistas dizem que a sofisticação desses produtos financeiros é tal que, muitas vezes, nem os próprios jogadores habituais deste cassino sabem o que compram e vendem...

- E é interessante que a crise tenha chegado à Europa via um banco alemão que havia comprado títulos podres...

- Mas boa parte do sistema financeiro europeu fazia aplicação em títulos podres dos grandes empórios, dos grandes conglomerados financeiros americanos – as companhias de seguros, os fundos de pensão e investimentos privados e todos os bancos. Fazia isso de modo que as poupanças das pessoas comuns foram investidas em produtos que os especialistas já vinham chamando a atenção como sendo armas de destruição em massa.

- Apesar do alerta, todos foram enganados?

- Todos os gurus do neoliberalismo, com o senhor Allan Greenspan à frente, diziam: “o que é preciso é o mercado agir sozinho, nada do Estado regulamentando, nada de intervenção, nenhuma instituição do Estado é mais eficiente que o mercado”. Disseram isso ao Brasil (e FHC assinou embaixo, daí o desmonte do Estado brasileiro configurado nas privatizações) e disseram isso no Congresso americano. O que é bom para o capital financeiro é bom para o mundo. E na audiência no Congresso, o presidente da instituição disse ao Greenspan: “o senhor com essa ideologia nos prejudicou e estamos todos a pagar um preço alto. O senhor não tinha meios para evitar essas consequências?” Respondeu Greenspan: “Não, eu pensava que o não intervir era a melhor opção”... O que levou à réplica óbvia do presidente da instituição: “Então, parece que o senhor se enganou” e o Greenspan, guru nos neoliberais, finalmente disse: “Tenho de reconhecer”.

- E é ainda em Marx que se encontra a melhor explicação para a crise?

-  Eu penso que Marx ainda é o melhor autor que compreendeu o capitalismo. Sem chegarmos ao Marx não compreendemos nada do que se passa. Essa é uma crise tal qual Marx caracterizou as crises do capitalismo. É uma crise que resulta de contradições profundas do capitalismo. Quanto mais o capitalismo estiver livre do Estado, como sonham os neoliberais, e das pressões externas – como o desaparecimento da União Soviética – mais ele se convence que pode tudo.

- Como o fim da União Soviética contribuiu para esse assoberbamento ainda maior do capitalismo?

- O capitalismo se convenceu que tinha sua eternidade garantida. Dizia-se entre os neoliberais estupidamente que a queda do Muro de Berlim marcava “o fim da História”. Passou-se a permitir ao capital todas as liberdades, inclusive, as liberdades que matam, bem como aquilo que o próprio Keynes já havia descrito: o capitalismo tem dois vícios fundamentais, ou produz duas contradições fundamentais: Gera situações de desemprego involuntário e dá origem a desigualdades insuportáveis. E essas duas contradições são bastante prejudiciais ao desenvolvimento da própria economia...

- Que desigualdades são essas?

- As desigualdades de rendimento, as desigualdades de rendas. São duas contradições fundamentais. Essa desigualdade do rendimento só tem se acentuado nos últimos anos e de certa forma pode-se afirmar que a crise foi programada.

- Esse problema começou a se agravar quando?

- Há uns 20 anos, por toda a parte, a ideologia neoliberal vinha procurando reduzir o salário real dos trabalhadores (veja-se aqui no Brasil que o aumento do salário mínimo, um dos menores do mundo, traz a crítica de partidos neoliberais, como o PSDB e do empresariado neoliberal e da mídia atrelada a estes), contrariando toda a teoria econômica do século XVIII. Há estudos da OIT (Organização Internacional do Trabalho), da ONU, da OCDE, além de inúmeros estudos científicos de diversos autores, todos mostrando que as desigualdades têm se acentuado, não só entre os países, mas até mesmo dentro de cada país, inclusive nos mais ricos.

- E não se pode ignorar a importância do trabalho na economia, seja qual for o seu estágio de desenvolvimento...

- É claro que aqui há uma falta de compreensão enorme de que o capitalismo não leva a sério a grande massa da população. E que são os trabalhadores que têm que comprar o que se tem para vender. Essa é a contradição: diminuir o salário de quem é comprador, porque se não venderem não há lucro, não há mais-valia em termos marxistas. Se se esgota, se se reduz o poder de compra dos trabalhadores, está cavada a tumba do capitalismo porque a produção fica sem destino.

- Esse rebaixamento dos salários também se verifica no primeiro mundo?

- Isso também se verifica nos Estados Unidos. Em função da “desterritorialização”  industrial, o capitalismo, em seu afã do lucro máximo, fugiu para todas as chinas possíveis do mundo produtivo. Uma prova disso é que nos últimos anos, o PIB, mantém-se, mas as estatísticas de desemprego são crescentes, porque o crescimento econômico pelas vendas de produtos fabricados em outro0s países não traz o crescimento do emprego interno exatamente porque as atividades industriais não estão mais nos Estados Unidos. O que se verifica é o crescimento do setor terciário (comércio e serviços) com salários muito baixos, em profissões marginais. Isso tudo se vê na Europa, nos Estados Unidos, em toda a parte. A crise se resume a isso: o desvio das poupanças para fins meramente especulativos em prol de uns poucos e, com isso, o fomento da desigualdade de renda e, portanto, da diminuição do poder de compra da população.

- Aliás, grandes industriais americanos sempre defenderam o fortalecimento do poder de compra de seus trabalhadores...

- O próprio Ford comentou: “eu preciso que meus próprios trabalhadores comprem meus próprios automóveis, senão em qualquer dia não poderei mais vende-los.” Num tempo de produção em série, em massa, é preciso um consumo de massa. Não se pode viciar as pessoas apenas em endividar-se, porque numa altura dessas as pessoas não podem pagar.
- Como a Europa mantendo essa consciência crítica deixou-se contaminar?
- Ai é que está: a Europa, atualmente, não tem essa consciência crítica. Quem tem sou eu e eu não sou a Europa. Eu creio que a União Europeia acabou sendo a maior obra do mundo neoliberal. Os tratados estruturantes da União Europeia reproduzem, infelizmente, os dogmas mais fundamentais de toda a falida ideologia neoliberal. Basta irmos ao Banco Central Europeu, sobretudo a partir do tratado de Maastricht com a criação da EU, do sistema europeu de bancos centrais, da moeda única e do chamado pacto de estabilidade e crescimento, que impõem limites em termos de inflação, dívida publica e termos de déficit das contas públicas.

- O senhor se referiu ao Banco Central europeu. O que é que o distingue dos demais?

- O nosso BC europeu é o mais independente de todo o mundo e seus estatutos estão centrados nos tratados europeus, o que significa que só podem, em teoria, ser alterados através de acordo entre os 27 estados membros da UE o que, segundo muita gente, é o maior crime que já se cometeu, pois impede mudanças urgentes. Os estatutos do BC europeu são a coisa mais neoliberal que se pode conceber. O Banco Central Europeu, por conta de seus estatutos, não pode emprestar dinheiro ou garantir dívidas ou de nenhum modo ajudar efetivamente países em dificuldades.

- O que fez o BC europeu, então?

- Emprestou dinheiro aos Bancos Privados a 1% de juros e estes emprestaram aos Estados – Grécia, Portugal, Irlanda – a 10%, 12%, 13%.

quarta-feira, 14 de março de 2012

Leonardo Boff, a crise mundial atual e o momento da inflexão de paradigmas



A Erosão da "Relational Matrix"
Leonardo Boff, 11/03/2012
extraído do site de Leonardo Boff
  Há muitos hoje no mundo inteiro, das mais diferentes procedências, preocupados com a crise atual que engloba um complexo de outras crises. Cada um traz luz. E toda luz é criadora. Mas, de minha parte, vindo da filosofia e da teologia, sinto necessidade de uma reflexão que vá mais fundo, às raizes, de onde lentamente ela se originou e que hoje eclode com toda a sua virulência. À diferença de outras crises anteriores, esta possui uma singularidade: nela está em jogo o futuro da vida e a continuidade de nossa civilização. Nossas práticas estão indo contra o curso evolucionário da Terra. Esta nos criou um lugar amigável para viver mas nós não estamos nos mostrando amigáveis para com ela. Movemos-lhe uma guerra sem trégua em todas as frentes, sem nenhuma chance de vencer. Ela pode continuar sem nós. Nós, no entando, precisamos dela.
  Estimo que a origem próxima (não vamos retroceder até o homo faber de dois milhões de anos atrás) se encontra no paradigma da modernidade que fragmentou o real e o transformou num objeto de ciência e num campo de intervenção técnica. Até então a humanidade se entendia normalmente com parte de um cosmos vivente e cheio de propósito, sentindo-se filho e filha da Mãe Terra. Agora ela foi transformada num armazém de recursos. As coisas e os seres humanos estão desconectados entre si, cada qual seguindo um curso próprio. Essa virada produziu uma concepção mecanisista e atomizada da realidade que está erodindo a continuidade de nossas experiências e a integridade de nosso psiqué coletiva.
  A secularização de todas as esferas da vida nos tirou o sentimento de pertença a um Todo maior. Estamos desenraizados e mergulhados numa profunda solidão. O oposto à uma visão espiritual do mundo não é o materialismo ou o ateismo. É o desenraizamento e o sentimento de que estamos sós no universo e perdidos, coisa que uma visão espiritual do mundo impedia. Esse complexo de questões subjaz à atual crise. Precisamos, para sair dela, reencantar o mundo e perceber a Matriz Relacional (Relational Matrix) em erosão, que nos envolve a todos. Somos urgidos a comprender o signficado do projeto humano no interior de um universo em evolução/criação. As novas ciências depois de Einstein, de Heisenberg/Bohr, de Prigogine e de Hawking nos mostraram que todas as coisas se encontram interconectadas umas com as outras de tal forma que formam um complexo Todo.
  Os átomos e as partículas elementares não são mais consideradas inertes e sem vida. Os microcosmos emergem como um mundo altamente interativo, impossível e ser descrito pela linguagem humana, mas apenas por via da matemática. Forma uma unidade complexa na qual cada partícula é ligada a todas as outras e isso desde os primórdios da aventura cósmica há 13,7 bilhões de anos. Matéria e mente comparecem misteriosamente entrelaçadas, sendo difícil discernir se a mente surge da matéria ou a matéria da mente ou se elas surgem conjuntamente. A própria Terra se motra viva (Gaia) articulando todos os elementos para garantir as condições ideais para a vida. Nela mais que a competição, funciona a cooperação de todos com todos. Ela mostra um impulso para a complexidade, para a diversidade e para a irrupção da consciência em níveis cada vez mais complexos até a sua expressão atual pelas redes de conexões globais dentro de um processo de mundialização crescente.
  Esta cosmovisão nos alimenta a esperança de um outro mundo possível, a partir de um cosmos em evolução que através de nós sente, pensa, cria, ama e busca permanente equilíbrio. As idéias-mestras como interdependência, comunidade de vida, reciprocidade, complementariedade, corresponsabilidade são chaves de leitura e nos alimentam uma nova visão mais harmoniosa das coisas.
  Esta cosmologia é que falta hoje. Ela tem o condão de nos fornecer uma visão coerente do universo, da Terra e de nosso lugar no conjunto dos seres, como guardiães e cuidadores de todo o criado. Esta cosmovisão nos impedirá de cair num abismo sem retorno. Nas crises passadas, a Terra sempre se mostrou a nosso favor, nos salvando. E não será diferente agora. Juntos, nós e ela, sinergeticamente poderemos triunfar.
Leonardo Boff é autor de Homem: Satã ou Anjo Bom? Record, Rio 2008

quinta-feira, 1 de março de 2012

A estranha lógica do Capital na Crise Financeira: Bancos especuladores valem mais que vidas



Carlos Antonio Fragoso Guimarães

  Enquanto pais de famílias se desesperam por perderem seus empregos, estudantes se vêm sem futuro e todo o mundo começa a ter certeza de que o capitalismo sem regras e sem controle é um mal, a infame Revista Veja condena a educação humanista, já que o ensino de Filosofia e de Sociologia, bem como de Psicologia no segundo grau seria uma "doutrinação de esquerda". Críticas idênticas são feitas aos excelentes documentários de Michael Moore (de Fahrenheit 11 de setembro e de Capitalismo, uma História de Amor), de Jennifer Abott e Mark Achbar (de A Corporação) e de Charles Ferguson (de Inside Job, Trabalho Interno). A mesma sórdida Revista Veja, representante da Direita paulista mais reacionária e suas instituições, como a Febraban e a Fiesp, chama de estúpidos os movimentos sociais (que a mídia convencional, em geral, faz questão de desprezar) contra o cassino global dos mercados financeiros especulativos, como o movimento Ocupem Wall Street, e diz que os Gregos (e de regra, seguindo a mesma "lógica" os Portugueses, Espanhóis, Irlandeses, etc.) estão sofrendo as consequencias de suas dívidas e têm mais é de dar o sangue para que o funcionamento do Capitalismo continue exatamente do jeito que está....

  Enquanto o Natal de muitos europeus e norte-americanos foi cheio de apreensão por um futuro incerto, quatro dias antes do dia 25 dedezembro (que já foi do Cristo mas que hoje pertence ao comercial Papai Noel) os bancos europeus receberam um presente extraordinário: 489 Bilhões de euros (ou o equivalente a 1,23 TRILHÕES de Reais), dinheiro do POVO emprestados pelo Banco Central Europeu a juros de 1% AO ANO, recursos estes que não podem ser transferidos diretamente do BCE para os governos e as pessoas, mas que o podem ser pelos bancos beneficiados a juros de mais de 7% AO MÊS! Ou seja, os Bancos - não esquecendo que foram estes, através da jogatina financeira e de estímulo ao endividamento que iniciaram a crise, e nos EUA - podem ter todas as benesses para sobreviver e ainda lucrar, enquanto as pessoas físicas, as pessoas que pagam os impostos e FAZEM A HISTÓRIA, essas não podem. Aliás, se algumas morrerem seria até bom para diminuir a pressão popular contra o capitalismo neoliberal defendido pela Veja. Se na crise de 1929 os responsáveis pelo desastre costumavam se atirar dos prédios, hoje eles sarcasticamente atiram seus empregados e as famílias destes sem pestanejar...

  Interessante essa lógica parcial encampada e tantas vezes endossada pela Revista Veja.... Com uma parcela muito menor desta montanha de dinheiro, seria possível diminuir grandemente a devastação ambiental, incentivar a educação ou mesmo erradicar a fome. Mas Veja-se a escolha das elites financeiras: explorar a tudo e a todos, não importando mais de onde estejam as bocas e os corações (antes, o Terceiro Mundo é quem fornecia as vítimas para o Deus Mercado, hoje, mesmo países "desenvolvidos" fornecem pessoas à Kali financeira de bom grado) e a capacidade do pensar diferente vai-se esvaindo, assim como a capacidade de governança nas democracias vai se restringindo aos poderes e interesses de natureza financeira e midiática, onde os bancos, as bolsas e a televisão ditam as regras e percepções da realidade, cujo núcleo central se resume em um novo dogma materialista: Explorai a todos e acumulai como poucos, esta é toda a Lei e os profetas!

Para entender a Crise Econômica, 1ª Parte





Professor da secular Universidade de Coimbra, Portugal, António Avelãs Nunes discorre sobre as causas da crise mundial, a partir da estreiteza do modelo neoliberal, e seu impacto, especialmente na Europa, desde 2008.

Transcrevemos aqui sua entrevista concedida ao jornal Correio da Paraíba por ocasião do recebimento do título de Doutor Honoris Causa pela Universidade Federal da Paraíba, UFPB, em entrevista publicada dia 08 de janeiro de 2012.

Entrevista:

- Professor, como se explica essa sucessão de crises econômicas que vêm atingindo a Europa?

- A crise começou por não ser uma crise europeia. É uma crise do capitalismo como um todo e ela surgiu mais uma vez, como em 1929, no centro do capitalismo e com muitos pontos em comum com a crise de 29.

- O senhor se refere aos Estados Unidos?

- Sim, foi o berço da crise, o maior país do mundo capitalista. Como em 1929, a crise se deve a um período de euforia nas bolsas com desenfreada especulação financeira, ou seja, de jogo de papeis em bancos buscando ganho fácil em cima de juros em detrimento do investimento na produção real de bens.

- O que realmente aconteceu?

- O capital financeiro (especialmente bancário) descobriu uma maneira de se remunerar a partir da especulação sem ter as dificuldades do capital aplicado, produtivo, que dá emprego, e sem os riscos da atividade produtiva normal. Depois, com a consolidação da ideologia neoliberal (após Reagan e Thatcher e com Collor e FHC no Brasil), ou seja, com a liberalização absoluta dos movimentos de capitais – impostas pelos grandes senhores do mundo – o capital financeiro tem se dedicado aos jogos de cassino, a apostar perigosamente para ganhar muito em pouco tempo. Por isso alguns autores tratam o capitalismo atual como capitalismo de cassino. Veja que os bancos apostaram e criaram a crise e foram os que mais receberam dinheiro dos governos depois de esta instalada. Essa tem sido a grande prática do capitalismo nos últimos anos com riscos diagnosticados há muitos anos.

- O senhor poderia ser mais preciso em relação a esse espaço de tempo?

- O próprio Keynes, há 50 anos, alertou para isso: “vamos mal se o capital financeiro se sobrepor ao capital produtivo”. E particularmente Keynes tinha uma grane aversão ao que ele chamava de “rentista” (o que vive de rendas de aplicações financeiras em bancos) e tem uma expressão famosa dele em que defendeu a eutanásia dos rentistas, ou seja, daqueles que vivem das rendas do seu dinheiro, dos que não poupam para a atividade produtiva.

- Que solução o senhor vê para o problema?

- Tenho defendido que o estado deveria intervir com oferta de moeda para evitar que a oferta fosse inferior à procura e assim evitando subir a taxa de juros (exatamente o oposto do que propagam os arautos do neoliberalismo para quem quanto mais auto a taxa de juros, melhor para uma minoria e pior para toda a humanidade). É preciso que o Estado venha a intervir para reduzir a taxa de juros e acabar com o rentista, o endeusado “investidor” especulativo.

- O que realmente esses “rentistas” trouxeram de mau para o mercado?

- Produtos financeiros derivados que são, nada mais nada menos, que objetos de apostas, no capitalismo de cassino em que se transformou o mundo do capitalismo. (Veja-se o documentário de Michael Moore Capitalismo, uma história de amor, sobre o jogo sujo por trás da criação dos tais “derivativos” das bolsas de valores) Os capitalistas dizem que a sofisticação desses produtos financeiros é tal que, muitas vezes, nem os próprios jogadores habituais deste cassino sabem o que compram e vendem...

- E é interessante que a crise tenha chegado à Europa via um banco alemão que havia comprado títulos podres...

- Mas boa parte do sistema financeiro europeu fazia aplicação em títulos podres dos grandes empórios, dos grandes conglomerados financeiros americanos – as companhias de seguros, os fundos de pensão e investimentos privados e todos os bancos. Fazia isso de modo que as poupanças das pessoas comuns foram investidas em produtos que os especialistas já vinham chamando a atenção como sendo armas de destruição em massa.

Para entender a Crise Econômica, 2ª Parte




- Apesar do alerta, todos foram enganados?

- Todos os gurus do neoliberalismo, com o senhor Allan Greenspan à frente, diziam: “o que é preciso é o mercado agir sozinho, nada do Estado regulamentando, nada de intervenção, nenhuma instituição do Estado é mais eficiente que o mercado”. Disseram isso ao Brasil (e FHC assinou embaixo, daí o desmonte do Estado brasileiro configurado nas privatizações) e disseram isso no Congresso americano. O que é bom para o capital financeiro é bom para o mundo. E na audiência no Congresso, o presidente da instituição disse ao Greenspan: “o senhor com essa ideologia nos prejudicou e estamos todos a pagar um preço alto. O senhor não tinha meios para evitar essas consequências?” Respondeu Greenspan: “Não, eu pensava que o não intervir era a melhor opção”... O que levou à réplica óbvia do presidente da instituição: “Então, parece que o senhor se enganou” e o Greenspan, guru nos neoliberais, finalmente disse: “Tenho de reconhecer”.

- E é ainda em Marx que se encontra a melhor explicação para a crise?

-  Eu penso que Marx ainda é o melhor autor que compreendeu o capitalismo. Sem chegarmos ao Marx não compreendemos nada do que se passa. Essa é uma crise tal qual Marx caracterizou as crises do capitalismo. É uma crise que resulta de contradições profundas do capitalismo. Quanto mais o capitalismo estiver livre do Estado, como sonham os neoliberais, e das pressões externas – como o desaparecimento da União Soviética – mais ele se convence que pode tudo.

- Como o fim da União Soviética contribuiu para esse assoberbamento ainda maior do capitalismo?

- O capitalismo se convenceu que tinha sua eternidade garantida. Dizia-se entre os neoliberais estupidamente que a queda do Muro de Berlim marcava “o fim da História”. Passou-se a permitir ao capital todas as liberdades, inclusive, as liberdades que matam, bem como aquilo que o próprio Keynes já havia descrito: o capitalismo tem dois vícios fundamentais, ou produz duas contradições fundamentais: Gera situações de desemprego involuntário e dá origem a desigualdades insuportáveis. E essas duas contradições são bastante prejudiciais ao desenvolvimento da própria economia...

- Que desigualdades são essas?

- As desigualdades de rendimento, as desigualdades de rendas. São duas contradições fundamentais. Essa desigualdade do rendimento só tem se acentuado nos últimos anos e de certa forma pode-se afirmar que a crise foi programada.

- Esse problema começou a se agravar quando?

- Há uns 20 anos, por toda a parte, a ideologia neoliberal vinha procurando reduzir o salário real dos trabalhadores (veja-se aqui no Brasil que o aumento do salário mínimo, um dos menores do mundo, traz a crítica de partidos neoliberais, como o PSDB e do empresariado neoliberal e da mídia atrelada a estes), contrariando toda a teoria econômica do século XVIII. Há estudos da OIT (Organização Internacional do Trabalho), da ONU, da OCDE, além de inúmeros estudos científicos de diversos autores, todos mostrando que as desigualdades têm se acentuado, não só entre os países, mas até mesmo dentro de cada país, inclusive nos mais ricos.

- E não se pode ignorar a importância do trabalho na economia, seja qual for o seu estágio de desenvolvimento...

- É claro que aqui há uma falta de compreensão enorme de que o capitalismo não leva a sério a grande massa da população. E que são os trabalhadores que têm que comprar o que se tem para vender. Essa é a contradição: diminuir o salário de quem é comprador, porque se não venderem não há lucro, não há mais-valia em termos marxistas. Se se esgota, se se reduz o poder de compra dos trabalhadores, está cavada a tumba do capitalismo porque a produção fica sem destino.

- Esse rebaixamento dos salários também se verifica no primeiro mundo?

- Isso também se verifica nos Estados Unidos. Em função da “desterritorialização”  industrial, o capitalismo, em seu afã do lucro máximo, fugiu para todas as chinas possíveis do mundo produtivo. Uma prova disso é que nos últimos anos, o PIB, mantém-se, mas as estatísticas de desemprego são crescentes, porque o crescimento econômico pelas vendas de produtos fabricados em outro0s países não traz o crescimento do emprego interno exatamente porque as atividades industriais não estão mais nos Estados Unidos. O que se verifica é o crescimento do setor terciário (comércio e serviços) com salários muito baixos, em profissões marginais. Isso tudo se vê na Europa, nos Estados Unidos, em toda a parte. A crise se resume a isso: o desvio das poupanças para fins meramente especulativos em prol de uns poucos e, com isso, o fomento da desigualdade de renda e, portanto, da diminuição do poder de compra da população.

- Aliás, grandes industriais americanos sempre defenderam o fortalecimento do poder de compra de seus trabalhadores...

- O próprio Ford comentou: “eu preciso que meus próprios trabalhadores comprem meus próprios automóveis, senão em qualquer dia não poderei mais vende-los.” Num tempo de produção em série, em massa, é preciso um consumo de massa. Não se pode viciar as pessoas apenas em endividar-se, porque numa altura dessas as pessoas não podem pagar.
- Como a Europa mantendo essa consciência crítica deixou-se contaminar?
- Ai é que está: a Europa, atualmente, não tem essa consciência crítica. Quem tem sou eu e eu não sou a Europa. Eu creio que a União Europeia acabou sendo a maior obra do mundo neoliberal. Os tratados estruturantes da União Europeia reproduzem, infelizmente, os dogmas mais fundamentais de toda a falida ideologia neoliberal. Basta irmos ao Banco Central Europeu, sobretudo a partir do tratado de Maastricht com a criação da EU, do sistema europeu de bancos centrais, da moeda única e do chamado pacto de estabilidade e crescimento, que impõem limites em termos de inflação, dívida publica e termos de déficit das contas públicas.

- O senhor se referiu ao Banco Central europeu. O que é que o distingue dos demais?

- O nosso BC europeu é o mais independente de todo o mundo e seus estatutos estão centrados nos tratados europeus, o que significa que só podem, em teoria, ser alterados através de acordo entre os 27 estados membros da UE o que, segundo muita gente, é o maior crime que já se cometeu, pois impede mudanças urgentes. Os estatutos do BC europeu são a coisa mais neoliberal que se pode conceber. O Banco Central Europeu, por conta de seus estatutos, não pode emprestar dinheiro ou garantir dívidas ou de nenhum modo ajudar efetivamente países em dificuldades.

- O que fez o BC europeu, então?

- Emprestou dinheiro aos Bancos Privados a 1% de juros e estes emprestaram aos Estados – Grécia, Portugal, Irlanda – a 10%, 12%, 13%.

Para entender a Crise Econômica, 3ª Parte

    

        - Por que a crise chegou à Europa?

                - Porque a Europa é uma parte muito clara do mundo neoliberal, travada por seus tratados, pelo estatuto do Banco Central. O Banco Central americano é independente dentro do governo, mas partilha com o governo uma série de políticas públicas para atender ao crescimento e a criação do emprego. Quando o Banco Central europeu diz que seu objetivo principal é a estabilidade dos preços, com essa estabilidade, sacrifica todos os outros objetivos. E os tratados da EU dizem que nenhum estado pode estabelecer acordos com o Banco Central Europeu para pactuar medidas de política econômica.

                - E como ficam os países de economia mais frágil?

                - Se um país mais débil entra em crise na Europa, há uma transferência de soberania e todos perdem. Perdem  a soberania econômica, monetária, cambial e em matéria de pesca e política agrícola, em política de transportes. Mas essa perda de soberania não foi transferida para nenhum órgão de soberania europeia comum, porque não há órgão de soberania europeia com competência para desempenhar uma política de solidariedade de combate à crise (afinal, o neoliberalismo incentiva a competição e a individualização dos lucros, apenas isso).

                - Por que essa divergência de tratamento entre os países do mesmo pacto?

                - Porque o credo monetarista e neoliberal alemão atual e os tratados da União Europeia dizem que os Estados devem reduzir as despesas, aumentar os impostos, retirar direitos sociais dos trabalhadores, diminuir o tempo em que se recebe auxílio desemprego, cortar direitos da seguridade social, diminuir os salários, ou seja, tudo o que Kaynes havia proposto como despesa benéfica do Estados e como transferência para as pessoas, para as famílias, para que estas possam um poder de compra para evitar o declínio da economia. Mas os neoliberais fazem tudo ao contrário, aumentando a crise, e é isso que estão fazendo todos os países. Por isso já se verificou que a Grécia não tem condições de cumprir suas metas. Portugal também não vai cumprir. Estamos em recessão e vamos continuar em recessão. Espera-se que o desemprego em Portugal em 2015 tenha o mesmo índice atual, 11,1% ou 11,2%.

                - Vamos chegar aonde com essa perspectiva?

                - Como é que vamos crescer para pagar juros de 5,1% se os juros do mercado são ainda superiores? Não vamos. Evidentemente que esse não é o caminho. Esse é o caminho sim para liquidar com os direitos dos trabalhadores, liquidar o estado social, partir de novo para a estaca zero. E depois se verá. E nessa altura vão pensar que a solução será renegociar a dívida. Como os autores e pensadores de esquerda têm proposto desde o início da crise grega. Só há uma solução: renegociar a dívida. A Grécia tem que ter mais tempo para pagar e tem que se baixar a taxa de juros e eventualmente têm que lhe perdoar alguma dívida. Senão, ela não paga. Portugal está na mesma situação, a Espanha corre os mesmos riscos. Agora se contaminar a Itália e a Espanha, a Itália vai dar um berro, porque os compromissos dessas nações contaminariam todo o sistema europeu.

                - Essa crise chegará aos países em desenvolvimento, aos emergentes?

                - Há um caso específico entre os emergentes que é o da China, que tem quase 2/3 da dívida dos Estados Unidos, além dos interesses americanos na China (com sua mão de obra barata) e dos interesses chineses em território americano. Se há uns anos os Estados Unidos tivessem chegado a uma situação de não pagamento, o que  a China faria? O problema é que muitas vezes, nas relações internacionais, o maior devedor está mais protegido que o maior credor e aquele, assim, tem de ser tratado com o maior cuidado, como era o Brasil, que foi um grande devedor e tudo era feito para que ele NÃO pagasse nunca suas contas, deixando-o nas mãos dos interesses financeiros internacionais. Antigamente os credores invadiam os devedores à força, agora isso é menos possível. Creio que estamos no mundo que as coisas não me deixam com muito otimismo.

                - Vem mais aperto para o trabalhador em relação à suas suadas conquistas sociais?

                - Isso é o que vem ocorrendo. É absolutamente claro. Na Grécia e em Portugal há uma forte resistência aos partidos de esquerda, aos movimentos sindicais e isso vai continuar. Os socialistas e sociais democratas da Europa são hoje dependentes do neoliberalismo como verdadeiros dependentes químicos, os partidos comunistas praticamente desapareceram, mas creio que as coisas vão chegar a um ponto que alguma coisa deve ser feita.

                - Mas que avaliação pode se fazer dessa perspectiva que só aponta para a crise?

                - O problema é que nessas conjunturas se gera a cultura do medo, promovida especialmente pelas classes dominantes. As pessoas têm medo das incertezas. Penso que estamos à beira de um cataclismo, que pode ser uma guerra mundial ou outra coisa qualquer e pode, inclusive à ditaduras de direita, exatamente como após 1929.

                - E o Brasil nesse contexto?

                - Penso que países como o Brasil estão um tanto protegidos disso, porque se adotar políticas adequadas, o Brasil tem um espaço de segurança própria que é o seu grande mercado interno. Se a agricultura brasileira se voltar mais para a produção de alimentos que para o que chamo de cultura de sobremesa e a indústria se voltar mais para as necessidades de seu mercado interno há uma grande possibilidade de superar a crise, porque, afinal de contas, é um mercado de 180 milhões de pessoas. O Brasil pode ter nesse mercado interno uma espécie de escudo para se proteger. É o caso da China e da Índia também. Os mercados internos desses países permitem uma expansão grande.

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Uma visão ecológica não pode ser consumista


10.01.11 - MUNDO

O antropoceno: uma nova era geológica

Leonardo Boff *

fonte: Adital


As crises clássicas conhecidas, como por exemplo a de 1929, afetaram profundamente todas as sociedades. A crise atual é mais radical, pois está atacando o nosso modus essendi: as bases da vida e de nossa civilização. Antes, dava-se por descontado que a Terra estava aí, intacta e com recursos inesgotáveis. Agora não podemos mais contar com a Terra sã e abundante em recursos. Ela é finita, degradada e com febre não suportando mais um projeto infinito de progresso.
A presente crise desnuda a enganosa compreensão dominante da história, da natureza e da Terra. Ela colocava o ser humano fora e acima da natureza com a excepcionalidade de sua missão, a de dominá-la. Perdemos a noção de todos os povos originários de que pertencemos à natureza. Hoje diríamos, somos parte do sistema solar, de nossa galáxia que, por sua vez, é parte do universo. Todos surgimos ao longo de um imenso processo evolucionário. Tudo é alimentado pela energia de fundo e pelas quatro interações que sempre atuam juntas: a gravitacional, a eletromagnética e a nuclear fraca e forte. A vida e a consciência são emergências desse processo. Nós humanos, representamos a parte consciente e inteligente da Via-Láctea e da própria Terra, com a missão, não de dominá-la mas de cuidar dela para manter as condições ecológicas que nos permitem levar avante nossa vida e a civilização.

Ora, estas condições estão sendo minadas pelo atual processo produtivista e consumista. Já não se trata de salvar nosso bem estar, mas a vida humana e a civilização. Se não moderarmos nossa voracidade e não entrarmos em sinergia com a natureza dificilmente sairemos da atual situação. Ou substituímos estas premissas equivocadas por melhores ou corremos o risco de nos autodestruir.A consciência do risco não é ainda coletiva.
Importa reconhecer um dado do processo evolucionário que nos perturba: junto com grande harmonia, coexiste também extrema violência A Terra mesma no seu percurso de 4,5 bilhões de anos, passou por várias devastações. Em algumas delas perdeu quase 90% de seu capital biótico. Mas a vida sempre se manteve e se refez com renovado vigor.

A última grande dizimação, um verdadeiro Armagedon ambiental, ocorreu há 67 milhões de anos, quando no Caribe, próximo a Yucatán no México, caiu um meteoro de quase 10 km de extensão. Produziu um tsunami com ondas do tamanho de altos edifícios. Ocasionou um tremor que afetou todo o planeta, ativando a maioria dos vulcões. Uma imensa nuvem de poeira e de gases foi ejetada ao céu, alterando, por dezenas de anos, todo o clima da Terra. Os dinossauros que por mais de cem milhões de anos reinavam, soberanos, por sobre toda a Terra, desapareceram totalmente. Chegava ao fim a Era Mesozóica, dos répteis e começava a Era Cenozóica, dos mamíferos. Como que se vingando, a Terra produziu uma floração de vida como nunca antes. Nossos ancestrais primatas surgiram por esta época. Somos do gênero dos mamíferos .

Mas eis que nos últimos trezentos anos o homo sapiens/demens montou uma investida poderosíssima sobre todas as comunidades ecossistêmicas do planeta, explorando-as e canalizando grande parte do produto terrestre bruto para os sistemas humanos de consumo. A conseqüência equivale a uma dizimação como outrora. O biólogo E. Wilson fala que a "humanidade é a primeira espécie na história da vida na Terra a se tornar numa força geofísica" destruidora. A taxa de extinção de espécies produzidas pela atividade humana é cinquenta vezes maior do que aquela anterior à intervenção humana. Com a atual aceleração, dentro de pouco - continua Wilson - podemos alcançar a cifra de mil até dez mil vezes mais espécies exterminadas pelo voraz processo consumista. O caos climático atual é um dos efeitos.

O prêmio Nobel de Química de 1995, o holandês Paul J. Crutzen, aterrorizado pela magnitude do atual ecocídio, afirmou que inauguramos uma nova era geológica: o antropoceno. É a idade das grandes dizimações perpetradas pela irracionalidade do ser humano (em grego ántropos). Assim termina tristemente a aventura de 66 milhões de anos de história da Era Cenozóica. Começa o tempo da obscuridade.

Para onde nos conduz o antropoceno? Cabe refletir seriamente.



*Leonardo Boff é teólogo, filósofo, conferencista e escritor