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sexta-feira, 10 de abril de 2026

O golpismo da direita e o horror da Lava Jato que contiua (ou a atuação da Lava Jato 2 com a mídia), em texto de Luis Nassif

 

No horizonte das eleições, duas narrativas: uma é o projeto de Brasil de Lula e a outra é a mídia e seu denuncismo barato para atacá-lo visando garantir os interesses dos poderosos de sempre.

Do Jornal GGN:


A Lava Jato 2 continua, por Luís Nassif



    Lula em foto de Ricardo Stuckert


Nas eleições de 2026, a disputa se dará em torno de dois eixos narrativos.

O primeiro é o projeto de Brasil que Lula pretende brandir: o salto proporcionado pela Nova Indústria Brasil e pela Transição Energética, com as terras raras, assumindo finalmente a paternidade das duas políticas — além da questão da segurança pública.

O segundo é o denuncismo em torno dos casos Master e INSS, a ser explorado pela oposição.

Dois personagens terão peso decisivo nessa disputa. Um é o ministro André Mendonça, que assumiu o comando das duas operações e atua em conluio com a Polícia Federal — que segue abusando de vazamentos seletivos, agora com o concurso do COAF. O outro é o ministro Kassio Nunes Marques, que deverá assumir o comando do Tribunal Superior Eleitoral.

Aliás, a ministra Cármen Lúcia tratou de antecipar em dois meses o final de sua presidência no TSE, explicando a fuga com uma frase de desprendimento. Como diriam os italianos, foi “paura”.

A delação de Maurício Camisoti, peça central do escândalo do INSS, fechada exclusivamente com a PF, certamente terá o mesmo direcionamento das delações da Lava Jato, com a anuência óbvia da mídia.

O papel dos três principais grupos jornalísticos continuará sendo o de fustigar Lula diariamente. Um exemplo recente: na reportagem sobre os grandes pagamentos do Master, havia uma boa soma destinada a Henrique Meirelles — que foi ministro da Fazenda de Michel Temer. Na reportagem, porém, ele é apresentado como ex-presidente do Banco Central de Lula. Só falta qualificar o próprio Temer, que também recebeu valores do Master, como ex-vice-presidente de Dilma Rousseff.

É curioso o movimento da mídia nos últimos meses. Depois de um início promissor da CNN Brasil, a GloboNews recuperou a liderança com um modelo de jornalismo mais barato — jornalistas em estúdio conversando com a desenvoltura de um chat de WhatsApp, mas com diversidade e bom nível editorial.

À medida que 2026 se aproximou, o canal tratou de se realinhar, afastando comentaristas mais à esquerda e substituindo-os por nomes de posição conservadora. É um movimento que não pode ser brusco, para não chamar a atenção do espectador. O UOL fez movimento semelhante, abrindo mão de comentaristas de boa audiência e posição progressista para dar lugar a outros saídos das profundezas da ultradireita.

Não são movimentos radicais — para preservar a credibilidade do veículo perante seu público. Mas são suficientemente indicativos dos preparativos para a guerra eleitoral.

É também um período em que analistas de pesquisa fazem a festa. A maioria se vale do chutômetro como qualquer observador comum, mas tenta dar verniz técnico às apostas. Pior: muitas análises publicadas funcionam como cartão de visita para atrair contratos com partidos e candidatos.

O caso clássico é o de Alberto Carlos Almeida, autor de A Cabeça do Brasileiro. Em determinado período, tentou aproximar-se do PSDB. No início da campanha de 2018, previu no X que, assim que começasse o horário eleitoral, Geraldo Alckmin dispararia e se habilitaria para o segundo turno. Alckmin teve 4,6%. Depois, migrou para a órbita do PT e passou a publicar análises anunciando o fim do antipetismo.

Recentemente, entrevistei outro especialista, do Recife, que elogiava com entusiasmo a moderação de Ronaldo Caiado. Estranhei a análise — até me informarem que ele assessora o candidato.

Muito cuidado, portanto, com análises de “especialistas” em período eleitoral. Elas frequentemente servem a dois propósitos simultâneos: atrair mercado para pesquisas e cumprir a contrapartida exigida pelos grandes jornais — pau em Lula.

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sexta-feira, 11 de janeiro de 2019

Não há método na burrice. Texto de Marcelo Zero


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O grande Goethe já nos advertia que “não há nada mais terrível que uma ignorância ativa” (Es ist nichts schreklicher als eine tätige Unwissenheit).

Obviamente, Goethe não teve o prazer de conhecer Bolsonaro e sua preclara equipe de fundamentalistas cristãos e sumidades emergidas das redes sociais. Se tivesse, teria acrescentado que não há nada mais desastroso que a ignorância ativa que chega ao poder.

Com efeito, mal começou e o governo do capitão exibe a um mundo estarrecido um festival tragicômico de declarações brutais e estapafúrdias e de decisões beócias e cretinas, seguidas invariavelmente por apressados e canhestros desmentidos. Ornamenta esse festival de obtusidades as seguidas desautorizações dos zurros presidenciais.

Com o novo mandato, instaurou-se a mais completa anomia. Ninguém sabe direito que decisões serão concretizadas e quem, de fato, manda no governo, sé é que há alguém que manda. Há a incômoda sensação de se estar em num barco à deriva, que ruma impotente rumo ao Maelstrom, sob o olhar impassível do Jesus da Goiabeira, que não ora por nós.

Há alguns, no entanto, que veem essa algazarra trágica como um plano mefistofélico, destinado a distrair a opinião pública das “verdadeiras intenções” do governo fascistoide, que quer entregar os destinos da Nação a desinteressados agentes do capital internacional.

É possível. Afinal, nada mais funcional a esses interesses que um presidente que fez da ignorância e da boçalidade a sua raison d’être. Um presidente que não entende nada, não manda nada, e que está disposto a bater continência até para o Rin Tin Tin, pastor alemão que serve galhardamente ao Exército dos EUA.

Como diziam os antigos gregos, aqueles a quem os deuses querem destruir primeiro enlouquecem. Portanto, é possível que haja alguma funcionalidade oculta, bem oculta, nesse enredo giocoso de opera bufa. Alguma coisa cuja lógica seja acessível apenas aos deuses.

Suspeito, contudo, usando a Navalha de Occam, que a verdade seja, como soe acontecer, mais simples e mais brutal: o Brasil foi assaltado por uma legião de oligofrênicos que não têm a menor ideia de como governar o país.

Mesmo o insigne “Posto Ipiranga”, sumidade gestada na Escola de Chicago, que respirou os ares impolutos de Santiago de Chile, parece desconhecer fatos básicos sobre o Brasil, como, por exemplo, o de que o orçamento de um ano tem de ser aprovado no ano anterior, informação acessível até mesmo a mortais comuns medianamente letrados.

O Itamaraty, que já nos legou quadros extraordinários, à esquerda e à direita, agora nos brinda Ernesto Araújo, um diplomata, por assim dizer, intelectualmente muito original, até mesmo surpreendente. Suas animadas arengas demonstram, em vários idiomas, uma mente muito atrás de seu tempo.

Já o grande círculo militar do poder parece ter faltado a algumas aulas na Escola Superior de Guerra e não ter se empenhado muito na leitura das obras de Golbery. Isso explicaria as misteriosas referências à Terceira Guerra Mundial, provavelmente desencadeada contra o kit gay, aliado da mamadeira de piroca, bem como a total ausência de rigor geopolítico em suas soi disant “análises”.

Não creio que haja funcionalidade política nessa grotesca barafunda. Qualquer governo, mesmo aquele que não tem compromisso com os interesses do país e do seu povo, precisa de credibilidade e legitimidade para administrar.

No entanto, o desgoverno do capitão parece obstinadamente empenhado em queimar rapidamente todo o seu capital político, laboriosamente amealhado em anos de fake news e de ódio a tudo que cheire a progresso.

Muito provavelmente, a legião de acéfalos que se apossou do Estado achava que governar seria tão fácil quanto disseminar mentiras pelo Twitter e pelo Facebook, ou como operar “milagres” numa igreja neopentecostal.

Infelizmente, não é. Governar exige profundo conhecimento do país, do mundo e da máquina pública. É tarefa muito complexa e difícil, que deveria ser atribuída, segundo Platão, apenas a homens sábios. Sabedoria que não pode ser identificada com conhecimento acadêmico, mas que não pode dispensar visão racional do mundo, coisa que o capitão e sua voluntarista armada Bolsoleone evidentemente não têm.

No governo, fé não move montanhas. Competência, sim.

Assim sendo, não parece haver método na burrice e plano na improvisação.

Conta a história que Leon Trotsky, exasperado com as posições irrefletidas do escritor e político norte-americano Dwight Macdonald, teria afirmado: “Todo homem tem o direito de ser ocasionalmente estúpido, mas o companheiro Macdonald abusa desse privilégio”.

Como Goethe, Trotsky não conheceu Bolsonaro.

Marcelo Zero

segunda-feira, 15 de outubro de 2018

Porque votar em Haddad, por Aldo Fornazieri, sociólogo e cientista político, professor da Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP)



  "Não chega a ser estranho que a Justiça Eleitoral e outras autoridades se calem covardemente ante os atentados que vêm sendo cometidos contra as regras democráticas. Autoridades que rasgaram a Constituição não se guiam pelo metro das leis. É vergonhoso que autodenominados democratas se calem e fiquem neutros ante a ameaça que paira sobre o Brasil e seu povo. A neutralidade é uma forma de adesão neste momento. A neutralidade é a face covarde que escolhe essa fúria negativa e obscurantista que erguerá escombros do que resta desta democracia doente. Repudiando essas condutas é preciso ter uma resolução firme e escolher a prudência corajosa representada por Haddad. Não basta escolher, é preciso anunciar a escolha e lutar por ela."



Por que votar em Haddad?
Muitos brasileiros têm motivos fundados para não votar no candidato do PT. Menos por Fernando Haddad e mais pelo PT. Afinal de contas, o partido, que foi combativo, vigoroso e defensor da ética na política se corrompeu no governo. Se é verdade que os dois mandatos do presidente Lula ficarão entre os mais exuberantes e exitosos da história do Brasil, também é verdade que o governo Dilma deixou muito a desejar e, em parte, está na raiz da atual crise. Mas se tudo isto for colocado nos pratos da balança da história é possível perceber que há um saldo mais positivo do que negativo em favor dos governos petistas.
Ademais, na própria questão da corrupção, foi sob os governos petistas que se criaram os mais poderosos instrumentos de combate à mesma, sem os quais o Brasil estaria ainda mergulhado no lodaçal que degrada os governantes e as instituições e desacredita os cidadãos. Foi dada autonomia à Polícia Federal, foi fortalecido o Ministério Público, foi sancionada a Lei da Delação Premiada e foi criada a Controladoria Geral da União. Não bastasse isto, não há nenhuma acusação séria contra a gestão de Haddad pelos quase sete anos à frente do MEC e sua gestão na Prefeitura de São Paulo foi marcada pelo desbaratamento da máfia dos fiscais e pela recuperação de milhões de reais desviados desde os tempos de Maluf.
Quiseram os caprichos da história e da Fortuna destinar a Haddad a tarefa de enfrentar o maior perigo para o frágil processo de construção da democracia desde o início da redemocratização. Perigo expresso em tudo o que a candidatura de Bolsonaro representa. Assim, todos os eleitores que não gostariam de votar no PT e, mesmo, muitos eleitores que votaram em Bolsonaro, movidos por uma justa raiva e tristeza, estão postos diante de uma terrível encruzilhada: votar em Bolsonaro e levar o Brasil por caminhos escuros e escorregadios que o conduzirão aos abismos do ódio entre irmãos, entre familiares, à violência política e, quiçá, à guerra civil ou votar em Haddad para que se possa divisar uma luz no fim do túnel, para que se possa disputar eleições com um convívio pacífico e para que se inicie um novo processo de construção da democracia, com justiça, liberdade, direitos e igualdade.
Em política, a palavra, as promessas e as ações dos líderes sacramentam o conteúdo das alianças que eles fazem com o povo, com os eleitores. A campanha de Bolsonaro tem pregado a violência generalizada, tem estimulado o estupro, tem pregado mais pregos nas mãos e nas almas dos negros e negras que carregam uma cruz histórica desde os tempos da escravidão. O candidato votou contra as empregadas domésticas, contra os direitos dos deficientes, contra as demandas dos trabalhadores. As suas votações no Congresso contribuíram para espezinhar os mais fracos, os humildes, aqueles que mais sofrem. Em quase trinta anos de mandato, ele não produziu nenhuma obra contra a corrupção e apenas usufruiu das benesses do poder.
Bolsonaro se diz patriota. Mas o que é a pátria? A pátria é o povo que vive em um lugar e que tem uma cultura, uma língua, uma identidade. Não se pode ser patriota sem amar o povo, sem defender os seus direitos, a igualdade e a sociedade justa. Não se pode ser patriota e defender os ricos, as injustiças, a opressão e a discriminação. Não se pode ser patriota e semear a violência, a discórdia e a inimizade entre o povo. Ninguém  que é injusto, impiedoso, cruel e desumano é patriota.
Bolsonaro proclama "o Brasil acima de tudo", mas não diz o que isto significa. O Brasil acima de tudo só pode significar o povo acima de tudo, um povo com educação, cultura, saúde, moradia, trabalho, direitos e civilidade. O Brasil estará acima de tudo se suas riquezas forem postas a  serviço do bem estar do seu povo, se o meio ambiente for preservado, se o desenvolvimento for sustentável se as gerações presentes deixarem como herança boas condições de vida ambientais e materiais para as gerações futuras. Bolsonaro afirma que defenderá a família. Mas como defenderá a família semeando a violência? Como defenderá a família não defendendo os direitos de igualdade das mulheres, inclusive a igualdade salarial? Como colocar Deus acima de todos e querer a desigualdade e a injustiça entre os seres humanos? Todas as religiões dizem que Deus é justo.
Em nenhum outro momento da história, o povo brasileiro foi chamado a votar com a razão, com a reflexão e com a ponderação como neste momento. O povo terá que escolher entre a destruição e a possibilidade de um novo recomeço da democracia. A ira do povo é justa, não há dúvida sobre isto, pois os governantes tiram muito do povo e devolvem pouco. Mas raiva não pode deixar o povo  surdo e mudo quanto às advertências e os perigos que a escolha de Bolsonaro representam. A ira do povo não pode atrair o mal sobre o próprio povo. É preciso restabelecer o diálogo com o povo irado, mostrar-lhe, sem sectarismo e sem rancor, onde está a verdade, onde está a justiça, onde está a fé, onde estão os remédios para superar este presente triste e onde está a esperança por um futuro melhor.
Mais uma vez, os caprichos da história e da Fortuna quiseram que Haddad representasse esta fé, esta razão e esta esperança porque se há um sentido de justiça e de bem estar nesta disputa, este sentido está em Haddad. Votar em Haddad é perdoar os pecados dos outros, perdoar o PT. Mas o PT também precisa pedir perdão à sociedade. Votar em Haddad é dar uma chance para que o sistema político brasileiro, com seus partidos, se reconstrua em bases éticas, em bases orientadas para a justiça, em bases onde as instituições se tornem mais eficazes na solução dos problemas do povo e do Brasil.
Um povo irado pode querer um líder irado, é compreensível. Mas um capitão descontrolado pode levar o barco a pique em meio à tempestade. Bolsonaro pode ser irado, mas a sua ira não é nem santa e nem justa pelo que prega e pelo que votou no Congresso. A ira santa e justa é aquela que defende os humildes e os humilhados, os oprimidos e os espezinhados pelas injustiças. Não há como ter uma ira santa e justa sem defender e colocar-se ao lado dos pobres, dos negros, das mulheres e dos jovens - essas imensas maiorias que não conseguem se dar um destino porque as condições materiais e espirituais injustas o impedem.
Nesse momento de tormenta da vida política brasileira, o Brasil e o povo precisam de um líder prudente, corajoso, comprometido com a salvação do país. Para que a ira do povo se transforme na espada luminosa a guiá-lo rumo a um futuro melhor, rumo à terra prometida, a ira precisa se transformar em razão, em luz que ilumina as escolhas. A razão clama o voto em Haddad, pois ele é este líder prudente e sensato em meio aos tormentos do sofrimento e do medo.
Nada de digno, nada de edificante, nada de justo surgirá sobre a montanha de mentiras, da falta de escrúpulos, da falta de moralidade erguida pela campanha de Bolsonaro. Trata-se de uma campanha que está semeando a semente do mal e da violência e disto não poderá frutificar nenhum bem. Todos os limites do aceitável foram rompidos quando se trata de exigir parâmetros mínimos de respeito aos critérios democráticos da disputa. O PT ficou 13 anos no governo e em nenhum momento a democracia foi ameaçada, nenhuma violência foi cometida contra cidadãos. Em contrapartida, bolsonaristas agridem e matam pessoas que declaram voto em Haddad, cravam a ponta de faca a suástica nazista em jovem que discordam deles e picham  igrejas com a mesma suástica. Amanhã agirão para impô-la sobre a bandeira do Brasil.
Não chega a ser estranho que a Justiça Eleitoral e outras autoridades se calem covardemente ante os atentados que vêm sendo cometidos contra as regras democráticas. Autoridades que rasgaram a Constituição não se guiam pelo metro das leis. É vergonhoso que autodenominados democratas se calem e fiquem neutros ante a ameaça que paira sobre o Brasil e seu povo. A neutralidade é uma forma de adesão neste momento. A neutralidade é a face covarde que escolhe essa fúria negativa e obscurantista que erguerá escombros do que resta desta democracia doente. Repudiando essas condutas é preciso ter uma resolução firme e escolher a prudência corajosa representada por Haddad. Não basta escolher, é preciso anunciar a escolha e lutar por ela.
Aldo Fornazieri - Professor da Escola de Sociologia e Política (FESPSP).
 

terça-feira, 15 de março de 2016

William Nozaki sobre uma revolta às avessas, ou: os ricos indignados no Brasil


" (...) medo e preguiça fez com que o pêndulo de uma disputa em aberto oscilasse paulatinamente para a direita, que, a partir de uma associação entre elites, classes médias, mídia e judiciário que aprenderam a se apropriar da gramática política das ruas. O segundo turno eleitoral em 2014 evidenciou esse conjunto de tensões, a temperatura política e social seguiu aumentando em 2015 e no início desse ano, delineando o avanço do autoritarismo político e do conservadorismo social que agora explicitam suas faces golpistas e anti-democráticas."



A revolta às avessas, ou: os ricos indignados no Brasil
por William Nazaki - no Luis Nassif Online
A crise financeira internacional de 2008 ao mesmo tempo em que explicitou as contradições do capitalismo financeirizado abriu as portas para um novo ciclo de lutas globais: Tunísia, Egito, Bahrein, Iêmen, Líbia, Síria, Espanha, Grécia, EUA, foram palco de diversas experiências de lutas contra ditaduras políticas, recessões econômicas e exclusões urbanas.
Merecem destaque nesse caldeirão as experiências que conseguiram converter insurgências sociais em disputas institucionais mais amplas, passando da micropolítica dispersa para a macropolítica robusta com capacidade de afrontar as estruturas do poder e do capital, como nos casos do Podemos espanhol, do Syriza grego e do Occupy Wall Street norte-americano.
A despeito das inúmeras diferenças entre esses movimentos (alguns dos quais partidos-movimentos), há uma espécie de mínimo denominador comum que os alinhava: parte significativa dessas iniciativas surgiram de baixo para cima se revoltando contra políticas de viés liberal, conservador e direitista.
De alguma forma, o Brasil se inscreve também nesse cenário de lutas globais, sobretudo a partir das Jornadas de Junho de 2013 que trouxeram consigo o esboço de novas formas de organização e ativismo e também uma nova agenda articulando direitos urbanos e direitos humanos, municipalismo associativista e liberdades individuais.
No entanto, nessas plagas tropicais, as forças de esquerda no poder, salvo raras exceções, tiveram pouca capacidade e pouca sensibilidade para perceber o surgimento desses novos atores sociais e dessa nova agenda pública.
O principal partido de esquerda, PT, ensimesmado nas suas estruturas burocráticas assustou-se com o fato inédito de não ser ele o protagonista das primeiras convocações para a ocupação das ruas, e, ao invés de avançar na disputa de hegemonia na sociedade preferiu de saída repulsar as novidades as tachando de ações direitistas; em movimento análogo, os governos petistas, na prefeitura de São Paulo e no âmbito federal, optaram pelo apego iluminista à tecnocracia de planilhas e deram respostas de políticas públicas equivocadas, erráticas e/ou atrasadas.
Essa combinação de medo e preguiça fez com que o pêndulo de uma disputa em aberto oscilasse paulatinamente para a direita, que, a partir de uma associação entre elites, classes médias, mídia e judiciário aprenderam a se apropriar da gramática política das ruas. O segundo turno eleitoral em 2014 evidenciou esse conjunto de tensões, a temperatura política e social seguiu aumentando em 2015 e no início desse ano, delineando o avanço do autoritarismo político e do conservadorismo social que agora explicitam suas faces golpistas e anti-democráticas. Vale destacar: as derrapadas políticas e ambivalências econômicas apresentadas pelo Governo Dilma só contribuíram para jogar água no moinho da crise institucional e social em que agora nos encontramos.
Desse modo, os setores mais progressistas da sociedade se percebem diante de um quadro bastante complexo: se, por um lado, o PT e o governo precisam ser criticados, por outro lado, é preciso atentar para que nessa conjuntura tais críticas podem alimentar o caldeirão do anti-petismo que tem servido somente ao ódio e à intolerância; mais ainda: se, por um lado, Lula e Dilma foram tímidos em nome da conciliação ampla e até mesmo retrocederam em certas agendas, por outro lado, ataca-los nessa conjuntura significa colocar sob risco a própria normalidade do funcionamento das instituições políticas do país. Não resta dúvidas de que nesse momento defender Lula e o governo Dilma significa defender o Estado de Direito Brasileiro e o tripé que o organiza: as instituições democráticas, a constituição federal e a consolidação das leis trabalhistas.
Nesse sentido, é importante explicitar: as forças que hoje lutam pela obstrução e pela queda do governo, e que atuam pela criminalização e pela judicialização da esquerda, o fazem não em nome daquilo que o PT e o governo têm de problemático, mas sim em nome daquilo que ele tem de positivo: as conquistas sociais e econômicas que permitiram a redução da miséria, da pobreza e da desigualdade, em consonância com a ampliação de direitos. É contra isso que se insurge e que se instala um Estado de Exceção no Brasil capitaneado por juízes, promotores e procuradores que se insurgem contra os direitos e a favor dos privilégios seculares que fazem parte da rotina política e social do país.
A prova desse argumento se evidencia em uma visada de olhos quando se observa o perfil dos manifestantes que foram às ruas nesse último domingo (13/03/2016), trata-se majoritariamente de homens, brancos, adultos ou de meia-idade, de classe média e alta, com acesso à boa escolaridade. Além disso, são atores sociais que aderem menos a partidos políticos e movimentos organizados e mais a lideranças individuais midiáticas e muito conservadoras, esse grupo social prefere o mundo dos negócios ao universo da política institucional, nessa conjuntura se sentem mais representados pelo judiciário, pelas policias e pela igreja do que pelos poderes executivo, legislativo e pelos representantes eleitos. Em última instância, preferem defender a arena privada da família e dos “bons costumes” à esfera pública da política e da democracia (vide pesquisa Datafolha).
É curioso e sintomático que uma parcela da sociedade acredite que há hoje em curso no Brasil um processo de combate à corrupção, trata-se de uma percepção distorcida e equivocada. Não há combate à corrupção possível a ser protagonizada por juízes com relações partidárias, policiais federais descontrolados, promotores que agem ao arrepio de lei, tudo isso apoiado por lideranças político-partidárias e parlamentares investigadas por desvio de recursos públicos e outros tantos mal-feitos, todos endossados por uma parcela da elite e da classe média que não cansa de reproduzir as ilicitudes do dia-a-dia, com seus pequenos subornos, sonegações de impostos e toda sorte das pequenas imoralidades presentes no tal “jeitinho” de quem gosta de se apresentar seguindo a lógica da “carteirada” e do “você sabe com quem está falando?”.
Disso decorre a pergunta: o que se quer combater de fato quando se fala em corrupção? Ora, trata-se de uma revolta de elite e da classe média estabelecida em favor da preservação dos seus mecanismos de distinção e privilégios materiais e morais. No período de crescimento econômico, ainda que indiganadas, as frações da elite brasileira conviveram com a mobilidade social e a ascensão das classes populares, mas no momento de reversão do ciclo econômico, quando o emprego, a renda e a mobilidade passaram a se desacelerar o acotovelamento geral se converteu em revolta e ódio contra os de baixo. Isso não significa que as classes populares e trabalhadoras estejam satisfeitas com o rumo do governo e do país, mas a se considerar o perfil dos manifestantes do último domingo, fica claro que quem está catalisando os impulsos e desejos golpistas é parte significativa das camadas mais abastadas.


Esse é mais um dos paradoxos brasileiros, ao contrário do que se passa em parte dos ciclos de lutas globais, aqui temos uma revolta da elite e da classe média contra um governo de viés progressista e de esquerda. Essa inversão revela como parte da elite nacional tem nomeado de indignação aquilo que na verdade traduz a sua própria indignidade. 

sexta-feira, 7 de novembro de 2014

Leonardo Boff em mensagem para a pretensa elite antidemocrática e auto-referente que pensa em deixar o país



"O ruim no Brasil e efetivo fator do atraso, é o modo de ordenação da sociedade, estruturada contra os interesses da população, desde sempre sangrada para servir a desígnios alheios e opostos aos seus… O que houve e há é uma minoria dominante, espantosamente eficaz na formulação e manutenção de seu próprio projeto de prosperidade, sempre pronta a esmagar qualquer ameaça de reforma da ordem social vigente”

Darcy Ribeiro


"Podemos tolerar a arrogância e a resistência dos poderosos e dos parlamentares, o que não podemos é defraudar a esperança de todo um povo. Ele não merece isso depois de tanto suor, sacrifícios e lágrimas."

Leonardo Boff

Para os que querem deixar o Brasil

Texto de Leonardo Boff, extraído de seu blog

 É espantoso ler nos jornais e mensagens nas redes sociais e mesmo em inteiros youtubes a quantidade de pessoas, geralmente das classes altas ou os ditos “famosos” que lhes custa digerir a vitória eleitoral da reeleita Dilma Rousseff do PT. Externam ódio e raiva, usando palavras tiradas da escatologia (não da teológica que trata dos fins últimos do ser humano e do universo) e da baixa pornografia para insultar o povo brasileiro, especialmente, os nordestinos.

 Estas pessoas não vivem no Brasil, mas, em geral, no Leblon e em Ipanema ou nos Jardins da cidade de São Paulo onde se albergam: em sua maioria, os pertencentes às classes opulentas (aquelas 5 mil famílias que, segundo M.Porchmann, detém 43% do PIB nacional). Muitas delas não se sentem povo brasileiro. Externam até vergonha. Mas estão aqui porque neste país é mais fácil enricar, embora o desfrute mesmo é em feito em Miami, Nova York, Paris ou Londres, pois muitos deles têm lá casas ou apartamentos.

 Alguns mais exacerbados, mas com parquíssima audiência, sugerem até separar o Brasil em dois: o sudeste rico de um lado e o resto (para eles, o resto mesmo) do outro, especialmente o Nordeste.

 Acresce a isso o Parlamento brasileiro, a maioria eleita com muito dinheiro, que mal representa o povo. Finge que escutou o clamor dos ruas em junho de 2013 demandando reformas, especialmente, na política, no sistema de educação e de saúde e uma melhor mobilidade urbana e não em últmo lugar a segurança e a transparência na coisa pública. Mas já esqueceu tudo. Rejeitou o projeto do governo, no rescaldo da reeleição, que visava ordenar e dar mais espaço à participação dos movimentos sociais na condução da política nacional, respeitadas as instituições consagradas pela Constituição.

 Tal fato nos remete ao que Darcy Ribeiro diz em seu esplêndido livro que deveria ser lido em todas as escolas, “O povo brasileiro: a formação e o sentido do Brasil”(1995). Aí, diz o grande antropólogo, indigenista, político e educador: "O ruim no Brasil e efetivo fator do atraso, é o modo de ordenação da sociedade, estruturada contra os interesses da população, desde sempre sangrada para servir a desígnios alheios e opostos aos seus… O que houve e há é uma minoria dominante, espantosamente eficaz na formulação e manutenção de seu próprio projeto de prosperidade, sempre pronta a esmagar qualquer ameaça de reforma da ordem social vigente” (p.446).

 Esta afirmação nos concede entender porque a presidenta Dilma quer uma reforma política que não venha de cima, do Congresso, porque este (O Congresso) sempre se oporá ao que possa contradizer os seus indecentes privilégios. Deve partir de baixo, ouvindo os reclamos do povo brasileiro. 

  Quem aprendeu em 500 anos a sobreviver na pobreza, senão na miséria, colheu muita experiência e sabedoria a ser testemunhada e repercutida na nova ordenação político-social do Brasil. Ouvi de um sacerdote que viveu sempre na favela: "há um evangelho escondido no coração do povo humilde e importa que o leiamos e escutemos”. Vale a mesma coisa para as várias reformas desejadas pela maioria da população: auscultar o que se aninha no coração do povo e dos invisíveis.

 Podemos tolerar a arrogância e a resistência dos poderosos e dos parlamentares, o que não podemos é defraudar a esperança de todo um povo. Ele não merece isso depois de tanto suor, sacrifícios e lágrimas. Ele precisa voltar às ruas e renovar com mais contundência e ordenadamente o que irrompeu em junho do ano passado. O feijão só cozinha bem em panela de pressão. Da mesma forma, o parlamento abandona sua inércia quando é posto sob pressão, como se constatou no ano passado.

  Voltemos a Darcy Ribeiro, um dos que melhor estudou e comprendeu a singularidade do povo brasileiro. Uma coisa são os povos transplantados como nos USA, no Canadá e na Austrália. Eles reproduziram os moldes dos países europeus de onde vieram. No Brasil foi diferente. Ocorreu uma das maiores miscegenizações da história conhecida da humanidade. Vieram de 60 países diferntes. Misturaram-se entre si índios, afro-descentes, europeus, árabes e orientais. Criaram um novo tipo de gente. Diz Darcy: "o nosso desafio é de reinventar o humano, criando um novo gênero de gentes, diferentes de quantas haja”(p.447). Diz mais: "olhando todas estas gentes e ouvindo-as é fácil perceber que são, de fato, uma nova romanidade, uma romanidade tardia, mas melhor, porque lavada em sangue índio e sangue negro”(p.447).

 Não me furto em citar estas palavras proféticas com as quais fecha seu livro “O povo brasileiro”

"O Brasil é já a maior das nações neolatinas…Estamos nos construindo na luta para florescer amanhã como uma nova civilização, mestiça, tropical, orgulhosa de si mesma. Mais alegre, porque mais sofrida. Melhor porque incorpora em si mesma mais humanidades. Mais generosa, porque aberta à convivênca com todas as raças e todas as culturas e porque assentada na mais bela e luminosa província da Terra”(p.449).

 Para os que querem sair do Brasil:  fiquem nessa esplêndida Terra e ajudem-nos a contuir esse sonho bom.

terça-feira, 28 de outubro de 2014

A falsa "Elite" e o ódio à Democracia

"Em um país como o Brasil, onde privilégio ao nascer e hegemonia política e econômica foram sinônimos ao longo da história, a ascensão de determinados grupos antes subjugados têm produzido todo tipo de ofensa ao chamado “individualismo democrático”. Sobram patadas sobre pobres, gays, lésbicas, negros, "comunistas", mulheres. Um exemplo foram as manifestações de ódio contra a população nordestina, onde o PT conquistou muitos votos. A repulsa chega com todos os disfarces, mas pode ser identificada, por exemplo, quando um ex-presidente da República atribui um resultado adverso (para ele e os seus) à cegueira coletiva dos “menos instruídos”."




Política

Crônica / Matheus Pichonelli

O ódio à democracia

O antidemocratismo manifestado em ano eleitoral não é resultado de um sistema ainda imaturo, mas de um processo que se consolida e começa a incomodar
por Matheus Pichonelli — publicado 27/10/2014 11:40

Texto Extraído da Carta Capital

"Nordestino não sabe votar". "Pobres merecem o que têm". "Abaixo o Bolsa Esmola". "Vão pra Cuba". "Muda para Miami". "Os empregados deveriam ser proibidos de participar". "Paulista é uma raça egoísta". "Deveríamos nos separar do resto do país". Não, não é por acaso que as manifestações de ojeriza à política, ao contraditório e ao voto das populações mais pobres tenham se intensificado ao longo desta eleição, a sétima desde a reabertura democrática. A democracia brasileira é jovem, mas não é uma criança. Parte do ódio que ela provoca é antes o resultado de sua maturidade do que de seu ineditismo: quem vocifera não são os que desconhecem seu funcionamento, mas os que o conhecem muito bem – a ponto de, em pleno 2014, falarem em golpe, impeachment ou cegueira coletiva para deslegitimar um resultado adverso.

A polarização, cada vez mais acentuada entre os dois principais partidos do País, levou candidatos, eleitores-internautas, internautas-eleitores e parte da mídia a se comportar como torcedores de arquibancada nas últimas semanas, em especial no último domingo, 26 de outubro, quando a presidenta Dilma Rousseff foi reeleita. A tônica variava, mas tinha uma mesma base: não bastava expressar o voto, era preciso eliminar o concorrente e quem vota no concorrente – principalmente se ele não tem o mesmo repertório, a mesma escolaridade, a mesma (e suposta) independência material. Daí as agressividades identificadas tanto no submundo da internet quanto nas vozes de autoridades, personalidades e celebridades – que se engajaram na campanha atual, com apoio de um lado a outro, como nunca antes na história.

A essa altura, atribuir a um ou a outro a primazia do primeiro tacape será inútil. É preciso entender por que a agressividade se avoluma à medida que o sistema democrático se constrói – pois sua construção é um exercício permanente. Não é um fenômeno local: na Europa, onde o sistema é vigente há mais tempo, os intelectuais se batem há tempos sobre as contradições do chamado “reino do excesso” e das demandas pulverizadas (“mesquinhas”, segundo muitos) de um conjunto de indivíduos, muitos representantes de minorias – e não, para desespero das velhas oligarquias, de uma multidão uniforme.

Em um país como o Brasil, onde privilégio ao nascer e hegemonia política e econômica foram sinônimos ao longo da história, a ascensão de determinados grupos antes subjugados têm produzido todo tipo de ofensa ao chamado “individualismo democrático”. Sobram patadas sobre pobres, gays, lésbicas, negros, "comunistas", mulheres. Um exemplo foram as manifestações de ódio contra a população nordestina, onde o PT conquistou muitos votos. A repulsa chega com todos os disfarces, mas pode ser identificada, por exemplo, quando um ex-presidente da República atribui um resultado adverso (para ele e os seus) à cegueira coletiva dos “menos instruídos”.

No livro Ódio à Democracia, recém-publicado no Brasil pela Boitempo Editorial, o filósofo franco-argelino Jacques Rancière deixa pistas para entender este fenômeno. Um fenômeno que, a se fiar pela experiência europeia e pelos últimos embates, será cada vez mais comum por esses lados. A obra é uma crítica contundente à denúncia do “individualismo democrático” – que, segundo ele, cobre, com pouco esforço, duas teses: a clássica dos favorecidos (os pobres querem sempre mais) e das elites refinadas (há indivíduos demais, gente demais reivindicando o privilégio da individualidade). “O discurso intelectual dominante une-se ao pensamento das elites censitárias e cultas do século XIX: a individualidade é uma coisa boa para as elites; torna-se um desastre para a civilização se a ela todos têm acesso”, escreve. Para o autor, não é o individualismo que esse discurso rejeita, mas a possibilidade de qualquer um partilhar de suas prerrogativas. “A crítica ao ‘individualismo democrático’ é simplesmente o ódio à igualdade pelo qual uma intelligentsia dominante confirma que é a elite qualificada para dirigir o cedo rebanho”.

Qualquer semelhança com os últimos capítulos da eleição não é mera coincidência. No prefácio da mesma obra, o filósofo Renato Janine Ribeiro, professor de ética da USP, lembra que um número expressivo de membros da classe média ainda desqualifica os programas sociais consolidados nos últimos anos. “Para eles, o Brasil era bom quando pertencia a poucos. Assim, quando a multidão ocupa espaços antes reservados às pessoas 'de boa aparência', uma gritaria se alastra em sinal de protesto. O que é isso, senão o enorme mal-estar dos privilegiados?”, questiona. “A expansão da democracia incomoda. Daí um ódio que domina nossa política, tal como não se via desde as vésperas de um golpe de 1964, condenando as medidas que favoreciam os mais pobres como populistas e demagógicas”.

Em coro com Rancière, Janine Ribeiro lembra que a democracia não é um Estado acabado nem um estado acabado das coisas; ela vive constante e conflitiva expansão. “Porque a ideia de separação social continua presente e forte”.

Ao menos nas últimas semanas, esta ideia parece ter tomado proporções graves nas manifestações de ódio pelas ruas e redes sociais. Como se o mesmo país fosse pequeno demais para dois (para não dizer muitos) tipos de eleitores: um deve ser enviado a Cuba, o outro, a Miami; um deve ter o direito de voto cassado, o outro tem o direito apenas de calar. O não-diálogo é escancarado, sobretudo por quem costumava observar o espaço público como sua propriedade e hoje se rebela contra o "Estado protetor" e o voto "mesquinho" dos indivíduos. Mas a democracia, prossegue Rancière, longe de ser a forma de vida dos indivíduos empenhados em sua felicidade privada, é o processo de luta contra essa privatização, o processo de ampliação dessa esfera. "Ampliar a esfera pública não significa, como afirma o chamado discurso liberal, exigir a intervenção crescente do Estado na sociedade. Significa lutar contra a divisão do público e do privado que garante a dupla dominação da oligarquia no Estado e na sociedade”.



Matheus Pinchonelli é jornalista e cientista social.


sábado, 25 de outubro de 2014

Liberdade de Imprensa x Criminalidade Jornalística, segundo Fábio de Oliveira Ribeiro


  "A imprensa no Brasil é livre. Mas não age com liberdade. Ela escolhe quem vai defender e quem pretende destruir. Os motivos que a levam a tomar partido, porém, ficam soterrados e raramente são discutidos. Nos últimos 12 anos o PT não casou nenhum dano econômico às empresas de comunicação. Nenhuma grande empresa do setor faliu, deixou de receber verbas federais de propaganda, de ter acesso aos créditos do BNDS, de imprimir livros do MEC, nem foi impedida de colocar em circulação o que bem entendiam. Mesmo assim, Dilma Rousseff foi tratada como se fosse uma criminosa qualquer. Qual foi o crime que ela cometeu?"
Fábio de Oliveira Ribeiro 

O excelente texto a seguir, de Fábio de Oliveira Ribeiro, foi extraído do Luis Nassif Online/Jornal GGN:



Liberdade de imprensa x Criminalidade jornalística




  Passei alguns anos da minha vida observando a imprensa brasileira e reportando seus exageros, distorções, omissões e distopias no Observatório da Imprensa:

  http://observatoriodaimprensa.com.br/authors/all_author/435/news

   Mas ainda não tinha visto algo parecido com o que ocorreu nos últimos dias. Na reta final da campanha, por desespero de causa, a imprensa brasileira massacrou o PT e sua candidata. Sobre as acusações que pesam contra o PSDB e Aécio Neves nenhuma palavra, nenhuma indignação. A imprensa age como se quisesse comandar o Brasil ou, pior, como se fosse comandada pela oposição.

  A imprensa no Brasil é livre. Mas não age com liberdade. Ela escolhe quem vai defender e quem pretende destruir. Os motivos que a levam a tomar partido, porém, ficam soterrados e raramente são discutidos. Nos últimos 12 anos o PT não casou nenhum dano econômico às empresas de comunicação. Nenhuma grande empresa do setor faliu, deixou de receber verbas federais de propaganda, de ter acesso aos créditos do BNDS, de imprimir livros do MEC, nem foi impedida de colocar em circulação o que bem entendiam. Mesmo assim, Dilma Rousseff foi tratada como se fosse uma criminosa qualquer. Qual foi o crime que ela cometeu? 

  Há apenas um crime que pode ser atribuído a Dilma Rousseff: mandar investigar toda e qualquer denuncia, independentemente dos envolvidos serem petistas, tucanos, doleiros, ministros, diretores de estatais, etc... Somente os jornalistas não foram investigados. 

   O que os donos de jornalistas temem? Ser investigados? A imprensa no Brasil tem um pé no crime organizado desde que os Ibrahim Abi-Ackel mandou apreender malotes da Rede Globo contendo cocaína e, na sequencia, foi massacrado pelo clã Marinho. Se a imprensa não é livre e age como ponta de lança do crime organizado (algo que ficou claro quando as relações entre o Cachoeira e seu "caneta" na Veja vieram a público), a CF/88 está sendo solapada. 

 
O princípio da liberdade de imprensa foi colocado de ponta-cabeça. Ao invez de servir aos interesses da sociedade, serve apenas aos chefes de quadrilhas. Impossível deixar de ligar o PSDB à estas quadrilhas, pois o partido raramente é atacado pela imprensa. Na reta final da campanha não vi uma só manchete desfavorável a Aécio Neves. Até mesmo a falta de água em São Paulo vai sendo discretamente creditata na conta do governo federal. 

   Do jeito que as coisas estão, não podem ficar. Reeleita, Dilma tem que meter o dedo nesta ferida purulenta. As ligações entre as empresas de comunicação e a criminalidade dos potentes deve ser minuciosamente investigada pela PF. Isto é o mínimo que o Estado deve fazer para preservar a validade e eficácia de sua própria Constituição. Caso contrário, a inversão de valores se tornará a regra e passaremos a viver não num Estado de Direito e sim no maior Narco Estado Jornalístico jamais construído na história da humanidade.