"O desmatamento na maior floresta tropical do mundo, um importante amortecedor contra as mudanças climáticas, disparou sob o presidente Jair Bolsonaro no Brasil", escreveu o NYT
Jornal GGN – “A Amazônia está completamente sem lei: a floresta após o primeiro ano de Bolsonaro”, é a chamada de reportagem especial publicada no The New York Times. “Líderes indígenas da Amazônia são mortos por tiroteio no Brasil”, é o título de outro editorial entre os jornais mais importantes no mundo, o The Guardian.
No jornal norte-americano, o especial é claro ao apontar Jair Bolsonaro como o responsável pelo cenário: “O desmatamento na maior floresta tropical do mundo, um importante amortecedor contra as mudanças climáticas, disparou sob o presidente Jair Bolsonaro no Brasil”, escreveu o NYT.
Já o britânico The Guardian trouxe espaço, neste domingo (08), para a morte de dois líderes indígenas que foram mortos a tiros no Maranhão, em um ataque desde um carro, na reserva indígena Cana Brava, próximo a um assassinato anterior de outro membros de tribo indígena que defendia a floresta amazônica no mês passado.
“O ataque aos membros da tribo Guajajara, conhecido pelos guardiões da floresta que protegem seu território contra o desmatamento ilegal, ocorreu às margens de uma rodovia federal perto da vila de El-Betel, no nordeste do país, no sábado”, expôs o The Guardian.
“O incidente ocorre durante a conferência internacional de duas semanas da ONU sobre mudança climática, em Madri, onde líderes indígenas brasileiros estão presentes e tentando chamar a atenção para a importância de proteger seus territórios florestais”, acrescentou o jornal, em alerta para a imagem do Brasil a nível internacional.
A quantidade vazada atesta a ocorrência de acidente em plataforma, um vazamento monstro passível de gerar sanções da ordem de dezenas de bilhões de dólares
Desde o final de agosto, manchas de óleo têm dado às praias do Nordeste. As notificações se somaram por mais de um mês e já cobriam uma extensão de quase 2 mil km de costa quando os meios de comunicação começaram a dar verdadeira atenção ao tema, deixando de tratá-lo como notificações locais, após manifestação do presidente da república insinuando a culpa de um país que já estava em seu radar, enquanto decretava sigilo sobre relatório da Petrobrás que mapeava a origem do vazamento monstro. Atente, é o sigilo sobre esse relatório que mantém oculto e resguarda o responsável pela catástrofe descomunal.
Os meios de comunicação se deliciaram com a insinuação do presidente, deduzindo tratar-se da Venezuela, o tal país no radar, que já vinha sendo acusada por eles. A balela teria advindo de um comentário de funcionário da Petrobrás sobre o laudo posteriormente sigiloso de que o petróleo “não é nosso”, referindo-se à petrolífera, mas sendo compreendido como “não é brasileiro”, o boato caiu nas graças dos meios de comunicação, embalado especialmente pelo google, o primeiro a lhe dar amplo destaque.
A farsa foi ganhando corpo através de seguidas insinuações por parte de autoridades governamentais de altíssimo escalão, que acabaram autorizando a adesão descarada dos meios de comunicação, merecendo destaque uma farsa perpetrada pelo fantástico “provando” a origem venezuelana do óleo das praias sem apresentar nenhum dado, absolutamente nada que sugerisse a tese defendida. Apesar da repetição reiterada da palavra Venezuela e da acusação recorrente ao país, nenhum dado mostrado corroborou tal hipótese, levando o espectador atento a acreditar fortemente tratar-se de uma farsa para imputar à Venezuela a culpa sobre o vazamento. Repito, nenhum dado sobre o petróleo venezuelano foi mostrado no programa. (Na manhã seguinte, foi retirada do vídeo postado no G1 a parte mais comprometedora da farsa, que reproduzo, abaixo. Posteriormente o vídeo original foi reconstituído).
Outras tramoias têm pautado o noticiário, como a negação da análise por sensoreamento remoto executada por professor da USP revelando a existência de duas manchas que juntas perfaziam 25 km2, decorrido quase um mês e meio da catástrofe. A mancha monstro atestava a impossibilidade de que o óleo tivesse se originado de um navio, dada sua extensão descomunal após um mês e meio no mar. A análise retroativa das imagens dos satélites europeus Sentinel revelará a localização do vazamento, é impressionante que isso ainda não tenha sido mostrado.
Como parte das medidas efetuadas para confundir a população e encobrir o crime, plantaram uns tonéis de óleo em praias sergipanas, sugerindo que os 2 mil km de lambança adviriam disso, permitindo assim a manifestação de uma espécie de demonstração do senso de humor miliciano ao colocar marinha e polícia federal no encalço do comprador de 2 tonéis de óleo, por suspeição sobre o vazamento monstro.
Mas, por que, afinal, estão ocultando um crime ambiental tão gigantesco, talvez o maior desastre petrolífero de todos os tempos?
A quantidade vazada atesta a ocorrência de acidente em plataforma, um vazamento monstro passível de gerar sanções da ordem de dezenas de bilhões de dólares, sugerindo ao responsável pelo crime bilhões de motivos bastante óbvios para esconder tudo.
Em vista de tais cifras, não é necessária muita imaginação para se supor que uns poucos bilhões distribuídos aqui e ali tenham comprado emissoras de TV, autoridades governamentais… .
O Dia do Fogo na Amazônia realizado por ruralistas estimulados pelo Bolsonaro, é reflexo direto da irresponsabilidade dos capitalistas com a qualidade de vida e a vida em si.
Por Rafael Borges Bias e Henrique Fernandes de Magalhães
O Dia do Fogo na Amazônia realizado por ruralistas estimulados pelo Bolsonaro, é reflexo direto da irresponsabilidade dos capitalistas com a qualidade de vida e a vida em si.
O termo land grabbing descreve o fato de comunidades ou indivíduos perderem suas terras utilizadas no sustento próprio para fins como especulação, extração, controle de recursos ou mercantilização. A prática é associada à destruição do ambiente natural e é característica da dinâmica agrária do capitalismo contemporâneo, consequência da atuação do capital financeiro no mercado de terras, estabelecida por esquemas com a indústria agrícola nacional, grileiros, tabeliões, agricultores, políticos, juízes e a estrutura do Estado[1].
Há grande interesse do agronegócio brasileiro em transformar seu capital latifundiário imobilizado em um ativo financeiro lucrativo, o que é feito mais pela expansão da área possuída do que pelo aumento da produtividade. Assim, os fundos de pensão investem nesse mercado com o objetivo de se apropriar da renda obtida pelo controle do solo, diversificando seus portfólios em ativos considerados seguros, como atividades agrícolas, especialmente após o boom das commodities dos anos 2000 e a crise de 2008[2]. Nesse contexto, a dinâmica de acumulação de capital na Amazônia é ligada diretamente ao domínio de territórios e recursos naturais, o que Herrera (2016)[3] demonstra pela comparação da série histórica do desmatamento com a presença e atuação do Estado na região, como mediador do capital nacional e internacional na dominação do espaço amazônico.
Essa conjuntura indica a ocorrência de Racismo Ambiental, pois reforça o estigma e marginalização de populações humanas mais periféricas e vulneráveis (negra, indígena, quilombola e caiçara, p. e.). Segundo a pesquisadora Tania Pacheco[16], esse tipo de racismo está, também, em ações que têm impacto “racial”, independe das suas origens, o que nos desafia a ampliar nossas visões de mundo e a lutar por um novo paradigma civilizatório. Com base nisso, é possível notar um quadro de apartheid social produzido pelo modelo de desenvolvimento hegemônico brasileiro, no qual parte das pessoas são exploradas a serviço do lucro; outras, tidas como objetos sumariamente descartáveis.
A estratégia neodesenvolvimentista marcada por um capitalismo predatório tende a exterminar muitas populações, por desnutrição ou outras doenças causadas pela miséria absoluta. Isso quando não são expulsas de seus lares, a fim de que megaprojetos se estabeleçam, ocupando e arrasando o território, sob a justificativa de implantar empregos e em nome do progresso. Para os ocupantes originais dos territórios – povos indígenas, remanescentes de quilombos, agricultores familiares, ribeirinhos, pescadores artesanais, caiçaras, marisqueiras e outros representantes de populações tradicionais – resta somente alguma forma de exílio: do confinamento em assentamentos ou em reservas cada vez menores, sem condições para garantir suas tradições culturais e sequer a subsistência, ao desterro e à migração para os centros urbanos, onde dificilmente conseguirão conquistar algum espaço para viver com dignidade. Na maioria dos casos, acabarão nas zonas de risco das favelas, dos subúrbios ou do entorno de fábricas, poluídos pelos lixões e pelos resíduos tóxicos. Urge, pois, mais do que nunca, questionar e denunciar esse modelo de “desenvolvimento” capitalista como um sistema insustentável sob todas as óticas – social, ambiental e econômica – e propor novos modelos.
Em um cenário jurídico-político marcado por um grande acordo nacional, destinado a entregar a soberania do povo brasileiro a quem compre melhor os ocupantes dos altos cargos do Estado, resta o socorro de órgãos internacionais. Assim, há a possibilidade concreta de acionamento do Tribunal Penal Internacional (TPI) como meio para tal questionamento e denúncia da degradação ambiental. De acordo com o Estatuto de Roma, do qual o Brasil é signatário, essa Corte tem competência para julgar crimes graves que afetam a comunidade internacional no seu conjunto, como é o caso dos crimes contra a humanidade. (art. 1 e 5).
O art. 7º prevê como crimes dessa estirpe o “ataque contra uma população civil”, entendido como a prática de violações enquanto política de um Estado ou de uma organização. É inquestionável que o Governo Bolsonaro se volta, declaradamente, ao extermínio da população indígena, tanto pelas declarações do Presidente, quanto pela conivência das instâncias de persecução penal com a invasão de territórios indígenas e falta de investigação efetiva sobre os assassinatos de povos tradicionais em conflitos agrários. Nada obstante, a omissão do governo quanto a preservação ambiental e integridade dos territórios indígenas e quilombolas configura a hipótese do art. 7º, alínea k) do Estatuto, segundo o qual também são crimes contra a humanidade os atos que causam intencionalmente grande sofrimento, ou afetem gravemente a integridade física ou a saúde física ou mental de uma população.
O quadro apresentado possui implicações diretas na saúde, especialmente naquelas pessoas em maior situação de vulnerabilidade socioambiental: o suicídio entre indígenas é três vezes maior que a média nacional, resultado da falta de demarcação de terra, do preconceito e da interculturalidade. Relatório do Conselho Indigenista Missionário sobre violência contra índios demonstra um aumento sistêmico e contínuo na quantidade de registros de suicídio (128), assassinato (110), mortalidade na infância (702) e das violações relacionadas ao direito à terra tradicional.
É gritante a incapacidade e indisponibilidade do Estado brasileiro em alterar esse estado de coisas, o que permite a intervenção do Tribunal de Haia, que exerce sua jurisdição após denúncia por Estado-Parte, pelo Conselho de Segurança da ONU ou por iniciativa do próprio procurador da Corte (art. 13). Vale ressaltar que, em 2016, o Escritório do Procurador do Tribunal estabeleceu a exploração ilegal de recursos naturais e destruição do meio ambiente como pontos estratégicos de atuação, inclusive aponta como critério de eleição de casos para julgamento o impacto dessas práticas. Assim, após alegações de land grabbing ou destruição ambiental, a Corte pode investigar a ocorrência de um dos crimes previstos no Estatuto de Roma. Antes mesmo desse relatório, em 2014, a o Tribunal já admitiu ex officio um caso do Camboja, após a Federação Internacional para os Direitos Humanos (FIDH) comunicar ao Procurador despejos forçados generalizados e sistemáticos e o deslocamento da população civil decorrente da apropriação de terras pela elite local.
Longe de ser a solução última para o problema da política ambiental brasileira, o acionamento do TPI pode promover uma mudança cultural, além de medidas concretas, para que populações historicamente discriminadas e invisibilizadas possam exercer sua cidadania, ao defenderem seus direitos pela vida, que abrange o território, a saúde, os ecossistemas e a cultura. Nada obstante, reconhecemos que esses problemas e conflitos são complexos e exigem soluções de curto, médio e longo prazo, incluindo mudanças estruturais nos sistemas de produção e consumo das sociedades capitalistas hodiernas, bem como nas políticas públicas e práticas das organizações.
Em suma, a concepção de saúde – seja ela física ou psicossomática – e ambiente transcende as variáveis do saneamento básico, da contaminação ambiental por poluentes e das doenças e mortes decorrentes desses fatores. Ela está intimamente associada à noção de justiça ambiental e seus movimentos. Defender e promover a saúde implica, pois, não apenas a construção de ambientes mais saudáveis, mas de uma sociedade mais igualitária e digna para todas e todos. Sob essa ótica, teóricos como Enrique Leff[20], pontuam uma estreita relação entre sustentabilidade e democratização, uma vez que não haveria possibilidade de apreender a primeira sem deliberação pública. Isso coloca em questão os limites da democracia representativa na contemporaneidade na sua interface com a sustentabilidade.
Ademais, embora o conceito de sustentabilidade propagado pela ONU/PNUD[21] almeje compatibilizar o crescimento econômico com o desenvolvimento humano e a qualidade ambiental, ele não referenda um projeto de superação do capitalismo, por defender que o próprio sistema possua caminhos para alcançar patamares mais humanizados e ecológicos.
A crítica marxista parte exatamente desse ponto, problematizando a alienação provocada pelas relações produtivas capitalistas mediante a corrente do ecossocialismo, conceito que se refere a um modelo de produção que integra e respeita a simbiose metabólica entre seres humanos e natureza (LÖWY, 2005)[22]. As sucessivas catástrofes ambientais e “climáticas” recentes, como as queimadas na Amazônia ou o rompimento da barragem de Brumadinho, permitem-nos inferir que estamos diante de uma crise estrutural não somente do capital, mas também da vida na Terra. Dessa forma, somos desafiados mais do que nunca a questionar e denunciar esse modelo produtivista no qual o lucro está acima de tudo e propormos modelos de sociedade que invertam essa lógica.
Rafael Borges Bias é Mestrando em Direito (UFPE), Membro do Grupo de Estudos Direito do Trabalho e Teoria Crítica (PPGD – UFPE) e da Rede Nacional de Pesquisadores em Direito do Trabalho e Previdência Social (RENAPEDTS) Advogado (OAB-PE 42.956)
Henrique Fernandes de Magalhães é Pesquisador do Laboratório de Ecologia e Evolução de Sistemas Socioecológicos (LEA/UFPE) e Doutorando em Etnobiologia e Conservação da Natureza (UFRPE) Biólogo – CRBio 92.718/08-D
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[1] SPADOTTO, B. R. ; SAWELJEW, Y. M. ; FREDERICO, S. ; PITTA, F. T. . Financial capital, land grabbing, and multiscale strategies of corporations specializing in the land market in the Matopiba region (Brazil). In: BRICS Initiative in Critical Agrarian Studies ‘New Extractivism, Peasantries and Social Dynamics: Critical Perspectives and Debates’, 2017, Moscou. Anals of BICAS Moscow 2017, 2017.
[2] MCMICHAEL, P. The land grab and corporate food regime restructuring. The Journal of Peasant Studies, v. 39, n. 3–4, p. 681–701, 2012.
[3] HERRERA, J.A. . A estrangeirização de terras na Amazônia Legal brasileira entre os anos 2003 e 2014. Campo. Território , v. 11, p. 136-164, 2016.
[4] MARTINS, José de Souza. O cativeiro da terra. São Paulo: Hucitec, 1986.
[16] PACHECO, Tania. 2007. “Inequality, Environmental Injustice, and Racism in Brazil: Beyond the Question of Colour”. In: Development in Practice. Aug.2008, Vol.18(6). Versão em português disponível em http://www.justicaambiental.org.br/_justicaambiental/pagina.php?id=1869
[20] LEFF, Enrique. Ecología y capital: racionalidad ambiental, democracia participativa y desarrollo sustentable. México/Argentina: SigloVeintiuno Editores, 1994.
[21] ONU/PNUD. Organização das Nações Unidas e Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento. Objetivos de Desenvolvimento do Milênio. 2000.
[22] LÖWY, M. Ecologia e socialismo. São Paulo: Cortez, 2005.
Manaus (AM) – O jornalista Adecio Piran, de 56 anos, proprietário do jornal Folha do Progresso, que denunciou o protesto de produtores rurais, denominado de “dia do fogo”, foi atacado nesta quarta-feira (28), por meio de grupos da rede social WhatsApp, com um panfleto apócrifo, que também foi distribuído em versão impressa à população de Novo Progresso, no sudoeste do Pará. O jornalista registrou um Boletim de Ocorrência na Polícia Civil. O panfleto traz uma foto montada de Adecio, na qual ele aparece de chapéu, com o símbolo da cifra do dólar no óculos preto, uma imagem de incêndio ao fundo e a frase: “Mentiroso, Estelionatário e Trambiqueiro”.
Um dos trechos do panfleto acusa o jornalista de inventar a notícia do protesto “dia do fogo” para prejudicar o desenvolvimento de Novo Progresso, município que enfrenta alta das queimadas. “Não é de hoje que este senhor [Adecio] vem prejudicando nossa região com falsas notícias que é compartilhada por ONG´s e ativistas mundo afora fazendo com que nossa cidade seja vista como vilã em queimadas e desmatamento, o que é mentira”, diz o panfleto.
À agência Amazônia Real, o jornalista Adecio Piran revelou que sua situação de segurança estava difícil. Ele contou que nasceu em Medianeira, no Paraná. Há 20 anos foi morar em Novo Progresso e abriu o jornal. “É ameaça geral aqui. São [as ameaças] de pessoas que não aceitam a verdade e que, de uma forma ou outra, atacam para se esconder dos atos praticados”, disse ele sobre os panfletos distribuídos em Novo Progresso.
Adecio Piran afirmou que os anunciantes do jornal também estão sendo ameaçados e coagidos. “Eles [os produtores rurais] estão fazendo uma corrente para retirar os patrocinadores do jornal. Nossa situação está muito complicada”, e por isso o jornalista registrou um Boletim de Ocorrência (BO) na Unidade da Polícia Civil da cidade.
A reportagem teve acesso ao BO. No documento, o jornalista disse que é alvo de difamação, calúnia e ameaça por parte de grupos denominados de “Direita Unida Renovada” e “Caneta Desesquerdizadora”, ativos na rede social WhatsApp. Também responsabilizou Donizete Severino Duarte, que seria administrador do “Direita Unida Renovada”, em Novo Progresso, como um dos autores das ameaças.
A reportagem não localizou Duarte para falar sobre a denúncia. Já o presidente do Sindicato dos Produtores Rurais de Novo Progresso, Agamenon Menezes afirmou que o jornalista mente e também registrou um BO contra Adecio Piran por calúnia e difamação. Leia mais abaixo.
Em outro trecho do panfleto apócrifo, Piran é acusado de estelionato. “O que estamos sabendo é que esse cidadão é um estelionatário que extorque dinheiro de empresários e políticos há anos, antes de publicar suas matérias mentirosas, um fracassado que vive de maracutaias. ”
O jornalista rebateu a denúncia, dizendo que seu veículo, que tem uma página na internet, sobrevive de pequenos anúncios e não recebe recursos públicos. Segundo ele, o jornal ganhou credibilidade ao longo dos anos, denunciando crimes ambientais.
“A imprensa na cidade não publica [as notícias dos crimes] com medo de represálias que ocorrem, principalmente sobre as causas ambientais”, afirmou Piran.
Sobre a acusação do presidente do Sindicato dos Produtores Rurais de Novo Progresso, Agamenon Menezes, que alega que o “dia do fogo” foi uma mentira inventada pelo jornal Folha do Progresso, o jornalista Adecio Piran indagou: “o Exército não está aqui apagando fogo? Eles [ruralistas] precisam entender que a Amazônia não é minha, é do planeta”.
A reportagem da Amazônia Real procurou instituições como o Ministério Público Federal do Pará, Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji) e o Artigo 19 da Constituição, que defendem a liberdade de expressão e liberdade de imprensa. No que diz respeito às instituições, elas informaram que estão acompanhando a situação do jornalista em Novo Progresso, mas ainda não se pronunciaram.
O Sindicato dos Jornalistas (Sinjor) no Estado do Pará e a Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj) divulgaram uma nota oficial nesta quinta-feira (29) repudiando as ameaças contra Adecio Piran. “Repudiamos mais um atentado contra o exercício do jornalismo, da liberdade de imprensa e de expressão”. As entidades também pedem providências ao Governo do Estado do Pará e seus órgãos de Segurança Pública para garantir a integridade física e os direitos do jornalista e que sejam identificados e punidos os autores das ameaças.
Inpe registrou queimadas
A notícia do “dia do fogo” foi publicada no jornal Folha do Progresso em 5 de agosto e relatava que os produtores rurais estavam organizando o protesto no dia 10 de agosto para “chamar atenção das autoridades” sobre a falta de apoio do governo”, e também para demonstrar que estavam “amparados pelas palavras” do presidente Jair Bolsonaro (PSL), que contestou os dados dos desmatamentos na Amazônia e prometeu perdoar as multas de ruralistas por crimes ambientais.
“Precisamos mostrar para o presidente [Jair Bolsonaro] que queremos trabalhar e o único jeito é derrubando. E para formar e limpar nossas pastagens, é com fogo”, disse um fazendeiro, ouvido pelo jornal Folha do Progresso, sob anonimato.
Os dados do Inpe mostram que as queimadas explodiram no entorno da BR-163, justamente a partir do anúncio do “dia do fogo”, informou a reportagem do jornal Folha do Progresso, que repercutiu em nível internacional.
No dia 14 de agosto, a Folha de S. Paulo publicou que, após o “dia do fogo”,o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) registrou uma explosão de focos de incêndio na região de Novo Progresso, que fica a 1.643 km de distância de Belém. O aumento dos incêndios e queimadas foi de 300% no dia 10 de agosto, um sábado, em comparação com o dia anterior. “Com 124 registros, foi o recorde do ano, mas durou pouco: no domingo (11), já pulou para 203 casos. Nos últimos dias, a cidade conviveu com uma densa nuvem de fumaça”.
A série Amazônia em Chamas publicada pela agência Amazônia Real, revelou que funcionários do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), que atuam no sudoeste do Pará, solicitaram apoio da Força Nacional de Segurança (FNS), subordinada ao ministro da Justiça, Sérgio Moro, para apoiar a fiscalização e deter a manifestação pelo “dia do fogo”, mas não foram atendidos, apesar de serem cobrados pelo MPF.
Ruralista registrou BO
Queimadas no Parna Jamanxim em Novo Progresso no Pará em 24 de agosto de 2019 (Foto: Victor Moriyama / Greenpeace)
“É um jornalista revoltado aqui, ele não é bem certo da cabeça. Ele de vez em quando faz umas reportagens malucas desse aí, não sei dá onde ele tirou. Como ele é jornalista, e tem o direito do sigilo, ele não conta quem foi que contou. Nós queremos saber quem é que falou para ele que iria fazer isso, mas [ele] não conta, ele fica com a lei do sigilo”, disse o ruralista.
Procurado nesta quarta-feira (28), Agamenon Menezes afirmou que registrou um Boletim de Ocorrência (BO) contra o jornalista Adecio Piran, no dia 10 de agosto. “O sindicato registrou um BO em cima do jornal e tem uma investigação em isso aí. Ele mentiu muito, inventou uma história e deu um prejuízo moral e financeiro para todo mundo”, disse o sindicalista.
Perguntado se soube da distribuição dos panfletos apócrifos com ameaças ao jornalista, Menezes afirmou: “Tô sabendo que o pessoal aqui está revoltado com ele [o jornalista]. Mas aqui a gente é ordeira; ninguém vai fazer nada com ele, que é uma pessoa imoral. Ele inventa histórias e já inventou outras vezes”, disse.
A Amazônia Real perguntou que outras inverdades o jornalista teria publicado anteriormente e o sindicalista desconversou. “Não lembro agora”
A reportagem explicou ao sindicalista Agamenon Menezes que foi o Inpe que detectou um aumento de 300% nas queimadas em Novo Progresso no “dia do fogo”, isto é, na data de 10 de agosto. Questionou a relação entre o aumento significativo das queimadas, no dia em que foi anunciado o protesto dos produtores rurais. O ruralista negou.
“Isso é também mentiroso, uma calúnia, não existiu. Eles [o Inpe] pegam um fogo de calor de uma fogueira de São João, por exemplo, e dizem que é um foco de calor de derrubada de floresta, certo! ”, afirmou Menezes. “Isso interessa muito à comunidade internacional para prejudicar nosso presidente [Jair Bolsonaro]”, completou.
Agamenon Menezes disse que está à frente do sindicato há 23 anos. Para ele, todos os anos há queimadas para a produção do pasto na região. “Muitas vezes a pessoa, por acidente, queima o pasto. O que está acontecendo agora é o clima, não é que estão tocando fogo na floresta. Aí, o Inpe coloca lá como se tudo fosse queimada”, disse o sindicalista.
A reportagem explicou ao sindicalista que as imagens de satélites, das quais o Inpe faz o monitoramento de queimadas desde 1989, e as fotografias produzidas por profissionais na região de Novo Progresso e Altamira, mostram que as queimadas aumentaram por causa dos desmatamentos. Então questionou: O que o senhor tem a dizer?
“O desmatamento realmente existe, aquelas bolas de desmatamentos existem. Mas você sabe que na legislação brasileira na Amazônia, a pessoa pode usar 20% da área para desmatar com o plano de manejo. Se permite, o que eu posso fazer se não é proibido? ”, questiona Agamenon Menezes.
O presidente do Sindicato dos Produtores Rurais de Novo Progresso, contudo, reconhece que há desmatamento ilegal, mas questionou. “A maioria dos produtores trabalha na legalidade, mas não podem dizer que tudo que é madeira daqui é ilegal. Então tudo que desmata aqui é ilegal? Todo fogo é ilegal, é proibido? Então o que querem fazer com nós aqui da Amazônia? ”, finalizou Menezes.
Violência contra jornalistas
O jornalista Ueliton Brizon, foi morto em 16 de janeiro de 2018 (Foto: Arquivo da família)
Segundo a organização não-governamental de direitos humanos Artigo 19, a violência contra jornalistas aumentou nos últimos anos no Brasil. De janeiro até o mês de agosto de 2019, foram 26 ameaças, 1 sequestro, 4 tentativas de homicídio e 4 assassinatos. As principais vítimas foram jornalistas (17 profissionais). Em 2018 foram 35 ameaças, mesmo número de 2012 e 2015.
Na Amazônia, em 2018, foram assassinados o jornalista Ueliton Brizon, em Rondônia, e o radialista Jairo José de Sousa, da Rádio Pérola, no Pará.
Jairo de Sousa foi assassinado em 21 de junho, em Bragança, no Pará. No programa radiofônico, ele apresentava diariamente denúncias contra a administração pública da cidade e de municípios vizinhos. O vereador Cesar Monteiro (PR), foi apontado como suspeito de ter encomendado a morte do radialista a pistoleiros, segundo informou a agência Ponte de Jornalismo.
Este texto foi atualizado dia 29/08 para uma correção: o jornalista Adecio Piran nasceu em Medianeira, no Paraná, e não em Novo Progresso (PA) como foi divulgado anteriormente. Também foi incluída a Nota Oficial do Sindicato dos Jornalistas (Sinjor) no Estado do Pará e da Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj).