Mostrando postagens com marcador Westwolrd. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Westwolrd. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 8 de novembro de 2016

Filosofia, crítica ao mecanicismo, crítica ao capitalismo e um enredo envolvente na série da HBO Westworld



Reflexões sobre a série Westworld,

por

Carlos Antonio Fragoso Guimarães


"Deve ter algo errado com este mundo, algo escondido..."


 Westworld, uma série da HBO, pode se destacar por vários pontos envolventes: superprodução, um enredo inteligente e bem construído, atores especialmente competentes (incluindo Anthony Hopkins, Ed Harris, Rodrigo Santoro, Evan Rachel Wood, Tandle Newton, entre outros), a música marcante de Ramin Djawadi ( o mesmo de Game of Thrones), fotografia belíssima, etc. Contudo, em minha opinião, o ponto mais forte da série (que, infelizmente escapará ao consciente do grosso de seus espectadores) são as reflexões implícitas sobre Epistemologia (o conhecimento, a validade do saber, a natureza da realidade), a Filosofia (Fenomenologia, o problema do bem e do mal, o livre arbítrio, Deus, destino, Ética, Moral), questões Psicológicas (o comportamento "construído", crítica ao behaviorismo, a transpessoalidade e uma boa pitada de psicologia Junguiana - representada no "Labirinto" onde o centro é simbolizado pela silhueta humana, metáfora da busca do auto-conhecimento ou, mais dramaticamente, da humanidade perdida no meio da loucura de uma razão instrumental longe de ser sensível) e Sociais, posto que é visível a crítica à sociedade de consumo, ao capitalismo e as posturas "estereotipadas" de pessoas que perderam a capacidade de se relacionar com outras pessoas em uma civilização ultra-racionalizada. Mas talvez esta característica inteligente da série venha a ser, paradoxalmente, o seu ponto fraco: em uma época de golpes e mediocridades no mundo inteiro talvez a série não seja totalmente bem sucedida ante o público.... espero estar errado...


  Baseado em um filme homônimo da década de 70, com o fantástico Yul Brynner (veja um dos cartazes originais, com este ator, ao lado), a versão atual da HBO foi concebida por Jonathan Nolan e Lisa Joy e tem entre seus diretores executivos, J. J. Abrams, que ficou famoso pela série Lost.

  E com Lost e outras séries Westworld tem vários pontos em comum, mas com uma vantagem: a HBO garantiu o investimento no enredo e já tem claro a estrutura da série, que deverá ter de cinco a seis temporadas, com um final já estabelecido que serve de norteador ao desenvolvimento dos episódios. E agora, com o sucesso confirmado da produção,  é bem difícil que a série tenha mesma mazela de Lost, que perdeu fundos da produtora CBS e ficou sem poder amarrar direito o fio da história de modo coerente.

  Em Westworld -  que até agora tem se superado em cada um de seus episódios - percebemos uma construção bem amarrada e sempre surpreendente do roteiro e é quase certo que o fôlego se manterá bom um bom tempo, ainda que, de certa forma, a história venha a se estabilizar com o tempo. Não sem razão, Westwolrd também mantém pontos de contato com Game of Trones, que, alíás, já está em sua reta final e precisava de um substituto à altura - A HBO parece que coseguiu descobrir a fórmula de misturar história, mistério e uma grande pitada sutil de reflexões apropriadas em um momento histórico onde a imbecilidade, a superficialidade e a mesmíce de produções cinematográficas e televisvas estimulam e ao mesmo tempo reflete a mediocridade galopante e alienada do tipo coxinha que se apresenta para além do Brasil...


 A historia se constrói sobre um parque temático, Westworld, onde o velho oeste americano é reconstruído para que ricos e burgueses venham "encontrar um sentido para suas vidas vazias" e alguns outros mais equilibrados entrarem em um "processo de auto-decoberta" (termos utilizados pelos funcionários que controlam o parque, incluindo um de seus dois sócios fundadores e cientista-chefe, Robert Ford, interpretado pelo fantástico Anthony Hopkins)..

  Este público pagante (e muitas vezes visivelmente cruel e desequilibado, apesar de sua orgiem e discursos "racionais"), ou "clientes", também chamados de "visitantes" ou "convidados", interage com seres artificiais, robôs ultrasofisticados ( que são inteligentes, sensiveis, mas que não tem consciência de sua natureza "fabricada"), chamados de "anfitriões".  Estes, sem o saberem, são "programados" em uma série de enredos gerais nos quais, a partir de sua interação com os "clientes", acabam por se tornarem objetos de exploração e abuso por parte destes.

  O comportamento destes "clientes" - pessoas quase bestiais e em sua maioria de mentalidade torpe, frutos de uma sociedade alienante e mecanicista, e até mesmo mais artifiicial que a dos "anfitriões" andróides - acaba por despertar em alguns destes últimos lembranças de outras "programações", o que os levam a um paulatino "despertar" de consciência, especialmente a de de que são objetos de uso e exploração, mesmo que projetados para se integrarem como engrenagens desta "sociedade planejada". Ao mesmo tempo, a própria mudança de aspecto visual entre o mundo "real" (quase sempre representado em um laboratório subterrâneo com cores frias, salas de ângulos retos com vidros, metais e excesso de tecnolocia, um mundo encharcado de "razão instrumental" e seus técnicos. A única exceção é o mirante da central de controle, que se abre em cima de uma montanha que esconde o complexo de escritórios e oficinas do parque para Westworld e onde os funcionários tem uma "licença" para se distrairem um pouco) contrasta com as cores naturais e vivas do parque Westorld, com "pessoas" que choram, riem e, apesar de "não serem humanas", sangram e sonham. Este é o contexto para a crítica da vaidade e imbecilidade humanas. Os "anfitriões", depois de serem mortos ou sofrerem algum dano, são levados às oficinas acima descritas e expostos quase sempre nus aos funcionários - uma forma bem direta de mostrar a "objetividade positivista" que reduz tudo, até mesmo o aparentemente humano, a coisas, mercadorias, objetos de uso. É o gatilho para o questionamento da realidade, de seus destinos, da falsa superioridade dos "pagantes" e, à medida que vão descobrindo o jogo em que foram lançados, dos construtoress, da equipe técnica e de todo o Stablishment que impôs uma realidade social altamente hipócrita, calculada, mas maquiada, em Westwolrd.... Alguma semelhança com nossa realidade ou tudo não passa de uma mera coincidência?

  Assistam, reflitam e tirem suas próprias conclusões e desenvolvam suas próprias teorias.... Para quem ainda não conhece a série, veja o trailler acima.