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sábado, 6 de fevereiro de 2016

Bernie Sanders, um Socialista que vai bem na disputa pela Casa Branca

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Num país cada vez mais polarizado, parte do público que rejeita ideias ultra-conservadoras do Tea Party avança consistentemente para a esquerda. Sanders tem sabido oferecer uma perspectiva
Que estranho fenômeno político leva Bernie Sanders a reunir multidões e avançar nas pesquisas, resgatando heróis revolucionários e defendendo ideias opostas às do establishment
Por Bhaskar Sunkara, em Jacobin | Tradução: Vinícius Gomes Melo - Fonte: Outras Palavras
“Eu não sou um soldado do capitalismo. Eu sou um revolucionário proletário… Eu sou contra todas as guerras, exceto uma”. Foi o que disse o senador Bernie Sanders, em 1979, ao citar, para uma coletânea da Folkways Records, o discurso do famoso candidato presidencial pelo Partido Socialista norte-americano Eugene V. Debs.
A linguagem estava deslocada, em um país prestes a viver a era Reagan, onde até mesmo as mais modestas conquistas do Estado de bem estar social norte-americano estariam sob ameaça. Ainda assim, dois anos depois, Sanders tornou-se o prefeito da maior cidade do estado de Vermont. O Vermont Vanguard Press celebrou a “República Popular de Burlington” com uma edição especial. Sanders pendurou um quadro de Debs em seu novo escritório. O quadro hoje está na parede do seu escritório no Capitólio, o Legislativo dos EUA.
Tecnicamente, Sanders é um independente que disputa as convenções partidárias junto ao Partido Democrata. E sua própria variedade de socialismo é mais semelhante à do ex-primeiro-ministro sueco Olof Palme, também um social democrata, do que à de Debs, um simpatizante dos bolcheviques. Sanders gosta de comparar o sucesso dos países escandinavos, com seus Estados de bem estar social, com a desigualdade no interior da sociedade norte-americana, destacando a miséria infantil e falta a assistência médica acessível nos EUA. Suas soluções – cobrança progressiva de impostos e serviços públicos robustos – não estão muito distantes daquelas que seus colegas mais à esquerda no Senado, como a senadora Elizabeth Warren – propõem.
Para Sanders, o manto de socialista é acima de tudo um aceno à rica história norte-americana de radicais e reformadores, aqueles que foram amplamente apagados pelo da história do progresso nacional pelo conservadorismo doméstico, assim como pela Guerra Fria no exterior. O próprio padrão de Sanders em suas votações, alinha-se muito com os progressistas no Partido Democrata. Como Howard Dean afirmou emMeet the Press, em 2005, “ele é basicamente um democrata liberal… A verdade é que Bernie Sanders vota 98% das vezes com os democratas”.
A base democrata concorda. Por anos, eles evitaram que o partido colocasse candidatos para concorrer contra ele em Vermont – mais um sinal de que o rótulo de socialista já não evoca imagens de filas para o pão e gulags.
Sanders não oferece aquela visão emancipatória, ou com princípios políticos anti-imperialistas, que devemos reivindicar da esquerda, mas sua defesa incondicional do Estado de bem estar social contrasta fortemente com as políticas, favoráveis às corporações, de sua concorrente Hillary Clinton. E como Elizabeth Warren provavelmente não concorrerá em 2016, apenas Sanders pode empurrar as primárias para a esquerda, obrigando Hillary a assumir uma série de compromissos audaciosos para apaziguar (e depois afastar, quando eles não forem cumpridos) uma descontente base progressista.
Bernie Sanders
Sanders descreveu sua possível candidatura como uma tentativa de construir organização e pressão a partir da esquerda: “Se eu concorrer, será por um tipo de coalizão capaz de transformar a política”
Ao contrário da maior parte da Europa, os Estados Unidos nunca tiveram um forte partido trabalhista que disputasse o poder e construísse um generoso Estado de bem estar social. Porém, durante boa parte do século passado, muitos no Partido Democrata foram capazes de construir alguns fragmentos disso, dentro de certos limites.
Os movimentos que exerceram esse papel – sindicatos, organizações de direitos civis e grupos comunitários – ainda estão por aí. Mas por não terem controle estrutural algum sobre um partido que, fundamentalmente, representa os interesses do capital, são facilmente colocados de lado. À medida em que a distância entre eles e as políticas perseguidas por líderes do partido, como Barack Obama, torna-se mais evidente, não surpreende que comecem a erguer suas vozes.
Hillary Clinton está profundamente enraizada na tradição Novos Democratas, e teve um papel na criação das políticas que se tornaram o senso comum dentro do partido. Os Novos Democratas juntaram-se sob o auspícios do já falecido Conselho da Liderança Democrática (DLC, sigla em inglês), no final dos anos 1980. Quando o “tribute-e-gaste” tornou-se eleitoralmente inviável, os democratas supostamente deveriam promover um governo cada vez mais reduzido e menos atuante (ainda que brincassem com uma política social progressista, nas margens)
É inegável o papel dos Clintons na transformação do Partido Democrata em plano nacional, ao longo dos anos 1990 (no processo, obtiveram recompensas eleitorais de curto prazo). Afinal de contas, foi o presidente Bill Clinton – e não Ronald Reagan – que equilibrou o orçamento e colocou um fim ao “bem estar social como o conhecemos”. E foi Hillary Clinton, então primeira-dama, que apoiou de maneira forte as mudanças promovidas pelo DLC, como a emenda de reforma no Estado de bem-estar social de 1996.
O presidente Obama, apesar de suas promessas de mudanças na batalha das primárias em 2008 contra Hillary, não se desviou da agenda de interesses do DLC. Os liberais mais tradicionais opuseram-se às políticas dos Novos Democratas, à falta de ação de Hillary quanto às mudanças climáticas e à agressiva política externa que incluiu o apoio à invasão do Iraque.
Nos últimos anos, a maré política continuou a se mover contra os Clintons, especialmente quando começou a crise financeira de 2008. À direita, o movimento Tea Party, politicamente engajado e ativo, ganhou a maior parte das manchetes. Porém, o movimento Occupy, as insurgências trabalhistas como a greve do Sindicato dos Professores de Chicago, as ações dos trabalhadores de fast-food, os protestos contra a violência policial e a maior atenção dada a desigualdade de renda – tudo isso aponta para a incipiente reemergência da esquerda nos EUA.
Eugene Debs, o socialista histórico que inspira Sanders: organizador dos trabalhadores por toda a vida, cinco vezes canditato à presiência dos EUA, em contato com o marxismo na prisão
Eugene Debs, o socialista histórico que inspira Sanders: organizador dos trabalhadores por toda a vida, cinco vezes canditato à presiência dos EUA, em contato com o marxismo na prisão
Eleitoralmente, um mix eclético de personalidades lutou para preencher os espaços que as ações populares abriram – desde o prefeito de Nova York, Bill de Blasio, até populistas no Senado como Elisabeth Warren. Mas exceto Sanders, nenhuma dessas figuras está preparada para disputar em 2016.
Sanders descreveu sua possível candidatura como uma tentativa de construir organização e pressão a partir da esquerda: “Se eu concorrer, meu trabalho será ajudar reunir gente para um tipo de coalizão capaz de vencer e transformar a política”. Isso seria a mais profunda tentativa de fazer algo do tipo entre o Partido Democrata desde a eletrizantes campanhas de Jesse Jackson na década de 1980.
Sanders pode apenas sonhar em reunir as forças políticas que Jackson conseguiu, e as razões para que os liberais mais convencionais queiram que Hillary vença as primárias são fáceis de entender. Na esfera nacional, ela é figura mais conhecida e popular na corrida do Partido Democrata; e pode sustentar a popularidade do partido entre as mulheres. Ela é dura de ser batida, e uma grande vitória em 2016 pode pavimentar o caminho para um Congresso de maioria democrata.
Mas as pesquisas indicam que, assim como o Partido Republicano despenca para a direita, o eleitorado que se declara democrata está tendendo de maneira coerente e uniforme para posições progressistas. No núcleo de uma potencial base para a campanha de Sanders, está a divisão cada vez maior entre a liderança centrista do partido e os eleitores que ainda mantêm a visão dos democratas como o partido do New Deal e da Grande Sociedade1.
Talvez como resposta ao renovado fervor na direita, mais democratas afirmam ser a favor de um governo ativo, capaz de regular as corporações e garantir serviços sociais. Esse grupo de liberais enxerga os poucos êxitos de Obama – a reforma na assistência médica, por exemplo – como insuficientes, considerando as concessões oferecidas por seu governo às corporações. A ausência de uma organização como um Tea Party, para articular politicamente esses sentimentos, abre espaço para que Sanders consolide os progressistas em um bloco eleitoral coerente.
Enquanto isso, como o site Politico reportou, Hillary é vista, por alguns grandes doadores liberais, como alguém muito centrista para merecer apoio. Até mesmo aqueles que não compartilham das políticas social-democratas de Sanders querem que ela seja desafiada pela esquerda e veem o candidato como uma potencial alavanca para tirar o Partido Democrata da posição de centro-direita.
É mais provável que seja Sanders quem altere o tom e o conteúdo do debate, do que alguém como Dennis Kucinich, o congressita de Ohio que atuou com a voz progressista solitária nas recentes primárias presidenciais, mas jamais conseguiu conquistar um apoio maciço. Sanders é levado a sério pelos eleitores. Ele tem a credibilidade, e a bagagem, de alguém que é um senador, e é uma voz poderosa na defesa da redistribuição de riqueza.
Em uma era de estagnação econômica, as frustrações que outrora foram caladas podem ferver, em descontentamento aberto. Há um número suficiente de pessoas à esquerda, da coalizão democrata, para dar dor de cabeça à campanha de Hillary. Seus planos de se descolar para o centro, para turbinar o mais rápido as perspectivas para as eleições gerais, saíram sem dúvidas dos trilhos, por conta do crescimento de Sanders.
Não será, é claro, suficiente para vencer desta vez; mas, se vista como uma oportunidade para a construção de um movimento, a candidatura de Sanders pode fortalecer a esquerda no longo prazo. As tensões entre os democratas são sérias e podem aumentar a possibilidade para o realinhamento das forças progressistas em bases totalmente diferentes.
Este é um projeto diferente das tentativas de Michael Harrington (e outros) para conveter os democratas em um partido social-democrata mais tradicional, ao forçá-lo para a esquerda. Nosso objetivo deve transcender por completo o partido.
Está longe de ser um plano à prova de falhas, mas nesse momento a melhor aposta para a esquerda na arena eleitoral é apoiar tanto as campanhas políticas eleitorais independentes, e as candidaturas primárias de socialistas insurgentes, como as de outros radicais. Ter Sanders defendendo abertamente o socialismo, e contestando o histórico dos Novos Democratas perante uma audiência nacional é um pequeno passo na direção certa.
Certamente há perigos em uma candidatura presidencial de Sanders. Em ocasiões anteriores, tentativas de fortalecer movimentos sociais através de “alguém de fora” nas primárias – como as campanhas de Jesse Jackson – acabam em becos sem saída. Levaram, possivelmente, ao enfraquecimento dos esforços políticos independentes.
Mas a candidatura de Sanders não precisa ser apenas uma convergência das forças de esquerda contra uma nomeação quase certa de Hillary. Ao invés disso, pode ser um caminho para que os socialistas reagrupem-se, organizem-se e articularem o tipo de política que se comunique com as necessidades e aspirações da ampla maioria das pessoas. E poderia começar a legitimar a palavra “socialista”, servindo como estopim para deflagrar conversas a respeito – mesmo que o socialismo de bem estar social de Sanders não vá tão longe.
Uma vibrante campanha de Sanders seria um sinal de que as perspectivas sombrias quanto ao emprego, e a pressão cada vez maior sobre os trabalhadores norte-americanos, estão criando um espaço político para a mudança. Há grande razão para acreditar que, se ele falhar, que vozes radicais poderão tomar seu lugar, levando de volta, ao palco principal da política, a memória de Eugene Debs.
1 Great Society, conjunto de políticas sociais lançadas pelo presidente Lyndon Johnson (democrata, 1964-65) com objetivo de combater a pobreza e a desigualdade social. Veja mais na Wikipedia

quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

Neoliberais e defensores dos bancos atacam o Papa Francisco



Não é apenas os neoconservadores fundamentalistas americanos membros do Tea Party e ciosos da defesa do capitalismo que atacam o Papa Francisco pelo posicionamento deste pela justiça social, o que inclui a crítica deste sistema desumano. No Brasil, representantes da extrema-direita, como Rodrigo Constantino, da sórdida Revista Veja, já andou escrevendo contra o posicionamento do Papa. Também os banqueiros e os mega-especuladores estão atentos, vendo em Francisco um perigo a ser combatido...

A seguir, texto de Claudio Bernabucci, publicado na Revista Carta Capital, em 14 de janeiro de 2014:

Internacional

Vaticano

Habemus Papam subversivo

No dia de Natal, o Financial Times ataca Francisco por suas críticas à desigualdade do mundo. Por Claudio Bernabucci, de Roma
por Claudio Bernabucci — publicado 14/01/2014 05:43, última modificação 14/01/2014 13:45

De Roma
http://www.cartacapital.com.br/revista/782/habemus-papam-subversivo-5460.html/papa/image_preview
O colunista John Gapper, britânico que mora em Nova York, é um dos mais badalados comentaristas econômico-financeiros do jornal londrino. O que mais espantou foi, porém, a escolha simbólica feita pelos editores. O FT é considerado uma espécie de bíblia do neoliberalismo, e a escolha do dia 24 de dezembro para polemizar abertamente com o papa indica que está em jogo um desafio profundo. Em outros termos, a cúpula do sistema capitalista não gosta do novo papa, e ao mesmo tempo o teme: o posicionamento do FT é só uma das primeiras manifestações de antagonismo em uma luta que se prefigura duríssima. Agora, para todos aqueles, como este modesto contador de fatos, que atribuem ao neoliberalismo as principais responsabilidades pela atual decadência mundial, o fato de oFinancial Times colocar o papa Francisco na barricada dos adversários representou notícia animadora. Se o FT está contra Francisco, nós estamos felicíssimos por ter o papa como aliado e, portanto, melhor presente de Natal não poderíamos ter recebido de além da Mancha.
Sem meios-termos, desde as primeiras linhas, o longo artigo doFinancial Times afirma que o papa está errado na análise econômica sobre os desequilíbrios mundiais denunciados na sua primeira Exortação Apostólica, batizada Evangelii Gaudium (o Gáudio do Evangelho, 24 de novembro de 2013). “O papa Francisco põe a mira no moderno capitalismo por encorajar a ‘idolatria do dinheiro’ e a crescente desigualdade no mundo”, ataca Gapper. Vem depois a citação literal de uma só frase, no parágrafo 56 da Exortação: “Enquanto os lucros de poucos crescem exponencialmente, os da maioria situam-se cada vez mais longe do bem-estar daquela minoria feliz. Tal desequilíbrio provém de ideologias que defendem a autonomia absoluta dos mercados e a especulação financeira”. Até aqui a citação doFT, mas na verdade o papa continuava, afirmando: “Por isso, negam o direito de controle dos Estados, encarregados de velar pela tutela do bem comum”. “Considerando o mundo como um todo”, prossegue o FT, “o papa está errado em ambos os pontos. Não só a distribuição da renda ficou mais equitativa, mas também o capitalismo pode se gabar desse resultado”.
É verdade que a distância entre ricos e pobres aumentou no Ocidente, concede Gapper, mas em nível global nos últimos anos a desigualdade econômica diminuiu. Citando o índice Gini de desigualdade global, o comentarista observa que, nos países emergentes, China e Índia em particular, onde vive a grande maioria da população mundial, a desigualdade diminuiu como resultado da globalização. Na prática, observa o FT, acontece que na última década, em termos econômicos, houve duas classes de “vencedores” no mundo: os ricos em todos os lugares e a classe média nos países emergentes. E houve dois perdedores: os pobres em todos os lugares e a classe média nos países ocidentais. Através de inúmeras estatísticas e gráficos, o comentarista tenta fortalecer suas posições, mas, na ânsia de demonstrar o óbvio, perde de vista a complexidade do conjunto.
Evangelii Gaudium, texto articulado que só em parte se dedica às questões sociais do mundo contemporâneo, já foi violentamente criticada por alguns expoentes da direita americana, que, sem perífrases, colocaram o pontífice entre os marxistas por ter ousado criticar o capitalismo. A bem da verdade, a opinião do papa Francisco parece ser compartilhada por outro perigoso esquerdista, sempre com base nas convicções da direita americana. Estamos falando do presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, que em recente discurso lamentou o fato de que os 10% mais ricos da população americana, que antes levavam para casa um terço da renda nacional, hoje chegam a levar mais da metade. E que os administradores das grandes empresas, que antes ganhavam de 20 a 30 vezes mais do que o salário médio, agora ganham 273 vezes a média americana. “A desigualdade”, tem afirmado recentemente Obama, “é a questão que define o nosso tempo. No que resta da minha Presidência, todos os meus esforços serão focalizados em limitá-la”.
O artigo do FT não chega às mesmas grosseiras conclusões do Tea Party americano, mas parece ser inspirado pelas mesmas preocupações, ou seja, a perda de hegemonia mundial do núcleo duro do capitalismo central, provocada pelo papa que veio do “fim do mundo”. O presidente negro incomoda, mas já foi parcialmente neutralizado e agora representa sem dúvida uma preocupação menor.
A leitura integral e uma análise complexa da Exortação Apostólica levam a entender em todas as suas potencialidades as posições da nova doutrina social que Francisco quer adotar para a Igreja e, ao mesmo tempo, levar aos homens de boa vontade. Três questões se destacam claramente na grande riqueza de conteúdo da Evangelii Gaudium: uma ideia de Igreja aberta e proativa, uma forte crítica ao capitalismo neoliberal e uma perspectiva ética de inclusão social.
O papa não se expressa contra nem a favor de determinado sistema de mercado, mas vai direto ao coração da crise mundial que se espraia em nosso tempo. Estamos assistindo a um colapso de todo o sistema monetário, o que é consequência da derrota do conjunto de valores que dominou a terceira fase da Revolução Industrial, a tecnológico-financeira. E Francisco demonstra-se muito mais firme e claro do que seus antecessores em condenar a injustiça e a especulação: “Uma reforma financeira que levasse em conta a ética exigiria uma vigorosa mudança de atitudes por parte dos dirigentes políticos, a quem exorto a enfrentar este desafio com determinação e clarividência, sem esquecer naturalmente a especificidade de cada contexto. O dinheiro deve servir, e não governar!”
Aparece nítido no texto papal o diagnóstico da falência ético-antropológica do sonho de um bem-estar puramente materialista que caracteriza o capitalismo contemporâneo, com base unicamente egoísta e individualista. “Para apoiar um estilo de vida que exclui os outros ou mesmo entusiasmar-se com esse ideal egoísta, desenvolveu-se uma globalização da indiferença. Quase sem nos darmos conta, tornamo-nos incapazes de nos compadecer ao ouvir os clamores alheios, já não choramos à vista do drama dos outros nem nos interessamos por cuidar deles, como se tudo fosse responsabilidade de outrem, que não nos compete. A cultura do bem-estar anestesia-nos a ponto de perdermos a serenidade se o mercado oferece algo que ainda não compramos, enquanto todas essas vidas ceifadas por falta de possibilidades nos parecem mero espetáculo, que não nos incomoda de forma alguma.”
O que o papa Francisco indica é a necessidade de uma saída social e humana da crise econômica: “Hoje, tudo entra no jogo da competitividade e da lei do mais forte, onde o poderoso engole o mais fraco. Em consequência dessa situação, grandes massas da população veem-se excluídas e marginalizadas: sem trabalho, sem perspectivas, num beco sem saída”. O papa lembra “que os ricos devem ajudar os pobres, respeitá-los e promovê-los”. Só dessa maneira se pode gerar a vitória da economia sobre as finanças e reafirmar o papel dos povos nas atividades produtivas e de consumo. Em suma, a economia deve ser posta a serviço do homem, para cada homem, e o bem comum deve ser declinado em sentido popular e social, não individualista e centralizador.
As mais belas páginas da Exortação referem-se aos pobres: “Com a exclusão, fere-se, na própria raiz, o fato de pertencermos à sociedade em que vivemos, pois quem vive nas favelas, na periferia ou sem poder, já não está nela, mas fora. Os excluídos não são ‘explorados’, mas resíduos, ‘sobras’”. Contudo, o papa Francisco não propõe uma visão crítica de pauperismo moralizante, tampouco oferece receitas pragmáticas: seu papel não é esse. Sem dúvida, opera uma inversão radical na maneira de enfrentar globalmente a questão da exclusão social, atribui dignidade à pobreza e introduz com força a questão da exclusão na democracia de amanhã. Seu raciocínio é sobretudo conceitual e ideal, e por isso preocupa tanto seus detratores.
O artigo do FT termina com outra citação do papa: “Exorto-vos a uma solidariedade desinteressada e a um retorno da economia e das finanças a uma ética propícia aos seres humanos”. Com indescritível impudência (ou talvez por simples ignorância) o articulista conclui perguntando retoricamente: “A questão é: para quais seres humanos?”
Qualquer comentário parece supérfluo. Preferível recorrer ainda às palavras do papa: “Assim como o bem tende a difundir-se, também o mal consentido, que é a injustiça, tende a expandir sua força nociva e a minar, silenciosamente, as bases de qualquer sistema político e social, por mais sólido que pareça”.

sábado, 14 de dezembro de 2013

Jesus Cristo “capitalista” e Papa Francisco “marxista”?



Nos EUA, o pontífice tem sido extremamente criticado por suas observações contrárias ao capitalismo moderno. A principal acusação? Marxismo
Por Vinicius Gomes
Após a rodada de conferências da Organização Mundial do Comércio (OMC) em Bali, na Indonésia, o “embaixador” do Vaticano na ONU, o Arcebispo Silvano Tomas, emitiu as considerações da Santa Fé sobre o atual sistema econômico no mundo, onde vale destacar um parágrafo:

“Enquanto uma minoria está vivendo um exponencial crescimento de riqueza, o abismo cresce entre a vasta maioria da prosperidade usufruída por esses poucos felizes. Esse desequilíbrio é o resultado de ideologias que defendem uma autonomia absoluta do mercado e de especulação financeira [...] Uma nova tirania então nasce, invisível e quase virtual, a qual impõe, unilateralmente e impiedosamente, suas próprias regras e leis”. 
Já não é de hoje que o Vaticano tem atacado o atual sistema econômico mundial. Em maio desse ano, o papa Francisco alertou em um discurso sobre os perigos de uma economia “sem rosto” que esquece as pessoas e agrava as desigualdades. Pode parecer absurdo, mas o papa tem sido extremamente criticado por suas observações contrárias ao capitalismo moderno. A principal acusação ao pontífice? Marxismo.

Papa Francisco x Ultraconservadores
“Jesus Cristo era um capitalista e agora está chorando no Paraíso por culpa dele!”.
“Ele está acabando com o capitalismo e está acabando com a América!”.
“É Marxismo puro saindo da boca dele!”
Em todas essas frases, o “ele” se refere a Francisco e todas vieram de alguns dos ultraconservadores norte-americanos espalhados pela mídia. Em fins de novembro, o pontífice compartilhou alguns de seus pensamentos sobre o capitalismo selvagem e suas consequências para milhões de pessoas, em sua exortação de 84 páginas intitulada de Evangelii Gaudium. Após condenar a idolatria ao dinheiro, a desigualdade e a economia de exclusão, é seguro dizer que o papa não é um fervoroso capitalista. Fato esse que despertou a ira da extrema direita dos EUA, que chegou ao ponto de fazer comentários como os relatados acima.
O intelectual espanhol Vicenç Navarro destacou em seu artigo a respeito diversas passagens do documento papal, no qual Francisco se utilizou muito mais das palavras de Jesus (o grande “capitalista”) do que de “O Capital” de Karl Marx para condenar o sistema. “A crítica não se limita aos excessos do capitalismo, mas ao capitalismo em si, há partes do documento que parecem aproximar-se desta postura. Escreve Francisco: ‘o mandamento Não matarás estabelece um mandato de respeitar a vida humana. Daí que este ‘não matar’ deve aplicar-se a um sistema econômico baseado na desigualdade e na exclusão’. Acrescenta Francisco que “tal economia mata”.
E, diferentemente do que seus detratores tentam apontar, o papa parece saber muito bem do que está falando ao criticar o capitalismo moderno, como aponta Navarro ao citar o pontífice. “Algumas pessoas (Francisco poderia ter escrito a maioria dos establishments econômicos, financeiros, políticos e midiáticos europeus e estadunidenses) continuam defendendo as teorias do “trickle-down”, segundo as quais a concentração de riqueza produzida no crescimento econômico (capitalista) e em seus mercados trará inevitavelmente maior justiça e inclusão, ao aumentar a riqueza, melhorar a vida de todos e a coesão social. Essa opinião, que nunca foi confirmada por dados, expressa uma fé ingênua e crua na bondade dos que concentram o poder econômico e na eficiência sacrossanta do sistema econômico existente”.
Não é necessário ser um seguidor da Igreja Católica para admitir a propriedade que Francisco tem quando fala do capitalismo moderno. Ao acusá-lo de ser marxista e atacá-lo por defender os mais oprimidos pelo sistema, afirmando que o Jesus capitalista pregou contra a “distribuição de riqueza”, os conservadores caem no ridículo, ainda mais quando nos lembramos de algumas de suas clássicas e verdadeiras pregações, como “abençoados sejam os pobres” ou “é mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulho do que um rico entrar no Paraíso”.
Outra forma de criticar Francisco é compará-lo também a seus predecessores e seus antagonismos ao pensamento marxista. O falecido João Paulo II, por exemplo, é apontado como um dos grandes responsáveis pela derrota vermelha na Guerra Fria, junto ao ex-presidente norte-americano, Ronald Reagan. O comentarista financeiro da conservadora Fox News, Stuart Varney, apontou que “ele entendia que os livres mercados são necessários, pois cresceu sob um regime comunista”. Pouco mais de um ano atrás, Bento XVI destacou a falha do marxismo em Cuba: “Hoje é evidente que a ideologia marxista, como foi concebida, não corresponde à realidade”.
Ironicamente, todos esses críticos de Francisco e defensores da econômica global fazem parte do “Tea Party”, a mesma linha conservadora republicana que poucos meses atrás quase provocou uma crise mundial com a paralisação do governo dos EUA, fazendo a Casa Branca de “refém” e a qual, Noam Chomsky classificou como profundamente reacionária. Não é a toa que as críticas ao Vaticano se juntam aos ataques a Obama.
Em tempo: o papa Francisco acaba de ser escolhido como a personalidade de 2013 pela revista Time. No ano passado havia sido Barack Obama.
 

quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

Para a extrema direita do Tea Party e da Revista Veja, o Papa Francisco cometeu o pecado "imperdoável" de criticar o capitalismo e o "deus" do livre mercado






Não tardou muito para que os arautos dos interesses exclusivistas das elites brasileiras, como Rodrigo Constantino, viessem a criticar o Papa Francisco por suas críticas ao perverso sistema do capitalismo. O que esperar de uma das revistas mais sórdidas existentes? Mas a crítica ao Papa não vem só dos papagaios dos interesses do capital no Brasil. Também nos EUA o posicionamento de Francisco despertou o ódio dos neocons ultra conservadores, Sarah Palin à frente. Criticar o capitalismo é o mesmo que criticar a galinha dos ovos de ouro que os sustentam. Veja-se o artigo de Raul Juste Lores, correspondente da Folha de São Paulo em Wahington, publicado em 11 de dezembro:



Papa vira ‘vilão’ nos EUA após críticas ao capitalismo

Raul Juste Lores


“O papa Francisco se tornou o mais novo vilão entre os conservadores americanos, depois de ter criticado a ganância e as desigualdades do capitalismo.

Na semana passada, o radialista Rush Limbaugh, ícone do movimento Tea Party, chamou-o de marxista.

“Ele tritura o capitalismo e a América, e o Obama tem orgasmos só de ouvi-lo”, afirmou. O presidente havia citado o papa no dia anterior, dizendo que concordava com sua crítica contra a “distribuição de renda mais desigual”.

Adam Shaw, editor da conservadora rede Fox News, disse que o papa é “o Obama do catolicismo”. “Assim como a América se decepcionou com Obama, esse papa será um desastre para a igreja”.

Sarah Palin, candidata republicana a vice-presidente em 2008, disse que o papa “parece marxista”. Ela acaba de lançar um livro sobre “a guerra contra o Natal” provocada por “uma sociedade cada vez mais antirreligiosa”.

USANDO A BÍBLIA

O editor-chefe do blog The Dish, Andrew Sullivan, disse à Folha que “os evangélicos estiveram usando a Bíblia contra gays e contra o aborto. Agora, estão sofrendo do mesmo remédio, afinal a Bíblia do papa é a mesma, e ela prega a justiça social”.

“Só quem não acompanha a igreja se surpreende com a fala do papa. João Paulo 2º já falava de ganância no capitalismo”, diz.

A popularidade do papa ainda é alta no país: 78% dos católicos e 58% da população em geral têm visão positiva de Francisco, segundo pesquisa do instituto Pew. O comparecimento às missas, porém, continua o mesmo desde que ele se tornou papa, em março –39% dos católicos americanos vão semanalmente à missa.

A Igreja Católica americana brigou com o presidente Barack Obama por conta do plano universal de saúde aprovado por ele. Funcionárias de hospitais e colégios católicos terão direito à cobertura de tratamentos anticoncepcionais, como prevê o plano –a igreja pedia isenção dessa obrigação.