terça-feira, 22 de outubro de 2019

O marketing da mediunidade e da caridade, ou a aparência e o religiosismo valendo mais que a essência, o real conhecimento da doutrina espírita e a ação efetiva para a melhoria social, por Dora Incontri



Então, ser médium e ter um trabalho assistencial não habilita ninguém a falar em nome do espiritismo e colocar suas posições como representativas do movimento todo.



O marketing da mediunidade e da caridade, por Dora Incontri - No Jornal GGN

Pode parecer estranho tratarmos de alguns assuntos internos do movimento espírita nesse jornal, de caráter plural. Mas é necessário pontuar para espíritas e não espíritas algumas questões que atravessam a sociedade brasileira, na qual esse mesmo movimento se faz fortemente presente e é objeto de filmes, reportagens, entrevistas e notícias.
O espiritismo proposto por Kardec é uma filosofia livre, que cada um pode seguir individualmente, mas partidários dela também podem se organizar em centros, sociedades, associações, igualmente livres e independentes entre si. Como Kardec não pretendeu fundar uma religião, constituída de hierarquias, sacerdócios, rituais e sacramentos – embora a filosofia espírita carregue consigo uma proposta de espiritualidade livre – não haveria necessidade de nada disso para a constituição do espiritismo.
Entretanto, no Brasil, o nosso forte componente de cultura religiosa acabou transformando o espiritismo numa religião – apesar de haver pessoas e setores que resistam a essa definição (o que não significa negar aspectos espiritualistas do pensamento kardecista, como a existência de Deus e a possibilidade de orar individualmente ou em conjunto, sem nenhuma fórmula ritualística).
O problema é que a grande maioria de espiritas e não espíritas procura eleger lideranças desse movimento e identificar quem poderia em tese falar em nome do espiritismo. Ninguém pode e todos podem. A verdade é essa.
Mas o que se faz é dar a voz máxima à Federação Espírita Brasileira, que se arrogou como representante oficial do espiritismo brasileiro, apesar de não ser reconhecida como tal por muitos espíritas. E se dá a voz também a médiuns, que se tornam líderes carismáticos e que muitas vezes são protegidos pela FEB.
Ora, como no espiritismo não há cursos oficiais de teologia (como existem entre católicos e protestantes), essas lideranças autodeclaradas ou reconhecidas espontaneamente pelo movimento, carecem muitas vezes não só de uma formação espírita, como de uma formação cultural mais ampla. Aí está o problema! Junta-se a ideia de uma liderança com amplos poderes de influência, com falta de preparo cultural, psicológico e mesmo espírita para isso. O primeiro caso que tivemos nesse sentido foi o médium Chico Xavier. De fato, um médium excepcional, um ser humano decente, mas um ser humano! Como qualquer outro e com grandes limitações culturais, dentro do contexto em que cresceu e viveu.
A partir dele, outros médiuns, como é o exemplo de Divaldo Pereira Franco, se arvoraram (ou foram entronizados) como líderes incensados e que passaram a pontificar sobre vários assuntos: educação, psicologia, sociedade, costumes, sexualidade, política… temas sobre os quais não têm conhecimento ou apenas conhecimentos superficiais.
O que os tornaria confiáveis para pontificarem sobre qualquer assunto? Para muitos espíritas (e não espíritas também, diga-se de passagem) dois critérios servem para eleger essas lideranças: o fato de serem médiuns e as obras assistenciais que realizam.
O primeiro critério contraria frontalmente toda a proposta de Kardec. Para o fundador francês do espiritismo, o médium é um ser humano como outro qualquer, deve submeter suas comunicações à crítica de seus pares (coisa que não se faz com nenhuma produção mediúnica no Brasil) e deve ser discreto no exercício da mediunidade, porque esta não lhe confere nenhum status sobrenatural ou mesmo social.
O segundo critério também é bastante questionável. Segundo a ética de Jesus, adotada por Kardec no Evangelho segundo o Espiritismo, “a mão esquerda não deve saber o que faz a direita” – ou seja, a caridade não pode ser anunciada como marketing pessoal, coisa que muita gente faz entre nós.
Além do que, se Kardec colocou como premissa ética máxima do espiritismo que “Fora da Caridade não há Salvação”, não se pode entender essa caridade apenas como assistencialismo social. O espiritismo é uma proposta de transformação da sociedade, de mudança estrutural, pois segundo o Livro dos Espíritos “numa sociedade organizada segundo as leis do Cristo, ninguém deve morrer de fome”. Assim, não temos de nos regozijar por haver pobres no mundo para assistirmos e nos sentirmos muito bons por isso. Mas, ao invés, devemos nos constranger por termos uma sociedade onde haja tanta injustiça e desigualdade, trabalhar para mudá-la e quando for absolutamente imprescindível fazer assistencialismo, que isso seja motivo de vergonha e não de vaidade e de incensamento e santificação de pessoas que se dedicam a isso.
Então, ser médium e ter um trabalho assistencial não habilita ninguém a falar em nome do espiritismo e colocar suas posições como representativas do movimento todo.
Muito menos quando essas posições são contrárias à essência do espiritismo. De fato, apoiar um governo que defende a tortura, que trabalha para arrancar os direitos fundamentais do cidadão, que manifesta posições racistas, machistas, homofóbicas, que não protege nosso patrimônio científico, cultural, natural e mineral – e que sobretudo ataca a educação – eixo central do espiritismo, fundado pelo educador Allan Kardec – é uma negação dos princípios fundamentais do espiritismo. Mas a contradição é inerente aos apoiadores do atual (des)governo. O que é preciso é colocá-los no lugar que é deles, que estão apenas manifestando uma opinião pessoal, e não como lideranças de quem não os aceita como líderes.



segunda-feira, 21 de outubro de 2019

O patriarcado - e sua mentalidade autoritária - queima florestas e assedia as mulheres, por Dora Incontri



No limite, a piada machista, a postura de violência e sadismo, o estupro e o assédio, o poder do dinheiro e do militarismo, tudo isso são nuances de um mesmo padrão.



Forest fire in night. Shot near Stellenbosch, Western Cape, South Africa.

O patriarcado queima florestas e assedia as mulheres, por Dora Incontri, no GGN

Diante da avalanche de más notícias que nos atordoaram nesse último mês – em que eu estava de molho por causa de uma cirurgia – penso que pode haver um link comum entre a maioria delas. Confesso que ao lado do fogo da Amazônia, dos pronunciamentos cafajestes daquele que não nomeio, dos vazamentos inacreditáveis sobre a injustiça da justiça brasileira, houve uma notícia que me pegou também o coração. Uma notícia que não tem a mesma dimensão da queima das nossas florestas, mas queimou a reputação de um homem que eu sempre admirei.

Estou falando da denúncia de assédio feita por nove mulheres contra o tenor espanhol Placido Domingo. É certo que não podemos julgar antes de uma investigação concluída, mas também não podemos desqualificar o testemunho das mulheres, sendo que o próprio cantor disse que as declarações eram imprecisas, mas admitiu: “Reconheço que as regras e padrões dentro dos quais vivemos hoje são muito diferentes daqueles do passado”.

A notícia me impactou porque se já esperamos de um machista confesso o total desrespeito à mulher, temos a expectativa de que um artista genial na música e respeitado em sua liderança, tenha sensibilidade em relação ao feminino.
Mas é então que se configura o quanto o patriarcado está arraigado nas estruturas mentais da humanidade. E mais do que isso, o quanto o assédio de um artista às mulheres do alto do poder do seu talento tem mais a ver com as queimadas da Amazônia do que pensamos. Em todas essas atitudes que violentam a dignidade do outro, que são carregadas de desrespeito à integridade da vida, do ser, da criança, da mulher, da natureza, está a mentalidade do macho que sujeita, que invade, que possui, que agride e se acha detentor de poderes ilimitados no mundo. Alguém já viu uma mulher liderando uma invasão de grileiros, ateando um incêndio nas matas, cometendo um abuso de outros colegas artistas ou profissionais, fazendo um chiste de desrespeito ao esposo de outra mulher (sendo esse esposo de uma presidente de um país estrangeiro)?
No limite, a piada machista, a postura de violência e sadismo, o estupro e o assédio, o poder do dinheiro e do militarismo, tudo são nuances de um mesmo padrão. O padrão de não respeitar a sensibilidade, de achar compaixão uma fraqueza, de considerar a não-violência e o diálogo como coisas indignas do masculino, de objetificar o outro, seja no trabalho escravo, seja na mulher objeto, seja na criança abusada sexualmente.
Pode-se alegar que há mulheres poderosas, há mulheres guerreiras, há mulheres abusadoras. Sim, há. Mas este é o padrão masculino, e quando as mulheres assim se comportam, estão assumindo o padrão do homem. E são minoria. O padrão feminino histórico é o de cuidar, é o de sentir, é o de intuir, e por isso que a lei do mais forte vigente no mundo sempre sujeitou a mulher.
É verdade que o feminino e que o masculino são dimensões presentes em todo o ser humano. Tanto que espíritas como nós, reencarnacionistas, consideramos que ora podemos nascer homens, ora podemos nascer mulheres, justamente para desenvolvermos os dois princípios no espírito imortal. Mas ainda nos padrões sociais da humanidade, a masculinidade está associada à violência, à posse, e a feminilidade esteve muitas vezes associada à submissão, à passividade e à fraqueza. Já há mais de 200 anos, as mulheres têm mudado essa visão, assumindo sua força – que não é a da violência – com sua voz firme e transformadora no mundo. Mas o homem ainda encontra muita dificuldade de mudar seus parâmetros de constituição do masculino. Há iniciativas louváveis nesse sentido, e quero citar aqui meu amigo Leandro Uchoas, um espírita progressista, que está promovendo rodas de conversa com homens sobre novas masculinidades.
Por tudo isso, apesar de a nós mulheres muitas vezes enraivecer o desrespeito, o assédio, a violência, a maneira como a maioria dos homens conduz os governos do mundo, quando vemos um Placido Domingo com uma carreira tão linda, que espalhou música e beleza por mais de 50 anos, manchada por esse padrão de masculinidade tradicional, chegamos a experimentar constrangimento e compaixão. Os primeiros a sofrer com esse padrão de insensibilidade diante do outro são os próprios homens. Por isso, urge fazermos uma educação que permita ao homem sentir, chorar, mostrar sua vulnerabilidade, e não reprimir tudo isso com uma arma na mão, com incêndios ou com gritos selvagens.
Que pena, Placido! Desculpa, Brigitte!

domingo, 20 de outubro de 2019

Manchas de óleo no Nordeste: por que estão ocultando o gigantesco crime ambiental?, por Gustavo Gollo


A quantidade vazada atesta a ocorrência de acidente em plataforma, um vazamento monstro passível de gerar sanções da ordem de dezenas de bilhões de dólares


por Gustavo Gollo (no GGN)

Desde o final de agosto, manchas de óleo têm dado às praias do Nordeste. As notificações se somaram por mais de um mês e já cobriam uma extensão de quase 2 mil km de costa quando os meios de comunicação começaram a dar verdadeira atenção ao tema, deixando de tratá-lo como notificações locais, após manifestação do presidente da república insinuando a culpa de um país que já estava em seu radar, enquanto decretava sigilo sobre relatório da Petrobrás que mapeava a origem do vazamento monstro. Atente, é o sigilo sobre esse relatório que mantém oculto e resguarda o responsável pela catástrofe descomunal.
Os meios de comunicação se deliciaram com a insinuação do presidente, deduzindo tratar-se da Venezuela, o tal país no radar, que já vinha sendo acusada por eles. A balela teria advindo de um comentário de funcionário da Petrobrás sobre o laudo posteriormente sigiloso de que o petróleo “não é nosso”, referindo-se à petrolífera, mas sendo compreendido como “não é brasileiro”, o boato caiu nas graças dos meios de comunicação, embalado especialmente pelo google, o primeiro a lhe dar amplo destaque.
A farsa foi ganhando corpo através de seguidas insinuações por parte de autoridades governamentais de altíssimo escalão, que acabaram autorizando a adesão descarada dos meios de comunicação, merecendo destaque uma farsa perpetrada pelo fantástico “provando” a origem venezuelana do óleo das praias sem apresentar nenhum dado, absolutamente nada que sugerisse a tese defendida. Apesar da repetição reiterada da palavra Venezuela e da acusação recorrente ao país, nenhum dado mostrado corroborou tal hipótese, levando o espectador atento a acreditar fortemente tratar-se de uma farsa para imputar à Venezuela a culpa sobre o vazamento. Repito, nenhum dado sobre o petróleo venezuelano foi mostrado no programa. (Na manhã seguinte, foi retirada do vídeo postado no G1 a parte mais comprometedora da farsa, que reproduzo, abaixo. Posteriormente o vídeo original foi reconstituído).
Outras tramoias têm pautado o noticiário, como a negação da análise por sensoreamento remoto executada por professor da USP revelando a existência de duas manchas que juntas perfaziam 25 km2, decorrido quase um mês e meio da catástrofe. A mancha monstro atestava a impossibilidade de que o óleo tivesse se originado de um navio, dada sua extensão descomunal após um mês e meio no mar. A análise retroativa das imagens dos satélites europeus Sentinel revelará a localização do vazamento, é impressionante que isso ainda não tenha sido mostrado.
Como parte das medidas efetuadas para confundir a população e encobrir o crime, plantaram uns tonéis de óleo em praias sergipanas, sugerindo que os 2 mil km de lambança adviriam disso, permitindo assim a manifestação de uma espécie de demonstração do senso de humor miliciano ao colocar marinha e polícia federal no encalço do comprador de 2 tonéis de óleo, por suspeição sobre o vazamento monstro.
Mas, por que, afinal, estão ocultando um crime ambiental tão gigantesco, talvez o maior desastre petrolífero de todos os tempos?
A quantidade vazada atesta a ocorrência de acidente em plataforma, um vazamento monstro passível de gerar sanções da ordem de dezenas de bilhões de dólares, sugerindo ao responsável pelo crime bilhões de motivos bastante óbvios para esconder tudo.
Em vista de tais cifras, não é necessária muita imaginação para se supor que uns poucos bilhões distribuídos aqui e ali tenham comprado emissoras de TV, autoridades governamentais… .
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Vaticano estuda criar pecado ecológico com as discussões do Sínodo da Amazônia




"Foi prenunciada uma conversão ecológica que faça perceber a gravidade do pecado contra o meio ambiente como um pecado contra Deus", diz relatório sobre o tema

Papa Francisco no Sínodo da Amazônia. Foto: TIZIANA FABI / AFP
Jornal GGN “A defesa do meio ambiente não é uma questão do Partido Verde, de uma ONG ou de alguém que se encantou. É uma questão vital. Ou nós cuidamos da nossa natureza ou estamos comprometendo a condição da nossa vida, estamos fazendo uma coisa séria: pecando contra o criador”, disse o arcebispo de Palmas, dom Pedro Brito Guimarães, no último dia 11 para jornalistas, em uma das entrevistas coletivas diárias organizadas pelo Vaticano.
A proposta de criar um pecado ecológico é uma das discussão no Sínodo da Amazônia, reunião que começou no dia 6 e termina em 27 outubro. Sínodo é o nome de uma reunião episcopal, convocada e presidida pelo papa, para discutir temas gerais da Igreja Católica.
O papa Francisco anunciou a convocação do Sínodo da Amazônia em 2017. Segundo dados do Vaticano, cerca de 260 pessoas participam desta edição, representando os nove países abrangidos pelo bioma, entre arcebispos, bispos, cardeais e especialistas, incluindo leigos.
Segundo informações da Folha de S.Paulo, a proposta de criar um pecado ecológico foi levantada na tarde do dia 8 de outubro no Sínodo, por um dos religiosos que não teve a identidade revelada.
“Foi prenunciada uma conversão ecológica que faça perceber a gravidade do pecado contra o meio ambiente como um pecado contra Deus, contra o próximo e as futuras gerações”, explica ainda um relatório divulgado pelo Vaticano sobre o tema.
“A conversão ecológica já está bem trabalhada, falta mesmo formular concretamente como isso será na prática da vida do sujeito”, disse um dos participantes do sínodo e que atua na redação final do texto.
À reportagem da Folha, participantes do Sínodo da Amazônia relataram que é muito provável que ao final do encontro o grupo reconheça a existência de “pecados ecológicos”, definindo quais são essas transgressões, para que os fiéis sejam alertados.
“É preciso ter consciência, formação ecológica, desde a criança na catequese, desde a escola. As pessoas vão aprendendo a respeitar e a crescer na sua fé sabendo que quanto mais nós contribuirmos para um mundo melhor, melhor para todo mundo”, disse dom Pedro Brito Guimarães.
Ele explicou que, além de ser apresentado no catecismo, os “pecados ecológicos” serão incorporados no sacramento da confissão e penitência. O arcebispo destaca que o tema já é abordado no “instrumentum laboris”, ou instrumento de trabalho, texto base para as assembleias do Sínodo que foi elaborado ao longo de 2018, a partir de encontros com moradores da região amazônica e membros das igrejas locais. O documento foi divulgado em junho deste ano.
O capítulo nove do “instrumentum laboris” é todo dedicado ao tema da ecologia, apontando para a necessidade de mudar aquilo que não está de acordo com o projeto de Deus.
O tema da conversão ecológica também é mencionado na encíclica “Laudato Si”, também conhecida como a “encíclica verde”, lançada pelo papa Francisco em 2015.

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quinta-feira, 17 de outubro de 2019

A manipulação religiosa das massas em “O Grande Inquisidor” de Dostoiévski, por Carlos Russo Jr.


  Tal qual na essência da profecia de Dostoiévski, os homens inclinam-se voluntariamente aos seus guardiões espirituais tantas vezes distante dos mestres que dizem representar, em uma passividade e renúncia do pensamento, exceto por um pequeno número de rebeldes.

  A religiosidade utilitária (longe da espiritualidade libertária) aponta tanto para as recusas de liberdade real nas sociedades modernas e pós-modernas, quanto para formas tão somente exteriores das denominadas “democracias representativas”.


do Espaço Literário Marcel Proust 

A manipulação religiosa das massas em “O Grande Inquisidor”

por Carlos Russo Jr.


“O Grande Inquisidor”, uma lenda contada por Ivan Karamazov a seu irmão Aliocha, é prometeica: ao fincar os pés num passado distante, permite antever o futuro manipulável da sociedade de massas.
A religiosidade utilitária aponta tanto para as recusas de liberdade real nas sociedades modernas e pós-modernas, quanto para formas tão somente exteriores das denominadas “democracias representativas”.
Esse capítulo essencial de “Irmãos Karamazovi” prenunciou os regimes totalitários do século XX e que ensaiam sua retomada no século XXI com o controle do pensamento. Faz soar um sinal de alerta para as recusas de liberdade, para a invasão das privacidades, para as parvoíces hipócritas, para as mentiras, que “viralizadas” milhares e milhões de vezes, passam a ser são tidas como verdades por quantidade cada vez maior do vulgo, massas das quais se desprendeu o hábito de pensar.
Sinaliza claramente a vulgaridade espantosa da cultura de massas, o consumismo desmedido, os homens que buscam líderes mágicos ou tiranos, para pastores religiosos que retiram da mente dos rebanhos as reações de revolta contra as injustiças sociais e a anulem a busca por liberdade.
Na lenda, a aparição do Santo Inquisidor e o retorno de um Cristo Redivivo ocorrem na cidade de Sevilha, no auge da repressão do Estado atrelado à Igreja Católica no século XVI.
Velho empedernido, o cruel acusador, que ao mesmo tempo cumpre a função de julgador e condenador nos autos de fé que antecediam aos assassinatos pela fogueira dos hereges, o Grande Inquisidor, acusa Cristo de ter superestimado a estatura do homem, sua habilidade em suportar o livre-arbítrio, argumentando que “os homens preferem a calma bruta da escravidão”.
Para aquele Inquisidor os homens conhecerão a felicidade somente quando um reino perfeitamente regulado for estabelecido sobre a terra, sob os auspícios dos Mitos, dos Milagres, da autoridade da Igreja, da violência da “mano militari” e do pão que sobrar da mesa dos poderosos.
No Inquisidor incorpora a ideia do Anticristo, a daquele antípoda do verdadeiro Messias, que também viveu no deserto, alimentou-se de gafanhoto e mel e ofereceu a Cristo a tríplice tentação: os milagres, o pão e a autoridade, dos quais seriam decorrentes as Igrejas e o Estado. Mas Cristo rejeitou, em nome da liberdade do homem, todas as tentações.
E mais. Se o corpo de Cristo tivesse descido da cruz em que foi torturado e assassinado pela ortodoxia judaica e pelo império romano; se Zózima, o starietz ( o padre asceta) do romance, não exalasse os odores da putrefação de seu cadáver, o homem deixaria de ser livre, seria forçado pela evidência a crer em milagres e forças sobrenaturais, da mesma forma como os escravos que obedecem ao poder da força e não por livre escolha.
Logo, coloca-nos Dostoievski, as Igrejas são as principais responsáveis por privarem os homens de sua liberdade essencial, interpondo entre Deus e a agonia da alma individual a segurança da absolvição e dos mistérios dos rituais.
O Inquisidor dostoievskiano era, em seu modo despótico, cruel e autoritário, um tipo “progressista”: tinha uma crença radical no progresso humano através de meios materiais, uma crença na razão pragmática que rejeita a experiência metafísica e atitude questionadora. Na verdade, o pregador deixa-se absorver pelo mundo, a ponto de quase excluir Deus de seu Universo, mesmo que em nome dele fale todo o tempo e conduza os homens como a um rebanho.
Dostoiévski, ao lado do Inquisidor, também traçou o retrato de “seu Cristo”. Um antípoda do Homem da Igreja, o Cristo dostoiévskiano não é nenhum um santo, mas humano, profundamente humano, parafraseando Nietzsche.
A beleza e graça inefável são sutilmente evocadas em um Cristo redivivo que perante o Grande Inquisidor nada responde nada fala. Esse silêncio, no dizer de D.H. Lawrence, é um sinal de aquiescência, da humildade do artista em contraposição à derrota da linguagem de seus seres polifônicos, como o Inquisidor.
E o fulcro da lenda é a liberdade do homem. Homem que é completa e terrivelmente livre para perceber o bem e o mal, optar por um deles e encenar sua escolha.
Toda a ação ocorre em Sevilha na Idade Média, onde sob o comando do Grande Inquisidor, acendiam-se fogueiras em glória a Deus e os hereges ardiam em “atos de fé”.
Cristo teria surgido dentre a multidão reunida na praça em frente à Catedral, docemente, quase sem se fazer notar. No entanto, todos O reconheceram de imediato. Ele caminha com um sorriso de compaixão infinita. Sobe os degraus da igreja no momento em que trazem o caixão de uma menina de sete anos. A mãe lança-se a seus pés e diz: ”Se és Tu, ressuscita-a”. Ele a contempla e apenas diz “talita kumi”, levanta-te e anda, incontinente a criança levanta-se e sorri. No meio da turba há agitação e choro.
Naquele instante passa ao largo um ancião quase nonagenário, de elevada estatura, rosto ressecado, olhos cavados, o Grande Inquisidor. Ao entender a atitude de Cristo, um brilho sinistro clareia seu olhar; ele aponta-O à guarda e ordena que O prendam. Tão grande é seu poder, tal o medo de uma multidão acostumada à submissão, que os esbirros prendem- nO sem nenhum trabalho. Como um só ser, toda a multidão, esquecendo a quem louvava, inclina-se agora para o Cardeal que a abençoa.
O Prisioneiro é levado para a masmorra do Santo Ofício. À noite, o Inquisidor vem só e com um facho de luz ilumina a Santa Face. “És Tu, não és? Cala-te, aliás, o que poderias dizer? Não tens o direito a acrescentar uma palavra ao que disseste outrora. Por que nos vieste estorvar? Amanhã Te condenarei e serás queimado como o pior dos hereges e esse mesmo povo que hoje te beijava os pés, trará a lenha em que arderás. Tens por acaso o direito de revelar um só dos segredos do mundo de onde vens? Todas as revelações novas feririam a liberdade da fé, pois pareceriam miraculosas; ora, tu punhas há quinze séculos essa liberdade acima de tudo! Pois bem, viste os ‘homens livres’”, diz com sarcasmo.
“Isso nos custou muito caro, mas levamos a cabo aquela obra em Teu nome… Tu me olhas com doçura, sem mesmo fazer-me a honra de Te indignares! Mas saiba que jamais os homens se sentiram tão livres como agora, pois sua liberdade eles a depositaram humildemente a nossos pés. Só agora (com a Santa Inquisição) que se pode pensar na felicidade dos homens. Eles são naturalmente revoltados e, revoltados podem ser felizes?”
“Tu estavas advertido, conselhos não Te faltavam, mas não os levaste em conta, rejeitaste o único meio de proporcionar felicidade aos homens. Felizmente, ao partires, nos transmitiste Tua obra, concedendo-nos o direito de ligar e desligar e, decerto, não podes imaginar em retirá-lo agora. Por que vieste nos estorvar?”
“O Espírito terrível e profundo da destruição e do nada falou-Te no deserto e as Escrituras relatam que Te “tentou”. É verdade? … quem tinha razão: Tu ou aquele que Te interrogava? Lembra-Te do sentido da primeira pergunta? Queres ir para o mundo de mãos vazias, pregando aos homens uma liberdade que lhes causa medo… Vês as pedras do deserto árido? Muda-as em pães e atrás de Ti, correrá a humanidade como um rebanho dócil e reconhecido. Mas Tu… Replicaste que nem só de pão vive o homem, mas sabes que em nome desse pão terrestre o Espírito da terra se insurgirá contra Ti, lutará e Te vencerá. Séculos passarão e a humanidade proclamará pela boca de seus sábios e de seus intelectuais que não há crime e, por conseguinte, não há pecados, só famintos.”
Os famintos, desiludidos, os desesperados “nos procurarão e depositarão sua liberdade a nossos pés dizendo: ‘reduzi-nos à escravidão, mas alimentai-nos’. Compreenderão que a liberdade e o pão da terra à vontade para cada um são irreconciliáveis, pois jamais saberão reparti-lo entre si. A impotência para a liberdade ocorre por serem fracos, depravados, nulos e revoltados. As multidões sendo fracas e, embora depravadas e revoltosas, tornar-se-ão dóceis.”
“Acreditarão que, nós, seus pastores, somos deuses pondo-se sob nosso comando e reinaremos sobre eles, os quais terão medo de serem livres. Mas lhes diremos que somos Teus discípulos e reinamos em Teu nome. E esta, a mentira, será a origem de nosso sofrimento.” “Não há para o homem que fica livre, preocupação mais constante e mais ardente que procurar um ser diante do qual se inclinar”.
“Para dispor da liberdade dos homens é preciso dar-lhes paz de consciência… nisto Tu tinhas razão porque o segredo da existência humana consiste não somente em viver, mas ainda em encontrar um motivo pelo qual viver. Sem uma ideia nítida de sua finalidade, prefere o homem a ela renunciar e se destruirá embora cercado por montes de pão. Esqueceste-Te de que o homem prefere a paz e até mesmo a morte à liberdade de discernir o bem do mal? Não há nada de mais sedutor para o homem que o livre-arbítrio, mas também, nada de mais doloroso.”
“Há três forças que podem subjugar para sempre a consciência desse fraco revoltado: o milagre, o mistério e a autoridade. Tu rejeitaste os três… sobretudo é o milagre que o homem procura e como não saberia passar sem ele, forja novos, os seus próprios, inclinando-se perante o prodígio dos magos, dos sortilégios de uma feiticeira, ainda que sejam revoltados, hereges, ímpios confessos”.
“O homem é mais fraco, covarde e vil do que pensavas. A grande estima que tinhas por ele fez mal à tua compaixão. Que importa que no presente se insurja por toda parte contra nossa autoridade e se mostre orgulhoso de sua revolta? É a alegria infantil que lhes custará caro. Derrubarão templos e incendiarão a terra. Mas perceberão, por fim, que são crianças estúpidas, fracas, incapazes de se revoltarem por muito tempo”.
“Corrigimos Tua obra baseados no milagre, no mistério e na autoridade. E os homens se regozijaram por serem de novo levados como um rebanho e serem libertados do dom funesto que lhes causava tormentos. Não tínhamos razão? Não era amar a humanidade compreender sua fraqueza, aliviar seu fardo, tolerar mesmo o pecado de sua fraca natureza, mas com a nossa permissão?”
“Por que vir agora entravar a nossa obra? Por que guardar silêncio com Teu terno olhar? Eu não Te amo. Cada um de nós sabe com quem fala. Não estamos Contigo, mas com Ele há muito tempo. Aceitamos Roma e o gládio de César e declaramo-nos os únicos reis da Terra”.
“Amanhã, queimar-Te-ei, pois ninguém mais que Tu mereceste a fogueira. Dixi”.
O Inquisidor se cala, espera a resposta do Prisioneiro. Este se aproxima em silêncio do nonagenário e beija-lhe os lábios. É toda sua resposta. O velho estremece, seus lábios tremem, caminha até a porta e abre: “Vai-Te e não voltes nunca mais!” O Prisioneiro sai.
Tal qual na essência da profecia de Dostoiévski, os homens inclinam-se voluntariamente aos seus guardiões espirituais, exceto um pequeno número de rebeldes. “Mas podem os revoltados ser felizes?” Podem?
FONTEEspaço Literário Marcelo Proust 

quarta-feira, 16 de outubro de 2019

Pensando o Coringa de Joaquim Phoenix e Todd Phillips como espelho de nosso insano tempo, pela análise do psicanalista e fílósofo érico Andrade




  Numa sociedade onde reina o imperativo da felicidade ser obrigado a rir é paradoxalmente uma condenação que na forma do distúrbio psíquico de Arthur Fleck nos faz refletir sobre o nosso adoecimento. Será que a grande loucura não seria nos obrigar a sermos felizes diante de um quadro de pobreza e injustiça?



Crítica de Coringa, por Érico Andrade


A exigência de uma vida feliz no erro, para parafrasear Adorno, é a forma como o diretor Todd Phillips escolheu para conduzir uma trama em cujo centro está um diagnóstico de algumas de nossas patologias sociais. Estamos doentes.
Joaquin Phoenix como Coringa (Foto: Reprodução Warner)
Numa sociedade onde reina o imperativo da felicidade ser obrigado a rir é paradoxalmente uma condenação que na forma do distúrbio psíquico de Arthur Fleck nos faz refletir sobre o nosso adoecimento. Será que a grande loucura não seria nos obrigar a sermos felizes diante de um quadro de pobreza e injustiça? Sobretudo felizes segundo as normas do gozo que o capitalismo impõe como os aplausos encomendados nos programas de auditório? Um gozo pronto para o consumo. Diante de tanto apelo à felicidade como realizar a fantasia do prazer eterno na forma do riso quando rir é um ato compulsório?
Apesar de ser didático (com flashbacks explicativos para dar a medida da alucinação da personagem principal) e deixando claro para o telespectador todos os seus detalhes (como a frase sublinhada por um foco da câmera na escada do camarim que depois o Coringa apaga uma parte para deixar apenas “não sorria”), o filme Coringa fala sobre um adoecimento profundo. A exigência de uma vida feliz no erro, para parafrasear Adorno, é a forma como o diretor Todd Phillips escolheu para conduzir, por meio da apresentação minuciosa de um vilão de quadrinhos, uma trama em cujo centro está um diagnóstico de algumas de nossas patologias sociais. Estamos doentes.
As razões para isso são várias. Uma delas é explicitada por Arthur Fleck (antes de se tornar o Coringa): ninguém consegue escutar ninguém. Para a urgência da vida feliz o tempo da escuta não é compatível. Temos pressa de ter pressa. Que só é interrompida quando assumimos, como disse no meu último livro (Sobre losers: fracasso, impotência e afetos no capitalismo contemporâneo), a figura do loser para o qual o tempo não é mais um território a ser conquistado. O loser é aquele que, como na música ecoada com força no filme, não pode pegar a vida. Ela não domina a sua própria vida.
Aliás, só um vilão poderia encarnar o loser porque ainda que o vilão mimetize o super-herói, visto que ambos agem à margem do Estado para promoverem certa noção de justiça (no filme isso fica patente com a transformação do Coringa numa espécie de líder revolucionário e na sua ação violenta contra figuras hipócritas e poderosas), a sua atuação é construída a partir do fracasso e impotência por meio dos quais ele se subjetiviza. Diferentemente dos super-heróis, cuja assepsia em geral não permite matar os adversários, o Coringa é um loser que decide tocar fogo no sistema e atinge na cabeça – em cadeia nacional – a felicidade ridícula da vida feita para entreter (encarnada no apresentador Murray Franklin). Vida de entretenimento que nos obriga, permitam-me a insistência, a ser felizesnão apenas na miséria, mas da miséria. Vale tudo para se arrancar um sorriso no grande sistema do vale tudo.
Aqui a distinção entre o super-herói e o vilão se dissipa. Não importa. Ambos têm o poder de decidir sobre a vida das outras pessoas. Trata-se da vontade de poder que nos fascina e que ganha a sua máxima expressão quando se pode decidir pela vida dos outros. Enquanto no filme Batman dirigido por C. Nolan, por exemplo, o super-herói é obrigado a escolher entre um grupo de pessoas e a sua namorada presa, só a ele cabe a decisão e a capacidade de salvar essas pessoas, no Coringa a própria personagem estabelece quem vai viver (especialmente na cena em que ele mata seu ex-colega que o traiu e poupa a vida do seu também ex-colega anão). A assimetria existente é que marca a sutil diferença entre o super-herói, que decide a partir de uma questão que lhe é imposta, e o vilão que impõe uma decisão para si mesmo. O ponto de convergência: as vidas que são poupadas são aquelas para as quais eles guardam algum afeto. São os afetos que movem os heróis, super-heróis e os vilões. São os afetos que nos movem. Isto é a vida, como diz novamente a música That’slife.
E no filme Coringa os afetos são destacados por enquadramentos responsáveis por sublinhar as diferentes feições da personagem principal que no fim do filme podem ser vistas retrospectivamente como um quadro de Andy Wharhol: variações de um mesmo sofrimento. Filme que é quadro a quadro construído para mostrar a força de um só quadro.
As oscilações de humor de Arthur Fleck (interpretação impecável de Joaquin Phoenix) são destacadas também de modo metafórico em algumas cenas por luzes que piscam freneticamente. Seu sofrimento vai ganhando forma definitiva, como sublinha uma amiga, no desenvolvimento da sua dança – performance – cada vez mais densa e, em certa medida, violenta. Ele deixa de se fantasiar para ser o seu fantasma. É quando ele toma consciência de que é um loser numa sociedade composta por losers (motivo pelo qual ele termina se tornando um ícone social) e se assume definitivamente como o Coringa.
A última cena em que o agora Coringa fala o close no seu rosto é tão próximo que parte dele fica fora da tela. É o apogeu do seu sofrimento e é quando ele se encontra no mesmo sanatório para o qual a sua mãe tinha ido. Sua mãe que fora condenada por lhe maltratar e que ele resolve matar numa tentativa desesperada de enterrar o seu passado: sufocar. No entanto, a volta do recalcado não respeita limites nem algumas vezes a ética. Transgride. O filme o Coringa é sobre essa estrutura da transgressão.
Érico Andrade – Filósofo, psicanalista em formação, professor da Universidade Federal de Pernambuco – ericoandrade@gmail.com