sábado, 23 de maio de 2015

A atriz Marieta Severo resiste à onda neoconservadora hipócrita e superficial, insuflada por uma mídia tendenciosa e comprometida, que assola o país




Marieta Severo diz que País vive retrocesso e defende estado laico


Do Brasil Post

Hoje, Marieta Severo é muito lembrada pela querida Dona Nenê, de "A Grande Família", personagem que interpretou durante 14 anos.

Mas a atriz começou na profissão em 1965, durante um período de grande agitação no meio cultural. Protagonizou "Roda Viva", peça escrita pelo ex-marido Chico Buarque que veio a se tornar um emblema da resistência à ditadura nos anos 60. Viveu no exílio ao lado do marido. Já na década de 90, viveu Carlota Joaquina no filme que reinaugurou o cinema nacional, no chamado movimento de retomada.

Em entrevista ao jornal O Globo, Marieta disse que enxerga hoje um retrocesso em relação à época em que iniciou sua carreira.

"Sou contra a redução da maioridade penal e contra muita coisa que está em evidência e que, para a minha geração, é chocante. Há um retrocesso que nunca imaginei. Eu sou da década de 1960, do feminismo, da liberdade sexual, das igualdades todas".

"Quando você tem essas conquistas, a tendência é achar que elas estão conquistadas dali para a frente. Quando volta esse moralismo, e esse mundo religioso começa a ditar as regras, é muito assustador."

Ao falar sobre a personagem Fanny, dona de agência de modelos que interpretará na próxima novela das 23, Marieta refletiu sobre a crise ética que vivemos no País hoje.

"Ela é amoral, quer dinheiro, poder, não tem limite. Quando você toca nessas questões, quer criticar, dizer: aí gente, tem isso. Porque hoje se está com a mania de cobrir todos os sóis com as peneiras. Temos um conservadorismo no ar", comentou. "Quando você tem um Congresso votando uma lei de maioridade penal, é o quê? É um conservadorismo político apoiando um conservadorismo social, de ideias, de princípios, de valores."

A atriz disse ser completamente contra a redução da maioridade penal, e a favor do estado laico. Também comentou os avanços e desafios do feminismo:

Há espaços da mulher que foram conquistados e são sólidos. Mas há outros em que a gente não consegue ir adiante, como o aborto, que é um direito. E por quê? Por causa desse conservadorismo religioso com representação política. Não tenho nada contra religião. Sou a favor de todas, mas não exerço nenhuma. Só não quero uma religião legislando a minha vida.


Extraído do Brasil 247:

Um dos nomes mais importantes da dramaturgia brasileira, a atriz Marieta Severo decidiu protestar contra a maré neoconservadora que assola o País.

"Quando você tem um Congresso votando uma lei de maioridade penal, é o quê? É um conservadorismo político apoiando um conservadorismo social, de ideias, de princípios, de valores", disse ela à jornalista Debora Ghivelder, do jornal O Globo.

Marieta disse ser "completamente contra" a redução da maioridade penal. E disse mais. "Sou contra muita coisa que está em evidência e que para minha geração é chocante. Há um retrocesso que nunca imaginei", afirmou.

"Sou da década de 1960, do feminismo, da liberdade sexual, das igualdades todas. Quando você tem essas conquistas, a tendência é achar que elas estão conquistadas dali para a frente. Quando volta esse moralismo, e esse mundo religioso começa a ditar as regras, é muito assustador".




sexta-feira, 22 de maio de 2015

A fina ironia de Armandinho com os revoltados da Casa Grande que não percebem o vespeiro que eles mesmos puseram no Congresso e o caso do Shopping dos Deputados














O PARTICULAR SHOPPING DOS DEPUTADOS
  Por meio de uma manobra hábil, digna dos que tem experiência em extorquir dinheiro público sorrateiramente, o evangélico nada espiritualizado Eduardo Cunha (PMDB) conseguiu aprovar a primeira etapa de um projeto para  a construção de um complexo de edifícios anexos à câmara e que inclui, entre outras regalias, a construção de um shopping center privativo para os deputados, e tudo isso em tempos de ajuste fiscal e aperto financeiro.
 Avaliado em R$ 1 bilhão (podendo, é claro, sair bem mais caro na prática), o projeto do novo complexo parte de uma reforma no anexo IV, ampliando salas para uso dos deputados, até a construção de três grandes prédios, incluindo um que abrigaria todo um moderno shopping.
  Mas claro, neste episódio, as mesmas elites que elegeram grande parte dos deputados que, por sua vez, elegeram Cunha como presidente da casa, são a favor do projeto e que frequentam Shoppings ou os tem quase que inteiramente em seus prédios de apartamentos bem equipados ou suas casas em condomínios estilo Alphavilles dificilmente irão se dar ao trabalho de fazer um panelaço contra essa medida do presidente da Câmara, tão exclusivista, neoliberal, explorador do erário público, elitista  e anti-povo quanto eles mesmos, não é?

quinta-feira, 21 de maio de 2015

O avanço da alienação fundamentalista e o fim das melhores e tradicionais rádios: o (O)caso da Rádio Eldorado, repassada ao pastor R.R. Soares




"A transferência da Rádio Eldorado para um grupo religioso carrega uma simbologia fúnebre."

Texto de Luciano Martins Costa, extraído do Observatório da Imprensa

PROGRAMA Nº 2610
RÁDIO ELDORADO, RIP

Um piano ao cair da tarde


Por Luciano Martins Costa em 20/05/2015



Notícia publicada na quarta-feira (20/5) pelo Estado de S.Paulo e a Folha de S.Paulo informa: a tradicional Rádio Eldorado, que pontuou durante décadas a programação mais qualificada na chamada linguagem culta, encerra sua agonia oficialmente na segunda-feira (25/5). A frequência dos 700 KHz em Amplitude Modulada será preenchida com a música gospel e as mensagens religiosas da Igreja Internacional da Graça de Deus. A partir da semana que vem, será parte da rede Nossa Rádio, propriedade do empresário religioso Romildo Ribeiro Soares, conhecido como missionário RR Soares.

A Eldorado nasceu em 1958, por concessão do então presidente Juscelino Kubitschek à família Mesquita, proprietária do jornal O Estado de S. Paulo. Teve seu auge entre as décadas de 1970 e 1980, tornando-se referência em jornalismo e música de qualidade.

A decadência se deveu, segundo analistas do setor, a erros estratégicos, gestão irresponsável e falta de investimento. Algumas tentativas recentes de lhe dar alguma sobrevida com parcerias levaram a mudanças no nome: a emissora passou a se chamar Eldorado/ESPN, depois Rádio Estadão/ESPN, e finalmente Rádio Estadão.

Romildo Soares, ex-membro fundador da Igreja Universal do Reino de Deus, foi apontado em 2013 pela revista Forbes como o quarto líder religioso mais rico do Brasil, dono de uma fortuna calculada em US$ 125 milhões. Sua rede conta com mais de 2 mil templos por todo o país, mas sua atuação se dá principalmente no campo das comunicações.

Apostando inicialmente no rádio, Soares se tornou figura constante em muitas emissoras, primeiro alugando horários e mais tarde construindo sua própria rede, e hoje ocupa mais de 100 horas semanais de televisão.

O fim da Eldorado AM, depois de sua progressiva deterioração, era um fato há muito esperado no mercado. O que surpreende, a se levar em conta a reação de analistas especializados que comentam notícias sobre a mídia brasileira, é a cessão da tradicional banda AM 700 para uma organização religiosa.

Cortejo fúnebre

A família Mesquita não comentou oficialmente a negociação. Apenas emitiu uma nota, que carrega o estilo lacônico do diretor de Conteúdo do grupo, Ricardo Gandour. O texto diz resumidamente que “a Rede Nossa Rádio, que pertence à Igreja Internacional da Graça de Deus, assume a programação”, ressalvando que a empresa Rádio Eldorado Ltda., do Grupo Estado, “continuará como titular e responsável pela operação”. A empresa mantém a banda de Frequência Modulada. A declaração acrescenta que “o Grupo Estado tem priorizado investimentos em conteúdos e plataformas digitais destinados a públicos de qualificação diferenciada ou de interesse específico”.

O negócio deveria estimular um debate sobre a questão do controle dos meios de comunicação, mas isso não vai acontecer. Não fosse o aspecto irônico de a emissora ter passado para as mãos de um grupo “diferenciado” no universo do segmento religioso neopentecostal, esse seria apenas mais um capítulo no processo de decadência da mais antiga e tradicional entre as grandes empresas brasileiras de comunicação.

Após ter falhado em suas tentativas de obter uma concessão de televisão, entre os anos 1980 e 1990, o Grupo Estado viu esfumaçar-se o antigo domínio dos anúncios classificados com o advento da Internet e enfrenta as consequências de um longo processo de endividamento.

Consultores que atuaram recentemente num programa de ajuste das contas da empresa confidenciam que a marca O Estado de S.Paulo perdeu mais de 60% de seu valor nos últimos cinco anos e que seu principal patrimônio se resume ao imóvel que a empresa ocupa na zona Norte da capital paulista. O parque gráfico, planejado para a configuração específica do jornal, não pode ser desmembrado e suas unidades se depreciam progressivamente, passando a valer praticamente o que pesam suas peças.

Nesse trajeto descendente, as sucessivas administrações do grupo puseram a perder não apenas a qualidade do jornalismo praticado por seus veículos. Também enterraram o Jornal da Tarde, que marcou época com textos e edições marcantes, destruíram a memória das primeiras experiências da emissão de notícias pela internet – inclusive a primeira reportagem com imagens em movimento transmitida por linha discada no Brasil, no começo dos anos 1990 – e transformaram em tiras de papel trinta anos de pesquisa sobre o comportamento social e de consumo da mulher brasileira, trabalho da socióloga Célia Belém.

Com esse histórico de dissipações, a transferência da Rádio Eldorado para um grupo religioso carrega uma simbologia fúnebre.

Que descanse em paz.

terça-feira, 19 de maio de 2015

De como a mídia tendenciosa anulou a Terceira Lei de Newton....



.... ou, de como direcionar a capacidade de indignação de uma sociedade






 Espero que todos recordem da Terceira Lei de Newton, aquela que diz que a toda ação corresponde uma reação, de mesma intensidade, mesma direção e sentido contrário.

  O que fez a mídia nesses últimos 50 anos no Brasil? Entorpeceu as pessoas de tal modo, que a reação ao que fazem é, em grande parte, pífia ou inexistente. O resultado é que a força maior desloca a seu favor o corpo sobre o qual as forças atuam. A indignação troca de lado. A tal ponto, que substancial parcela da sociedade acha “bonito” acreditar em tudo quanto outrora sabiam ser a defesa da ditadura, a colaboração com a ditadura ou a tentativa de perpetuar um liberalismo econômico que prega a segregação econômica, a expropriação das riquezas, por todos produzida, apenas para uns poucos.

 Vejo pessoas que estão incapazes de perceber a violência com que a mídia atua contra elas. E acabam simplesmente arrastadas para o pensamento único ditado pelas oligarquias.

 Afinal, há que estar indignado contra o governo, contra o PT. Não mais contra a desigualdade social, não mais contra a que uns poucos — dentre eles os donos da mídia e seus “sócios” de expropriação, os banqueiros e os grandes sonegadores — fiquem com tudo. Perdem a capacidade de direcionar a indignação contra aquilo que realmente nos faz mal. E são direcionados a ficarem indignados contra quem, com erros e acertos, vem realmente mudando o país.

 Esse fenômeno é mais perceptível quando atuamos com a mesma violência textual contra a mídia ou contra as pessoas “conduzidas”. As pessoas ficam indignadas contra nós, pois só veem a nossa violência. Não mais percebem a violência que sofrem da mídia. A única diferença, no entanto, é que a mídia inoculou a sua força em conta gotas, enquanto a nós só resta sermos mostrados como que usando de toda a força somente agora.

 O que a mídia oligárquica tem feito é de uma violência extrema, tão extrema que trouxe para junto de si políticos que deveriam ser abominados da vida pública desse país.

 Mas o que fazem essas pessoas? Apoiam! Simplesmente apoiam e vão para as ruas ou batem panelas. E dizem que eu é que sou violento quando me refiro a eles como manada.

  Saudades do Newton…

domingo, 17 de maio de 2015

Reacionários na moda: Golpes adaptados ao estilo século XXI, em estudo acadêmico




Estudo acadêmico de constitucionalista Pedro Serrano mostra as novas formas de conspirar contra a democracia em nossa época. Mesmo sem fazer nenhuma referência direta ao Brasil, é fácil entender do que ele está falando


Texto de Paulo Moreira Leite


 "O conceito de pessoa humana talvez tenha sido o mais revolucionário da história do homem na Terra, traduzindo-se como imensa contribuição da cristandade para nossa sociabilidade. Ao divorciar o homem de sua apropriação como coisa para tratá-lo como filho de Deus, membro de uma imensa família humana, aliou-se a noção de homem à de igualdade e justiça. Todos essencialmente iguais, porque nascidos do mesmo Pai.”

  Encontrei as palavras acima no mais recente trabalho acadêmico do advogado Pedro Serrano. Professor de Direito Constitucional na PUC-SP, na semana passada Serrano foi a Portugal apresentar uma tese de pós-doutorado na Universidade de Lisboa. Num trabalho em profundidade sobre direitos e garantias individuais, Serrano debate a Idade Média, explica a queda do absolutismo e a revolução francesa para discutir noções sobre Estado de Direito, Estado Policial e Estado de Exceção. O texto debate os golpes de Estado recentes na América Latina, como a queda de Eduardo Lugo, no Paraguai, e a de Manoel Zelada, em Honduras.

  Embora seja um crítico frequente de determinadas sentenças e decisões da Justiça, na AP 470 e também na Operação Lava Jato, em sua tese acadêmica o professor evita maiores considerações a respeito. Não faz referências explícitas a situação brasileira, ainda que o Brasil seja, obviamente, o sujeito mais ou menos oculto de seu trabalho.

  Mais do que entrar num debate de assuntos da conjuntura imediata, Serrano procura fixar conceitos — o que também é uma forma de contribuir para a compreensão do momento que o país atravessa, como você poderá comprovar nos parágrafos finais deste artigo.

  Ao estabelecer a conexão entre os direitos individuais e os Estados Democráticos de Direito, Serrano constrói um método que mostra que os regimes de exceção começam a ser formados quando se constrói um inimigo interno, categoria social que define os cidadãos que não têm os mesmos direitos que os outros — e podem ser tratados por medidas de exceção. A construção do inimigo é essencial pois a partir dela é possível estabelecer diferenças “no interior da espécie humana. Onde há o inimigo, não há o ser humano, mas um ser desprovido da condição de humanidade,” explica, recordando o universo político em que se moveu o nazismo de Adolf Hitler, o fascismo de Benito Mussolini e também a ditadura militar que governou o Brasil por duas décadas. De uma forma ou outra , esclarece, eram regimes que possuiam cidadãos desprovidos dos mesmos direitos que os demais — como judeus, comunistas, estrangeiros — e a partir daí se construíu uma ordem que envolvia o conjunto da sociedade.

  Explicando o nascimento das ditaduras, o professor lembra que “em geral a decisão jurisdicional de exceção não se declara como tal”. Pelo contrário, costuma justificar-se como um esforço para defender o próprio Estado democrático de Direito e é “envolvida em fundamentações e justificativas compatíveis com a ordem posta”. Foi assim que a suspensão de garantias democráticas sob o regime de Hitler foi apresentada como uma resposta ao incêndio do Reichstag, o Parlamento alemão, atribuído ao Partido Comunista. Da mesma forma, o fantasma do comunismo nos anos de Guerra-Fria serviu de suporte ideológico ao ciclo militar da América Latina, inclusive o Brasil.

  Depois de analisar as ditaduras do século XX, onde havia um “Estado autoritário claro, um Estado de polícia inequívoco, um poder exercido de forma bruta,” Pedro Serrano entra no século XXI, o nosso período histórico.

  A Nova Natureza do Estado de Exceção


  De saída, o professor registra uma mudança clara e importante: “o Estado de exceção muda de natureza. Não há mais a interrupção do Estado democrático para a instauração de um Estado de exceção, mas os mecanismos do autoritarismo típico passam a existir e conviver dentro da rotina democrática".


   Assim, naquele que costuma ser considerado o mais antigo Estado Democrático de Direito do planeta, os Estados Unidos, na primeira década do século XXI nasceu o Patriotic Act. No ambiente de grande emoção e pânico produzidos pelos ataques de 11 de setembro, um decreto assinado por George W Bush “autoriza a prática de atos de tortura como método de investigação (…) bem como o sequestro de qualquer ser humano suspeito de inimigo em qualquer lugar do planeta, sem qualquer respeito a soberania dos Estados do mundo”. Os mesmos métodos se espalham, em grau maior ou menor, pelos países europeus, “com cadastros especiais de controle da intimidade, campos de confinamento, etc.”



  Aquele conjunto de medidas que em outros momentos provocariam a indignação da consciência democrática , passam a ser vistas “como uma verdadeira técnica de governo.”


  Assim — o exemplo aqui é meu — um jornalista como Julian Assange permanece há três anos como prisioneiro na embaixada do Equador em Londres. Isso porque divulgou segredos diplomáticos através do Wikileaks, num tratamento sem paralelo com o recebido por Daniel Ellsberg em 1971, na divulgação de documentos secretos e comprometedores do Pentágono sobre a guerra do Vietnã.

  Serrano avalia que na América Latina, a era dos golpes militares e ditaduras de longa duração, com desfile de tanques pelas ruas e Congressos fechados será substituída por intervenções rápidas para garantir a derrubada de um governo considerado indesejável — ainda que “regime democráticos sejam inconstitucionalmente interrompidos, golpeando presidentes legitimamente eleitos”. Analisando os dois casos concretos deste período, a deposição de Fernando Lugo e o golpe contra Manoel Zelaya, Serrano sustenta que o Judiciário desempenha um papel essencial para a construção da nova ordem.

  Em vez de assumir uma postura de resistência em nome da antiga ordem, postura que, no passado, levou até à cassação de magistrados comprometidos com os princípios democráticos, os tribunais superiores assumem outra função — dar legitimidade a medidas que atropelam a soberania popular. Escreve Serrano: “é a jurisdição funcionando como fonte de exceção e não do direito”.


  Outra novidade no século XXI é o inimigo interno, indispensável para iniciativas anti-democráticas. Serrano aponta que, nos países desenvolvidos, esse lugar é ocupado pelo “inimigo muçulmano fundamentalista”.


  Muitos analistas sustentam que essa situação é obra do 11 de setembro, o que seria uma forma de dizer que, na origem, o terrorismo de organizações árabes é responsável pela discriminação e violência que as potências do Ocidente reservam a seus povos.

  Mantendo-se no terreno jurídico, Serrano não entra nesta discussão, o que dá a este humilde blogueiro o direito de apresentar um palpite.

  Sem querer minimizar nem por um segundo o impacto terrível do ataque às torres gêmeas, acho possível defender outro argumento. Acredito que o 11 de setembro colocou em movimento forças que já se moviam na potência norte-americana e provocou reações de uma engrenagem que iria se mover de uma forma ou de outra, para defender os interesses maiores daquele país que se transformou na única potência militar do planeta após o colapso da antiga URSS.

  Em 1993, oito anos antes dos ataques, um professor de Harvard, Samuel Huntington, influente nos meios políticos e diplomáticos dos EUA, publicou Choque de Civilizações, artigo que se tornaria uma espécie de programa de trabalho do Império norte-americano e seus aliados na nova ordem mundial. No texto Huntington formula uma visão da evolução humana para as décadas seguintes. Diz que dali para a frente “o eixo predominante da política mundial serão as relações entre o Ocidente e o Resto”. Num raciocínio voltado para a preservação da hegemonia e poderio, Huntington registra a emergência dos países que décadas depois seriam chamados de emergentes — e define estratégias para manter uma posição de força e domínio. 

  Vale a pena ler: “os conflitos entre as civilizacões vão suplantar os conflitos de natureza ideológica e e outras como forma de global dominante; as relações internacionais, um jogo historicamente jogado dentro da civilização ocidental, se tornarão um jogo em que as civilizações não-ocidentais serão agentes e não simples objetos”. Na visão de Huntington, estamos falando de conflitos mais graves e intransponíveis do que a ideologia e a economia, porque sua base está na cultura, em valores inconciliáveis que opõem povos e nações através do planeta inteiro.

  Transportada para o direito internacional — não custa lembrar que a ONU foi fundada por uma Carta de Direitos Humanos, frequentemente ignorada na vida real — essa política do inimigo chegará não só a guerras de grande porte, como a do Iraque. Também levou a formulação do chamado Eixo do Mal, que justificava a persistência do bloqueio a Cuba e o apoio a duas tentativas de golpe na Venezuela de Hugo Chávez, em 2002. Com a possibilidade da vitória de Luiz Inácio Lula da Silva na eleição presidencial daquele ano, a diplomacia republicana chegou a cogitar a inclusão do Brasil no conjunto de inimigos a abater, mas essa política foi desmontada por uma ação múltipla, que incluiu o governo Fernando Henrique Cardoso, o próprio Lula e ainda uma viagem bem sucedida de José Dirceu para conversas em Washington e Nova York, meses antes da vitória.

  Falando da América Latina e do Brasil, Serrano diagnostica uma situação de duplicidade. Explica que na região convivem um Estado de Democrático de Direito, acessível a população mais endinheirada dos grandes centros urbanos, com um Estado policial de exceção, “localizado nas periferias das grandes cidades, verdadeiros territórios ocupados, onde vive a maioria da população pobre”. Desse ponto de vista, explica, a exceção é a regra geral para a maioria das pessoas.

  Referindo-se ao universo que deu origem ao golpe de 1964 no Brasil, o professor explica que, ”o inimigo a ser combatido e que ameaça a sociedade não se identifica mais do a figura do comunista das ditaduras militares, mas sim com a figura do bandido, impreterivelmente identificado com a condição social de pobreza”.

  Impossível discordar.


  Sofisma sociológico
Eu gostaria de acrescentar, por minha conta, observações sobre as ideias de Serrano e o Brasil de 2015.

  Há uma novidade curiosa no comportamento do Judiciário na última década. Estamos falando de um período no qual, como demonstram estatísticas que ninguém discute, os mais pobres conseguiram melhorar — parcialmente, é verdade — sua posição na pirâmide social e ter acesso a um padrão de consumo e igualdade que nunca se viu na história. Estudam mais, alimentam-se melhor, tem oportunidades mais amplas.

 Justamente os políticos e personalidades ligados ao Partido dos Trabalhadores e seus aliados, o mais identificado com esse processo, benéfico para o conjunto da sociedade brasileria, têm sido alvo de medidas — classifique como quiser, de exceção, perseguição, ou qualquer outro adjetivo — por parte do Judiciário. Acusados de corrupção em processos espetaculares, acompanhados com espírito de circo pelos grandes grupos de comunicação, passaram a ser discriminados em seus direitos e garantias.

 Através da AP 470 e da Operação Lava Jato, são tratados como inimigos internos, habitantes daquilo que Serrano chama de “territórios ocupados da periferia” e não como cidadão que, em função de sua posição na pirâmide social, teriam acesso assegurado ao Estado Democrático de Direito.

 Sempre que se debate — por exemplo — as prisões preventivas dos acusados da Lava Jato, em prazos extremamente longos, sem provas nem indícios consistentes de culpa, configurando um abuso destinado a forçar confissões e delações premiadas, os aliados do juiz Sérgio Moro e do Ministério Público pedem ajuda a um sofisma sociológico.

 Alegam que um terço do meio milhão de condenados que habitam nosso sistema prisional, habitado em sua imensa maioria por cidadãos pobres, em maior parte pretos, incapazes de contar com bons advogados, também enfrentam a mesma situação, padecem das mesmas dificuldades, quem sabe até piores.

 A sugestão de que uma coisa poderia justificar a outra não faz sentido, quando se recorda que o esforço civilizado consiste em estimular a ampliação do Direito, e não seu rebaixamento através de medidas de exceção, que apenas perpetuam um estado geral de coisas.

 O que se procura, aqui, é construir um inimigo interno — personagem indispensável das medidas de exceção de que fala Pedro Serrano.

  O que se vê é um tratamento discriminatório — com motivação política — tão brutal e dirigido que atravessa as distinções de classe social, sempre profundas e persistentes no Brasil. A grande lição dos julgamento da AP 470 e a Operação Lava Jato é mostrar que não basta ter dinheiro — quem sabe muito dinheiro — para pagar bons advogados e garantir um acesso ao Estado Democrático de Direito, aquele onde vigora o princípio segundo o qual todos são inocentes até que se prove o contrário. Talvez não baste ser filiado ao partido que há 12 anos ocupa a presidência da República, dispondo de privilégios e prerrogativas correspondentes.

 É preciso estar do lado certo da disputa política.


 Os mesmos executivos e empresários, acusados dos mesmos crimes definidos na AP 470 e também no mensalão PSDB-MG, foram julgados por tribunais diferentes, com direitos diferentes, obtendo penas diferentes. Basta recordar que os primeiros condenados da AP 470 começam a deixar a prisão, depois de cumprir penas definidas pela Justiça. Os outros sequer receberam uma condenação. Quando isso acontecer, aqueles que não tiveram a pena prescrita terão direito a um segundo julgamento, com outros juízes, outro tribunal.

 Está demonstrado que os mesmos empresários que, conforme as investigação da Lava Jato, abasteceram os cofres do PT entregaram as mesmas quantias, no mesmo período, para tesoureiros do PSDB. Está provado, registrado na Justiça Eleitoral. O principal delator, aliás, entregou R$ 2 milhões a mais para a campanha de Aécio Neves. Nada disso foi suficiente para o lançamento de uma eventual fase zero da novela Lava Jato, agora mais plural, sem culpados nem inocentes previamente escolhidos, certo? 

 Alguém convive em paz com a noção de que o dinheiro que chega para os tucanos como “contribuição eleitoral” se transforma em “propina” quando se destina ao PT?

 A leitura dos estudos de Hannah Arendt sobre o nascimento de regimes totalitários demonstra que um dos instrumentos básicos empregados na disputa entre parcelas da elite dirigente de determinada sociedade — um aspecto inevitável de toda luta política desde sempre — consistia em mobilizar e estimular preconceitos e ressentimentos da “ralé”. Como tantos observadores sociais de seu tempo, Arendt se referia nestes termos àquela parcela da população que se encontrava abaixo das classes sociais tradicionais, sem acesso a educação, ao bem-estar e que mal conseguia exercitar os próprios direitos políticos. Ela avaliava que a democracia se encontrava em perigo quando a elite assumia modos e comportamentos antidemocráticos e agia de turba, como manada, estimulando gestos violentos e atos de barbárie.

  Não é difícil reconhecer movimentos dessa natureza no Brasil de hoje. Os brasileiros assistem isso quando Alexandre Padilha é impedido de jantar em paz com amigos num restaurante no Itaim Bibi — cena que repete um tratamento semelhante oferecido a Guido Mantega quando foi fazer uma visita a um paciente no hospital Albert Einstein. Em 2012, Ricardo Lewandovski, hoje presidente do STF, ouviu comentários ofensivos quando foi à zona eleitoral exercer o direito de voto. São atos que formam um conjunto, contestam a noção de que homens e mulheres pertencem a uma mesma família humana, com direitos a igualdade e a justiça, como diz Pedro Serrano.

  É um comportamento lamentável e preocupante. Mas é difícil negar que o exemplo vem de cima, certo?

quinta-feira, 14 de maio de 2015

O estranho cristianismo de ódio, segregação e exclusivismo e a estranha imagem de um Jesus capitalista produzida por televangelistas




Carlos Antonio Fragoso Guimarães

 Será que alguém com o mínimo de bom senso e uma base de conhecimento dos evangelhos pensar em um Jesus que faça distinção de pessoas, condenando-as por participarem ou não participarem de uma religião X, por discordarem de um pensamento, de terem determinada orientação sexual ou simplesmente por buscarem a Deus em uma forma mais espiritualizada, menos literalista, do que em antigos preceitos de outros tempos e ainda de querer se impor à base de ameaças de danação a todos os povos que não concordarem com ele e ainda cobrar de todos dízimos, exaltação de líderes e uma militância insana por novos fieis? 

 Pois bem, por mais absurdo que parece este quadro, é este exatamente os traços do Cristo apresentado e defendido por certas igrejas ditas evangélicas, em especial as telemidiáticas cujas raízes estão no fundamentalismo neocalvinista de seitas norte-americanas. Esta forma de "cristianismo" de mercado vem trazendo em seu rastro uma série de situações sociais anti-humanistas e anti-cristãs.
  Todos conhecemos o discurso de ódio aos homossexuais, adeptos de cultos afro-brasileiros, aos espíritas, aos ateus, aos budistas e aos católicos que pastores como Edir Macedo, Marco Feliciano e Silas Malafaia divulgam abertamente em seus canais e redes de televisão, tanto quanto à ênfase destes no pagamento de dízimos e na "necessidade" de que pastores tenham uma vida de riquezas. Grande parte do poder que eles exercem sobre as pessoas advém exatamente da associação entre fé-provas-de-fé-show e riquezas, conhecida como "teologia da prosperidade", uma forma de materialismo e egoísmo travestido de religiosidade que nada tem  a ver com a mensagem original de Jesus porém mais próxima do comportamento de um Judas, que foi o primeiro a trocar o Cristo por dinheiro. 

 Pior ainda, esta forma de "cristianismo" é extremamente concorde com o capitalismo, em especial na forma imperialista do capitalismo global assentada na política norte-americana, onde a mensagem e a figura do próprio Cristo foi manipulada para parecer sustentar tanto uma ideologia de exploração e exclusão quanto de intervencionismo, xenofobia e patriarcalismo belicoso (o cineasta Michael Moore faz uma crítica inteligente desta espúria apropriação dos capitalistas no documentário "Capitalismo, uma história de amor"). Diante disto, é de se espantar que jovens que tem o tempo todo a imagem deste Jesus capitalista e opressor acabem por se distanciarem do Jesus de Nazaré real que dizia para não acumular tesouros na terra, dividir tudo, amar os inimigos mas que é encoberto por um tal "Sr. Jesus" a anotar implacavelmente erros, entre eles, o de não se pagar dízimos aos pastores (ele que n verdade nunca cobrou nada)? Não sem razão o grupo de rock americano Bad Religion fez uma canção crítica intitulada "American Jesus", que mostra o quanto a mensagem humanista de Jesus de Nazaré foi substituída pela de um construído "Jesus" americano, de traços exclusivistas, capitalistas, racistas, bairristas, agressivos, sexistas e até mesmo fascista, como no caso da sórdida Ku Klux Klan, uma aberração evangélica oriunda dos batistas do sul racista dos EUA.
  Veja o videoclipe do Bad Religion com a canção crítica "American Jesus", legendado, abaixo:


segunda-feira, 11 de maio de 2015

Da Insana Selva das Cidades Grandes às Ilusões de um Midiático Paraíso Perdido: Análise de um discurso da Globo, pela professora Sylvia Debossan Moretzsohn




   "Exatamente no momento em que o Congresso Nacional está para aprovar o projeto de terceirização que amplia a precarização do trabalho, aparece um programa que nos diz que dinheiro e carreira estável não trazem felicidade e nos convida a mudar de vida. Desde que, claro, sejamos “empreendedores”, isto é, desde que sejamos capazes de reproduzir, no microcosmo, as relações desse mesmo sistema que nos oprime e explora."

JORNAL DE DEBATES > SILÊNCIOS DO JORNALISMO

Da selva das cidades às ilusões do paraíso

Por Sylvia Debossan Moretzsohn em 05/05/2015 na edição 849 do Observatório da Imprensa

O que pode associar a notícia de um flagrante de violência urbana ao seu contrário – um programa especial sobre a decisão de ser feliz, em geral fora da cidade grande? A resposta imediata poderia apontar uma associação automática: a vida na cidade está insuportável, o negócio é cair fora. Uma resposta mais elaborada diria que esta associação é verdadeira, porém o principal não está no que se vê, mas no que se oculta: o contexto e, principalmente, o vínculo entre as situações apresentadas e o funcionamento do sistema, na cidade e fora dela.
No feriado de 1º de Maio, sexta-feira, o Jornal Nacional exibiu reportagem que mostra um homem de meia idade sendo atacado por três pivetes num ponto de ônibus, no início da noite, no Centro do Rio. Um deles desfere três facadas sobre o homem, que só depois sente o golpe, é amparado por duas pessoas e fica deitado aguardando atendimento. Por sorte se recupera bem: os golpes poderiam ter sido fatais, se tivessem atingido o pulmão ou o pescoço.
Na mesma sexta-feira, o Globo Repórter tratou do tema “trabalhar com prazer”, com exemplos de pessoas que, apesar de suas carreiras de sucesso, decidiram apostar numa vida melhor: o casal que largou um bom emprego para investir num sítio e produzir alimentos sem agrotóxicos, o advogado paulista que conheceu o amor de sua vida num paraíso turístico da Bahia e lá abriu uma pousada, o funcionário público que também trabalhava como taxista e acabou virando doceiro, a especialista em tecnologia da informação que resolveu seguir sua vocação de mecânica de automóveis para recuperar modelos antigos – incluindo um Maverick que é seu sonho de infância –, o francês que ganhava em euros mas decidiu comprar uma casa no meio do mato para realizar seu desejo de virar mágico.
A história de sempre
Exibir cenas chocantes é recurso corriqueiro quando a audiência está em queda, mas o texto de abertura do Jornal Nacional, que mostrará o esfaqueamento, é mais sutil. Ao anunciar a reportagem (ver aqui), de quase sete minutos, William Bonner ao mesmo tempo presta uma espécie de homenagem aos trabalhadores naquela data tão significativa e lamenta a água mole impotente diante da dureza da pedra:
“O assunto que abre esta edição vai provocar espanto, mas não porque seja uma surpresa. A gente vai mostrar cidadãos brasileiros sendo atacados por delinquentes na rua. E você já viu isso outras vezes. O que espanta é que as cenas de violência contra trabalhadores foram registradas no mesmo lugar que oJornal Nacional já mostrou muitas e muitas vezes: o Centro do Rio de Janeiro”.
Não, o que espanta não são as cenas corriqueiras de assaltos ou a repetição de denúncias que esbarram sempre no discurso monocórdio e protocolar da autoridade policial, mas o flagrante do ataque a facadas, que está longe de ser banal.
No entanto, a cena só é mostrada depois do retrospecto de reportagem feita em janeiro do ano passado, flagrando em três horas três roubos isolados a pedestres e “um arrastão que terminou em pancadaria”, próximo ao local onde o homem foi esfaqueado. Antes de exibir a cena que realmente importa, um trecho de reportagem também do ano passado em que uma mulher dá entrevista em local bem mais distante – a região próxima à Central do Brasil – quando alguém tenta lhe roubar o cordão, e o repórter sai correndo atrás do ladrão. Logo depois de mostrar o homem ensanguentado após as facadas, uma entrevista com uma mulher que tem o rosto preservado e diz, nervosa: “Eu não aguento mais ver assalto nesse Rio de Janeiro, tem que acabar isso, isso é uma gangue…”
Se a Globo posicionou sua câmera para aquele ponto de ônibus, é porque sabia que algo poderia ocorrer ali. A polícia, com certeza, tampouco desconhece essa possibilidade. Por que não age para inibir a ação daqueles meninos que perambulam pelos pontos mais movimentados da cidade, aguardando a oportunidade de roubar um cordão de ouro ou um celular?
Ligar as pontas
Porém, o mais interessante é observar o que essa reportagem oculta. Pois também já vimos muitas e muitas vezes – menos no noticiário do que na nossa própria experiência ao andar pelas ruas – esses meninos dormindo nas calçadas, largados sobre a grama das praças, dopando-se com todo tipo de droga. Onde fica esse “outro lado” da reportagem que os exibe em ações violentas e oculta a violência que eles sofrem desde que nasceram?
Entretanto, se esse “outro lado” aparecesse, a resposta previsível do público tenderia a ser o escárnio insultuoso da sugestão que virou moda – “Tá com pena? Leva pra casa” – e todo o monótono repertório sobre o pessoal dos “direitos dos manos”. Por isso é tão difícil fazer jornalismo: porque é preciso mostrar às pessoas o que elas não querem ver. E aqui não falo, naturalmente, do enfoque privilegiado pelo JN, que todos sabemos qual é. Falo da dificuldade de enfrentar o senso comum.
Diante da reportagem sobre os meninos delinquentes – que nem precisa aludir à recém-aprovada proposta de redução da maioridade penal, porque isto já está implícito nos discursos prevalecentes sobre o tema –, a consequência é tão óbvia quanto inútil: pode haver uma dessas “operações limpeza” típicas das políticas de “choque de ordem” – expressão, aliás, que sumiu do noticiário –, mas, sem uma política de assistência, os meninos acabam voltando. Não esses especificamente, que podem ser recolhidos para cumprir as tais “medidas socioeducativas”, quando não são simplesmente eliminados. Mas outros iguais a eles, produto da mesma situação de marginalidade social. E, com eles, mais reportagens indignadas, que não rompem o círculo vicioso porque não ligam as pontas que permitiriam apresentar a situação na sua complexidade. Porque não interessa ou, talvez, também, porque haja repórteres e editores convencidos de que basta reprimir os pivetes para acabar com o problema.
Chutar o balde?
Da mesma forma, o Globo Repórter que enaltece o “trabalho feliz” justamente no 1º de Maio repete várias outras edições que, ao longo dos anos, tentaram demonstrar que basta ter coragem de chutar o balde para mudar de vida e adotar um estilo próximo do ideal do bom selvagem – cuidando, entretanto, de não esquecer a luz elétrica.
Os cenários são sempre os mesmos: sítios verdejantes, praias paradisíacas, o cotidiano de paz e tranquilidade em comunhão com a natureza. E o sol: sempre faz sol, jamais chove nesses cenários deslumbrantes. Pode eventualmente fazer frio, mas aí estaremos todos num ambiente aconchegante de uma sala com lareira, em torno de um bom vinho e comidinhas fumegantes.
É claro que alguns indivíduos conseguem dar outro rumo às suas vidas. Especialmente se têm o chamado capital inicial: alguma herança ou os recursos que amealharam durante o tempo de trabalhos forçados. O problema é sugerir que esta é, de fato, uma opção para qualquer um. Como se força de vontade e iniciativa bastassem.
Isso para não mencionar a ausência de preocupação com os nativos desses paraísos: como vivem?, o que comem?, como se reproduzem?, são também tão felizes quanto seus novos vizinhos?
Cultivando ilusões
Há, entretanto, algo que difere esta edição de tantas outras do mesmo programa: o contexto. Exatamente no momento em que o Congresso Nacional está para aprovar o projeto de terceirização que amplia a precarização do trabalho, aparece um programa que nos diz que dinheiro e carreira estável não trazem felicidade e nos convida a mudar de vida. Desde que, claro, sejamos “empreendedores”, isto é, desde que sejamos capazes de reproduzir, no microcosmo, as relações desse mesmo sistema que nos oprime e explora.
(Bem a propósito, reportagem do G1 na segunda-feira, 4/5, enaltece a educação das criancinhas para o “empreendedorismo”, que só fica feio quando o tal “empreendimento” envereda pelos caminhos “proibidinhos” do funk.)
Estamos todos infelizes e acuados na selva das cidades, onde perambulam meninos maltrapilhos e ameaçadores. Não é difícil concluir que, se todos pudéssemos cair fora, só restariam nas cidades os prédios inabitados e os ansiados paraísos se transformariam num novo inferno. Mas enquanto estivermos convencidos de que o sistema em que vivemos é o único possível – e não é preciso ressaltar o papel da mídia hegemônica nesse convencimento –, vamos continuar nos alimentando de ilusões.
***
Sylvia Debossan Moretzsohn é jornalista, professora da Universidade Federal Fluminense, autora de Repórter no volante. O papel dos motoristas de jornal na produção da notícia(Editora Três Estrelas, 2013) e Pensando contra os fatos. Jornalismo e cotidiano: do senso comum ao senso crítico

Informações manipuladas, panelas e partidarismo... Luciano Martins Costa escreve um Réquiem para o "grande" jornalismo brasilero


“Descanse em paz”, diz a lápide no túmulo do jornalismo nacional.

PROGRAMA Nº 2603

SOBRE INFORMAÇÃO E PANELAS - observatório da imprensa

Réquiem para o jornalismo

Por Luciano Martins Costa em 11/05/2015 | 0 comentários
Comentário para o programa radiofônico do Observatório, 11/5/2015

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A mídia tradicional do Brasil, ressecada de cérebros por conta da queda na receita publicitária, consegue nos últimos dias a proeza de mergulhar ainda mais fundo no jornalismo de panfleto.
Uma pequena seleção de material destacado pelos jornais de circulação nacional e pelas revistas semanais de informação mostra que o partidarismo recrudesce nas páginas e telas da imprensa. O viés se torna mais explícito provavelmente porque, com as demissões do primeiro trimestre, faltam talentos para dissimular o viés que define as escolhas editoriais.
Comecemos pela intensificada obsessão da Folha de S. Paulo pelo prefeito petista da capital paulista, Fernando Haddad. No feriado de 1º de maio, o jornal estampou, em manchete, o seguinte título: “Gestão Haddad falou com tráfico antes de agir na cracolândia”. O texto que se seguia passava a interpretação de que os assistentes sociais e outros funcionários que atuam na região onde se concentram dependentes de drogas no centro de São Paulo precisam se entender com traficantes para realizar seu trabalho.
Não se trata de uma mentira deslavada, mas de uma aleivosia. De fato, ninguém consegue se aproximar do aglomerado de seres humanos que se amontoam naqueles acampamentos se não tiver alguma conversação com os traficantes. O que o jornal omite é a situação criada pela polícia do Estado, que mantem há quase dez anos uma relação de tolerância controlada com o crime organizado. A manchete da Folha tinha a intenção maliciosa de relacionar a prefeitura petista ao comando da principal facção criminosa que atua em território paulista.
Na segunda-feira (9/5), a mesma Folha traz em manchete reportagem afirmando que o número de consultas na rede de postos de saúde do município caiu 21% em 2014, comparando com os atendimentos do ano anterior. Antes da publicação, a assessoria do prefeito havia informado que a causa é a falta de médicos nas organizações sociais que administram a rede de atendimento, e não a falta de pagamento por parte da prefeitura. O jornal deixou em segundo plano a informação, crucial, de que em 2014 houve uma sobra de mais de R$ 100 milhões no orçamento específico porque as entidades reduziram o número de consultas, por falta de médicos.
Declarações de uma panela
Outro exemplo interessante é o que move a revista Época, que trocou sua diretoria recentemente, e inaugurou um estilo ainda mais panfletário na cruzada explícita contra o governo federal.
Na semana passada, a publicação da Editora Globo que veio a público no mesmo feriado do Dia do Trabalho havia levado a especulação jornalística ao extremo, na reportagem que tentava associar obras da empreiteira Odebrecht a uma suposta atuação do ex-presidente Lula da Silva como “lobista internacional”. O texto não sobreviveu a dois dias de esclarecimentos, quando a própria fonte citada pela revista, uma procuradora de Brasília, veio a público para declarar que não havia um processo contra o ex-presidente, como dizia a reportagem.
Mas a imprensa não descansa: na semana seguinte, os jornais reproduziam o que se dizia ser um trecho do livro de memórias ditado pelo ex-presidente do Uruguai José Mujica, que, segundo foi publicado, continha uma suposta confissão de Lula da Silva sobre o chamado “mensalão petista”, dizendo que a corrupção era a única forma de governar o Brasil.
A versão dos jornais brasileiros foi desmentida de pronto pelos autores do livro, dois jornalistas que haviam colhido os depoimentos de Mujica, revelando que quem escreveu a reportagem original, reproduzida depois por quase toda a imprensa brasileira, não havia lido o livro.
Assim como surgiu e cresceu como uma onda de repercussões, a mentira ainda sobrevive na segunda-feira (11), em nota na coluna de política do Globo, o que revela mais uma vez a homogeneidade da mídia tradicional.
Mas esses exemplos não conseguem superar a patética invenção da revista Época desta semana. Trata-se do perfil de uma panela, eleita “personagem da semana”, em um texto de ficção no qual o equipamento culinário entra em diálogo com o discurso proferido pelo ex-presidente Lula da Silva durante o programa eleitoral do Partido dos Trabalhadores.
A revista procura apresentar o instrumento de protestos como personagem político.
“Pleinpleinplein, tactactac, blimblimblim”, diz a panela.
“Descanse em paz”, diz a lápide no túmulo do jornalismo nacional.

sábado, 9 de maio de 2015

Espiritismo em video divertido: Obsessores e auto-obsessão




  Segue abaixo m divertido vídeo que fala sobre princípios do espiritismo. No caso, a questão do Obsessor espiritual e da falsa obsessão (ou auto-obsessão). Como questionam os elaboradores do vídeo, o Canal Amigos da Luz: Quem pode lhe fazer mais mal? Um obsessor externo ou você mesmo? Se há um espírito por perto, quem o atrai? Sem dúvida a obsessão é um transtorno real e penoso pros espíritos envolvidos, mas será que na maioria das vezes não somos nós mesmos a nos causar os maiores problemas, usando mal nosso próprio livre-arbítrio? Boas reflexões.


Armandinho e as distorções cognitivas provocadas pela religião (que, ao contrário da espiritualidade que liberta, escraviza)




A espiritualidade liberta, a religião, instituição humana, escraviza..... Como já izia Rubem Alves, "Deus nos deus asas para voar.... os homens, por sua vez, nos deram as gaiolas da religião"...