domingo, 23 de março de 2014

Os 50 anos do Golpe, das perseguições, das feridas ainda não curadas e do fascismo de direita



Golpes, perseguições, feridas e cicatrizes

Os camponeses que viviam ali, naquele sertão da Bahia, jamais haviam testemunhado tamanha barbárie. O que se passou dentro de casa foi um suplício familiar
por Thaís Barreto — publicado 23/03/2014 07:40

Preso político? O que é isso? Eu nasci em 1984 e devia ter uns 6 anos de idade quando escutei essa denominação em uma estranha conversa dos meus pais. Meu pai teve o cuidado de me convencer que eu não entenderia naquele momento. Guardei aquele dia como se fosse hoje e, aos poucos, a expressão ganhou contornos. Lembro de ter acompanhado diversos jornalistas indo entrevistá-lo lá naquele sertão, em Brotas de Macaúbas, na Bahia. Por que tantas entrevistas? Carlos Lamarca, José Campos Barreto (Zequinha), Iara Iavelberg, Otoniel Barreto, Luiz Antônio Santa Bárbara, quem eram essas pessoas?
A grande oportunidade para entender melhor veio quando eu tinha 9 anos, pois foi lançado o filme Lamarca dirigido por Sérgio Rezende com base no livro Lamarca: O Capitão da Guerrilha escrito pelos jornalistas Emiliano José e Oldack Miranda. Nas cenas do filme vizualizei um cenário de guerra no entorno e dentro da casa dos meus avós no povoado de Buriti Cristalino. Aqueles torturadores assassinos buscavam Lamarca e Zequinha. Um era capitão do Exército que recusou servir à ditadura saindo em 1969 e o segundo era um operário que esteve sob tortura do Dops de São Paulo por estar à frente da greve da Cobrasma, em 1968. Os dois passaram a viver na clandestinidade e suas vidas se cruzaram decisivamente.
Foram cassados como bichos para serem exterminados, e para isso o Exército brasileiro e toda sua estrutura civil-empresarial de colaboração armou a famigerada Operação Pajussara, liderada pelo então major Nilton Cerqueira e pelo delegado Sérgio Paranhos Fleury. Primeiro mataram Iara Iavelberg que havia fugido com Lamarca mas estava em Salvador no dia 20 de agosto de 1971. Outra equipe seguiu para localizar o paradeiro de Lamarca e Zequinha. Cercaram a casa no povoado de Buriti Cristalino fazendo todos que estavam dentro reféns no dia 28 de agosto de 1971. Jamais esquecerei a descrição que ouvi do meu pai, Olderico Campos Barreto, sobre a tortura que viveu. Arrancaram todas as suas unhas enquanto indagavam sobre o paradeiro de Lamarca e Zequinha. Ele não entregou nem essa nem nenhuma outra informação. Esse local foi um campo de concentração da ditadura brasileira que marcou a violência contra camponeses no Brasil. Há um documentário recente intitulado Do Buriti à Pintada: Zequinha e Lamarca na Bahia, que contém importantes depoimentos das vítimas da época inclusive das cidades vizinhas. A família Barreto abrigou o capitão em sua pequena propriedade pois este foi um dos homens respeitáveis do Exército que resolveu lutar ao lado de quem era alvo do plano de opressão e exclusão.
Os camponeses que ali viviam jamais haviam testemunhado tamanha barbárie. O que se passou dentro da casa foi um suplício familiar. Santa Bárbara que também estava escondido tombou com um tiro na cabeça dentro da casa. Meu avô, José de Araújo Barreto, de tanta tortura gritava. Otoniel, seu filho de 19 anos, ficou desesperado e chegou a atirar em um soldado (mas não acertou) para tentar encerrar aquela dor provocada no seu pai. Saiu correndo e foi alvejado. Caiu morto. Sérgio Paranhos Fleury disputou com os outros soldados a autoria da morte. Olderico foi torturado na frente de toda população. Levou tiros, teve seus ferimentos como ponto de tortura onde jogaram produtos químicos e o costuraram sem nenhuma anestesia. Ao menos no seu rosto e na sua mão posso tocar as cicatrizes. No dia 17 de setembro de 1971 Lamarca e Zequinha foram assassinados no povoado de Pintada que pertence ao município de Ipupiara. No local foi construído o Memorial dos Mártires onde se deseja sepultar os filhos da terra mortos pela ditadura. Se for desejo da família, os restos mortais de Lamarca também podem ser transferidos.
A ditadura fez vítimas e ela sempre renegará. Na Bahia, o coronelismo já configurava suficientemente um regime opressor, e 1964 veio apenas para intensificar as dificuldades de vida das populações isoladas ou esquecidas país afora. Adelaide Campos Barreto, conhecida como dona Nair, minha avó, para mim também foi vítima. Ela recebeu como um golpe a informação contida em um telegrama em julho de 1968 o qual dizia que Zequinha estava preso e sofrendo por participar da greve. A ferida resultou em um câncer de mama, e dona Nair faleceu em 1970. Soube depois pelo bispo dom Luiz Flávio Cappio que meu avô relatou que chegou a se ajoelhar no chão agradecendo a Deus por ela não ter presenciado tamanha violência naquela casa em 1971. Me perguntei: que dor é essa que foi provocada capaz de suplantar a dor que o próprio já carregava por ter se despedido tão cedo da sua esposa a quem tanto amou?
Neste ano de 2014 completarão 50 anos do golpe e há quem diga que tudo isso que passou com a minha família e tantas milhares de outras não merece sequer ser lembrado. Enquanto isso, aquelas cicatrizes que toco no rosto e na mão do meu pai simbolizam uma ferida que inevitavelmente se abriu em mim. Nunca consegui visitar o túmulo dos meus tios durante as idas no cemitério do Campo Santo em Salvador, onde foram enterrados, pois não há nenhuma identificação e os registros antigos não estavam lá. Os assassinos privaram a família de ter por perto os restos mortais dos entes queridos e os levaram. Meu pai estava preso e não lhe foi permitido acompanhar o enterro. Espero que a existência da Comissão Nacional da Verdade possa proporcionar a exumação dos corpos de Zequinha e Otoniel e os devolva para a família ao menos cultuar a lembrança desses exemplares brasileiros.
Na foto, Zequinha Barreto e Lamarca mortos (Crédito: Arquivo Nacional)

O Caso Dirceu e o Linchamento Midiático como arma das Elites para retomar o Poder



Seguem dois artigos sobre o mesmo tema: a grande mídia e seus interesses ligados aos interesses de uma classe restrita, mas tradicional, golpista e ciosa de sua superioridade sobre todos os demais brasileiros e mesmo sobre a democracia:




ABOMINÁVEL SILÊNCIO SOBRE O CASO JOSÉ DIRCEU




Por Breno Altman


Fonte: http://www.conversaafiada.com.br/brasil/2014/03/23/o-abominavel-silencio-sobre-o-jose-dirceu/


Um espectro ronda a vida institucional e jurídica do país, movimentando-se na calada da sociedade e do Estado.  Seus  contornos podem ser definidos por uma pergunta: a democracia comporta o linchamento midiático e processual como ferramenta para eliminar inimigos políticos?

A questão leva nome e sobrenome. Há mais de quatro meses o ex-ministro José Dirceu de Oliveira e Silva cumpre pena em regime fechado, mesmo tendo sido condenado ao cumprimento inicial em sistema semiaberto. O presidente do STF, com a cumplicidade do juiz encarregado da execução penal, pisoteia ou posterga decisões da própria corte.

Não importa, a esses senhores e seus aliados, que a essência da acusação contra o líder petista tenha sido esvaziada pela absolvição acerca da formação de quadrilha. Afinal, sentenciado sem provas materiais ou testemunhais, Dirceu teve sua culpa determinada por uma teoria que considerava suficiente a função que eventualmente exercera no comando de suposto bando criminoso, cuja existência não é mais reconhecida.

O grupo chefiado pelo ministro Joaquim Barbosa, no entanto, resolveu virar as costas para a soberania da instituição que preside. Sob pretexto de regalias e privilégios que jamais se comprovam, mas emergem como verdadeiros nas páginas de jornais e revistas, a José Dirceu se nega o mais comezinho dos direitos. Permanece preso de forma ilegal, dia após dia, em processo no qual a justiça se vê substituída pela vingança.

Há poucos paralelos na história posterior à redemocratização, revelando o poderio dos setores mais conservadores e autoritários quase três décadas depois de findada a ditadura dos generais. As irregularidades contra Dirceu, acima de problema humanitário, afetam pilares fundamentais do regime democrático e civilizado.



O mais triste e preocupante, porém, é a omissão do mundo político diante da barbaridade. Vozes representativas do Estado e da sociedade fazem opção pela abulia e a passividade, possivelmente, e de antemão, atemorizadas pela reação de alguns veículos de comunicação e o dano de imagem que poderiam provocar contra quem ousasse dissentir.

O protesto cresce entre cidadãos e ativistas, alcança o universo jurídico, recebe acolhida de alguns articulistas e chega a provocar certo nível de resposta nos partidos e organizações progressistas. Mas a ilegalidade, respaldada por boa parte da mídia tradicional, não é enfrentada à altura por autoridades governamentais e entidades cujo papel obrigatório na defesa dos direitos democráticos deveria impor outro comportamento.

O mutismo refugia-se em álibis como a independência entre poderes e o caráter terminal da sentença promulgada pelo STF. Como se o bem supremo a ser defendido não fosse a Constituição, mas o respeito ritualístico a uma instância na qual se formou maioria transitória a favor do arbítrio.

Outra camuflagem aparece sob a forma de abordagem unilateral ao que vem a ser liberdade de imprensa. Como se empresas jornalísticas estivessem acima das normas e do escrutínio da cidadania. Ou é aceitável que responsáveis pela coisa pública abdiquem da crítica frontal quando meios de comunicação violam conduta para destruir reputações e prerrogativas inscritas em lei?

Estes são, enfim, temas da democracia, não apenas da solidariedade a José Dirceu ou da jurisdição de petistas que lhe são leais. O silêncio sobre o caso é tão abominável quanto aquele que, no passado, franqueou decisões do STF entregando Olga Benário ao nazismo ou chancelando o golpe militar de 1964.

Breno Altman, 52, é diretor editorial do site Opera Mundi.


LEITURAS DE ‘VEJA’

Novo surto de vale-tudo


Por Alberto Dines em 18/03/2014 na edição 790
Na tarde de 12 de abril de 2011, em aula da primeira edição do Curso de Pós-Graduação em Jornalismo, da ESPM-SP, Eurípedes Alcântara, diretor de Redação da Veja, na condição de professor-convidado, declarou, para espanto dos 35 alunos presentes: “Tratamos o governo Lula como um governo de exceção”. Na capa da última edição do semanário (nº 2365, de 19/3/2014), o jornalista ofereceu trepidante exemplo da sua doutrina.
Para comprovar a ilegalidade das regalias que gozaria o ex-ministro José Dirceu no Complexo da Papuda,Veja cometeu ilegalidade ainda maior. Detentos não podem ser fotografados ou constrangidos, o ato configura abuso de poder, invasão da privacidade e, principalmente, um torpe atentado ao pudor e à ética jornalística. Um bom advogado poderia até incriminar os responsáveis por formação de quadrilha ao confirmar-se que o autor da peça (o editor Rodrigo Rangel) não entrou na penitenciária e que alguém pagou uma boa grana aos funcionários pelas fotos e as, digamos, “informações”.
“Exclusivo – José Dirceu, a Vida na Cadeia” não é reportagem, é pura cascata: altas doses de rancor combinadas a igual quantidade de velhacaria em oito páginas artificialmente esticadas e marombadas. As duas únicas fotos de Dirceu (na capa e na abertura), feitas certamente com microcâmera, não comprovam regalia alguma.
Ao contrário: magro, rosto vincado, fortes olheiras, cabelo aparado, de branco como exige o regulamento carcerário, não parece um privilegiado. Se as picanhas, peixadas e hambúrgueres do McDonald’s supostamente servidos ao detento foram reais, Dirceu estaria reluzente, redondo, corado. Um preso em regime semiaberto pode frequentar a biblioteca do presídio, não há crime algum.
Agentes provocadores
A grande imprensa desta vez não deu cobertura ao semanário como era habitual. Constrangido, o Estado de S.Paulo foi na direção contrária e já no domingo (16/3) relatava, com chamada na primeira página, as providências das autoridades brasilienses para descobrir os cúmplices do vazamento (ver “Dirceu teria mais regalias na cadeia; DF nega“). Na segunda-feira, na Folha de S.Paulo, Ricardo Melo lavou a alma dos jornalistas que repudiam este jornalismo marrom-escuro (ver “O linchamento de José Dirceu”).
O objetivo da cascata não era linchar Dirceu, o que se pretendia era acirrar os ânimos, insuflar indignações contra uma suposta impunidade, alimentar a agenda dos black-blocks (ou green-blocks?).
Os agitadores e agentes provocadores estão excitadíssimos às vésperas dos 50 anos do golpe militar. O violento quebra-quebra na sexta-feira (14/3), na Companhia de Entrepostos e Armazéns Gerais de São Paulo (Ceagesp) – o maior do gênero na América Latina – não foi provocado pelos caminhoneiros que passariam a pagar pelo estacionamento. Foi obra de profissionais do ramo da agitação política com a inestimável ajuda da PM, que demorou três horas para chegar ao campo de batalha.
As convocações para atos e passeatas destinadas a homenagear o golpe de 1964 não falam na derrubada de Jango, falam em derrotar o PT. Convém lembrar que a rede Ceagesp é, desde 1997, federalizada, ligada ao Ministério da Agricultura.
Num governo de exceção vale tudo. Também no jornalismo de exceção.
***
Depois de três edições e três turmas de valentes profissionais, o Curso de Pós-Graduação em Jornalismo com Ênfase em Direção Editorial, parceria da Editora Abril com a ESPM, foi suspenso. Na véspera do primeiro aniversário da morte de Roberto Civita, está desativada uma de suas mais lindas façanhas no campo da formação profissional. Não merecia. 

sábado, 22 de março de 2014

Fotos do Fracasso da Marcha da Família Alienada Coxinha pelo Brasil

Algumas fotos do "sucesso" Histórico da Marcha da Família Coxinha, a farsa, 50 anos depois da primeira e com o mesmo propósito antidemocrático de retroceder o Brasil e apelar para a volta da Ditadura Assassina:

1º A Multidão "Marchando" em Floripa (e parando o tráfego):


2º A Imensidão da "Marcha" em Pernambuco (sem o apoio de Deus):


3º Os sete "esclarecidos" que participaram da "Marcha da Família" Alternativa no Ibirapuera, São Paulo, marchando para entregar uma apelo aos militares pela volta do Golpe:


4º Uma Multidão Incalculável de nove pessoas apelando-se enfaticamente pela volta dos Militares em Natal, Rio Grande do Norte:


5º Em Belo Horizonte o número de 50 "iluminados" Machadores  que, praticamente, fizeram tremer o chão :




E, agora, a comparação da Macha da Família  na sua origem, no Centro de São Paulo, com suas, talvez (numa super estimativa), 700 pessoas (sendo a maioria PMs e jornalistas. Segundo o G1, o Centro de Operações da PM contabilizou, entre os manifestantes reais, meros 500 exaltados, sendo quatro deles presos), com os mais de dois mil participantes da Marcha Anti-Fascista, também efetuada em São Paulo e contra a manifestação retrô do das "Famílias" que acham que Deus apoiaria uma nova ditadura, como se as feridas e torturas da anterior ainda não devessem ser tratadas:



Encerrando, o resumo da "Ópera Bufa", ou da Marcha da Família Alienada, na excelente comparação do comentarista político Bob Fernandes. Após a foto, reflexões do jornalista Mauro Donato, que acompanhou a movimentação "esclarecida" e "equilibrada" dos coxinhas no local, sobre o surrealismo da segunda edição da "Marcha":


Vejamos o comentário de Bob Fernandes sobre o fracasso da "Marcha" e, de quebra, a espetacularização da mídia do caso Pasadena-Petrobras para uso político da direita:




 E, agora, avaliação de Mauro Donato sobre a Marcha do fascismo com o nazismo:

A Marcha da Família em São Paulo foi o encontro das senhoras de Santana com os skinheads

"Ou pensa igual a mim ou lhe quebro a cara"
Texto de Mauro Donato



Enfim, não é uma lenda urbana. Eles existem. E não são 500, como emissoras de TV disseram. O final da Marcha da Família com Deus na Praça da Sé tinha cerca de mil integrantes ou mais. O que, se não é muito, também não é pouco.
Trata-se de um pessoal que tem uma visão no mínimo exótica sobre como se toca uma nação. Fiquei a me perguntar se com suas empresas alguns deles agiriam da seguinte maneira: “Bom, os negócios não vão bem. Chamem o pessoal da segurança e vamos colocar a administração nas mãos deles.” É essa a brilhante ideia?
Pois foi unânime o pedido de intervenção militar já. E demais pautas típicas. Contra a corrupção, fora PT, fora Dilma, Lula na cadeia, cadeira elétrica aos mensaleiros.
Que quem é contra deve ir para Cuba ou Venezuela. É o “ame-o ou deixe-o” reeditado.
Senhoras, senhores, representantes da maçonaria, da igreja católica, skinheads e integralistas. Caras pintadas e roupas verde-amarelas. Discursos inflamados a respeito da existência de um grande complô comunista em andamento. Faixas em apoio à manutenção da militarização das polícias. Hino nacional na concentração e durante todo o trajeto.
Mas nem tudo é paz para a família e seus deuses.
Desde o início, na Praça da República, abordagens altamente intimidadoras contra quem estivesse de camiseta vermelha ou preta terminavam em conflito. A polícia precisou agir várias vezes e retirar o “estranho no ninho” que, cercado, ouvia os gritos de “Fala agora que a polícia não protege, comuna filho da puta.”
Conflitos que durante o trajeto ganharam contornos ainda mais sinistros. A família tem tolerância zero. Em frente à faculdade de direito no Largo São Francisco, uma dupla de amigos encenou um apoio à causa gay. Foram agredidos a pontapés e tiveram seus cartazes rasgados. A agressão só não terminou em algo pior devido à proteção da imprensa.
Mas na Sé outras brigas, feridos e pelo menos uma detenção evidenciaram o enorme desrespeito pelas diferenças. “Ou pensa igual a mim ou lhe quebro a cara.” No Anhangabaú, um grupo de fãs do Metallica a caminho do show foi confundido com black blocs (roqueiros vestem-se de preto, filhos de família não). Foi preciso muita gritaria para que não fossem linchados.
Não ocorreu o aguardado confronto entre as duas manifestações (uma antifascista havia saído da mesma Sé, mas rumou em outro sentido). Sorte. A “segurança” da Marcha da Família estava com sangue nos olhos. Os mastros das bandeiras eram de ferro.
A todo instante os carecas criavam uma tensão no ar com boatos sobre o iminente confronto com black blocs que estariam a caminho. Por fim, simularam estar indo embora mas foram acompanhados de perto por 4 ou 5 jornalistas. Dentro do vagão, um contínuo cochichar entre eles deixou passageiros temerosos. Em determinado momento, tomaram conta de todas as portas e saíram apenas durante o sinal sonoro, permanecendo ainda em frente na plataforma para que não mais os acompanhássemos. Estava nítido que não estavam indo embora, a caça aos black blocs iria prosseguir sem a presença da imprensa.
Em 1964, quinhentas mil pessoas fizeram exatamente o mesmo trajeto da praça da República até a Sé e, poucos dias depois, deu no que deu.
Desta vez foi modesto, porém ocorreu em várias cidades do país e tem um agravante para os dias atuais: eles também saíram do Facebook.


O Moralismo Hipócrita e Capenga dos Agentes da Ditadura




O Artigo abaixo foi extraído da Revista de História.com.br


Moralismo capenga

O combate à corrupção foi palavra de ordem durante a ditadura. Nos porões do regime, porém, a ilegalidade prevaleceu.

Heloisa Maria Murgel Starling

Combater a corrupção e derrotar o comunismo: esses eram os principais objetivos que fermentavam os discursos nos quartéis, às vésperas do golpe que derrubou o governo João Goulart, em março de 1964. A noção de corrupção dos militares sempre esteve identificada com uma desonestidade específica: o mau trato do dinheiro público. Reduzia-se a furto. Na perspectiva da caserna, corrupção era resultado dos vícios produzidos por uma vida política de baixa qualidade moral e vinha associada, às vésperas do golpe, ao comportamento viciado dos políticos diretamente vinculados ao regime nacional-desenvolvimentista. 

Animado por essa lógica, tão logo iniciou seu governo, o marechal Castello Branco (1964-1967) prometeu dar ampla divulgação às provas de corrupção do regime anterior por meio de um livro branco da corrupção – promessa nunca cumprida, certamente porque seria preciso admitir o envolvimento de militares nos episódios relatados. Desde o início o regime militar fracassou no combate à corrupção, o que se deve em grande parte a uma visão estritamente moral da corrupção. 

Essa redução do político ao que ele não é – a moral individual, a alternativa salvacionista – definiu o desastre da estratégia de combate à corrupção do regime militar brasileiro, ao mesmo tempo em que determinou o comportamento público de boa parte de seus principais líderes, preocupados em valorizar ao extremo algo chamado de decência pessoal. 

Os resultados da moralidade privada dos generais foram insignificantes para a vida pública do país. O regime militar conviveu tanto com os corruptos, e com sua disposição de fazer parte do governo, quanto com a face mais exibida da corrupção, que compôs a lista dos grandes escândalos de ladroagem da ditadura. Entre muitos outros estão a operação Capemi (Caixa de Pecúlio dos Militares), que ganhou concorrência suspeita para a exploração de madeira no Pará, e os desvios de verba na construção da ponte Rio–Niterói e da Rodovia Transamazônica. Castello Branco descobriu depressa que esconjurar a corrupção era fácil; prender corrupto era outra conversa: “o problema mais grave do Brasil não é a subversão. É a corrupção, muito mais difícil de caracterizar, punir e erradicar”.

A declaração de Castello foi feita meses depois de iniciados os trabalhos da Comissão Geral de Investigações. Projetada logo após o golpe, a CGI conduzia os Inquéritos Policiais-Militares que deveriam identificar o envolvimento dos acusados em atividades de subversão da ordem ou de corrupção. Com jurisdição em todo o território nacional, seus processos obedeciam a rito sumário e seus membros eram recrutados entre os oficiais radicais da Marinha e da Aeronáutica que buscavam utilizar a CGI para construir uma base de poder própria e paralela à Presidência da República. 

O Ato Institucional n.º 5, editado em 13 de dezembro de 1968, deu início ao período mais violento e repressivo do regime ditatorial brasileiro – e, de quebra, ampliou o alcance dos mecanismos instituídos pelos militares para defender a moralidade pública. Uma nova CGI foi gerada no âmbito do Ministério da Justiça com a tarefa de realizar investigações e abrir inquéritos para fazer cumprir o estabelecido pelo Artigo 8º. do AI-5, em que o presidente da República passava a poder confiscar bens de “todos quantos tenham enriquecido, ilicitamente, no exercício de cargo ou função pública”.

Para agir contra a corrupção e dar conta da moralidade pública, os militares trabalharam tanto com a natureza ditatorial do regime como com a vantagem fornecida pela legislação punitiva. Deu em nada. Desde 1968 até 1978, quando foi extinta pelo general Geisel, a CGI mancou das duas pernas. Seus integrantes alimentaram a arrogante certeza de que podiam impedir qualquer forma de rapinagem do dinheiro público, através da mera intimidação, convocando os cidadãos tidos como larápios potenciais para esclarecimentos. 

A CGI atribuiu-se ainda a megalomaníaca tarefa de transformar o combate à corrupção numa rede nacional, atuando ao mesmo tempo como um tribunal administrativo especial e como uma agência de investigação e informação. Acabou submergindo na própria mediocridade, enredada em uma área de atuação muito ampla que incluía investigar, por exemplo, o atraso dos salários das professoras municipais de São José do Mipibu, no Rio Grande do Norte; a compra de adubo superfaturado pela Secretaria de Agricultura de Minas Gerais e as acusações de irregularidades na Federação Baiana de Futebol. Entre 1968 e 1973 os integrantes da comissão produziram cerca de 1.153 processos. Desse conjunto, mil foram arquivados; 58 transformados em propostas de confisco de bens por enriquecimento ilícito, e 41 foram alvo de decreto presidencial.

Mas o fracasso do combate à corrupção não deve ser creditado exclusivamente aos desacertos da Comissão Geral de Investigações ou à recusa de membros da nova ordem política em pagar o preço da moralidade pública. A corrupção não poupou a ditadura militar brasileira porque estava representada na própria natureza desse regime. Estava inscrita em sua estrutura de poder e no princípio de funcionamento de seu governo. Numa ditadura onde a lei degradou em arbítrio e o corpo político foi esvaziado de seu significado público, não cabia regra capaz de impedir a desmedida: havia privilégios, apropriação privada do que seria o bem público, impunidade e excessos. 

A corrupção se inscreve na natureza do regime militar também na sua associação com a tortura – o máximo de corrupção de nossa natureza humana. A prática da tortura política não foi fruto das ações incidentais de personalidades desequilibradas, e nessa constatação reside o escândalo e a dor. A existência da tortura não surgiu na história desse regime nem como algo que escapou ao controle, nem como efeito não controlado de uma guerra que se desenrolou apenas nos porões da ditadura, em momentos restritos. 

Ao se materializar sob a forma de política de Estado durante a ditadura, em especial entre 1969 e 1977, a tortura se tornou inseparável da corrupção. Uma se sustentava na outra. O regime militar elevou o torturador à condição de intocável: promoções convencionais, gratificações salariais e até recompensa pública foram garantidas aos integrantes do aparelho de repressão política. Caso exemplar: a concessão da Medalha do Pacificador ao delegado Sérgio Paranhos Fleury (1933-1979). 

A corrupção garantiu a passagem da tortura quando esta precisou transbordar para outras áreas da atividade pública, de modo a obter cumplicidade e legitimar seus resultados. Para a tortura funcionar é preciso que na máquina judiciária existam aqueles que reconheçam como legais e verossímeis processos absurdos, confissões renegadas, laudos periciais mentirosos. Também é necessário encontrar gente disposta a fraudar autópsias, autos de corpo de delito e a receber presos marcados pela violência física. É preciso, ainda, descobrir empresários dispostos a fornecer dotações extra-orçamentárias para que a máquina de repressão política funcione com maior precisão e eficácia.

A corrupção quebra o princípio da confiança, o elo que permite ao cidadão se associar para interferir na vida de seu país, e ainda degrada o sentido do público. Por conta disso, nas ditaduras, a corrupção tem funcionalidade: serve para garantir a dissipação da vida pública. Nas democracias – e diante da República – seu efeito é outro: serve para dissolver os princípios políticos que sustentam as condições para o exercício da virtude do cidadão. O regime militar brasileiro fracassou no combate à corrupção por uma razão simples – só há um remédio contra a corrupção: mais democracia.

Heloisa Maria Murgel Starling é professora de História da Universidade Federal de Minas Gerais e co-autora de Corrupção: ensaios e críticas (Editora da UFMG, 2008).

Saiba Mais - Bibliografia: 

FICO, Carlos. Como eles agiam: os subterrâneos da ditadura militar. Rio de Janeiro: Record, 2001.

GASPARI, Elio. Coleção As Ilusões Armadas. São Paulo: Companhia das Letras, 2002.

RIBEIRO, Renato Janine. A sociedade contra o social: o alto custo da vida pública no Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 2000.

A Marcha da Família Coxinha Golpista junto com o Diabo da Alienação



Marcha da Família Primitiva pelo Retrocesso:



Marcha das Elites Conservadoras pela volta da Tradição dos 500 anos de Exploração:






sexta-feira, 21 de março de 2014

A Corte Interamericana de Direitos Humanos da OEA Condena mais uma vez o Brasil pelos crimes da Ditadura Militar



E agora, Brasil?

Fábio Konder Comparato


   A Corte Interamericana de Direitos Humanos acaba de decidir que o Brasil descumpriu duas vezes a Convenção Americana de Direitos Humanos. Em primeiro lugar, por não haver processado e julgado os autores dos crimes de homicídio e ocultação de cadáver de mais 60 pessoas, na chamada Guerrilha do Araguaia. Em segundo lugar, pelo fato de o nosso Supremo Tribunal Federal haver interpretado a lei de anistia de 1979 como tendo apagado os crimes de homicídio, tortura e estupro de oponentes políticos, a maior parte deles quando já presos pelas autoridades policiais e militares.

   O Estado brasileiro foi, em consequência, condenado a indenizar os familiares dos mortos e desaparecidos.

   Além dessa condenação jurídica explícita, porém, o acórdão da Corte Interamericana de Direitos Humanos contém uma condenação moral implícita.

    Com efeito, responsáveis morais por essa condenação judicial, ignominiosa para o país, foram os grupos oligárquicos que dominam a vida nacional, notadamente os empresários que apoiaram o golpe de Estado de 1964 e financiaram a articulação do sistema repressivo durante duas décadas. Foram também eles que, controlando os grandes veículos de imprensa, rádio e televisão do país, manifestaram-se a favor da anistia aos assassinos, torturadores e estupradores do regime militar. O próprio autor destas linhas, quando ousou criticar um editorial da Folha de S.Paulo, por haver afirmado que a nossa ditadura fora uma “ditabranda”, foi impunemente qualificado de “cínico e mentiroso” pelo diretor de redação do jornal.

   Mas a condenação moral do veredicto pronunciado pela Corte Interamericana de Direitos Humanos atingiu também, e lamentavelmente, o atual governo federal, a começar pelo seu chefe, o presidente da República.

   Explico-me. A Lei Complementar nº 73, de 1993, que regulamenta a Advocacia-Geral da União, determina, em seu art. 3º, § 1º, que o Advogado-Geral da União é “submetido à direta, pessoal e imediata supervisão” do presidente da República. Pois bem, o presidente Lula deu instruções diretas, pessoais e imediatas ao então Advogado-Geral da União, hoje Ministro do Supremo Tribunal Federal, para se pronunciar contra a demanda ajuizada pela OAB junto ao Supremo Tribunal Federal (argüição de descumprimento de preceito fundamental nº 153), no sentido de interpretar a lei de anistia de 1979, como não abrangente dos crimes comuns cometidos pelos agentes públicos, policiais e militares, contra os oponentes políticos ao regime militar.

   Mas a condenação moral vai ainda mais além. Ela atinge, em cheio, o Supremo Tribunal Federal e a Procuradoria-Geral da República, que se pronunciaram claramente contra o sistema internacional de direitos humanos, ao qual o Brasil deve submeter-se.

   E agora, Brasil?

   Bem, antes de mais nada, é preciso dizer que se o nosso país não acatar a decisão da Corte Interamericana de Direitos Humanos, ele ficará como um Estado fora-da-lei no plano internacional.

    E como acatar essa decisão condenatória?

    Não basta pagar as indenizações determinadas pelo acórdão. É indispensável dar cumprimento ao art. 37, § 6º da Constituição Federal, que obriga o Estado, quando condenado a indenizar alguém por culpa de agente público, a promover de imediato uma ação regressiva contra o causador do dano. E isto, pela boa e simples razão de que toda indenização paga pelo Estado provém de recursos públicos, vale dizer, é feita com dinheiro do povo.

   É preciso, também, tal como fizeram todos os países do Cone Sul da América Latina, resolver o problema da anistia mal concedida. Nesse particular, o futuro governo federal poderia utilizar-se do projeto de lei apresentado pela Deputada Luciana Genro à Câmara dos Deputados, dando à Lei nº 6.683 a interpretação que o Supremo Tribunal Federal recusou-se a dar: ou seja, excluindo da anistia os assassinos e torturadores de presos políticos. Tradicionalmente, a interpretação autêntica de uma lei é dada pelo próprio Poder Legislativo.

   Mas, sobretudo, o que falta e sempre faltou neste país, é abrir de par em par, às novas gerações, as portas do nosso porão histórico, onde escondemos todos os horrores cometidos impunemente pelas nossas classes dirigentes; a começar pela escravidão, durante mais de três séculos, de milhões de africanos e afrodescendentes.

   Viva o Povo Brasileiro!

O recado de Deus para a Marcha da Família Coxinha a favor do Golpe Militar




terça-feira, 18 de março de 2014

Bob Fernandes, em vídeo, analisa a imbecilidade da "Marcha da Família Alienada" e os extremismos na internet




     Clique no Vídeo acima para assistir ao comentário de Bob Fernandes sobre a farsa da segunda edição, próximo dia 22, da "Marcha da Família 'com Deus' " e o avanço da imbecilidade, muitas vezes encoberta por um anonimato covarde, nas redes sociais da internet. O comentário de Bob Fernandes está transcrito abaixo:

"Marcha da Família Alienada" é ópera bufa
Daqui duas semanas, os 50 anos do golpe militar que enterrou o Brasil numa ditadura de 21 anos.  
Num país em que 55 milhões de pessoas usam internet há espaço para dizer e acreditar no que se quiser.
Mesmo que seja algo sem pé e, principalmente, sem cabeça. Há quem, no próximo sábado, pretenda reeditar em 200 cidades a "Marcha da Família com Deus".
Em 64, tal "Marcha" foi uma das muitas senhas para o golpe e a instalação da ditadura. 
Por ser democrática, a internet permite que nas redes sociais trafegue, também, muita desinformação. Muita mentira. E uma burrice que galopa. 
A Folha de S. Paulo cita uma organizadora da "Marcha" de agora, Cristiana Peviani, 51 anos. A senhora Peviani resume e simboliza essa ópera bufa.  
A nova marchadora diz "não saber" se houve tortura na ditadura. E comete uma frase que escancara até onde pode chegar o ignorar e a incapacidade para cognição. Disse ela:
-O pessoal que diz que foi torturado está tão forte, tão gordo, tão bonito. Eu vi lá na Comissão (da Verdade, de São Paulo) que eles não tinham nem uma marquinha...
"Marquinha" de tortura. E isso na semana em que se noticiou: depois de torturado e morto, os restos mortais de Rubens Paiva teriam sido desenterrados e jogados no mar. 
Com a senhora Peviani estão, por ora, umas 3 mil pessoas. Todas marchando... no facebook. Elas creem, ou dizem crer, que há um "golpe comunista" sendo planejado no Brasil.  
Desinformação, mentira, má fé ou incapacidade de raciocínio: isso, é claro, pode ser encontrado em todo o espectro da política e do debate político.  
Nas redes sociais, mais do que crítica política, Aécio Neves tem sido vítima de ataques dirigidos à sua pessoa.  
Aécio erra se tentar interditar posts na internet. Erro tático, por não ser possível "apagar" milhares de posts; e a notícia sobre a ação multiplica ainda mais o boato.   
Mas é obrigatório dizer: quem espalha boato que não se pode provar como fato comete crime de difamação e injúria. É o caso de boa parte dos ataques contra Aécio.  
Muitos dos que espalham boatos contra Aécio se revoltam quando a boataria mentirosa é contra, por exemplo, Lula e sua família, e outros. Isso não é política, é esgoto. 
Lula e família têm acionado detratores na justiça, e é lá que eles devem pagar. O mesmo deve fazer Aécio Neves. 
Assim como a liberdade é uma característica das redes sociais, também o é o anonimato covarde. E esse lixo costuma preencher o vácuo, onde não há ideias.  
Mentiras, má fé, o ignorar e a incapacidade de pensar. Dessa alquimia brotam marchadoras e marchadores. E essa ridícula tentativa de reeditar a "Marcha da Família Alienada..."


domingo, 16 de março de 2014

A nova e farsante edição da "Marcha da Família com Deus pela Liberdade", tal qual a primeira, revela a faceta hipócrita e autoritária de uma parte pífia da sociedade


Carlos Antonio Fragoso Guimarães


    A primeira "Marcha da Família" foi uma reação de uma elite conservadora que não via com bons olhos as propostas progressistas do Presidente João Goulart, expressas no Comício da Central do Brasil do dia 13 de março de 1964. Instigados por vários setores reacionários e grupos conservadores, entre eles o Ipes (Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais), financiando pelos EUA, a direita se organizou para fazer uma Marcha conservadora de protesto a Jango, embora o grosso da população visse com bons olhos a proposta do presidente.

    Os quarteis, já há anos conspirando contra a democracia e os presidentes Vargas e JK até chegar a Jango, com incentivo e apoio dos Estados Unidos que não viam Jango com bons olhos, viram na tal "Marcha com Deus" o pretexto para lançar um Golpe Militar que lançaria o Brasil em 21 anos de Ditadura, com consequências funestas até hoje.

   Agora, 50 anos depois, embora o mundo e o Brasil tenham mudado, o mesmo ranço autoritário, imbecilizante e elitista que só aceita a democracia quando esta funcione em acordo com seus interesses, com o apoio de uma mídia empresarial golpista, quer reeditar uma nova edição da Marcha, mesmo sabendo que muito mais que metade da população é a favor do governo democrático e legitimamente eleito de Dilma Roussef.

   A proposta de alguns dos extremistas desta segunda edição é de uma nova intervenção militara golpista, e de outros, uma tentativa de enfraquecer a força eleitoral do PT, buscando uma chance de um segundo turno nas eleições de 2014. De qualquer modo, é chocante que a história que, na primeira vez, se transformou em tragédia, agora seja uma farsa perigosa calcado em uma mentalidade tacanha, apoiada pelo pior da sociedade, indo dos fundamentalistas evangélicos pentecostais a ultra-direitistas pró-fascismo.

  É interessante notar que uma das "cabeças" responsáveis pela criação da segunda edição da "Marcha", Bruno Toscano Franco, que a Folha de São Paulo (que apoiou vivamente a primeira Marcha e a derrubada de Jango) destacou em uma matéria publicada ainda hoje, seja reconhecido nas redes sociais pelas ameaças que faz a quem for de esquerda ou simplesmente seja a favor do governo, ameças que vão da morte ao incentivo ao uso de bombas e armas contra o que ele chama de "ditadura comunista" (além de ameaçar igualmente nordestinos, homossexuais, críticos da direita e da ditadura, ou seja, apresentar todos os sintomas, por ignorância, má-fé, deformação ou convicção, que são característicos de sociopatia fascista). Bruno Toscano Franco, o ameaçador da internet alçado a cidadão contrariado pela Folha, responde à processo junto à 1ª Vara Criminal de São Paulo, processo  de nº00006262820148140401 (clique no número para conferir).

  Outro  "exemplo" que também aparece como apoiador da farsa da nova "Marcha" é o já conhecido Maycon Freitas, aquele mesmo dublê da Globo, que a Veja alçou a herói da direita ano passado, nas manifestações de julho, como símbolo da juventude "esclarecida", mas que logo foi desmascarado como um factoide fabricado pela - há muito - não confiável revista dos Civitas.
    
  Veja-se mais sobre os cabeças da "Marcha",  Bruno e Maycon, o artigo esclarecedor de Miguel do Rosário intitulado "O que a Folha não deu sobre os organizadores da nova Marcha da Família". Veja o que a "cabeça organizadora da Marcha" fala dos nordestinos:




Os militares brasileiros insuflados pelo Governo Americano na década de 60: O Golpe que Durou 21 Tristes Anos



  Talvez você não saiba quem foi Lincoln Gordon, mas com certeza os frutos de sua ação recaem - sem que você tenha consciência - sobre você: ele era o embaixador norte-americano que, junto com o adido militar Coronel Vernon Walters, arquitetou e executou, com total incentivo e apoio da Casa Branca, o fétido Golpe Militar de 1 º de abril de 1964, pelos golpistas chamado de "revolução" - não sem boa dose de ironia, ocorrido no famoso dia da mentira.

 Com base em documentos oficiais do governo Norte-Americano, liberados recentemente, e enriquecido com uma série de entrevistas com brasilianistas americanos e gravações reais de John Kennedy e Lyndon Johnson, bem como com golpistas brasileiros, civis e militares, incluindo farto material de imagens com a participação de historiadores nacionais e estrangeiros entrevistados - e mesmo militares perseguidos pelos próprios colegas golpistas por não concordarem com o atentando armado à democracia de então, como foi o caso do herói aviador Rui Moreira Lima - o documentário de Camilo Tavares, O Dia que durou 21 Anos!, desnuda e apresenta de forma direta e objetiva todo o complô conspiratório para salvaguardar os interesses dos poderosos de Washington para, mesmerizando as elites e a ala das forças armadas mais conservadoras e reacionárias, destruir a democracia brasileira em nome da defesa dos interesses econômicos yankees, sob o pretexto paranoico da "ameaça comunista".

 Sobre este esplêndido documentário, segue a análise de Mário Magalhães, escrito para a revista Bravo!, edição de abril de 2013:

O presidente John Kennedy (à esq.), ao lado de Lincoln Gordon, embaixador dos Estados Unidos no Brasil. O diplomata recebeu sinal verde para agir contra Jango

 Em dezembro de 1977, o menino Camilo Tavares carregou feliz o bolo com que festejaria 6 anos de vida, por mais insólito que fosse o lugar onde seu pai o esperava para comemorar, um cárcere político de Montevidéu. O exilado brasileiro Flávio Tavares não tinha escolha: estava preso na capital uruguaia desde que agentes da ditadura local o haviam sequestrado, cinco meses antes.
 Pai e filho celebraram, mas sem vela nem bolo, retido na entrada da penitenciária por suspeita de esconder alguma arma ou mensagem. Camilo não se esqueceu do suco de laranja que Flávio lhe serviu e guardou para sempre a imagem do bolo proibido branco, de creme.
 Poucas semanas atrás, o jornalista Flávio se surpreendeu ao ouvir, de uma terceira pessoa, que o tempo não apagara essa passagem cinzenta da lembrança do hoje cineasta Camilo, o antigo garoto magro, de covinha no queixo e cabelo encaracolado, muito parecido com o quarentão elegante em que se transformou. Os dois nunca conversaram sobre a festa de aniversário improvisada na cadeia, de onde o pai foi libertado logo depois.
 O Dia que Durou 21 Anos!longa-metragem de estreia de Camilo Tavares, brotou de sua “vontade de saber por que na infância tinha presenciado episódios tão malucos, que não entendia”. Em outras palavras, “por que não voltava para casa”.
Nascido no México em 1971, o garoto não podia desembarcar na terra de seus pais devido aos tais “episódios tão malucos”, desencadeados com o golpe de Estado que derrubara o governo constitucional do presidente João Goulart, o Jango, no dia 1º de abril de 1964. Só veio para o Brasil aos 12 anos.
 O documentário foi concebido para contar a história de Flávio Tavares, com base em livros que ele mesmo escreveu, como Memórias do Esquecimento. Suas crônicas literárias reconstituem a trajetória acidentada do gaúcho militante de esquerda que encarou a ditadura, tornou-se guerrilheiro urbano, foi preso quatro vezes e padeceu em sessões de tortura.
  Reviravolta
 Ao se deparar com a fabulosa documentação sobre a deposição de Goulart, que os Estados Unidos vêm liberando ao público desde os anos 70, Camilo mudou de planos. E focou sua lente na participação norte-americana no consórcio conspirativo que mais influenciou o Brasil no século 20, instaurando a ditadura, que se estenderia de 1964 a 1985, os 21 anos do título do filme.
 A matéria-prima recolhida por Camilo justifica a reviravolta em seu projeto de quatro anos e a autópsia filmada da grande conspiração. O diretor se beneficiou de três pacotes volumosos, com divulgação autorizada pelos Estados Unidos: o garimpado pelo repórter Marcos Sá Corrêa, condensado no livro 1964 Visto e Comentado pela Casa Branca, de 1977, as gravações sonoras liberadas ao público em 1999 pela Biblioteca Presidencial Lyndon Baines Johnson, e os papéis e áudios difundidos em 2004 pela organização não governamental The National Security Archive.


 Cartazes pró-Jango durante o comício da Central do Brasil, no Rio de Janeiro, dias antes do Golpe de primeiro de abril de 64
 O acervo já configurava um tesouro histórico, mas o cineasta buscou mais informações nas bibliotecas que conservam a memória de dois presidentes norte-americanos – John Kennedy (1961-1963) e Lyndon Johnson (1963-1969) – e em emissoras de televisão dos Estados Unidos.
 Em 1960, João Goulart havia sido eleito vice, mas ascendeu a presidente da República com a tresloucada renúncia de Jânio Quadros no ano seguinte. Para assumir, derrotou um complô da cúpula das Forças Armadas, que o fustigava como sócio do comunismo, a despeito de ele ser um abonado estancieiro. O preço de um acordo foi aceitar a redução de poderes, com a introdução de um arremedo de parlamentarismo. Em janeiro de 1963, uma votação consagradora em plebiscito restabeleceu o presidencialismo e referendou indiretamente Goulart.
 O Dia que Durou 21 Anos! apresenta o inventário das frentes golpistas – empresarial e civil, política e militar – que confluíram em 1964, desgostosas com o rumo à esquerda tomado por Jango e apoiadas com entusiasmo pelas classes médias. Todas articuladas com a Casa Branca, cujo operador mais notório era Lincoln Gordon, embaixador no Brasil de 1961 a 1966 e ex-professor de Harvard. Em um diálogo entre Gordon e o presidente Kennedy, em 1962, o diplomata recebe sinal verde para agir contra Goulart, como testemunha um áudio da reunião em Washington.
Os EUA financiaram candidatos de oposição em eleições e cruzadas de propaganda contra o Planalto. No filme, o historiador James Green, da Brown University, compara: “Imagine se o governo brasileiro tivesse financiado Barack Obama, tivesse gasto 30 milhões de dólares na campanha (contra os republicanos)... Imagine o escândalo”.
 Thriller Político
 Não é só Green que se pronuncia em inglês, o idioma mais falado no filme, com protagonistas norte-americanos. Numa conversa telefônica em 31 de março de 1964, o presidente Lyndon Johnson e o subsecretário de Estado, George Ball, combinam o envio imediato de uma força naval para respaldar os golpistas no Brasil – zarpava a Operação Brother Sam.
 Em outra gravação, Johnson tratou com ­McGeorge Bundy, então seu conselheiro de Segurança Nacional, do reconhecimento diplomático do novo governo. Bundy disse que o embaixador Gordon desejava que fosse “muito caloroso”, enquanto os conselheiros em Washington preferiam “um pouco cauteloso”, pois os militares brasileiros estavam prendendo cidadãos. “Acho que tem gente que precisa ir em cana aqui e lá também”, retrucou o presidente, decidindo pelo tom efusivo.
 Sequências assim, com o registro a quente dos acontecimentos, mantêm o clima de tensão e thriller político do documentário. Bem como a manifestação assertiva de três veteranos oficiais militares brasileiros, que foram entrevistados para o filme. Partidários do golpe, defendem a “Revolução” feita em nome da democracia.
 Muito diferente de uma versão retalhada em três episódios, exibida na TV em 2011, o longa chega aos cinemas na abertura do ano que se completará com o aniversário de meio século do golpe. E no momento em que a Comissão Nacional da Verdade esquadrinha os tempos da ditadura, inclusive a colaboração norte-americana em violações dos direitos humanos no Brasil.
 Embora Camilo Tavares tenha se concentrado na gênese do golpe, seu pai pontua a história. Ela começa na crise provocada pela renúncia de Jânio, em agosto de 1961, que Flávio cobriu em Porto Alegre como editor de política do jornal janguista Última Hora. E termina em 1969, com o sequestro do então embaixador dos Estados Unidos, Charles Burke Elbrick, por grupos armados. Em troca de sua libertação, 15 oposicionistas deixaram a prisão, banidos do Brasil. Um deles foi Flávio, que, 27 meses depois de se radicar na Cidade do México, foi pai de Camilo, cujo nome reverencia o padre católico e guerrilheiro colombiano Camilo Torres, morto em 1966.
 Flávio Tavares, 78 anos, conduz serenamente as entrevistas do filme, mesmo as com velhos antagonistas ideológicos. A um deles, Robert Bentley, assessor de Lincoln Gordon em 1964, indaga sobre crimes como tortura contra presos políticos. Sem graça, o norte-americano responde: “Isso é difícil de justificar oficialmente. Mas lamento, lamento, de qualquer maneira”.
  Mário Magalhães é jornalista, autor da biografia Marighella - O Guerrilheiro que Incendiou o Mundo.
 Fonte: http://bravonline.abril.com.br/materia/autopsia-de-uma-conspiracao#image=188-ci-kennedy-gordon-ditadura