sexta-feira, 21 de abril de 2017

O assalto ao poder e os Macunaímas do Supremo, por Luís Nassif



Quem é o Macunaíma: a empregada ou o Ministro?

Texto de Luis Nassif

Segundo o site “Congresso em Foco”, o Ministro da Justiça Osmar Serraglio decidiu demitir o presidente da ao Funai (Fundação Nacional do Índio), Antônio Fernandes Toninho da Costa, por não ter atendido às demandas do líder do governo no Congresso, deputado André Moura (PSC-CE), nomeando 25 pessoas indicadas por ele (https://goo.gl/KgAZ44) para o órgão.
Segundo a reportagem, a decisão de Serraglio teve aval do presidente da República Michel Temer. Provavelmente visa trocar as indicações por votos para o desmonte da Previdência Social.
São co-responsáveis diretos por essa tragédia os excelentíssimos Ministros do Supremo Tribunal Federal, que se acovardaram em relação a um golpe aplicado em uma presidente, não por seus erros econômicos, mas por não transigir com o loteamento do país. E nada fazem para impedir a continuação da pilhagem.
São igualmente co-responsáveis a Procuradoria Geral da República, a Lava Jato, os procuradores que saíram às ruas em estranhas passeatas destinadas a entregar o poder a uma quadrilha, em nome da moralidade. E continuam sendo responsáveis, assistindo de camarote o desmonte do país, as negociatas a céu aberto, com o ar de “isso não é comigo”.
Esses agentes “civilizatórios”, como se supõe ser o Ministro Luís Roberto Barroso, sempre empenhados em enaltecer o modelo anglo-saxão, fogem das questões centrais que ajudaram a erigir uma civilização relativamente moderna por lá: homens públicos conscientes de sua responsabilidade perante o país e o Estado, vozes que se levantavam contra os abusos, contra as ameaças à nacionalidade, contra os assaltos a céu aberto, contra os esbirros do poder, os fundadores que chamavam a si a responsabilidade pelos destinos da pátria.
O Brasil é o que é não por conta da empregada do amigo de Barroso, que não aceitou registro em carteira para não perder o Bolsa Família. É por conta de Ministros como Barroso, que assistem de camarote a essa pilhagem, os seguidores da máxima “não é comigo”, mais preocupados com os ataques que podem sofrer de blogs de direita arranhando o verniz das suas reputações, do que se valer de seu poder institucional para defender o país.
O Macunaíma não é a marronzinha que serve humildemente em casas de advogados bem-sucedidos. É o espírito que permeia sumidades, como as que habitam o Olimpo do Supremo, e que, tendo os raios de Zeus à disposição, preferem o sossego dos traques sem risco. E dormitar na rede, achando que o incêndio nunca chegará na choupana Brasil.
A razão de terem aceitado a indicação para o Supremo é exclusivamente a vaidade, o status, a liturgia do cargo, não as responsabilidades inerentes, a possibilidade de interferirem positivamente nos destinos do país, o exercício do contraponto em benefício do bem comum. Ou proteger a Nação quando submetida à pilhagem por uma quadrilha sem limites.

sábado, 15 de abril de 2017

“Não está fora de cogitação um novo golpe”. Reflexões do jurista Fábio Konder Comparato


Mega empresários e certos agentes do Estado pisando na Democracia

   Fábio Konder Comparato é um dos nossos juristas mais brilhantes cuja obra jurídica em direitos humanos e ética está à altura das grandes produções dos centros metropolitanos do saber. Sua advertência sobre a situação do Brasil merece ser considerada pois conhece muito bem a lógica perversa da política das oliquarquias e das elites endinheiradas de nosso país, sempre conjugadas com outras forças suplementares. A situação atual em parte provocada por elas é de tal gravidade que até para elas se torna insuportável. Daí sua advertência: a saída da crise poderá vir por uma via extra legal. Que não seja pela via militar, não aventada por ele, mas temida por mim. Vale ler esta pequena entrevista deste sábio. - Leonardo Boff

Entrevista à Carta Capital a Debora Melo- dia 12/04/2017

Konder Comparato: “Não está fora de cogitação um novo golpe”

O jurista Fábio Konder Comparato não nutre esperança em relação à crise política. A instrução dos processos a partir da lista de Luiz Fachin, relator da Operação Lava Jato no Supremo Tribunal Federal (STF), vai demorar.

O governo, de pouca legitimidade, e o Congresso desmoralizado continuarão a aprovar reformas “inconstitucionais”, salvo uma intervenção do Ministério Público ou da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB). Os políticos buscarão formas de escapar das acusações. E mais: Comparato não descarta um novo golpe de Estado.

CartaCapital: A divulgação da lista do ministro Luiz Fachin tira, de alguma forma, a legitimidade do governo para fazer reformas como a trabalhista e a da Previdência?

Fábio Konder Comparato: Este governo nunca teve legitimidade. Vivemos, no mundo todo, uma situação de total falta de rumo da política. Do lado da direita, a fachada democrática do sistema capitalista rui e todos percebem que não têm nenhum poder, nem mesmo de livre eleição de representantes.

Do lado da esquerda, a ideia fundamental de que haveria uma luta de classe entre a burguesia e o proletariado torna-se inaplicável, uma vez que o proletariado em si praticamente não existe como força política.

CC: O senhor disse que o governo nunca teve legitimidade. E o Congresso, que será o responsável pela aprovação dessas reformas? Há 71 parlamentares na lista.

FKC: Grande parte dessas reformas é inconstitucional. Eles não querem de maneira nenhuma enfrentar esse problema e, se enfrentarem, terão o Judiciário a favor.

CC: Os projetos continuam a tramitar…

FKC: Exato. Trata-se, porém, de saber se haverá ou não uma reação por parte do Ministério Público ou da OAB, por exemplo.

CC: E no Congresso? A discussão e a aprovação dessas reformas pode perder força com a divulgação da lista?

FKC: Os parlamentares vão empurrar com a barriga e fazer o possível para a Lava Jato não avançar em relação a eles. Agora será feita a instrução desses inquéritos. Vai levar um tempo considerável. É bem possível outra intervenção extralegal para impedir a continuação disso tudo. Não está fora de cogitação um novo golpe de Estado.

CC: De onde viria esse golpe?

FKC: Da oligarquia, basicamente. A oligarquia no Brasil é composta de dois grupos intimamente associados: os empresários e os proprietários, de um lado, e os principais agentes do Estado, do outro. Evidentemente a Lava Jato desmoraliza ambos os grupos.

CC: Qual seria uma solução possível para a crise política?

FKC: A solução não é rápida. Trata-se de lutar contra dois fatores fundamentais de organização da sociedade: de um lado, o que eu chamo de poder oligárquico, ou seja, o poder da minoria rica, estreitamente ligada às instituições do Estado.

De outro, a mentalidade coletiva, que não é favorável à democracia. Ela nunca existiu no Brasil, pois o povo se considera inepto, incapaz de tomar grandes decisões. Tivemos quase quatro séculos de escravidão, o que criou na mentalidade popular aquela ideia fundamental de que quem pode, manda, obedece quem tem juízo.

sexta-feira, 14 de abril de 2017

"The Discovery": devemos saber o que existe depois da morte? Artigo de Wilson Ferreira




Em um futuro próximo, finalmente a Ciência conseguiu a prova definitiva da existência após a morte. Porém, o resultado foi catastrófico: uma onda de suicídios varre o planeta com pessoas angustiadas em busca da terra prometida no outro lado. A produção Netflix "The Discovery” (2017) é um filme que aborda o recorrente tema cinematográfico da “segunda chance”: motivados por culpa e arrependimento por decisões erradas na vida, buscamos sempre a segunda chance, seja através da viagem no tempo, em um novo planeta Terra ou por meio de alguma experiência espiritual. Porém, “The Discovery” inova a abordagem do tema ao mostrar protagonistas que buscam a segunda chance dessa vez na possibilidade da vida pós-morte. A chance de um recomeço ou, pelo menos, a oportunidade de corrigir decisões erradas. Mas a mesma máquina que deu a prova científica da imortalidade da alma, pode revelar algo maior e inesperado.
Segue o texto de Wilson Ferreira
Passamos metade da vida cometendo erros. E a outra metade tentando consertá-los. Além da própria morte, essa parece ser uma condição inevitável da existência na qual nunca mente e corpo parecem estar alinhados – na juventude temos a vitalidade, mas ainda não conquistamos a sabedoria. E quando temos a sabedoria, a vitalidade da juventude se foi.
Por isso, o mito da segunda chance é uma das narrativas mais exploradas pelo cinema e na literatura: a busca de uma segunda oportunidade na qual, com a sabedoria conquistada, pudéssemos consertar erros do passado e nos libertarmos da culpa e do arrependimento.
De livros como Christmas Carol de Charles Dickens e a jornada multidimensional de Alice de Lewis Carroll até chegarmos ao cinema com Contra o Tempo (2011), Efeito Borboleta (2004) ou Click (2006), repete-se o anseio de termos mais uma chance na vida e corrigirmos os erros.
O meio de conquistarmos a segunda chance pode ser através de uma viagem no tempo, de encontrarmos um segundo planeta Terra no presente (como no filme A Outra Terra, 2011), de entrarmos no universo da física quântica com mundos alternativos nos quais pudéssemos corrigir escolhas erradas (Coherence, 2013) ou, simplesmente, por meio de alguma experiência sobrenatural como no filme Os Fantasmas de Scrooge (2009).
Mas a produção Netflix The Discovery (2017) acrescenta mais uma novidade dentro desse tema: a vida pós-morte. O roteiro de Justin Lader e McDowell não se prende aos cânones do gênero ficção científica, apesar de vermos cientistas e máquinas que procuram uma prova científica da existência pós-morte – não há um thriller sci-fi com vilões tentando roubar uma máquina revolucionária e muito menos discussões metafísicas sobre o nosso propósito nesse planeta.
The Discovery é um filme sobre culpa, arrependimento e perdão, sobre decisões erradas e como elas podem marcar uma vida inteira. O filme se insere em uma tendência das produções independentes atuais chamada “psicodramas alt. Sci-fi” – narrativas que emulam temas da ficção científica, mas apenas como pano de fundo para discussões existenciais e de relacionamentos humanos.
 A novidade aqui é o tema da possibilidade da vida pós-morte como uma forma de busca da segunda chance. Memórias e reencarnação são temas nos quais a narrativa tangencia, mas The Discovery quer mesmo associar o tema da morte à loop temporais e mundos alternativos quânticos.
O Filme
Na primeira cena vemos Thomas Harbour (Robert Redford) um controverso cientista recluso que há alguns anos descobriu a definitiva comprovação científica da existência. Ele está em uma entrevista ao vivo na TV. Mas o assunto não é propriamente a sua descoberta, mas os efeitos: a descoberta acabou provocando uma onda em massa de suicídios, todos à procura da terra prometida no outro lado. O clima da entrevista é tenso. Harbour se nega a aceitar a responsabilidade pelas mortes em massa. Até que um técnico da produção entra em cena e dispara uma arma contra a cabeça. Mais um suicídio, dessa vez ao vivo na TV.
Semelhante a uma peste, há nos lugares públicos placares com os números de suicídios por minuto. Parece que há também um esforço publicitário dos governos em convencer as pessoas a não partirem. Tanta culpa e arrependimento nesse mundo parece motivar as pessoas a buscarem ou uma simples fuga ou a possibilidade de recomeço em algum lugar na vida pós-morte.
A narrativa acompanha a chegada de Will (Jason Segal), um dos filhos de Harbour, que tem sérias críticas contra o trabalho do seu pai. Em sua viagem para uma área remota onde seu pai trabalha, Will encontra Isla (Rooney Mara). Por algum motivo acha seu rosto familiar, começando uma conversa agressiva e espinhosa.
Os dois acabam descobrindo que estão indo para o mesmo lugar: uma fortaleza na qual Harbour mentem-se isolado em seu laboratório ajudado por devotados seguidores – em comum, todos tentaram alguma vez o suicídio. Todos usam macacões com cores correspondentes ao seu status naquele lugar. Will vê claramente que seu pai acabou criando uma seita de seguidores fanáticos, aumentando ainda mais a repulsa às pesquisas dele.
Will acredita que Harbour trouxe o mal para as pessoas e está decidido em encerrar as pesquisas do pai. 
O ritmo do filme é lento e contemplativo. A atmosfera geral é de confusão psicológica, limites dissolvidos e identidades fraturadas. Um ambiente assustador no qual muito do mistério é mantido intacto até quase o final.
Will revela a Isla que sua mãe se matou quando era mais jovem, antes da descoberta do pai. A certa altura, Will vê Isla na praia, caminhando em direção ao mar com uma mochila cheia de pedras, decidida a se matar – também ela guarda culpas e arrependimentos no passado.
O filme ganha força com a revelação de Thomas Harbour que a máquina que desenvolve poderá gravar imagens da existência pós-morte – finalmente será possível ver o que existe realmente do outro lado.

Vídeos

Veja o vídeo
"The Discovery" (Charlie McDowell, 2017) - trailer legendado

quarta-feira, 12 de abril de 2017

Bob Fernandes: A Política, e o Dinheiro, no banco dos réus... E o Eleitor? E o Fascismo?






Presidentes do Senado e Câmara investigados. Assim como um terço do Senado, mais 40 deputados federais e, ainda no Supremo, três governadores.

Outros nove governadores encaminhados ao STJ. Temer não será investigado, nessa, porque citações não se referem ao mandato atual. Será, na chapa com Dilma, no TSE.

Para outras instâncias seguiram casos dos ex-presidentes Dilma, Lula e Fernando Henrique Cardoso.

Fernando Collor, por ser senador, e José Sarney, por presença em processo outro, da ferrovia Norte-Sul, também serão investigados sob tutela do Supremo.

Lula, réu em 5 inquéritos, será ouvido pelo juiz Moro a 3 de Maio. Moro irá condená-lo. Se condenado numa 2ª instância, Lula estará fora da disputa presidencial.

Investigados também, em múltiplos inquéritos, os presidenciáveis Alckmin, Aécio e Serra.

O ministro Fachin, relator da Lava Jato, enviou ao STJ e outras instâncias mais 201 pedidos de investigação.

Os oito ministros do governo Temer serão afastados durante esse processo, como deveria ser praxe?... Não.

Quando se derrubava o governo anterior para unção desse aí, já não se sabia disso e desses?

Quando se escolhia o atual comando e o Congresso já não se sabia quem são tantos deles?

Jornalistas, ou não, não sabíamos que chegaria nisso?

Por que ouvíamos a tantos sem, a cada vez, perguntar e a cada vez informar sobre as suspeições contra cada um?

Por que, se sabia-se ser Sistêmica a corrupção nos tentáculos da Política, dos partidos, e em porções importantes do empresariado?

Não sabia quem não tem como saber. Quem não teve oportunidade de saber.

Não sabiam os ingênuos. E fingiam não saber os oportunistas, que seguem apontado o dedo contra "corruptos"... do lado oposto. Do alheio.

Muitos dos investigados ou citados bradaram contra a corrupção ao longo da história. Ou em manifestações recentes, a bordo de camisas da CBF. Muitos, na linha de frente.

Outros, mesmo já citados, seguiram e seguem nas manchetes, pontificando contra a corrupção... A alheia.

Da mesma forma, na cara dura, no cinismo e hipocrisia, gente que fez fortuna com campanhas, e nos negócios.

Investigação não significa culpa automática. Há que provar. Isso vale, ou deveria valer, para todos.

Para quem está na 1ª instância será rápido. Para quem será investigado no Supremo, no STJ, ou em demais instâncias regionais, coisa de anos e anos. Definições para depois de 2018.

E a eleição em 2018? Espaço, a ser trabalhado, para avanços.

E espaço também para, já a caminho, o velhíssimo fantasiado de novo.

E espaço, crescente, para o fascismo em estado bruto.

domingo, 9 de abril de 2017

Os crucificados de hoje, pelo mal neoliberal, e o Crucificado de ontem por enfrentar as elites da Palestina. Texto de Leonardo Boff


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Os crucificados de hoje e o Crucificado de ontem


texto de Leonardo Boff

Hoje  a maioria da humanidade vive crucificada pela miséria, pela fome, pela escassez de água potável e pelo desemprego. Crucificada está também a natureza devastada pela cobiça industrialista que se recusa a  aceitar limites. Crucificada está a Mãe Terra, exaurida a ponto de ter perdido seu equilíbrio interno que se mostra pelo aquecimento global.
Um olhar religioso e cristão vê o próprio Cristo presente em todos estes crucificados. Pelo fato de ter assumido totalmente nossa realidade humana e cósmica, ele sofre com todos os sofredores. A floresta que é derrubada pela motosserra significa golpes em seu corpo. Nos ecossistemas dizimados e pelas águas poluídas, ele continua sangrando. A encarnação do Filho de Deus estabeleceu uma misteriosa solidariedade de vida e de destino com tudo o que ele assumiu, nossa inteira humanidade, a natureza e tudo o que ela pressupõe em sua base físico-química e ecológica.
O evangelho mais antigo, o de São Marcos, narra com palavras terríveis a morte de Jesus. Abandonado por todos, no alto da cruz, se sente também abandonado pelo Pai de bondade e de misericórdia. Jesus grita:
Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?  E dando um forte brado, Jesus expirou (Mc 15,34.37).
Jesus morreu não porque todos nós morremos. Ele morreu assassinado sob a forma mais humilhante da época: a pregação na cruz. Pendendo entre o céu e a terra, durante três horas agonizou na cruz.
A recusa humana pode decretar a crucificação de Jesus; mas ela não pode definir o sentido que ele  conferiu à crucificação imposta. O crucificado definiu o sentido de sua crucificação como solidariedade para com todos os crucificados da história que, como ele, foram e serão vítimas da violência, das relações sociais injustas, do ódio, da humilhação dos pequenos e do rechaço à proposta de um Reino de justiça, de irmandade, de compaixão e de amor incondicional.
Apesar de sua entrega solidária aos  aos outros e a seu Pai, uma terrível e última tentação invadiu seu espírito. O grande embate de Jesus agora que agoniza é com seu Pai.
O Pai que ele experimentou com profunda intimidade filial, o Pai que ele havia anunciado, como “Paizinho”(Abba), misericordioso e cheio de bondade, Pai com traços de de mãe carinhosa, o Pai cujo Reino ele proclamara e antecipara em sua práxis libertadora, este Pai agora parece tê-lo abandonado. Jesus passa pelo inferno da ausência de Deus.
Por volta das três horas da tarde, minutos antes do desenlace final, Jesus gritou com voz forte: “Elói, Elói, lamá sabachtani: Meu Deus, Meu Deus, por que me abandonaste”? Jesus está às raias da desesperança. Do vazio mais abissal de seu espírito, irrompem interrogações aterradoras que configuram a mais apavorante tentação sofrida pelos seres humanos e agora por Jesus, a tentação do desespero. Ele se interroga:
“Será que não foi absurda a minha fidelidade? Sem sentido a luta sustentada por causa dos oprimidos e por  Deus? Não teriam sido vãos os riscos que corri, as perseguições que suportei, o aviltante processo jurídico-religioso a que fui submetido com a sentença capital: a crucificação que estou sofrendo?”
Jesus encontrou-se nu, impotente, totalmente vazio diante de Deus- Pai que se cala e com isso revela  todo o seu Mistério. Jesus não tem mais ninguém a quem se agarrar.
Pelos critérios humanos, ele fracassou completamente. A própria certeza interior se lhe esvai. Apesar de o sol ter tramontado de seu horizonte, Jesus continua a confiar em Deus. Por isso grita com voz forte: “Meu Deus, meu Deus!”. No auge do desespero, Jesus se entrega ao Mistério verdadeiramente sem nome. Ele lhe será a única esperança para além de qualquer desesperança humana. Não possui mais nenhum apoio em si mesmo, somente em Deus que se escondeu. A absoluta esperança de Jesus só é compreensível no pressuposto de seu absoluto desespero. Mas onde abundou a desesperança, superabundou a esperança.
A grandeza de Jesus consistiu em suportar e vencer esta assustadora tentação. Esta tentação lhe propiciou uma entrega total a Deus, uma solidariedade irrestrita a seus irmãos e irmãs também desesperados e crucificados ao largo da história, um total desnudamento de si mesmo, uma absoluta descentração de si em função dos outros. Só assim a morte é verdadeiramente real e  completa: a entrega sem resto a Deus e aos seus filhos e filhas sofredores, seus irmãos e irmãs menores.
As últimas palavras de Jesus mostram esta sua entrega, não resignada e fatal, mas livre: “Pai, em tuas mãos entrego o meu espírito” (Lc 23,46). “Tudo está consumado” (Jo 19,30)!
A sexta-feira santa continua, mas não é o ultimo capítiulo da história. A ressurreição, como irrupção do ser novo é a grande resposta do Pai e a promessa para  nós. Ele é o primeiro entre muitos irmãos e irmãs que somos todos nós.
 Leonardo Boff é articulista do JB on line e escreveu:”A vida sacra para quem quer viver,, Vozes 2012.

sábado, 8 de abril de 2017

The Intercepl Brasil: De Martin Luther King a Maria Eduarda Alves, a violência que ameaça os sonhos. Por Ronilso Pacheco









Volta da violência, do preconceito, da Casa Grande, da Direita....

Aos 49 anos da morte de Martin Luther King Jr., racismo, violência, criminalização da pobreza, estigma e controle social seguem se misturando.


NO ÚLTIMO FIM de semana, a adolescente Maria Eduarda, de 13 anos, morreu atingida por três “balas perdidas”, mesmo estando dentro da escola, na Zona Norte do Rio. As balas são oriundas de um confronto entre policiais e bandidos na comunidade. Mais uma vez, o debate se fecha na culpabilização dos indivíduos: saber de onde vieram as balas para saber se os responsáveis são traficantes ou policiais. Outra vez, a estrutura perversa que abarca e mantém uma cidade violenta e exposta às (diversas) violências ficam de fora da discussão central, das investigações necessárias, das respostas coerentes.
American civil rights leader Dr Martin Luther King Jr. (1929 - 1968) lying in state in Memphis, Tennessee, as his colleagues pay their respects to him (right to left); Andrew Young, Bernard Lee and Reverend Ralph Abernathy (1926 - 1990).  (Photo by Keystone/Getty Images)
Para King era preciso enfrentar a violência
 
Foto: Getty Images
No dia 4 de abril completam-se 49 anos da morte do pastor batista Martin Luther King Jr., ele mesmo vítima da violência das armas e das balas que, perdidas ou com endereço certo, ameaçam o direito à vida. De Memphis ao Rio de Janeiro, racismo, violência, criminalização da pobreza, estigma e controle social seguem se misturando (e mantendo ao mesmo tempo cada um o seu lugar) ontem e hoje. Por décadas, essa realidade segue inalterada.
A história da morte de Trayvon Martin, de 17 anos, em 2012 na Flórida, assassinado por um vigilante comunitário por achar que o adolescente era um suspeito que estava rondando a comunidade para roubar, pode muito bem ser equiparada à história do menino Douglas, também de 17 anos, assassinado em 2013, em São Paulo, por um policial militar que chega disparando ao abordar o adolescente. A única coisa que Douglas conseguiu dizer foi a pergunta “Por que o senhor atirou em mim?”.
No primeiro caso, o assassino é absolvido, protegido por uma lei que lhe atribuiu legítima defesa. No segundo caso, o PM é absolvido ao alegar que o tiro foi acidental. Assim é a morte de Tamir Rice, de 12 anos, em Cleveland, ou a de Eduardo de Jesus, de 10, no Complexo do Alemão. Ou suspeitos, ou vítimas “não esperadas”.
Em 1963, King faria aquele que seria seu discurso mais famoso, em Washington, que ficou conhecido como “I Have a Dream”. Ali, a ênfase de King estava no quanto suas históricas marchas haviam avançado e repercutido. Se por um lado, as repressões foram extremamente violentas, por outro, as mobilizações se tornaram um desafio impossível de ser contido pelas autoridades americanas. Às vésperas da grande marcha, o maior temor do presidente Kennedy e seus conselheiros (incluindo o vice, Lyndon Johnson) era que a ela pudesse terminar num confronto incontrolável. Kennedy se antecipou à grande marcha, que seria em agosto, fazendo seu discurso em junho, em cadeia nacional, favorável a promulgação da Lei dos Direitos Civis, usando tal ação como uma forma de tirar a força reivindicatória da marcha, tornando-a mais comemorativa.
“Nenhum cachorro, nenhum canhão de jato d’água iriam fazer a população negra recuar.”
Mas no seu último discurso, em 1968, Martin Luther King Jr. foi bem menos esperançoso ou devoto de um sonho. Entre 63 e 68, King amargou a insistência de uma segregação e um racismo que não estava na Lei, mas estava na cultura da supremacia branca americana. No mesmo ano, King teve de passar  pela morte de Malcolm X, numa assustadora expressão de violência em que fora assassinado com 16 tiros disparados contra eles, e a morte do jovem Jimmie Lee Jackson. A morte de Jackson foi um duro golpe em King e também no seu movimento da não violência.
Era perceptível que a conquista dos direitos a voto não garantia nenhuma tranquilidade à comunidade negra no país. Nenhuma segurança. Nenhum reconhecimento real. A sociedade racista, a sociedade branca ocupantes dos lugares de poder continuava lá. E continuava racista.
Entre a morte de King e a menina Eduarda, seguimos com os mesmos fantasmas.
Se em 63 o sonho de King acreditava que até o Mississippi (um dos estados mais racistas e violentos), que, segundo ele, “transpira com o calor da injustiça e opressão”, iria enfim se transformar “em um oásis de liberdade e justiça”, em 68 King, há apenas dois dias antes de também ser assassinado, ciente de que não tinha mais o que temer porque havia chegado ao topo da montanha, mostrava sua decepção ao dizer que ele havia lido, em algum lugar, que “a grandeza dos Estados Unidos estava no direito de protestar por direitos”. Evidentemente, tantas mortes, repressões e insistência da violência do racismo provava que não. Convicto, King afirmava que “nenhum cachorro, nenhum canhão de jato d’água” iriam fazer a população negra recuar. Era preciso portanto, enfrentar a violência que ameaçava o sonho.
Era nítido também, que para além do seu papel de promulgar e reconhecer leis, o Estado não parecia estar tão empenhado no fim da segregação, e no reconhecimento da dignidade de homens e mulheres negras, e que a cultura de estigma e precarização sobre os territórios de guetos americanos ou a construção da imagem de suspeito em potencial do corpo negro na sociedade americana não passaria de uma geração a outra. As vítimas continuariam.
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Violência continua destruindo sonhos
 
Foto: reprodução
Entre a morte de King e a menina Eduarda, seguimos com os mesmos fantasmas. No discurso de 63, o pastor aconselhava: “Não se deixe cair no vale do desespero”. Talvez isso continue valendo. Ainda é muito necessário insistir em chamar atenção para o fato de que é preciso levar a sério que o dilema da violência que nos envolve, e das vidas pobres e periféricas e negras que perdemos, vai muito além de apenas saber a origem das balas que sobrevoam as nossas cabeças.

quinta-feira, 6 de abril de 2017

O resgate da natureza e do humano do mal da Globalização econômica.... Por Leonardo Boff


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"Importa entender que se trata de uma luta contra os grandes conglomerados econômico-financeiros que controlam grande parte da riqueza mundial na mão de um número pequeníssimo de pessoas. Segundo J. Stiglitz, prêmio Nobel de economia, temos a ver com 1% de bilhardários contra 99% de dependentes e empobrecidos."


O resgate da planetização/globalização


Texto de Leonardo Boff


Hoje há uma forte confrontação com o processo de globalização, exacerbado por Donald Trump que reforçou fortemente “o América em primeiro lugar”, melhor dito, “só a América”. Move uma guerra contra as corporações globalizadas em favor das corporações dentro dos USA.

Importa entender que se trata de uma luta contra os grandes conglomerados econômico-financeiros que controlam grande parte da riqueza mundial na mão de um número pequeníssimo de pessoas. Segundo J. Stiglitz, prêmio Nobel de economia, temos a ver com 1% de bilhardários contra 99% de dependents e empobrecidos.

Este tipo de globalização é de natureza econômico-financeira, dinossáurica, no dizer de Edgar Morin, a fase de ferro da globalização. Mas a globalização é mais que a economia. Trata-se de um processo irreversível, uma nova etapa da evolução da Terra a quando a descobrimos, vendo-a de suas naves espaciais, a partir de fora, como no-lo testemunharam os astronautas Aí fica claro que Terra e Humanidade formam uma única entidade complexa.

Impactante é o testemunho do astronauta norteamericano John W.Young, por ocasião da quinta viagem à Lua no dia 16 de abril de 1972:”Lá embaixo, está a Terra, este planeta azul-branco, belíssimo, resplandecente, mossa patria humana. Daqui da Lua eu o seguro na palma de minha mão. E desta perspectiva não há nele brancos ou negros, divisões entre leste e oeste, comunistas e capitalistas, norte e sul. Todos formamos uma única Terra. Temos que aprender a amar esta planeta do qual somos parte”.

A partir desta experiência, soam proféticas e provocativas as palavras de Pierre Teihard de Chardin ainda em 1933:”A idade das nações passou. Se não quisermos morrer, é hora de sacudirmos os velhos preconceitos e construir a Terra. A Terra não se tornará consciente de si mesma por nenhum outro meio senão pela crise de conversão e de transformação”. Esta crise se instalou nas nossas mentes: somos agora responsáveis pela única Casa Comum que temos. Ao inventarmos os meios de nossa própria auto-destruição, aumentou ainda mais nossa responsabilidade pelo todo do planeta.

Se bem repararmos esta consciência irrompeu já nos albores do século XVI, precisamente em 1521, quando Magalhães fez pela primeira vez o périplo do globo terrestre, comprovando empicamente que a Terra é de fato redonda e podemos alcançá-la a partir de qualquer ponto de onde estivermos.

Inicialmente a globalização realizou-se na forma de ocidentalização do mundo. A Europa deu início à aventura colonialista e imperialista de conquista e dominação de todas as terras descobertas e a descobrir, postas serviço dos interesses europeus corporificados na vontade de poder que bem podemos traduzir como vontade de enriquecimento ilimitado, de imposição da cultura branca, de suas formas políticas e de sua religião cristã. A partir das vítimas desse processo, essa aventura se fez sob grande violência, de genocídios, etnocídios e de ecocídios. Ela significou para a maioria dos povos um trauma e uma tragédia, cujas consequências se fazem sentir até os dias de hoje, também entre nós que fomos colonizados, que introduzimos a escravidão e nos rendemos às grandes potências imperialistas.

Hoje temos que resgatar o sentido positivo e irrenunciável da planetização, palavra melhor que globalizção, devido à sua conotação econômica. A ONU no dia 22 de abril de 2009 oficializou a nomenclatura de Mãe Terra para dar-lhe um sentido de algo vivo que deve ser respeitado e venerado como o fazemos com nossas mães. O Papa Francisco divulgou a expressão Casa Comum para mostrar a profunda unidade da espécie humana habitando num mesmo espaço comum.

Esse processo é um salto para frente no processo da geogênese. Não podemos retroceder e fecharmo-nos, como pretende Trump, nos nossos limites nacionais com uma consciência diminuída. Temos que adequarmo-nos a esse novo passo que a Terra deu, esse super-organismo vivo, segundo a tese de Gaia. Nós somos o momento de consciência e de inteligência da Terra. Por isso somos a Terra que sente, pensa, ama, cuida e venera. Somos os únicos entre os seres da natureza cuja missão ética é de cuidar desta herança bem-aventurada, faze-la um lar habitável para nós e para toda a comunidade de vida.

Não estamos correspondendo a este chamado da própria Terra. Por isso temos que despertar e assumir essa nobre missão de construir a planetização.






Leonardo Boff é articulista do JB on line e escreveu: Como cuidar da Casa Comum, Vozes 2017.

sábado, 1 de abril de 2017

The Intercept: Promotor do Golpe, Eduardo Cunha, o hipócrita "salvo", é condenado menos de um ano depois de ter pedido a Deus misericórdia para a nação que ele ajudou a destruir. Temer treme.






Sentença-show deve elevar ainda mais a tensão no Planalto: nome de Temer foi citado 11 vezes.


Artigo de Matheus Piconelli, no The Intercept Brasil:



EM 17 DE ABRIL de 2016, por 367 votos favoráveis e 137 contrários, a Câmara dos Deputados presidida por Eduardo Cunha (PMDB-RJ) aprovou a autorização para prosseguimento no Senado do impeachment de Dilma Rousseff. Na ocasião, após uma série de ameaças e uma negociação até hoje mal explicada para obter votos favoráveis no Conselho de Ética da Casa, onde era acusado de mentir sobre contas no exterior, quebrou o protocolo, pedindo misericórdia para a nação, e votou “sim”.

Foi aclamado pelos pares, entre eles Jair Bolsonaro, que previu: “seu nome entrará para a história pela forma como conduziu os trabalhos nesta Casa”.
De fato.
Menos de um ano depois, o agora deputado cassado foi condenado pelo juiz federal Sérgio Moro, responsável pela Lava Jato, a 15 anos e quatro meses de prisão por receber propina, segundo a denúncia da Procuradoria, em contrato da Petrobras para a exploração de petróleo na África. Ele está preso desde outubro.
Trecho da sentença de condenação de Eduardo Cunha.
Trecho da sentença de condenação de Eduardo Cunha.

Reprodução
Segundo Moro, durante a ação, o acusado “tentou justificar o injustificável” ao afirmar que os valores seriam devolução de empréstimo, mas não encontrou “um único elemento probatório documental”.
A confirmação da sentença deve elevar ainda mais a tensão no Planalto, que havia recebido da prisão uma série de recados de Cunha, que já foi considerado o parlamentar mais poderoso da história recente.
Arrolado como testemunha da defesa no processo, o nome de Michel Temer aparece 11 vezes na sentença – na maioria das vezes, para esclarecer como funcionavam as indicações do PMDB no governo.
Moro considerou as perguntas inapropriadas, o que gerou protestos do ex-deputado. Cunha alega ter havido cerceamento de defesa em razão do indeferimento, por parte do juiz, de parte das perguntas encaminhadas pelo ex-deputado ao presidente.
Trecho de sentença de condenação de Eduardo Cunha
Reprodução

Prisão não diminuiu influência

Até pouco tempo, o ex-deputado tinha esperança de deixar o presídio e responder à acusação em liberdade. Tentou revogar ao menos três vezes a ordem de prisão preventiva. Ele chegou a dizer em depoimento possuir um aneurisma cerebral e que o complexo penitenciário não teria condições para atendê-lo caso precisasse. Pelo entendimento do STF, a sentença pode ser cumprida a partir da decisão da segunda instância – que, nos casos dos acusados da Lava Jato, tem acompanhado as sentenças de Moro e companhia.
Muito se falava da possibilidade de Cunha assinar um acordo de delação para minimizar a pena, algo que jamais se confirmou. A possibilidade de delação gerava apreensão no governo, que era acusado de ceder aos pleitos do detento.
A influência de Cunha no governo levou Renan Calheiros (PMDB-AL), líder do governo no Senado, a se queixar. Segundo ele, um núcleo político ligado ao ex-deputado fluminense disputava espaço com o PSDB em torno do presidente.
Um dos representantes desse movimento seria o deputado Carlos Marun (PMDB-MS), que teria negociado nomeações no governo e em postos-chave do Congresso. Coincidência ou não, quem assumiu o Ministério da Justiça após a saída de Alexandre de Morais para o STF foi Osmar Serraglio, que chegou a defender publicamente a anistia para o ex-presidente da Câmara.
Cunha responde ainda a outras ações penais, mas não foi ainda julgado. Por isso, escreveu o juiz, “será considerado como tendo bons antecedentes”.
Após receber a notícia da condenação, Cunha escreveu, de dentro do Complexo Médico Penal do Paraná, que Moro não tem condições de julgar qualquer ação contra ele e razão de sua “parcialidade e motivação política”.
O peemedebista prometeu recorrer. “Essa decisão não se manterá nos tribunais superiores, até porque contém nulidades insuperáveis”.