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domingo, 19 de agosto de 2018

Jornais brasileiros abafam decisão da ONU que garante Lula candidato, por Luis Felipe Miguel



"Mais do que qualquer outra coisa, o tom imposto pela cobertura é evidenciado na coleção de fotos dos candidatos na Rede TV!, recurso ao qual ambos os jornais recorreram. Estão lá oito opções. Tem até uma mulher e um cara barbado. Tem para todos os gostos: do que o eleitor pode reclamar? A eleição transcorre sem percalços, ponto.
"Por isso a decisão do Comitê de Direitos Humanos da ONU incomoda. É fundamental, para o projeto do golpe, que a ilegitimidade do processo eleitoral no Brasil não seja exposta. Por isso, as empresas jornalísticas ocultam mais este fato."


Por Luis Felipe Miguel
Como esperado, os jornalões desprezaram a decisão do Comitê de Direitos Humanos da ONU, que exige a garantia aos direitos políticos de Lula. E, ao mesmo tempo, tratam com a maior naturalidade a realização de mais um debate de TV em que o candidato favorito foi impedido de participar.
Na Folha: nenhuma menção à ONU na capa, algumas notas no "Painel" antecipando que a determinação será ignorada pelo Supremo e uma reportagem de um terço de página, em página par, sumarizando o caso. Muito abaixo da relevância do episódio, mas bem melhor que seu concorrente, que escondeu a determinação em uma notinha no meio do "Painel do Estadão" - em que, aliás, ela é chamada de "recomendação do Comitê de Direitos Humanos da ONU" - e no intertítulo de uma reportagem intitulada "Barroso concentra impugnações a Lula". A matéria recebeu uma chamada de capa, tão irrelevante ("Barroso já tem sete ações contra Lula") que seria inexplicável caso não houvesse o desejo de se contrapor à verdadeira notícia, aquela que o jornal optou por ocultar.
Trata-se de minimizar um fato político de enorme relevância. Tanto Folha quanto Estadão fizeram questão de ressaltar que outros políticos foram impedidos de concorrer nas mesmas condições de Lula e não houve ação da ONU. É uma falsa ingenuidade, que pretende não entender que um ex-presidente, candidato favorito numa eleição presidencial, tem mais condições de recorrer a um organismo internacional do que outros.
Em suma: neste caso, uma vez mais, a imprensa põe em funcionamento a doutrina Ricupero: "o que é bom a gente fatura, o que é ruim a gente esconde". Uma doutrina que, segundo as imorredouras palavras do então ministro da Fazenda, só se estabelece graças à ausência de escrúpulos.
Enquanto isso, o noticiário das eleições corre como se vivêssemos a mais normal e democrática das normalidades democráticas. Fiel à sua vocação "pluralista", a Folha inaugura hoje uma seção semanal de polêmica sobre o processo eleitoral, em que a Leandro Narloch encarna a direita e as cores da esquerda são defendidas por... Pablo Ortellado! Já o Estadão, também seguindo a tradição, prefere a voz autorizada dos especialistas consagrados e estampa, na página 2, uma análise de conjuntura assinada por... Bolívar Lamounier!
Mais do que qualquer outra coisa, o tom imposto pela cobertura é evidenciado na coleção de fotos dos candidatos na Rede TV!, recurso ao qual ambos os jornais recorreram. Estão lá oito opções. Tem até uma mulher e um cara barbado. Tem para todos os gostos: do que o eleitor pode reclamar? A eleição transcorre sem percalços, ponto.
Por isso a decisão do Comitê de Direitos Humanos da ONU incomoda. É fundamental, para o projeto do golpe, que a ilegitimidade do processo eleitoral no Brasil não seja exposta. Por isso, as empresas jornalísticas ocultam mais este fato.

sábado, 15 de abril de 2017

“Não está fora de cogitação um novo golpe”. Reflexões do jurista Fábio Konder Comparato


Mega empresários e certos agentes do Estado pisando na Democracia

   Fábio Konder Comparato é um dos nossos juristas mais brilhantes cuja obra jurídica em direitos humanos e ética está à altura das grandes produções dos centros metropolitanos do saber. Sua advertência sobre a situação do Brasil merece ser considerada pois conhece muito bem a lógica perversa da política das oliquarquias e das elites endinheiradas de nosso país, sempre conjugadas com outras forças suplementares. A situação atual em parte provocada por elas é de tal gravidade que até para elas se torna insuportável. Daí sua advertência: a saída da crise poderá vir por uma via extra legal. Que não seja pela via militar, não aventada por ele, mas temida por mim. Vale ler esta pequena entrevista deste sábio. - Leonardo Boff

Entrevista à Carta Capital a Debora Melo- dia 12/04/2017

Konder Comparato: “Não está fora de cogitação um novo golpe”

O jurista Fábio Konder Comparato não nutre esperança em relação à crise política. A instrução dos processos a partir da lista de Luiz Fachin, relator da Operação Lava Jato no Supremo Tribunal Federal (STF), vai demorar.

O governo, de pouca legitimidade, e o Congresso desmoralizado continuarão a aprovar reformas “inconstitucionais”, salvo uma intervenção do Ministério Público ou da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB). Os políticos buscarão formas de escapar das acusações. E mais: Comparato não descarta um novo golpe de Estado.

CartaCapital: A divulgação da lista do ministro Luiz Fachin tira, de alguma forma, a legitimidade do governo para fazer reformas como a trabalhista e a da Previdência?

Fábio Konder Comparato: Este governo nunca teve legitimidade. Vivemos, no mundo todo, uma situação de total falta de rumo da política. Do lado da direita, a fachada democrática do sistema capitalista rui e todos percebem que não têm nenhum poder, nem mesmo de livre eleição de representantes.

Do lado da esquerda, a ideia fundamental de que haveria uma luta de classe entre a burguesia e o proletariado torna-se inaplicável, uma vez que o proletariado em si praticamente não existe como força política.

CC: O senhor disse que o governo nunca teve legitimidade. E o Congresso, que será o responsável pela aprovação dessas reformas? Há 71 parlamentares na lista.

FKC: Grande parte dessas reformas é inconstitucional. Eles não querem de maneira nenhuma enfrentar esse problema e, se enfrentarem, terão o Judiciário a favor.

CC: Os projetos continuam a tramitar…

FKC: Exato. Trata-se, porém, de saber se haverá ou não uma reação por parte do Ministério Público ou da OAB, por exemplo.

CC: E no Congresso? A discussão e a aprovação dessas reformas pode perder força com a divulgação da lista?

FKC: Os parlamentares vão empurrar com a barriga e fazer o possível para a Lava Jato não avançar em relação a eles. Agora será feita a instrução desses inquéritos. Vai levar um tempo considerável. É bem possível outra intervenção extralegal para impedir a continuação disso tudo. Não está fora de cogitação um novo golpe de Estado.

CC: De onde viria esse golpe?

FKC: Da oligarquia, basicamente. A oligarquia no Brasil é composta de dois grupos intimamente associados: os empresários e os proprietários, de um lado, e os principais agentes do Estado, do outro. Evidentemente a Lava Jato desmoraliza ambos os grupos.

CC: Qual seria uma solução possível para a crise política?

FKC: A solução não é rápida. Trata-se de lutar contra dois fatores fundamentais de organização da sociedade: de um lado, o que eu chamo de poder oligárquico, ou seja, o poder da minoria rica, estreitamente ligada às instituições do Estado.

De outro, a mentalidade coletiva, que não é favorável à democracia. Ela nunca existiu no Brasil, pois o povo se considera inepto, incapaz de tomar grandes decisões. Tivemos quase quatro séculos de escravidão, o que criou na mentalidade popular aquela ideia fundamental de que quem pode, manda, obedece quem tem juízo.

sexta-feira, 9 de setembro de 2016

E se boicotarmos a Folha de S.Paulo?, por Reginaldo Nasser

Em 5 de novembro de 1969, um dos jornais do grupo "Folha" comemora a morte de Marighella. A mesma atitude, nos golpes de 1964 e 2016

Para manter-se manipulador, sem se queimar por completo, jornal mantém algum contato com inteligência crítica. Talvez seja hora de negar-lhe este trunfo…
Por Reginaldo NasserChefe do Departamento de Relações Internacionais da PUC-SP e prof do Programa de Pós-Graduação San Tiago Dantas (Unesp, Unicamp e Puc-SP)
Creio que desde o inicio da década de oitenta, nos estertores do período ditatorial,  estamos debatendo uma série de questões relacionadas à mídia e democracia. O que é mais angustiante é que após anos de muitas lutas parece que sempre voltamos ao ponto inicial. Atingimos a intensidade máxima desse debate com a participação e ou conivência de boa parte da mídia na arquitetura do Golpe em curso.
Creio que a Folha de S.Paulo foi o primeiro jornal a tentar entrar no novo espirito do momento pelas Diretas Já. Sua primeira grande campanha publicitária lançou o slogan “De rabo preso com o leitor”, construindo a narrativa de que era independente em relação a governos, partidos e ideologias.
Passei a me lembrar disso  após a leitura do contundente texto do colunista da Folha Gregorio Duvivier, “Dona Folha, tá difícil te defender” em que faz uma critica duríssima ao editorial do próprio jornal onde escreve. Destaco o trecho “Quando o Reichstag pegou fogo, os jornais pediram medidas de emergência contra os “baderneiros” em editoriais muito parecidos com o seu. Hitler não teria ganhado terreno sem uma profusão de jornais pedindo “mais repressão aos grupelhos”.
Desnecessário ressaltar as qualidades intelectuais e politicas do multitalentoso Duvivier, mas justamente por isso, creio que vale a pena avaliarmos as táticas politicas que se constroem, sempre pensando em prováveis consequências de nossas ações.  Por exemplo, qual será o resultado politico desse belo texto? A Dona Folha ficará abalada com a critica e mudará sua linha editorial? Ou é mais provável outra hipótese? Que justamente essa atitude de Duviver (embora sua intenção seja o oposto) é o alimento que sustenta a Dona Folha desde anos 80. Pois, isso permite que ela diga aos quatro cantos do mundo que ela é plural e democrática, tal como se expressou, recentemente em Londres, o seu Dono. De forma rude “acusou” a jornalista, que fez critica aos meios de comunicação, de “petista” e encheu o peito para dizer que seu jornal publica Reinaldo Azevedo, Demetrio; mas também Boulos, Safatle e outros. O jornal estimula a presença dos opostos se digladiando para depois aparecer como uma espécie de primus inter pares. Será que o Dono da Folha não deu a dica onde podemos atingi-lo? E se não houver mais articulistas críticos? Será que assim a verdadeira face da Folha não se revelaria de forma mais clara?
Será que não devemos pensar em outras formas de ação? O boicote, por exemplo. Boicote de articulistas, especialistas e, claro, de assinantes. Não tenho nenhuma certeza sobre isso, mas será que não valeria a pena tentar? Creio que com o boicote o jornal que já disse, certa vez, que  tem “rabo preso com leitor” ficará , simplesmente, sem rabo!
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