Mostrando postagens com marcador diferenças. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador diferenças. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 9 de junho de 2017

Viva a riqueza da diversidade, de culturas, pessoas e pensares!



domingo, 6 de maio de 2012

Frei Betto e a questão da Alteridade


ALTERIDADE  

 FREI BETTO



  O que é alteridade? É ser capaz de apreender o outro na plenitude da sua dignidade, dos seus direitos e, sobretudo, da sua diferença. Quanto menos alteridade existe nas relações pessoais e sociais, mais conflitos ocorrem. 

A nossa tendência é colonizar o outro, ou partir do princípio de que eu sei e o que sei é suerior ao que ele sabe e, assim, ensino para ele. Ele não sabe. Eu sei melhor e sei mais do que ele. Toda a estrutura do ensino no Brasil, criticada pelo professor Paulo Freire, é fundada nessa concepção. O professor ensina e o aluno aprende. É evidente que nós sabemos algumas coisas e, aqueles que não foram à escola, sabem outras tantas, e graças a essa complementação vivemos em sociedade. Como disse um operário num curso de educação popular: "Sei que, como todo mundo, não sei muitas coisas". 

Numa sociedade como a brasileira em que o apartheid é tão arraigado, predomina a concepção de que aqueles que fazem serviço braçal não sabem. No entanto, nós que fomos formados como anjos barrocos da Bahia e de Minas, que só têm cabeça e não têm corpo, não sabemos o que fazer das mãos. Passamos anos na escola, saímos com Ph.D., porém não sabemos cozinhar, costurar, trocar uma tomada ou um interruptor, identificar o defeito do automóvel... e nos consideramos eruditos. E o que é pior, não temos equilíbrio emocional para lidar com as relações de alteridade. Daí por que, agora, substituíram o Q.I. para o Q.E., o Quociente Intelectual para o Quociente Emocional. Por quê? Porque as empresas estão constatando que há, entre seus altos funcionários, uns meninões infantilizados, que não conseguem lidar com o conflito, discutir com o colega de trabalho, receber uma advertência do chefe e, muito menos, fazer uma crítica ao chefe. 

Bem, nem precisamos falar de empresa. Basta conferir na relação entre casais. Haja reações infantis... Quem dera fosse levada à prática a idéia de, pelo menos a cada três meses, um setor da empresa fazer uma avaliação, dentro da metodologia de crítica e autocrítica. E que ninguém ficasse isento dessa avaliação. Como Jesus um dia fez, ao reunir um grupo dos doze e perguntou: "O que o povo pensa de mim?" E depois acrescentou: "E o que vocês pensam de mim?" 

Quem, na cultura ocidental, melhor enfatizou a radical dignidade de cada ser humano, inclusive a sacralidade, foi Jesus. O sujeito pode ser paralítico, cego, imbecil, inútil, pecador, mas ele é templo vivo de Deus, é imagem e semelhança de Deus. Isso é uma herança da tradição hebraica. Todo ser humano, dentro da perspectiva judaica ou cristã, é dotado de dignidade pelo simples fato de ser vivo. Não só o ser humano, todo o Universo. Paulo, na Epístola aos Romanos, assinala: "Toda a Criação geme em dores de parto por sua redenção". Dentro desse quadro, o desafio que se coloca para nós é como transformar essas cinco instituições pilares da sociedade em que vivemos: família, escola, Estado (o espaço do poder público, da administração pública), Igreja (os espaços religiosos) e trabalho. Como torná-los comunidades de resgate da cidadania e de exercício da alteridade democrática? O desafio é transformar essas instituições naquilo que elas deveriam ser sempre: comunidades. E comunidades de alteridade. 

Aqui entra a perspectiva da generosidade. Só existe generosidade na medida em que percebo o outro como outro e a diferença do outro em relação a mim. Então sou capaz de entrar em relação com ele pela única via possível porque, se tirar essa via, caio no colonialismo, vou querer ser como ele ou que ele seja como sou -a via do amor, se quisermos usar uma expressão evangélica; a via do respeito, se quisermos usar uma expressão ética; a via do reconhecimento dos seus direitos, se quisermos usar uma expressão jurídica; a via do resgate do realce da sua dignidade como ser humano, se quisermos usar uma expressão moral. Ou seja, isso supõe a via mais curta da comunicação humana, que é o diálogo e a capacidade de entender o outro a partir da sua experiência de vida e da sua interioridade.  

Frei Betto é escritor, autor de "Alfabetto - autobiografia escolar" (Ática), entre outros livros. Fonte Adital

domingo, 6 de fevereiro de 2011

Espiritualidade é algo bem diferente de Religião




Carlos Antonio Fragoso Guimarães

Vemos, atualmente, o recrudescimento de violências de vários matizes, de pressões variadas para a imposição de dogmas e visões fundamentalistas sobre o que os homens consideram Deus (ou Alá, ou Divindade... os rótulos não importam) ou a Verdade (religiosa, econômica, política). Ao mesmo tempo vemos que alguns homens e mulheres constituem uma minoria que superam estas visões estreitas, e fundam filosofias e civilizações, ou dão exemplos marcantes de vida... Assim temos um Gandhi, uma Madre Tereza, um Albert Schweitzer, um Dalai Lama, um Chico Xavier. Então, será que estes últimos têm a mesma "religião" que aqueles outros?

Vejamos algumas diferenças entre os que possuem espiritualidade e os que possuem religião:

Quem possui espiritualidade dialoga, quem possui religião muito fala e pouco escuta;

Quem possui espiritualidade muitas vezes prefere o silêncio ao conflito, sem descuidar das tarefas segundo seus princípios. Quem possui religião muitas vezes toma partido, estimula o conflito e prefere dizer aos outros o aquilo que acha que deve ser feito, poucas vezes dando-se ao trabalho do exemplo;

Vemos nos discursos de um Buda, de um Cristo, de um Lao-Tsé semelhanças de conteúdo, especialmente no que se refere a ética. Vemos quase sempre nos discursos dos que possuem religião exclusividade de interpretação;

Quem tem espiritualidade faz, pouco fala e nunca grita. Quem tem religião grita, muito fala e pouco faz.

A espiritualidade eclode em quem desperta para o fato da irmandade humana por ver no próximo um semelhante mesmo independentemente dos mandamentos sagrados. Já quem tem religião muitas vezes retira das escrituras aquilo que lhe serve de espelho em justificativas para opressão.

O possuidor de espiritualidade vive e convida à autonomia responsável e fraterna. O que possui religião quer ser ou líder ou ser parte de um rebanho.

Quem tem espiritualidade reconhece, nos demais caminhos e tradições espirituais, princípios espirituais iguais aos seus, mesmo que com roupagens culturais diferenciadas, e se encanta por saber que a mesma essência se expressa em diferentes modos. Quem tem religião só consegue enxergar nos demais as diferenças e estas o assustam.

A espiritualidade é para quem se deixa maravilhar pela vida e beleza do mundo externo e a profunidade misteriosa do mundo interno. A religião é para quem quer regras e fórmulas para se julgar seguro por não ter ainda segurança de pensar.

Quem tem espiritualidade vê nos textos os dedos que apontam para além das palavras. Quem tem religião toma a letra escrita dos textos como o além em forma de palavras.

A espiritualidade é para quem sente que a maior alegria está na partilha de bens e na convivência entre iguais. A religião muitas vezes é uma espécie de negócio onde se tenta convencer a divindade de que o fiel é merecedor de vantagens materiais e vitórias sociais por tomar partido da religião e batalhar para impor a visão aos demais, não levando em conta que a verdade do outro pode ser tão boa quanto a sua;

A religião estabelece "verdades" e dogmas inquestionáveis. A espiritualidade estimula a pensar e a refletir para a decisão de seguir o melhor caminho compatível para a individualidade de cada pessoa;

A religião ameça com castigos, amedronta com demônios. A espiritualidade liberta consciências e estimula a ação para um mundo melhor.

A religião nos impõe culpas, a religiosidade fala que ninguém nasce sabendo mas todos podem progredir e se aperfeiçoar.

A religião fala de Deus, mas não o vivencia. A espiritualidade sente Deus e por isso Dele pouco fala e se o faz, é por meio de imagens e metáforas.

A religião é instituição, geralmente atreladas a prédios, locais, bancos. A espiritualidade está no coração que também a percebe no outro e na natureza.

A religião fala para acreditar sem questionar. A espiritualidade convida para nada tomar como definitivo já que o humano sempre se transforma e se aproxima do divino.

A religião fala para amar os iguais e desconfiar ou odiar o diferente. A espiritualidade faz perceber que as diferenças são os mais ricos aspectos da humanidade.

A religião busca sempre mais fieis. A espiritualidade está mais interessada na qualidade que na quantidade.

A religião aparenta. A espiritualidade se preocupa com a essência.

A religião põe a felicidade em outro mundo, a espiritualidade diz que a felicidade pode estar neste mundo.

A religião fala de uma vida eterna. A espiritualidade nos mostra o eterno em nossas vidas.