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sexta-feira, 27 de março de 2020

Evangelismo ultra-conservador e fundamentalista lançou o Brasil em uma nova Idade Média. Artigo de Rui Martins, publicado no Observatório da Imprensa


   Ao contrário de todos os cientistas do mundo, alguns pastores evangélicos, entre eles Silas Malafaia e Edir Macedo, garantem não haver nenhum risco de transmissão do coronavírus nos seus templos, durante as pregações bíblicas, cantos de hinos religiosos e testemunhos de fé. Como ninguém irá conferir os nomes dos mortos ou das pessoas internadas por coronavírus com os dos membros dessas igrejas evangélicas, o risco de um desmentido é remoto.


Do Jornal GGN:


Evangelismo lançou o Brasil numa nova Idade Média, por Rui Martins

Brasil está destruído pela crendice fundamentalista bíblica, pela mentira levada ao povo e pelas ações dos vendilhões do templo
Por Rui Martins
Ao contrário de todos os cientistas do mundo, alguns pastores evangélicos, entre eles Silas Malafaia e Edir Macedo, garantem não haver nenhum risco de transmissão do coronavírus nos seus templos, durante as pregações bíblicas, cantos de hinos religiosos e testemunhos de fé. Como ninguém irá conferir os nomes dos mortos ou das pessoas internadas por coronavírus com os dos membros dessas igrejas evangélicas, o risco de um desmentido é remoto.
Como se não bastasse essa afirmação mentirosa, a Justiça também parece compartilhar dessa crença e oferece sua ajuda. Foi assim que, na semana passada, contra tudo e contra todos, um juiz do Rio de Janeiro decidiu ignorar a recomendação de confinamento da Organização Mundial da Saúde e de todos os países do mundo. O pastor evangélico Malafaia tinha sido autorizado pelo juiz, contra decisão do governador do Rio de Janeiro, a continuar reunindo os fiéis em suas igrejas, certo de que Deus os protegeria do coronavírus. Diante da má repercussão dessa vitória judicial, foi o próprio pastor quem recuou, afirmando ficarem abertos os templos, mas sem realização de cultos coletivos. O episódio mostra que o Brasil descobriu a máquina do tempo e decidiu retornar à Idade Média.
O recuo do pastor Malafaia evitou um certo caos, pois a exceção jurídica brasileira iria incentivar outras igrejas, não só evangélicas, a desejar se beneficiar da mesma decisão judicial para suas comunidades terem livre ingresso em seus templos e cultos, missas e sessões. Sem medo do vírus, porque seriam protegidas por Deus, dentro das mesmas crendices medievalescas com resultado danoso para a Europa, cuja população morria como moscas mesmo com o uso de água benta.
E, nessa altura, qual deverá ser a nossa atitude? De um lado, um presidente que convocou o povo para se manifestar nas ruas com o risco de contrair coronavírus, cuja irresponsabilidade justifica um impeachment. E agora, na sequência, um pastor pretensamente protegido por Deus, que insistia em reunir seu rebanho de fiéis incautos em cultos de centenas de pessoas, entre as quais haveria contaminados pelo vírus, sujeitos a internação e mesmo com risco de morte. Nos dois casos, é inquietante a irresponsabilidade. Ambos seriam punidos em qualquer outro país.
O fanatismo dos evangélicos
O Brasil vive hoje em plena Idade Média. Piores do que o coronavírus são a ignorância, o cheiro fétido do beatismo, o charlatanismo e a enganação pregada e propagada pelos chamados pastores evangélicos. Uma versão moderna de Deus e o Diabo na Terra do Sol, que deixaria apoplético Glauber Rocha – o ranço imanente dessa versão bíblica evangélica tirada dos porões do Mayflower, trazida ao Brasil e implantada à força de cantos e gritos histéricos na nossa cultura.
Deus acima de tudo – acima da ciência, da inteligência, da lógica, do saber, da literatura, da história. Mas que Deus? O Deus das fogueiras da Idade Média, das inquisições, das teorias imbecis, do céu, da salvação das almas e do medo do inferno. O Deus dos espertos que se aproveitam dos ignorantes, dos simples e pobres de espírito.
Nas análises do Brasil de hoje de Bolsonaro (econômicas, sociais, políticas e outras tantas), falta este ângulo resultante da nefasta influência evangélica – o de um Brasil destruído pela crendice bíblica, pela mentira levada ao povo e pelas ações dos vendilhões do templo.
Enquanto o mundo inteiro se preparava para enfrentar esse novo vírus, capaz de relançar o clima de medo, da morte e da peste que enlutou a Europa durante 400 anos anos, um presidente cego ria do perigo, no qual lançava seus fanáticos seguidores.
Quatro dias depois, o mesmo presidente – apostando na idiotice desses seguidores desmemoriados – reapareceu de máscara mal colocada no rosto, reconhecendo o risco do vírus.
Tarde demais: no domingo em que a irresponsabilidade do presidente levou às ruas cegos seguidores em mais de 200 cidades, num fenômeno de infecção coletiva, milhares contraíram o vírus do qual desdenhavam e em cuja existência não acreditavam. Logo veremos as dramáticas consequências.
Um presidente que expõe sua gente ao risco de morte não é digno do cargo e está merecendo um impeachment imediato por motivo de saúde pública.
Porém, isso dificilmente ocorrerá. Em torno dele, protegendo-o, estão os sacerdotes da mentira e da morte, iguais àqueles vestidos de preto e cheirando enxofre da Idade Média; aproveitando-se do nome de Cristo, eles continuarão suas rendosas pregações.
Seus pobres fiéis explorados não percebem, mas seus pastores são, sem dúvida, as Bestas do Apocalipse.
Enquanto o planeta (ou será que a Terra é plana, como diz o guru do presidente?) pede para todos evitarem sair às ruas para se proteger contra a nova peste, Silas Malafaia, o nome de um deles, reagiu contra a exigência de as igrejas fecharem suas portas para evitar aglomerações.
Finalmente aceitou cancelar os cultos, mas as igrejas permanecerão abertas, prestando assistência religiosa individual.. Malafaia deve ter uma oração secreta contra o coronavírus, enviada por Satanás, se não for ele próprio o Capeta…
E o autoproclamado bispo Edir Macedo é outro que desdenha do risco mortal do vírus. O grande antídoto contra todos os vírus seriam a Bíblia e o Evangelho, versão Igreja Universal, exatamente como diziam os sacerdotes na época da peste negra, faz sete séculos; eram os anunciadores da morte.
Ora, essa mesma Bíblia, no Livro das Revelações, ou Apocalipse, tem um versículo destinado a todos quantos se enriquecem e enganam o povo com religiões: “Sai dela, povo meu, para que não sejas participante dos seus pecados, e para que não incorras nas suas pragas” (Apocalipse 18:4).
Sou ateu, creio na capacidade do homem para vencer obstáculos como os vírus e vencer principalmente os enganadores que se aproveitam da ignorância para lançar seu manto de trevas, como na Idade Média.
***
Rui Martins é jornalista, escritor, ex-CBN e ex-Estadão, exilado durante a ditadura. Criador do primeiro movimento internacional dos emigrantes, Brasileirinhos Apátridas, que levou à recuperação da nacionalidade brasileira nata dos filhos dos emigrantes com a Emenda Constitucional 54/07. Escreveu Dinheiro sujo da corrupção, sobre as contas suíças de Maluf, e o primeiro livro sobre Roberto Carlos, A rebelião romântica da Jovem Guarda, em 1966. Foi colaborador do Pasquim. Vive na Suíça, correspondente do Expresso de LisboaCorreio do Brasil e RFI.

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sexta-feira, 6 de setembro de 2019

O farisaísmo e hipocrisia dos falsos Messias e dos auto-intitulados “Escolhidos por Deus”, por Lucia Helena Issa



"Estamos nos transformando em um dos países mais odiados do mundo (estive em mais de 80 países e vivi seis anos na Europa, onde o Brasil sempre foi muito amado e hoje é odiado). Estamos nos transformando rapidamente em um país boicotado e ridicularizado no mundo todo pelo mandatário cruel, criminoso, incendiário, vingativo e analfabeto que elegemos."


Os “Escolhidos por Deus”

por Lucia Helena Issa, no Jornal GGN

A imagem, as cores do templo, os símbolos e as palavras ouvidas ali nos remetem a um culto medieval.
Edir Macedo, um sujeito que foi preso no Brasil por estelionato e charlatanismo e é  investigado  em Portugal por suspeita de tráfico internacional de crianças, um sujeito banido de países da África por charlatanismo, coloca as suas duas mãos “ungidas” sobre a cabeça de Jair Bolsonaro e, enquanto uma música que nos remete a uma marcha fúnebre é ouvida, o autoproclamado  “bispo” declara solenemente: “Uso de toda a autoridade que me foi concedida por Deus para abençoar este homem, para lhe dar sabedoria, para que este país seja transformado(… )”
De fato, o Brasil está se transformando, senhor Edir Macedo.
Estamos nos transformando em um dos países mais odiados do mundo (estive em mais de 80 países e vivi seis anos na Europa, onde o Brasil sempre foi muito amado e hoje é odiado). Estamos nos transformando rapidamente em um país boicotado e ridicularizado no mundo todo pelo mandatário cruel, criminoso, incendiário, vingativo e analfabeto que elegemos.
Os casos de racismo, assassinatos e tortura de jovens pobres, indígenas ou negros aumentaram assustadoramente desde a posse de Bolsonaro, a Amazônia arde em chamas depois que o “escolhido por Deus” conseguiu destruir o IBAMA, cortar imensas verbas usadas na fiscalização de incêndios criminosos e vem desumanizando nossos irmãos indígenas a ponto de afirmar que não haveria mais “um centímetro de terra demarcada para terras indígenas” .
Nós nos transformamos em uma nação em que mulheres muçulmanas doces e pacíficas são agredidas na rua por usarem um véu, exatamente o mesmo véu que Maria usava. Nós nos transformamos em um país que incendeia, não apenas as suas florestas, mas também templos espíritas e afro-brasileiros, a mando de líderes “evangélicos” como o senhor.
Nós nos transformamos em um país onde uma menininha linda, que entrevistei há 3 anos, é agredida no Rio com uma pedrada na cabeça, apenas por estar vestida de branco e voltando de uma oração em um templo afro-brasileiro. Nós nos transformamos em um país que agride meu amigo muçulmano Mohamed Ali por estar vendendo esfihas em Copacabana depois de fugir da guerra da Síria para não morrer.
Graças a pessoas como o senhor, que também se  autoproclamam  “escolhidos por Deus”, nós realmente nos transformamos em um país que faz com que milhares de brasileiros percam seus empregos e voltem para a miséria porque o presidente “escolhido por Deus” desrespeita  absurda e cruelmente todos os países árabes, nossos grandes parceiros comerciais há décadas, em nome de uma subserviência vergonhosa a um anão comercial mas gigante da indústria da morte: Israel.

De fato, a nossa transformação tem assustado o mundo civilizado e deliciado apenas Netanyahu e Donald Trump, que também se veem como “escolhidos por Deus”. Sujeitos   denunciados pela ONU por crimes contra CRIANÇAS nas fronteiras dos EUA e pelo assassinato e tortura de crianças palestinas.
Nós nos transformamos, sim, senhor Edir Macedo, em uma nação onde uma senhora idosa, com o rosto da bondade, por ser de uma religião africana, pode ser agredida a pontapés por traficantes ” evangélicos” que agora matam os que ousam ter uma crença religiosa diferente.
Como jornalista, cristã e ativista pela paz e pela tolerância religiosa, sinto imensa vergonha do país em que nos transformamos, graças aos “escolhidos por Deus”. Um deus que, como seguidora de Cristo, eu jamais reconhecerei.
Um deus venal, que celebra a morte e que cheira a enxofre.

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2019

The Intercept: Como eu descobri o plano de dominação evangélico – e larguei a igreja


"Não se pode acreditar que obras como as de Edir Macedo e Fernando Guillen sejam  consideradas apenas literatura religiosa. Elas revelam a existência de um projeto de poder."



Como eu descobri o plano de dominação evangélico – e larguei a igreja

Túlio Gustavo — 0h02
Em 2009, houve um grande encontro evangélico em Belo Horizonte onde lideranças traçaram frentes para dominar o Brasil. A estratégia tem dado certo demais.











The Intercept Brasil:


EM MEADOS DE 2007, converti-me ao cristianismo, bastante influenciado por uma família de empresários, donos de alguns bazares no 3º Distrito de Duque de Caxias, no Rio, onde moro até hoje, para quem trabalhei no final da adolescência e início da vida adulta, e que depois viriam a se tornar bons amigos. Eu tinha 17 anos e muitas dúvidas existenciais. As clássicas perguntas “por que estamos aqui”?, “para onde vamos?” dominavam os meus pensamentos. Em termos práticos, também não sabia o que fazer profissionalmente.
Depois da entrada na igreja evangélica, a minha mudança de hábitos foi muito rápida. Fui movido por aquele fanatismo típico dos que encontram algo pelo qual são arrebatados. Até quis abandonar tudo para me tornar missionário. Mas minha mãe me dissuadiu da ideia – hoje, penso, ainda bem.
Em poucos meses, eu já havia decidido passar pelo batismo e estava absolutamente integrado à pequena congregação de denominação batista renovada, que era filial de uma igreja matriz localizada no bairro da Taquara, também em Duque de Caxias. Logo nos primeiros meses já havia lido toda a Bíblia e dedicava quase todo o meu tempo à releitura dela e de livros cristãos, bem como a ouvir gravações de sermões de pregadores famosos e a participar das atividades da igreja.
Sempre fui muito influenciado pelos artistas e pastores de ministérios famosos de Minas Gerais. Eu me identificava muito com a abordagem e interpretações dos textos bíblicos, principalmente do padre Gustavo Bessa (marido da cantora Ana Paula Valadão), que tem uma habilidade fantástica de contextualizar às passagens bíblicas com a época em que foram escritas, e extrair delas uma mensagem com foco no amor de Deus. Na música, era fã de Antônio Cirilo, Ricardo Robortella, do Diante do Trono e dos cantores que saíram de lá para fazer carreira solo, como Nívea Soares, André Valadão, Mariana Valadão.
Há cerca de dez anos, saí numa caravana de amigos rumo ao X Congresso Internacional de Louvor e Adoração do Diante do Trono, realizado na Igreja Batista da Lagoinha, em Belo Horizonte, onde, atualmente, a ministra Damares Alves exerce o seu sacerdócio.
E foi lá que descobri que, dois meses depois, mais precisamente em junho de 2009, aconteceria um outro evento, o Congresso Nacional dos 7 Montes, que tinha por objetivo reunir cristãos e lideranças de todos os lugares do Brasil para convocar uma grande mobilização em prol da necessidade de a Igreja ir além das suas quatro paredes para conquistar espaços para o Reino de Deus – o que eles chamaram de “7 montes da sociedade”, a saber: 1) artes e entretenimento, 2) mídia e comunicação, 3) governo e política, 4) economia e negócios, 5) educação e ciência, 6) família, 7) igreja e religião.
Não se pode acreditar que obras como as de Edir Macedo e Fernando Guillen sejam  consideradas apenas literatura religiosa. Elas revelam a existência de um projeto de poder.
O tema me pareceu muito interessante, e eu queria muito participar daquele evento também, mas a grana era curta demais e eu não poderia voltar a Minas dois meses depois. Mas o propósito para o qual as lideranças de diversos cantos do mundo se reuniram em Lagoinha estava num livro lançado naquele mesmo ano chamado “SE7E MONTES”, do apóstolo Fernando Guillen, que coordenou o evento.
O livro de Guillen é um manual que procura justificar e contextualizar o projeto de poder das igrejas evangélicas se utilizando de textos do Antigo Testamento, que, segundo o autor, revelariam um modelo ideal de sociedade pretendido por Deus, além de conter estratégias de atuação e oração para que a igreja conquiste cada um dos “7 montes”.
Importante ressaltar que esse movimento das igrejas evangélicas, principalmente as neopentecostais, tem origem em uma interpretação bíblica que alguns teólogos chamam de Teologia do Domínio. Segundo essa teoria, a igreja teria recebido as promessas divinas direcionadas ao povo de Israel no Antigo Testamento, que envolvem fartura, domínio e governo de territórios e lugares de destaque na Terra. Seria o modo de refletir aqui o que seria o Reino dos Céus prometido para os que creem no Cristo.
Daí, por exemplo, o grande avanço das campanhas por prosperidade financeira nas igrejas, principalmente vistos na Igreja Universal do Reino de Deus e nas neopentecostais, e a ascensão da bancada evangélica no Congresso e seu engajamento em relação aos valores e costumes na sociedade. Vale lembrar que esse tipo visão ganhou muito destaque às vésperas das eleições do ano passado, quando Edir Macedo lançou o livro “Plano de Poder”, cujo foco era o mesmo: mobilizar os evangélicos para que a igreja o Brasil no sentido literal da palavra.
Estima-se que os evangélicos já sejam mais de 40 milhões de brasileiros e que, em 10 anos, a maior parte da população fará parte do grupo que reúne ao menos uma vez por semana para serem orientados por seus líderes. Desse modo, não se pode ingenuamente acreditar que obras como essas do Edir Macedo e do Fernando Guillen sejam apenas consideradas literatura religiosa. Pelo contrário, elas revelam a existência de um projeto de poder político-religioso em curso – que está sendo bem-sucedido.

A igreja em células

Eu comecei a me dar conta disso alguns anos depois, quando a primeira igreja da qual fui membro iniciou uma transição para um modelo litúrgico e de evangelismo chamado MDA, sigla para Modelo de Discipulado Apostólico. Esse modelo é muito parecido ao que fazem as empresas de marketing multinível, conhecidas popularmente por pirâmide. De acordo com ele, a igreja deve ser dividida em pequenos grupos, chamados células, contendo cada uma um líder, que reúne seus liderados semanalmente na casa de um deles, para ensiná-los de acordo com um roteiro pré-estabelecido e, assim, formar novos líderes para que surjam novas células a partir dali.


Túlio Gustavo, autor do texto, em uma pregação.
Túlio Gustavo, autor do texto, em uma pregação.

Foto: Arquivo pessoal/Túlio Gustavo
Não é nenhuma novidade que ocorram reuniões de cristãos em suas casas. Sempre existiram cultos em lares na história da igreja evangélicas. A novidade é que o MDA – e modelos semelhantes como o G12, o Governo dos 12 – monta essa estrutura de evangelismo baseada numa necessidade de produção de resultados, sujeição de seus membros a rígidas regras de hierarquia e disciplina. Além disso, todos os líderes têm de participar de um retiro espiritual chamado Encontro com Deus.
No retiro, são realizadas técnicas com forte apelo emocional com estímulos ao arrependimento, perdão, “quebra de maldições”, prosperidade, libertação, cura interior e, ao final, quando todos estão absolutamente sensibilizados e comovidos, apresenta-se a visão MDA como o modelo de igreja a ser seguido.
Ninguém que participa tem autorização para revelar aos outros o que acontece no encontro. O que funciona, na verdade, como uma baita propaganda – quem participa apenas espalha para os outros que o que acontece nos retiros “é tremendo”, o que só desperta curiosidade. Assim, quando a transição já se afunilava demais e eu era um dos poucos que resistia à ideia, acabei topando participar. Ainda que de forma indireta, existia uma pressão para que todos participassem. Se eu não fizesse, chegaria o momento no qual eu não poderia estar mais nas atividades de púlpito (cantar e pregar), que eram coisas que eu amava fazer.
Antes de sair, disse aos pastores: “eu tenho certeza que isso vai ‘funcionar’. É uma excelente ferramenta de marketing e foi feito pra dar certo. Mas não acho que seja isso que Jesus queira que façamos.”
De fato, pode ser uma experiência que impressione a quem se deixa envolver emocionalmente. No início do evento, existe um ritual de silêncio, que motiva uma certa introspecção e evita a troca de opiniões que possam distrair os participantes. O que é uma sacada inteligentíssima, principalmente para segurar os crentes mais “cascudos”, que estão sempre desconfiados. O evento se resume a palestras com forte apelo emocional, para no final te dizer: “viu como tudo isso foi legal? É a visão MDA que a gente tem que seguir e espalhar pra todo mundo!”
Por convicções pessoais, nunca acreditei que fosse aquele o jeito certo de fazer as coisas na igreja. Era tudo muito roteirizado e com muitas táticas que me faziam sentir estar vendendo alguma coisa ao invés de estar pregando a fé. Incomodava-me muito, principalmente, a rigorosa hierarquia criada entre discípulos e discipuladores. Resisti o quanto pude mas, por ser um membro influente na congregação, tendo acesso aos bastidores e a ministrar no púlpito, além de amigo de muita gente, larguei a igreja para evitar um mal-estar maior. Parei de ir aos cultos. Voltei à vida normal.
Mas antes de sair, lembro como fosse hoje o que disse aos pastores: “eu tenho certeza que isso vai ‘funcionar’. É uma excelente ferramenta de marketing e foi feito pra dar certo. Mas eu não acho que seja isso que Jesus queira que façamos”.
Tentei depois fazer parte de outra denominação mais tradicional, mas o rigor nos costumes, como o jeito de vestir e o excessivo conservadorismo do ponto de vista das estruturas sociais, em constante conflito com a minha visão e posicionamento político, foi me deixando cada vez mais distante, até que se tornou insuportável ouvir alguns discursos sem que aquilo me fizesse mal, ainda que também tivesse sido muito bem recebido por lá.
Como eu previa, as igrejas que se utilizam desses modelos de “discipulado” vêm crescendo cada vez mais, como é o caso da própria Igreja Batista da Lagoinha, e aumentado seu espectro de influência em diversos setores da sociedade. Somando os avanços desse movimento ao grande poder dos canais de comunicação religiosos, não há outro caminho senão considerar como verdadeiros atos políticos as manifestações de Damares, Macedos, e Felicianos e Malafaias.

Os montes da sociedade

As afirmações da nova ministra “Não é a política que vai mudar esta nação, é a igreja” e “É o momento de a Igreja governar”, extraídas de sermões religiosos nos anos de 2013 e 2016 – período em que já atuava como assessora parlamentar –  estão se tornando realidade. Sem contar o papel decisivo do voto evangélico nas últimas eleições, no monte do governo e política. Em 2016, o PRB, partido dominado por membros da Universal, elegeu 105 prefeitos, incluindo Marcelo Crivella para a prefeitura do Rio.
No monte da mídia e comunicação, a igreja já exerce influência desde as concessões das rádios gospel que foram fundamentais para levar (e manter) no poder nomes como o de Anthony Garotinho, Eduardo Cunha e Arolde de Oliveira. Um estudo da Ancine constatou que 21% da programação da TV Aberta no Brasil em 2016 era de conteúdo religioso.
Quando Damares diz que, no governo Bolsonaro, “meninas seriam chamadas de princesas e meninos de príncipes”, e que “meninas vestiriam rosa e meninos azul”, como metáforas para ilustrar seu posicionamento avesso ao que chama de ideologia de gênero, estamos diante, na verdade, de uma demonstração da intenção de dominar o que eles chamam no livro de monte das artes e do entretenimento.
Conforme esclarecido pelo apóstolo Fernando Guillen, este monte diz respeito a tudo que envolve
“Música, artes, esportes, pintura, escultura, dança, fotografia literatura, poesia, dramatização, teatro, filmes, roupas e vestuário, design, cores, vídeo games, ou seja, tudo o que expressa a criatividade e beleza de Deus, que é usado pela sociedade para celebrar, entreter ou para desfrutar a vida”.
Trata-se, portanto, de uma evidente intenção de adequar elementos culturais de uma sociedade ao que entende por princípios cristãos. Veja a crescente produção de novelas e filmes voltados ao público gospel, e exemplos como as Nights Gospel voltado para jovens, e Cultos à Fantasia para servir de contraponto ao Dia das Bruxas.
A princípio, não é nenhum problema que determinado segmento social se comporte, se vista ou se entretenha conforme o que aprecia ou acredita. É até bem normal que as coisas sejam dessa forma. O problema é querer que essa forma de ser seja a única válida e universal e lançar mão de censura a manifestações artísticas que não se enquadram nas regras cristãs como tem sido feito com o carnaval no Rio de Janeiro, com o corte de subvenções das escolas de samba, e medidas que cerceiam as liberdades individuais e não reconhecem o direitos das minorias.
No âmbito da família, que inclusive integra o nome da pasta ocupada pela ministra, a visão do livro é a de que existe certa hierarquia conjugal entre homem e mulher que seria instituída por Deus:
“Mulheres emergirão no ministério, um poderoso exército de mulheres que entendam a importância de respeitar a ordem sacerdotal do varão, serão levantadas com muita ousadia e poder.” (pág. 131)
Não se sabe ainda o tipo de políticas públicas que se pretende com a criação desse Ministério da Família, mas é importante notar que a ministra Damares já disse que “mulher nasceu pra ser mãe”, e que se preocupa com a ausência da mulher na casa, além de fazer questão de afirmar que é “feminina e não feminista”.
No que tange à ciência e educação, sem entrar no mérito das especulações que rondam o novo governo, imbuídas de anticientificismo e avessas ao debate crítico em sala de aula, o livro do apóstolo Fernando Guillen aborda o tema da seguinte forma:
“A educação, próxima da religião cristã, é um elemento indispensável das instituições republicanas, a base sobre a qual os governos livres devem se apoiar. O Estado deve se apoiar na base da religião, e deve preservar esta base, ou ele mesmo irá ruir. Mas o suporte que a religião dá ao Estado irá obviamente terminar no momento em que a religião perder seu alcance na mente do povo. O próprio fato de que o Estado precisa da religião como um suporte para a sua própria autoridade exige que alguns meios para o ensino da religião sejam empregados. O melhor que se pode fazer é desistir das instruções de que a religião não deve ser ensinada em suas escolas.” (pág. 175)
Note como o discurso no livro é alinhado com as declarações de Damares quando ela diz que a igreja teria perdido espaço nas escolas quando “deixou” que a teoria da evolução entrasse sem questionar a ciência. Assim, travestidos de uma luta contra uma inexistente doutrinação marxista nas escolas, os interesses por trás do programa Escola sem Partido, com amplo apoio da ala conservadora da sociedade, o que inclui os evangélicos, têm o cunho de eliminar o debate crítico e progressista, baseado em crenças humanísticas das salas de aula, e podem abrir espaço para implantação de métodos de ensino baseados numa cosmovisão cristã, e significar um danoso retrocesso científico a longo prazo.

O fator Melquisedeque

Note também que ao mesmo tempo que Jair Bolsonaro defende a “integração dos índios à sociedade” – como se os índios precisassem se adequar ao homem urbano e não fossem gente –, de rever a demarcação das terras indígenas e de enfraquecimento da Funai, a nova ministra dos Direitos Humanos demonstra uma grande preocupação em alcançar esses povos indígenas e resgatar os que precisam de ajuda.
Mas que ajuda é essa?
Ao final de seu discurso de posse, Damares, que no início se autointitulou “terrivelmente cristã”, fez referência ao “Grande Tupã”, uma demonstração que pareceu ser de tolerância à cultura dos povos indígenas. Mas não se engane. Curiosamente, foi exatamente essa, a de fazer alusão ao Deus Cristão. uma das ferramentas dos primeiros jesuítas na catequização dos índios.
A agenda do novo governo pode estar abrindo espaço para um novo movimento de catequização de indígenas em pleno século 21.
Essa é uma estratégia de evangelização que missionários cristãos chamam de “Fator Melquisedeque”. Baseada numa tese desenvolvida por Don Richardson, num famoso livro que leva o mesmo nome, acredita-se que Deus tenha preparado todos os povos para receberem o evangelho através de uma revelação geral que serviria de base para receber a revelação especial que é a do cristianismo.
O exemplo bíblico que embasa a tese é extraído de uma passagem no livro de Atos dos Apóstolos 17.22-23, onde o apóstolo Paulo prega aos gregos em Atenas que cultuavam em um altar que era dedicado a um “deus desconhecido”. Na passagem, Paulo se aproveita da expectativa dos atenienses em saber quem era o “deus desconhecido” e lhes apresenta o evangelho de Jesus Cristo.
As boas intenções de Damares para com os indígenas precisam ser observadas com muito cuidado – sob a roupagem de trabalho humanitário, explorando o tema do infanticídio de crianças indígenas, que gera comoção pública, a agenda do novo governo pode estar abrindo espaço para um novo movimento de catequização de indígenas em pleno século 21.

O neopentecostalismo cultural

É importante frisar, que a grande maioria das pessoas que chega às igrejas evangélicas sequer se dá conta da interferência dessas relações de poder da igreja na sociedade. Geralmente, as pessoas procuram a igreja para se sentir acolhida e encontrarem alguma esperança em meio ao caos que pode ser na sua intimidade, vida financeira, relações com a família etc.
Lembro-me de uma vez indagar um pastor muito íntegro sobre por que ele apoiava um candidato à prefeitura de reputação conhecidamente péssima. De um modo puro, ele me respondeu: “Ele está aqui próximo da gente. Posso entrar em contato com ele facilmente pra ajudar um irmão a conseguir uma internação ou o enterro de alguém. Infelizmente, a nossa comunidade têm necessidades desse tipo e ele pode nos ajudar.”
Recentemente, membros da bancada evangélica se manifestaram com grande entusiasmo sobre o posicionamento pró-Israel do governo por acreditar ser esse um dos sinais do Apocalipse. Tenho certeza que muitos crentes sequer se dão conta de todas as circunstâncias que envolvem o conflito árabe-israelense e não estão pensando no assunto sob a ótica da política externa. Eles só sabem que Israel é o “povo escolhido”, então deve ser bom apoiá-lo.
Minha crítica não é aos crentes nem ao cristianismo. Na verdade, eu vivi alguns dos momentos mais felizes e importantes da minha vida dentro da religião, fiz grandes amigos e o interesse na leitura depois da conversão foi fundamental pra me motivar a voltar a estudar e ter conseguido passar num dos vestibulares mais difíceis e concorridos do país, que é o do Direito da Universidade Estadual do Rio de Janeiro, a UERJ, onde devo me formar neste ano.
Esse não é o manifesto de uma alma magoada, muito pelo contrário. É um desabafo de preocupação de alguém que é grato e não gostaria de ver a religião sendo usada para fins distintos daquilo que entendeu pela mensagem do evangelho do Cristo, que é levar fé, esperança e amor e não domínio sobre os homens.
Aliás, essa é a lição bíblica da Torre de Babel (Gênesis 11). Quando Ninrode quis construir uma estrutura “que chegasse aos céus” para governar sobre os homens de modo que todos estivessem no mesmo lugar e falassem a mesma língua, Deus não se agradou, e espalhou todos e confundiu suas línguas.
Entendo que o proselitismo é um dos fundamentos do cristianismo. Desde sempre, é uma crença que se propõe a conversão de outras pessoas. O que, a princípio, não é nenhum problema, desde que não se utilize de mentiras, abusos ou violência. Também entendo que é até natural que a representação política de determinado segmento da sociedade aumente se a população que a ele pertence também aumenta de forma expressiva. Mas a laicidade do Estado precisa ser respeitada para que violações dos direitos das minorias não sejam legitimadas em nome de uma imposição moral de viés religioso.
Dentre as muitas comparações possíveis feitas com a figura do presidente Jair Bolsonaro, espero que não estejamos diante de uma espécie de Imperador Constantino do século 21 responsável pela neopentecostalização da República. Quanto a Damares, não a menosprezem. Ela sabe muito bem o que quer dizer.
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domingo, 20 de janeiro de 2019

A roupa suja da CNN Brasil: escravidão, grampos e Edir Macedo em Artigo de Pietro Locatelli e Andrew Fishman publicado no The Intercept





A roupa suja da CNN Brasil: escravidão, grampos e Edir Macedo

Piero Locatelli, Andrew Fishman — 12h20

Os escândalos do Rubens Menin e Douglas Tavolaro, os fundadores da CNN Brasil, levantam dúvidas sobre a integridade editorial da nova emissora.












The intercept. - OS JORNALISTAS DA CNN em inglês usam constantemente o termo “extrema direita” para se referir ao presidente Jair Bolsonaro e já se referiram a ele como “um político brasileiro conhecido por seus pronunciamentos misóginos, racistas e homofóbicos”.
Anunciada na segunda-feira passada, a CNN Brasil deve seguir um caminho bem diferente, ao menos se depender do histórico dos seus dois sócios. Um deles é Douglas Tavolaro. Coautor da autobiografia do seu tio, o pastor Edir Macedo, foi ele o responsável pela aproximação entre o líder da Universal e Jair Bolsonaro. Antigo vice-presidente de jornalismo da Record, ele esteve por trás das entrevistas laudatórias feitas pela emissora com Bolsonaro durante a campanha.
O outro sócio do novo canal será o empresário mineiro Rubens Menin, fundador da MRV, a maior empresa de construção civil do país. Líder no Minha Casa Minha Vida, a empresa também conta com um histórico de trabalho escravo em suas obras, e uma participação no lobby contra o combate ao crime no Brasil.
Assim como Tavolaro, Menin teceu diversos elogios a Bolsonaro, aos generais do seu governo e até à proximidade com seus filhos. Assim como Bolsonaro, Menin mistura família e negócios, e hoje seu filho Rafael comanda a sua empresa. “A participação da família de forma profissional, legítima e justa é salutar na vida das empresas. Bolsonaro está demonstrando que na política isso também é possível”, disse ele em entrevista ao Correio Braziliense, após afirmar que os empresários são “eufóricos” com o futuro sob o novo presidente.
Na sexta-feira, Menin e Tavolaro se reuniram com o presidente e seu filho Eduardo no Palácio do Planalto. No início desta semana, Eduardo twittou seu ceticismo sobre a nova emissora.
Menin esperou a eleição passar para poder se posicionar sobre a contenda presidencial. Consciente de que o risco político não pode atrapalhar os seus negócios, já doou para candidatos de cargos inferiores de vários partidos, mas só começou a elogiar Bolsonaro um mês após as eleições. A assessoria de imprensa da CNN Brasil negou que essa posição política do dono haverá qualquer influência em seu canal.
Menin, que foi extremamente próximo dos três últimos presidentes brasileiros, agora está fazendo movimentos para se aproximar de Jair Bolsonaro. É um homem ligado ao poder, esteja ele na mão de quem estiver.
A CNN Brasil começará sua operação na segunda metade de 2019, e pretende contratar 400 jornalistas, um número impressionante para o atual mercado do jornalismo por aqui. Uma nota à imprensa afirma que a CNN Brasil terá total independência, mas poderá passar o conteúdo produzido em outras línguas. Não foi a primeira tentativa de trazer o canal para cá, mas aquelas feitas nos últimos vinte anos fracassaram.
Rubens Menin, chairman and chief executive officer of MRV Engenharia e Participacoes SA, speaks during the 2017 Exame Chief Executive Office (CEO) event in Sao Paulo, Brazil, on Tuesday, Aug. 8, 2017. Executives from companies based in Brazil meet to discuss strategies to succeed in today's Brazilian economy. Photographer: Patricia Monteiro/Bloomberg via Getty Images
Rubens Menin, fundador da MRV Engenharia e Participacoes SA, fala durante o evento Exame Chief Executive Office event em São Paulo em 2017.
 
Foto: Patricia Monteiro/Bloomberg via Getty Images

Trabalho Escravo

A CNN mantém, desde 2011, o Freedom Project, um projeto dedicado a “jogar luz sobre a escravidão contemporânea”. Ele tem entre seus objetivos “amplificar as vozes dos sobreviventes” e “responsabilizar governos e empresas”. Na sua descrição, afirma que “a escravidão não é coisa do passado.”
Em 2019, a escravidão perdura, mas a posição da CNN parece ter mudado ao conceder o uso da marca a Menin. Sua construtora foi colocada na “lista suja” do trabalho escravo por violações em três locais de trabalho diferentes. Mais do que apenas uma mancha de reputação, a lista impedia que as empresas contraíssem empréstimos do governo.
Quando a MRV foi colocada na lista, Menin defendeu veementemente sua empresa e começou a trabalhar obstinadamente para atrapalhar a luta do Brasil contra o trabalho escravo. A Abrainc, uma associação de incorporadores liderada por Menin, entrou com um processo no Supremo Tribunal Federal para suspender a lista.
O pedido foi atendido pelo então presidente do STF, Ricardo Lewandowski, durante o recesso de Natal. Menin recebeu uma decisão favorável em apenas quatro dias e a lista, considerada um exemplo por entidades como a Organização Internacional do Trabalho, foi imediatamente desmantelada.
A lista voltou mais enxuta, e não contém mais o nome da MRV. Além disso, ela também não tem mais o poder de cortar o crédito de ninguém. Se tornou um mero decorativo.
Quando Michel Temer tentou emplacar uma portaria para atrapalhar o combate ao trabalho escravo no Brasil, usou um exemplo da MRV para dizer que os fiscais estavam atuando de maneira exagerada. A MRV, claro, negou estar por trás disso.
A CNN não quis comentar os problemas em específico, e se resumiu a afirmar a mim por e-mail que “faz uma auditoria abrangente de todos seus parceiros de licenciamento. Esse é o caso dos licenciados que vão operar a CNN Brasil, que têm nosso total apoio”.
Rubens Menin fez sua fortuna rapidamente, de forma aparentemente milagrosa. Em quatro anos, sua empresa saltou do 12º lugar para o primeiro no ranking das maiores construtoras civis brasileiras, onde permanece até hoje. Em 2014, a Forbes estimou seu patrimônio líquido em US$ 1,2 bilhão.
Embora Menin defenda valores econômicos liberais em seus textos e entrevistas, sua fortuna foi feita com financiamento público. A empresa é a principal construtora do Minha Casa, Minha Vida. Ele opera principalmente nas faixas 2 e 3 do programa, voltadas à classe média e com financiamento baseado no FGTS.

Fox News do Brasil

Menin anunciou a nova estação de televisão ao lado de seu sócio e futuro CEO da CNN Brasil, Douglas Tavolaro. Por quase 10 anos, Tavolaro atuou como vice-presidente de jornalismo da Record TV, que se tornou um porta-voz não-oficial do presidente de extrema-direita Jair Bolsonaro durante e após as eleições de outubro.
Depois de um punhado de aparições desastrosas na TV durante a campanha e de receber uma facada, Bolsonaro decidiu controlar rigidamente o acesso à mídia e não participou de outros debates.
Sem Bolsonaro, a Record cancelou o debate entre os candidatos que aconteceria no seu canal, ao contrário de outras emissoras, que levaram os programas adiante mesmo sem ele. No dia do último debate na Globo, a emissora do bispo exibiu uma entrevista chapa-branca com Bolsonaro enquanto os outros candidatos discutiam propostas no outro canal.
A proximidade continuou após as eleições. Entrevistas recheadas de parabéns ao novo presidente, sem jamais pressioná-lo, foram exibidas na televisão, sempre sob a supervisão de Tavolaro.
Em Outubro do ano passado, o Intercept publicou uma longa declaração de um jornalista do site da Record, o R7, que reclamou de novas diretrizes editoriais para beneficiar a campanha de Bolsonaro. Como resultado, o R7 publicou um ataque ao Intercept enquanto um repórter investigativo da TV Record começou a pesquisar uma matéria mais aprofundada, que nunca foi ao ar.
As relações políticas de Tavolaro não começaram com Bolsonaro. No ano passado, escutas telefônicas da polícia revelaram suas negociações com Aécio Neves, que iria ajudá-lo a conseguir verbas de patrocínio da Caixa Econômica Federal em troca da exibição de uma entrevista com o então-presidente, Michel Temer.
Em março do ano passado, o Intercept revelou que a esposa de Tavolaro, Raissa Caroline Lima — que era uma assessora bem-paga na Assembléia Legislativa de São Paulo — viajava regularmente pelo mundo com o marido durante as votações-chave em que deveria estar presente. O Intercept Brasil não conseguiu localizá-la em seu escritório. O trabalho remoto para os funcionários é estritamente proibido na Assembléia, uma medida para reprimir o uso de funcionários fantasmas. Alguns meses depois, Lima foi discretamente exonerada de seu cargo.
Nos últimos anos, Tavolaro teria se afastado de algumas das tarefas do jornalismo cotidiano para ser o co-autor da biografia e de dois roteiros de filme sobre Edir Macedo. Ele agora parece estar se afastando de Macedo para lançar a CNN brasileira, uma marca obtida da Turner Broadcasting System por uma quantia desconhecida. A assessoria de imprensa negou especulações de que Edir Macedo tenha envolvimento direto no novo projeto.
A Record tenta se aproximar da CNN desde 2007, mas a emissora norte americana rejeitou suas ofertas, pois não queria ser associada à poderosa mega-igreja evangélica de Macedo.
Há anos, a direita brasileira tem clamado por sua própria versão da Fox News, enquanto a Record e SBT deram passos nessa direção, é um sonho que nunca foi totalmente realizado. A chave para desvendar esse sonho pode estar na combinação de Rubens Menin e Douglas Tavolaro sob a bandeira da CNN Brasil.
Nem todos, no entanto, estão convencidos. Ativistas de extrema direita alinhados com Bolsonaro já foram ao Twitter para criticar a nova rede. “CNN BRASIL vai contratar 400 jornalistas para difamar a mudança pela qual o Brasil está passando?”, twittou um funcionário do blog de fake news Terça Livre. “É o [George] Soros quem vai mandar naquela joça”, referindo-se ao filantropo liberal, um frequente bicho papão em teorias de conspiração da extrema-direita (o fundo de Soros detém uma pequena participação na empresa-mãe da CNN). Luciano Hang, o empresário que o Ministério Público do Trabalho quis multar em R$100 milhões por coagir seus funcionários a votar em Bolsonaro, também tuitou criticamente sobre o acordo: “Mais uma TV comunista no Brasil. Alguém pode montar uma Fox?”
Então, será que a CNN Brasil será uma conspiração comunista apoiada por Soros, tentando acabar com o movimento Bolsonaro? Menin respondeu a Hang: “Luciano, não caia nessa história.”
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