Mostrando postagens com marcador Frei Betto. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Frei Betto. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 8 de maio de 2025

Frei Betto analisa o que esperar do novo Papa, o Leão XIV

 

Da TV GGN:




terça-feira, 23 de agosto de 2022

Gritos de independência, por Frei Betto

 

Ainda hoje se discute se o grito decorreu do sonho de uma pátria independente ou da ambição de um império tropical

por Frei Betto*, no GGN:


Comemoram-se no próximo 7 de setembro o bicentenário da independência do Brasil. Consta que não houve sangue, apenas um grito, o do Ipiranga. Teria marcado a ruptura com a tutela portuguesa, assim como hoje somos supostamente soberanos frente ao FMI… E manteve no poder o português D. Pedro I, que se proclamou imperador do Brasil. Terminou seus dias como Duque de Bragança. Figura, na relação dinástica, como o 28º rei de Portugal.

Entre o fato e a versão do fato, a história oficial tende à segunda. Ainda hoje se discute se o grito decorreu do sonho de uma pátria independente ou da ambição de um império tropical. Ficou o grito parado no ar, expresso nos rostos contorcidos das figuras de Portinari, no romanceiro de Cecília Meireles, no samba agônico de Chico Buarque, no coração desolado das mães brasileiras que enterram, todo ano, recém-nascidos precocemente tragados pelos recursos que faltam à área social e são canalizados para abastecer o pantagruélico orçamento secreto. Mães que choram, inconsoladas, seus filhos mortos por balas “perdidas” ou vítimas do belicismo policial que sacrifica Genivaldos sem que os assassinos sejam incriminados pela Justiça.

O Brasil, pátria vegetal, ostenta o semblante de uma cordialidade renegada por sua história. Sob o grito da independência ressoam os gritos dos indígenas trucidados pela empresa colonizadora, agora restaurada pela assepsia étnica proposta pelos integracionistas ogropecuários que julgam os territórios dos povos originários privilégio nababesco.

Ecoam também os gritos das vítimas indefesas de entradas e bandeiras; Fernão Dias sacrificando o próprio filho em troca de um punhado de pedras preciosas; bandeirantes travestidos em heróis da pátria pelo relato histórico dos brancos – versão barroca do esquadrão da morte rural, diriam os indígenas se figurassem como autores em nossa historiografia.

Abafam-se, em vão, os gritos arrancados à chibata dos negros arrastados de além-mar, sem contar as revoltas populares que minam o mito de uma pacífica abnegação só presente no ufanismo de uma elite que julga violento o MST, e não a arcaica existência do latifúndio improdutivo.

Pátria armada de preconceitos arraigados, casa grande que traça os limites intransponíveis da senzala na pendular política de períodos autoritários alternados com ciclos de democracia tutelar, já que, neste país, a coisa pública tende a ser negócio privado, com tabelas para partidos de aluguel.

Indígenas, negros, mulheres, desempregados, sem-terra e sem-teto não merecem a cidadania, reza a prática daqueles que sequer se envergonham de legislar em prol do próprio bolso. Para a galera, as tripas, marca indelével em nossa culinária, como a feijoada. Corrompem-se sonhos, valores e sentimentos ao venderem por trinta dinheiros o projeto libertário de uma geração. Os que querem governar a sociedade não suportam os que querem governar com a sociedade, abraçados aos fundamentos da democracia.

Ferida em sua autoestima e com mais de 30 milhões de famintos e quase 70 milhões endividados, a pátria navega a reboque do receituário neoliberal, que dilata a violência, exalta as milícias, o poder paralelo do narcotráfico, a concentração de renda. Se o salário não paga a vida, a vida parece não valer um salário. Os que proclamam que a única utopia é acreditar no fim das utopias trafegam cercados de esquemas de segurança pelas ruas infestadas de famílias miseráveis e, nos semáforos, se exibem jovens malabaristas do circo de horrores. Não se dão conta de que grades e guardas os fazem prisioneiros da própria ostentação.

No Brasil, a inflação corrói o parco auxílio, a agricultura familiar não merece crédito, os hospitais estão doentes, a saúde se encontra em estado quase terminal, a escola gazeteia, o sistema previdenciário associa-se ao funerário e a esperança se reduz a um novo par de tênis, um emprego qualquer, alçar a fantasia pelo consolo eletrônico das telenovelas.

O grito dos excluídos ecoa neste bicentenário da independência. Ecoa na contramão dos caminhos que restauram o passado, traçados por aqueles que ainda incensam a ditadura e reforçam o apartheid social. Ecoa indignado frente à avalanche de corrupção que ameaça nossa frágil democracia. Ecoa do peito daqueles que exigem o direito dos pobres acima da ganância dos credores. Ecoa do clamor por ética na política, transparência nos poderes da República e severa punição aos que traíram os anseios do povo, inoculando-nos o medo de ter esperanças.

*Frei Betto é escritor, autor de Tom vermelho do verde (Rocco), entre outros livros.

segunda-feira, 1 de agosto de 2022

Fé na política - Frei Betto no Entre Vistas com Juca Kfouri

 

O Entre Vistas desta semana recebe o frade e escritor Frei Betto. Juca Kfouri e Frei Betto batem um papo sobre eleições, religião e a necessidade dos movimentos sociais apoiarem a democracia.




sexta-feira, 28 de fevereiro de 2020

Frei Betto discorre, em artigo, sobre a gestão e desejos da extrema-direita e o "cheiro de golpe no ar". Prefácio de Leonardo Boff



"Quando uma autoridade do Poder Executivo convoca uma manifestação contrária a outro Poder da República, no caso o Legislativo, isso é gravíssimo e sinaliza conspiração golpista", escreve o escritor e teólogo Frei Betto

Resultado de imagem para aroeira Bolsonaro charge

I - Introdução de Leonardo Boff

Frei Betto é um dos analistas sociais dos mais argutos e certeiros. Por anos viveu com poderosos, cobrando-lhes uma opção pelo povo e pelos pobres e, nos países socialistas, fazendo que os vários Estados que se confessavam ateus, superassem seu confessionalismo às avessas e assumissem o caráter laico do Estado. Neste artigo nos faz um alerta: vivemos  à mercê de um presidente que magnifica ditaduras e louva torturadores, despreza a democracia e desconsidera totalmente a Constituição que jurou observar. Pois ele e os seus que o cercam, em grande parte militares, estão tramando um golpe, abolir os demais poderes e se impor como único poder ditatorial. Graças a Deus, a sociedade reagiu, as mais altas instâncias judiciais o denunciaram e encontrou o repúdio da maioria dos brasileiros. Vale ler este artigo, pois nos esclarece o que está em andamento e, infelizmente, poderá acontecer

II - Cheiro de golpe no ar

Por Frei Betto

O ministro Augusto Heleno, do Gabinete de Segurança Institucional (GSI), sugeriu, em 19 de fevereiro, que o povo deve ir às ruas “contra a chantagem do Congresso”. Bastou este aceno autoritário para os aliados do presidente convocarem manifestação para o domingo, 15 de março.


Ora, quando uma autoridade do Poder Executivo convoca uma manifestação contrária a outro Poder da República, no caso o Legislativo, isso é gravíssimo e sinaliza conspiração golpista ou, sem rodeios, o fechamento do Congresso. Tomara que o Poder Judiciário, representado pelo STF, proíba tal manifestação, pois caso contrário correrá o risco de assinar o fechamento de suas portas.
O protesto a favor do governo será na mesma data em que, há cinco anos, ocorreu a maior das manifestações pelo impeachment da presidente Dilma Rousseff.
Foi com uma escalada de manifestações prévias, como a Marcha com Deus e a Família pela Liberdade, que os militares prepararam o golpe de 1964 que derrubou João Goulart, presidente constitucional e democraticamente eleito.
O sonho de todo político com vocação para caudilho ou ditador, avesso ao regime democrático, é governar pela supressão de todas as vias institucionais entre ele e o povo. Uma via direta, sem intermediação dos poderes Legislativo e Judiciário, hoje facilitada pelas redes digitais.
Autoconvencido de que só ele sabe discernir o que convém ou não à nação, o autocrata despreza o sistema partidário, trata os políticos como seus serviçais, e se relaciona com a Constituição como o terrorista islâmico com o Alcorão. Ele ouve, mas não escuta; fala, mas não dialoga; age, mas não reflete. Seu pendor absolutista é, hoje, facilitado pelas redes digitais, por meio das quais faz chegar à população sua vontade e determinações.
Frente a um povo despolitizado, desprovido de consciência crítica, o déspota emite suas opiniões como se fossem leis. Seus adeptos, movidos pelo senso de “servidão voluntária”, na expressão da La Boétie, o erigem à condição de “mito”, aquele que se torna paradigma, referência acima de qualquer suspeita ou juízo.
O caudilho sabe que, sem apoio popular, seu futuro político corre o risco de virar mero sonho. Para evitá-lo, recorre ao  recurso de armar mãos e espíritos. Liberar o porte e a posse de armas, e plantar no coração e na mente de seus adeptos o ódio mortal a seus inimigos, reais ou imaginários. Essa segunda medida se efetiva pela descontextualização política, como se a conjuntura, os princípios constitucionais e o consenso entre os seus pares poucos importassem.
Dotado da uma intuição impetuosa e de agressividade incontida, o autocrata fragmenta seu discurso, adota um vocabulário chulo, desdenha a coerência, troca o atacado pelo varejo, a floresta pelas árvores, e cria um deus à sua imagem e semelhança. Ele não tem outra proposta ou programa que não seja se perpetuar no poder e transformar sua vontade em lei. Por isso suas medidas provisórias têm o peso de definitivas.
Onde andam os partidos de oposição, as centrais sindicais, os movimentos populares? Se o desemprego afeta mais de 11 milhões de pessoas; a economia retrocede; a saúde e a educação estão sucateadas; e 165 milhões de brasileiros sobrevivem com renda mensal inferior a dois salários mínimos; qual a razão de tamanha inércia daqueles que deveriam manifestar a sua indignação diante deste governo?
Convém ter em mente o poema de Eduardo Alves da Costa, equivocadamente atribuído a Maiakóvski: “Na primeira noite eles se aproximam e roubam uma flor do nosso jardim./ E não dizemos nada./ Na segunda noite, já não se escondem: pisam as flores, matam nosso cão, e não dizemos nada./ Até que um dia, o mais frágil deles entra sozinho em nossa casa, rouba-nos a luz e, conhecendo nosso medo, arranca-nos a voz da garganta./ E já não podemos dizer nada”.
Resultado de imagem para aroeira Bolsonaro charge


quinta-feira, 2 de janeiro de 2020

A face injusta do Brasil de Moro e Bolsonaro, por Frei Betto




Desde a ditadura militar (1964-1985), nunca houve tantos retrocessos nos direitos humanos no Brasil como agora, sob Bolsonaro.

Paraisópolis

do Portal Vermelho

A face injusta do Brasil

por Frei Betto

Terras demarcadas são invadidas por mineradoras, madeireiras e empresas agropecuárias. Indígenas são assassinados, entre eles o líder Paulo Paulino Guajajara, no Maranhão, a 1º de novembro, por defender a reserva de seu povo da ação de madeireiros ilegais. Os casos de feminicídio se multiplicam; uma mulher é violentada a cada quatro minutos no País.
O presidente da Fundação Palmares, Sérgio Camargo, cuja nomeação está sendo contestada pela Justiça, cospe na memória de Zumbi, herói quilombola, ao declarar que no Brasil não existe racismo, e que “a escravidão foi benéfica para seus descendentes”. No Paraná, o jornalista Aluízio Palmar é processado por denunciar torturas no quartel do 1º Batalhão de Fronteira, em Foz do Iguaçu. O País tem mais de 12 milhões de desempregados, e o salário mínimo a vigorar em 2020 foi reduzido duas vezes pelo governo.
À beira de fazendas e estradas brasileiras, 80 mil famílias se encontram acampadas. O ex-presidente Lula é condenado sem provas. A mídia crítica ao governo é sabotada mediante o cancelamento de anúncios oficiais, e sofrem ameaças as empresas privadas que nela fazem publicidade de seus produtos. Alunos são incentivados a delatar professores que não rezam pela cartilha do Planalto. O mercado de armas e munições é estimulado pelo governo, que jamais condenou as milícias paramilitares que, ao arrepio da lei, disputam territórios com o narcotráfico.
Além dos direitos humanos, são violados também os direitos da natureza. A floresta amazônica é incendiada criminosamente para abrir espaço ao gado e à soja, enquanto Bolsonaro declara que as queimadas são “um problema cultural”. A Justiça atua com morosidade e leniência na punição dos responsáveis pelas tragédias resultantes do rompimento das barragens de Mariana (MG), em 2015, e Brumadinho (MG), em 2019, que ceifaram 382 vidas. O óleo derramado no litoral brasileiro não é saneado com a urgência e o rigor que a situação exige.
Segundo Marcelo Neri, da FGV, em dez anos o Brasil tirou 30 milhões de pessoas da pobreza. Porém, entre 2015 e 2017, 6,3 milhões de pessoas voltaram à miséria. Nos últimos três anos, a pobreza aumentou 33%. Segundo o IBGE, 58,4 milhões de pessoas vivem hoje abaixo da linha de pobreza, com renda mensal inferior a R$ 406. A lista de excluídos só aumenta: entre 2016 e 2017 subiu de 25,7% para 26,5 o que significa a exclusão de quase 2 milhões de pessoas. Segundo estes dados, 55 milhões de brasileiros passam por privações, dos quais 40% no Nordeste. Enquanto isso, a renda per capita dos ricos subiu 3%, e a dos pobres desceu 20%. Doenças já erradicadas retornaram, e a mortalidade infantil avança sobre as famílias mais pobres.
Somos uma nação rica, muito rica. Mas sumamente injusta. O PIB brasileiro é de R$ 6,3 trilhões, suficiente para garantir R$ 30 mil per capita/ano para cada um dos 210 milhões de habitantes. Ou R$ 10 mil por mês para cada família de 4 pessoas.
Direitos humanos não é “coisa de bandido” como alardeiam os que jamais pensam nos direitos dos pobres. É um dos mais elevados marcos jurídicos e morais de nosso avanço civilizatório. Embora sejam violados sistematicamente por quem se proclama democrata e cristão, são irrevogáveis. Resta, agora, a ONU convocar os países a elaborar e assinar a Declaração Universal dos Direitos da Natureza, nossa “casa comum”, na expressão do papa Francisco.
Frei Betto, frade dominicano e escritor, é autor de Batismo de Sangue e Minha Avó e Seus Mistérios

Você pode fazer o Jornal GGN ser cada vez melhor

Assine e faça parte desta caminhada para que ele se torne um veículo cada vez mais respeitado e forte.



sexta-feira, 13 de setembro de 2019

Frei Betto: "A Amazônia exige novo paradigma"



Frei Betto é conhecido principalmente como defensor e promotor dos movimentos sociais. É um grande pedagogo, apreciado aqui e fora do país, além de ser um exímio escritor e teólogo. Agora tem se ocupado com a questão ecológica, especialmente, em vista do Sínodo panamazônico a realizar-se em outubro em Roma. Exatamente em Roma, porque o Papa Francisco quer chamar a atenção de toda a Humanidade por esta região, a maior floresta úmida do mundo que cobre 9 países é é fundamental para a sobrevida dos fatores que garantem nossa existência na Terra. O Papa já afirmou que “a Terra se encontra numa emergência mundial” dadas as muitas e funestas agressões contra ela, contra seus solos, seu sub-solo, contra as águas, contra as florestas e a maioria dos ecossistemas. Esse artigo de Frei Betto serve de material de reflexão e soa como um alarme a despertar nossa responsabilidade para o futuro comum Terra-Humanidade.  Leonardo Boff

amazonia_brasil.jpg
Deforestación de la selva amazónica en el estado brasileño de Rondônia
Foto: NASA

A Amzônia exige novo paradigma


Frei Betto 

O papa Francisco, em janeiro de 2018, declarou em Puerto Maldonado, Peru: “A Amazônia é disputada por várias frentes: de um lado, o neoextrativismo e a forte pressão de grandes interesses econômicos ávidos por petróleo, gás, madeira, ouro e monocultivos industriais. Por outro, a ameaça procedente da perversão de certas políticas que promovem a ‘preservação’ da natureza sem levar em conta o ser humano.”
Francisco ressaltou que uma ecologia integral, que não separe ser humano e natureza, exige nova antropologia e novo conceito de desenvolvimento, nos quais a prioridade seja condições dignas de vida da população local.
Isso implica defender os direitos humanos e a Mãe Terra; resistir aos megaprojetos que causam morte; e adotar um modelo econômico sustentável, solidário, sintonizado com os ecossistemas e os saberes ancestrais dos amazônicos.
Em discurso aos participantes da conferência sobre “Transição energética e cuidado de nossa casa comum”, em 2018, no Vaticano, Francisco frisou que a busca de um crescimento econômico contínuo provocou graves efeitos ecológicos e sociais, porque “nosso atual sistema econômico prospera devido ao aumento de extrações, consumo e desperdício. A civilização requer energia, mas o uso da energia não deve destruir a civilização.”
Para o sínodo amazônico, a ecologia integral ou socioambiental exige mudança de paradigma, mas também uma espiritualidade da reciprocidade, de harmonia, que mantenha o equilíbrio do bioma capaz de refletir um sentido de convivência dentro dessa imensa maloca comum que é a Terra. Em suma, passar de uma cultura do descarte a uma cultura do cuidado.
Para tanto, é preciso promover uma educação ecológica que nos induza a outro estilo de vida, livre do consumismo obsessivo e do paradigma tecnoeconômico. Como propõe o papa Francisco na encíclica socioambiental “Louvado sejas” (Laudato Si), “dar o salto ao Mistério, onde a ética ecológica adquire seu sentido mais profundo”. Esta experiência espiritual, sagrada, ocorre quando se é capaz de solidariedade, responsabilidade e cuidado.
Pretende o sínodo que cada paróquia da Amazônia se torne uma ecoparóquia, e adote uma ecopedagogia. Isso significa aprender a conviver com a família de Deus que habita o território panamazônico, no qual há culturas ocultas, isoladas, sem contato com o mundo não indígena; outras que rejeitam convictamente a civilização ocidental; e ainda as que mantêm boas relações com a Igreja sem, contudo, assumir o Evangelho como referência de vida. Existe ainda uma Igreja autóctone, integrada por indígenas que relacionam seus saberes ancestrais com a palavra de Deus.
A proposta é que a Igreja presente na Amazônia, através de paróquias e congregações religiosas, se oponha aos projetos que ameaçam a floresta e os povos que a habitam, critique o paradigma tecnocrático, o antropocentrismo irresponsável, e o relativismo moral, e valorize a economia solidária, de valor de uso dos bens da natureza, e descarte a que prioriza o valor de troca.
Na visita à Amazônia, em janeiro de 2018, o papa Francisco, frisou que “a cultura de nossos povos é um sinal de vida. A Amazônia, além de ser uma reserva da biodiversidade, é também uma reserva cultural que deve ser preservada frente aos novos colonialismos.” E fez este apelo aos indígenas: “Ajudem seus bispos, ajudem seus missionários e missionárias a ser um com vocês e, no diálogo entre todos, possam formar uma Igreja com rosto amazônico e indígena”.
 Frei Betto é escritor, autor de “Uala, o amor” (FTD), entre outros livros.

sexta-feira, 9 de agosto de 2019

As 10 táticas destrutivas de Bolsonaro para o Brasil, por Frei Betto




O governo é real. Dissemina o horror e enxerga em quem se opõe a ele o fantasma do comunismo



Por Frei Betto
No Brasil de Fato
Em 1934, o embaixador José Jobim (assassinado pela ditadura, no Rio, em 1979) publicou o livro “Hitler e os comediantes” (Editora Cruzeiro do Sul). Descreve a ascensão do líder nazista recém-eleito, e a reação do povo alemão diante de seus abusos. Não se acreditava que ele haveria de implantar um regime de terror. “Ele não gosta de judeus”, diziam, “mas isso não deve ser motivo de preocupações. Os judeus são poderosos no mundo das finanças, e Hitler não é louco de fustigá-los”. E sabemos todos que deu no que deu.
Estou convencido de que Bolsonaro sabe o que quer, e tem projeto de longo prazo para o Brasil. Adota uma estratégia bem arquitetada. Enumero 10 táticas mais óbvias:

1. Despolitizar o discurso político e impregná-lo de moralismo. Jamais ele demonstra preocupação com saúde, desemprego, desigualdade social. Seu foco não é o atacado, é o varejo: vídeo com “golden shower”; filme da “Bruna, surfistinha”; kit gay (que nunca existiu); proteção da moral familiar etc. Isso toca o povão, mais sensível à moralidade que à racionalidade, aos costumes que às propostas políticas. Como disse um evangélico, “votei em Bolsonaro porque o PT iria fazer nossos filhos virarem gays”.
2. Apropriar-se do Cristianismo e convencer a opinião pública de que ele foi ungido por Deus para consertar o Brasil. Seu nome completo é Jair Messias Bolsonaro. Messias em hebraico significa ‘ungido’. E ele se acredita predestinado. Hoje, 1/3 da programação televisiva brasileira é ocupado por Igrejas Evangélicas pentecostais ou neopentecostais. Todas pró-Bolsonaro. Em troca, ele reforça os privilégios delas, como isenção de impostos e multiplicação das concessões de rádio e TV.
3. Sobrepor o seu discurso, desprovido de fundamentos científicos, aos dados consolidados das ciências, como na proibição de figurar o termo ‘gênero’ nos documentos oficiais e dar ouvidos a quem defende que a Terra é plana.
4. Afrouxar leis que possam imprimir no cidadão comum a sensação de que “agora, sou mais livre”, como dirigir sem habilitação; reduzir os radares; desobrigar o uso de cadeirinha para bebês etc.
5. Privatizar o sistema de segurança pública. Melhor do que gastar com forças policiais e ampliação de cadeias é possibilitar, a cada cidadão “de bem”, a posse e o porte de armas, e o direito de atirar em qualquer suspeito. E, sem escrúpulos, ao ser perguntado o que tinha a declarar diante do massacre de 57 presos (sob a guarda do Estado) no presídio de Altamira, respondeu: “Pergunta às vítimas”.
6. Desobstruir todas as vias que possam dificultar o aumento do lucro dos grandes grupos econômicos que o apoiam, como o agronegócio: isenção de impostos; subsídios a rodo; suspensão de multas; desativação do Ibama; diferençar “trabalho análogo à escravidão” de trabalho escravo e permitir a sua prática; sinal verde para o desmatamento e invasão de terras indígenas. Estes são considerados párias improdutivos, que ocupam despropositadamente 13% do território nacional, e impedem que sejam exploradas as riquezas ali contidas, como água, minerais preciosos e vegetais de interesse das indústrias de produtos farmacêuticos e cosméticos.
7. Aprofundar a linha divisória entre os que o apoiam e os que o criticam. Demonizar a esquerda e os ambientalistas, ameaçar com novas leis e decretos a liberdade de expressão que desgasta o governo (The Intercept Brasil), incutir a xenofobia no sentimento nacional.
8. Alinhamento acrítico e de vassalagem à direita internacional, em especial a Donald Trump, e modificar completamente os princípios de isonomia, independência e soberania que, há décadas, regem a diplomacia brasileira.
9. Naturalizar os efeitos catastróficos da desigualdade social e do desequilíbrio ambiental, de modo a se isentar de atacar as causas.
10. Enfim, deslegitimar todos os discursos que não se coadunam ao dele. Michel Foucault, em “A ordem do discurso” (2007), alerta para os sistemas de exclusão dos discursos: censura; segregação da loucura; e vontade de verdade. O discurso do poder se julga dono da verdade. Não por acaso, na campanha eleitoral, Bolsonaro adotou, como aforismo, o versículo bíblico “Conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará” (João 8, 32). A verdade é ele, e seus filhos. Seu discurso é sempre impositivo, de quem não admite ser criticado.
Na campanha eleitoral, a empresa BS Studios, de Brasília, criou o jogo eletrônico Bolsomito 2K18. No game, o jogador, no papel de Bolsonaro, acumulava pontos à medida que assassinava militantes LGBTs, feministas e do MST. Na página no Steam, a descrição do jogo: “Derrote os males do comunismo nesse game politicamente incorreto, e seja o herói que vai livrar uma nação da miséria. Esteja preparado para enfrentar os mais diferentes tipos de inimigos que pretendem instaurar uma ditadura ideológica criminosa no país. Muita porrada e boas risadas.” Diante da reação contrária, a Justiça obrigou a empresa a retirar o jogo do ar.
Mas o governo é real. Dissemina o horror e enxerga em quem se opõe a ele o fantasma do comunismo.
 *Frei Betto é escritor, autor de “A mosca azul – reflexão sobre o poder” (Rocco), entre outros livros.

segunda-feira, 15 de abril de 2019

A ressurreição de um torturado, perseguido político e crucificado: Jesus de Nazaré, por Leonardo Boff


Resultado de imagem para Jesus prisioneiro político



    A Páscoa da ressurreição deste ano se celebra no contexto de um país onde quase toda a população está sendo sufocada por um governo de extrema-direita que tem um projeto político-social radicalmente ultra-neoliberal. Ele se mostra sem piedade e sem coração pois desmonta os avanços e os direitos de milhões de trabalhadores e de pessoas de outras categoriais sociais. Coloca à venda bens naturais pertencentes à soberania do país. Aceita a recolonização do Brasil no intuito indisfarçável de repassar a nossa riqueza para as mãos de pequenos e poderosos grupos nacionais e internacionais. Não há qualquer sentido de solidariedade e de empatia para com os mais pobres e com aqueles que vivem ameaçados de violência e até de morte pelo fato de serem negros e negras, de habitarem em favelas, indígenas, quilombolas ou de outra condição sexual.
     Andando por este país e um pouco pelo mundo, ouço, de muitas partes, gemidos de sofrimento e de indignação. Então, parece-me ouvir as palavras sagradas:”Eu vi a opressão de meu povo, ouvi os gritos de aflição diante dos opressores e tomei conhecimento de seus sofrimentos. Desci pra libertá-los e faze-los sair desse país para uma terra boa e espaçosa” (Ex 3,7-8).
       Deus deixa sua transcendência (“Deus acima de todos?”), desce e se coloca no meio dos oprimidos para ajudá-los a fazer a passagem (pessach=páscoa) da opressão para a libertação.
     Vale enfatizar o fato de que há algo de assustador e de perverso em curso: um chefe de estado exalta torturadores, elogia ditadores sanguinários e considera um mero acidente o fuzilmanto com 80 tiros, por militares, de um negro, pai de família. E ainda propõe o perdão pelos que promoveram o holocausto de seis milhões de judeus. Como falar de ressurreição num contexto de alguém que prega uma perene “sexta-feira santa” de violência? Ele tem continuamente o nome de Deus e de Jesus em seus lábios e esquece que somos herdeiros de um prisioneiro político, caluniado, perseguido, torturado e crucificado: Jesus de Nazaré. O que faz e diz é um escárnio, agravado pelo apoio de pastores de igrejas neo-pentecostais, cuja mensagem pouco ou nada tem a ver com o evangelho de Jesus.
         Apesar desta infâmia, queremos celebrar a páscoa da ressureição que é a festa da vida e da floração como a do semi-árido nordestino. Após algumas chuvas, tudo ressuscita e reverdesse.
       Os judeus, escravizados no Egito fizeram a experiência de uma travessia, de um êxodo da servidão para a liberdade em direção de “uma terra boa e vasta onde corre leite e mel”(símbolos de justiça e de paz: Ex 3,8). A “Pessach” judaica (Páscoa) celebra a libertação de todo um povo e não apenas de indivíduos.
          A Páscoa cristã se agrega à Pessach judaica, prolongando-a. Celebra a libertação da inteira humanidade pela entrega de Jesus, aceitando a injusta condenação à morte de cruz, imposta, não pelo Pai de bondade, mas como consequência de sua prática libertadora face aos desvalidos de seu tempo e por apresentar uma outra visão de Deus-Pai, bom e misericordioso e não mais um Deus castigador com normas e leis severas, fato inaceitável pela ortodoxia da época. Ele morreu em solidariedade para com todos os humanos, abrindo-lhes o acesso ao Deus de amor e de misericórdia.
          A Páscoa cristã celebra a ressurreição de um torturado e crucificado. Ele fez a passagem e o êxodo da morte para a vida. Não voltou para a vida que tinha antes, limitada e mortal como a nossa. Mas nele irrompeu um outro tipo de vida não mais submetida à morte e que representa a realização de todas as potencialides presentes nela (e em nós). Aquele ser que vinha nascendo lentamente dentro do processo da cosmogênese e da antropogênese, alcançou por sua ressurreição tal plenitude que, enfim, acabou de nascer. Como disse Pierre Teilhard de Chardin, ele, plenamente realizado, explodiu e implodiu para dentro de Deus. São Paulo entre perplexo e encantado o chama de “novissimus Adam” (1 Cor 15,45), o novo Adão, a nova humanidade. Se o Messis ressuscitou, toda a sua comunidade, que somos todos nós, até cosmos do qual somos parte, participamos desse evento bem-aventurado. Ele é o “primeiro entre mutos irmãos e irmãs ( Rom 8, 29). Nós seguiremos a ele.
           Apesar da “sexta-feira santa” do ódio e da exaltação da violência, a ressurreição nos infunde a esperança de que faremos a passagem (páscoa) desta situação sinistra para o resgate de nosso país, onde não haverá mais ninguém que ousará favorecer a cultura da violência nem exaltará a tortura, nem se mostrará insensível ao holocausto de milhões de pessoas. Aleluia. Feliz Páscoa a todos.
           Leonardo Boff, téologo e filósofo, escreveu Paixão de Cristo-paixão do mundo”, Vozes 2005.

quarta-feira, 5 de dezembro de 2018

Fundamentalismo econômico (vulgo Neoliberalismo), por Frei Betto


Resultado de imagem para fascismo e fundamentalismo

"Como a nossa contemporaneidade será conhecida no futuro? Meu palpite é que seremos conhecidos como a era do fundamentalismo econômico. Porque todas as nossas atividades giram em torno do dinheiro. Era do business. Time is money. Do lucro exorbitante. Da desigualdade social alarmante. Do império dos bancos. Era na qual apenas oito homens dispõem de renda superior à soma da renda de 3,6 bilhões de pessoas, metade da humanidade. Era na qual tudo tem valor de troca, e não de dom."


O passado costuma ser conhecido por eras, como as dos coletores e caçadores, agricultores nômades e sedentários etc. Eras do cobre, do bronze, do ferro...
A antiguidade grega se destaca como era do nascimento da filosofia (embora ela tenha outra mãe além da grega, a chinesa), assim como a República romana se destaca como a era do direito.
Como a nossa contemporaneidade será conhecida no futuro? Meu palpite é que seremos conhecidos como a era do fundamentalismo econômico. Porque todas as nossas atividades giram em torno do dinheiro. Era do business. Time is money. Do lucro exorbitante. Da desigualdade social alarmante. Do império dos bancos.
Era na qual apenas oito homens dispõem de renda superior à soma da renda de 3,6 bilhões de pessoas, metade da humanidade. Era na qual tudo tem valor de troca, e não de dom.
Esse fundamentalismo submete a política à economia. Elege-se quem tem dinheiro. Todo o projeto político é pensado em função de ajuste fiscal, redução de gastos em programas sociais, cortes orçamentários, privatização do patrimônio estatal, redução da dívida pública.
No altar das Bolsas de Valores, tudo é ofertado, em sacrifícios humanos, ao deus Mercado. É ele que, com as suas mãos invisíveis, abençoa paraísos fiscais, livra os mais ricos de pagarem impostos, eleva as cotações do câmbio, abarrota a cornucópia da minoria abastada e arranca o pão da boca da maioria pobre.
Outrora meus avós, ao despertar de um novo dia, consultavam a Bíblia. Meus pais, a meteorologia. Meus irmãos, as oscilações do mercado financeiro.
Sucateia-se o ensino público para fortalecer a poderosa rede de educação particular. Propõe-se a reforma da Previdência para desobrigar o Estado de assegurar aposentadoria e transferir o encargo aos planos de previdência privada.
A saúde há tempos está privatizada: médicos preferem fazer parto por cesariana; cirurgias desnecessárias são recomendadas; o SUS não funciona; os planos de saúde e os medicamentos têm aumentos sazonais.
O mais nefasto efeito do fundamentalismo econômico é, de um lado, a acumulação privada e, de outro, a exclusão social. Quem tem dinheiro prefere guardá-lo no banco e aplicá-lo no cassino financeiro a usufruir uma vida mais saudável e solidária.
Quem não tem padece a humilhação da pobreza, da carência de bens e direitos essenciais, do salário minguado e do desemprego.
A exclusão reforça as vias criminosas de acesso ao dinheiro e ao fetiche das mercadorias: narcotráfico, roubo, sonegação e corrupção. Agora o rei já não proclama “L’État c’est moi”. Ele brada “In Gold we trust”.

domingo, 31 de dezembro de 2017

Frei Betto: ANO NOVO, VIDA NOVA


Resultado de imagem para ano novo 2018

Ler FREI BETTO seja como analista social, escritor e homem espiritual é sempre um aprendizado. Publico este pequeno texto porque me identifico com ele. É bem isso que desejo a tantos que me seguem, ora com críticas severas,ora com benevolência. Não importa. O importante é que estejamos vivos e exerçamos a liberdade com a responsabilidade que cada um sente que pode exercer. A todos, homens e mulheres, desjp que sejam neste ano de 2018 um pouco mais humano e sensíveis aos outros que conosco compartem o pequeno tempo que o Supremo nos deu neste também pequeno Planeta. -  Leonartdo Boff

Ano Novo, Vida Nova



Estamos à porta de 2018. E o que fizemos de nós mesmos em 2017?

Há em nós abissal distância entre o que somos e queremos ser. Um apetite de Absoluto e a consciência aguda de nossa finitude. Olhamos para trás: a infância que resta na memória com sabor de paraíso perdido; a adolescência tecida em sonhos e utopias; os propósitos altruístas.

Hoje, o salário apertado num país tão caro; os filhos, sem projeto, apegados à casa e ao consumismo; os apetrechos eletrônicos que perenizam a criança que ainda resta em nós.

Em volta, a violência da paisagem urbana e nossa dificuldade de conectar efeitos e causas. Como se os infratores fossem cogumelos espontâneos, e não frutos do darwinismo econômico que segrega a maioria pobre e favorece a minoria abastada. O mesmo executivo que teme assalto e brada contra bandidos, abastece o crime consumindo drogas.

Ano novo. Vida nova? Depende. Podemos continuar a nos empanturrar de carnes e doces, encharcados em bebidas alcoólicas, como se a alegria saísse do forno e a felicidade viesse engarrafada. Ou a opção de um momento de silêncio, um gesto litúrgico, uma oração, a efusão de espíritos em abraços afetuosos.

No fundo da garganta, um travo. Vontade de remar contra a corrente e, enquanto tantos celebram a pós-modernidade, pedir colo a Deus e resgatar boas coisas: uma oração em família, a leitura espiritual, a solidão orante, o gesto solidário que ameniza a dor de um enfermo.

Reencontrar, no ano que se inicia, a própria humanidade. Despir-nos do lobo voraz que, na arena competitiva do mercado, nos faz estranhos a nós mesmos. Por que acelerar tanto, se temos que parar no sinal vermelho? Por que tanta dependência do celular e dificuldade de dialogar olho no olho?

Ano novo de eleições. Olhemos o país. As obras que beneficiam empreiteiras trazem proveito à maioria da população? Melhoram o transporte público, o serviço de saúde, a rede educacional? Nosso bairro tem um bom sistema sanitário, as ruas são limpas, existem áreas de lazer? Participamos do debate sobre a reforma da Previdência? Os políticos em quem votamos tiveram desempenho satisfatório? Prestaram contas do mandato?

Em política, tolerância é cumplicidade com maracutaias. Voto é delegação e, na verdadeira democracia, governa o povo por meio de seus representantes e de mobilizações diretas junto ao poder público. Quanto mais cidadania, mais democracia.

Ano de nova qualidade de vida. De menos ansiedade e mais profundidade. Aceitar a proposta de Jesus a Nicodemos: nascer de novo. Mergulhar em si, abrir espaço à presença do Inefável. Braços e corações abertos também ao semelhante. Recriar-se e apropriar-se da realidade circundante, livre da pasteurização que nos massifica na mediocridade bovina de quem rumina hábitos mesquinhos, como se a vida fosse uma janela da qual contemplamos, noite após noite, a realidade desfilar nos ilusórios devaneios de uma telenovela.

Feliz homem novo. Feliz mulher nova.

Frei Betto é escritor e assessor de movimentos sociais


Fonte: Leonardo Boff Wordpress

quinta-feira, 23 de novembro de 2017

Igreja e Marxismo: os passos de um novo diálogo. Por Mauro Lopes



Do site Caminho para Casa, de Mauro Lopes:



O Papa com Pepe Mujica: o diálogo floresce em várias frentes
O diálogo entre o Vaticano e a rede Transform! de marxistas europeus prepara-se para seu momento mais ousado e ambicioso; depois de três rodadas em “terreno católico” prepara-se o primeiro encontro em “solo marxista”: em 2018 será instalada a Universidade de Verão do Diálogo na ilha grega de Syros, com o apoio da Universidade do Mar Egeu e do Ministério da Educação do governo socialista da Grécia.
Entrevistei o intelectual marxista Michael Löwy e o teólogo  frei Betto sobre o assunto. Löwy é um dos protagonistas das rodas de conversa na Europa; frei Betto é um dos grandes impulsionadores do diálogo e ação comum entre cristãos e marxistas na América Latina. É valioso esse “olhar cruzado” e convergente de um marxista e um teólogo para a busca de um diálogo que ambos, amigos pessoais, realizam há anos –com algumas produções intelectuais em conjunto, especialmente sobre o ecossocialismo. Leia a íntegra das entrevistas de ambos ao final.
É algo sem precedentes na história. Nunca houve um diálogo institucional entre a Igreja Católica e organizações marxistas para buscar saídas comuns aos desafios da humanidade. Nos anos seguintes ao Vaticano II houve aproximações informações, estudos, colóquios, alguns encontros institucionais na América Latina, mas em âmbito local. Nunca houve uma agenda institucionalizada entre a CNBB ou o Celam (Conselho Episcopal Latino-Americano) e organizações marxistas. O Papa Francisco, mais uma vez, quebra os paradigmas.
Brasileiro radicado na França, ele é um dos protagonistas dos encontros. Löwy um intelectual ponte do o marxismo na direção do cristianismo. “Marxista heterodoxo”, como se define, acompanha e tem uma produção relevante sobre a Teologia da Libertação na América Latina –seu livro mais recente é O que é cristianismo da libertação, lançado em 2016 pela Fundação Perseu Abramo e Editora Expressão Popular.
Frei Betto e Michael Löwy
Frei Betto faz o mesmo movimento de Löwy, no sentido oposto: é um intelectual e um ativista ponte do cristianismo na direção do marxismo. Com mais de 60 livros publicados no Brasil e em todo o mundo, frei Betto tornou-se uma referência mundial ao lançar, em plena ditadura, em 1985, seu livro de entrevistas Fidel e a religião -conversas com Frei Betto. Como ele afirma na entrevista, ao relatar sua trajetória dialógica, “foram 33 anos de intenso trabalho para aproximar cristãos e marxistas, Igrejas cristãs e governos comunistas,  quebrando barreiras e buscando pontos de unidade.”
Seu olhar para a iniciativa do Vaticano não podia ser outro: “recebo como muita alegria essa iniciativa do papa Francisco”, ainda mais considerando a história: ”Há que recordar que Pio XII excomungava católicos que se aproximassem do partido comunista. E que o marxismo sempre foi abominado pelo papado e a cúpula da Igreja Católica”. Mas, para frei Betto, “o diálogo em si é positivo, mas insuficiente. O encontro histórico entre cristianismo e marxismo não se deu em torno de mesas de debates ou na academia. Deu-se na prática libertadora dos movimentos sociais e sindicais e, em especial, na luta dos europeus contra o nazifascismo. Portanto, há um denominador comum que une cristianismo e marxismo: os direitos dos pobres e seus anseios de libertação. É na práxis libertadora dos pobres que se encontra o campo privilegiado de união entre cristãos e marxistas.”
É este o caminho que Löwy antevê, especialmente na América Latina; para ele, um dos desdobramentos da nova etapa de relacionamento entre a Igreja e os marxistas será “a reabertura de um espaço para a Teologia da Libertação”. Mais ainda: a região é palco de algo mais avançado que a relação “entre católicos/cristãos e comunistas como dois blocos separados” foi  “o surgimento massivo de marxistas católicos,  ou católicos marxistas,  que tiveram um papel essencial em todos os movimentos sociais e combates emancipadores do continente nas últimas décadas”. Mesmo à sombra dos governos conservadores e submetidos à implacável perseguição da Cúria romana, há, segundo Löwy “milhares de marxistas cristãos/católicos pelo mundo afora, em particular na América Latina”.
João Pedro Stédile e Makota Celinha Kidevolu Gonçalves, da Coordenação Nacional das Entidades Negras (CONEN) e do Centro Nacional de Africanidade e Resistência Afro Brasileiro (CENARAB) em missa na basílica de São Pedro, durante o III Encontro Mundial dos Movimentos Populares (2016), no Vaticano
Frei Betto vê de fato muita identidade entre o cristianismo e o marxismo, e este tem sido um tema de sua reflexão ao longo dos anos: “Resumidamente, cristianismo e marxismo são legados da tradição hebraica. Se fizermos um paralelo entre as suas respectivas referências, o que haveremos de encontrar? O que a Bíblia chama de paraíso ou Jardim do Éden, o marxismo qualifica de sociedade comunista primitiva; o que a Bíblia chama de pecado original, o marxismo qualifica de alienação; a Bíblia diz que o resgate do paraíso primitivo, ou seja, do mundo no qual coincidam essência e existência humanas, se dará no terreno da história, e o marxismo idem; o protagonista desse processo libertador será, para a Bíblia, o pobre, para o marxismo, o proletariado ou os oprimidos; o objetivo, para o marxismo, é alcançar a sociedade comunista, sem classes e Estado, para a tradição cristã, o Reino de Deus, no qual o amor será o denominador comum das relações pessoais e a partilha dos bens da Terra e dos frutos do trabalho humano, das relações sociais”.
História interrompida e retomada – O diálogo entre a Igreja e os marxistas ressurge depois de 35 de repressão brutal  todas as iniciativas, durante os papados conservadores de João Paulo II e Bento XVI. Católicos e marxistas voltam a se encontrar na agenda proposta pelo Papa Francisco num movimento de continuidade histórica com o que aconteceu desde os anos 1930 até a década de 1970, nas lutas contra o nazifascimo na Europa e a opressão capitalista na América Latina. Foi um movimento que influenciou a convocação do Vaticano II e, depois, foi impulsionado por seu sopro.
Rompendo a enorme crosta de gelo que congelava a Igreja, na virada dos anos 1930/40 teve início na França uma aproximação entre cristianismo e marxismo, logo depois da derrota do nazifascismo, com aquela que seria conhecida pouco depois como Théologie Nouvelle (Teologia Nova) impulsionada pelos dominicanos Yves Congar e Marie-Dominique Chenu e os jesuítas Henri de Lubac e Jean Daniélou, ao lado da iniciativa dos padres operários. Eles eram mais de 100 em 1954, quando a experiência foi posta na clandestinidade eclesial por um decreto do Papa Pio XII (Giovanni Pacelli), sendo novamente acolhida pelo Papa Paulo VI, em 1965.
A França foi de fato decisiva para essa aproximação: “(…) a teologia francesa do pós-guerra (Congar, Duquoc, Chenu, Calvez, de Lubac) representava a ponta avançada da renovação do catolicismo, levantando os temas que seriam depois consagrados pelo Concílio Vaticano II”[1]. Foram anos de diálogo intenso não apenas com o marxismo, mas igualmente com a psicanálise, e de grandes avanços no ecumenismo, todos bloqueados a partir de 1979 com a eleição de Wojtyla.
No Brasil, o impulso inicial foi dado pela JUC (Juventude Universitária Católica), especialmente a partir do congresso de 1960[2]. Outro vetor relevante de aproximação, no Brasil e na América Latina, foi o grupo de teólogos formados na França e Bélgica, imersos no ambiente da efervescência pré e pós Vaticano II, entre eles Gustavo Gutierrez, José Comblin, Enrique Dussel e Juan Luis Segundo[3].
O Papa no II Encontro Mundial dos Movimentos Populares, na Bolívia
Os encontros mundiais convocados pelo Papa – O renovado processo de diálogo entre a Igreja, a esquerda em geral, os movimentos populares, a reabertura dos espaços à teologia latino-americana, à teologia liberal do hemisfério norte, à teologia asiática, ao ecumenismo e à psicanálise desenvolveu-se ao longo do papado de Francisco. Eleito em fevereiro de 2013, a partir de meados daquele ano, o Papa começou a reorientar todo o processo relacional e dialógico da Igreja institucional.
O ponto culminante deste reencontro foram os três Encontro Mundial dos Movimentos Populares (em Roma, 2014 e 2016 e Santa Cruz de la Sierra, Bolívia, em 2015), convocados pelo Papa. No terceiro encontro, em Roma (2016), Francisco contrapôs dois projetos para o mundo: “Um projeto-ponte dos povos diante do projeto-muro do dinheiro” (aqui). Um ano antes, na Bolívia, o Papa fez uma veemente acusação contra o capitalismo: “E por trás de tanto sofrimento, tanta morte e destruição, sente-se o cheiro daquilo que Basílio de Cesareia chamava ‘o esterco do diabo’: reina a ambição desenfreada de dinheiro. O serviço ao bem comum fica em segundo plano. Quando o capital se torna um ídolo e dirige as opções dos seres humanos, quando a avidez do dinheiro domina todo o sistema socioeconômico, arruína a sociedade, condena o homem, transforma-o em escravo, destrói a fraternidade inter-humana, faz lutar povo contra povo e até, como vemos, põe em risco esta nossa casa comum” (aqui).
II Encontro Mundial dos Movimentos Populares
Integram o comitê de organização dos encontros mundiais de movimentos populares o cardeal Peter Turkson, presidente do Pontifício Conselho Justiça e Paz; João Pedro Stédile, pelo Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST) e Vía Campesina; Juan Grabois, pelo Movimento de Trabalhadores Excluídos (MTE) e Confederação de Trabalhadores da Economia Popular (CTEP) da Argentina; Jockin Arputham, National Slum Dwellers Federation of India; Xaro Castelló, Hermandad Obrera de Acción Católico (HOAC) da Espanha e Movimento Mundial de Trabalhadores Cristãos (MMTC). Um protagonista de relevo nos encontros tem sido o presidente da Bolívia, Evo Morales.
Francisco, Tsípras e Baier – O diálogo formal com a rede de marxistas europeus teve início numa reunião em 18 de setembro de 2014 entre o Papa Francisco, Aléxis Tsípras e Walter Baier. Quem são eles?
Tsípras foi ao encontro na condição de vice-presidente do Partido da Esquerda Europeia e presidente do partido de esquerda Synaspismós (SYN) e o líder da Coligação da Esquerda Radical (Syriza), de oposição ao governo grego -pouco depois, em janeiro de 2015, o partido venceria as eleições e ele se tornaria primeiro-ministro.  Seu primeiro gesto como primeiro-ministro foi uma visita a um monumento de homenagem a gregos comunistas executados pela ocupação nazista em 1944.
Baier  é o coordenador da rede europeia de organizações marxistas Transform!, com participantes de 18 países e 25 publicações de diversos moldes. Entre 1994 e 2006 foi presidente do Partido Comunista da Áustria, quando deixou o cargo para assumir a coordenação da rede Transform! , permanecendo como membro do Conselho de seu partido. Ele é o representante da rede no Fórum Social Mundial (FSM) e muito ligado ao movimento católico Focolares, fundado por Chiara Lubich em 1943.
A audiência privada entre o Papa e os dois prolongou-se por 35 minutos e, ao final, decidiu-se abrir um processo formal de diálogo entre a Igreja e os marxistas. Logo depois do encontro, Tsípras afirmou ao The Guardian  que Francisco é o “pontífice dos pobres” e que o mais importante fruto da reunião havia sido a constatação de que “há necessidade de criação de uma aliança ecumênica contra a pobreza, a desigualdade, contra a lógica do mercado e do lucro acima das pessoas” .
Logo depois, em janeiro de 2015 quando o Syriza venceu as eleições na Grécia, L’Osservatore Romano,  jornal oficial, do Vaticano comentou: “Com a vitória do Syriza nas eleições gregas, certamente abre-se uma nova fase na Europa, uma fase que passa pela expansão de um espaço social, em reação às políticas de austeridade. Quanto mais os cidadãos europeus pedem para ser envolvidos para além das lógicas dos mercados, mais o trabalho da política deve ser o de acolher as reivindicações que partem da sociedade”.
A primeira reunião oficial – O primeiro “encontro de trabalho” entre o Vaticano e os marxistas europeus aconteceu entre 31 de março e 1 de abril de 2016, no Instituto Universitário Sophia, (fundado por Chiara Lubich), perto de Florença.
O próprio Löwy preparou um relatório resumido da reunião (aqui).
Uma nota conjunta ao final dos dois dias de trabalho afirmou: “Em vista das dificuldades e perigos atuais no mundo, todas as pessoas de boa vontade devem se unir com independência de suas filosofias, suas religiões e seus enfoques teóricos e práticos, para encontrar formas de saída à crise. Para citar Francisco, são necessários tanto a transversalidade como um diálogo através das linhas divisórias tradicionais (…)”.
Na nota afirmou-se ainda a concordância dos participantes quanto à “convicção de que a Terra foi dada a todas as pessoas, isto é, à humanidade como um todo, incluindo as gerações futuras. Assim, a cooperação quer contribuir a todas e todos os habitantes de nosso planeta para que os seres humanos possam viver uma vida digna, em paz, liberdade e justiça”. A declaração destacou também que “as diferenças de ponto de partida são consideradas como um enriquecimento e possa contribuir a clarificar, aprofundar e propor os pontos de vista próprios”.
O pensamento de Francisco, especialmente a Exortação Apostólica Evangelii Gaudium (2013), sobre o anúncio do Evangelho e as relações da Igreja com a sociedade, e a Encíclica Laudato Si foi considerado, segundo o resumo de Löwy, “elemento importante nas discussões e serviu como referência tanto para os católicos como para
A delegação da rede Transform! contava com Walter Baier (Viena), Peter Fleissner (Viena), Cornelia Hildebrandt (Berlim), Michael Löwy (Paris), Giulia Rodano (Roma); a Santa Sé esteve representada pelo arcebispo Ângelo Vincenzo Zani , secretário da Congregação para Educação Católica e pelo economista Stefano Zamagni  (nomeado em 2013 pelo Papa Francisco como membro da Academia Pontifícia de Ciências). Outros participantes eram vinculados ao Movimento dos Focolares: Bernhard Callebaut e Paolo Frizzi (Universidade Sophia), Catherine Belzung (França), Lorna Oro (Irlanda), Alejandra Herrero (Argentina), Herwig Van Staa (Innsbruck), Franz Kronreif (Áustria), e Herbert Lauenroth (Alemanha).
O arcebispo Vicenzo Zani observou ao final do encontro estar convencido de que a ecologia e o meio ambiente devem ser parte da educação católica em todo o mundo e que são necessárias medidas concretas sobre o tema da mudança climática e a solidariedade com os imigrantes que buscam encontrar refúgio na Europa.
Francisco segue adiante – O Papa tem participado indiretamente dos encontros. Não há alarde no Vaticano sobre as reuniões, pois Francisco não deseja provocar ainda mais a polêmica e as manifestações sectárias dos conservadores. Portanto, a ordem no Vaticano sobre a agenda com os marxistas é discrição. Isso não quer dizer lentidão ou desistência. Uma característica do papado de Francisco tem sido a de manter distância dos conflitos internos da Igreja, ignorando os ataques e insultos, tratando todos bem, mas sem qualquer recuo em seu projeto para o cristianismo no século 21.
Depois do primeiro encontro em 2016, houve mais dois, um novamente na Universidade Sophia e outro, em outubro último, no Castel  Gandolfo, próximo a Roma. O local foi a “residência de verão” dos papas desde o século VII. Em 2016, Francisco renunciou ao privilégio e ordenou a incorporação do apartamento que lhe era destinado ao museu que funciona no local.
Os olhos agora estão voltados para a primeira reunião na Grécia,  em 2018.
LEIA A ENTREVISTA DE MICHAEL LÖWY:
Desde o encontro entre o Papa, Tsipras e Baier, em setembro de 2014 houve já três reuniões entre os representantes dos grupos marxistas europeus e do Vaticano. Você sente que houve resistência entre os marxistas ou entre os católicos?   
Não sei de resistências do lado marxista.  Pode haver pessoas ou instituições mais interessadas que outras, mas não sei de oposição nenhuma.  Do lado católico sim, houve resistências da parte de setores  conservadores da Cúria,  mas eles não puderam impor sua posição hostil ao diálogo.
Você fez um relato muito interessante do primeiro encontro, de pode relatar em detalhes o encontro de 31 de março/1 de abril de 2016, em Sophia. América Latina esteve na agenda?
Falou-se muito pouco de Cuba, América Latina. O tema foi mesmo a Europa. Esperemos que no futuro o diálogo possa ser aberto aos latino-americanos.
Como foi a decisão de continuar os encontros?
Desde o primeiro, em 2016, decidiu-se continuar. Além dos encontros,  é interessante notar que marxistas começam a ser convidados a participar de eventos católicos como o foi a recente comemoração,  no Vaticano,  dos 50 anos da encíclica “Populorum Progressio“, do papa Paulo VI..
Quantos encontros aconteceram até agora, como se desenrolaram?
Houve três encontros. O segundo foi também em Sophia, sob o tema  “não violência e cultura do dialogo”. O terceiro foi agora em outubro, mas  não pude participar, estando no Brasil. Foi em Castel Gandolfo. Um dos objetivos deste último encontro foi o de preparar a Universidade de Verão do Diálogo, que acontecerá em 2018 na ilha grega de Syros, com o apoio da Universidade do Mar Egeu  e do Ministério da Educação da Grécia.
Que balanço você faz desses encontros?
Eles são um exemplo positivo de dialogo, escuta recíproca e busca de convergências.
Qual está sendo o papel do Papa?  
Estimular o processo sem participar diretamente. Ele tem delegado a pessoas de sua confiança o andamento do dialogo.
Quem são de fato os principais protagonistas de parte a parte?
De parte do Vaticano, o Movimento dos Focolares e o monsenhor Ângelo Vincenzo Zani,  responsável pelo ensino católico no mundo [o arcebispo Zani é o secretário secretário da Congregação para a Educação Católica do Vaticano– nota CPC],  além de várias personalidades acadêmicas ou religiosas ligadas à Igreja.  De parte dos marxistas: a rede de fundações marxistas Transform!,  associada ao Partido da Esquerda Europeia -com predominância dos comunistas,  mas abertura a marxistas revolucionários,  como o autor destas linhas.  O coordenador de Transform! é o comunista austríaco Walter Baier.
Quais são os grandes obstáculos? Que caminhos estão sendo encontrados para superá-los?
A inércia das instituições e os setores conservadores e/ou dogmáticos.  Mas a dinâmica do processo está permitindo avanços reais.
Como você vê hoje as questões teóricas/filosóficas depois de todos os embates do século 20. O materialismo dialético é um impeditivo para a convergência com os cristãos? A fé em Jesus é um problema para os marxistas?
Cada um dos participantes tem suas próprias convicções filosóficas e/ou teológicas –que, aliás não são as mesmas, nem entre os marxistas e nem entre os católicos. Estas convicções gozam de respeito mutuo,  mas não são objeto da discussão.  O diálogo trata de problemas sociais,  políticos e éticos atuais -os ataques aos migrantes,  a crise ecológica, o neoliberalismo e a injustiça social- e de possíveis alternativas.   Geralmente tem havido muita convergência no diagnostico, menos nas soluções propostas…
O peso do trauma do socialismo real impactou os encontros em alguma medida?
Francamente, esta questão esteve totalmente ausente dos debates até agora.  O Vaticano de Francisco não é o de João Paulo II…
O Papa é anticapitalista. Mas nunca se manifestou a favor do socialismo…
Acho que não é mesmo tarefa do Papa propor um programa político,  uma estratégia revolucionária ou uma solução socioeconômica para a crise.  Para isto estão aí os movimentos sociais e os partidos políticos socialistas/comunistas, em sua diversidade. O importante é que ele denuncie a perversidade do atual sistema econômico e abra um espaço de diálogo com a Teologia da Libertação e com a esquerda marxista.
A Igreja pode evoluir para uma posição simpática ao ecossocialismo?
Talvez, mas não tanto como uma proposta sociopolítica e mais como uma visão ética, aspiração a outro modo de vida,  radicalmente oposto ao capitalismo.
O ecossocialismo e o bem viver podem ser vistos como sinônimos?
Depende de como se interpreta o Sumak Kawsay (Bem Viver). Para alguns, o Bem Viver é simplesmente uma vaga formula destinada a contentar gregos e troianos. Para outros, é uma visão anticapitalista radical, buscando uma alternativa ecológica e comunitária.  Aqui existem muitos pontos de convergência com o ecossocialismo.  Hugo Blanco, o célebre líder indigenista peruano, diz, a propósito do Sumak Kawsay dos indígenas: “Nós já praticamos o ecossocialismo há vários séculos”.
Os cristãos vinculados à Teologia da Libertação sempre tiveram boas relações com os comunistas, mas eles foram censurados e punidos severamente por Roma. Qual o balanço dessa relação hoje?
O que foi decisivo na América Latina não foi tanto a “relação” entre católicos/cristãos e comunistas como dois blocos separados, mas o surgimento massivo de marxistas católicos,  ou católicos marxistas,  que tiveram um papel essencial em todos os movimentos sociais e combates emancipadores do continente nas últimas décadas.
Você vê possibilidade de um novo tempo para o diálogo e a convergência na América Latina?
É provável que as Igrejas na América Latina mudem pouco a pouco em relação à posição intolerante adotada pelos dois pontífices anteriores.
Quais serão os próximos passos?
A reabertura de um espaço para a Teologia da Libertação…
Para você, é possível ser marxista/comunista e cristão? 
Evidentemente! Há milhares de marxistas cristãos/católicos pelo mundo afora, em particular na América Latina. Para mim, como marxista, esta realidade é o que conta, muito mais do que discussões abstratas sobre a compatibilidade ou não do materialismo de Marx  com a religião. Sou judeu não crente, marxista heterodoxo -e grande admirador da integridade ética e humana dos cristãos marxistas que  conheci…
*
LEIA A ENTREVISTA DE FREI BETTO
Qual a relevância dessa iniciativa do Papa de reabrir o diálogo entre o Vaticano, os movimentos populares, a esquerda em geral e agora os marxistas europeus?
É muito louvável que Francisco seja o primeiro papa a convocar três encontros mundiais de representantes de movimentos populares. Lamento que as conferências episcopais, em especial a do Brasil (CNBB), não repitam a iniciativa em seus respectivos países.
É também admirável que Francisco tenha convocado este diálogo entre católicos e marxistas. Há que recordar que Pio XII excomungava católicos que se aproximassem do partido comunista. E que o marxismo sempre foi abominado pelo papado e a cúpula da Igreja Católica.
No momento em que o marxismo parece em baixa, o Vaticano reconhece a sua importância como importante método de análise da realidade. E diante da crise estrutural do capitalismo, que marginaliza metade da população mundial de acesso aos bens elementares da vida, o marxismo é uma importante ferramenta, como demonstra Piketty [o economista Thomas Piketty, autor do já clássico O Capital no século XXI -2013 – nota CPC], para o diagnóstico do sistema injusto de acumulação privada da riqueza, no qual vivemos, e o prognóstico do futuro da humanidade.
Ressalto ainda que cristianismo e marxismo têm as mesmas raízes hebraicas. O que ressalto em meu livro “Paraíso perdido – viagens ao mundo socialista” (Rocco).
Como você vê esse diálogo no contexto particular do Brasil e América Latina? Ele passa por uma retomada da Teologia da Libertação?
O diálogo em si é positivo, mas insuficiente. O encontro histórico entre cristianismo e marxismo não se deu em torno de mesas de debates ou na academia. Deu-se na prática libertadora dos movimentos sociais e sindicais e, em especial, na luta dos europeus contra o nazifascismo. Portanto, há um denominador comum que une cristianismo e marxismo: os direitos dos pobres e seus anseios de libertação. É na práxis libertadora dos pobres que se encontra o campo privilegiado de união entre cristãos e marxistas.
Como é a trajetória deste diálogo do qual você foi (e é) protagonista? Interrogo-lhe sobre os anos 1970, o marco de seu livro-entrevista com Fidel, os anos de chumbo (das ditaduras e na Igreja) e esta primavera agora.
Desde muito cedo me liguei ao marxismo e aos comunistas, quando iniciei, em Belo Horizonte, a militância estudantil e, fazia aliança dos militantes cristãos engajados no movimento estudantil com os militantes da Juventude Comunista para derrubar, de nossas entidades, os reacionários e defensores da escola particular em detrimento da escola pública.
Sob a ditadura militar, engajei-me em movimentos e organizações de cunho marxista e comandadas por comunistas históricos, como a ALN (Ação Libertadora Nacional) de Carlos Marighella, conforme narro em “Batismo de sangue” [1982] e “Diário de Fernando – nos cárceres da ditadura militar brasileira” [2009], ambos editados pela Rocco.
Mais tarde, a partir da década de 1980, a assessoria que prestei à Frente Sandinista de Libertação Nacional me levou a Cuba, ao diálogo frequente com Fidel e os dirigentes comunistas do país, e dali a outros países socialistas: União Soviética, China, Polônia, Tchecoslováquia, Alemanha Oriental. Foram 33 anos de intenso trabalho para aproximar cristãos e marxistas, Igrejas cristãs e governos comunistas,  quebrando barreiras e buscando pontos de unidade. Por isso recebo como muita alegria essa iniciativa do papa Francisco.
Como se coloca essa identidade cristã/marxista sobre a qual fala Löwy e que lhe é um tema muito caro ao longo dos anos?
Resumidamente, cristianismo e marxismo são legados da tradição hebraica. Se fizermos um paralelo entre as suas respectivas referências, o que haveremos de encontrar? O que a Bíblia chama de paraíso ou Jardim do Éden, o marxismo qualifica de sociedade comunista primitiva; o que a Bíblia chama de pecado original, o marxismo qualifica de alienação; a Bíblia diz que o resgate do paraíso primitivo, ou seja, do mundo no qual coincidam essência e existência humanas, se dará no terreno da história, e o marxismo idem; o protagonista desse processo libertador será, para a Bíblia, o pobre, para o marxismo, o proletariado ou os oprimidos; o objetivo, para o marxismo, é alcançar a sociedade comunista, sem classes e Estado, para a tradição cristã, o Reino de Deus, no qual o amor será o denominador comum das relações pessoais e a partilha dos bens da Terra e dos frutos do trabalho humano, das relações sociais.
[Mauro Lopes]
___________________________
[1] LÖWY, Michael. Marxismo e cristianismo na América Latina. Revista Lua Nova. São Paulo, n. 19, nov 1989. Acesso em 28 out. 2017 – http://www.cedec.org.br/reflexoes-sobre-o-marxismo—ano-1989—no-19
[2] LÖWY, idem
[3] DUSSEL, Enrique. Teología de la liberación y marxismo. Cuadernos Americanos. Cidade do México, n. 12, p. 138-159. 1988. Acesso em 04 nov 2017 – http://enriquedussel.com/txt/Textos_Articulos/195.1988.pdf