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quarta-feira, 30 de agosto de 2023

Novo BRICS explode a ordem internacional, por José Luís Fiori, Professor Emérito da UFRJ

 

BRICS poderá se transformar num grupo de poder com capacidade de estreitar cada vez mais o horizonte da dominação euro-americana do mundo


Divulgação

Novo BRICS explode a ordem internacional

por José Luís Fiori


A importância histórica da ampliação dos BRICS

Entrevista concedida a Eleonora de Lucena e Rodolfo Lucena no site Tutaméiareproduzida pelo Jornal GGN:

De forma muito curta e direta: a incorporação dos seis novos membros do BRICS – Arábia Saudita, Irã, Argentina, Egito, Emirados Árabes e Etiópia – significa uma verdadeira “explosão sistêmica” da ordem internacional construída e controlada pelos europeus e seus descendentes diretos há pelos menos três séculos. Mas seus efeitos e consequências mais importantes não serão imediatos, e irão se manifestando na forma de ondas sucessivas, e cada vez mais fortes.

Exatamente porque o BRICS não é uma organização militar do tipo OTAN, nem é uma organização econômica do tipo União Europeia. Nasceu como um de ponto de encontro – quase informal – e um espaço de convergência geopolítica e econômica, entre países situados fora do núcleo central das grandes potencias tradicionais, concentradas sobre o eixo do Atlântico Norte. Países que não são atrasados, nem, subdesenvolvidos, nem dependentes e que já são, ou se propõem ser grandes potências econômicas e políticas dentro de seus respectivos tabuleiros regionais. Na verdade, o próprio grupo original do BRICS já inclui três das cinco economias mais ricas do mundo, tomando em conta o seu “poder de paridade de compras”.

Chamá-los de “sul global’ me parece ser uma forma anódina e geográfica apenas, de renomear os antigos países do “terceiro mundo”, na sua maioria ex-colônias europeias. Os números estão sendo amplamente divulgados e todos já sabem que depois da incorporação dos seis novos sócios o grupo do BRICS terá mais de 40% da população mundial e cerca de 40% do PIB mundial, o que por si só já fala da importância deste grupo e de sua ampliação decidida na reunião de Joanesburgo.

Agora bem, apesar de que o BRICS tenha tido até hoje uma postura muito mais propositiva do que contestaria, não há dúvida que nos anos recentes, devido a belicosidade crescente entre os Estados Unidos e a China, e devido sobretudo à guerra no território da Ucrânia entre os países da OTAN e a Rússia, o BRICS acabou sofrendo uma mudança de natureza, tornando-se uma organização de resistência, sobretudo, com relação às estruturas e instituições econômicas e financeiras utilizadas pelos EUA e seus aliados europeus e asiáticos, que operam como verdadeiras armas de guerra nos momentos de intensificação da competição e de acirramento dos conflitos entre esses países reunidos no G7 e os demais países que eles agora chamam de “sul global”, apesar da incorreção geográfica da expressão uma vez que seu principal inimigo neste momento, a Rússia, encontra-se ao norte de quase todos os países do G7.

Seja como for uma coisa é certa, depois de Joanesburgo, o BRICS já é um ponto de referência incontornável dentro do sistema internacional, e dependendo da reação dos Estados Unidos e dos europeus, poderá se transformar nos próximos anos, num grupo de poder com capacidade de estreitar cada vez mais o horizonte da dominação euro-americana do mundo.

Uma nova organização comercial?

Não há dúvida que a partir de 2024 o BRICS+ estará reunindo alguns dos países detentores das maiores reservas de petróleo e gás do mundo, além de incluir alguns dos seus maiores produtores de grãos e alimentos. Para não falar dos recursos minerais estratégicos que se concentram nesses mesmos países, associados às velhas tecnologias nucleares e às novas tecnologia associadas à computação quântica, à inteligência artificial e a robótica. Mas não creio na possibilidade de que nasça daí nenhuma nova organização comercial, até porque seria rebarbativo com relação à OPEP, no caso do petróleo e do gás.

Não creio que seja este o objetivo do grupo, nem creio que seja necessário para que possam exercer de outras maneiras o seu poder de influenciar os mercados globais destes produtos. Mas sim creio que o maior poder e o maio golpe econômico desferido contra os interesses americanos e do G7 virá por outro lado, e atingirá em cheio o poder monetário e financeiro do dólar e dos Estados Unidos.

De fato, a reunião de Joanesburgo não criou uma nova moeda nem discutiu abertamente a criação dessa moeda. Mas de forma discreta antecipou a substituição do dólar nas transações energéticas entre os países-membros do grupo e desses países com todas as suas “zonas de influência”. E este talvez seja o maior golpe desferido até hoje contra a hegemonia do dólar, desde os Acordos de Bretton Woods, em 1944, e desde o grande acordo firmado entre os Estados Unidos e a Arábia Saudita, logo depois da Segunda Guerra Mundial, quando ficou estabelecida e garantida a intermediação do dólar, em todas as grandes operações do mercado mundial do petróleo.

Ação militar

Acho que o Brics nunca se tornará uma organização militar, nem jamais foi ou será este seu objetivo. Do ponto de vista militar, a aliança estratégica da Rússia com a China, que se consolidou nos dois últimos anos, já é por si mesma um contraponto ao poder miliar dos EUA e da Europa. E não creio que China ou Rússia queiram ter qualquer tipo de compromisso com seus novos parceiros, do ponto de vista de sua defesa mútua, como a Rússia tem, por exemplo, com a Bielorrusia.

Uma derrota importante para os Estados Unidos

Por conta disso tem aumentado a cada dia que passa as pressões e promessas do Departamento de Estado, exatamente em cima do Brasil, da Índia, e da África do Sul, três membros fundadores do BRICS. Aliás, deste ponto de vista, tem sido patética a peregrinação recorrente dos senhores Anthony Blinken e John Sullivan, e da onipresente senhora Victoria Nuland, tentando convencer – sem muito sucesso – os governos africanos, latino-americanos, ou mesmo asiáticos a apoiarem as sanções econômicas aplicadas pelos Estados Unidos contra a Rússia, por conta da guerra na Ucrânia.

Um sinal inequívoco de perda de liderança que se repetiu agora mesmo no caso do golpe militar do Niger, ocasião em que nem os Estados Unidos nem os europeus conseguiram, até agora pelo menos, convencer algumas de sus ex-colônias africanas a invadirem o Niger, ou seja convence-los a fazer a mesma coisa que atribuem e criticam na Rússia, com relação à Ucrânia.

Lula perdeu com essa ampliação?

Não há nada que sugira que Lula e o Brasil tenham perdido poder ou influência com a ampliação do BRICS, nem tampouco que ele tenha feito algo com que estivesse em desacordo submetendo-se à China ou a quem quer que seja. Pelo contrário, minha impressão é que ele conseguiu recuperar pelo menos em parte o que o Brasil perdeu e se submeteu durante os governos de Michel Temer e Jair Bolsonaro.

Uma coisa completamente diferente é compreender que o Lula sozinho não tem como transformar o Brasil do dia para a noite numa potência equivalente à China, ou mesmo à Índia, do ponto de via econômico e tecnológico, ou mesmo à Rússia, do ponto de vista militar. Estes países lutaram muitos anos para chegarem a ser potências com capacidade de projeção de sua influência a escala global. O que esta reunião deixou claro é que o Brasil precisará ainda de tempo para chegar onde eles chegaram.

Os demais dão sinais inequívocos de que respeitam o presidente brasileiro e sua liderança ética e carismática mundial, mas isto não muda do dia para a noite a visão que o mundo construiu do Brasil ao ver sua elite política e econômica entregar o seu o seu país e o Estado brasileiro (como está se vendo agora) nas mãos de uma quadrilha de pequenos escroques e ladrões de carteira. E ainda mais, ao saber agora da participação que tiveram membros destacados das Forças Armadas brasileiras em toda a corrupção, e em todas as tratativas golpistas de um presidente que veio das suas próprias fileiras.

O que a imprensa corporativa não consegue entender é que o Brasil saiu da reunião de Joanesburgo do tamanho que tem hoje no mundo, o tamanho com que ficou depois de seis anos de destruição do seu Estado e de sua política externa, corrigido até onde foi possível, e até agora, pelo trabalho incessante da política externa brasileira e pela liderança mundial conquistada pelo presidente Lula.

Os novos integrantes do bloco são “ditaduras”?

Esta separação e polarização entre países democráticos e autoritários foi uma ideia da política externa do governo Biden que não teve maior repercussão internacional. Basta olhar para as duas reuniões que Joe Biden organizou com o objetivo de mobilizar a opinião pública mundial e que foram um absoluto fracasso. Mas o mais importante aqui não é isto, é apenas que o BRICS nunca se propôs a ser um grupo de países democráticos, nem muito menos um grupo missionário pregador da fé na democracia. Trata-se de um grupo pragmático e que tem por princípio a ideia chinesa do respeito absoluto pela autonomia política e cultural de cada um de seus membros e dos seus povos.

Paralelo entre os BRICS e o movimento dos países não alinhados

São propostas e organizações que nasceram em momentos geopolíticos muito diferentes. O Movimento dos Não Alinhados nasceu à sombra da Guerra Fria e da polarização mundial entre o mundo socialista e os países capitalistas ocidentais. Foi um enfrentamento e uma bipolarização com forte conotação ideológica e dimensão global. Já o BRICS nasceu em um mundo que se fragmenta cada vez mais e que é cada vez mais intolerante com relação a todo e qualquer tipo de polarização do sistema mundial.

E agora está se expandindo no espaço aberto justamente pela perda de liderança de liderança dos europeus e dos norte-americanos, sobretudo depois do fracasso de sua tentativa de universalizar suas sanções econômicas contra a Rússia. Afinal, alinharam-se com os Estados Unidos e a OTAN um grupo de apenas 30 ou 40 países, uma minoria dentro do sistema das Nações Unidas. O objetivo das sanções era isolar e enfraquecer economicamente a Rússia, mas acabou isolando o G7 e enfraquecendo a economia europeia, que já foi ultrapassada em poder de compra pela própria Rússia, apesar de que este país esteja sob o mais intenso ataque econômico jamais desfechado contra qualquer outro país do mundo, em qualquer tempo da história.

Impacto sobre a guerra na Ucrânia

Eu acho que a ordem dos fatores é inversa. A simples invasão e resistência russa dentro do território da Ucrânia, frente à mobilização e intervenção direta dos Estados Unidos e de todos os países sócios da OTAN, já rompeu com a “ordem mundial” estabelecida pelos Estados Unidos e seus aliados depois do fim da Guerra Fria.

Além disso, a guerra na Ucrânia acelerou a formação de uma aliança estratégica entre a Rússia e a China, que deu alguns passos diplomáticos gigantescos à sombra da própria guerra, na direção do estreitamento de suas relações econômicas e estratégicas e do alargamento de sua influência sobre o Oriente Médio e a África. Incluindo esta expansão recente e bem-sucedida do BRICS.

As próprias sociedades europeias estão começando a se dar conta e reagir frente ao fato de que os Estados Unidos estão se comportando cada vez mais na defensiva, e atuando de forma completamente reativa, frente à inciativa militar russa, e frente à iniciativa econômica chinesa. Neste sentido, já se pode mesmo dizer que a guerra na Ucrânia apressou o declínio da hegemonia cultural dos valores europeus, e vem encolhendo significativamente o poder do império militar global dos Estados Unidos.

O lugar da Argentina no BRICS

Considero a entrada da Argentina no BRICS uma vitória diplomática do Brasil, e um passo extremamente importante na construção de uma “zona de co-prosperidade” na Bacia do Prata. Uma decisão e um passo cujos efeitos, entretanto, deverão se dar ao longo do tempo, não de forma imediata. Mas não há como enganar-se: este estreitamento da aliança entre o Brasil e a Argentina, como prognosticou o geopolítico americano Nicholas Spykmen, já em1944, será visto hoje como já foi no passado como uma “linha vermelha” para os interesses dos EUA e de sua rede de apoios dentro do continente.

E muito mais ainda, neste caso, em que este estreitamente ocorre dentro de uma organização liderada economicamente pela China, e que conta ainda com a participação do grande “demônio do ocidente” neste momento, que é a Rússia. Desse ponto de vista, é necessário olhar com cuidado para o futuro imediato, porque se as próximas eleições presidenciais argentinas não forem vencidas pelas forças de extrema direita contrárias à participação da Argentina no BRICS, não é impossível que a Argentina entre na linha tiro das chamadas “guerras híbridas” que vão mudando governos e regimes ao redor do mundo que são considerados inimigos ou obstáculo para o projeto de poder global euro-americano

Uma nova liderança global?

Tudo indica que a China não se propõe a substituir os Estados Unidos e seus aliados europeus como centro hegemônico do sistema mundial, pelo menos na primeira metade do século XXI. Nem tampouco a Rússia tem possibilidade de alcançar este objetivo. Mesmo assim, a aliança entre a força militar russa e o extraordinário sucesso tecnológico e econômico da China deve ter um impacto “exemplar” sobre o resto do mundo. Muito mais agora em que a China assumiu de forma explicita e declara a liderança de um projeto “desenvolvimentista global” (ocupada pelos EUA depois da Segunda Guerra Mundial), propondo a construção de um “mundo inclusivo” e de soma positiva entre todos os povos do universo, sem exclusão do Atlântico Norte.

Como se pode observar na própria estratégia de expansão do BRICS, já agora trazendo para dentro da organização representantes de todas as grandes civilizações que dominaram o mundo até o século XVII, e que depois disto foram deslocadas, derrotadas ou submetidas pela expansão vitoriosa do colonialismo europeu, que na segunda metade do século XX foi substituído pelo império militar e financeiro global dos Estados Unidos. Como já dissemos, esse império está se enfrentando com seus limites, estes limites estão aumentando, mas isto não significa automaticamente que a China vá substituir de imediato esta posição de liderança global.

José Luís Fiori é professor Emérito da UFRJ. Autor, entre outros livros, de O mito de Babel e a disputa do poder global (Vozes).

Texto estabelecido a partir de entrevista concedida a Eleonora de Lucena e Rodolfo Lucena no site Tutaméia.

segunda-feira, 4 de julho de 2022

Elias Jabbour: G7 comandado pelos EUA não tem força para enfrentar a China

 

Do Canal 247:

O jornalista Leonardo Attuch entrevista o professor Elias Jabbour sobre a disputa entre G7 e China



Pepe Escobar sobre a mensagem EUA-OTAN aos que querem um mundo multipolar: "Ou você está conosco ou é uma “ameaça sistêmica” ".

 

Afinal, estamos todos profundamente atolados no espectro do metaverso, onde as coisas são o oposto do que parecem ser

www.brasil247.com - Líderes do G7 reunidos na Alemanha

Líderes do G7 reunidos na Alemanha (Foto: Andrew Parsons/No 10 Downing Street/Fotos Públicas)

Pepe Escobar, para o The Saker

Tradução de Patricia Zimbres, para o 247

Veloz, mas não furioso, o Sul Global pisa no acelerador. O principal resultado da cúpula BRICS+ realizada em Pequim, bem diferente do G7 dos Alpes bávaros, é que tanto o Irã, do Oeste Asiático, quanto a Argentina, da América do Sul, candidataram-se oficialmente a ingressarem no BRICS.

O Ministério das Relações Exteriores iraniano ressaltou que o BRICS traz "um mecanismo muito criativo de amplos aspectos". Teerã, um parceiro muito próximo a Pequim e Moscou - já havia realizado "uma série de  consultas" sobre essa candidatura: os iranianos estão confiantes de que ela irá "acrescentar valor" ao BRICS expandido.

E dizem que a China, a Rússia e o Irã estão tão isolados. Bem, afinal, estamos todos profundamente atolados no espectro do metaverso, onde as coisas são o oposto do que parecem ser.

O fato de Moscou teimar em não seguir o Plano A de Washington, que é começar uma guerra pan-europeia, vem abalando profundamente os nervos atlanticistas. De modo que, logo em seguida à cúpula do G7, realizada, de forma muito significativa, em um sanatório nazista, entra em cena a OTAN, paramentada para a guerra da cabeça aos pés. 

Portanto, sejam bem-vindos a um show de atrocidades, consistindo na total demonização da Rússia definida como a suprema "ameaça direta"; a promoção do Leste Europeu à condição de "forte"; uma torrente de lágrimas  derramadas sobre a parceria estratégica Rússia-China; e, como bônus extra, a China sendo tachada  de "ameaça sistêmica". 

É isso aí: para o combo OTAN/G7, os líderes do mundo multipolar emergente, bem como as grandes partes do Sul Global que desejam ingressar nesse mundo, são uma "ameaça sistêmica".

A Turkiye, sob o Sultão da Ginga – Sul Global em espírito, artista da corda bamba na prática – conseguiu literalmente tudo o que queria em troca de magnanimamente  concordar com que a Suécia e a Finlândia abrissem caminho para serem absorvidas pela OTAN.

Façam suas apostas quanto ao tipo de mutretas as marinhas da OTAN irão aprontar no Báltico contra a Frota Báltica Russa, a serem seguidas por diversos cartões de visita distribuídos pelo Sr. Khinzal, pelo Sr. Zircon, pelo Sr. Onyx e pelo Sr. Kalibr, capazes, é claro de aniquilar  qualquer movimentação da OTAN, incluindo seus "centros de decisão".

Veio como uma espécie de alívio cômico perverso o lançamento pelo Roscosmos de um conjunto de divertidíssimas imagens de satélite apontando com precisão as coordenadas desses "centros de decisão".

Os "líderes" da OTAN e o G7 parecem estar gostando de encenar um vagabundíssimo jogo de tipo 'tira incompetente'/'tira palhaço'. A cúpula da OTAN disse ao comediante cheirador Elensky (lembrem-se, a letra Z agora é proibida) que a operação policial russa de forças combinadas - ou a guerra -  tem que ser "resolvida" militarmente. A OTAN, portanto, continuará a ajudar Kiev a lutar até o último ucraniano bucha-de-canhão. 

Em paralelo, no G7, o Primeiro-ministro alemão Scholz foi solicitado a especificar que "garantias de segurança" seriam fornecidas ao que restar da Ucrânia após a guerra. A resposta do sorridente primeiro-ministro: "Sim... eu poderia (especificar). E saiu de fininho. 

O iliberal liberalismo ocidental

Mais de quatro meses após o início da Operação Z, a zumbificada opinião pública ocidental esqueceu por completo - ou ignora de propósito - que Moscou passou os últimos meses de 2021 exigindo uma discussão séria sobre as garantias de segurança com força de lei oferecidas por Washington, com ênfase no fim da expansão da OTAN rumo a Leste e em um retorno ao status quo de 1997.

A diplomacia falhou, uma vez que Washington respondeu com uma não-resposta. O Presidente Putin deixou claro que o que viria a seguir seria uma reposta "tecnomilitar" (que acabou sendo a Operação Z)  enquanto os americanos avisavam que isso poderia desencadear sanções maciças.

Contrariamente aos desejos irrealistas do Dividir para Governar, o que ocorreu após 24 de fevereiro só fez solidificar a sinergia da parceria Rússia-China – e seu círculo expandido, em especial no contexto dos BRICS e da Organização de Cooperação de Xangai (OCX). Como observou Sergey Karaganov, chefe do Conselho Russo de Política Externa e Defesa, ao início deste ano, "a China é nosso amortecedor estratégico (...) Sabemos que em qualquer situação difícil, podemos contar com ela para apoio militar, político e econômico". 

Essa ideia foi detalhadamente traçada para todo o Sul Global no  marco histórico que foi a Declaração Conjunta sobre a Cooperação no Início de uma Nova Era, de 4 de fevereiro  – que incluiu a aceleração da integração da Iniciativa Cinturão e Rota e da União Econômica Eurasiana, concomitante à harmonização da inteligência militar no âmbito da OCX (Incluindo o Irã, o novo membro pleno), as principais pedras angulares do multipolarismo.

Compare-se isso aos sonhos molhados do Conselho de Relações Exteriores ou outros delírios de "estrategistas" de poltrona do "maior think tank nacional na área de segurança", cuja experiência militar limita-se a negociar uma lata de cerveja.

Isso nos torna saudosos daqueles tempos de análises sérias, quando o falecido e grande Andre Gunder Frank publicou "um artigo sobre o tigre de papel" (a paper on the paper tiger), examinando o poderio americano na encruzilhada do dólar de papel e do Pentágono.

Os britânicos, com seus melhores padrões educacionais de tradição imperial, ao menos pareciam ter um certo grau de compreensão de que Xi Jinping "abraçou uma variante do nacionalismo integral não muito diferente das que surgiram na Europa do entre-guerras, enquanto Putin empregava com grande habilidade métodos leninistas para ressuscitar como potência global uma Rússia enfraquecida".

Mas a noção de que "ideais e projetos originários do Ocidente iliberal continuam a plasmar a política global" é pura bobagem, uma vez que Xi se inspira em Mao tanto quanto Putin se inspira em diversos teóricos eurasianistas. O importante é que no processo de o Ocidente mergulhar em um abismo geopolítico, "o liberalismo ocidental se tornou, ele próprio, iliberal".

E pior que isso: ele se tornou totalitário. 

Mantendo refém o Sul Global 

O G7 vem oferecendo à maior parte do Sul Global um coquetel tóxico de inflação maciça, aumento de preços e dívida dolarizada fora de controle.

Fabio Vighi mostrou de forma brilhante que "o propósito da emergência ucraniana é manter ligada a máquina de imprimir dinheiro e culpar Putin pelo estado desastroso da economia mundial". O objetivo da guerra é exatamente o oposto daquele que nos fazem acreditar. Não se trata de defender a Ucrânia, mas de prolongar o conflito e alimentar a inflação na tentativa de desativar o risco cataclísmico no mercado da dívida, que se alastraria rapidamente por todo o setor financeiro".

E se puder piorar ainda mais, vai piorar. Nos Alpes bávaros, o G7 comprometeu-se a encontrar "maneiras de limitar o preço do petróleo e do gás russos": se isso não funcionar com os "métodos de mercado", então "meios serão impostos pela força". 

Uma "indulgência" do G7 – o neo-medievalismo em ação – só seria possível se um potencial comprador de energia russa concordar em firmar um acordo quanto ao preço com representantes do G7.

O que isso significa na prática é que o G7 provavelmente irá criar um novo órgão para "regular" o preço do petróleo e do gás, subordinado aos caprichos de Washington: para todos os fins práticos, uma forte guinada no sistema pós-1945. 

O planeta inteiro, em especial o Sul Global, seria feito refém.

Enquanto isso, na vida real, a Gazprom está indo de vento em popa, ganhando tanto dinheiro com as exportações de gás para a União Europeia quanto ganhou em 2021, embora enviando volumes muito menores. 

A única coisa que este analista alemão acerta é que, caso a Gazprom fosse obrigada a cortar o fornecimento de forma definitiva, haveria  "a implosão de um modelo econômico que depende excessivamente das exportações industriais e, portanto, da importação de combustíveis fósseis baratos. A indústria responde por 36% do consumo alemão de gás".

Pensem, por exemplo, na BASF sendo obrigada a parar a produção da maior indústria química do mundo em Ludwigshafen. Ou no CEO da Shell afirmando que é absolutamente impossível substituir o gás russo fornecido à UE pelos gasodutos com o GNL (americano).

A implosão que temos pela frente é exatamente o que os círculos neocon/neoliberalcon de Washington pretendem – retirar da arena comercial mundial um poderoso concorrente (ocidental). O que é realmente assombroso é que a Equipe Scholz não se dá conta do que está acontecendo.

Praticamente ninguém se lembra do que aconteceu no ano passado, quando o G7 fingiu estar tentando ajudar o Sul Global. A iniciativa foi batizada de BuildBackBeterWorld (B3W). "Projetos promissores" foram apontados no Senegal, em Gana, e houve "visitas" ao Equador, Panamá e Colômbia. O governo do Boneco de Teste de Colisão ofereceu "todo o espectro" de instrumentos financeiros americanos: participação acionária, garantias de empréstimos, seguros políticos, dotações, assessoria técnica em clima, tecnologia digital e igualdade de gêneros. 

O Sul Global não se deixou impressionar. A maior parte dele já havia se juntado à Iniciativa Cinturão e Rota. O B3W colapsou com um gemido.

Agora a União Europeia vem promovendo um novo projeto de "infraestrutura" para o Sul Global, batizado de Global Gateway (Portal Global), oficialmente apresentado pela Führer da Comissão Européia (CE), Ursula von der Leyen e – surpresa! – ligada ao fracassado B3W. Essa é a "resposta" ocidental à ICR, demonizada como sendo – o que mais? – "uma cilada da dívida". 

A Global Gateway, em tese, desembolsaria 300 bilhões de euros em cinco anos; a CE entraria com apenas 18 bilhões do orçamento da UE (ou seja, com dinheiro dos contribuintes europeus), com a intenção de conseguir 135 bilhões de euros em investimentos privados. Nenhum eurocrata foi capaz de explicar a diferença entre os 300 bilhões anunciados e  os esperançosos 135 bilhões.

Paralelamente, a CE vem dobrando as apostas em sua fracassada agenda de Energia Verde – culpando, é claro, o gás e o petróleo. Frans Timmermans, chefão do clima na União Europeia,  pronunciou uma verdadeira pérola:  "Se o green deal tivesse ocorrido cinco anos antes, estaríamos menos dependentes dos combustíveis fósseis e do gás natural.

Bem, na vida real a União Europeia mantém-se firme no rumo de se tornar uma terra arrasada e totalmente desindustrializada até 2030. Energia Verde ineficiente, seja solar ou eólica, é incapaz de oferecer uma fonte energética estável e segura.  

O tipo certo de ginga 

É duro escolher quem é o personagem mais canastrão do jogo  "tira bom/tira ruim" da NATO/G7. Ou o mais previsível. Foi isso que publiquei sobre a cúpula da OTAN. Não agora, mas em 2014, oito anos atrás. A mesma demonização, repetida indefinidamente.

E, aqui também, se pode piorar é bem provável que piore. Pensem no que restou da Ucrânia – principalmente a Galícia do Leste – sendo anexada ao sonho molhado da Polônia: a nova versão do Intermarium, indo do Báltico ao Mar Negro, agora apelidada de "Iniciativa dos Três Mares" (com o acréscimo do Adriático) e compreendendo 12 estados-nação.

O que isso implica no longo prazo é o colapso interno da UE. A oportunista Varsóvia apenas lucra financeiramente com a generosidade do sistema de Bruxelas ao mesmo tempo em que acalenta seus próprios planos hegemônicos. A maior parte dos "Três Mares" vai acabar abandonando a União Europeia. Adivinhem quem irá garantir sua "defesa": Washington, por meio da OTAN. Alguma outra novidade? O conceito do novo  Intermarium data do tempo do falecido Zbig "Grande Tabuleiro"” Brzezinski.

Então, a Polônia sonha em se tornar a líder do Intermarium, seguida pelos "Três Anões Bálticos", por uma Escandinávia ampliada mais a Bulgária e a Romênia. Seu objetivo parece vir diretamente da Comedy Central: reduzir a Rússia ao status de estado-pária – e então toda a pantomima de sempre: mudança de regime, a derrubada de Putin e a balcanização da Federação Russa.

A Grã-Bretanha, aquela ilha irrelevante, ainda investida em ensinar aos novatos americanos como ser um Império, irá adorar. Alemanha-França-Itália bem menos. Perdidos na selva, os euroanalistas sonham com um Quad Europeu (com a Espanha), replicando o esquema Indo-Pacífico, mas no final das contas tudo vai depender de para que lado vai a Alemanha.

E então há aquele imprevisível bastião do Sul Global liderado pelo Sultão da Ginga: a recentemente renomeada Turkiye. Um neo-otomanismo brando parece estar a todo o vapor, ainda expandindo seus tentáculos dos Bálcãs e da Líbia à Síria e a Ásia Central. Evocando a era de ouro da Sublime Porta, Istambul é o único mediador sério entre Moscou e Kiev. E está cuidadosamente cuidando dos mínimos detalhes do processo de integração eurasiana atualmente em curso.

Os americanos estavam prestes a tentar mudança de regime contra o Sultão. Agora eles se veem forçados a ouvi-lo. E aí vai uma lição geopolítica séria para todo o Sul Global: uma "ameaça sistêmica" não quer dizer nada se você tem o tipo certo de ginga.  

sexta-feira, 23 de agosto de 2019

Fogo na Amazônia: Macron convoca G7. Mídia alemã quer sanção econômica e diplomática contra Brasil



Do Canal do Analista Político Bob Fernandes:



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