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segunda-feira, 10 de junho de 2024

Ambição capitalista neoliberal, o desastre climático, o negacionismo fascista e a revolta

 

Planeta vive, desde a virada do século, sucessão incomum de crises, guerras e ataques à natureza. Governos e corporações vendam os olhos diante do abismo. Para evitá-lo, precisamos de rupturas institucionais recivilizadoras


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A evidência do desastre planetário em curso e a negação dessa evidência, ou ao menos a recusa em admiti-la plenamente, são os dois traços definidores do nosso tempo. De onde se vê a posição central em nossos dias do problema do negacionismo, fomentado pela desinformação e pelo autoengano. Negacionismo é um termo polissêmico, que apresenta diversas facetas e gradações, desde a mais tosca e pueril, típica da extrema-direita, à mais maquiadamente douta e universitária, camuflada na ficção neoliberal  do “crescimento sustentável”. Ao contrário da acepção original do termo negacionismo, que tentava relativizar ou negar a existência dos campos de extermínio criados pelo Terceiro Reich, o negacionismo contemporâneo tem por foco descreditar o consenso científico. Ele deve ser definido como a recusa cega e irracional em aceitar os alertas científicos sobre as causas das catástrofes locais e regionais já observadas cotidianamente, sendo que tal recusa implica escolher a própria ruína. Essa escolha é motivada em geral por interesse econômico, mas também pela ideologia do desenvolvimentismo, por um investimento na própria ignorância, por fanatismo religioso e, mais frequentemente, por um misto de todas essas motivações.

No quadro geral desse desastre planetário, a emergência climática e a aniquilação da biodiversidade são as crises mais sistêmicas. O clima é a condição de possibilidade das florestas e as florestas são, por sua vez, a condição de possibilidade da estabilidade do clima. Sem um clima minimamente estável e sem florestas não há agricultura, estabilidade dos ciclos hidrológicos e, sobretudo, possibilidade de regulação térmica dos organismos. Não podemos – nós e as demais espécies – sobreviver fora de nosso nicho climático.i Trata-se de uma impossibilidade biológica, indiferente às pretensas balas de prata da tecnologia. Mas há muito mais a nos confrontar do que a emergência climática e a biodiversidade. O adensamento (intensificação e maior frequência) de inúmeras crises sistêmicas, agindo em sinergia e reforçando-se reciprocamente, indicam de modo cada vez mais inequívoco a iminência de um desastre coletivo. Esbocemos um quadro geral das mais importantes dessas crises:

1. aumento contínuo do consumo de energia (sobretudo fóssil, mas não apenas)

2. aumento igualmente contínuo da mineração, com inaceitáveis impactos ambientais

3. desestabilização do sistema climático sobretudo pela queima de combustíveis fósseis

4. desregulação dos ciclos hidrológicos (secas e inundações) como efeito dessa desestabilização

5. elevação do nível do mar, afetando infraestrutura, recursos hídricos e ecossistemas costeiros

6. substituição da agricultura pelo agronegócio no âmbito da globalização do sistema alimentar

7. destruição e degradação das florestas e demais mantas vegetais naturais pelo agronegócio

8. antropização, artificialização e degradação biológica dos solos sobretudo pelo agronegócio

9. maior risco de epidemias e pandemias com maior extensão geográfica de seus vetores

10. facilitação de zoonoses pela criação intensiva de animais para a alimentação humana

11. aumento explosivo da geração de resíduos, inclusive na estratosfera

11. intoxicação químico-industrial da biosfera, com adoecimento crescente dos organismos

12. diminuição acentuada da fertilidade humana e de outras espécies

13. sobrepesca e destruição generalizada da vida marítima

14. aumento das espécies invasoras em escala global

15. empobrecimento genético das espécies selecionadas pelo agronegócio

16. crescente resistência bacteriana ao uso de antibióticos em humanos e outros animais

17. aniquilação da biodiversidade decorrente dos dezesseis fatores precedentes

19. riscos crescentes de novas tecnologias (geoengenharia, nanotecnologia, nuclear etc.)

20. opacidade e transferência crescente de poder decisório aos algoritmos de IA

21. emprego desses algoritmos para a substituição e precarização do trabalho

22. manipulação de comportamentos por esses algoritmos, exacerbando o individualismo

23. emprego desses algoritmos para fomentar o descrédito à ciência e à democracia

24. surtos de irracionalismo e, em particular, do fanatismo religioso

25. aumento das desigualdades e concentração de poder nas mãos de oligarquias econômicas

26. financeirização extrema da esfera econômica

27. preponderância da economia como critério de avaliação do sucesso das sociedades

28. redução dos Estados à função de facilitadores e gestores das demandas do mercado

29. recrudescimento do patriarcalismo, do racismo e de ideologias nacionalistas e nazifascistas

30. proliferação de guerras e de conflitos armados, decorrente dos 29 fatores precedentes

Embora de tipos e naturezas muito diversas, essas crises representam facetas interligadas de uma única crise planetária da civilização a que se dá o nome de capitalismo globalizado (aí incluídos, obviamente, a Rússia e a China). Essa crise planetária pode ser melhor caracterizada como a crise de nossa civilização termo-fóssil, uma civilização baseada na queima de carbono, na destruição da biosfera, na acumulação e concentração de capital por megacorporações, na dissociação homem-natureza, na ilusão da potenciação energética ilimitada e na ideologia de que não há outro mundo possível.

No quadro geral desse elenco de crises, a emergência climática, a aniquilação da biodiversidade, a intoxicação planetária e as guerras (com risco agora extremo de uma guerra nuclear entre a Rússia e a OTAN) têm potencial, mesmo consideradas isoladamente, para ameaçar existencialmente as civilizações humanas e a sobrevivência de milhões de espécies, a nossa incluída. Mas elas estão associadas entre si e agem em sinergia com as demais crises acima enunciadas, de modo que o caos irreversível que elas estão em vias de engendrar torna-se uma quase certeza. Ocorre que há um bloqueio cognitivo, ideológico, emocional e psicológico das sociedades em aceitar e compreender essa quase certeza. E esse bloqueio, vale dizer, o negacionismo contemporâneo em todas as suas facetas e gradações, é, ele próprio, o fator decisivo na passagem da quase certeza para a certeza. O negacionismo contemporâneo torna-se, assim, o fator decisivo a nos precipitar nesse caos. Ele é o maior responsável pela baixa reatividade das sociedades face à ruína que já começa a se abater sobre a vida na Terra. Se não houver uma revolta política das sociedades à altura da extrema gravidade dessa poliédrica crise planetária, a condenação ao pior num futuro cada vez mais próximo é inapelável.

A recusa da guerra e a revalorização da política

Essa revolta política contra o caos tem por condição primeira de possibilidade a revalorização da política e a recusa de sua substituição pela guerra. Clausewitz está errado quando afirma que a guerra é a continuação da política por outros meios.ii Essa tese é repetida ad nauseam pelos que lucram com a guerra ou, mais amplamente, pelos que a consideram inevitável, posto que resultante da agressividade de nossa espécie. Ninguém ignora que nossa espécie é extremamente agressiva e que a guerra é parte constitutiva da história humana. Mas justamente por isso a política é a mais importante invenção de nossa espécie, pois sua finalidade é dupla. Antes de mais nada, a política permite conter e controlar essa agressividade, sublimá-la e canalizá-la para o jogo de enfrentamentos extremos, mas civis e pacíficos, entre grupos sociais, entre alianças partidárias, parlamentares e eleitorais. É justa a inversão da fórmula de Clausewitz proposta por Michel Foucault, quando afirma em 1976 que “a política é a guerra continuada por outros meios”.iii

Mas se a política é uma forma de guerra pela qual se pode evitar a guerra, ela é também a invenção pela qual é possível fortalecer a outra componente constitutiva de nossa espécie e de nossa história: a cooperação. A política permite imaginar outras formas de civilização nas quais a linguagem, a lógica, o conhecimento da experiência histórica, os padrões de causalidade, a argumentação, o direito e as aspirações à justiça têm melhores condições de prevalecer sobre nossa agressividade. Política e linguagem são duas faces da mesma moeda. Ambas constituem em geral o domínio do simbólico e do imaginário e é delas que se faz a substância do melhor de qualquer civilização. A guerra, ao contrário, é a negação do poder da linguagem e, portanto, a desistência do projeto humano. Além de negar esse projeto, a guerra funciona, hoje, como: (1) uma poderosa alça de retroalimentação de todas as crises acima enunciadas e (2) um obstáculo fundamental a qualquer esforço de concertação entres as sociedades para atenuar os impactos atuais e vindouros das crises planetárias, de modo a torná-los menos adversos às sociedades e à vida pluricelular em geral. Hoje, mais que nunca, a guerra deve ser evitada, se temos, de fato, alguma intenção de sobreviver.

O triênio 2006-2008

As torres gêmeas de 2001, a guerra do Afeganistão (2001-2020), os massacres da OTAN no Kosovo e sua expansão em direção ao leste europeu (1999 – 2009) e, sobretudo, a invasão do Iraque em 2003 pelos EUA, que engendrou as guerras sucessivas do autodenominado Estado Islâmico (2004-2019), encerraram de vez o período em que o capitalismo globalizado podia gerar ao menos a ilusão de que algum consenso político era possível. Nesse contexto de guerras, o triênio 2006 – 2008 vê a conjunção de três grandes crises intimamente interligadas:

(1) A ultrapassagem do pico da curva ascendente de oferta do petróleo convencional em 2006. Como afirma a Agência Internacional de Petróleo (AIE) em seu relatório de 2010: “a oferta de petróleo cru atinge um platô ondulante entre 68 e 69 milhões de barris por dia (mb/d) até 2020, mas nunca mais ultrapassa seu pico de 70 mb/d atingido em 2006, enquanto a produção de gás natural líquido (NGLs) e de petróleo não convencional cresce fortemente”.iv A ultrapassagem desse pico da curva de oferta de petróleo convencional representa o fim da era do petróleo barato e facilmente acessível, com duas implicações: (a) um EROI (Energy Returned on Investement, ou seja, a taxa de energia recuperada por energia investida) cada vez mais desfavorável e (b) crescentes emissões de gases de efeito estufa por cada barril de petróleo não convencional extraído. Entre outros fatores mais conjunturais, a percepção do fim dessa era do petróleo barato e facilmente acessível causou um salto sem precedentes dos preços do barril do Brent (US$ 146,00 em julho de 2008). A crise financeira de 2008, em parte causada por esses preços estratosféricos, precipitou uma queda não menos brutal desses preços e, sucessivamente, uma crônica instabilidade nesse mercado, como mostra a Figura 1.

Figura 1 – Preços do barril de petróleo cru (Brent) em dólares entre 2006 e 2022

Fonte: Statista, baseado em investing.com

(2) A crise dos “subprimes” nos EUA foi o estopim de um colapso financeiro mundial e possivelmente de uma desestabilização irreversível da ordem financeira global, assim como um ponto de não retorno no processo de concentração de capital e renda. Nos EUA, desde 2008, como bem salienta Victoria Finkle:v

“O fosso entre os ricos e todos os outros também aumentou. O 1% mais rico dos americanos controla agora [2018] quase 40% da riqueza do país, enquanto os próximos 9% controlam quase a mesma quantidade. A grande maioria dos americanos, entretanto, viu a sua quota cair desde a crise – os 90% mais pobres detinham pouco mais de 20% da riqueza total em 2016, abaixo dos cerca de 30% no início da década de 2000”.

Outro efeito dessa crise foi a maior polarização política na sociedade norte-americana, com seus reflexos nos estados satélites da Europa. A incapacidade das sociedades de vislumbrar uma alternativa sistêmica e radical ao capitalismo causou o paradoxo maior dessa crise no âmbito político e ideológico: os protagonistas do neoliberalismo mais predatório assumiram aos olhos de segmentos importantes da sociedade a imagem salvífica de políticos “antissistema”. Em alguma medida, Trump, o Tea Party e a extrema-direita europeia e latino-americana (Bolsonaro, Milei etc.) são o resultado último da crise de 2008 ou, mais precisamente, do rancor das sociedades em face de um capitalismo financeiro globalizado incapaz de atender às suas mínimas expectativas de segurança econômica. Neste terceiro decênio, cresce entre os analistas do sistema financeiro internacional o temor de uma próxima crise financeira de magnitude igual ou superior à de 2008.vi

(3) Em 2007-2008, registra-se um primeiro surto nos preços dos alimentos, repetido em 2011, decorrente de secas exacerbadas pela emergência climática, de especulação financeira sobre as “commodities” agropecuárias e de cartelização dos insumos agrícolas por megacorporações agroquímicas, surto este que gerou as revoltas da fome em mais de 40 países e a chamada primavera árabe. A Figura 2 mostra esses dois saltos (2008 e 2011) nos preços dos alimentos.

Figura 2 – Índice de preços dos alimentos da FAO (FFPI) entre 1990 e 2013.

Observação: o FFPI é uma medida da variação mensal dos preços internacionais de uma cesta de produtos alimentares.

A proliferação de guerras no segundo decênio

Em parte como resultado desses três fatores, rebentam a partir de 2011 as guerras ainda em curso na Síria, na Líbia (com o massacre da população civil por sete mil incursões de bombardeio da OTAN em 2011), no Iêmen (a partir de 2014) e em diversos países da África subsaariana. Segundo a FAO, após decênios de progressos contínuos na diminuição da insegurança alimentar, inverte-se após 2014 essa tendência com maior generalização da fome, intensificadas por governos neoliberais e, mais recentemente, pela pandemia, pela guerra da Ucrânia e demais guerras. A partir do terceiro decênio, guerras e conflitos armados internos ou entre dois ou mais estados nacionais alastram-se ainda mais pela África, Ásia e Europa. Alguns exemplos disso são as guerras que eclodem entre 2021 e 2023 em Mianmar, Ucrânia, Sudão e Etiópia, bem como o genocídio do povo palestino pelo Estado de Israel com armas e apoio dos EUA e da Europa e com a mais total indiferença dos países árabes (2023-2024). Essas guerras e as tensões crescentes entre Israel e o Irã adicionam ainda mais instabilidade à segurança energética e alimentar. O Stockholm International Peace Research Institute (SIPRI) inventariou 56 Estados nacionais em conflito armado em 2022, cinco a mais do que em 2021.vii O relatório de 2024 do SIPRI registra despesas militares globais de mais de 2,4 trilhões de dólares em 2023, um aumento de 6,8% em termos reais em relação a 2022 e o maior aumento desde 2009. As despesas em “defesa” dos EUA montam a US$ 916 bilhões em 2023 (US$ 778 bilhões em 2020) e dos 31 países da OTAN, a mais de US$ 1,3 trilhão ou 55% das despesas militares globais. E posto que armas pedem guerras, a Figura 3 mostra o alastramento global de conflitos armados a partir do segundo decênio.

Figura 3 – Número de conflitos armados em escala global entre 1990 e 2022.

Fonte: Joshua Keating, “It’s not your imagination. There has been more war lately”. Vox, 25/I/2024, baseado em dados do Uppsala Conflict Data Program e do Peace Research Institute Oslo (2023)

Conclusão

Guerras entre humanos e guerra contra a natureza são as duas faces interligadas do desastre planetário em curso, com suas vítimas cada vez mais numerosas. O Internal Displacement Monitoring Centre (IDMC), de Genebra, contabiliza apenas em 2023 deslocamentos internos de 75,9 milhões de pessoas no mundo todo, o que representa um novo recorde mundial, sendo que desse total, 68,3 milhões perderam seus locais de residência por causa de guerras e conflitos armados e 7,7 milhões em decorrência de desastres, a maior parte deles causados ou exacerbados pela emergência climática e pelo desmatamento. O número de deslocados internos cresceu 50% nos últimos cinco anos.viii De seu lado, o Global Report on Food Crises 2024 contabiliza 90,2 milhões de pessoas desalojadas em 2023, sendo 64,3 milhões em deslocados internamente em 38 países ou territórios e 26 milhões de refugiados em busca de abrigo em outros países, um aumento ininterrupto de vítimas desde 2013, conforme mostra a Figura 4.

Figura 4 – Deslocados (em milhões) em 59 países/territórios, vítimas de crises alimentares entre 2013 e 2023.

O único denominador comum em meio às guerras, ao imenso sofrimento e à destruição ambiental imperante é o negacionismo, ou seja, a incompreensão de que o que está em jogo, aqui e agora, é nossa sobrevivência como sociedades organizadas bem como a de grande parte das espécies (das quais, de resto, dependemos existencialmente). Dito em outras palavras, as guerras e a energia dispendida em acusações mútuas e em retóricas nacionalistas de confronto relegam às calendas gregas a aplicação dos acordos globais para cessar a queima de combustíveis fósseis e a destruição da biosfera pelo agronegócio e pela mineração. A brutalidade das guerras e a estupidez das ideologias nacionalistas ocultam tragicamente a percepção do essencial: a destruição vertiginosa das bases físico-químicas e biológicas planetárias que viabilizam qualquer projeto social.

Contra essa engrenagem, que nada tem de inevitável, é preciso reagir. É preciso revoltar-se contra o negacionismo dos governantes e das corporações. É preciso afirmar que somos capazes, como sociedades, de pôr um ponto final na procrastinação política e nesse estado de guerra permanente. Essa revolta é uma aposta numa aliança renovada entre princípios herdados da história e a imaginação de um planeta futuro habitável para os jovens de hoje e para as gerações vindouras. Ela pode se expressar em cinco pontos programáticos:

(a) a democracia, entendida como soberania popular participativa e como controle efetivo dos governantes pelos governados, tem o poder de vencer as oligarquias, sejam estas exercidas por regimes ditatoriais ou pelas engrenagens corporativas e financeiras. A política e a democracia são a única negação válida e possível da injustiça, da anomia e da guerra;

(b) as sociedades têm a faculdade de compreender seus próprios desafios, por mais complexos que sejam, e essa compreensão é um passo fundamental no processo de seu enfrentamento. Decisões coletivas racionais podem prevalecer sobre as pulsões agressivas de nossa espécie;

(c) a questão social e a questão ecológica são indissociáveis. No século XXI, elas se tornaram uma única e mesma questão, ainda pouco assimilada por setores hegemônicos das esquerdas. Em outras palavras, todo problema social só pode ser considerado resolvido se redundar em diminuição do impacto antrópico sobre o sistema Terra e se redundar também em diminuição das desigualdades entre os humanos e entre estes e as demais espécies;

(d) resolver problemas da magnitude dos que hoje nos confrontam supõe abandonar gradualismos e aceitar o desafio de empreender uma mutação civilizacional, a qual requer rupturas institucionais, com seus riscos altos e inevitáveis, dada a natureza inerentemente conflituosa do processo histórico. Essas rupturas, contudo, só serão possíveis e efetivas se forem políticas, isto é, sem intervenção de militares, setor primitivo e parasitário (US$ 2,4 trilhões em 2023) da sociedade que pode e deve, enfim, se extinguir no curso dessa mutação civilizacional.

(e) os que consideram essa mutação civilizacional irrealista devem entender que não tentar realizá-la é ainda mais irrealista, pois a trajetória atual, com suas mudanças cosméticas e a passo de lesma, nos condena com certeza a um planeta inabitável no horizonte dos próximos decênios.

i Cf. Chi Xu et al., “Future of the Human Climate Niche”, PNAS, 117, 21, p. 11350-5, 26/V/2020.

ii Cf. K. von Clausewitz, De la guerre [1832], D. Naville (trad.), Paris, 1955, p. 67.

iii Cf. Michel Foucault, “Il faut défendre la société”. Cours au Collège de France, 1975-1976, Paris, 1997, pp. 15-16, citado por Audrey Hérisson, “Clausewitz versus Foucault : regards croisés sur la guerre”. Cahiers de philosophie de l’Université de Caens, 55, 2018, pp. 143-162: “Le pouvoir, c’est la guerre, c’est la guerre continuée par d’autres moyens. Et à ce moment-là, on retournerait la proposition de Clausewitz et on dirait que la politique, c’est la guerre continuée par d’autres moyens”.

iv Cf. AIE, World Energy Outlook, 2010, p. 48 <http://www.iea.org/publications/freepublications/publication/weo2010.pdf>.

v Cf. Victoria Finkle, “The crisis isn’t over”, American Banker, 2018.

<https://www.americanbanker.com/news/the-crisis-isnt-over>.

vi Cf. A. Leparmentier, “Aux États-Unis, les nuages d’une crise financière s’amoncellent à l’horizon”. Le Monde, 1/VI/2024.

vii Cf. Stockholm International Peace Research Institute, SIPRI Yearbook 2023. Armaments, Disarmament and International Security, SIPRI, 2023. <https://www.sipri.org/sites/default/files/2023-06/yb23_summary_en_0.pdf>.

viii Cf. “Conflicts drive new record of 75.9 million people living in internal displacement”. IDMC, 14/V/2024.

segunda-feira, 3 de junho de 2024

Nos salvaremos a partir do princípio da esperança em ação, por Leonardo Boff

 

Assumir este princípio esperança hoje, nesta nova fase da Terra, é extremamente urgente


Por Leonardo Boff, no iclnoticias

A grande enchente que está assolando o Rio Grande do Sul é um dos sinais mais inequívocos, dado pela Mãe Terra, dos efeitos extremamente danosos das mudanças climáticas. Já estamos dentro dela. Não adianta os negacionistas se recusarem a aceitar esse dado. Os fatos falam por si. Dentro de pouco chegarão na vida de todas as pessoas, ricos e pobres, como chegou a todos na maioria cidades ribeirinhas daquele estado.

Ocorreu uma surpreendente aceleração do processo de aquecimento global e não se cumpriu o decidido no Acordo de Paris de 2015 segundo o qual se previa uma redução drástica de gases de efeito estufa para não aumentarmos a temperatura de 1,5ºC até 2030. Quase nada se fez: em 2022 foram lançadas na atmosfera 37,5 bilhões de toneladas de CO² e em 2023 foram 40,8 bilhões de toneladas. Tudo foi excessivo. Em razão disso, alguns climatólogos sustentam que antes de 2030, como previsto, o aquecimento se antecipou. Por volta de 2026-2028 o clima da Terra se estabilizaria em torno de 38-40ºC e em alguns lugares com números mais elevados.

A temperatura de nosso corpo está por volta de 36,5ºC. Imaginem se pela noite a temperatura ambiente se mantiver por volta de 38ºC? Muitos, entre os idosos e crianças, não aguentarão e poderão até morrer. E para todos será uma grande agonia. Sem falar da perda da biodiversidade e das safras de alimentos, necessários para a sobrevivência.

Quem viu claro o estado da Terra foi um representante dos povos originários, aqueles que se sentem Terra e parte da natureza, uma liderança yanomami Dário Kopenawa:” A Terra é nossa mãe e sofre há muito tempo. Como um ser humano que sente dor, ela sente quando invasores, o agronegócio, mineradoras e petroleiras derrubam milhares de árvores e cavam fundo no solo, no mar. Ela está pedindo ajuda e dando avisos para que os não indígenas parem de arrancar a pele da Terra”.

Como continuamos arrancando a pele da Terra e agravando a mudança climática, o potencial de esperança está chegando ao limite. Cientistas deixaram claro que a ciência e a técnica não poderão reverter esta situação, apenas advertir da chegada de eventos extremos e mitigar suas consequências desastrosas. Chegamos à atual situação global simplesmente porque grande parte da população desconhece a real situação da Terra e a maioria dos chefes de Estado e os CEOs das grandes empresas preferem continuar a lógica da produção ilimitada, arrancada da natureza e do consumo sem limites, a ouvir as advertências das ciências da Terra e da vida. Não se fez a lição de casa. Agora a fatura amarga chegou.

O que ocorreu no Sul do Brasil é apenas o começo. Os desastres ecológicos vão se repetir com mais frequência e de forma cada vez mais grave em todas as partes do planeta.

Onde vamos buscar energias para ainda crer e esperar? Como foi dito com sabedoria: “quando não há mais razão para crer, então começa a fé; quando não há mais razão para esperar, então começa a esperança”. Como disse com acerto o autor da epístola aos Hebreus (por volta dos anos 80):”A fé é o fundamento do que se espera e a convicção das realidades que não se veem” (11,1). A fé vê o que não se vê com os simples olhos carnais. A fé vê, com os olhos do espírito que é o nosso profundo, a possibilidade de um mundo que ainda virá, mas que, seminalmente mas ainda invisível, está entre nós. Por isso a fé se abre à esperança que é sempre ir além do que é dado e verificado. A fé e a esperança fundam o mundo das utopias que forcejam por se realizar historicamente.

Aqui vale o princípio esperança. O filósofo alemão Ernst Bloch cunhou a expressão princípio esperança. Ele representa um motor interior que sempre está funcionando e alimentando o imaginário e o inesgotável potencial da existência humana e da história. O Papa Francisco na Fratelli tutti afiança: “a esperança nos fala de uma realidade enraizada no profundo do ser humano, independentemente das circunstâncias concretas e dos condicionamentos históricos em que vive” (n. 55). Assumir este princípio esperança hoje, nesta nova fase da Terra, é extremamente urgente.

O princípio esperança é o nicho de todas as utopias. Ele permite continuamente projetar novas visões, novos caminhos ainda não trilhados e sonhos viáveis. O sentido da utopia é sempre nos fazer andar (Eduardo Galeano), sempre superar dificuldades e melhorar a realidade. Como humanos, somos seres utópicos. É o princípio esperança que nos poderá salvar e abrir uma direção nova para a Terra e seus filhos e filhas.

Qual a nossa utopia mínima, viável e necessária? Ela implica, antes de mais nada, a busca da humanização do ser humano. Ele se desumanizou pois se transformou no anjo exterminador da natureza. Só recuperará sua humanidade se começar a viver a partir daquilo que é de sua natureza: um ser de amorização, de cuidado, de comunhão, de cooperação, de compaixão, de ser ético e de ser espiritual que se responsabiliza por seus atos para que sejam benfazejos para o todos. Pelo fato de não ter criado espaço a esses valores e princípios, fomos empurrados na crise atual que pode nos conduzir ao abismo.

Essa utopia viável e necessária se concretiza sempre, caso tenhamos tempo, dentro das contradições, inevitáveis em todos os processos históricos. Mas ela significará um novo horizonte de esperança que alimentará a caminhada da humanidade na direção do futuro.

Desta ótica nasce uma nova ética. Por todos os lados surgem forças seminais que buscam e já ensaiam um novo padrão de comportamento humano e ecológico. Representará aquilo que Pierre Teilhard de Chardin desde seu exílio na China em 1933 chamava de noosfera. Seria aquela esfera na qual as mentes e os corações (noos em grego) entrariam numa nova sintonia fina, caracterizada pela amorização, pelo cuidado, pela mutualidade entre todos, pela espiritualização das intencionalidades coletivas. Dizia um aforisma antigo: ”quando não sabes para onde vais, regresse para saber de onde vens”. Temos que regressar à nossa própria natureza de onde viemos e que contém as indicações para onde: àqueles valores acima enunciados que poderão nos tirar desta dramática situação.

No meio de tanto abatimento e melancolia pela situação grave do mundo, nisso cremos e esperamos.

quinta-feira, 3 de março de 2022

Painel do Clima adverte: o calor pelo descaso com o clima e meio ambiente pode sair de controle

 


Mesmo mantendo o aumento da temperatura em 1,5 °C, a degradação natural pode ser irreversível, adverte um dos mais mais preocupantes relatórios do IPCC. O aquecimento também tornará o mundo mais doente, avaliam os cientistas

Na Califórnia, homem lamenta fogo perto de casa: EUA registram ao menos 80 incêndios florestais concomitantes na região oeste – (crédito: Josh Edelson/AFP)

O Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC) publicou no dia 28 passado o segundo volume da sua sexta avaliação do estado do planeta, que trata dos efeitos das transformações globais sobre as sociedades. O primeiro volume, em agosto, havia relatado as últimas evidências científicas sobre o assunto: elas são inequívocas, reafirma-se agora. “A mudança climática é uma ameaça ao bem-estar humano e à saúde planetária”.

Com mais de 3.500 páginas, o relatório detalha os efeitos concretos observados até hoje. Na América do Norte, por exemplo, as mudanças climáticas reduziram a produtividade agrícola em 12,5% desde 1961. Essas consequências estão em curso e podem se agravar dependendo do ritmo em que as medidas de retificação vierem a ser aplicadas. Uma das três conclusões cruciais do documento diz respeito à saúde, conforme observou a revista The Atlanticcitando o IPCC.

“As mudanças climáticas afetaram negativamente a saúde física das pessoas em todo o mundo e a saúde mental das pessoas nas regiões avaliadas”, escreve o relatório. Observa-se que aumentaram os riscos de dengue, uma doença viral transmitida por mosquitos. O aumento atingiu todos os continentes, exceto Antártida e Austrália. Também o vírus da Chikungunya ganhou espaço no mundo mais escaldante. A mesma preocupação vale para patógenos como o coronavírus – que se readaptam de animais para pessoas, conforme se alteram as condições ambientais.

Como as alterações se tornam mais frequentes, mais vírus poderão migrar para os humanos. A probabilidade da transmissão de doenças pela água aumentou em alguns pontos do planeta. Observa-se também crescimento no risco de algas tóxicas espalharem-se pelos oceanos e mares. O ar em muitas partes do mundo ficou mais sujo de partículas de poeira e de fumaça, piorando a saúde do coração e dos pulmões.

O aumento da temperatura da superfície terrestre, desde o período de referência em 1850-1900, foi da ordem de 1 °C – muita coisa, tendo em vista a imensa massa da Terra. E tudo indica que a elevação está se acelerando. Toda prudência é pouca, nesse cenário. Mas ela tem sido suficiente? Não, calculam cientistas. Em um estudo publicado recentemente na revista Nature, um grupo de pesquisadores levantou os vastos recursos gastos por governos para escapar da recessão.

Foram quantias sem precedentes e ampliadas no período da pandemia, observaram. Entre 2020 e 2021, o grupo do G20, das 20 maiores economias globais, despendeu pelo menos 14 trilhões de dólares – equivalente à produção econômica da China. Mas a ação climática recebeu menos do que devia – apenas 6% do total. Com certeza, seria preciso destinar a maior parte desse montante para reforçar os sistemas de saúde, salários e bem-estar geral da população, ponderam os cientistas. Mas tendo em conta a urgência apresentada pelas mudanças climáticas, os investimentos feitos em seus projetos deixaram muito a desejar.

FLÁVIO DIEGUEZ

Jornalista, atuou na imprensa de resistência à ditadura (Movimento e Retrato do Brasil), editou Ciência Ilustrada, ajudou a criar a Superinteressante e participou da aventura de tentar erguer a Radiobrás, entre 2002 e 2005. É editor do site Outra Saúde.

quarta-feira, 10 de novembro de 2021

Georges Monbiot: A narrativa simplória de que a catástrofe climática pode ser revertida por ações individuais esconde o temor dos poderosos de que nos juntemos por uma ação política efetiva

 

Monbiot: “não acredite em poupar canudinhos”

Há um truque por trás da narrativa que reduz nossa ação contra a catástrofe climática a escolhas individuais de consumo. Significa desprezar a ação política, única força capaz de evitar o pior – e aquela que o poder econômico mais teme…

Por George Monbiot

Há um mito sobre os seres humanos que resiste, apesar de todas as provas em contrário. Ele diz que nós colocamos sempre a nossa sobrevivência em primeiro lugar. Isto é verdade para outras espécies. Quando confrontadas com uma ameaça iminente, como o inverno, elas investem grandes recursos para evitá-la ou resistir a elas: migrar ou hibernar, por exemplo. Os seres humanos são uma questão diferente.

Quando confrontados com uma ameaça iminente ou crônica, como o colapso climático ou ecológico, parece que saímos do nosso caminho para comprometer a nossa sobrevivência. Nós nos convencemos que não é tão grave, ou mesmo que não está acontecendo. Duplicamos na destruição, trocando nossos carros comuns por utilitários esportivos, voando para Oblivia em um vôo de longo curso, queimando tudo isso em um frenesi final. No fundo da nossa mente, há uma voz sussurrando: “Se fosse realmente tão sério, alguém nos impediria”. Se tratarmos destes assuntos, fazemo-lo de formas mesquinhas, simbólicas, cômicas e mal combinadas com a escala da nossa situação. É impossível discernir, na nossa resposta ao que sabemos, a primazia do nosso instinto de sobrevivência.

Eis o que nós sabemos. Sabemos que as nossas vidas dependem inteiramente de sistemas naturais complexos: a atmosfera, as correntes oceânicas, o solo, as teias de vida do planeta. As pessoas que estudam sistemas complexos descobriram que eles se comportam de forma consistente. Não importa se o sistema é uma rede bancária, um Estado-nação, uma floresta tropical ou uma plataforma de gelo antártico; seu comportamento segue certas regras matemáticas. Em condições normais, o sistema se regula a si mesmo, mantendo um estado de equilíbrio. Ele pode absorver estresse até um certo ponto. Mas então, de repente, ele vira. Ultrapassa um ponto de viragem, depois cai em um novo estado de equilíbrio, que muitas vezes é impossível reverter.

A civilização humana depende dos estados de equilíbrio atuais. Mas, em todo o mundo, sistemas cruciais parecem estar se aproximando dos seus pontos de ruptura. Se um sistema se quebrar, é provável que arraste outros consigo, provocando uma cascata de caos conhecida como colapso ambiental sistêmico. Isto é o que aconteceu durante as extinções em massa anteriores.

Aqui está uma das muitas maneiras em que isso poderia ocorrer. Uma faixa de savana, conhecida como cerrado, cobre o Brasil central. Sua vegetação depende da formação de orvalho, que depende, por sua vez, de árvores de raízes profundas que extraem as águas subterrâneas, liberando-as para o ar através de suas folhas. Mas, nos últimos anos, vastas extensões do cerrado foram desmatadas para a plantação de cultivos – principalmente soja para alimentar as galinhas e porcos do mundo. À medida que as árvores são cortadas, o ar torna-se mais seco. Isto significa que as plantas menores morrem, garantindo que ainda menos água circule. Em combinação com o aquecimento global, alertam alguns cientistas, este ciclo vicioso poderia – em breve e de repente – atirar todo o sistema para a desertificação.

O cerrado é a nascente de alguns dos grandes rios da América do Sul, incluindo aqueles que correm para o norte na bacia do Amazonas. Como menos água alimenta os rios, isso pode exacerbar o estresse que aflige as florestas tropicais. Elas estão sendo devastadas por uma combinação mortal de derrubada, queima e aquecimento, e já estão ameaçadas com um possível colapso sistêmico. Tanto o cerrado como a floresta tropical criam “rios no céu” – correntes de ar úmido – que distribuem a chuva pelo mundo e ajudam a impulsionar a circulação global: o movimento do ar e das correntes oceânicas.

A circulação global já parece vulnerável. Por exemplo, o meridional atlântico de inversão da circulação (AMOC), que fornece calor dos trópicos em direção aos polos, está sendo perturbada pelo derretimento do gelo ártico, e começou a enfraquecer. Sem ela, o Reino Unido teria um clima semelhante ao da Sibéria.

A AMOC tem dois estados de equilíbrio: ligado e desligado. Está ligada há quase 12.000 anos, após um devastador estado de mil anos fora chamado de Younger Dryas (12.900 a 11.700 anos atrás), que causou uma espiral global de mudanças ambientais. Tudo o que sabemos e amamos depende da permanência da AMOC no estado.

Independentemente do sistema complexo que está sendo estudado, há uma maneira de saber se ele está se aproximando de um ponto de viragem. As suas saídas começam a oscilar. Quanto mais perto o seu limiar crítico se aproxima, mais selvagens são as flutuações. O que vimos este ano é um grande tremeluzir global, à medida que os sistemas terrestres começam a quebrar. As cúpulas de calor sobre a costa ocidental da América do Norte; os enormes incêndios ali, na Sibéria e ao redor do Mediterrâneo; as inundações letais na Alemanha, Bélgica, China, Serra Leoa – estes são os sinais que, em código climático morse, soletram “ponto de ruptura”.

Você pode esperar que uma espécie inteligente responda a esses sinais rápida e conclusivamente, alterando radicalmente sua relação com o mundo vivo. Mas não é assim que nós funcionamos. A nossa grande inteligência, a nossa consciência altamente evoluída que em outros tempos nos levou tão longe, agora trabalha contra nós.

Uma análise do grupo de sustentabilidade da mídia Albert descobriu que “bolo” foi mencionado 10 vezes mais vezes do que “mudança climática” nos programas de TV do Reino Unido em 2020. O “ovo escocês” recebeu o dobro das menções de “biodiversidade”. O “pão de banana” bateu a “energia eólica” e a “energia solar” juntas.

Reconheço que os meios de comunicação social não são sociedade e que as estações de televisão têm interesse em promover o pão de banana e os circos. Poderíamos discutir até que ponto os meios de comunicação estão refletindo ou gerando mais apetite por bolo que preocupação com o clima. Mas suspeito que, de todas as formas pelas quais podemos medir nosso avanço na prevenção do colapso ambiental sistêmico, a relação entre o bolo e o clima é o índice decisivo.

A relação atual reflete um compromisso determinado com a irrelevância face a uma catástrofe global. Sintonize praticamente qualquer estação de rádio, a qualquer momento, e você pode ouvir a frenética distração operando. Enquanto ao redor do mundo os incêndios crepitam, as enchentes varrem os carros das ruas e as plantações secam, você ouve um debate sobre se é melhor sentar ou ficar de pé enquanto puxa suas meias, ou uma discussão sobre charcutaria para cães. Não estou inventando estes exemplos: tropecei neles enquanto passeava entre canais em dias de desastre climático. Se um asteroide se dirigisse para a Terra, e ligássemos o rádio, provavelmente ouviríamos: “Então o tema quente de hoje é – qual é a coisa mais engraçada que já te aconteceu enquanto comias um kebab?” É assim que o mundo acaba, não com um estrondo, mas com uma brincadeira.

Diante de crises em uma escala sem precedentes, nossas cabeças estão cheias de balbuciar insistentemente. A banalização da vida pública cria um loop: torna-se socialmente impossível falar de qualquer outra coisa. Não estou sugerindo que devemos discutir apenas a catástrofe iminente. Sou apenas contra os banimentos.

Não é só nos canais de música e entretenimento que prevalece esta irrelevância mortífera. A maioria das notícias políticas não passa de fofoca: quem está dentro, quem está fora, quem disse o quê a quem. Cuidadosamente evita-se o que está por baixo: o dinheiro negro, a corrupção, a mudança do poder para longe da esfera democrática, o colapso ambiental que faz um disparate das suas obsessões.

Tenho a certeza que não é deliberado. Acho que ninguém, perante a perspectiva de um colapso ambiental sistêmico, se está dizendo a si próprio: “Rápido, vamos mudar o assunto para charcutaria para cães.” Funciona a um nível mais profundo do que este. É um reflexo subconsciente que nos diz mais sobre nós mesmos do que as nossas ações conscientes. A conversa no rádio soa como os sinais distantes de uma estrela moribunda.

Há algumas espécies de libélulas cuja sobrevivência depende da quebra da película superficial da água de um rio. A fêmea a rompe – é uma proeza para uma criatura tão pequena e delicada – e depois nada pela coluna de água para pôr os seus ovos no leito do rio. Se ela não conseguir perfurar a superfície, ela não pode fechar o círculo da vida, e sua prole morre com ela.

Esta também é a história humana. Se não conseguirmos furar a superfície vítrea da distração, e nos envolvermos com o que está por baixo, não garantiremos a sobrevivência de nossos filhos ou, talvez, de nossa espécie. Mas parecemos incapazes ou relutantes em quebrar o filme da superfície. Eu penso neste estranho estado como a nossa “tensão superficial”. É a tensão entre o que sabemos sobre a crise que enfrentamos, e a frivolidade com a qual nos distanciamos dela.

A tensão superficial domina mesmo quando afirmamos estar lidando com a destruição dos nossos sistemas de suporte de vida. Concentramo-nos naquilo a que chamo de micro-bolhas consumistas (MCB): pequenas questões como colherinhas de plástico e copos de café, em vez das enormes forças estruturais que nos conduzem à catástrofe. Somos obcecados por sacos de plástico. Acreditamos que estamos fazendo um favor ao mundo ao rejeitar sacolas plásticas, embora, em uma estimativa, o impacto ambiental de produzir uma sacola de algodão orgânico seja equivalente ao de 20.000 sacolas plásticas.

Estamos justamente horrorizados com a imagem de um cavalo marinho com a cauda enrolada em torno de um cotonete, mas aparentemente despreocupados com a eliminação de ecossistemas marinhos inteiros pela indústria pesqueira. Nós abanamos a cabeça, e continuamos a comer nossa rota através da vida marinha.

Uma empresa chamada Soletair Power recebe ampla cobertura da mídia por sua alegação de estar “combatendo as mudanças climáticas” ao capturar o dióxido de carbono exalado por trabalhadores de escritório. Mas sua unidade sugadora de carbono – uma torre de aço e eletrônica ambientalmente cara – extrai apenas 1kg de dióxido de carbono a cada oito horas. A humanidade produz, principalmente através da queima de combustíveis fósseis, cerca de 32 bilhões de kg de CO2 no mesmo período.

Não acredito que o nosso foco em soluções microscópicas seja acidental, mesmo que seja inconsciente. Todos nós somos especialistas em realçar as coisas boas que fazemos para ofuscar as más. As pessoas ricas podem convencer-se de que se tornaram verdes porque reciclam, enquanto esquecem que têm uma segunda casa (sem dúvida a mais extravagante de todas as suas agressões ao mundo vivo, já que outra casa tem de ser construída para acomodar a família que deslocaram). E suspeito que, em algum recanto profundo e não iluminado da mente, nós nos asseguramos de que se nossas soluções são tão pequenas, o problema não pode ser tão grande.

Não estou dizendo que as coisas pequenas não importam. Estou sustentando que elas não devem importar, e excluir com isso as coisas que importam mais. Todas as pequenas coisas contam. Mas não muito.

O foco na MCB está alinhado com a agenda corporativa. O esforço deliberado para nos impedir de ver o panorama geral começou em 1953 com uma campanha chamada Keep America Beautiful (Mantenha os EUA bonitos). Foi fundado por fabricantes de embalagens, motivados pelos lucros que poderiam obter com a substituição de embalagens reutilizáveis por plástico descartável. Acima de tudo, eles queriam rejeitar as leis estaduais que obrigam a devolver e reutilizar as garrafas de vidro. Keep America Beautiful transferiu a culpa pelo tsunami do lixo plástico que os fabricantes causaram para os “bichos do lixo”, um termo que inventou.

A campanha “Love Where You Live”, lançada no Reino Unido em 2011 por Keep Britain Tidy, Imperial Tobacco, McDonald’s e o fabricante de doces Wrigley, pareceu-me desempenhar um papel semelhante. Tinha o bônus adicional – como se destacava fortemente nas salas de aula – de conceder a exposição do Imperial Tobacco às crianças em idade escolar.

O foco corporativo no lixo, ampliado pela mídia, distorce nossa visão sobre todas as questões ambientais. Por exemplo, um recente levantamento das crenças públicas sobre a poluição dos rios descobriu que “lixo e plástico” era de longe a maior causa nomeada pelas pessoas. Na realidade, a maior fonte de poluição da água é a agricultura, seguida pelo esgoto. O lixo está muito abaixo da lista. Não é que o plástico não seja importante. O problema é que é quase a única história que nos chega.

Em 2004, a empresa de publicidade Ogilvy & Mather, que trabalha para a gigante petrolífera BP, levou esta mudança de culpa um passo à frente ao inventar a pegada pessoal de carbono. Foi uma inovação útil, mas também teve o efeito de desviar a pressão política dos produtores de combustíveis fósseis para os consumidores. As companhias petrolíferas não pararam por aí. O exemplo mais extremo que vi foi um discurso do chefe executivo da companhia petrolífera Shell, Ben van Beurden, em 2019. Ele nos instruiu para “comer sazonalmente e reciclar mais”, e repreendeu publicamente seu motorista por comprar uma cestinha de morangos em janeiro.

A grande transição política dos últimos 50 anos, impulsionada pelo marketing corporativo, foi uma mudança da abordagem coletiva dos nossos problemas para a abordagem individual. Em outras palavras, ela nos transformou de cidadãos em consumidores. Não é difícil ver por que temos sido levados por este caminho. Como cidadãos, unidos para exigir mudanças políticas, somos poderosos. Como consumidores, somos quase impotentes.

Em seu livro Vida e Destino, Vasily Grossman observa que, quando Stalin e Hitler estavam no poder, “um dos traços humanos mais surpreendentes que veio à tona foi a obediência”. O instinto de obedecer, observou ele, era mais forte que o instinto de sobreviver. Agir sozinho, ver-nos como consumidores, fixar-se em MCB e em trivialidades de ilusão da mente, mesmo quando o colapso ambiental sistêmico se aproxima: estas são formas de obediência. Preferimos enfrentar a morte civilizacional do que o constrangimento social causado por suscitar assuntos incômodos, e os problemas políticos envolvidos na resistência a forças poderosas. O reflexo da obediência é a nossa maior falha, a dobra no cérebro humano que ameaça as nossas vidas.

O que vemos se quebrarmos a tensão superficial? A primeira coisa que encontrarmos, a aproximar-se das profundezas, deveria nos assustar. Chama-se crescimento. O crescimento econômico é universalmente aclamado como uma coisa boa. Os governos medem o seu sucesso na sua capacidade de obtê-lo. Mas pensem por um momento no que isso significa. Digamos que atingimos o modesto objetivo, promovido por organismos como o FMI e o Banco Mundial, de um crescimento global de 3% ao ano. Isso significa que toda a atividade econômica que você vê hoje – e a maioria dos impactos ambientais que ela causa – dobra em 24 anos; em outras palavras, até 2045. Depois, duplica novamente até 2069. Depois, de novo em 2093. É como a maldição Gemino em Harry Potter e nos Salões da Morte, que multiplica o tesouro no cofre Lestrange até ameaçar esmagar Harry e seus amigos até a morte. Todas as crises que procuramos evitar hoje tornam-se duas vezes mais difíceis de resolver do que a atividade econômica global duplica, depois duas vezes mais, e depois duas vezes mais.

Já chegamos ao fundo do poço? De modo algum. A maldição Gemino é apenas um resultado de uma coisa que quase não ousamos mencionar. Assim como já foi blasfemo usar o nome de Deus, até a palavra aparece, na sociedade educada, para ser tabu: capitalismo.

A maioria das pessoas luta para definir o sistema que domina as nossas vidas. Mas se você pressioná-los, é provável que murmurem algo sobre trabalho duro e empreendedorismo, comprar e vender. É assim que os beneficiários do sistema querem que ele seja entendido. Na realidade, as grandes fortunas acumuladas sob o capitalismo não são obtidas desta forma, mas através da pilhagem, do monopólio e do roubo de rendas, seguidos da herança.

Uma estimativa sugere que, ao longo de 200 anos, os britânicos extraíram da Índia, a preços correntes, 45 trilões de dólares. Eles usaram esse dinheiro para financiar a industrialização interna e a colonização de outras nações, cuja riqueza foi então pilhada também.

O saque ocorre não só através da geografia, mas também através do tempo. A aparente saúde das nossas economias de hoje depende da captura das riquezas naturais das gerações futuras. É isso que as empresas petrolíferas, ao tentar nos distrair com MCB e pegadas de carbono, estão fazendo. Esse roubo do futuro é o motor do crescimento econômico. O capitalismo, que soa tão razoável quando explicado por um economista convencional, não é, em termos ecológicos, nada mais que um esquema em pirâmide.

Dificilmente importa o quão verde você pensa que é. A principal causa do seu impacto ambiental não é a sua atitude. Não é o seu modo de consumo. Não são as escolhas que você faz. É o seu dinheiro. Se você tem dinheiro excedente, você o gasta. Embora tente se convencer de que é um mega-consumidor verde, na realidade você é apenas um mega-consumidor. É por isso que os impactos ambientais dos muito ricos, por mais corretos que sejam, são maciçamente maiores do que os de todos os outros.

A prevenção de mais de 1,5C de aquecimento global significa que a nossa média de emissões não deve ser superior a duas toneladas de dióxido de carbono por pessoa por ano. Mas o 1% mais rico do mundo produz uma média de mais de 70 toneladas. Bill Gates, de acordo com uma estimativa, emite quase 7.500 toneladas de CO2, na sua maioria provenientes do voo em seus jatos particulares. Roman Abramovich, os mesmos números sugerem, produz quase 34.000 toneladas, em grande parte através do seu gigantesco iate.

As múltiplas casas que as pessoas ultrarricas possuem podem estar equipadas com painéis solares, seus supercarros podem ser elétricos, seus aviões particulares podem funcionar com bioquerosene, mas esses ajustes fazem pouca diferença para o impacto geral de seu consumo. Em alguns casos, eles o aumentam. A mudança para biocombustíveis, favorecida por Bill Gates, está agora entre as maiores causas de destruição do habitat, pois as florestas são derrubadas para produzir pellets de madeira combustíveis líquidos, e os solos são destruídos para produzir biometano.

Mas mais importante do que os impactos diretos dos super ricos é o poder político e cultural com o qual eles bloqueiam mudanças efetivas. O seu poder cultural depende de um conto de fadas hipnotizante. O capitalismo nos convence de que somos todos temporariamente milionários envergonhados. É por isso que toleramos isso. Na realidade, algumas pessoas são extremamente ricas porque outras são extremamente pobres: a riqueza maciça depende da exploração. E se todos nós nos tornássemos milionários, cozinharíamos o planeta em pouco tempo. Mas o conto de fadas da riqueza universal, um dia, assegura a nossa obediência.

A difícil verdade é que, para evitar uma catástrofe climática e ecológica, precisamos de nos nivelar por baixo. Temos de perseguir o que a filósofa belga Ingrid Robeyns chama de limitarianismo. Assim como existe uma linha de pobreza abaixo da qual ninguém deve cair, existe uma linha de riqueza acima da qual ninguém deve subir. O que precisamos não são de impostos de carbono, mas sim de impostos sobre a riqueza. Não nos deve surpreender que a ExxonMobil favoreça um imposto sobre o carbono. É uma forma de MCB. Trata apenas de um aspecto da crise ambiental, enquanto transfere a responsabilidade dos principais culpados para todos. Pode ser altamente regressiva, o que significa que os pobres pagam mais do que os ricos.

Mas os impostos sobre a riqueza atacam o cerne da questão. Eles devem ser suficientemente altos para quebrar a espiral de acumulação e redistribuir as riquezas acumuladas por poucos. Eles poderiam ser usados para nos colocar em um caminho totalmente diferente, que eu chamo de “frugalidade privada, luxo público“. Enquanto não há espaço ecológico ou mesmo físico suficiente na Terra para que todos possam desfrutar do luxo privado, há o suficiente para proporcionar a todos o luxo público: parques magníficos, hospitais, piscinas, galerias de arte, quadras de tênis e sistemas de transporte, playgrounds e centros comunitários. Cada um de nós deve ter os seus próprios pequenos domínios – frugualidade privada – mas quando queremos abrir as nossas asas, podemos fazê-lo sem confiscar recursos de outras pessoas.

Ao consentirmos na destruição contínua dos nossos sistemas de suporte de vida, acomodamos os desejos das corporações ultra-ricas e poderosas que elas controlam. Permanecendo presos no filme de superfície, absorvidos em frivolidade e MCB, concedemos-lhes uma licença social para operar.

Só resistiremos se deixarmos de consentir. Os defensores da democracia do século XIX sabiam disso. As sufragistas sabiam disso, Gandhi sabia disso, Martin Luther King sabia disso. Os manifestantes ambientais que exigem mudanças sistêmicas também compreenderam essa verdade fundamental. Nas sextas-feiras para o futuro, o surgimento do Green New Deal, a Extinction Rebellion e as outras revoltas globais contra o colapso ambiental sistêmico, vemos pessoas, na sua maioria jovens, que se recusam a consentir. O que elas entendem é a lição mais importante da história. A nossa sobrevivência depende da desobediência.