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quinta-feira, 23 de outubro de 2025

Por quê o Socialismo, por Albert Einstein, Prêmio Nobel de Física de 1921

 


Por que o Socialismo?

Texto de

Albert Einstein

   Publicado em

Maio 1949


Primeira Edição deste  artigo escrito especialmente para o primeiro número da revista estadunidense (ainda existente) Monthly Review, lançada em maio de 1949, e está disponível em http://monthlyreview.org/2009/05/01/why-socialism/
Fonte da Transcrição: Blog do Ralf e do Pluralismo Radical. Também disponível em apresentação bilíngue em https://tr.im/EinsteinSocialismoPDF


Será aconselhável que um não especialista em assuntos econômicos e sociais manifeste pontos de vista sobre o tema “socialismo”? Por várias razões, eu acredito que sim.

Comecemos considerando a questão pelo ponto de vista epistemológico [isto é, que analisa o próprio conhecimento científico]. Poderia parecer que não houvesse diferenças metodológicas essenciais entre a Astronomia e a Ciência da Economia: nos dois campos, os cientistas tentam descobrir leis que sejam aceitáveis de modo generalizado para um determinado grupo de fenômenos, com a finalidade de tornar compreensível a interconexão desses fenômenos do modo mais claro possível.

Na realidade, diferenças metodológicas existem. No campo da Economia, a descoberta de leis gerais é dificultada pela circunstância de que os fenômenos econômicos observáveis são com frequência afetados por muitos fatores que é muito difícil avaliar separadamente.

Além disso, como é bem sabido, a experiência acumulada desde o início do assim chamado período civilizado da história humana tem sido grandemente influenciada e limitada por fatores cuja natureza de nenhum modo é exclusivamente econômica.

Por exemplo, a maioria dos grandes Estados da história deveu sua existência à conquista. Os povos conquistadores estabeleceram a si mesmos, legal e economicamente, como a classe privilegiada do território conquistado; apossaram-se do monopólio da propriedade da terra e designaram uma classe sacerdotal a partir de suas próprias fileiras. Os sacerdotes, no controle da educação, fizeram da divisão da sociedade em classes uma instituição permanente, criando um sistema de valores pelo qual o comportamento social das pessoas passou a ser guiado desde então, em grande medida em nível inconsciente.

Mas a tradição histórica começou ontem, por assim dizer. Em nenhum lugar nós superamos de fato o que Thorstein Veblen chamou de “fase predatória” do desenvolvimento humano. Os fatos econômicos observáveis pertencem a essa fase, e as leis que podemos derivar deles não são aplicáveis a outras fases. Como o verdadeiro propósito do socialismo é precisamente superar a fase predatória do desenvolvimento humano e avançar para além dela, a Ciência Econômica em seu estado atual pode esclarecer bem pouco sobre a sociedade socialista do futuro.

Em segundo lugar, o socialismo se direciona para uma finalidade socioética. A ciência, no entanto, não tem o poder de criar finalidades, e muito menos de instilá-las nos seres humanos; a ciência pode, no máximo, fornecer os meios com que atingir certas finalidades. As finalidades são concebidas por personalidades com ideais éticos elevados – ideais esses que, quando não são natimortos e sim cheios de vida e vigor – são adotados e levados adiante por aquela multitude de seres humanos que, de modo parcialmente inconsciente, terminam por determinar a evolução da sociedade.

Por essas razões, deveríamos nos precaver no sentido de não superestimar a ciência e os métodos científicos quando o que está em questão são problemas humanos - e não deveríamos presumir que somente especialistas têm direito a se manifestar sobre as questões que afetam a organização da sociedade.

Incontáveis vozes vêm afirmando, já desde há algum tempo, que a sociedade humana está passando por uma crise; que sua estabilidade foi gravemente abalada. É característico dessa situação que os indivíduos se sintam indiferentes ou até mesmo hostis ao grupo a que pertencem, seja o pequeno grupo ou ao grupo de maior escala. Permitam-me recordar aqui uma experiência pessoal para ilustrar o que quero dizer: não faz muito, eu debatia com um homem inteligente e de boa disposição sobre a ameaça de mais uma guerra – o que, na minha opinião, poria em sério perigo a existência da humanidade – e observei que somente uma organização supranacional ofereceria proteção contra esse perigo. Nesse ponto o meu visitante me disse, com toda calma e indiferença: “Mas por que você se opõe tão profundamente ao desaparecimento da raça humana?”

Tenho certeza que apenas um século atrás ninguém teria declarado algo desse tipo com toda essa despreocupação. Temos aí uma declaração de um homem que lutou em vão para alcançar um equilíbrio interior e mais ou menos perdeu a esperança de alcançá-lo. É expressão de uma dolorosa solidão e isolamento, de que tanta gente sofre hoje em dia. Qual é a causa? Existe saída?

É fácil levantar essas perguntas, mas é difícil respondê-las com qualquer grau de segurança. No entanto eu preciso tentar, o melhor que puder, embora esteja bem consciente de que nossos sentimentos e aspirações são muitas vezes contraditórios e obscuros, e não podem ser expressos em nenhuma fórmula simples e fácil.

O homem é ao mesmo tempo um ser solitário e um ser social. Como ser solitário, ele tenta proteger sua própria existência e a dos que lhe são mais próximos, satisfazer seus desejos pessoais, desenvolver suas habilidades inatas. Como ser social, busca conquistar o reconhecimento e afeição dos seus companheiros de humanidade, compartilhar de seus prazeres, confortá-los em seus sofrimentos, melhorar suas condições de vida. Somente a existência dessas diferentes aspirações, muitas vezes conflitantes, já responde pelo caráter especial de uma pessoa, e sua combinação específica determina a medida em que o indivíduo consegue, por um lado, alcançar um equilíbrio interior e, por outro lado, consegue contribuir para o bem-estar da sociedade.

É bem possível que a intensidade relativa desses dois impulsos seja, em seu principal, determinada pela hereditariedade – mas a personalidade que termina emergindo é formada em ampla medida pelo ambiente em que acontece de a pessoa se encontrar durante o seu desenvolvimento, pela estrutura da sociedade em que ela cresce, pela tradição daquela sociedade, e pelo valor que a sociedade atribui a este ou àquele tipo de comportamento.

Para o indivíduo humano, o conceito abstrato “sociedade” significa a soma de suas relações diretas e indiretas com os seus contemporâneos e com todas as pessoas das gerações anteriores. O indivíduo é capaz de pensar, sentir, aspirar e trabalhar por si mesmo; mas [ao mesmo tempo] ele depende tanto da sociedade – em sua existência física, intelectual e emocional – que é impossível pensá-lo ou entendê-lo fora da moldura que é o contexto social. É “a sociedade” o que lhe proporciona comida, roupas, um lar, a ferramentas do seu trabalho, a linguagem, as formas de pensar, e a maior parte do conteúdo do pensamento; a sua vida se faz possível mediante o trabalho e realizações dos muitos milhões, passados e presentes, que estão escondidos por trás da pequena palavra “sociedade”.

É evidente, portanto, que a dependência do indivíduo em relação à sociedade é um fato da natureza que não pode ser abolido – tanto quanto o é no caso das formigas e abelhas. No entanto, enquanto o inteiro processo de vida das formigas e abelhas é determinado nos mínimos detalhes por instintos hereditários rígidos, o padrão social e os inter-relacionamentos dos seres humanos são altamente variáveis e suscetíveis de mudanças. A memória, a capacidade de realizar novas combinações e o dom da comunicação verbal possibilitaram desenvolvimentos, entre os seres humanos, que não são ditados por necessidades biológicas. Tais desenvolvimentos se manifestam em tradições, instituições e organizações; em literatura; em realizações científicas e técnicas; em obras de arte. Isso explica como acontece de o ser humano ser capaz de, em certo sentido, influir em sua vida mediante a sua própria conduta, e de que nesse processo o pensamento e a vontade conscientes consigam desempenhar um papel.

O ser humano adquire ao nascer, através da hereditariedade, uma constituição biológica que precisamos considerar determinada e inalterável, inclusive os impulsos naturais que são característicos da espécie humana. Em acréscimo, ao longo de sua vida ele adquire uma constituição cultural que ele adota da sociedade por meio da comunicação e de muitos outros tipos de influências. É a sua constituição cultural que está sujeita a mudanças com a passagem do tempo, e que determina em vasta medida a relação entre o indivíduo e a sociedade. A antropologia moderna nos ensinou, através da investigação comparativa das culturas chamadas de primitivas, que o comportamento social dos seres humanos pode diferir grandemente, dependendo dos padrões culturais e dos tipos de organização que predominam na sociedade. Os que se empenham em melhorar a condição humana podem fundamentar suas esperanças nisso: seres humanos não estão condenados por sua constituição biológica a aniquilarem uns aos outros, nem a estar à mercê de um destino cruel autoinfligido.

Se nos perguntarmos de que modo a estrutura da sociedade e a atitude cultural do ser humano deveriam ser mudados para tornar a vida humana tão satisfatória quanto possível, deveríamos estar sempre conscientes de que há certas condições que somos incapazes de modificar. Como já foi mencionado, para todos os efeitos práticos a natureza biológica do ser humano não é modificável. Além disso, os desenvolvimentos tecnológicos e demográficos dos últimos séculos criaram condições que estão aqui para ficar. Em populações assentadas com considerável densidade, levando em conta os bens que são indispensáveis para a continuidade de sua existência, tornam-se absolutamente indispensáveis uma extrema divisão de trabalho e um aparato produtivo altamente centralizado. Foi-se para sempre o tempo – que, olhando-se para trás, parece tão idílico – em que indivíduos ou grupos relativamente pequenos podiam ser completamente autossuficientes. Há pouco exagero em dizer que a humanidade já constitui uma comunidade planetária de produção e consumo.

Cheguei agora ao ponto em que posso indicar brevemente o que, para mim, constitui a essência da crise do nosso tempo: refere-se à relação do indivíduo com a sociedade. O indivíduo se tornou mais consciente do que nunca de sua dependência da sociedade - mas sua experiência dessa dependência não é a de um bem positivo, um laço orgânico, uma força protetora, e sim a de uma ameaça aos seus direitos naturais, ou até mesmo à sua existência econômica. Além disso, o indivíduo está posicionado na sociedade de modo tal, que os impulsos egoístas da sua constituição recebem reforço constante, enquanto que os seus impulsos sociais, que por natureza já são mais fracos, se deterioram progressivamente. Todos os seres humanos, qualquer que seja sua posição na sociedade, vêm sofrendo esse processo de deterioração. Prisioneiros de seu próprio egoísmo sem saber disso, sentem-se inseguros, sozinhos e privados de todo desfrute da vida que seja inocente, simples, não sofisticado. O ser humano somente pode encontrar sentido na vida, curta e arriscada como é, mediante sua dedicação à sociedade.

A anarquia econômica da sociedade capitalista como existe hoje é, na minha opinião, a verdadeira fonte do mal. Vemos diante de nós uma enorme comunidade de produtores cujos membros se empenham sem cessar em privar uns aos outros dos frutos de seu trabalho coletivo – não por força, mas em inteiro e fiel cumprimento de regras estabelecidas legalmente. A respeito disso, é importante dar-se conta [do papel do fato] de que os meios de produção – quer dizer, tudo o que dá capacidade de produzir bens para os consumidores, bem como bens de capital adicionais – possam ser propriedade privada de indivíduos (e de fato o sejam, em sua maior parte).

Pelo bem da simplicidade, na discussão a seguir chamarei de “trabalhadores” todos os que não têm parte na propriedade dos meios de produção – embora isso não corresponda com exatidão ao uso costumeiro do termo. O proprietário dos meios de produção está em posição de comprar a força de trabalho do trabalhador. Usando os meios de produção, o trabalhador produz novos bens que se tornam propriedade do capitalista. O ponto essencial deste processo é a relação entre o que o trabalhador produz e aquilo que lhe pagam, ambos medidos em termos de valor real. Na medida em que a contratação do trabalho é “livre”, o que o trabalhador recebe não é determinado pelo valor real dos bens que ele produz, e sim por quais são suas necessidade mínimas, bem como pela relação entre a demanda por força de trabalho por parte dos capitalistas e o número de trabalhadores que competem por empregos. É importante entender que nem mesmo na teoria o pagamento do trabalhador é determinado pelo valor do seu produto.

Capital privado tende a se concentrar em poucas mãos, em parte devido à competição entre os capitalistas, em parte porque o desenvolvimento tecnológico e o crescimento da divisão do trabalho estimulam a formação de unidades de produção maiores, em prejuízo das menores. O resultado desses desenvolvimentos é uma oligarquia do capital privado, cujo enorme poder não pode ser efetivamente controlado sequer por uma sociedade política democraticamente organizada.

Isso é assim porque os membros dos corpos legislativos são selecionados por partidos políticos, que são amplamente financiados, ou influenciados de algum outro modo, por capitalistas privados que, para todos os propósitos práticos, separam o eleitorado da legislatura. A consequência é que os representantes do povo não protegem de fato e de modo suficiente os interesses dos setores menos privilegiados da população. Além disso, nas condições atuais os capitalistas privados inevitavelmente controlam, direta ou indiretamente, as principais fontes de informação (imprensa, rádio, educação). Torna-se assim extremamente difícil para o cidadão individual, e de fato impossível na maioria dos casos, chegar a conclusões objetivas e fazer uso inteligente dos seus direitos políticos.

A situação predominante em uma economia baseada na propriedade privada de capital caracteriza-se então por dois princípios centrais: primeiro, os meios de produção (capital) são possuídos privadamente, e os proprietários dispõem deles como acham melhor; segundo, a contratação de trabalho é livre [isto é, não regulada]. É claro que não há sociedade capitalista pura nesse sentido. Em especial, é preciso registar que os trabalhadores, através de longas e amargas lutas políticas, conseguiram assegurar uma forma um tanto melhorada de “livre contrato de trabalho” para algumas categorias de trabalhadores. Mas, tomada em seu conjunto, a economia atual não difere muito de um capitalismo “puro”.

A produção é realizada com a finalidade do lucro, não com a do uso. Não existem disposições para garantir que todas as pessoas capazes e dispostas a trabalhar sempre consigam achar emprego; quase sempre existe um “exército de desempregados”. O trabalhador está perpetuamente com medo de perder seu emprego. Devido ao fato de que desempregados e trabalhadores mal pagos não formam um mercado rendoso, a produção de bens de consumo é restrita, o que resulta em grandes privações. O progresso tecnológico resulta com frequência em mais desemprego, em lugar de aliviar a carga de trabalho para todos. O lucro como motivação, em conjunto com a concorrência entre os capitalistas, é responsável por uma instabilidade na acumulação e utilização do capital, a qual leva a crises cada vez mais graves. A competição irrestrita leva a um gigantesco desperdício de força de trabalho, e também àquela deformação da consciência social dos indivíduos, que eu mencionei anteriormente.

Essa deformação dos indivíduos, eu a considero o pior dos males do capitalismo. Nosso sistema educacional inteiro sofre desse mal. Uma atitude competitiva exagerada é inculcada no estudante, que, como preparação para sua futura carreira, é treinado para idolatrar um sucesso aquisitivo.

Estou convencido de que existe apenas um caminho para eliminar esses graves males, e esse é o estabelecimento de uma economia socialista, acompanhada por um sistema educacional orientado para objetivos sociais. Em uma economia tal, os meios de produção são propriedade da própria sociedade, e utilizados de modo planejado. Uma economia planejada, que ajusta a produção às necessidades da comunidade, distribuiria o trabalho a ser feito entre todos os capazes de trabalhar, e garantiria o sustento de cada homem, mulher e criança. A educação do indivíduo, além de desenvolver suas próprias habilidades inatas, se empenharia em desenvolver nele um senso de responsabilidade por seus companheiros de humanidade, em lugar da glorificação do poder e do sucesso, como temos na sociedade atual.

Contudo é preciso lembrar que uma economia planejada ainda não é socialismo. Uma economia planejada pode ser acompanhada por uma escravização completa do indivíduo. A realização do socialismo requer a solução de alguns problemas sociopolíticos extremamente difíceis: como é possível, em face da centralização abrangente do poder político e econômico, impedir que a burocracia se torne todo-poderosa e prepotente? Como se podem proteger os direitos do indivíduo e garantir com isso um contrapeso democrático ao poder da burocracia?

A clareza quanto às metas e aos problemas do socialismo é da mais alta significação em nossa era de transição. Como, na conjuntura atual, a discussão livre e sem barreiras destes problemas se tornou um grande tabu, eu considero a fundação desta revista um relevante ato de interesse público.



segunda-feira, 5 de dezembro de 2022

Max Born, o físico genial - mas pouco conhecido - que alertou o mundo para "a causa de todos os males": a presunção de se deter a verdade absoluta, seja na ciência, seja na política, seja na religião

 

Da BBC News Brasil:

Avô da atriz Olivia Newton-John e amigo de Albert Einstein, ele foi um dos cientistas mais proeminentes do século 20, mas não tão reconhecido quanto seus pares. Ouça áudio de reportagem de Dalia Ventura, da BBC News Mundo.


Max Born, o físico quântico que alertou o mundo sobre 'a causa de todos os males'


  • Dalia Ventura
  • BBC News Mundo

"Uma das grandes tristezas da minha vida é não ter conhecido meu avô", disse uma vez a atriz e cantora Olivia Newton-John.

"Quando era adolescente, minha mãe me dizia: 'Você tem que ir conhecer seu avô porque ele está ficando velho', e eu dizia: 'Estou ocupada', e me arrependo disso", acrescentou a atriz anglo-australiana, estrela do filme Grease — nos tempos da brilhantina e que faleceu em agosto passado aos 73 anos.

O avô que ela nunca conheceu era o físico e matemático alemão Max Born, um dos cientistas mais importantes do século 20.

Se você não consegue enumerar o que ele fez, talvez seja porque, apesar de suas muitas realizações, grande parte do trabalho de Born foi bastante complexo.

Mas se o nome dele soa familiar, talvez seja porque está muito presente na física, e também porque foi um grande amigo de Albert Einstein.

Desta amizade, ficou como legado uma fascinante coleção de cartas que abrangem quatro décadas e duas guerras mundiais.

"Minha mãe (Irene) as traduziu (do alemão para o inglês)", contou a atriz e cantora.

A atriz Olivia Newton-John (na foto, com John Travolta) era uma das netas de Born, assim como a musicista e acadêmica Georgina Born e o ator Max Born (Satyricon de Fellini)

Em sua vasta correspondência, eles discutiam sobre tudo, de teoria quântica ao papel dos cientistas em um mundo conturbado, sobre suas famílias e a paixão de ambos pela música.

Aliás, foi numa dessas cartas — datada de 4 de dezembro de 1926 — que Einstein escreveu uma das frases mais famosas da história da ciência:

"A mecânica quântica é certamente impressionante. Mas uma voz interior me diz que ainda não é satisfatória. A teoria rende muito, mas dificilmente nos aproxima do segredo do 'criador'. De qualquer forma, estou convencido de que Ele não joga dados."

Einstein se recusava a aceitar a visão probabilística que favorecia essa teoria que descreve como se comporta a matéria que compõe o pequeno universo das partículas atômicas e subatômicas.

A incerteza que este ramo da física postulava, pensava ele, na verdade revelava a incapacidade de encontrar as variáveis ​​com as quais se construiria uma teoria completa.

Seu amigo Born, no entanto, foi um dos principais impulsionadores da interpretação probabilística.

Para ele, Deus joga dados.

Os 29 participantes da famosa conferência sobre elétrons e fótons em 1927, em Bruxelas — 17 eram atuais ou futuros ganhadores do Prêmio Nobel, incluindo Marie Curie, Albert Einstein e Max Born

Convencido, ele continuou a explorar o mundo infinitamente pequeno que essa revolucionária e recém-nascida ciência buscava compreender.

Assim, ele estabeleceu muitas das bases da física nuclear moderna.

Apesar disso, e injustamente, apontam os especialistas, foi ofuscado por expoentes como Werner Heisenberg, Paul Dirac, Erwin Schrodinger, Wolfgang Pauli e Niels Bohr.

Tanto que a Fundação Nobel só concedeu o prêmio a ele em 1954 — 28 anos depois de ele ter concluído o trabalho pelo qual foi premiado.

Há, inclusive, quem reclame que, embora a razão pela qual finalmente o reconheceram fosse justa — uma nova forma de descrever os fenômenos atômicos —, não era suficiente, pois consideram que Born deveria compartilhar o título de pai da mecânica quântica com Niels Bohr.

Uma ponte

A vida de Born fez dele uma ponte entre três séculos.

Ele nasceu em uma família judia em Breslau, reino da Prússia na época (atual Wroclaw ou Breslávia, na Polônia), em 1882. Por isso, se formou nas tradições clássicas da ciência do século 19.

Assim como tantos outros cientistas judeus, ele teve que fugir dos nazistas, o que o privou de seu doutorado e até de sua cidadania. Mas em seu lar adotivo, o Reino Unido, ele contribuiu para o desenvolvimento da ciência do século 20.

O que ocupava sua mente, no entanto, eram as consequências da ciência moderna para o século 21.

Born conversando com o Rei Gustavo Adolfo 6º da Suécia na cerimônia de entrega do Prêmio Nobel em 1954

Ele acreditava que nenhum cientista poderia permanecer moralmente neutro diante das consequências de seu trabalho, independentemente do quão sólida fosse sua Torre de Marfim, porque ficava horrorizado com a grande quantidade de aplicações militares da ciência que ajudara a desenvolver.

"A ciência na nossa época", escreveu ele, "tem funções sociais, econômicas e políticas, e por mais distante que o próprio trabalho possa estar da aplicação técnica, é um elo na cadeia de ações e decisões que determinam o destino da raça humana".

Esse destino, disse ele, se encaminha para um pesadelo porque "o intelecto distingue entre o possível e o impossível; a razão distingue entre o sensato e o insensato. Até o possível pode carecer de sentido".

Não era estranho que o cientista que postulou que só se podia determinar a probabilidade da posição de um elétron no átomo em um dado momento — descartando as leis de Newton e abrindo a porta para a física atômica — se preocupasse com tais questões.

Born seguiu durante toda sua vida um conselho que seu pai lhe deu quando jovem: nunca se especialize.

Por isso, nunca deixou de estudar música, arte, filosofia e literatura.

Tudo isso alimentava seu pensamento ético.

Born com a esposa, Hedwig, que também se correspondia com Einstein


Em um de seus ensaios finais, ele escreveu sobre o que considerava a única esperança para a sobrevivência da humanidade.

"Nossa esperança", disse ele, "se baseia na união de dois poderes espirituais: a consciência moral da inaceitabilidade de uma guerra degenerada no assassinato em massa dos indefesos e o conhecimento racional da incompatibilidade da guerra tecnológica com a sobrevivência da raça humana."

Se o homem queria sobreviver, deveria renunciar à agressão.

A incerteza necessária

Em 1944, Einstein escreveu em outra carta a Born:

"Nós nos convertemos em antípodas em relação às nossas expectativas científicas. Você acredita em um Deus que joga dados, e eu, na lei e ordem absolutas em um mundo que existe objetivamente, e que, de forma insensatamente especulativa, estou tentando compreender [...]."

"Nem sequer o grande sucesso inicial da teoria quântica me faz acreditar em um jogo de dados fundamental, embora eu esteja ciente de que nossos jovens colegas interpretam isso como um sintoma de velhice."

"Sem dúvida, chegará o dia em que veremos qual instinto estava certo."

Poucos meses antes de Einstein morrer, Born escreveu:

"Nós nos entendemos em assuntos pessoais. Nossa diferença de opinião sobre a mecânica quântica é muito insignificante em comparação."

Além de deixar sua marca em vários campos da física, da relatividade até a física química, passando pela óptica e elasticidade, Born foi professor de 9 físicos ganhadores do Prêmio Nobel, durante a 'idade de ouro da física'

No fim das contas, parece que Einstein estava errado.

Esse jogo de dados que envolve incerteza constante ainda parece necessário para entender o mundo infinitamente pequeno.

E, para Born, a incerteza também era fundamental para a vida em um mundo infinitamente maior do que aquele que ele explorou.

"Creio que ideias como certeza absoluta, precisão absoluta, verdade suprema, etc. são produtos da imaginação que não deveriam ser admissíveis em nenhum campo da ciência", declarou.

"Por outro lado, qualquer afirmação de probabilidade é correta ou incorreta do ponto de vista da teoria na qual se baseia."

"Este relaxamento do pensamento me parece a maior bênção que a ciência moderna nos deu."

"Porque a crença de que existe apenas uma verdade, e de que você próprio está em posse dela, é a raiz de todos os males do mundo."

- Este texto foi originalmente publicado em https://www.bbc.com/portuguese/geral-62476283






quarta-feira, 16 de janeiro de 2019

Sobre a responsasbilidade dos que, mais concientes, vêem o erro, a ignorância e o mal, segundo Albert Einstein




sexta-feira, 1 de dezembro de 2017

Albert Einstein e Stephen Hawking: duas visões anticapitalistas, por Carlos Coimbra, professor da Universidade Federal do Paraná e cientista da área da astrofísica e cosmologia


"Einstein é extremamente enfático quando aponta que o capitalismo está intimamente ligado ao ápice da deterioração do indivíduo. Ele não distingue que chamamos de “mal” daquilo que chamamos de “sociedade capitalista”. Nesse caso, ele reflete que no mundo atual o individualismo degenerado dos que detêm o capital/meios de produção não precisa da força para submeter a classe trabalhadora. Os instrumentos de dominação são muito mais sutis e usam a via legal. Leis propositalmente criadas para beneficiar o capitalista. (Como não lembrar as piruetas inventadas para justificar a aprovação da recente Lei Trabalhista no Brasil?)"


Do Jornal GGN:

Albert Einstein e Stephen Hawking: duas visões anticapitalistas
por Carlos Coimbra
Em maio de 1949, Albert Einstein escreveu um artigo intitulado “Why Socialism?” (“Por que o Socialismo?”), publicação de estreia da revista norte-americana Monthly Review. Ele começa o artigo perguntando: “É aconselhável que alguém que não tenha expertise em economia ou sociologia expresse suas visões sobre o assunto socialismo? Acredito, por inúmeras razões, que sim.”
Einstein – todos sabemos, físico, pai da teoria da relatividade, ganhador do prêmio Nobel de Física de 1921 – também foi profundo estudioso da filosofia (principalmente a filosofia da ciência). Escreveu livros e artigos quais “Física e Realidade”, “A Filosofia de Ernst Mach” e também artigos sobre religião e política. Assim, por mais que não fosse um cientista político, sentia-se relativamente confortável para emitir uma opinião pessoal sobre esse assunto que tanto o fascinava: o socialismo.
Dessa forma, sua visão de mundo, especificamente de justiça social, está muito bem detalhada nesse “Por que o Socialismo?”, como veremos.
Antes de abordar propriamente o assunto, Einstein se diz convencido de que as sociedades oprimidas por poderes imperialistas têm suas opiniões moldadas por “sacerdotes”. Deixa em aberto se o que chama de “sacerdote” são os pregadores das antigas e novas religiões ou se simplesmente é o que chamaríamos hoje de “influenciadores de conteúdo”. De qualquer forma, no artigo está claro que a história dos povos conquistados é modulada pelos sacerdotes dos conquistadores, que impõem o seu catecismo e sua visão política aos colonizados. No processo, um sistema de valores é criado para guiar socialmente, mesmo que inconscientemente, a vida dos povos submetidos. Esses sacerdotes serão também aqueles que intermediarão a divisão de castas e a divisão de terras do país conquistado.
Aqui Einstein evoca a ideia de “fase predatória” da humanidade, conceito propagado pelo filósofo e economista norte-americano Thorstein Veblen.
Para Einstein, o socialismo é o instrumento legítimo que desestrutura tal fase predatória e distancia a humanidade da barbárie. O cerne sócio-ético-humanista presente no socialismo é para ele o elo capaz de desconstruir o edifício da predação ancestral escravizante.
O que isso significa? E como surge tal fase predatória a partir do comportamento humano?
A ilustração proposta por Einstein é a de que o ser humano tem comportamento dual. Possui em si tanto características individualistas, quanto características socializantes. O lado individualista é aquele da autopreservação, que busca a satisfação dos desejos pessoais e do desenvolvimento de habilidades pessoais. O lado socializante é o que interage, é o que quer o reconhecimento e afeição de outros seres humanos, aquele que compartilha dor e alegria, aquele que busca confortar e desenvolver as condições de vida de outras pessoas. A combinação de todos os aspectos desses dois comportamentos é o que torna, na visão de Einstein, o ser humano em ser complexo e multidimensional.
No entanto, para Einstein, naturalmente o social se imporá (ou deveria se impor) sobre o indivíduo, no sentido em que o social é quem provê o indivíduo de alimento, vestimenta, abrigo, trabalho, linguagem, formas de pensamento. Em especial a força laboral de milhões é o que dá sentido à própria construção do que é o indivíduo: a relação do indivíduo com a sociedade, por meio de diversos tipos de interações, principalmente via comunicação oral ou escrita ou expressões da memória, resultam nos grandes produtos do progresso humano tais quais a literatura, as artes, a ciência e a tecnologia, as instituições, as organizações e suas leis, a cultura de forma geral.
Nesse sentido, ele entende que as grandes crises do mundo têm relação com o conflito entre individualização e socialização. A força da individualização muitas vezes é imposta de maneira artificial. Esse distanciamento do social remete à deterioração dos indivíduos. Para ele, o sentido da vida é a devoção do indivíduo à sociedade. O contrário disso causa o que ele chama de “predação”.
Einstein é extremamente enfático quando aponta que o capitalismo está intimamente ligado ao ápice da deterioração do indivíduo. Ele não distingue que chamamos de “mal” daquilo que chamamos de “sociedade capitalista”. Nesse caso, ele reflete que no mundo atual o individualismo degenerado dos que detêm o capital/meios de produção não precisa da força para submeter a classe trabalhadora. Os instrumentos de dominação são muito mais sutis e usam a via legal. Leis propositalmente criadas para beneficiar o capitalista. (Como não lembrar as piruetas inventadas para justificar a aprovação da recente Lei Trabalhista no Brasil?)
Nesse contexto, Einstein finalmente evoca as “regras” da mais-valia e a atualidade dos conceitos marxistas sobre a relação capital/trabalho: o trabalhador receberá valores subfaturados, para que o capitalista tenha o seu “merecido” lucro que vale muito mais que o produto. O capital logicamente se concentrará na mão de um pequeno clube que de muitas formas intercederá para que o cenário político e os governos sempre trabalhem a seu favor. Palavras de Einstein.
Assim, nessa visão, mesmo a própria educação básica acabará submetida à vontade do pequeno clube. As crianças não deverão pensar por si próprias e deverão se preparar para um mundo tecnicista ou para a competitividade capitalista. Isso lembra ou não lembra a filosofia do “Escola sem Partido”?
Segundo Einstein, há um e somente um antídoto para eliminar tais relações egotísticas: uma economia socialista acompanhada de um sistema educacional voltado para a valorização de objetivos legitimamente sociais. Ou seja, além da promoção das habilidades individuais, o sistema educacional deve sobretudo ser capaz de desenvolver o senso de responsabilidade social acima de qualquer conceito de glorificação do sucesso individual.
Outro cientista de renome que expressou visões semelhantes nos últimos anos foi o físico teórico Stephen Hawking. As opiniões do próprio Hawking (ou os escritos daqueles que falam sobre o seu pensamento) deixam claro que a visão de mundo deste cientista é extremamente crítica em relação ao capitalismo. Muitas vezes ele chegou a enfatizar a importância de um economia socialista como a melhor forma de organizar o nosso mundo já “acostumado” às constantes crises do capital.
Em julho de 2015, Hawking participou da chamada sessão “Pergunte-me qualquer coisa”, como convidado especial dos curadores da rede social Reddit.
Quando perguntado sobre o que ele achava de uma sociedade onde os produtos fossem fabricados cada vez mais por máquinas e se isso ocasionaria uma diminuição da força de trabalho humana e quais as consequências disso, Hawking respondeu: “Todos podem desfrutar de uma vida de pujante lazer caso a riqueza produzida pelas máquinas seja compartilhada. Ou então, a maioria das pessoas pode acabar miseravelmente pobre caso os proprietários das máquinas promovam um lobby contra a distribuição de riquezas. Até agora, a tendência parece ser para a segunda opção, em que os avanços da tecnologia conduzirão a uma sociedade cada vez mais desigual.”
Tanto Einstein quanto Hawking foram capazes de produzir tanto orgulho quanto embaraço aos governos de seus países devido a suas fortes opiniões.
Por exemplo, Einstein (que era alemão naturalizado norte-americano) passou os seus últimos anos de vida nos Estados Unidos como professor da Universidade de Princeton. Sua opinião era muito respeitada, principalmente durante a Segunda Guerra, mas suas visões políticas causaram alguns incômodos. Consta que no início dos anos 1950, J. Edgar Hoover, o polêmico e longevo diretor do FBI, defendia fortemente a ideia de deportar Einstein dos Estados Unidos. Nunca é demais lembrar que pelos idos de 1958-1959 (Einstein já havia falecido), J. Edgar foi uma das principais peças do Macarthismo.
Já Hawking, que é britânico e mora na cidade de Cambridge, no Reino Unido, causou grande embaraço a Sua Majestade, a Rainha, quando esta quis premiá-lo com o título de Sir e ouviu como resposta um sonoro “não” e uma sonora crítica às políticas internas e externas daquele país. Críticas feitas principalmente às políticas de investimento em empreendimentos bélicos e à rendição ao lobby das corporações de armamentos. Hawking reivindicou maiores investimentos em educação, ciência e tecnologia e ameaçou abandonar o país em favor do Canadá. À época, o autor que vos escreve morava em Cambridge e trabalhava no Cavendish Lab. Teve a enorme honra de presenciar ao vivo esses fatos. Foi emocionante!
O artigo completo de Einstein intitulado “Why Socialism?”, pode ser lido na página da Monthly Review Magazine (em inglês):
As respostas de Stephen Hawking no “Pergunte-me qualquer coisa” do Reddit estão aqui (em inglês):

Carlos H. Coimbra (twitter: @carloscoimbra9) é professor da Universidade Federal do Paraná e cientista da área da astrofísica e cosmologia. Gosta também de dar pitacos em áreas como meio ambiente, aproveitamento de energia e cultura em geral.

Os retratos de Einstein e Hawking que figuram no texto foram retirados do Wikimedia Commons.

sábado, 21 de outubro de 2017

Com a reforma do ensino médio aprovada, ganham os que fizeram da crise da educação pública uma oportunidade de negócios — e o mercado financeiro aplaude.



Antes de ler a matéria de Helena Borges, publicada no The Intercept Brasil, vejam este curto vídeo onde o físico Albert Einstein critica a mentalidade "escola sem partido" e "escola sem criticismo" que perpassa os interesses empresariado escravista brasileiro e explorador internacional:




Sob aplausos do mercado financeiro, empresários já lucram com reforma do ensino médio

Helena Borges — 20 de Outubro


O PRESIDENTE DO Banco Central, Ilan Goldfajn, foi convidado pela rádio CBN, em setembro, a dar uma entrevista para comentar como os investidores estrangeiros estão otimistas sobre o futuro da economia brasileira. Ele contou que esteve em Nova York e que, “apesar da nossa incerteza doméstica, eles têm demonstrado muita confiança no nosso desempenho recente”. Eis como ele explicou o surgimento dessa onda de otimismo entre a elite financeira global sobre o desempenho brasileiro:
“Houve uma mudança, já faz vários meses, na direção da política econômica: teve uma responsabilidade maior em termos de contas públicas, teve reformas como o teto dos gastos, que foi aprovado no final do ano passado, teve algumas outras reformas como a reforma trabalhista, a reforma da educação, teve mudanças que permitiram os leilões….” [grifo adicionado pela repórter]
Ora, por que incluir a reformulação do ensino médio na lista de medidas econômicas? E por que ela traz felicidade a investidores internacionais? Mais que um ato falho, quando o presidente do Banco Central cita uma mudança na política educacional como parte das políticas econômicas, revela a lógica por trás do “novo” ensino médio: a educação deixa de ser efetivamente tratada como um direito e passa a ser encarada como mero serviço a ser precificado.
Essa visão vai de encontro ao lema bradado país afora em outubro de 2016 pelos estudantes que ocuparam suas escolas contra a reforma. “Educação não é mercadoria”, repetiam os jovens participantes da Primavera Secundarista. Com as mudanças aprovadas e uma série de cortes feitos no orçamento da educação, ganham os que pensam exatamente o oposto e que, por isso, fizeram da crise na educação pública uma oportunidade de mercado.
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Alunos ocupam Colégio de Samambaia (Brasília) em ato contra a reforma do ensino médio.

Foto: Wilson Dias/Agência Brasil

Cortes no financiamento do ensino superior combinados à reforma do ensino médio despertam o paladar do mercado pela educação básica

Este ano, o Fundo de Financiamento Estudantil (Fies) teve 100 mil vagas cortadas. Além disso, o Ministério da Educação reduziu de R$ 7 mil para R$ 5 mil o teto de financiamento mensal por universitário. Derrubou-se, assim, um dos alicerces orçamentários das faculdades particulares, principalmente aquelas voltadas para as classes C e D. Como reação ao forte impacto em suas finanças e ao aumento na inadimplência, acionistas dos dois maiores grupos empresariais deste mercado — Estácio de Sá e Kroton — voltaram seus olhos para o ensino básico.
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Ocupação de escola em outubro de 2016: secundaristas protestavam contra a reforma.
Foto: Mídia Ninja
A Kroton Educacional surgiu em 2007, quando a Rede Pitágoras de colégios e cursos abriu capital na bolsa de valores e passou a adotar o novo nome. Nos últimos 6 anos, a empresa vinha focando no ensino superior: comprou e se fundiu a outros conglomerados de faculdades até se tornar a empresa com o maior número de matriculados no ensino superior do país — um milhão — e com 15% de participação de mercado.
Hoje estão sob sua alçada seis faculdades, com destaque para a Anhanguera, que possui campi em 20 estados e no Distrito Federal. O objetivo da Kroton era chegar a sete instituições de ensino, mas o Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) vetou a compra da Estácio por acreditar que a operação seria anticompetitiva. Se a fusão não tivesse sido barrada, teria criado um gigante de 1,4 milhão de alunos, controlando 25% do ensino superior privado do país.
Impedida de comprar sua principal concorrente e afetada pelos cortes no Fies, a empresa decidiu retornar às origens. A Kroton quer comprar 16 colégios — ou, nas palavras da mídia especializada em economia, “ativos em educação básica” —, três já estão em fase final de negociação.

Mercado altamente lucrativo e estável

O mercado financeiro demonstrou gostar da mudança de estratégia da empresa. Em fevereiro, quando a Superintendência-Geral do Cade impugnou a compra da Estácio e encaminhou o processo para julgamento do tribunal do Conselho, as ações da Kroton registraram o menor valor do ano até agora: R$12,55. No dia em que a empresa anunciou estar prestes a fechar sua primeira compra de um colégio, no início de outubro, as ações alcançaram o maior preço, negociadas a R$ 21,23.
Índices semelhantes foram registrados pela holding Bahema, que resolveu ir às compras no segmento da educação básica às vésperas da aprovação da Reforma do Ensino Médio. A holding nasceu como uma empresa de máquinas agrícolas, foi sócia minoritária em negócios como Unibanco e Pão de Açúcar e, agora, comprou três grandes escolas no Rio de Janeiro, em Minas Gerais e em São Paulo. Mais uma vez, o mercado financeiro respondeu de maneira efusiva: as ações da holding tiveram alta de 23,33%.
Enquanto 2% deixaram de pagar as mensalidades escolares, 6% preferiram deixar de pagar a conta de luz
Segundo a consultoria Hoper, o mercado de colégios particulares movimenta R$ 67 bilhões ao ano no Brasil, enquanto o das universidades envolve R$ 55 bilhões. Além de gerar mais dinheiro, a educação básica é prioridade entre os investimentos dos brasileiros. Um estudo da SPC Brasil avaliou as medidas de contenção de gastos adotadas entre as famílias atingidas pelo desemprego no último ano: enquanto 2% deixaram de pagar as mensalidades escolares, 6% preferiram deixar de pagar a conta de luz.
Diante desses números, a educação básica é vista não apenas como fonte de lucro, mas também como um nicho de mercado estável e confiável. Afinal de contas, mantém os clientes fidelizados por até 12 anos, do primeiro ano do ensino fundamental ao último do ensino médio.
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Ato dos secundaristas realizado em 2016 contra a máfia da merenda em São Paulo foi reprimido pela PM e um estudante foi preso.

Foto: Mídia Ninja

Empresário decidiu investir no ensino médio assim que a reforma foi anunciada

De olho nesses clientes de longo prazo, o maior acionista da Estácio também decidiu seguir a tendência e centrar esforços no ensino básico. Chaim Zaher e sua filha, Thamila Cefali, se afastaram do conselho administrativo da faculdade em outubro de 2016 para se dedicarem a um projeto novo de escola. A decisão foi tomada semanas depois de a Medida Provisória que deu origem à reforma do ensino médio ter sido enviada ao Congresso.
Zaher é o fundador do Sistema Educacional Brasileiro (SEB), composto por 13 instituições, da educação fundamental ao ensino superior. Seu projeto é deixar o SEB como legado para a filha administrar. Em 2010, o grupo comprou escolas, investiu no crescimento das instituições e depois vendeu as ações para a multinacional Pearson, especializada em educação com ativos em 70 países. Este ano, o SEB comprou de volta essas mesmas redes de ensino por um preço menor que o recebido anteriormente — o negócio envolve 190 escolas e 70 mil alunos.
Não que a escola gerenciada pelos Zaher seja ruim, pelo contrário: a empresa oferece um modelo educacional moderno, com professores treinados por respeitados especialistas, altos salários e dedicação exclusiva. É um modelo de escola particular voltado para a classe A, que adota o currículo “flexível” estabelecido pela reforma do ensino médio e ainda o leva além, com aulas optativas até para alunos do fundamental. As mensalidades giram em torno de R$ 6,5 mil reais – e ainda assim há filas de espera.
É claro que essa não é a realidade de todas as escolas particulares do país. A “modernização” não deverá chegar às escolas mais baratas, que devem apenas adaptar as ideias do novo ensino médio ao seu já tradicional formato de “terceirão”, focado em aprovação no Enem. Em vez de ter uma turma de “terceirão”, serão cinco, um para cada área de conhecimento criada pela reforma. É o que explica Fernando Cassio, pesquisador na área de políticas educacionais e professor da Universidade Federal do ABC.
“Existem duas categorias de educação privada: as de elite e as que atendem às classes B e C. Esse último tipo absorve o discurso público de flexibilização, mas adapta a sua lógica de oferecer um produto para o mercado. Então essas escolas, que são apostiladas e funcionam em formato de ‘terceirão’, vão absorver os conceitos da reforma do Ensino Médio a partir das práticas que miram o vestibular, que são as práticas que eles sempre adotaram”.
Compreendendo esses diferentes perfis de “consumo”, o modelo de negócio do grupo SEB busca diversificar a oferta. Um dos projetos é formar uma rede de “segmento econômico”, com mensalidade a R$ 550. “A meta é abrir capital em 2018. Para chegar lá, queremos nos consolidar como uma companhia com escolas de referência em diferentes nichos”, explicou Zaher ao O Globo.
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Dia de Paralisação Geral em 2016 lotou as ruas de Belo Horizonte (MG) com trabalhadores, e secundaristas.

Foto: Mídia Ninja

Modernizador e atraente para a rede particular, “novo ensino médio” é impraticável na rede pública

“Você não consegue implementar essa estrutura proposta na estrutura de financiamento como a que temos [na rede pública]”, resume Fernando Cassio. Ao estabelecer cinco áreas de conhecimento (Linguagens, Matemática, Ciências da Natureza, Ciências Humanas e Formação Técnica), exige-se um número maior de professores e uma maior especialização desses profissionais, o que significaria um aumento expressivo no investimento em educação.
No fim, o aluno da rede pública não terá a mesma possibilidade de escolha.
O problema é que só existe oferta de ensino médio público regular em 55% dos municípios e, ainda assim, o quadro de professores é deficitário, dentro de um contexto de congelamento de gastos aplicado pelo governo. Para conseguir implementar o novo ensino médio, a solução prática mais próxima da realidade seria dividir as escolas públicas nas cinco vertentes, o que levaria à criação de ilhas de referência e à limitação do acesso à educação.
No fim, o aluno da rede pública não terá a mesma possibilidade de escolha. “Quando falamos que o ensino médio será composto pelas quatro áreas do Enem e pelo ensino técnico, sabemos que, em muitos casos, a escola vai fornecer apenas uma ou duas opções de aprofundamento, principalmente em cidades pequenas”, explicou Renato Janine, ex-ministro da educação e professor da USP, em entrevista à Carta Capital.
Larissa Coelho, 18 anos, participou do movimento no Colégio Pedro II de Realengo, na zona norte do Rio de Janeiro e entende que isso representará um aprofundamento de uma desigualdade de oportunidades que já existe.:
“Essa ideia de possibilidade de escolha sobre o que se vai fazer é uma falácia. O aluno da escola pública, que muitas vezes precisa logo colocar dinheiro dentro de casa, não escolhe fazer o técnico, é movido pela necessidade. E nem considera a faculdade, porque isso não é permitido a ele.”

De olho no orçamento público

Enquanto as empresas do setor de educação buscam criar um novo mercado com alta lucratividade investindo pesado em escolas particulares, na educação pública, a dificuldade de adaptação ao novo formato abre caminho para que ponham as mãos no orçamento do Fundeb (Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica e de Valorização dos Profissionais da Educação) via contratos de Parcerias Público-Privadas (PPPs). O fundo teve um orçamento de R$ 136,9 bilhões no ano passado; um valor que representa, aproximadamente, 80% do investimento público total feito em educação básica no país.
Para ter acesso aos recursos públicos sem ter que arcar com os custos pesados de infraestrutura que rede pública demanda, a estratégia das empresas é investir em gestão educacional ou outros serviços como parcerias para “ensinar” aos profissionais das redes municipais e estaduais os conceitos do novo modelo de modernização do ensino, workshops para seus gestores se qualificarem segundo a lógica de produtividade empresarial, e consultorias para traçar a estratégia de adaptação ao novo ensino médio.
O Instituto Ayrton Senna é um dos que apostam nesse mercado desde 1994. Está trabalhando em Parcerias Público-Privadas com diferentes secretarias estaduais de educação para implementação do formato do “novo ensino médio”. Ricardo Paes de Barros, economista-chefe da instituição, não mediu palavras para falar da empolgação com a possibilidade de terceirização à revista Isto é Dinheiro em setembro: “No futuro, não tem razão nenhuma o estado gerenciar individualmente professores e escolas”.
Animados pelo pique do mercado financeiro, investidores que sequer têm experiência no ramo tentam se aventurar. A justiça de Goiás, por exemplo, teve que suspender em janeiro deste ano uma licitação para terceirizar a gestão de escolas da rede estadual. O motivo: as empresas escolhidas não demonstravam ter capacidade nem experiência para desempenhar a tarefa.

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Helena Borgeshelena.borges@​theintercept.com@HelenaTIB