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sexta-feira, 17 de novembro de 2017

Jurista e Professor de Direito Constitucional da PUC-SP, Pedro Serrano explica como o Poder Judiciário pode estar sendo utilizado pelo grande Capital Internacional para estabelecer uma onda de autoritarismo da "mão invisível" pelo mundo



Pedro Serrano explica como capital internacional utiliza poder Judiciário para estabelecer autoritarismo no mundo. Este conteúdo está sendo organizado na Plataforma Brasilianas e fez parte do seminário de abertura da parceria do GGN com a PUC-SP

Do GGN:


Brasilianas: Judiciário pode estar facilitando autoritarismo da 'mão invisível'



Neocapitalismo gera novas formas de autoritarismo político no mundo
Do Brasilianas
Há uma guerra em andamento que transpassa os limites territoriais dos países, sua atividade é mais centrada nos bolsões de pobreza das nações fadadas ao pouco desenvolvimento onde, diariamente, centenas de corpos são derrubados pela bala de policiais ou detidos pela caneta de juízes.
Quem está por trás, dirigindo o conflito transnacional, é o mercado financeiro que, cada vez mais, tem se especializado em utilizar o poder Judiciário local em seu favor instaurando um novo regime de exceção, ou seja, anulando os efeitos dos direitos constitucionais que possam atrapalhar a livre circulação do capital.
A tese foi levantada pelo professor de Direito Constitucional da PUC-SP, Pedro Serrano, durante sua participação no fórum Brasilianas - Saídas para o Brasil crescer, marcando o lançamento da nova plataforma do portal. O jurista argumenta que há uma disparidade na forma como a lei e as forças policiais são aplicadas nas diferentes regiões do país e isso explica porque a população carcerária no Brasil quadruplicou em 20 anos, chegando a 10% do total de brasileiros e, ainda, o aumento do número de mortes cometidas por policiais em grandes cidades como São Paulo, onde, em 2017, uma em cada três mortes violentas foi cometida por agentes da segurança pública.
Para entender a conclusão de Serrano, é preciso entender primeiro o que é um Estado de Exceção, sobretudo na concepção do jurista e filósofo político alemão Carl Schmitt. O teórico do nazismo defendeu o modelo de que as leis constitucionais e o direito do indivíduo poderiam ser suspensos por uma autoridade quando a integridade do Estado fosse ameaçada por um inimigo externo ou em decorrência de algum tipo de calamidade pública.
"O regime de exceção pressupõe uma ideia de soberania cuja a melhor forma de compreensão, como explica Schmitt, está na ideia do milagre da teologia. Como é que Deus se manifesta? Pela ruptura com a normalidade da natureza, na multiplicação do peixe sem passar pelos processos naturais da reprodução, na transformação da água em vinho", explica Serrano. Assim Schmitt propôs a ideia de um governante que pudesse unir a figura do legislador com a do soberano para melhor enfrentar o inimigo mesmo que para isso a normalidade das regras legais tivesse que ser rompida.  
O pensamento de Schmitt influenciou a ascensão do nazismo em seu país e do fascismo na Itália. "Interessante observar que, nesses dois casos, não ocorreram golpes no sentido formal (enfrentamento direto de forças armadas), foram golpes no sentido material, ou seja, utilizando-se da eleição, nazismo e fascismo acendem. Em seguida, aprovaram leis no parlamento confirmadas pelo judiciário que extinguiu de fato a democracia ampliando o poder do executivo", remonta Serrano.
As terríveis experiências desses modelos políticos levaram os países europeus a criarem constituições nacionais robustas no pós-guerra, na tentativa de obter "uma semente anti-fascista". Dessa forma, as novas regras constitucionais passaram a ter poder superior a qualquer ordenamento político ou demais formas jurídicas inferiores, como explica o jurista:
"A proposta foi de criar direitos e valores políticos e morais democráticos que não estariam mais sujeitos a decisão majoritária [da população, evitando assim a ditadura da maioria sobre minorias] e nem a manipulação de uma decisão judicial. A democracia, deixa de ser vista apenas como soberania popular e passa a ser vista também como proteção ao direito”,  reforça Serrano completando que, da mesma forma, as constituições incluíram artigos para evitar decisões políticas que colocassem em risco liberdades públicas e direitos sociais.
A Constituição brasileira de 1988 seguiu a mesma influência e também buscou estabelecer a semente do ‘anti-autoritarismo’, afinal o país acabava de sair de uma ditadura militar que durou mais de 20 anos. Mas algo na nossa história tem impedido a concretização de todos os direitos fundamentais propostos na Carta Magna. É nesse sentido que Serrano aponta para a atuação de um poder transnacional e que vem, cada vez mais, atuando com o auxílio do poder Judiciário.
"Me parece que o capitalismo [em desenvolvimento nas últimas décadas], conduzido pelo capital financeiro e tecnológico, está reproduzindo de forma virtual e cada vez mais rápida um mecanismo de poder e uma ameaça constante ao estado nacional", em outras palavras, prossegue o professor, a livre circulação do capital estaria elevando o seu domínio financeiro sobre outras relações de poder gerando novas formas de política.
"O mundo passa a ter uma governabilidade que nós podemos chamar de exceção, porque não há mais guerra como mecanismo entre estados. Esse guerra, na verdade, está se dando por mecanismos judiciais, transformando, por exemplo, forças armadas em forças policiais que ocupam territórios a título de garantia da paz e da segurança mundial, não mais de garantia à soberania nacional", destaca Serrano.
Segundo o pesquisador, uma das características desse novo sistema não é apenas garantir a existência de um contingente de mão de obra de reserva, mas também um contingente humano destinado à não participação social, sem direito ao desenvolvimento tecnológico e às formas de concentração de renda. “E isso exige a manutenção de um estado autoritário para esse controle social. Ou seja, eu deixou de tratar o ser humano como alguém que no campo político-jurídico tem direito aos mecanismos de proteção e passo a tratá-lo como inimigo”, pontua.
Na política
Serrano também identifica a instrumentalização do judiciário contra grupos políticos na América Latina destacando quatro exemplos. Primeiro no Paraguai com o golpe que levou a destituição de Fernando Lugo, em junho de 2012. "Deram duas horas de defesa para o presidente. A argumentação do Tribunal para fazer esse tipo de julgamento é que não era um julgamento criminal e sim administrativo. Então fui pegar um ato administrativo mais simples que tem no Paraguai que é uma multa de trânsito. Nesse caso você tem dez dias de defesa e cinco de recurso. Ou seja, você se defender de uma multa de trânsito é mais fácil do que defender um mandato popular", ressalta.
O outro exemplo foi a destituição do então presidente de Honduras Manuel Zelaya, em 2009. "Foi algo tão terrível quanto: por liminar mandaram prender o presidente da república, mas ao invés de ser com a polícia mandaram as forças armadas que o expulsaram do país, o que é vetado pela Constituição, impedindo a defesa dele". Tempos depois a Corte superior daquele país reconheceu a inconstitucionalidade de todo o processo, mas o mandato de Zelaya já tinha terminado.
Serrano considera que o impeachment da presidente Dilma Rousseff seguiu a mesma lógica de instrumentalização do judiciário subvertendo as regras constitucionais, lembrando que ao não conseguir encaixar os atos administrativos de Dilma com os crimes de responsabilidade fiscal, previstos na Constituição Federal, o que sobrou para os juristas que defenderam o impeachment foi dar legitimidade a decisão do Senado, como autoridade democraticamente constituída. "Só que resolver pela autoridade no pós-guerra é algo extremamente agressivo à esse pacto humanista que fundou as constituições", completa.
O professor destaca também o aparelhamento do judiciário na Venezuela. "Pesquisas minhas mostram que existem vários exemplos de processos penais de exceção contra opositores da direita. A instrumentalização é a mesma, ou seja, tratar como criminoso comum quem, na realidade, se procura perseguir politicamente através de processos penais mentirosos, onde a defesa não é ouvida, por exemplo".
O lawfare (guerra travada no campo jurídico), também pode atingir empresas importantes para a economia de um país.
Em outubro de 2014, por exemplo, um relatório divulgado pela consultoria Arko Advice informava que o SEC (Security Exchange Commission), órgão regulador do mercado de capitais dos Estados Unidos, junto com o Departamento de Justiça americano começavam a investigar denúncias de corrupção na Petrobras.
Em fevereiro de 2015 o então Procurador-Geral da República, Rodrigo Janot e uma equipe de procuradores da Lava Jato se dirigiram para os Estados Unidos onde participaram de reuniões com o Banco Mundial, o Departamento de Justiça dos Estados Unidos, a Agência Federal de Investigação (FBI) e a Organização dos Estados Americanos (OEA).
Em novembro de 2016 a Petrobras começou a ser julgada nos EUA por uma ação coletiva aberta por investidores daquele país, pedindo ressarcimento por perdas com a desvalorização da empresa após a Lava Jato.
Toda essa movimentação levou Luiz Alberto de Vianna Moniz Bandeira, cientista político reconhecido por dissecar a influência norte-americana na desestabilização de países, a declarar em entrevista ao Jornal do Brasil que "Moro e Janot" atuavam com os Estados Unidos contra o Brasil, argumentando: "Os prejuízos que causaram e estão a causar à economia brasileira, paralisando a Petrobras, as empresas construtoras nacionais e toda a cadeia produtiva, ultrapassam, em uma escala imensurável, todos os prejuízos da corrupção que eles alegam combater".
Democracia
Lembrando do jurista e filósofo austríaco Hans Kelsen, Serrano destaca que a democracia pressupõe uma sociedade dividida e com rivalidades.
"Não há sentido imaginar um regime democrático e não imaginar a existência de conflitos, e em essencial de conflito social. Democracia é um modo, um procedimento, que visa no Estado a paz com formas regradas de disputa, de pontos de vista de interesses, em que a decisão da maioria é o mecanismo final de conformação da decisão política, portanto mecanismo final que põe fim pacífico ao conflito", explica.
E foi dentro dessa concepção, e em em um ambiente de civilização judaico-cristã, que as constituições europeias foram desenhadas. "Os direitos humanos nada mais foram do que a secularização das ideias da pessoa do apóstolo Paulo. Essa ideia teológica foi secularizada em direitos que protegem a condição humana garantindo certa proteção política ao ser humano como tal", conclui.  
A plataforma Brasilianas, iniciada em parceria com a PUC-SP, propõe fomentar políticas públicas gestadas pelos principais debatedores da conjuntura política e econômica do Brasil tendo como foco central a redução das desigualdades. Acesse matérias de outros debates levantados no fórum que marcou o lançamento do projeto:

sábado, 5 de março de 2016

Operação Aletheia e a nova aula global de manipulação midiática



  " (...) Mas quando as regras do jogo democrático são rasgadas com tamanha facilidade; quando parcela das instituições que devem zelar pelo respeito às leis são guiadas por fatores políticos; quando a mídia nega o direito da população a uma informação plural, acusa e condena previamente; e quando se vê a maioria da população comprando esta narrativa e aplaudindo a espetacularização do justiçamento a todo custo, não é a biografia do Lula, os feitos de seu governo ou o projeto do PT que estão em risco. É a nossa democracia."

INTERVOZES

Operação Aletheia e a nova aula global de manipulação midiática

Associação Judiciário-PF-mídia foi essencial para constranger ilegalmente Lula, enfraquecer o PT e o governo e fortalecer os protestos pró-impeachment
por Por Bia Barbosa, do Intervozes publicado 05/03/2016 12:54, última modificação 05/03/2016 12:56
REPRODUÇÃO
JN
Jornal Nacional da sexta-feira (4): defesa de Lula teve 13 minutos numa edição de 1h20
Via CartaCapital – Não é à toa que democracias consolidadas possuem mecanismos de regulação do setor de comunicações para garantir o que os padrões internacionais definem como “discurso pluralista e democrático”. Quem preza pelo Estado de Direito sabe que uma esfera pública midiática dominada por uma única empresa e que um jornalismo que não respeita o mínimo equilíbrio de vozes podem ser destrutivos para qualquer nação.
Nesta sexta-feira 4, em que o País parou para acompanhar o desfecho da operação da Polícia Federal que levou o ex-presidente Lula coercivamente para depor, o Brasil, uma vez mais, presenciou uma aula de manipulação da opinião pública pela Rede Globo.
Não precisamos recuperar aqui a história das Organizações Globo neste campo. Ela é bastante conhecida. Mas, em momentos de crise política como o que vivemos, em que princípios constitucionais são ameaçados diariamente, mostra-se fundamental jogar luz em como tem se dado o processo de “informação” e formação da opinião dos brasileiros.
Não se trata aqui de defender o ex-presidente Lula e o PT, tampouco de negar a importância que um fato como este deve ter para os meios de comunicação. Mas o que se espera de uma concessionária do serviço público de radiodifusão, num momento como este, é objetividade – até porque a “isenção e imparcialidade” que Bonner afirma a Globo ter, não existem.
O que se viu, entretanto, ao longo de uma hora e vinte minutos no principal telejornal do país, está muito distante disso.
Não precisamos entrar na análise do discurso das matérias veiculadas nesta sexta pelo Jornal Nacional, aquele que se arvora o papel de fazer a síntese do dia, “para que o cidadão esteja sempre bem informado”. Vamos aos fatos, como a Globo gosta, e deixar cada um tirar suas conclusões.
1 - Primeiro bloco do JN: 21 minutos de matérias, e nada mais que cinquenta segundos (25 vezes menos) com a posição da defesa. Na matéria de seis minutos e dez segundos sobre os pagamentos que o Instituto Lula e a LILS receberam por palestras feitas pelo ex-presidente, somente a PF falou.
2 - Segundo bloco: mais 15 minutos de matérias. Vinte segundos com a posição do ex-presidente e 20 com uma fala de Paulo Okamotto, presidente do Instituto Lula.
A defesa dos empresários acusados de envolvimento nas obras do sítio de Atibaia foi lida pelos apresentadores na bancada, totalizando pouco mais de um minuto e meio.
Na matéria sobre o tríplex do Guarujá, sete segundos para citar a nota do Instituto Lula em 2 minutos e cinquenta segundos de reportagem.
3 - Quase quarenta minutos desde o início do JN tinham se passado quando foi ao ar a primeira fala de Lula, na matéria sobre a declaração que ele fez à imprensa e à militância na sede do Diretório Nacional do PT. Lula teve voz por sete minutos e meio. Um minuto e quinze de Dilma criticando a operação vieram na sequência.
Rui Falcão, presidente do partido, teve direito a dezesseis segundos. Na matéria sobre as repercussões no Congresso, um minuto para a oposição e 30 segundos para o PT – e mais dois do repórter divulgando informações de como a direita pretende paralisar o Parlamento até o impeachment sair.
4 - Na matéria sobre os atos que aconteceram pelo País, o mesmo número de citações para os atos pró e contra Lula, independentemente da gritante diferença entre o número de pessoas que eles mobilizaram. Depois, mais um minuto só para mostrar as pessoas que, atendendo ao chamado da oposição, bateram panelas ou aplaudiram o início da transmissão do Jornal Nacional.
Do outro lado, mais de dois minutos mostrando militantes do PT hostilizando repórteres da Globo.
Durante a tarde, na GloboNews, a empresa já tinha batido várias vezes na tecla de que “o PT está inflando a militância para o confronto”, desconsiderando totalmente a legitimidade de quem está sendo atacado se defender também nas ruas.
Gerson Camarotti entrou pela internet do aeroporto de Congonhas para dizer: “O que estamos vendo em Congonhas é uma amostra do que o PT está deflagrando hoje”, numa absurda inversão dos fatos.
5 - O JN trouxe ainda uma matéria sobre “os destaques negativos” na imprensa internacional, por mais dois minutos. E informou que o mercado reagiu positivamente aos fatos, com alta na Bolsa de São Paulo e queda no valor dólar. Totalizando, foram 64 minutos de matérias acusando Lula e publicizado os argumentos e informações da PF, dos quais menos de 13 com o outro lado.
6 - Um dos principais assuntos em discussão ao longo do dia, a legalidade da condução coercitiva de Lula e de mais dez investigados, não mereceu a atenção do Jornal Nacional. Nem mesmo a opinião dos quatro especialistas em direito penal que foram chamados pela GloboNews ao longo do dia e que, de forma unânime, falaram que tal condução não tinha fundamento legal convenceram o JN.
Alguma menção à declaração contundente de dois ministros do STF que consideraram a ação da PF arbitrária? Nada. À Folha de S.Paulo, Marco Aurelio Melo disse que “o atropelamento não conduz a coisa alguma. Só gera incerteza jurídica para todos os cidadãos. Amanhã constroem um paredão na praça dos Três Poderes". E criticou o argumento utilizado pelo juiz Sergio Moro para embasar a condução coercitiva de Lula: "Será que ele queria essa proteção? Eu acredito que na verdade esse argumento foi dado para justificar um ato de força (…) Isso implica em retrocesso, e não em avanço."
Mas a Globo não achou importante ouvir o STF neste caso. Pelo contrário, colocou declarações da OAB e de associações de magistrados e procuradores que defenderam a ação da PF.
Para além da edição desta sexta do Jornal Nacional, a cobertura deste “dia histórico”, como afirmaram os comentaristas da Globo, contou com vários aspectos condenáveis. Um deles foi o discurso claro de que a economia só vai melhorar quando o governo mudar.
Outro, a acusação de que Lula está, “uma vez mais”, dividindo o país, fazendo um discurso de “perseguição e orquestração”. A comentarista política da Globo News, Cristiana Lobo, chegou a falar em “síndrome de perseguição”. Às 20h, o canal por assinatura da empresa fez um “resumo das declarações do dia”. Nenhuma foi crítica à operação.
Não é muito difícil, portanto, concordar com a definição de orquestração. Sobretudo quando se sabe que jornalistas de diferentes veículos tomaram conhecimento da operação Aletheia antes mesmo dos advogados dos acusados.
A associação Judiciário-Polícia Federal-meios de comunicação se mostrou essencial para os objetivos do dia serem alcançados: constranger ilegalmente o ex-presidente Lula, desmoralizar o PT, enfraquecer o governo e fortalecer os protestos pró-impeachment agendados para o dia 13 de março.
Não há coincidência nos acontecimentos do período recente. Da divulgação da delação de Delcídio aos vazamentos seletivos, passando pelo silenciamento da imprensa diante das denúncias de desvio dos recursos públicos pelo também ex-presidente Fernando Henrique Cardoso e pela tentativa de censura contra os blogueiros que denunciaram o esquema da mansão dos Marinho em Paraty.
Reconhecer isso é forçoso, independentemente dos indícios apresentados pela PF contra Lula ou do que ficará efetivamente provado ao final das investigações.
Da mesma forma, é forçoso reconhecer que parte significativa desta crise é resultado direto da ausência de enfrentamento à vergonhosa concentração dos meios de comunicação no País, nos 13 anos de governo petista. Aqui, se está colhendo o que se deixou de plantar.
Mas quando as regras do jogo são rasgadas com tamanha facilidade; quando parcela das instituições que devem zelar pelo respeito às leis são guiadas por fatores políticos; quando a mídia nega o direito da população a uma informação plural, acusa e condena previamente; e quando se vê a maioria da população comprando esta narrativa e aplaudindo a espetacularização do justiçamento a todo custo, não é a biografia do Lula, os feitos de seu governo ou o projeto do PT que estão em risco. É a nossa democracia.

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016

O Mercado Financeiro e a Direita que o sustenta gostam da Democracia?






























A Direita tema as Urnas


Texto de Jandira Feghali

A Direita passou a temer as urnas. Adquiriu verdadeiro pavor desde que os resultados não se mostraram mais favoráveis para si. A democracia exige, sim, de nossas forças políticas o respeito à vontade do povo expressa a cada eleição. De quatro em quatro anos votam no projeto e nos candidatos que consideram mais aptos a conduzir a nação, como ocorreu com Lula e Dilma Rousseff nas últimas eleições presidenciais. Por conta disso, iniciou-se uma caçada fora da lei contra seus possíveis futuros oponentes, que é o caso de Lula.

O que vem ocorrendo desde o resultado de 2014 é mais um capítulo da saga que domina as grandes corporações midiáticas e os núcleos de comando de vários partidos de oposição. Depois de anunciarem aos quatro ventos que queriam "ver Dilma sangrar", oficializando o quanto-pior-melhor, agora embarcam na tentativa de atingir o ex-presidente a qualquer custo. Primeiro o pedido desesperado da oposição em recontagem de votos, depois recorrem ao TCU, em segundo o TSE e aí, sim, o impeachment. Agora é o vale tudo mentiroso contra o ex-presidente.

A cada manchete, uma notícia mal explicada, denúncias sem provas e delações seletivas que vazam ao ritmo da sanha golpista. Do apartamento tríplex que comprovadamente nunca foi de Lula, a um pequeno barco de R$ 4 mil, reportagens tendenciosas pretendem desconstruir sua imagem e pavimentar o caminho da oposição até 2018.

O alvo é um homem público forjado na luta operária, que teve coragem para enfrentar de frente a pobreza no Brasil e com políticas públicas reconhecidas mundialmente. Um líder popular que mora no coração do povo, principalmente daqueles que tanto precisam. Tornou-se presidente do Brasil e maior liderança da História contemporânea.

Ao mirar suas armas para o ex-presidente, as forças da Direita querem minar um projeto à Esquerda e um possível oponente forte de 2018. Esculpido pela fome, criado com sólidos valores por Dona Lindu, e batizado politicamente no genuíno chão de fábrica, Luís Inácio Lula da Silva é um fenômeno que a oposição tenta a todo custo implodir. O único ex-presidente reverenciado mundo afora por grandes conquistas sociais e de reconhecimento histórico da ONU.

O luxuoso apartamento em Paris de FHC jamais atraiu tanta atenção como o "tríplex" de 80 m² que dizem ser de Lula. Os crimes públicos do Governo de São Paulo em seu metrô, em parceria com a francesa Alstom e alemã Siemens, nunca foram tão explorados como as sucessivas manchetes que usam o nome do ex-operário.

Assim como o promotor de Justiça de São Paulo Cássio Conserino interpelou Lula, porque o juiz Sérgio Moro não cobra respostas de FHC para as delações que surgem na Lava-Jato? É o caso das denúncias de beneficiamento de R$ 100 milhões em seu governo por propina na Petrobras. Ou então recorrer ao STF para fazer o mesmo com o senador Aécio Neves sobre as denúncias de R$ 300 mil em propina na UTC ou ouvir Alckmin pelo desvio de verba na merenda escolar.

As urnas de 2018 virão e conservadores se preparam para elas com a única arma que tem: a farsa, violações do Estado democrático de Direito, apoio às manifestações fascistas e de desqualificação da política. Tem razão em ter medo das urnas. Quem tem propostas de exclusão, retirada de direitos e redução da democracia só consegue um bom resultado eleitoral quando elimina os concorrentes previamente. Mesmo que às custas de artimanhas golpistas. A Direita tem todos os motivos para ter muito medo das urnas.

 Leia mais, clicando em

O ex-ministro grego Yanis Varoufakis desafia a poderosa ditadura dos mercados, adorada pela direita

sábado, 24 de outubro de 2015

Conversar com um Fascista: um desafio. Texto do juiz de direito Rubens Casara



texto de Rubens Casara, Doutor em Direito, Mestre em Ciências Penais, Juiz de Direito do TJ/RJ

Fonte: Justificando

Em Adorno, a ignorância, a ausência de reflexão, a identificação de inimigos imaginários, a transformação dos acusadores em julgadores (e vice-versa) e a manipulação do discurso religioso são, dentre outros sintomas, apontados como típicos do pensamento autoritário.

Pensem, agora, na naturalização com que direitos fundamentais são afastados e violados no Brasil, na crença no uso da força (e do sistema penal) para resolver os mais variados problemas sociais, na demonização de um partido político (que, apesar de vários erros, e ao contrário de outros partidos apontados como “democráticos”, não aderiu aos projetos a seguir descritos), no prestígio novamente atribuído aos “juízes-inquisidores”, nos recentes linchamentos (inclusive virtuais), no número tanto de pessoas mortas por ação da polícia quanto de policiais mortos e nos projetos legislativos que: a) relativizam a presunção de inocência; b) ampliam as hipóteses de “prisão em flagrante” em evidente violação aos limites semânticos da palavra “flagrante” inscrita no texto Constitucional como limite ao exercício do poder; c) criminalizam os movimentos sociais com a desculpa de prevenir “atos de terrorismo”; d)  impedem o fornecimento de “pílulas do dia seguinte” para profilaxia de gravidez decorrente de violência sexual e criminalizam médicos que dão informações para mulheres vítimas de violência sexual; e) eliminam o princípio constitucional da gratuidade na educação pública, dentre outras aberrações jurídicas. Conclusão? Avança-se na escala do fascismo.

O fascismo recebeu seu nome na Itália, mas Mussolini nunca esteve sozinho. Diversos movimentos semelhantes surgiram no pós-guerra com a mesma receita que unia voluntarismo, pouca reflexão e violência contra seus inimigos. Hoje, parece que há consenso de que existe(m) fascismo(s) para além do fenômeno italiano ou, ainda, que o fascismo é um amálgama de significantes, um “patrimônio” de teorias, valores, princípios, estratégias e práticas à disposição dos governantes ou de lideranças de ocasião (que podem, por exemplo, ser fabricadas pelos detentores do poder político ou econômico, em especial através dos meios de comunicação de massa), que disseminam o ódio contra o que existe para conquistar o poder e/ou impor suas concepções de mundo.

O fascismo possui inegavelmente uma ideologia: uma ideologia de negação. Nega-se tudo (as diferenças, as qualidades dos opositores, as conquistas históricas, a luta de classes, etc.), principalmente, o conhecimento e, em consequência, o diálogo capaz de superar a ausência de saber.

 Os fascistas, como já foi dito, talvez não saibam o que querem, mas sabem bem o que não suportam. Não suportam a democracia, entendida como concretização dos direitos fundamentais de todos, como processo de educação para a liberdade e de limites ao exercício do poder. Essa mistura de pouca reflexão (o fascismo, nesse particular, aproxima-se dos fundamentalismos, ambos marcados pela ode à ignorância) e recurso à força (como resposta preferencial para os mais variados problemas sociais) produz reflexos em toda a sociedade.

As práticas fascistas revelam uma desconfiança. O fascista desconfia do conhecimento, tem ódio de quem demonstra saber algo que afronte ou se revele capaz de abalar suas crenças. Ignorância e confusão pautam sua postura na sociedade. O recurso a crenças irracionais ou anti-racionais, a criação de inimigos imaginários (a transformação do “diferente” em inimigo), a confusão entre acusação e julgamento (o acusador – aquele indivíduo que aponta o dedo e atribui responsabilidade – que se transforma em juiz e o juiz que se torna acusador – o inquisidor pós-moderno) são sintomas do fascismo que poderiam ser superados se o sujeito estivesse aberto ao saber, ao diálogo que revela diversos saberes.

Diante dos riscos do fascismo, o desafio é confrontar o fascista com aquilo que para ele é insuportável: o outro. O instrumento? O diálogo, na melhor tradição filosófica atribuída a Sócrates. Talvez esse seja o objetivo do diálogo proposto pela filósofa Marcia Tiburi em seu novo livro, que tive o prazer de apresentar (o prefácio é do sempre excelente Jean Wyllys).

Em "Como conversar com um fascista: reflexões sobre o cotidiano autoritário brasileiro" (Rio de janeiro: Saraiva, 2015), a autora resgata a política como experiência de linguagem, sempre presente na vida em comum, e investe nessa operação, que exige o encontro entre o “eu” e o “tu”, apresentada como fundamental à construção democrática. De fato, a qualidade e a própria existência da forma democrática dependem da abertura ao diálogo, da construção de diálogos genuínos – que não se confundem com monólogos travestidos de diálogos – em que a individualidade e os interesses de cada pessoa não inviabilizam a construção de um projeto comum, de uma comunidade fundada na reciprocidade e no respeito à alteridade.

Ao tratar da personalidade autoritária, dos micro-fascismos do dia-a-dia, do consumismo da linguagem, da transformação de pessoas em objetos, da plastificação das relações, da idiotização de parcela da população, dentre outros fenômenos perceptíveis na sociedade brasileira, Marcia Tiburi sugere uma mudança de atitude do um-para-com-o-outro.

Nos diversos ensaios deste livro, a autora conduz o leitor para um processo de reflexão e descoberta dos valores democráticos, bem como desvela as contradições, os preconceitos e as práticas que caracterizam os movimentos autoritários em plena democracia formal.

 Mas, não é só.

Ao propor que a experiência dialógica alcance também os fascistas, aqueles que se recusam a perceber e aceitar o outro em sua totalidade, Marcia Tiburi exerce a arte de resistir. Dialogar com um fascista, e sobre o fascismo, forçar uma relação com um sujeito incapaz de suportar a diferença inerente ao diálogo, é um ato de resistência. Confrontar o fascista, desvelar sua ignorância, fornecer informação/conhecimento, levar esse interlocutor à contradição, desconstruindo suas certezas, forçando-o a admitir que seu conhecimento é limitado, fazem parte do empreendimento ético-político da autora,  que faz neste livro uma aposta na potência do diálogo e na difusão do conhecimento como antídoto à tradição autoritária que condiciona o pensamento e a ação em terra brasilis. O leitor, ao final, perceberá que não só o objetivo foi alcançado como também que a autora nos brindou com um texto delicioso, original, profundo sem ser pretensioso. Mais do que recomendada a leitura.

Aproveito para convidar a todos/todas para os lançamentos já confirmados:

05/11 – Rio de Janeiro. Local: Travessa do Leblon.

10/11 – São Paulo. Local:  Espaço Revista Cult.

23/11- Belo Horizonte. Local: Sempre um Papo.

Rubens Casara é Doutor em Direito, Mestre em Ciências Penais, Juiz de Direito do TJ/RJ, Coordenador de Processo Penal da EMERJ e escreve a Coluna ContraCorrentes, aos sábados, com Giane Alvares, Marcelo Semer, Marcio Sotelo Felippe e Patrick Mariano.

domingo, 15 de março de 2015

Globo promove um "Diretas já" ao contrário.

     


    O que interessava era um “show” na tela, pra animar a paulistada a sair de casa. O Esporte Espetacular da Globo era interrompido a cada dez minutos para “giros de repórteres”. O âncora Alex Escobar (aquele que Dunga humilhou em 2010 - “tu és um cagão de merda”) tinha a frase pronta pra chamar as entradas ao vivo: “vamos acompanhar as manifestações pela Democracia, contra a corrupção e contra Dilma”.
Segue texto de Rodrigo Vianna, neste sombrio 15 de março, extraído da Revista Forum:


Globo promove um “Diretas-já” às avessas pra chamar paulistas pra rua: discurso na tela não batia com imagens nas ruas


março 15, 2015 14:36
Globo promove um “Diretas-já” às avessas pra chamar paulistas pra rua: discurso na tela não batia com imagens nas ruas
Essa a manifestação "pela Democracia" chamada pela Globo
Essa a manifestação “pela Democracia” chamada pela Globo (foto: VioMundo)
por Rodrigo Vianna
A tática foi muito clara: de manhã, manifestações fracas Brasil afora (com exceção de Belo Horizonte e Brasília) serviram pra Globo fazer o “esquenta” para a tarde.
O que interessava era um “show” na tela,  pra animar a paulistada a sair de casa. O Esporte Espetacular da Globo era interrompido a cada dez minutos para “giros de repórteres”. O âncora Alex Escobar (aquele que Dunga humilhou em 2010 - “tu és um cagão de merda”) tinha a frase pronta pra chamar as entradas ao vivo:  “vamos acompanhar as manifestações pela Democracia, contra a corrupção e contra Dilma”. 
Nessa imagem, Globo viu 15 mil pessoas no Rio
Nessa imagem, Globo viu 15 mil pessoas no Rio
No Rio, três repórteres ao vivo. Conheço todos eles, devem estar envergonhados do que foram obrigados a fazer. Frases ensaiadas: “muitas famílias, protesto pacíficos, camisas amarelas, famílias inteiras.” Ops, mas atrás do repórter passa um rapaz com cara de ódio, e a foto do Bolsonaro estampada na camiseta. O câmera, esperto, desvia para um plano geral.
Números no Rio. “Os manifestantes falam em cem mil pessoas, mas a PM diz que são 15 mil“. O diabo é que esqueceram de combinar com o diretor de TV, que tasca um plano aberto da avenida Atlântica. Eram 5 mil pessoas, no máximo. Entra matéria (excelente, por sinal) sobre Jairzinho e a Copa de 70. “Noventa milhões em ação…”.

Como dizia o Dunga...
Como dizia o Dunga…
Mas Escobar chama a rua de 2015, de novo: outra repórter, agora do alto de um prédio na avenida Atlântica. Pior ainda: tá na cara que está vazio. E a jornalista comete ato falho glorioso: “muitos cartazes mostram Contentamento com Dilma”. Ops.
Jornalistas da Globo estavam instruídos para chamar as manifestações como “ato pela Democracia”. O diabo são as imagens ao vivo, fora de controle. Ao fundo, um cartaz pede “intervenção militar já”.
Suastica gnewsNo Rio, apareceram suásticas e cartazes pedindo “intervenção militar”. De Belo Horizonte, imagens de mais gente nas ruas. Mas parecia que ali a Globo estava menos preparada. Repórter fez entrada sóbria, não precisa apelar. Discrição mineira.
Brasília também: bastante gente. Mas não as “40 mil pessoas” que a Globo comprava como verdade. O Plano aberto desmentia a narrativa montada por Ali Kamel.
Fora do circuito Rio-Brasilia, o Escobar sofria mais. Ele chama Aracaju, e a moça não percebe que já está a vivo. A repórter grita pra meia dúzia ali na frente: “canta o hino, canta o hino”. O aúdio vaza, o povo xinga Dilma. De repente, ela percebe a gafe, fala um pouco, e o povo obediente começa o hino.
A Globo está no comando. Um cartaz erguido diz: “FFAA salvaram o Brasil em 64″. Parceria bonita essa!
Fortaleza entra pela segunda vez e…. Surpresa: “os manifestantes já se dispersaram“, diz o repórter meio envergonhado. Rua vazia.
Com essa imagem na tela, a repórter falou em "30 mil contra a corrupção" em Ribeirão Preto.
Com essa imagem na tela, a repórter falou em “30 mil contra a corrupção” em Ribeirão Preto.
O mais constrangedor: entrada de Ribeirão Preto. E a repórter: “muita gente nas ruas contra a corrupção, são 30 mil pessoas”. As imagens mostravam ruas quase vazias…
Belém também: pouca gente.
Volta pro Rio. A classe média chega ao fim de sua gloriosa marcha na manhã ensolarada. O local escolhido para o “gran finale”? Copacabana Palace – símbolo da aristocracia decadente carioca, símbolo das lilys e blochs com seu dinheiro escondidinho na Suíça.
Ali Kamel passou a manhã tentando insuflar os números, encher a bola da manifestação.
Nesta manhã de domingo, a Globo promoveu um “DiretasJá” às avessas (para os mais novos: em 1984, milhares foram as ruas pedir a volta à Democracia; no dia 25 de janeiro de 84, havia 300 mil na praça da Sé, e a Globo noticiou como ‘festividades pelo aniversário da capital paulista”; Ali Kamel escreve artigos até hoje para negar que Globo tenha manipulado 1984, assim como nega que haja racismo no Brasil).
Aliás, nas imagens de Salvador (a Globo falou em 4 mil manifestantes no Farol da Barra, a imagem mostrava uns mil no máximo) chamava a atenção a ausência de negros. “Parecia Blumenau”, escreveu um internauta. Peraí: nas manifestações do Ali Kamel não há racismo. Esse é o Brasil branquinho que está nas ruas…
E segue Escobar, mais entradas, mais vivos… A ideia era animar os paulistas de classe média – que acordam tarde e gostam de aumentar o barrigão em festins gastronômicos nas padarias, nas manhãs de domingo.
Vendo as imagens na Globo, centenas botaram suas camisas amarelas e foram pra Paulista – onde certamente o ato seria grande.
Na GloboNews, os comentaristas jogavam junto com os manifestantes. Mas havia dissonâncias. Um apresentador pergunta a Cristiana Lobo: ‘as manifestações contra Dilma no Nordeste foram só em bairros ricos – Boa Viagem no Recife, Farol da Barra -você acha que o PT vai explorar isso”. E a Cristiana: “veja bem…”
Diretasjá às avessas, para insuflar São Paulo contra Dilma. O Brasil repete 1954 e 1964.
Dilma, se ainda tiver um pingo de sangue brizolista nas veias, enfrenta a Globo agora. A Globo é o centro do golpe. Põe gente nas ruas, sim – especialmente em São Paulo, Brasília. No Rio, põe menos. A Globo tem força, mas o #globogolpista e o #famíliaMarinhonoHSBC comandando as redes sociais mostram que a direita não vai dar um passeio.
(relato provisório, escrito antes da manifestação em São Paulo)