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domingo, 5 de julho de 2015

Eduardo Cunha e a Idade do Atraso


Texto de Jânio de Freitas, extraído do Contexto Livre (originalmente publicado na Folha)




Repetir a votação sobre maioridade penal, com disfarçante alteração do texto, para transformar em vitória a sua derrota 24 horas antes, não é a principal função dessa já conhecida ousadia de Eduardo Cunha. Não importa se impensado ou mesmo inconsciente, ainda assim o maior sentido dado ao ato é o de demonstração da minoridade política, moral, democrática e cultural do Brasil.

No vocabulário dos garotos carentes, um país "dimenor".

É inimaginável que um gesto sequer parecido possa ser feito na Câmara de algum dos países, digamos, adultos, seja ou não desenvolvido. No Brasil, além de feito, é aceito pela quase totalidade dos deputados, é repetido (antes no projeto sobre financiamento privado de campanhas eleitorais, agora no da maioridade penal) e outra vez aceito. Adendo brasileiramente supérfluo: o que estava em votação não era um projeto de lei, comum, era um texto da Constituição.

A rigor, foram dois os textos constitucionais questionados no ato e na aceitação. Um, o que proíbe a votação, "na mesma sessão legislativa", de "emenda rejeitada". Outro, o que veda "emenda tendente a abolir os direitos e garantias constitucionais", como muitos consideram a maioridade de 18 anos, que a Câmara manteve e logo depois baixou para 16 anos.

No século 21, estamos no mesmo baixio político, moral e cultural de muitas dezenas de anos atrás, quando o relógio da Câmara era parado às 23h58, para que entrassem pela madrugada a disputa e a votação cujo prazo se encerrava à meia-noite. Congressistas adulteravam resultados dando votos fraudulentos por vários outros. Em textos votados e aprovados fora substituída ou retirada uma palavra determinante. Coisas de país atrasado. E, vê-se, ainda aí.

Entre os pouquíssimos que se manifestam sobre a validade, ou não, do artifício de Eduardo Cunha, alguns propõem o recurso imediato ao Supremo Tribunal Federal; outros, só ao término do processo de votação no Senado, porque o Supremo recusaria pronunciar-se sobre matéria ainda pendente de decisão do Poder Legislativo.

A discussão é ociosa. A redução da maioridade foi levada à segunda votação com o argumento de ser um projeto diferente. A diferença: dos crimes especificados para responsabilização penal já aos 16 anos, foram retirados do projeto derrotado o roubo com violência e o tráfico de drogas, ficando os crimes hediondos, homicídio doloso e lesão corporal seguida de morte.

Mas a emenda constitucional não é sobre os crimes. É sobre as idades, presentes e iguais nas duas propostas levadas a votação. E nesta igualdade, essência das duas emendas, é que se configura a dupla apreciação proibida pelo texto constitucional.

Consumada a votação do projeto apenas maquiado, trata-se de ato acabado. O questionamento é a esse processo parlamentar, a ser examinado em confronto com a proibição da Constituição. O teor da proposta, idade alterável ou não, é discussão à parte.

A importância da definição do Supremo vai além da idade penal mínima. Os tumultuosos procedimentos da Câmara atual recaem sobre decisões importantes para milhões de famílias, para o Tesouro Nacional, para o próprio Congresso. E integram, como um dos fatores de estímulo, a degradação de condutas e procedimentos em que o atraso adota a pregação de violência, discriminações e retrocessos que o país já tem demais.

quinta-feira, 21 de maio de 2015

O avanço da alienação fundamentalista e o fim das melhores e tradicionais rádios: o (O)caso da Rádio Eldorado, repassada ao pastor R.R. Soares




"A transferência da Rádio Eldorado para um grupo religioso carrega uma simbologia fúnebre."

Texto de Luciano Martins Costa, extraído do Observatório da Imprensa

PROGRAMA Nº 2610
RÁDIO ELDORADO, RIP

Um piano ao cair da tarde


Por Luciano Martins Costa em 20/05/2015



Notícia publicada na quarta-feira (20/5) pelo Estado de S.Paulo e a Folha de S.Paulo informa: a tradicional Rádio Eldorado, que pontuou durante décadas a programação mais qualificada na chamada linguagem culta, encerra sua agonia oficialmente na segunda-feira (25/5). A frequência dos 700 KHz em Amplitude Modulada será preenchida com a música gospel e as mensagens religiosas da Igreja Internacional da Graça de Deus. A partir da semana que vem, será parte da rede Nossa Rádio, propriedade do empresário religioso Romildo Ribeiro Soares, conhecido como missionário RR Soares.

A Eldorado nasceu em 1958, por concessão do então presidente Juscelino Kubitschek à família Mesquita, proprietária do jornal O Estado de S. Paulo. Teve seu auge entre as décadas de 1970 e 1980, tornando-se referência em jornalismo e música de qualidade.

A decadência se deveu, segundo analistas do setor, a erros estratégicos, gestão irresponsável e falta de investimento. Algumas tentativas recentes de lhe dar alguma sobrevida com parcerias levaram a mudanças no nome: a emissora passou a se chamar Eldorado/ESPN, depois Rádio Estadão/ESPN, e finalmente Rádio Estadão.

Romildo Soares, ex-membro fundador da Igreja Universal do Reino de Deus, foi apontado em 2013 pela revista Forbes como o quarto líder religioso mais rico do Brasil, dono de uma fortuna calculada em US$ 125 milhões. Sua rede conta com mais de 2 mil templos por todo o país, mas sua atuação se dá principalmente no campo das comunicações.

Apostando inicialmente no rádio, Soares se tornou figura constante em muitas emissoras, primeiro alugando horários e mais tarde construindo sua própria rede, e hoje ocupa mais de 100 horas semanais de televisão.

O fim da Eldorado AM, depois de sua progressiva deterioração, era um fato há muito esperado no mercado. O que surpreende, a se levar em conta a reação de analistas especializados que comentam notícias sobre a mídia brasileira, é a cessão da tradicional banda AM 700 para uma organização religiosa.

Cortejo fúnebre

A família Mesquita não comentou oficialmente a negociação. Apenas emitiu uma nota, que carrega o estilo lacônico do diretor de Conteúdo do grupo, Ricardo Gandour. O texto diz resumidamente que “a Rede Nossa Rádio, que pertence à Igreja Internacional da Graça de Deus, assume a programação”, ressalvando que a empresa Rádio Eldorado Ltda., do Grupo Estado, “continuará como titular e responsável pela operação”. A empresa mantém a banda de Frequência Modulada. A declaração acrescenta que “o Grupo Estado tem priorizado investimentos em conteúdos e plataformas digitais destinados a públicos de qualificação diferenciada ou de interesse específico”.

O negócio deveria estimular um debate sobre a questão do controle dos meios de comunicação, mas isso não vai acontecer. Não fosse o aspecto irônico de a emissora ter passado para as mãos de um grupo “diferenciado” no universo do segmento religioso neopentecostal, esse seria apenas mais um capítulo no processo de decadência da mais antiga e tradicional entre as grandes empresas brasileiras de comunicação.

Após ter falhado em suas tentativas de obter uma concessão de televisão, entre os anos 1980 e 1990, o Grupo Estado viu esfumaçar-se o antigo domínio dos anúncios classificados com o advento da Internet e enfrenta as consequências de um longo processo de endividamento.

Consultores que atuaram recentemente num programa de ajuste das contas da empresa confidenciam que a marca O Estado de S.Paulo perdeu mais de 60% de seu valor nos últimos cinco anos e que seu principal patrimônio se resume ao imóvel que a empresa ocupa na zona Norte da capital paulista. O parque gráfico, planejado para a configuração específica do jornal, não pode ser desmembrado e suas unidades se depreciam progressivamente, passando a valer praticamente o que pesam suas peças.

Nesse trajeto descendente, as sucessivas administrações do grupo puseram a perder não apenas a qualidade do jornalismo praticado por seus veículos. Também enterraram o Jornal da Tarde, que marcou época com textos e edições marcantes, destruíram a memória das primeiras experiências da emissão de notícias pela internet – inclusive a primeira reportagem com imagens em movimento transmitida por linha discada no Brasil, no começo dos anos 1990 – e transformaram em tiras de papel trinta anos de pesquisa sobre o comportamento social e de consumo da mulher brasileira, trabalho da socióloga Célia Belém.

Com esse histórico de dissipações, a transferência da Rádio Eldorado para um grupo religioso carrega uma simbologia fúnebre.

Que descanse em paz.