sábado, 20 de agosto de 2011

O Ocidente e a falsa democracia em questionamento...



Boaventura de Souza Santos

(sobre a violência urbana na Inglaterra nas últimas semanas)

Os motins na Inglaterra são um perturbador sinal dos tempos. Está a ser gerado nas sociedades um combustível altamente inflamável que flui nos subterrâneos da vida coletiva sem que se dê conta.

Esse combustível é constituído pela mistura de quatro componentes: a promoção conjunta da desigualdade social e do individualismo, a mercantilização da vida individual e coletiva, a prática do racismo em nome da tolerância, o sequestro da democracia por elites privilegiadas e a consequente transformação da política em administração do roubo “legal” dos cidadãos. Cada um dos componentes tem uma contradição interna.

Quando elas se sobrepõem, qualquer incidente pode provocar uma explosão de proporções inimagináveis. Com o neoliberalismo, o aumento da desigualdade social deixou de ser um problema para passar a ser a solução.

A ostentação dos ricos transformou-se em prova do êxito de um modelo social que só deixa na miséria a maioria dos cidadãos porque estes supostamente não se esforçam o suficiente para terem êxito.

Isso só foi possível com a conversão do individualismo em valor absoluto, o qual, contraditoriamente, só pode ser vivido como utopia da igualdade, da possibilidade de todos dispensarem por igual a solidariedade social, quer como agentes dela, quer como seus beneficiários.

Para o indivíduo assim construído, a desigualdade só é um problema quando lhe é adversa; quando isso sucede, nunca é reconhecida como merecida. Por outro lado, na sociedade de consumo, os objetos de consumo deixam de satisfazer necessidades para as criar incessantemente, e o investimento pessoal neles é tão intenso quando se têm como quando não se têm.

Entre acreditar que o dinheiro medeia tudo e acreditar que tudo pode ser feito para obtê-lo vai um passo muito curto. Os poderosos dão esse passo todos os dias sem que nada lhes aconteça. Os despossuídos, que pensam que podem fazer o mesmo, acabam nas prisões.

Os distúrbios na Inglaterra começaram com uma dimensão racial. São afloramentos da sociabilidade colonial que continua a dominar as nossas sociedades, muito tempo depois de terminar o colonialismo político. Um jovem negro das nossas cidades vive cotidianamente uma suspeição social que existe independentemente do que ele ou ela seja ou faça.

Tal suspeição é tanto mais virulenta quando ocorre numa sociedade distraída pelas políticas oficiais da luta contra a discriminação e pela fachada do multiculturalismo.

O que há de comum entre os distúrbios da Inglaterra e a destruição do bem-estar dos cidadãos provocada pelas políticas de austeridade comandadas por mercados financeiros? São sinais dos limites extremos da ordem democrática.

Os jovens amotinados são criminosos, mas não estamos perante uma “criminalidade pura e simples”, como afirmou o primeiro-ministro David Cameron.

Estamos perante uma denúncia política violenta de um modelo social e político que tem recursos para resgatar bancos e não os tem para resgatar a juventude de uma vida sem esperança, do pesadelo de uma educação cada vez mais cara e mais irrelevante, dados o aumento do desemprego e o completo abandono em comunidades que as políticas públicas antissociais transformaram em campos de treino da raiva, da anomia e da revolta.

Entre o poder neoliberal instalado e os amotinados urbanos há uma simetria assustadora. A indiferença social, a arrogância, a distribuição injusta dos sacrifícios estão a semear o caos, a violência e o medo, e os semeadores dirão amanhã, genuinamente ofendidos, que o que semearam nada tem a ver com o caos, a violência e o medo instalados nas ruas das nossas cidades.

Veja-se agora um video com entrevista do sociólogo Sivio Caccia Bava sobre o mesmo tema. Observe-se que os entrevistadores da Globo News buscam a todo o momento taxar os jovens de "criminosos" e "perturbadores da ordem" sem levar em conta as causas e o contexto social em que houve os distúrbios ingleses. Observe-se a coragem do entrevistado em desmontar as rotulações pífias dos jornalistas neoliberais da Globo (e da sujíssima Veja) sobre o tema.

video

domingo, 14 de agosto de 2011

Um homem que nao se ajoelha, cria asas




Atigo de Brizola Net, www.tijolaco.com, nos 85 anos de Fidel Castro


O tempo, aos seres humanos, vai nos substituindo de presença para memória.

Na equação entre passado e presente que resulta no futuro, vamos nos tornando o primeiro, em lugar do segundo.

E aí, quando as décadas nos encolhem e encurvam, o valor dos atos humanos, dependendo do que fomos e fizemos, mingua ou reluz.

Há muito tempo, Victor Hugo escreveu, em seu magnífico “Os trabalhadores do Mar”, que diante do desconhecido e do medo trazido pela noite, “um homem abate-se, ajoelha-se, prosterna-se, roja-se, arrasta-se para um buraco, ou então procura asas.”

Sim, porque homens têm asas, e essas asas se chamam sonho, e este sonho, se vira luta, torna-os gigantes, ainda quando o tempo apequena e fragiliza seus corpos.
Tão grandes que a grandeza os sublima, e os faz seguir, teimosamente, dando aos sonhos que encarnaram as últimas gotas de suas vidas, seus pensamentos, as lições que aprenderam e que seus nomes espalham ainda.

Fidel Castro fez, ontem, dia 13 de agosto, 85 anos.

Aquele a quem tantas vezes se tentou matar enfrenta o tempo com a serenidade de quem sabe que seguirá vivendo. Um pouco mais, como homem. Muito e muito mais, como um grande pássaro, ao qual o sonho e a luta deram - ele deu a uma geração inteira – asas para voar e vencer o medo.

Longa vida a Fidel e vida eterna a seus sonhos!

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

O Neoliberalismo parasita acabou? Infelizmente, ainda não...


Segue texto de Silvio Caccia Bava, editor do Le Monde Diplomatique no Brasil e coordenador do Instituto Pólis, sobre a atual crise especulativa, suas consequências e alternativas:

É verdade que está instalada uma grande confusão. Quando o Estado se torna acionista de grandes conglomerados financeiros e industriais, em alguns casos assumindo o controle e a direção; quando uma imensa quantidade de recursos públicos é entregue ao grande capital; tudo ao contrário do que prega o neoliberalismo, pode-se pensar que algo finalmente mudou, que a ênfase da desregulamentação da economia, minimzando o papel moderador de estado, mostrou claramente sua falência e irrealidade, mas os mesmos que provocaram a crise de 2008 continuam a provocar a de 2011 e não vão para a cadeia.

Tudo isso ocorre em um contexto de extrema turbulência, onde a ameaça de um crash econômico global atemorizava a todos. A crise rompeu paradigmas e os representantes do grande capital forçaram a adoção de medidas por parte de governos que podem prefigurar mudanças mais profundas. É de se notar que o Estado, sob comando neoliberal, assumiu o controle do sistema financeiro e nacionalizou grandes empresas. Algo que era impensável meses atrás. E, na crise atual, polarizou a cena política ao mostrar que os governos bandearam-se descaradamente para o lado dos banqueiros.

Verdade seja dita, nem todos os governos tiveram este comportamento. Em alguns países da América Latina, por exemplo, não pela crise financeira, mas pela adoção de novas estratégias de desenvolvimento, alguns governos nacionalizaram setores da economia, recuperaram o controle dos recursos naturais, questionaram a divida externa. Ao adotarem estas políticas, esses países vão construindo uma agenda de disputas com o neoliberalismo, vão apontando novas possibilidades para estratégias de desenvolvimento.

Não há dúvida de que esta é uma crise de proporções inéditas. Um verdadeiro abalo na lógica do mercado. Mas o poder não mudou de mãos. Seria por demais ingênuo acreditar que o neoliberalismo deixou de ser a referencia para os governos dos países ricos. Os gestores atuais da crise são os promotores do neoliberalismo. E já começam a esboçar uma nova proposta para substituir esta doutrina e legitimar novas formas de dominação capitalista: a socialdemocracia global. (ver artigo à pág. 09)

O cenário que se abre é de disputas. Ainda há que se enfrentar o regime neoliberal, suas instituições, suas regras. Elas estão todas aí, operando. E se passarão anos antes que muitas dessas instituições mudem suas políticas. As iniciativas do FMI e do Banco Mundial na crise demonstram a continuidade das políticas de condicionalidades associadas ao socorro financeiro.

Para enfrentar o neoliberalismo, somente com a reapropriação das riquezas, o que significa a reapropriação dos recursos naturais, do petróleo, do gás, da água, da terra, das florestas. Devolver aos seus legítimos proprietários o que pertencia a todos antes que fosse privatizado.

Podem parecer proposições utópicas, sem condições reais de implementação, mas recentemente, em vários países, a nacionalização de empresas, mesmo com seus problemas e contradições, tornou possível ao Estado reforçar seu controle sobre setores estratégicos como eletricidade, telefonia, indústria petrolífera, entre outras.

Em alguns casos, para evitar confrontos com grandes empresas, o governo criou novas companhias nestas mesmas áreas e, ao atuar no mercado, pressionou os preços para baixo, reduzindo as margens de lucro. Na Venezuela, a rede estatal de supermercados MERCAL, operando há cerca de um ano, já conquistou entre 35% e 40% do mercado de alimentos básicos.

Para novos projetos de desenvolvimento são necessárias novas estruturas, outros mecanismos pelos quais as sociedades, as nações, os trabalhadores empobrecidos, possam reconquistar o direito de decidir sobre seu próprio destino. É aqui que entra o debate sobre a reforma do Estado na perspectiva da radicalização de democracia.

De fato, existem muitas sementes de uma verdadeira democracia, democracia direta, democracia nas comunidades, democracia participativa. Essas experiências traduzem, em termos concretos, a proposta de controle social sobre políticas públicas. Elas podem muito bem inspirar um movimento pela reforma política, uma verdadeira refundação democrática, como ocorreu recentemente na Bolívia e no Equador.

O propósito de consolidar um Estado com força no plano da economia, da cultura, da política, é o de construir um escudo de proteção para os movimentos sociais e para a cidadania na sua busca pelo bem-viver. Porque o melhor meio de resistir ao neoliberalismo é pela consolidação dos movimentos sociais. E os jovens precisam ser mobilizados para perseguirem esta cidadania
.

Entendendo os motivos escusos de uma minoria de especuladores neoliberais que causaram a atual crise econômica mundial




Controlar mercado e aumentar salários é a saída para crise, diz economista

Folha de São Paulo

Eleonora de Lucena

A crise atual é fruto do mercado financeiro, não de governos mal comportados. O que está havendo é um sucessivo estouro de bolhas, e os governos deveriam ampliar seus deficits, não cortá-los. Para isso, os políticos precisam se emancipar de Wall Street.

A visão é de Heiner Flassbeck, 60, diretor da Divisão de Globalização e Estratégias de Desenvolvimento da Unctad (Conferência da ONU para o Comércio e Desenvolvimento). Para o economista, que foi vice-ministro de Finanças da Alemanha (1998-1999), a recessão de agora pode ser pior e seguir o formato da japonesa.

Para ele é essencial enxugar o mercado financeiro e lembrar uma coisa simples: "os salários são o componente mais importante para a demanda privada e o capitalismo não funciona sem aumento do salário dos trabalhadores".

Flassbeck, professor da Universidade de Hamburgo, que classifica como ridículas as agências de risco, estará no Brasil na próxima semana para um seminário promovido pelo Centro Internacional Celso Furtado.

Folha - Como o sr. avalia o rebaixamento dos EUA pela S&P?

Heiner Flassbeck -¬ Essas agências de risco estão ficando cada vez mais ridículas. No final, se pode dizer que o mundo todo está indo à bancarrota, contra Vênus, Marte, a Lua. O maior, o mais importante e o mais sólido Estado do mundo sob perigo de quebra! Então tudo pode quebrar! E daí? O que isso muda? É ridículo.

E por que as agências são tão valorizadas?

Não sei, porque a maioria das pessoas é maluca (risos). Algumas pessoas nas agências de risco decidem sobre o destino da economia mundial. Como se pode tomar isso seriamente? Estamos indo para uma recessão e o que precisamos é de deficits maiores para os governos, para que possamos sair da recessão. E para as agências não se pode fazer essa coisa razoável. O que fazer então? Não se deve acreditar em Deus, mas nas agências de classificação de risco e fazer o que elas pedem, mesmo que seja tolo? É uma piada, mas muitas pessoas levam a sério.

Os governos deveriam rebaixar as agências?

Sim, eles deveriam dizer: "esqueçam isso, essas pessoas ridículas". [O presidente dos EUA, Barack] Obama deveria ter dito que não se importa nenhum pouco com essas pessoas ridículas das agências de risco.

Qual a verdadeira natureza da crise atual?

Os mercados produzem bolhas e, em certo momento, todas as bolhas explodem. Nós temos uma economia de bolhas. A economia cresce porque temos essas bolhas, não o contrário. Não há bolhas por causa do crescimento, mas há crescimento por causa das bolhas.

Nada mudou nos mercados financeiros desde a crise de 2008, mas todos estavam felizes por causa da aparente recuperação; os bancos estavam tendo lucro novamente. Mas todos os lucros dos bancos, pelo menos nos países industrializados, eram apenas resultado das novas bolhas.

O que acontece agora e que há um grande perigo de que todas as novas bolhas --de commodities, moedas, ações, patrimônio-- estourem em algum momento e os bancos ficarão com a mesma dificuldade de 2008.

O problema está ficando pior?

Está ficando pior, pois agora todos os governos estão tentando reduzir os seus deficits, 15% a 20% maiores em comparação com a última crise. Por isso será mais difícil para eles lutar contra uma nova recessão. Assim, há um nervosismo maior.

A turbulência tem a ver apenas com o medo de recessão?

Há um grande perigo de uma recessão mundial. Nos EUA, na Europa e no Japão (60% a 70% do PIB mundial) não temos recuperação sustentável: o emprego está estagnado, os salários não estão subindo, então não há consumo privado, e todos querem exportar. O resto do mundo não consegue crescer em ritmo suficiente para absorver essas exportações. Não funciona.

Nos últimos 30 anos a agenda neoliberal nos fez acreditar que tudo deveria ser flexibilizado: o mercado de trabalho, o sistema inteiro. Mas agora está tudo tão flexível que, quando o desemprego cresce como EUA e os salários caem, a economia não se recupera. Essa nova flexibilização vai matar a economia de mercado.

E qual é saída?

É preciso fazer uma forte regulação nos mercados financeiros: não permitir que os bancos façam o jogo de apostas de cassino, forçar os bancos a fazerem investimentos reais. Precisamos de um sistema monetário global totalmente diferente, no qual as moedas não sejam determinadas pelo mercado. Precisamos de uma nova regulamentação global para as commodities, na qual os seus preços não sejam mais determinados pelo mercado financeiro.

Os bancos manipulam preços de commodities e de moedas, como o real, nos mercados financeiros para ganhar dinheiro nos próximos dois, três anos. Não estão interessados em crescimento de longo prazo. Isso precisa ser mudado.

Por que os governos não fazem nada a respeito?

Muitos políticos não entendem o que realmente está acontecendo. Acham que gestores de bancos possam ser conselheiros de políticos. Isso não funciona. Os políticos precisam se emancipar disso. Precisamos de uma geração diferente de políticos, que não dependa do dinheiro de Wall Street e que pense no melhor para a população.

Os mercados estão forçando um novo resgate com dinheiro público, socialização das perdas?

Com a situação política nos EUA, é muito difícil imaginar que eles fariam um novo resgate. O governo está totalmente bloqueado pelo Congresso. Muitos governos vão hesitar em salvar os bancos. Por isso essa recessão pode ser pior e mais profunda do que a anterior.

O cenário mais provável talvez seja o de uma recessão japonesa, com estagnação geral, deflação. Demorará mais até que os governos comecem a entender que eles não podem continuar salvando e salvando. Mas que devem levar em conta o que acontece na economia real. A ideologia dominante diz que os governos são ruins e os mercados são bons. E, enquanto se acreditar nessa coisa primitiva, não vai funcionar

E os países em desenvolvimento?

Até estão indo bem, crescendo, mas não têm tamanho suficiente para tirar o mundo do atoleiro. Eles dependem dos países industrializados também. Podemos ir para uma fase longa de estagnação e deflação como o Japão nos últimos 20 anos. É o maior perigo.

Uma recessão pior do que a de 1929?

Eu não diria pior, mas pelo menos comparável. Da última vez, a recessão foi contida por causa da reação rápida dos governos. Mas agora não se pode esperar muito das políticas monetárias. Precisa ser do lado da política fiscal, mas ela está bloqueada politicamente. Isso é que deixa a situação tão difícil. Veja o Japão nos últimos 20 anos: sempre que o governo tentou cortar o deficit, a crise se aprofundou e o deficit aumentou. Assim, o Japão alcançou a maior dívida pública do mundo: mais de 200% do PIB.

Essa recessão seria mais parecida com a 1929 ou com a do final do século 19, que significou a queda do Reino Unido e a ascensão dos EUA e da Alemanha?

Mais com 1929, pois estamos em perigo de fazer o mesmo erro, cortando gastos públicos no meio de uma recessão.

Mas há economistas ortodoxos que argumentam que os governos deveriam cortar o deficit, que a crise significa o fim de uma era de keynesianismo?

Keynes foi recém recuperado e agora estão ansiosos por matá-lo novamente. Por isso eles chamam a crise, que foi claramente causada pelos mercados financeiros internacionais e não pelos governos, de "crise da dívida dos governos", "crise da dívida". Não tem nada a ver com crise da dívida. Os governos pagaram alguns jogadores absolutamente irresponsáveis do mercado financeiro e por isso a dívida dos governos é maior do que há cinco anos. Não há outra razão, não há mau comportamento de governos.

Está claro que economistas ortodoxos não gostam da ideia de que os mercados não tiveram um bom comportamento, que fizeram coisas erradas, porque os mercados são Deus e estão sempre certos. Eles vêm com a explicação de que é só problema dos governos, não tem nada a ver com os mercados, que não existe mau comportamento dos mercados, que a culpa é só dos governos. É uma luta ideológica contra os governos. Querem trazer os governos para baixo, enriquecer eles próprios, sei lá. Não tem nada a ver com pesquisa acadêmica séria.

O que o capitalismo pode fazer para gerar crescimento no mundo?

A coisa mais simples e mais crucial é que os salários médios das pessoas, dos trabalhadores precisam subir em linha com a produtividade da economia. É uma regra simples, que não é seguida em muitos países. Não foi seguida na América Latina no passado; hoje está melhor. Na Ásia eles entenderam isso, e os salários estão crescendo. Mas na Europa, nos Estados Unidos e no Japão, os salários não estão crescendo. Isso não funciona, os salários são o componente mais importante para a demanda privada. O capitalismo não funciona sem aumento do salário dos trabalhadores.

O tamanho sistema financeiro nos próximos anos deve ficar menor?

O sistema financeiro precisa encolher. É a grande tarefa que os políticos têm: encolher o sistema financeiro para um tamanho que seja razoável, que tenha relação com a economia e que tire o sistema do cassino.

Qual sua avaliação do movimento no mercado europeu de no nesses dias?


O BCE (Banco Central Europeu) fez uma coisa razoável, comprando títulos italianos e espanhóis. Mas isso não pode ser feito por muito tempo. No longo prazo, a única solução para a Europa é que a inflação alemã e os salários subam mais e as outras inflações declinem, fazendo com que o grande desnível entre competitividades dos dois grupos de países diminua no decorrer do tempo.

Como está a situação na Europa?

Ainda não resolvemos o problema principal da zona do euro que é a diferença de inflação entre a Alemanha e os países do sul da Europa. A Alemanha se recusa a aceitar que esse é o principal problema por razões políticas. Sou cético que de haja uma solução. Mais países vão entrar em dificuldades Itália e Espanha estão estagnadas, e se pede cortes de gastos governamentais. É maluco.

Se não há crescimento e o governo corta gastos e aumenta impostos isso leva à recessão. A Grécia não reduziu o deficit não porque não desejava, mas porque entrou numa recessão muito mais profunda do que o esperado. As receitas de impostos caíram e o deficit não pode ser reduzido.

Muitos dizem que a Itália e a Grécia gastaram de mais e, por isso, estão sendo punidas. Qual sua visão?

A moeda na Europa tem uma regra simples: é que todos devem ter a mesma inflação de 2%. Mas nos últimos dez anos a Alemanha teve uma inflação de 1%, e Espanha, Portugal, Grécia, Itália tiveram uma inflação em torno de 2,5%. Quem fez certo e quem fez errado? Alguns viveram acima, outros abaixo da meta. Não há como culpar um lado. A Alemanha violou a meta de 2% mais do que Grécia, Espanha, Portugal e Itália. Isso não é discutido seriamente porque a Alemanha faz um jogo de poder contra os outros países e tenta impedir essa discussão.

Qual sua visão do Brasil?

Acho que o Brasil está muito melhor agora do que em recuperações anteriores. Os salários estão crescendo. O que continua sendo um problema é a taxa de juros muito alta e a valorização do real é um grande perigo. Mas não há como culpar o Brasil: é o jogo do poder.

O que a existência espera....



"Até onde conseguimos discernir, o único propósito da existência humana é acender uma luz na escuridão da mera existência."
Carl Gustav Jung (1875-1961)

Não se deixe abater pelas trevas da ignorância dominante



“Não há noite tão longa que não acabe por encontrar o dia”.

William Shakespeare

As paisagens da Alma...



“A alma é uma paisagem.
As paisagens da alma não podem ser comunicadas.
Quando mais fundo entramos nas paisagens da alma,
mais silenciosos ficamos”.


Rubem Alves

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

Gattaca - a experiência genética



  "A Eugenia – ou a tentativa de “purificação” e “aperfeiçoamento” genético da espécie humana, através de processos e técnicas artificiais de laboratório – e suas consequências ético-sociais são os temas deste filme. Também está implícito os problemas correlatos, como a alienação, a massificação do homem e a implementação do total controle social com o fim da ética, entendida como mero empecilho contrário aos interesses de poderosas multinacionais detentoras do controle político e econômico."



Texto de
Carlos Antonio Fragoso Guimarães

GATTACA - A Experiência Genética (1997)


Um Filme de Andrew Niccol


“Não existe um gene para o Espírito Humano”

Epígrafe do filme

Obs.: Ao final do texto, há o link para assistir ao filme completo no Youtube

 I - Foco do Filme


  A Eugenia – ou a tentativa de “purificação” e “aperfeiçoamento” genético da espécie humana, através de processos e técnicas artificiais de laboratório – e suas consequências ético-sociais são os temas deste filme. Também está implícito os problemas correlatos, como a alienação, a massificação do homem e a implementação do total controle social com o fim da ética, entendida como mero empecilho contrário aos interesses de poderosas multinacionais detentoras do controle político e econômico.

  O enredo aponta para perigo de o avanço da ciência se traduzir em possibilidades concretas, a partir da própria geração de seres humanos, dos mais profundo controle social em nome do “progresso”. Pessoas serão “planejadas”, “fabricadas” e “construídas” por manipulação genética direta, atendendo a “metas” e “objetivos” de antemão estabelecidos, em uma aguda vigência de determinações de controle social e de exploração absoluta do homem e da natureza, ambos transformados em “máquinas” e “mercadorias”. A ênfase crítica do filme contra a aberração econômico-cientificista é também exposta pela presença no elenco de ninguém menos que o escritor e ativista social Gore Vidal, no papel do Diretor Josef, das empresas Gattaca.


 II - Sinópse do Filme


  A história do filme se dá dentro da perspectiva de dois irmãos, "Vincent" e "Anton". O primeiro foi concebido de maneira natural e o segundo foi manipulado geneticamente. Este último é considerado um “Válido”, ou um “Filho da Ciência”, enquanto o primeiro é considerado geneticamente imperfeito, um “Não Válido”, ou “Filho de Deus” – forma direta do autor e do diretor em criticar a arrogância de uma ciência pragmática, utilitarista, manipuladora de acordo com as regras de aparência da classe dominante. Ambos os irmãos carregam o nome do pai, mas ao saber do resultado genético do primogênito, o pai inclui um primeiro nome diferente no filho não tão perfeito, resguardando seu nome para um segundo filho, supostamente aperfeiçoado.O primeiro, considerado pelo sistema como sendo um Não-válido, mesmo tendo uma prédisposição natural a várias doenças, assim como uma previsão da data de sua morte para ao redor dos 30 anos, busca realizar seu sonho contra tudo e todos, trocando seu sobremone para "Freeman", ou seja, "homem livre". Vincente Freeman deseja Viajar para as estrelas e se esforça obsessivamente para tenta superar os limites impostos pelo sistema ao seu sonho. Utilizando os serviços de um “pirata genético”, Vincent clona os registros genéticos de um "Homem Perfeito", Jerome. A intenção é a de driblar as restrições de classe, se integrar na elite da corporação Gattaca e realizar seu maior sonho: ir para o planeta Titã, satélite de Júpiter, psicologicamente um retorno às origens (em uma alegoria da fuga do sistema).

Temas-chave: cientificismo, mecanicismo, técnica e tecnologia, alienação, capital,eugenia, medicina.

Filmes com temáticas relacionadas: “Blade Runner”, de Ridley Scott; “Matrix”, dos Irmãos Wachowski; “A Laranja Mecânica”, de Stanley Kubrick; “Equilibrium”, de Kurt Wimmer; “Metropólis”, de Fritz Lang; “2001-Uma Odisséia no Espaço”, de Stanley Kubrick; “Sicko”, de Michael Moore.




https://www.youtube.com/watch?v=vv4-9bJwJRE

Elenco

· Ethan Hawke (Vincent Freeman / Jerome Morrow)

· Uma Thurman ( Irene Cassini)

· Jude Law (Jerome Eugene Morrow)

· Gore Vidal (Diretor Josef)

· Xander Berkeley (Lamar)

· Jayne Brook (Marie)

· Elias Koteas (Antonio)

· Maya Rudolph (Enfermeira)

· Una Damon (Enfermeira-chefe)

· Blair Underwood (Geneticista)

· Ernest Borgnine (Caesar)

· lan Arkin (Detetive Hugo)

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

Criticando a Homofobia em nome de Deus



O famoso filósofo, sociólogo e teólogo Frei Betto fez uma lúcida análise do problema da homofobia nos meios religiosos. O preconceito e a falta de caridade de líderes de terno e gravata com a Bíblia na mão é notório.

Segue a seguir o texto de Frei Betto sobre o tema, que lhe valeu, da poderosa ala evangélica de algumas assembléias, diversas notas de protesto... Mas a caravana passa, apesar dos latidos...



OS GAYS E A BÍBLIA


Frei Betto



É no mínimo surpreendente constatar as pressões sobre o Senado para evitar a lei que criminaliza a homofobia. Sofrem de amnésia os que insistem em segregar, discriminar, satanizar e condenar os casais homoafetivos.


No tempo de Jesus, os segregados eram os pagãos, os doentes, os que exerciam determinadas atividades profissionais, como açougueiros e fiscais de renda. Com todos esses Jesus teve uma atitude inclusiva. Mais tarde, vitimizaram indígenas, negros, hereges e judeus. Hoje, homossexuais, muçulmanos e migrantes pobres (incluídas as “pessoas diferenciadas”...).


Relações entre pessoas do mesmo sexo ainda são ilegais em mais de 80 nações. Em alguns países islâmicos elas são punidas com castigos físicos ou pena de morte (Arábia Saudita, Irã, Emirados Árabes Unidos, Iêmen, Nigéria etc).


No 60º aniversário da Declaração Universal dos Direitos Humanos, em 2008, 27 países membros da União Europeia assinaram resolução à ONU pela “despenalização universal da homossexualidade”.


A Igreja Católica deu um pequeno passo adiante ao incluir no seu Catecismo a exigência de se evitar qualquer discriminação a homossexuais. No entanto, silenciam as autoridades eclesiásticas quando se trata de se pronunciar contra a homofobia. E, no entanto, se escutou sua discordância à decisão do STF ao aprovar o direito de união civil dos homoafetivos.


Ninguém escolhe ser homo ou heterossexual. A pessoa nasce assim. E, à luz do Evangelho, a Igreja não tem o direito de encarar ninguém como homo ou hétero, e sim como filho de Deus, chamado à comunhão com Ele e com o próximo, destinatário da graça divina.


São alarmantes os índices de agressões e assassinatos de homossexuais no Brasil. A urgência de uma lei contra a homofobia não se justifica apenas pela violência física sofrida por travestis, transexuais, lésbicas etc. Mais grave é a violência simbólica, que instaura procedimento social e fomenta a cultura da satanização.


A Igreja Católica já não condena homossexuais, mas impede que eles manifestem o seu amor por pessoas do mesmo sexo. Ora, todo amor não decorre de Deus? Não diz a Carta de João (I,7) que “quem ama conhece a Deus” (observe que João não diz que quem conhece a Deus ama...).


Por que fingir ignorar que o amor exige união e querer que essa união permaneça à margem da lei? No matrimônio são os noivos os verdadeiros ministros. E não o padre, como muitos imaginam. Pode a teologia negar a essencial sacramentalidade da união de duas pessoas que se amam, ainda que do mesmo sexo?


Ora, direis ouvir a Bíblia! Sim, no contexto patriarcal em que foi escrita seria estranho aprovar o homossexualismo. Mas muitas passagens o subtendem, como o amor entre Davi por Jônatas (I Samuel 18), o centurião romano interessado na cura de seu servo (Lucas 7) e os “eunucos de nascença” (Mateus 19). E a tomar a Bíblia literalmente, teríamos que passar ao fio da espada todos que professam crenças diferentes da nossa, como está em textos de Moisés de há mais de três mil anos, e, aceitando a letra que mata ao invés do espírito que vivifica, odiar literalmente pai e mãe para verdadeiramente seguir a Jesus.


Há que passar da hermenêutica singularizadora para a hermenêutica pluralizadora. Ontem, a Igreja Católica acusava os judeus de assassinos de Jesus; condenava ao limbo crianças mortas sem batismo; considerava legítima a escravidão e censurava o empréstimo a juros. Por que excluir casais homoafetivos de direitos civis e religiosos?


Pecado é aceitar os mecanismos de exclusão e selecionar seres humanos por fatores biológicos, raciais, étnicos ou sexuais. Todos são filhos amados por Deus. Todos têm como vocação essencial amar e ser amados. A lei é feita para a pessoa, insiste Jesus, e não a pessoa para a lei.


Frei Betto é escritor e assessor de movimentos sociais, autor de “Um homem chamado Jesus” (Rocco), entre outros livros
.

domingo, 7 de agosto de 2011

Um erro evolutivo....



O homem se julga o Rei e o ápice da evolução, um ser racional... Mas seus atos dizem outra coisa, como está muito bem foi expresso neste desenho...

sábado, 6 de agosto de 2011

A Globo incitando uma crise



Extraído do site "Tijolaço", de Brizona Neto

A Globo volta a ser vivandeira de quartel?

Nos anos 60, chamava-se assim aos políticos da UDN que andavam peregrinando pelos quartéis para incitar os militares ao golpe, que os udenistas contavam iria dar-lhes o poder que não obtinham no voto.

Temos agora, ao que tudo indica, as neovivandeiras, que buscam inventar uma inexistente crise militar.

É, ao menos, o que se depreende do post do jornalista Rodrigo Vianna, o Escrevinhador, que conhece bem os mecanismos de fabricação de notícias em nossas redações:

“Acabo de receber a informação, de uma fonte que trabalha na TV Globo: a ordem da direção da emissora é partir para cima de Celso Amorim, novo ministro da Defesa."

O jornalista, com quem conversei há pouco por telefone, estava indignado: “é cada vez mais desanimador fazer jornalismo aqui”. Disse-me que a orientação é muito clara: os pauteiros devem buscar entrevistados – para o JN, Jornal da Globo e Bom dia Brasil – que comprovem a tese de que a escolha de Celso Amorim vai gerar “turbulência” no meio militar. "Os repórteres já recebem a pauta assim, direcionada: o texto final das reportagens deve seguir essa linha. Não há escolha.”

(…)passada a lua-de-mel com Dilma, a ordem na Globo é partir pra cima. Eliane Cantanhêde também vai ajudar, com os comentários na “Globo News”. É o que me avisa a fonte. “Fique atento aos comentários dela; está ali para provar a tese de que Amorim gera instabilidade militar, e de que o governo Dilma não tem comando”.

Detalhe: eu não liguei para o colega jornalista. Foi ele quem me telefonou: “rapaz, eu não tenho blog para contar o que estou vendo aqui, está cada vez pior o clima na Globo.”

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

O perigo do fundamentalismo e fanatismo dos que se dizem "cristãos"



Carlos Antonio Fragoso Guimarães

Extremismos sempre existiram, em todas as áreas. Posicionamentos radicais muitas vezes resultam do medo e do desespero: do medo à liberdade de assumir os próprios atos, preferindo a acomodação de que alguém ou alguma instituição lhes dite o que deve ser feito, e do desespero de, por vezes, se sentir em um mundo que parece hostil ou que entenda as diferenças de cultura e de opiniões como potencialmente perigosas de suas frágeis certezas.

O extremismo religioso é o mais debatido hoje em dia, mas não é o único. Existem também o extremismo econômico (que, atualmente, no seu discurso neoliberal está levando ao desemprego, à poluição, à retirada de direitos sociais, à falência de países inteiros, como a Grécia) e que foi criticado por Chaplin já nos anos 30 do século passado em seu filme Tempos Modernos. Há também extremismo racionalista pragmático, ligado ao político, e que é homogenizador, tecnocrático, que desacredita do singular, do afetivo, do poético, e que foi duramente criticado em filmes como A Laranja Mecânica, Matrix, Gattaca e Equilibrium.

Mas o resultado destes outros extremismos parece ser o estímulo à corrida ao fundamentalismo religioso. Este resulta de uma adesão irracional a uma interpretação literal dos textos considerados sagrados e que, portanto, ao invés de serem lidos e contextualizados, buscando extrair deles os elementos humanistas e espiritualistas que permitam o crescimento individual e coletivo (lembremos da civilização ocidental cristã e das tradições orientais), são aceitos na sua crueza literal (muitas veze em traduções que foram truncadas ao longo do tempo), em uma espécie de embriaguez exclusivista, pois o "meu Deus" é o correto enquanto o de "vocês" é errado e precisa ser erradicado... Dirá Frei Betto em seu texto O Fundamentalismo Cristão que "Para o fundamentalista, a letra da lei vale mais que o Espírito de Deus. E a doutrina religiosa está acima do amor."

O fundamentalista pode até posar de defensor da liberdade de expressão, especialmente a deles, para atacar os diferentes, mas logo mexem seus títeres para abafar a expressão de quem, muitas vezes com fundamento, os criticam.

Frequentemente o fundamentalista se acerca da política. Esta é vista como meio e instrumento de imposição de suas verdades.

O século XXI começou com um retrocesso e uma marca sangrenta eminentemente fundamentalista: Bush e Bin Laden deram o tom da primeira década, e agora, um fundamentalista norueguês atrelado à extrema Direita faz da morte e da destruição instrumento para, em nome de Deus, propagar a exterminação dos diferentes.

Diz Frei Betto no texto citado:

"Todo fundamentalista é, a ferro e fogo, um “altruísta”. Está tão convencido de que só ele enxerga a verdade que trata de forçar os demais a aceitar o seu ponto de vista... para o bem deles!"

A ânsia messiânica (ou virótica) do fundamentalista parece se fortalecer quanto mais consegue converter as pessoas à sua "verdade", daí a imensa obsessão em se impor, qualquer que seja os meios. Quanto mais falam, mas tentam calar a razão e os argumentos de quem não pensam como eles.

Hoje, o Brasil está sendo tomado pelo fundamentalismo evangélico de estilo pentecostal, espetaculoso e imediatista, para não dizer materialista. Edir Macedo, Silas Malafaia, R. R. Soares e tantos outros constroem impérios econômicos explorando a fé do homem simples. Eventos como um tal de Encontro para a Consciência Cristã foi formulado, com a ajuda dos políticos envagélicos, para destroçar eventos de ecumenismo e diálogo interreligioso denocrático, como é o Encontro para a Nova Consciência, realizado em Campina Grande, Paraíba, na época do Carnaval. Ameaças e mesmo violência são aplicados por fundamentalistas no Brasil contra católicos, espíritas, budistas, umbandistas e outros e a situação tende a piorar. Até antigos teatros, cinemas e clubes, à exemplo da ASUFEP que pertencia à recreação e socialização dos servidores da Universidade Federal da Paraíba e que foi vendido pela incompetência de um ex-professor da UFPB, estão sendo transformados em centros de lavagem cerebral coletiva, a partir de certos modelos (veja-se o dócumentário "Jesus Camp") importado dos EUA.

De fato, a corruptela interpretativa literalista, exclusivista e descontextualizada de muitos fundamentalistas, especialmente os cristãos pentecostais midiáticos, não escapou ao senso mesmo de muitos teólogos evangélicos. Um exemplo conhecido é dado pelo pastor Ed René Kivtz que narra suas críticas ao fundamentalismo religioso midiático dos pentecostais em "O Evangelho dos Evangélicos" (facilmente encontrado na internet em áudio e em texto). Deste trabalho destaco a seguinte passagem:

"Estou convencido de que um é o evangelho dos evangélicos, outro é o evangelho do reino de Deus. Registro que uso o termo “evangélico” para me referir à face hegemônica da chamada igreja evangélica, como se apresenta na mídia radiofônica e televisiva.

"O evangelho dos evangélicos é estratificado. Tem a base e tem a cúpula. Precisamos falar com muito cuidado da base, o povo simples, fiel e crédulo. Mas precisamos igualmente discernir e denunciar a cúpula. A base é movida pela ingenuidade e singeleza da fé; a cúpula, muita vez é oportunista, mal intencionada, e age de má fé. A base transita livremente entre o catolicismo, o protestantismo e as religiões afro. A base vai à missa no domingo, faz cirurgia em centro espírita, leva a filha em benzedeira, e pede oração para a tia que é evangélica. Assim é o povo crédulo e religioso. Uma das palavras chave desta estratificação é “clericalismo”: os do palco manipulando os da platéia, os auto-instituídos guias espirituais tirando vantagem do povo simples, interesseiro, ignorante e crédulo."


Veja-se que, portanto, a crítica ao perigo do fundamentalismo dito "cristão" se faz dentro das próprias igrejas, de várias denominações.

É ainda Frei Betto que nos esclarece:

"Reforçam o fundamentalismo cristão todos os que são indiferentes ao diálogo inter-religioso e consideram a sua igreja como a única verdadeira intérprete dos mandamentos e da vontade divinos. Por isso, é importante estabelecer os critérios éticos que propiciam a base sobre a qual as diferentes igrejas e religiões devem dialogar e somar esforços. São eles: a ética da libertação num mundo dominado por múltiplas opressões; a ética da justiça nessa realidade estruturalmente injusta; a ética da gratuidade nessa cultura mercantilista onde imperam o interesse e o negócio; a ética da compaixão num mundo marcado pela dor de tantas vítimas; a ética da acolhida, já que há tantas exclusões à nossa volta; a ética da solidariedade numa sociedade fortemente competitiva; a ética da vida num mundo ameaçado pelos sinais de morte na natureza e nos pobres.

"O fundamentalismo é irmão gêmeo do moralismo. E o moralista é capaz de ver o mosquito no olho alheio, como observou Jesus, sem atinar para a trave no próprio olho. No caso de certos políticos imperiais, quem sabe a solução para a paz seja considerar a guerra um atentado ao pudor..."


Ainda é tempo de despertar para uma espiritulidade sadia, dialógica e compreensiva. Do contrário, iremos céleres para uma nova Idade das Trevas, com uma teocracia de interesse de alguns em detrimento da paz e liberdade espiritual de milhões.