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quinta-feira, 30 de janeiro de 2020

A geopolítica do capital: pré-sal na mira dos EUA e a grande ajuda que a Lava Jato lhes deu para tomá-lo do Brasil




Como o pretexto (e seletividade) da luta anticorrupção virou instrumento da geopolítica norte-americana, uma arma mais eficiente do que as intervenções militares convencionais
Por Luis Nassif e Cintia Alves, do GGN
O atentado de 11 de setembro de 2001 mudou a história e a doutrina de segurança dos Estados Unidos.
Desde o fim da União Soviética, o governo norte-americano acreditava ter entrado em uma era de controle total sobre os concorrentes.
De repente, com o ataque às Torres Gêmeas e ao Pentágono, a sensação de invulnerabilidade começou a desmoronar.
O episódio representou uma ruptura no sistema de relações internacionais, forjando um realinhamento dos Estados Unidos em relação à ordem global.
O governo então passou a exercer uma marcação maior sobre transações financeiras e intensificou as ações políticas e a cooperação jurídica com outros países.
A toque de caixa, eles aprovaram um novo plano nacional de segurança.
“Eu dizia que os EUA estavam agindo como um império, pela força, pela independência, pela reação sem levar em consideração regras internas e regras internacionais. E realmente, naquele momento, acho que nunca houve na história da humanidade nenhum País que concentrasse tanto poder. Não tinha outra potência fazendo contraste. Eram os EUA que faziam tudo para assegurar sua segurança”, afirmou o ex-embaixador do Brasil em Washington, Rubens Barbosa.
“Na doutrina de segurança norte-americana que foi passada logo em seguida tinha um parágrafo que dizia que os EUA farão qualquer coisa para impedir que uma outra nação se aproximasse do poderio americano”, acrescentou.
O Departamento de Segurança Interna, o DHS, e a Agência de Segurança Nacional, a NSA, foram encarregados de preparar o País contra novas ameaças.
Juntos, eles formam o núcleo de proteção cibernética dos Estados Unidos.
Com orçamento estimado em 8 bilhões de dólares, a NSA surgiu na década de 1950, para fazer espionagem eletrônica dentro e fora dos Estados Unidos, em continuidade ao trabalho desenvolvido a partir da Segunda Guerra Mundial.
Já o DHS começou com um orçamento 5 vezes maior. Foi criado em 2002, justamente para coordenar o serviço de inteligência depois do fracasso em prevenir os atentados de 11 de setembro.
Com o tempo, ficou evidente que essa grande estrutura de combate à corrupção era capaz de operar como um instrumento geopolítico. Sobretudo porque o papel de polícia mundial incorporado pelos Estados Unidos começou a esbarrar na soberania de outras nações.
Historicamente, o governo norte-americano tem invadido países em guerras armadas. Essas guerras se tornaram cada vez mais caras e ineficazes. Mas nesse contexto existiam poucos recursos para que eles pudessem interferir nas grandes disputas comerciais, a não ser que fosse apoiando golpes de Estado em favor de aliados.
A soberania nacional impedia qualquer atuação mais decisiva em favor dos interesses das companhias norte-americanas. Pois cada País deveria julgar os crimes cometidos por suas empresas e cidadãos.
Uma primeira brecha para subverter esse processo interno foi aberta a partir da criação de uma corte internacional para julgar crimes contra a humanidade, uma pauta humanitária legítima.
Em cima dessa brecha, surgiu a Convenção Anti-Suborno da OCDE, na qual os Estados Unidos pressionaram para que os países membros se comprometessem com o combate aos crimes de colarinho branco.
“Me parece que a ideia está correta, mas houve também uma deturpação. E hoje, tanto a FPCA como também essas leis que foram criadas supostamente para o combate à corrupção e ao suborno, estão sendo hoje utilizadas para a prática de lawfare, seja para fins geopolíticos, políticos e também comerciais”, avaliou o advogado Cristiano Zanin.
Assim os Estados Unidos montaram a parte central da nova estratégia geopolítica:
Com a NSA e o Departamento de Segurança Interna, teceram a maior rede de inteligência e espionagem do planeta.
Com a profusão de leis anticorrupção impulsionada pela Convenção da OCDE, ganharam poder para punir empresas estrangeiras através de um conceito bastante elástico. Bastava alegar que o dinheiro investigado, em algum momento, transitou por um banco nos Estados Unidos ou prejudicou um cidadão norte-americano.
Para colocar o bloco anticorrupção nas ruas, o Departamento de Justiça, o DOJ, passou a assinar acordos de cooperação com o Ministério Público em diversos países, especialmente da América Latina.
Rapidamente, ocorreu a cooptação de procuradores, juízes e delegados federais, instituindo uma parceria informal.
A forma de cooptação era simples: os procuradores ganhavam poder com as informações repassadas pelo DOJ sobre corrupção política em seus países. Depois, montavam denúncias contra grandes corporações nacionais que disputavam o mercado global.
Mais tarde, esses mesmos procuradores poderiam integrar grandes escritórios de advocacia e usufruir da indústria do compliance, sobre a qual falaremos nos próximos capítulos.
Nesse modelo, bastava ao DOJ direcionar as investigações para países ou empresas que, de alguma maneira, afrontam os interesses dos Estados Unidos. É só oferecer aos procuradores aliados o prato pronto, com os dados que alimentam as investigações.
Ex-procurador do DOJ, o advogado William Burck esteve no Brasil em maio de 2019 e admitiu que “não há a menor dúvida” de que os Estados Unidos usam o combate à corrupção como “um instrumento de política externa.”
No caso da Lava Jato, ele declarou que os procuradores brasileiros “trouxeram a raposa para tomar conta do galinheiro.”
Burck ainda citou na entrevista ao site Consultor Jurídico uma máxima cravada na história de seu País: “O negócio dos Estados Unidos é fazer negócio. O governo sempre vai querer garantir que as empresas americanas estejam bem onde quer que estejam. Eles querem sempre proteger seus negócios.”
E encontraram na Lava Jato os melhores parceiros que poderiam conseguir, pois em nenhum momento os agentes brasileiros manifestaram publicamente a menor preocupação com os interesses nacionais.
“As empreiteiras brasileiras eram a grande arma, instrumento de projeção do Brasil na África e América Latina. Você queimou todo esse canal de influência para abrir espaço para chinesas e empreiteiras do mundo inteiro. Quem vai para a África são as indonésias, tailandesas, turcas, gregas. Eles vão dar comissão também na África. Sai ‘nós’, entram outras. Que vantagem tem para o Brasil isso? Perdemos tudo isso porque a cruzada moralista liquidou com isso.”
Essa cruzada moralista merece um comentário à parte, porque não é apenas o governo dos Estados Unidos que usa a luta contra a corrupção em benefício próprio.
Ao longo das últimas décadas, grandes empresários passaram a injetar muito dinheiro na campanha eleitoral de políticos e na formação de jovens lideranças ao redor do mundo.
Magnatas do petróleo como os irmãos Koch, ou a família Mercer – que fez fortuna no mercado financeiro – criaram institutos e fundações que operam como verdadeiros “think tanks” dos novos movimentos conservadores que cresceram no embalo das redes sociais.
Onde a democracia representativa entrou em colapso, esses bilionários encontraram espaço para uma intervenção rigorosa através dessas fundações.
Assim avançaram as militâncias digitais que, no Brasil, foram usadas na defesa incondicional da Lava Jato, no impeachment de Dilma Rousseff e na promoção de uma ampla agenda neoliberal para a economia.
O Movimento Brasil Livre é fruto dessa árvore. Seus membros passaram pelo principal programa de treinamento da academia de lideranças da Atlas Network, uma fundação  que atua em mais de noventa países, com patrocínio dos Koch.
O PRÉ-SAL NA MIRA DOS EUA
Qual foi o impacto da descoberta do pré-sal brasileiro para o Departamento de Estado?
“Foi muito maior do que se imagina. Porque há uma lógica nos EUA, de que não podem ser vulneráveis a zonas de conflitos permanente, como é no Oriente Médio. Outra coisa que também estão tentando fazer é usar petróleo de lugares mais próximos dos Estados Unidos. Então o pré-sal, nesse sentido, serial o ideal”, afirmou o advogado e consultor André Motta Araújo.
O pré-sal foi talvez o melhor campo para os Estados Unidos fazerem uso da chamada guerra híbrida, uma estratégia militar que une táticas de guerra convencional e ciberguerra, misturando ainda fake news, lawfare e interferências no plano político-eleitoral. A Petrobras foi alvo desse tipo de artilharia.
Em 2008, a empresa foi vítima de um furto. Levaram quatro notebooks e dois HDs trancados no interior de um contêiner, com dados sigilosos sobre o pré-sal. As suspeitas eram de espionagem industrial, mas o episódio foi deixado de lado.
Nos anos seguintes, uma missão diplomática dos Estados Unidos no Brasil começou a enviar correspondências para Washington sobre a exploração do pré-sal.
Revelado pelo Wikileaks, o conteúdo das mensagens indicava que as petroleiras não gostaram nada do regime de partilha discutido ao final do governo Lula.
O fato da Petrobras ser a operadora de todos os campos transformaria as estrangeiras em meras financiadoras da prospecção, diziam seus representantes.
Havia ainda uma preocupação com o avanço da concorrência chinesa a partir do novo modelo.
Em 2013, Joe Biden, então vice-presidente dos Estados Unidos, visitou o Brasil e alguns países vizinhos, de olho no petróleo.
O governo norte-americano não escondia de ninguém que buscava aumentar sua influência na América Latina por causa do “papel estratégico” que a região representa para o futuro dos Estados Unidos na questão energética.
Biden, inclusive, disse à imprensa que os países do continente seriam os responsáveis por dois terços do crescimento do suprimento mundial de petróleo nas próximas décadas.
“A meta principal deles na América Latina, desde sempre, tem sido ter países alinhados completamente, ou mais importante, alinhados à política externa deles. É com isso que eles mais se preocupam agora”, disse o economista e pesquisador Mark Weisbrot.
“É impossível para os EUA ‘aceitar’ outra potência no hemisfério. Aí acho que tem várias coisas, tem o pré-sal aqui, e tem uma política externa que tem várias consequências. Uma integração da América do Sul, né? Eu sempre cito, tem uma capa da Economist que diz assim: ‘não é mais o quintal de ninguém’. Cê acha que… Isso para o pensamento estratégico americano é impossível”, acrescentou o ex-chanceler Celso Amorim.
“Então você tem aqui grandes reservas de petróleo. Além do interesse econômico, você ao mesmo tempo abre um canal de estratégias com os Brics, sobretudo com China e Rússia, que até hoje são os problemas centrais dos EUA, o resto é tudo secundário comparado com China e Rússia. Acho que isso mexeu com o estado profundo”, pontuou.
“E ao mesmo tempo você tem, eu acho, a partir de pelo menos 2008, 2009, uma visão de que o Brasil tinha crescido demais e era preciso cortar as asas. E aí, o que eles usam sempre, é a coisa da corrupção”, finalizou.
Em setembro de 2013, cerca de seis meses antes da primeira fase da Operação Lava Jato ser deflagrada, o mundo foi abalado pelo dossiê Snowden, que desnudou a espionagem dos Estados Unidos sobre lideranças políticas e empresas estratégicas.
A ex-presidente Dilma e a Petrobras foram vigiadas ilegalmente.
Snowden escreveu ao povo brasileiro para esclarecer a finalidade daquela violação. A carta dizia:
“A NSA e outras agências de espionagem nos dizem que, pelo bem de nossa própria ‘segurança’ – em nome da ‘segurança’ de Dilma, em nome da ‘segurança’ da Petrobras –, revogaram nosso direito de privacidade e invadiram nossas vidas.”
“Dizem que isso é feito para manter as pessoas em segurança. Estão enganados.”
“Esses programas nunca foram motivados pela luta contra o terrorismo: são motivados por espionagem econômica, controle social e manipulação diplomática. Pela busca de poder.”
“Há muito questionamento por conta de diversos países sobre a espionagem para fins comerciais, que não envolve interesse de segurança nacional, mas sim de interesse comercial. Então eles utilizam todo esse documento, esse arquivo de espionagem via FISA, que é uma corte que ninguém tem acesso, e utilizam nos autos para munição, para municiar as operações anticorrupção do FCPA, mas que na realidade visam, de alguma forma, privilegiar as empresas americanas”, explicou a advogada Valeska Teixeira.
TENTÁCULOS PELA AMÉRICA LATINA
Em julho de 2017, durante um evento promovido por um centro de lobby de Washington, Kenneth Blanco, que na época era advogado-geral adjunto do Departamento de Justiça, fez uma das mais comprometedoras revelações a respeito dos bastidores da Lava Jato.
Ao lado de Rodrigo Janot, então procurador-geral da República, Blanco escancarou que os procuradores brasileiros se comunicavam com os norte-americanos sem o acompanhamento da autoridade central, que tem o papel legal de intermediar a troca de informações e cuidar dos interesses nacionais em xeque.
Blanco não parou por aí. Ele celebrou a prisão de Lula como resultado do sucesso da cooperação internacional na Lava Jato. E de quebra, mostrou como os Estados Unidos espalharam seus tentáculos por outros países da América Latina.
A declaração de Blanco é a prova final de que os Estados Unidos conseguiram transformar os procuradores do continente em seus colaboradores, sem a necessidade de uma guerra declarada.
Hoje, esse coleguismo resulta em encontros curiosos, como o que ocorreu no final de 2019 entre Victor Laus – o desembargador que condenou Lula em segunda instância – e um “conselheiro” da embaixada dos Estados Unidos em Brasília.
O agente do governo norte-americano queria trocar figurinhas sobre como a Justiça brasileira está tratando grandes casos de corrupção, como a Lava Jato.
No final da reunião, Laus ainda afirmou que é muito importante que os Estados Unidos se aproximem dos nossos tribunais, pois isso possibilita maior “integração e articulação entre as instituições”.
“O Brasil tem sido o grande prêmio para eles. Eles perderam o Brasil depois de 2002 até 2016. Eles não tinham esse País no bolso. O Brasil é mais difícil do que, especialmente, estes outros países para os EUA conseguirem se aproximar, porque tem uma longa tradição, uma questão de tradição moderna de independência, mesmo na ditadura militar”, disse Weisbrot.
“Quando essa história for finalmente escrita, eu acho que o golpe contra Dilma, Lula e o PT, será visto como um dos mais importantes apoios dos Estados Unidos, em grande escala, a um golpe na América Latina”, finalizou.
No próximo capítulo: Como o desinteresse do governo brasileiro e da Lava Jato submeteu a Petrobras a multas bilionárias nos Estados Unidos, e ajudou na destruição da engenharia nacional.
O CAPÍTULO 4 ESTREIA EM 5/2/2020.
Assista aos episódios 1 e 2:

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segunda-feira, 7 de janeiro de 2019

Geopolítica e Fé, por José Luís Fiori




  "Dentro desse quadro de enorme complexidade econômica e geopolítica (na disputa pelo petróleo), soa absolutamente delirante, quase infantil, imaginar que está sendo travada na Venezuela uma batalha em defesa da fé cristã, e dos valores e arquétipos da civilização ocidental. Esse tipo de visão milenarista costuma reaparecer de tempos em tempos, em certas idades, e em alguns momentos da história, mas não costumam chamar atenção nem causar maiores danos coletivos enquanto se mantenham como uma fantasia individual. "




Geopolítica e Fé 
por José Luís Fiori, no GGN
While the US government is moving toward a policy of regime change in Venezuela, its action may simply lead to a prolonged standoff.
Stratfor Worldview, Daily Brief, Oct, 4, 2018

Três anos depois do início das sanções econômicas americanas contra a Venezuela, o presidente Donald Trump anunciou, numa entrevista coletiva no estado de New Jersey – concedida no dia 14 de agosto de 2017 – que os EUA poderiam fazer uma ação militar na Venezuela. E um ano depois, no dia 8 de agosto de 2018, o jornal NYT noticiou que, de fato, vários funcionários americanos já haviam se reunido com militares venezuelanos, para promover a derrubada do presidente venezuelano, Nicolás Maduro. Por outro lado, e dentro deste mesmo tabuleiro, no mesmo mês de agosto de 2018, o presidente venezuelano visitou Pequim e recebeu o apoio político e financeiro do presidente Xi Jinping, assinando 28 acordos de cooperação com a China, nas áreas de energia e mineração. 
Tais acordos alargam e aprofundam uma relação econômica de mais de uma década, que já superou a casa dos 50 bilhões de dólares emprestados ou investidos em 780 projetos econômicos financiados pelos chineses ou montados em parceria com os venezuelanos. Paralelamente, o presidente Maduro visitou e foi recebido na cidade de Moscou como um “aliado estratégico” da Rússia, com quem assinou acordos de investimento, no valor de R$ 6 bilhões de dólares, destinados aos setores de petróleo e mineração de ouro. 
Não há dúvida, no entanto, de que esse “conflito anunciado” mudou de qualidade, no dia 10 de dezembro do ano passado, quando aterrissaram no aeroporto internacional de Caracas dois bombardeiros estratégicos Tu-160, um avião de transporte militar An124 e uma aeronave Il-62, da Força Aeroespacial da Rússia, para participar de exercícios militares conjuntos com as forças venezuelanas. Nesse momento, com toda certeza, a Venezuela mudou de posição no cenário internacional e passou a ocupar outro lugar, muito mais importante, na competição entre as três grandes potências que lutam pelo poder global neste início do século XXI.
Uma disputa aberta e sem fim previsível que se acelerou na segunda década do século, depois da posse de Vladimir Putin e Xi Jinping, em 2012 e 2013, respectivamente, e ainda mais, depois da posse de Donald Trump, em janeiro de 2017. Como todos os analistas já entenderam, Donald Trump abandonou a velha política norte-americana de apoio e promoção ativa de regras e instituições de governança multilateral e adotou, como bússola de sua política externa, o modelo westfaliano de solução dos conflitos mundiais, através da competição e do uso agressivo do poder econômico como arma de guerra, e o uso permanente da ameaça militar para o caso em que as sanções econômicas não funcionem. Trata-se de uma luta sem quartel e sem religião, orientada pelo mesmo nacionalismo econômico da Rússia e da China, e de todos os demais países que têm ainda algum peso no sistema mundial. 
O petróleo não é a causa de todos os conflitos do sistema internacional. Não há dúvida, entretanto, de que a grande centralização de poder que está em curso no sistema interestatal também está transformando a permanente luta pela “segurança energética” dos Estados nacionais numa guerra entre as grandes potências pelo controle das novas reservas energéticas que estão sendo descobertas nos últimos anos. Uma guerra que se desenvolve palmo a palmo, e em qualquer canto do mundo, seja no território tropical da África Negra ou nas terras geladas do Círculo Polar Ártico; seja na turbulentas águas da Foz do Amazonas ou na inóspita Península de Kamchatka. 
Não há dúvida de que as descobertas mais importantes e promissoras deste início de século foram as areias betuminosas do Canadá, o pré-sal brasileiro e o cinturão do rio Orinoco, na Venezuela. Este transformou a Venezuela na maior reserva de petróleo do mundo, calculada hoje em 300 bilhões de barris, enquanto as areias monazíticas transformaram o Canadá na terceira maior reserva, estimada em 170 bilhões de barris, logo depois da Arábia Saudita, mas muito à frente do Brasil. Este assim mesmo saltou para o décimo-quinto lugar do ranking mundial, com reservas estimadas de 13 milhões de barris¹, 2 sem levar em conta, evidentemente, as estimativas de alguns centros de pesquisa que falam que haveria até 176 bilhões de barris de reserva em todo o “polígono do présal” brasileiro. 
Se somarmos a isto o salto da produção americana de petróleo e de gás, nos últimos três ou quatro anos, produzido pelo “fracking boom”, entenderemos por que o continente americano está se transformando no novo grande foco da geopolítica energética mundial. E entenderemos também duas outras coisas: a decisão norteamericana de voltar a ser o maior produtor de petróleo do mundo, e pivot ou controlador – em última instância – dos níveis de produção e preço do mercado mundial de petróleo. 
O problema é que agora, do outro lado desta disputa, já não está apenas a OPEP, liderada pela Arábia Saudita, que segue sendo um “Estado-cliente” dos Estados Unidos. Está a Rússia, que é o segundo maior produtor mundial de petróleo, e que está cada vez mais próxima e articulada com a OPEP, e com a própria Arábia Saudita. E está ainda a China, cada vez mais interessada em diversificar e garantir seu fornecimento de energia, impedindo ao mesmo tempo que os Estados Unidos imponham sua supremacia e seu controle sobre o mercado do petróleo, somando-o ao controle que já exercem sobre a moeda de referência internacional. 
Tudo indica que essa disputa deverá se acirrar ainda mais no ano de 2019, quando os EUA estarão tentando aumentar a produção mundial de óleo, enquanto a Rússia e a OPEP estarão forçando na direção contrária. Mesmo ano de 2019 no qual, aliás, a OPEP será presidida pela Venezuela, e a Rússia talvez entre na organização com o apoio da Arábia Saudita. Dessa perspectiva, talvez se possa compreender melhor a “ordem unida” que os norte-americanos decidiram impor em seu hemisfério, e o enfrentamento geopolítico e geoeconômico que se anuncia na Venezuela. 
Dentro desse quadro de enorme complexidade econômica e geopolítica, soa absolutamente delirante, quase infantil, imaginar que está sendo travada na Venezuela uma batalha em defesa da fé cristã, e dos valores e arquétipos da civilização ocidental. Esse tipo de visão milenarista costuma reaparecer de tempos em tempos, em certas idades, e em alguns momentos da história, mas não costumam chamar atenção nem causar maiores danos coletivos enquanto se mantenham como uma fantasia individual. 
No entanto, tudo muda de feição quando esses arroubos milenaristas se transformam numa Cruzada que pode dar lugar a uma guerra insana – neste caso, envolvendo pelo menos três países da América do Sul que não têm a menor experiência, nem a menor competência técnica, logística e psicológica para fazer uma guerra com suas próprias pernas. Em momentos como este, de grande exuberância teológica e entusiasmo salvacionista, é bom lembrar aos cruzados uma velha lição da história, a respeito dessas “guerras santas”, entre pequenos “peões militares” terceirizados pelas grandes potências: depois que começam, elas não costumam ter fim.
José Luís Fiori - Professor titular de Economia Política Internacional, Instituto de Economia, Universidade Federal do Rio de Janeiro; coordenador do GP do CNPq "Poder Global e Geopolítica do capitalismo" e do Laboratório "Ética e poder global", do Nubea/UFRJ. Pesquisador do Instituto e Estudos Estratégicos do Petróleo, Gás e Biocombustíveis (INEEP). Publicou recentemente o livro “Sobre a Guerra” pela Editora Vozes
¹ Dados publicados em 1º de janeiro de 2017, no The World Factbook, da Central Intelligence Aghency/ CIA, www.cia.gov/library 







segunda-feira, 24 de julho de 2017

Luis Nassif: Xadrez de como José Serra tentou fincar um pé na cooperação internacional




GGN. - Vamos colocar mais uma peça nesse nosso xadrez. É um dado ainda não definitivo, mas que poderá se tornar relevante na análise futura da influência norte-americana no golpe do impeachment. Mas também indicativo de como o senador José Serra sempre teve um faro apurado para perceber de onde vinha o perigo.
Desde o começo era nítido o alinhamento do grupo do senador José Serra (incluindo Aloysio Nunes) com os interesses norte-americanos. Havia três pistas interessantes:
1.     A conversa de Serra com o representante da Chevron, prometendo acabar com a lei de partilha, se eleito. O diálogo foi divulgado pela Wikileaks.
2.    Mal consumado o golpe, a corrida entre Serra e Eduardo Cunha, para quem quem conseguia emplacar primeiro uma nova lei revogando a lei de partilha.
3.     A ida inopinada de Aloysio aos EUA, com o golpe em pleno andamento, para encontro com senadores norte-americanos e sabe-se lá mais quem.
Mas o interesse maior de Serra era em relação a um novo departamento, que surgiu no rastro dos ataques às Torres Gêmeas, e que se tornaria a principal contraparte norte-americana no rastreamento de fortunas em paraísos fiscais e na cooperação internacional com Ministério Públicos de todo o mundo: o DHS (Departament of Homeland Security), que passou a unificar os trabalhos de 22 departamentos e agências federais diferentes, visando garantir as fronteiras e o ciberespaço. Seria uma espécie de Gabinete de Segurança Institucional mais aprimorado.
Em 2007 o DHS já trabalhava com o Ministério Público Federal, do Paraná, nas operações envolvendo o Banestado. Foi considerado o primeiro avanço efetivo nos modelos de cooperação internacional e permitiu, pela primeira vez, a recuperação de ativos de crimes brasileiros no exterior. Pelo menos três grandes operações – Banestado, Paulo Maluf e mensalão – contaram com a colaboração estreita da DHS.
Recentemente, o trabalho de Moro, autorizando a participação de agentes estrangeiros no Brasil foi em colaboração com o DHS.
Uma reportagem de Daniel Santini, de 28 de junho de 2011, no site Apublica, com base em documentos da Wikileaks, trouxe dados instigantes sobre o enorme interesse de Serra com a DHS.
Em janeiro de 2007, mal assumiu o governo de São Paulo, Serra procurou o embaixador norte-americano Cliffor M. Sobel, para um pedido insólito: orientações sobre como lidar com ataques terroristas nas redes do Metrô e dos trens. Atribuía a ameaça ao PCC (Primeiro Comando da Capital).
E havia um interesse especial em se aproximar da DHS. Pelo teor das conversas, reveladas pela Wikileaks, Serra parecia não saber direito o que queria, a não ser se aproximar da DHS. Disse que não necessitaria de recursos, mas de tecnologia, queria saber sobre a possibilidade de o DHS treinar o pessoal do Metrô e dos trens metropolitanos para enfrentar ameaças de bomba.
Foi apenas o primeiro encontro. Serra aprofundou as conversas com encontros constantes no Consulado Geral dos Estados Unidos. O insólito da situação era a não comunicação ao governo federal a quem, competia, legalmente, aprovar todos os acordos de cooperação.
Segundo a reportagem, Serra envolveu nas reuniões o secretário de Transportes Metropolitanos, José Luiz Portella, o chefe da Casa Civil Aloysio Nunes Ferreira, o secretário de Segurança Pública, Ronaldo Marzagão, o secretário de Transportes, Mauro Arce, o coordenador de segurança do Sistema de Transportes Metropolitanos, coronel Marco Antonio Moisés, o diretor de operações do Metrô Conrado Garcia, os assessores Helena Gasparian e José Roberto de Andrade.

Documentos remetidos pelo consulado ao Departamento de Estado, classificados como “sensíveis” integravam um conjunto de 2.500 relatórios do período, analisados por uma equipe de 15 jornalistas independentes, no meio dos quais estavam os documentos sobre Serra.
Por fim, o embaixador Sobel fez ver ao afoito governador que nada poderia ser feito sem passar pelo governo federal, através do Ministério das Relações Exteriores.
Cooperação em matéria de segurança sabendo que é um acordo que somente se pode fazer governo a governo.
As duas hipóteses é que, ou já pensava nos efeitos das parcerias da DHS com o MPF na política interna, ou queria uma maneira de encontrar fontes internas e se blindar contra eventuais descobertas da DHS, da mesma maneira com que fincara relações com a Polícia Federal brasileira (através de Marcelo Itagiba) e o Ministério Público Federal (através de diversos procuradores que trabalharam com ele, incluindo José Roberto Santoro).
Na época, já se sabia de contas de Serra no Banestado, mas o caso acabou soterrado pela blindagem que sempre protegeu Serra.
Como publicou a revista Época de 27 de junho de 2006:
“No caso de José Serra, há extratos fornecidos pelo banco americano JP Morgan Chase. O nome do ex-ministro, que segundo relatório dos policiais pode ser um homônimo, surge em uma ordem de pagamento internacional de US$ 15.688. O dinheiro teria saído de uma conta denominada “Tucano” e sido transferido para a conta 1050140210, da empresa Rabagi Limited, no Helm Bank de Miami, nos EUA. Serra é apontado como o remetente dos recursos. Isto seria uma indicação de que ele teria poderes para movimentar diretamente a conta Tucano. Entre 1996 e 2000, essa conta recebeu US$ 176,8 milhões, segundo a PF”.

sexta-feira, 19 de agosto de 2016

Michel Temer e seus exterminadores do futuro, por Emir Sader, cientista político e sociólogo


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O Brasil era o país do futuro, como negação do presente. Até que o futuro chegou, pelas mãos do pré-sal, passaporte para o futuro do país, no sentido de que asseguraria a autossuficiência energética, permitiria o pais se tornar exportador de petróleo e financiar um salto decisivo na educação e na saúde, com os recursos vindos do pré-sal.

O futuro se abria para o pais, conforme também a auto-estima dos brasileiros era resgatada, gerando um clima de otimismo sobre o futuro do Brasil. Nos tornávamos o país do futuro articulado estreitamente ao presente.

O governo golpista se erige como um exterminador do futuro, na medida em que desarticula o Estado como promotor do desenvolvimento, privatiza setores da Petrobras, incluindo o pré-sal, cortando juntamente os recursos que iriam para a educação e a saúde.

Se instala um governo que nega o passado recente e castra o futuro do país pelas políticas de ajuste, que buscam restringir o país às dimensões do mercado e, em particular, subordina a economia brasileira aos interesses do capital especulativo. Se nega o futuro do país, que é projetado como uma trajetória depressiva, com corte drástico de recursos para as políticas sociais, com a perpetuação da recessão econômica, do desemprego, da pobreza e da desigualdade social.

Pelas mãos desses exterminadores do futuro, o Brasil voltaria a ser o modelo de desigualdade no mundo, retornaria ao Mapa da Fome e ao FMI. As políticas governamentais voltariam a ser ameaças para a grande maioria dos brasileiros e benesses para os bancos e para o grande empresariado nacional e internacional.

A medida exemplar do extermínio do futuro é aquela que desvincula os recursos para saúde e educação, definido pela Constituição, para deixá-las ao sabor do desempenho de uma economia que, sabidamente por essa política econômica, terá desempenho pífio. Faz o mesmo com o salário dos servidores públicos. Em suma, projeta um futuro sempre pior que o presente.

A redefinição dos termos da aposentadoria é outra forma de projetar sombras sobre o futuro do pais. Não apenas porque propõe idade de aposentadoria maior do que a expectativa de vida média dos brasileiros, mas porque propõe que a idade de aposentadoria seja igual para homens e mulheres.

A privatização do pré-sal é o exemplo claro desse extermínio do futuro. Abandonaríamos a perspectiva da autonomia energética, da exportação de petróleo e, principalmente, do passaporte para o futuro que os recursos substanciais para a educação e a saúde representariam para o pais.

Além de tudo, o golpismo desmoraliza a democracia, demonstra que é possível, num marco legal, com a benevolência cúmplice do Judiciário, derrubar uma presidente eleita pelo voto popular, sem nenhuma acusação que o justifique, aplicar o programa derrotado nas eleições e colocar em pratica medidas de retrocesso econômico, social, politico e cultural, impunemente.

É o sonho da direita: um sistema politico blindado ao acesso a alternativas populares ancorado em um parlamentarismo de fato ou de direito, no financiamento privado de campanhas, no voto opcional e na inviabilização da candidatura do Lula.

Seria condenar definitivamente o Brasil àquele pais do futuro sem futuro, de um futuro hipotético, que nunca chega. A pior alternativa para o Brasil é aquela que expropria a esperança do horizonte dos brasileiros. A isso se dedica o governo golpista. Falta combinar com o povo brasileiro, aquele da profissão.

Emir Sader, pelo 247

sábado, 28 de maio de 2016

Pré-sal: golpistas querem entrega rápida

entrega
No Valor, o presidente do Instituto Brasileiro (por força de expressão) do Petróleo, Jorge Camargo (ex-presidente da norueguesa Statoil) saiu comemorando do encontro com o designado por Michel Temer para o Ministério de Minas e Energia, Fernando Coelho Filho, na quarta-feira.
Levava no bolso a promessa de que já no ano que vem vão ser leiloadas áreas do pré-sal sem a presença da Petrobras como operadora e, provavelmente, sequer como sócia das jazidas. Pelo projeto de José Serra, além de não ser operadora, a Petrobras pode ou não exercer a opção de ter o mínimo de 30%.
Não vai querer, claro, porque agora temos a única companhia de petróleo no mundo que não quer petróleo.
Além do mais, não há nenhuma segurança de que os preços do petróleo vão alcançar um nível que justifique pagamento de bônus de exploração compensador.
Sequer o país precisa ampliar rápido a produção e, se o tivesse de fazer, deveria ser com os campos já delimitados e testados, como os da área de cessão onerosa de Búzios, com um potencial de 10 bilhões de barris, cujo cronograma de exploração -atrasado – previa o primeiro óleo comercial em 2018.
O negócio, porém, vai além de “arranjar uns trocados”. É entregar rápido as jazidas do pré-sal, fazendo disso “negócio jurídico perfeito”, que não possa ser revertido se e quando um governo nacionalista volte ao poder.