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terça-feira, 21 de maio de 2019

A sabotagem ao Papa Francisco por bispos conservadores ultradireitistas



Documento sobre questões monetárias é libelo devastador sobre a forma como o sistema financeiro neoliberal está escravizando o mundo


Nasci num ambiente católico mas não sou praticante. Entretanto, nos anos recentes, desenvolvi profunda simpatia em relação ao Papa Francisco pelo seu compromisso inarredável com os pobres e desassistidos. Todas as pessoas preocupadas com a justiça social, em todas as suas dimensões, e em especial na dimensão política, tem no Papa Francisco o líder mundial mais eminente da atualidade. Ele trouxe a Igreja Católica a uma posição moral que não se compara à posição de nenhum dos seus predecessores na era moderna.

Pois bem, o Papa aprovou e mandou divulgar um documento sobre questões monetárias sob o título de “Considerações para um discernimento ético sobre alguns aspectos do atual sistema econômico-financeiro”. Enganam-se os que pensam tratar-se apenas de uma abordagem moral. É um libelo devastador, absolutamente fundamentado em análises técnicas, sobre a forma como o sistema financeiro neoliberal está escravizando o mundo e promovendo uma das maiores concentrações de renda da história do capitalismo.

Acontece que a forma abrangente como Mamon, o deus dinheiro, passou a dominar o mundo nas últimas décadas não obedece fronteiras, sequer fronteiras religiosas. A maioria do bispado brasileiro, francamente de direita, ignorou o documento do Papa e está literalmente  sabotando a sua difusão no país. Dada sua extrema importância, era natural que todas as dioceses promovessem seminários e cursos sobre ele para orientar seus fiéis sobre o posicionamento político que precisam ter diante da praga da financeirização. E convocassem para dar aulas professores que não sejam do mercado, mas que falam no interesse comum e não no interesse de suas carteiras, como é o caso da maioria da imprensa econômica.

Quero explicar esse conceito, numa linguagem menos formal que a do documento. Darei três exemplos, um da bancarização dos pobres, outra da financeirização das receitas públicas estaduais, outro da chamada securitização de créditos públicos. O que chamam de bancarização dos pobres é, por exemplo, o empréstimo consignado. Como todo mundo sabe, é um empréstimo sem risco para o banco pois as prestações correspondentes são descontadas em folha. Os juros, dependendo do prazo, podem chegar a 40% ou mais de um salário.

O apelo para o tomador de um empréstimo consignado é a taxa de juros aparentemente baixa. É que os juros de mercado são um assalto. Quando se compara a altura do Corcovado com o pico do Everest, o Corcovado parece baixo. Contudo, quando observado isoladamente, é um gigante. O efeito da financeirização é pôr o pobre para rodar na ciranda financeira. O pagamento das prestações precede a qualquer outro débito do tomador, impedindo atrasos, inclusive os indispensáveis para pagar despesas imprevistas.

Já a financeirização de parte das receitas públicas estaduais foi um expediente inventado no fim dos anos 90. Trata-se da imposição aos Estados, pela União, de uma dívida paga anteriormente pela totalidade dos contribuintes. Com isso estão sendo saqueadas as receitas públicas estaduais a fim de enterrar o resultado do roubo, em forma de superávit primário, na ciranda financeira da dívida pública. Fiz um  livro, “Acerto de Contas”, onde provo que a maior parte dessa dívida é nula, o que. espero venha a ser  base de um conflito federativo na hora oportuna, já que a maioria dos Estados literalmente faliu.

Para se ter uma idéia das dimensões dessa dívida, ela se elevava a R$ 111 bilhões em fins de 1997, quando foi consolidada como dívida dos Estados em bancos privados e paga com títulos públicos. Se foi paga com títulos públicos, não tinha porque ser ilegalmente repassada para trás aos Estados porque os títulos públicos (ou mesma a moeda) são passivos de toda a sociedade, inclusive dos contribuintes estaduais. O resultado, porém, é que os Estados haviam pago à União, até fins de 2016, nada menos que R$ 277 bilhões em prestações sucessivas. E restam a pagar, contabilizando juros extorsivos, R$ 497 bilhões! É um esbulho.

É claro que não há nenhuma razão individual, maior que esta, para a degradação dos serviços públicos estaduais de saúde, educação e segurança, funções principais dos Estados. Note-se que as prestações são cumulativas. Cada uma delas representa uma espécie de desinvestimento anual nesses setores, carreando os recursos correspondentes para o Tesouro federal fazer superávit primário, com um tremendo efeito contracionista na economia. Como disse, trata-se da financeirização das receitas públicas estaduais, já que do superávit primário queimado na dívida pública, como do inferno, nada volta para girar a economia.

Este ano o tema da Campanha da Fraternidade da Igreja são os “serviços públicos”. Seria importante que, ao longo dessa campanha, serviços públicos decentes fossem percebidos como efeito de finanças estaduais saudáveis, e que é virtualmente impossível ter finanças saudáveis sem resolver a questão da dívida dos Estados. Do contrário, a campanha será inútil: uma ladainha de lamentações sobre o estado da saúde pública, da educação e da segurança públicas, sem qualquer menção às causas. Não seria o caso de os bispos, conservadores ou progressistas, explicarem a suas ovelhas, como Papa Francisco, a razão da degradação desses serviços e os meios de superá-la?

Talvez o mais descarado instrumento de financeirização da economia brasileira seja o projeto da chamada “securitização” de débitos públicos. É um acinte, que vem sendo tentado no Congresso há  dois anos e que agora, segundo o técnico Paulo Lindsay, da Auditoria da Dívida, entrou como jabuti em cima de árvore na proposta de reforma da Previdência. Em resumo, o projeto cria o que chama de “empresas financeiras independentes” às quais são repassados créditos públicos já negociados, líquidos e certos, com imensos descontos. Volta-se assim ao tempo do cobrador privado de impostos, com a diferença de que, no caso da chamada empresa independente, trata-se de créditos líquidos e certos a receber pelos entes públicos, praticamente e praticamente doados a financeiras privadas.

Estrangulados em suas receitas pela contração da economia, alguns Estados e municípios entraram na onda da empresa independente na esperança de arranjar algum dinheiro agora, mesmo que seja uma fração dos seus créditos, abrindo mão da parte do leão dos futuros recebimentos. Nesse caso, é a financeirização de créditos públicos da forma mais abjeta, já que o contribuinte estadual, municipal e dos fundos federais devidos, e em processo de pagamento negociado, estará repassando dinheiro diretamente a financeiras privadas.

É claro que esses exemplos são uma pálida amostra da financeirização à brasileira. Aqui o problema ainda é mais grave que no resto do mundo porque o coração da financeirização é a atuação do próprio Banco Central, na forma como estabelece no Copom a taxa básica de juros e gere a dívida pública. Também diferente do resto do mundo, o Tesouro atua na ponta contracionista da economia ao forçar a realização de superávits primários – situação que não se altera quando há, como agora, déficit nominal devido a queda generalizada da receita por causa da situação da economia e porque juros e amortizações não se transformam em investimento público produtivo.

O fato é que, subordinados ao processo de financeirização, os setores públicos estaduais e federal atuam na mesma linha de contrair a economia, em ajuste fiscal permanente. Não admira que as receitas tributárias, nos dois planos, estejam despencando, pois necessariamente acompanham a recessão. Só os idiotas e os que estão de longe – idiotas ou não, como os formuladores do FMI e do Banco Mundial – prevêem uma recuperação da economia neste ano. A meu ver, dadas as medidas tomadas e indicadas, será nova contração, seguindo os 8% acumulados de desastre do PIB na era Temer.

Mas voltemos ao Papa Francisco e seu libelo contra a financeirização, diante do qual o episcopado brasileiro apresenta  um comportamento estranhamente indiferente. Não sei se se trata de desconhecimento da realidade ou de submissão a assessores que carregam a marca de Caim do neoliberalismo. Entretanto, ou eles acordam e ajudam a promover a superação das manipulações da grande imprensa e de parte da academia nesse terreno, ou a Igreja, na  sua parte moral e ética, se tornará irrelevante.  A questão da pedofilia abalou a vida eclesiástica, mas está sendo tratado a ferro e fogo por Francisco, que assim honra a Igreja. Mas em linha semelhante de crítica ele colocou a subordinação a Mamon. Do meu ponto de vista, tendo em vista suas repercussões no destino material e espiritual da humanidade, a mamonfilia, dentro da Igreja, é um cancro tão terrível como a pedofilia.

J. Carlos de Assis
No GGN

sábado, 28 de maio de 2016

Pré-sal: golpistas querem entrega rápida

entrega
No Valor, o presidente do Instituto Brasileiro (por força de expressão) do Petróleo, Jorge Camargo (ex-presidente da norueguesa Statoil) saiu comemorando do encontro com o designado por Michel Temer para o Ministério de Minas e Energia, Fernando Coelho Filho, na quarta-feira.
Levava no bolso a promessa de que já no ano que vem vão ser leiloadas áreas do pré-sal sem a presença da Petrobras como operadora e, provavelmente, sequer como sócia das jazidas. Pelo projeto de José Serra, além de não ser operadora, a Petrobras pode ou não exercer a opção de ter o mínimo de 30%.
Não vai querer, claro, porque agora temos a única companhia de petróleo no mundo que não quer petróleo.
Além do mais, não há nenhuma segurança de que os preços do petróleo vão alcançar um nível que justifique pagamento de bônus de exploração compensador.
Sequer o país precisa ampliar rápido a produção e, se o tivesse de fazer, deveria ser com os campos já delimitados e testados, como os da área de cessão onerosa de Búzios, com um potencial de 10 bilhões de barris, cujo cronograma de exploração -atrasado – previa o primeiro óleo comercial em 2018.
O negócio, porém, vai além de “arranjar uns trocados”. É entregar rápido as jazidas do pré-sal, fazendo disso “negócio jurídico perfeito”, que não possa ser revertido se e quando um governo nacionalista volte ao poder.

sexta-feira, 27 de maio de 2016

As futuras gerações de brasileiros sentirão vergonha do seu país se a injustiça contra Dilma não for reparada

Ainda há tempo para evitar uma barbaridade histórica
Alguns acontecimentos provocam vergonha eterna nas pessoas de um país. Futuras gerações pagam o preço dos crimes de gerações passadas.

Na Inglaterra, por exemplo, as infames Guerras do Ópio até hoje são motivo de embaraço. Merecidamente. Em meados do século 19, os ingleses destruíram a China para que pudessem vender ali o ópio que produziam na Índia.

O pretexto foi o “livre mercado”. A Inglaterra consumia seda, chá e porcelana da China. Os chineses não se interessavam por nada feito pelos britânicos. Até que os ingleses começaram a vender ópio na China.

As autoridades chineses proibiram, por razões óbvias. O imperador chinês chegou a mandar uma carta para a Rainha Vitória. Dizia que seu país vendia apenas coisas decentes para os ingleses, e não podia aceitar a contrapartida do ópio.

Proibiu este comércio criminoso. Os ingleses reagiram com uma guerra da qual a China só se reergueria mais de um século depois.

Nos livros de história, é um capítulo do qual os britânicos falam de cabeça baixa, um dos momentos mais baixos de sua existência milenar.

Tudo isso para dizer o seguinte.

O crime que está sendo cometido contra Dilma, se não for erradicado, vai pesar contra os brasileiros vindouros. Eles terão vergonha do seu país, ao mesmo tempo em que vão aprender nas escolas quem foi quem na trama suja de corruptos para derrubar uma mulher honesta.

Não é justo que a posteridade pague pelos pecados do presente.

Mesmo agora, quando ainda há muita coisa para aparecer, os fatos já são suficientemente claros para que se saiba que o que cerca o impeachment é lama em quantidade copiosa.

Ainda há tempo para reparar esta página abjeta da vida política nacional. Dilma não está morta e nem definitivamente afastada. Basta, primeiro, devolvê-la ao cargo do qual foi retirada por uma quadrilha. E, depois, punir os criminosos.

Não é fácil. Mas é muito mais difícil um país inteiro conviver, para sempre, com uma dor de consciência avassaladora. E é isso que ocorrerá se a brutal injustiça não for corrigida.

Dilma, se afastada mesmo, se tornará um mártir, e seus carrascos eternos canalhas. Mas o Brasil não precisa de mártires, e sim de justiça. Ou, pelo menos, de “decência básica”, para usar a grande frase de Orwell.

Nossos filhos e nossos netos carregarão, se nada se fizer, o peso da monstruosidade cometida contra uma mulher que ousou combater como nunca a corrupção.

Os ingleses de hoje sofrem os impactos de uma barbaridade que seus antepassados impingiram contra um país pacífico e ordeiro. Isso jamais vai passar. Nada pode alterar o caráter imundo das Guerras do Ópio, e isso ficará para sempre registrado nos livros de história da Inglaterra. Pequenos ingleses, na idade escolar, sempre se perguntarão: “Como pudemos descer tão baixo?”

É o que teremos no Brasil caso Dilma seja definitivamente afastada.

Em nome das futuras gerações, em nome da “decência básica”, isso não pode acontecer.

Paulo Nogueira
No DCM