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segunda-feira, 21 de outubro de 2019

O patriarcado - e sua mentalidade autoritária - queima florestas e assedia as mulheres, por Dora Incontri



No limite, a piada machista, a postura de violência e sadismo, o estupro e o assédio, o poder do dinheiro e do militarismo, tudo isso são nuances de um mesmo padrão.



Forest fire in night. Shot near Stellenbosch, Western Cape, South Africa.

O patriarcado queima florestas e assedia as mulheres, por Dora Incontri, no GGN

Diante da avalanche de más notícias que nos atordoaram nesse último mês – em que eu estava de molho por causa de uma cirurgia – penso que pode haver um link comum entre a maioria delas. Confesso que ao lado do fogo da Amazônia, dos pronunciamentos cafajestes daquele que não nomeio, dos vazamentos inacreditáveis sobre a injustiça da justiça brasileira, houve uma notícia que me pegou também o coração. Uma notícia que não tem a mesma dimensão da queima das nossas florestas, mas queimou a reputação de um homem que eu sempre admirei.

Estou falando da denúncia de assédio feita por nove mulheres contra o tenor espanhol Placido Domingo. É certo que não podemos julgar antes de uma investigação concluída, mas também não podemos desqualificar o testemunho das mulheres, sendo que o próprio cantor disse que as declarações eram imprecisas, mas admitiu: “Reconheço que as regras e padrões dentro dos quais vivemos hoje são muito diferentes daqueles do passado”.

A notícia me impactou porque se já esperamos de um machista confesso o total desrespeito à mulher, temos a expectativa de que um artista genial na música e respeitado em sua liderança, tenha sensibilidade em relação ao feminino.
Mas é então que se configura o quanto o patriarcado está arraigado nas estruturas mentais da humanidade. E mais do que isso, o quanto o assédio de um artista às mulheres do alto do poder do seu talento tem mais a ver com as queimadas da Amazônia do que pensamos. Em todas essas atitudes que violentam a dignidade do outro, que são carregadas de desrespeito à integridade da vida, do ser, da criança, da mulher, da natureza, está a mentalidade do macho que sujeita, que invade, que possui, que agride e se acha detentor de poderes ilimitados no mundo. Alguém já viu uma mulher liderando uma invasão de grileiros, ateando um incêndio nas matas, cometendo um abuso de outros colegas artistas ou profissionais, fazendo um chiste de desrespeito ao esposo de outra mulher (sendo esse esposo de uma presidente de um país estrangeiro)?
No limite, a piada machista, a postura de violência e sadismo, o estupro e o assédio, o poder do dinheiro e do militarismo, tudo são nuances de um mesmo padrão. O padrão de não respeitar a sensibilidade, de achar compaixão uma fraqueza, de considerar a não-violência e o diálogo como coisas indignas do masculino, de objetificar o outro, seja no trabalho escravo, seja na mulher objeto, seja na criança abusada sexualmente.
Pode-se alegar que há mulheres poderosas, há mulheres guerreiras, há mulheres abusadoras. Sim, há. Mas este é o padrão masculino, e quando as mulheres assim se comportam, estão assumindo o padrão do homem. E são minoria. O padrão feminino histórico é o de cuidar, é o de sentir, é o de intuir, e por isso que a lei do mais forte vigente no mundo sempre sujeitou a mulher.
É verdade que o feminino e que o masculino são dimensões presentes em todo o ser humano. Tanto que espíritas como nós, reencarnacionistas, consideramos que ora podemos nascer homens, ora podemos nascer mulheres, justamente para desenvolvermos os dois princípios no espírito imortal. Mas ainda nos padrões sociais da humanidade, a masculinidade está associada à violência, à posse, e a feminilidade esteve muitas vezes associada à submissão, à passividade e à fraqueza. Já há mais de 200 anos, as mulheres têm mudado essa visão, assumindo sua força – que não é a da violência – com sua voz firme e transformadora no mundo. Mas o homem ainda encontra muita dificuldade de mudar seus parâmetros de constituição do masculino. Há iniciativas louváveis nesse sentido, e quero citar aqui meu amigo Leandro Uchoas, um espírita progressista, que está promovendo rodas de conversa com homens sobre novas masculinidades.
Por tudo isso, apesar de a nós mulheres muitas vezes enraivecer o desrespeito, o assédio, a violência, a maneira como a maioria dos homens conduz os governos do mundo, quando vemos um Placido Domingo com uma carreira tão linda, que espalhou música e beleza por mais de 50 anos, manchada por esse padrão de masculinidade tradicional, chegamos a experimentar constrangimento e compaixão. Os primeiros a sofrer com esse padrão de insensibilidade diante do outro são os próprios homens. Por isso, urge fazermos uma educação que permita ao homem sentir, chorar, mostrar sua vulnerabilidade, e não reprimir tudo isso com uma arma na mão, com incêndios ou com gritos selvagens.
Que pena, Placido! Desculpa, Brigitte!

terça-feira, 1 de outubro de 2019

Os extremistas que atacam Greta Thunberg são os mesmos que me perseguem há 9 anos. Por Lola Aronovich, publicado pelo The Intercept




A onde de mentiras sobre Greta Thunberg, a ativista de 16 anos que chamou o mundo para a urgência do colapso climático, mostra que negacionistas climáticos são também anti-feministas.

Do The Intercept:








Foto: Johannes Eisele/AFP/Getty Images


NESTES ÚLTIMOS DIAS, a jovem ativista Greta Thunberg tem sido xingada, difamada, ameaçada por homens da extrema direita. Eu sei como é, já que sou alvo dessa gente desde no mínimo 2011. Não sou uma ativista climática, mas sou feminista. Acontece que a grande parte dos negacionistas climáticos (que querem convencer o mundo que está tudo bem com a terra plana e que não precisamos nos preocupar com a poluição e a destruição do meio ambiente) é de direita, e todos eles são ferrenhos anti-feministas. Logo, por mais que eu e Greta sejamos bem diferentes, quem nos ataca é muito parecido.

A ativista sueca de 16 anos é chamada de “fantoche adolescente”, “Justin Bieber da ecologia”, “profetisa do apocalipse”. E, como não poderia deixar de ser, “idiota útil”. Por essas e outras barbaridades, principalmente barbaridades machistas, a hashtag #DesculpaGreta chegou nos trending topics do Twitter e lá ficou por muitas horas, com a gente pedindo perdão pelas maldades proferidas pelos “cidadãos de bem”.

A onde de mentiras sobre Greta Thunberg, a ativista de 16 anos que chamou o mundo para a urgência do colapso climático, mostra que negacionistas climáticos são também anti-feministas.



Em agosto do ano passado, Greta sentou-se na frente do parlamento sueco com um simples cartaz escrito à mão “Greve escolar pelo clima”. Ela tinha 15 anos. Em um panfleto que ela distribuía, dizia: “Estou fazendo isso porque vocês adultos estão cagando no meu futuro”. Inspirados por Greta, outros jovens passaram a fazer protestos parecidos em combate ao aquecimento global, e a onda foi crescendo.
Em agosto deste ano, Greta foi de veleiro movido a energia solar de Plymouth, Inglaterra, a Nova York. Ela evita viajar de avião pelo seu rastro poluente (285 gramas de dióxido de carbono por passageiro por hora), o que é conhecido como pegada de carbono. Na segunda-feira, 23, Gretadisse aos líderes mundiais na abertura do Encontro de Ação Climática, organizado pela ONU: “Eu não deveria estar aqui, deveria estar na escola”. E prosseguiu, num discurso que viralizou: “Como vocês ousam? Vocês roubaram meus sonhos e minha infância com suas palavras vazias”. Além do seu discurso, o olhar que Greta disparou para Trump também se tornou icônico.
Por conta do seu ativismo, a sueca se tornou um dos símbolos em defesa do clima e da natureza, que gerou imensas manifestações pelo mundo. Antes mesmo de Nova York, uma deputada conservadora francesa resmungou: “Não é uma garota que abandonou a escola que vai dar lições aos adultos”.
Com o sucesso promovido pela #GreveGlobalpeloClima, Greta se tornou alvo de novas críticas. Por exemplo, Eduardo Jorge, que foi candidato a presidente pelo Partido Verde em 2014, lamentou que Greta trocou paixão por raiva em seu discurso. Ele pediu mais compaixão e menos ressentimento, baseando-se num tuíte de Augusto de Franco, um palestrante que não gostou das expressões faciais e do tom de voz de Greta. A linguista Jana Viscardi descreveu bem esse desconforto do ex-candidato a presidente, ao lembrar como as meninas têm que ser sempre dóceis, sorridentes e simpáticas. Ser “durona” vai contra a nossa feminilidade. Logo, Greta não pode se dar ao luxo de ficar zangada.
A direita se encarregou de criar e espalhar montes de fake news contra Greta, assim como já fez contra mim diversas vezes. Na Páscoa de 2015, por exemplo, o exército reaça inventou um tuíte em que “eu” comemorava a morte do filho de Geraldo Alckmin num acidente de helicóptero. No mesmo ano, essa mesma organização criminosa criou um site falso no meu nome, com meu endereço residencial em cada post, em que “eu” vendia remédios abortivos e descrevia como realizava abortos em alunas minhas na UFC. Este site, aliás, só viralizou depois que reaças famosos como Olavo de Carvalho e Roger Moreira, do Ultraje a Rigor, o divulgaram em suas redes sociais. Nos anos seguintes, um rapaz que eu nunca vi na vida gravou um vídeo dizendo que eu havia abusado sexualmente dele num banheiro de um congresso escolar. Outro total desconhecido fez um vídeo jurando ser meu filho, que eu teria abandonado para seguir este “demônio do feminismo”.
Outra montagem, esta distribuída pelo filho do presidente, o fritador de hambúrguer que quer ser embaixador nos EUA, é de Greta comendo num trem. Na janela, crianças pobres observam. Mas minhas fake news preferidas são que Greta vive com um terrorista do Estado Islâmico, que ela foi abandonada pelo pai, que seria um cientista social gay, e que sua mãe é uma “lésbica satanista” que ensina aborto para adolescentes. Greta, portanto, é apenas um “fruto do desajuste psicomoral causado por essa extrema esquerda vagabunda na família ocidental”.
Foto original sem crianças famintas ao lado.
Nenhuma novidade no front. A direita é sórdida e não se acanha de espalhar mentiras contra qualquer mulher ou menina que seja ouvida. E sempre usando uma de suas principais armas, o machismo. Já fez e continua fazendo isso comigo. Talvez seja importante não levar para o lado pessoal: não me atacam por eu ser a Lola, mas por eu ser feminista. Não atacam Greta por ser Greta, mas por ser uma ativista climática. Lógico que, ao definirem o alvo, partem para ataques a características pessoais, como o autismo de Greta, suas trancinhas, seu gênero. Uma colunista doEstadão criticou Greta por seus “olhos duros” e “rosto sem empatia” – um texto discriminatório que foi denunciado por associações de autistas, que tiraram o blog do ar.

O medo do feminismo

Como escreveu Juliana Aguilera num ótimo artigo publicado no começo do mês, uma universidade sueca começou o primeiro centro de pesquisa acadêmica do mundo dedicado a estudar o negacionismo da crise ambiental. Esse centro viu ligações inequívocas entre os negacionistas e a extrema direita, sempre anti-feminista, e concluiu que “os temas comuns não eram sobre a ameaça do meio ambiente, e sim sobre uma certa sociedade industrial moderna construída e dominada por sua forma de masculinidade”. Ou seja, qualquer coisa que se opõe ao estilo de vida do homem branco e à manutenção dos seus privilégios precisa ser combatida.
Lembram de uma pesquisa sobre estereótipos de gênero que apontou que muitos entrevistados viam colocar as compras do supermercado numa sacola de pano era algo não masculino? Então. Ser másculo é usar sacola de plástico. É não pensar duas vezes antes de destruir a natureza.
A gente pode observar essa raiva dos homens brancos no discurso do jornalista Gustavo Negreiros. Visivelmente alterado, o sujeito de Natal disse na Rádio 96 FM, do Rio Grande do Norte, que Greta é uma histérica. “Sabe do que ela está precisando? Ela está precisando de um homem. É mal amada. Se não gostar de homem, que pegue uma mulher. Ela está precisando de sexo. Vá fumar seu baseado na Suécia”.
O discurso de Gustavo é asqueroso não apenas por Greta ter 16 anos e ser autista, mas por ser um discurso misógino que é sempre usado contra mulheres. É aquilo de “falta de rola”, que usam contra qualquer mulher que tenha voz. No meu caso, chegaram até a fazer uma camiseta em que o personagem dos quadrinhos Cebolinha dizia “É falta de Lola”.
Além do mais, usar o termo “histérica” para se referir às mulheres é bastante ultrapassado. O termo vem da palavra grega que quer dizer “útero”. Ou seja, histeria foi durante milênios um distúrbio associado a mulheres. E muitas foram queimadas e mortas por esse “distúrbio” que, curiosamente, só acomete quem tem útero. Porque homens nunca ficam nervosinhos ou entram em escolas para cometerem massacres, né? É coisa de mulher, essas histéricas com TPM.
Gustavo também é comentarista da TV Tropical, que retransmite a TV Record. Num programa, com a conivência do apresentador, ele disse as mesmas coisas que no rádio: Greta é “uma menina que tá afetada psicologicamente, você vê que ela tem algum problema que não é em relação ao clima mundial”. Gustavo também a chamou de “vagabunda” por não ir às aulas e concluiu que, se ela fosse filha dele, ele “aquecia as nádegas” dela. “Não tem problema não, da cintura pra baixo pode pegar havaiana e pode meter: pá! Faz bem, esquenta o couro, educa”.
Felizmente, a repercussão aos comentários de Gustavo foi rápida. Em menos de 24 horas, três das quatro empresas que patrocinavam o programa no rádio, incluindo a Unimed, suspenderam os contratos. Como não existe ninguém mais vitimista que um reaça, o jornalista escreveu em seu blog: “Arrependido de ter atirado uma pedra em quem não merecia, através de uma piada boba, pedi desculpas […] Os danos foram mais meus que da pessoa citada. À turma do mimimi que endossa o coro das críticas nas redes sociais informo que não merece qualquer respeito. Que meus ex, atuais e futuros patrocinadores, não temam a patota vermelha sanguessuga […]. Se tiverem que deixar de patrocinar o blog que seja pela falta de qualidade, mas nunca pelo furor das redes sociais. Errei em algumas palavras por segundos, e isso me custou caro.” Ele se disse perseguido pela esquerda por falar mal diariamente do governo de Fátima Bezerra.
Gustavo foi demitido da rádio. Só foi chamado ao ar para pedir desculpas, que foram francamente ridículas. Disse que fez um “comentário infeliz”, que antes de ir falar na rádio estuda os assuntos, e pediu consideração por ter a “hombridade de reconhecer o erro”. Para ele, o erro foi não saber que “a garota lá tem um problema de saúde”. Primeiro que ser autista não é um “problema de saúde”. Depois que, se Greta não tivesse Asperger, aí tudo bem dizer que ela é uma vagabunda histérica que deveria fazer sexo em vez de ativismo?
A TV Tropical demorou um pouco mais para se manifestar, mas finalmente desligou o jornalista que espalha discurso de ódio ao chamar uma jovem ativista de vagabundinha histérica que precisa de sexo?
Gustavo não foi o único a atacar Greta, lógico. Um outro jornalista, Luis Ernesto Lacombe, que um dia antes havia defendido a polícia no caso Ágatha, falou sobre Greta na Band: “Eu não compro essa menina. Acho que essa menina tem um discurso alarmista, com frases de efeito. […] Eu acho que a gente tem que ter um debate pesado sobre clima e de quanto o homem influencia na mudança climática”. E compartilhou a fake news de que ela é financiada por George Soros. Não me pareceu um ato falho o jornalista ter usado a palavra “homem”, não “humano” ou “pessoa”, na frase “quanto o homem influencia na mudança climática”. Indica que seu incômodo é com a influência que uma mulher, uma menina, possa ter nesse debate.
Greta diz com todas as letras que o capitalismo global falhou. Ela expõe a masculinidade frágil.
O jornalista australiano Andrew Boltescreveu que nunca viu “uma garota tão jovem com tantos problemas mentais ser tratada como guru pelos adultos”. Na Jovem Pan, apelidada de Jovem Klan por suas posições conservadoras, Rodrigo Constantinochamou Greta várias vezes de“retardada” que “tem síndrome do autismo”.
Outro reaça de marca maior, meu velho conhecido Roger, do Ultraje a Rigor, divulgou no seu Twitter uma imagem que diz “Isso sim é destruir sonhos”. Embaixo, está escrito “A sueca da minha juventude” (uma loira vestida de enfermeira, como nos filmes pornôs), e “A sueca de hoje” (Greta). É muito baixo, até para os padrões do músico mascote do Gentili. Além de sexualizar uma profissão nobre e imprescindível, a de enfermeira, sexualizam uma menina de 16 anos, que não parece nem ter 13. E óbvio ululante que o emprego de Roger não corre risco, pois seu patrão Silvio Santos está promovendo concurso de miss para avaliar as pernas mais bonitas de meninas de dez anos.
Teve também um jornalista francês veterano, um pouco mais velho que Roger (o francês tem 84 anos), que reclamou que, na sua geração, os homens procuravam meninas suecas menos rígidas que as francesas. “Imagino nosso terror se tivéssemos abordado uma Greta Thunberg”.
A raiva do jornalista parece ser a impossibilidade de sexualizar Greta. Ela é uma menina de 16 anos, logo, deve ser colocada no papel que se espera de uma mocinha dessa idade (que é ser meiga e inocente ou atriz pornô disfarçada de enfermeira ou líder de torcida, como sugere Roger).
Gostei muito da nota de repúdio da Associação de Juristas Potiguares pela Democracia e Cidadania, que chamaram o discurso de Gustavo de “fala misógina disfarçada de opinião”. “Não é mais tolerável que um comunicador que ocupe espaço em rádio e televisão de rede aberta por concessão pública se comporte de forma vil, classificando de ‘vagabunda’ e ‘histérica’ a ativista Greta […]. Tratar o ativismo e a movimentação social como ‘vagabundagem’ é demonstrar a verdadeira face do autoritarismo. Não há outra forma de buscar a regulamentação dos direitos que não seja através da luta social e política”. A Associação também classificou o ataque contra Greta de “violência de gênero”.
Um outro apoio interessante veio do satirista Mark Humphries, que fez um vídeo criando a linha de apoio Greta Thunberg, para a qual homens brancos furiosos podem ligar para contar suas angústias. “Se você é um homem adulto precisando gritar com uma menina, a helpline está aqui para te tolerar”. Outras frases bacanas incluem: “Entendemos que crianças agindo como adultos fazem adultos agirem como crianças” e “Porque quando falamos de mudanças climáticas, todos sabemos que Greta é o verdadeiro problema”.
Não vou negar que vi também algumas pessoas de esquerda lançando teorias conspiratórias absurdas, como a que os ataques a Greta e aocacique Raoni seriam tentativas de impedir que Lula leve o Nobel da Paz. Mas é indiscutível que os maiores ataques a Greta são feitos pela direita, e não qualquer direita, mas uma extrema direita organizada, machista, negacionista de problemas ambientais, principalmente do colapso climático. Uma direita que eu, infelizmente, vim a conhecer tão bem, porque ela me ataca há anos. E por que essa mesma direita ataca Greta? Porque Greta diz com todas as letras que o capitalismo global falhou. Ela expõe a masculinidade frágil. E são eles, não nós, que precisam pedir desculpas.
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terça-feira, 25 de setembro de 2018

O amarelado "cidadão de bem", vulgo "coxinha" na prática de seus valores bolsonáricos, em charge de Bruno Aziz


Nenhum texto alternativo automático disponível.

Com o vulgar "Coiso" e seu vice, ambos reacionariamente autoritários, nossa humanidade está em risco, por MIlton Hatoum

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 "Como se sabe, um obscuro capitão reformado, político vulgar e ineficiente, é candidato à presidência. Essa figura sinistra tem feito discursos contra as mulheres. Chegou ao cúmulo de afirmar que deu “uma fraquejada” quando nasceu sua filha. (...) O general Hamilton Mourão (o vice do capitão), afirmou que famílias sem pai e avô que moram em áreas carentes “são fábricas de elementos desajustados que tendem a ingressar em narcoquadrilhas”. Essa chapa presidencial reúne o que há de mais desumano, brutalmente desumano na política brasileira."


Nossa humanidade está em risco
por Milton Hatoum
em seu perfil no Facebook
Como se sabe, um obscuro capitão reformado, político vulgar e ineficiente, é candidato à presidência. Essa figura sinistra tem feito discursos contra as mulheres. Chegou ao cúmulo de afirmar que deu “uma fraquejada” quando nasceu sua filha.
O descalabro não para por aí. Afirmou que as mulheres devem ganhar menos do que os homens. Esses insultos machistas, a que se somam outros discursos explicitamente racistas e homofóbicos, são inaceitáveis na boca de qualquer cidadão.
Na boca de um candidato à presidência, revela a total degradação moral de um político perigoso. Se ele for eleito, certamente vai desestabilizar nossa frágil democracia.
De um modo geral, as mulheres (mães, tias, avós, irmãs) exercem o papel de lutadoras: um papel solidário, vital para consolidar a família, a comunidade, para proteger os seus filhos, os filhos dos amigos e dos vizinhos. Isso predomina nas famílias pobres das periferias, mas é comum também em inúmeras famílias de classe média. Em muitos lares sem um pai, são essas mulheres que, além de trabalhar, cuidam das crianças.
O general Hamilton Mourão (o vice do capitão), afirmou que famílias sem pai e avô que moram em áreas carentes “são fábricas de elementos desajustados que tendem a ingressar em narcoquadrilhas”.
Essa chapa presidencial reúne o que há de mais desumano, brutalmente desumano na política brasileira. Nessa dupla não há nada de solidário, compassivo e respeitoso em relação aos outros: negros, indígenas, mulheres, pobres, intelectuais, artistas. Ao contrário: as palavras asquerosas dirigidas a todos eles (principalmente às mulheres, indígenas, negros e homossexuais) são a expressão mais perfeita e repugnante dos preconceitos de classe social, etnia e sexo.
Uma parte da elite econômica (investidores do mercado financeiro e empresários) apoia a chapa sinistra. No fundo, são oportunistas profissionais: defendem interesses pessoais e corporativos, e estão se lixando para a ética e para o povo brasileiro. Aliás, essas pessoas vêm apoiando golpes e baixezas políticas desde 1964.
Mas há alguns jornalistas que querem convencer a população de que o segundo turno das eleições será uma competição entre extremistas. Isto é falso e desonesto. Nos discursos e na carreira política de qualquer outro candidato (com maior ou menor chance de passar para o segundo turno) não há um único gesto ou palavra de extremismo.
Só há uma chapa extremista nessas eleições presidenciais. E ninguém precisa ser de esquerda para dizer NÃO ao extremismo. Na última eleição presidencial da França, partidos de direita, de centro-direita, de centro e de esquerda se uniram para derrotar Marine Le Pen, a candidata antissemita, racista e xenófoba da extrema-direita.
Não foi apenas uma ampla união para defender a democracia, mas também um gesto de adesão aos princípios básicos de liberdade e solidariedade humanas.

segunda-feira, 9 de abril de 2018

Vozes femininas do cristianismo precisam ser ouvidas. Artigo de Tayana Leôncio


"A ênfase dada num discurso prioritariamente masculino, e por uma voz masculina é o que por muito tempo tem tornado o cristianismo uma religião sexista. Diferente do que o Mestre jesus, cerne da fé cristã, viveu e ensinou. Hoje vemos seus “discípulos” deixando um não lugar na experiência religiosa para as mulheres."

Do Justificando:

Vozes femininas do cristianismo precisam ser ouvidas


“A Anunciação”. Pintura de Leonardo da Vinci (1472).
“uma das maneiras de valorizarmos as mulheres e defendermos a sua dignidade é tirá-las do anonimato, do esquecimento”
– Rute Almeida
Devemos tomar conhecimento da vasta contribuição feminina no cristianismo. Desde de sua origem no ministério de jesus, onde podemos comprovar a efetividade da ação feminina para que a mensagem de Jesus alcançasse diferentes povos. Em seguida, os movimentos pós ressurreição, no período de organização dos pequenos grupos de cristãos. Até chegar nas cruzadas evangelísticas das décadas de 70 até hoje.
O que observamos é uma seletividade nos heróis apresentados nos sermões.

Falamos de homens como modelos de fé e vida casta. Porém em muito menos proporção falamos das nossas profetizas e mulheres que carregaram sobre seus ombros a missão de propagar e viver o evangelho de Cristo.

A ênfase dada num discurso prioritariamente masculino, e por uma voz masculina é o que por muito tempo tem tornado o cristianismo uma religião sexista. Diferente do que o Mestre jesus, cerne da fé cristã, viveu e ensinou. Hoje vemos seus “discípulos” deixando um não lugar na experiência religiosa para as mulheres. A elas muitas vezes são reservados os lugares de bastidores e em ambientes muito convencionais como atividades na cozinha , limpeza , organização, cuidado. Não digo isso, crendo que se nós quisermos ocupar esses lugares não seja permitido , mas que essa não seja nunca a primeira opção ou a única viabilizada.
… sabemos que o cristianismo não nasceu a partir da igualdade de gênero e menos ainda cresceu a partir da igualdade de gênero. Muito embora o feminismo esteja atuando como movimento social há mais de trinta anos no Brasil, a força real e simbólica da submissão continua a estruturar as relações cristãs. As mulheres não conseguiram ainda a cidadania integral na maioria das igrejas cristãs![1]
Com machismo velado, nós a igreja, reproduzimos comportamentos e discursos que não tem permitida uma experiência de empatia com nossas irmãs nos ambientes cúlticos.
Jesus valorizou a figura feminina em suas parábolas. Gostava de ouvi-las a cerca de suas impressões sobre o Reino de Deus. E escolheu se revelar como Messias primeiro para uma mulher. Jesus em todo tempo nos ensinou a valorizar o lugar de fala do outro. Deixando o exemplo de cuidado que devemos ter uns com outros. A tradição judaica não reconhecia a potência do feminino e por isso a determinou pra um lugar a margem da sociedade, onde sua fala, sua percepção, sua experiência não era valorizada. E ainda hoje vemos os reflexos desse comportamento machista, quando uma denominação que se diz cristã, não reconhece o ministério feminino, quando seus púlpitos são 99% de vozes masculinas, quando seus sermões trazem apenas ou majoritariamente referências masculinas, ou quando majoritariamente ou preferencialmente são as mulheres que ocupam os lugares serviço.
Precisamos começar com o primeiro passo para a mudança e de fato aproximar o nosso cristianismo com figura de jesus. E este é reconhecer que historicamente temos reproduzido comportamentos sexistas. Determinando as irmãs como, quando e onde são seus lugares, comportamentos e falas permitidas.
Deixemos o sopro da RUAH soprar também sobre nossas irmãs, e deixa-las fluir na experiência com o sagrado. Assim sendo, teremos ganhos incontáveis na vida em comunidade e na experiência de fé no cristo. Quando só temos a revelação masculina de Deus deixamos de aprender e apreender a face feminina de Deus.
Irmãs teólogas Latino Americanas com vasta contribuição nos estudos da religião como Ivone GebaraMaria José Fontelas Rosado Nunes ou suas antecessoras vozes missionárias do protestantismo Sara KalleyMartha WattsCarlota Kemper entre outras tantas vozes femininas que o espirito santo impulsionou e foram pouco valorizadas e celebradas. Arriscaria dizer que 90% das irmãs que estão hoje nos templo cristãos não saberia citar uma mulher vocacionada na obra de Cristo que impactou sua geração ou que contribui nos movimentos mais recentes de cruzadas evangelísticas.
A religião patriarcal tem impedido as vozes femininas que ecoam na historia serem ouvidas. Sigamos o exemplo de Cristo traga a mulher esquecida e marginalizada para o meio da multidão e lhe devolva a dignidade que o próprio Deus a deu.
Tayana Leôncio é cristã feminista, teóloga, especialista em historia da cultura afro-brasileira, fotografa de retratos femininos e fotografia documental e diretora da ONG Há Esperança – Empreendedorismo Social (na baixada Fluminense).
Para todas as mulheres que têm nos acompanhado, mandem seus relatos! Nosso e-mail é: feministas@justificando.com

Citação: RUTE, Almeida Salviano, Vozes femininas no Inicio do protestantismo Brasileiro Escravidão, império, religião e papel feminino.

[1] GEBARA, Ivone, Teologia urbana ensaios sobre ética, gênero, meio ambiente e a condição humama.

quinta-feira, 9 de março de 2017

Três mulheres, três países, o mesmo crime: a luta feminina contra a violência do Estado. Artigo de Helena Borges para o The Intercept




The Intercept:

MULHERES FORTES, posicionadas na linha de frente de grupos e movimentos sociais em todo o mundo, seja por bandeiras abertamente feministas ou não. São mães, filhas, irmãs, amigas que se levantam contra as injustiças que tiraram a vida de alguém que elas amavam.
The Intercept Brasil conversou com três mulheres ativistas do Brasil, da Jamaica e dos Estados Unidos, em fevereiro durante um encontro da Anistia Internacional, no Rio de Janeiro. Nos três casos, seus familiares foram vítimas do Estado. A forma como foram mortos e o fracasso da Justiça em responsabilizar os agentes do Estado pelos assassinatos têm um impacto profundo e duradouro sobre essas mulheres, que se tornaram forças-motoras de luta social.
“Naquele dia, tinha 23 policiais militares que estavam em fase de formatura, eles precisavam de diploma para entrar na Polícia Militar, fazer o ‘batismo’. Aquele era o último dia deles. E eles resolveram naquele dia fazer o holocausto do meu filho e o meu também. Eles abordaram Davi, ele estava conversando com uma pessoa, foi comprar alguma coisa às 7h da manhã. A testemunha disse assim: Não, ele mora aqui, é meu vizinho, tem nada a ver com isso não. E ele [o policial] fez: Bom, já que não tem ninguém, vai ele mesmo.”
O caso de Davi Fiúza — jovem de 16 anos sequestrado e morto por agentes da Polícia Militar da Bahia em 2014 — corre até hoje no Ministério Público, que segue prorrogando o prazo de entrega do inquérito desde 2016. Foram acusados 23 policiais, então formandos.
Sua história reflete a de tantos outros jovens, negros, moradores de periferias: o perfil apontado pela Anistia Internacional em seu relatório anual como os mais “desproporcionalmente afetados pela violência por parte de policiais”. Segundo o relatório final da CPI do Senado sobre o Assassinato de Jovens, a cada 23 minutos, um jovem negro é morto no Brasil.
Índices similares se repetem em outros países, onde histórias parecidas com a de Fiuza não cansam de se repetir. Nos Estados Unidos, um jovem negro de 15 a 34 anos corre um risco 9 vezes maior de ser morto pelas mãos de agentes policiais do que os demais. Na Jamaica, entre 2005 e 2013, mais de 200 pessoas foram mortas por policiais a cada ano. No entanto, desde 2000, apenas dois policiais foram julgados culpados por assassinato no país.
“Formamos essa coalizão, e é incrível, porque te dá força, te motiva a continuar. Eu, pessoalmente, sou uma líder. É simplesmente automático, foi intuitivo para mim começar a liderar essas mulheres, a ser a fonte da força delas. Eu sempre fui a fonte de força na minha família, agora sou uma fonte para elas. Porque muitas delas estão destruídas, muitas delas não têm o apoio de suas famílias. Então nós somos a família. Nós nos vemos como irmãs.”
A fala de Marion Gray-Hopkins retrata uma dificuldade que ela mesma observa entre outras mulheres: a dificuldade e a falta de apoio familiar na decisão de militar por uma causa.
A pesquisa “Feminismo e igualdade de gênero pelo mundo” perguntou, entre outras coisas, se as mulheres teriam medo de defender a igualdade de direitos por algo que pudesse acontecer com elas em represália ao ativismo. Foram entrevistadas 17.551 pessoas de 24 países, entre elas 8.822 mulheres. Das brasileiras entrevistadas, 41% disseram ter medo de defender os próprios direitos – a média mundial é de 26%. Dos 24 países participantes, o Brasil ficou em terceiro lugar neste quesito, perdendo apenas para Índia e Turquia.
São dados como este que confirmam a importância de grupos como os formados pelas três entrevistadas que figuram nesta matéria. É da troca de experiências e do apoio em rede, presentes nos relatos das três, que surge a força para buscar justiça.
“Quando você abraça uma mãe que perdeu um filho, tem quase uma transferência de emoções, de força. Não é apenas um abraço, é algo que transcende até a barreira linguística pela qual passei no Brasil. Nós conversamos sem precisar falar muito. Aquele olhar; aquele punho que está cerrado; a maneira como elas te encaram; a maneira como elas te garantem, na forma como acariciam a sua mão, para dizer ‘eu te entendo’. Estamos nessa juntas, mais fortes juntas.”

ENTRE EM CONTATO:

Helena Borgeshelena.borges@​theintercept.com@HelenaTIB

quarta-feira, 8 de março de 2017

Professor Leandro Karnal sobre o Protagonismo da Mulher.... Homenagem ao dia internacional das Mulheres



Do canal Território Conhecimento:



Tema: "Misogenia e o Feminino" - Palestra em comemoração ao Dia Internacional da Mulher, realizado no auditório da Faculdade de Ciências Médicas (FCM) da Unicamp em 07 de março de 2017.

terça-feira, 7 de junho de 2016

Bob Fernandes: A Ventania Feminista inspira as ruas e comanda protestos #ForaTemer


Segue, para reflexão, mais um excelente vídeo (também transcrito) com comentários pertinentes de Bob Fernandes, da TV Gazeta:





Nomeada na sexta-feira, 3, Fátima Pelaes pode vir a ser a Secretaria "Porcina"; aquela que foi sem nunca ter sido. Fátima é acusada de "integrar organização criminosa".

Essa Secretaria, a Nacional das Mulheres, foi criada para tentar diminuir o desastroso impacto do ministério só de homens.

Há uma ventania nas ruas do Brasil que pode se transformar num furacão. A ventania feminista.


Multiplicam-se protestos de Coletivos Feministas. O próximo marcado para quarta-feira, 8, em São Paulo.

Outra vez junho, como em 2013.

Em 2013, demandas por serviços se articulavam país afora. Até tudo explodir a partir de São Paulo, do "Não" aos 20 centavos de aumento para passagens de ônibus.

Neste junho de 2016, ventania gerada pela milenar opressão, humilhação das mulheres.

A luta pelo empoderamento feminino está se tornando um imã. Atrai demais causas e insatisfações, inspira protestos que crescem a cada dia.

Mesmo à revelia, a queda de Dilma impulsiona essa história. Humilhante para a condição de mulher o tom de deboche no "Tchau querida". Grotesca a noitada inaugural do impeachment.

Acompanhada como novela no país onde mulheres, 52% do eleitorado, ocupam apenas 10% das vagas na Câmara. Onde proliferam babás tratadas como escravas.

Deboche agravado pelo ministério misógino. De homens contrários a direitos da mulher duramente conquistados.

Ministério de um governo interino que têm aliados ou simpatizantes como Malafaia, Alexandre Frota, Marco Feliciano, Danilo Gentili, Bolsonaro...

A ventania se espalhou com os bárbaros estupros coletivos no Rio e no Piaui. Num país onde a cada 11 minutos uma mulher é estuprada.

Privar o Palácio da Alvorada de comida, restringir voos de Dilma, proibir a Tv pública de usar a expressão "presidenta"... Cada gesto é mais vento na ventania.

Se nas delações da Odebrecht e OAS Dilma cair de vez, junto com tantos outros, se terá outra questão.

O que há meses está nas "Ocupações", e agora nas ruas deste junho, já é pelo pós tudo isso.

"Junho" deriva de homenagem à deusa Juno. Na mitologia romana, Juno era protetora da Nação, e das mulheres.

sexta-feira, 13 de maio de 2016

A visão do The Guardian sobre o impeachment de Dilma Rousseff: O sistema político deveria estar sendo julgado, não uma mulher

EDITORIAL

A presidente foi derrubada por seus inimigos, mas podem eles dar ao Brasil o novo começo que ele precisa?

Leia o original
O Brasil se meteu em uma terrível confusão e é difícil de ver como vai sair dela. A votação do Senado nessa semana, seguindo a da Câmara dos deputados no mês passado, significa que a presidente Dilma Rousseff está suspensa do cargo e vai ser julgada sob as acusações de manipulação das finanças do país para ganho de vantagem eleitoral.
Que a história da primeira mulher presidente, conhecida por sua participação na resistência à ditadura militar que governou o país até 1985, por sua firmeza sob tortura naqueles dias, e por sua longa associação com Luiz Inácio Lula da Silva, o líder mais popular do Brasil nos tempos modernos e seu antecessor na presidência, tenha atingido esse ponto é uma tragédia pessoal para ela.
Seus próprios erros, os quais até seus defensores entendem que são substanciais, contribuíram para a queda dela. Mas o que está claro é que não é apenas a carreira dela que caiu, mas o sistema democrático brasileiro como um todo. Disfuncional ao ponto onde a corrupção é virtualmente inevitável e a boa governança constantemente impedida, ele funcionou, praticamente, nas mãos hábeis do Lula durante um período de crescimento econômico animado. Lula podia afinar suas adequações e administrar a complexa coalizão a que ele deu origem. No entanto, ele recorreu a corrupção para fazê-lo.
Dilma herdou esse infeliz legado e começou a perder o controle durante um período de declínio econômico, como de corrupção, graças a independência da polícia e da promotoria, foi se tornando um escândalo de proporções cada vez maiores. Preconceito machista contra uma líder mulher, e os ressentimentos de uma direita política nunca totalmente reconciliada pela ascensão do Partido dos Trabalhadores certamente desempenharam os seus papéis. O elemento tóxico final na crise foi a realização por vários políticos que promotores podem, em breve, pegar em sua rede, e que um meio de evitar ou minimizar essa possibilidade seria distrair a atenção e tomar o controle do processo político ao prosseguir o impeachment da chefe de Estado.
Os acertos e erros do caso contra a presidente vão ser debatidos no Senado, atuando como uma corte. Isso envolve, nesse estágio, nenhuma acusação por corrupção, enquanto um considerável número daqueles que votaram pelo impeachment são acusados ou enfrentam investigações por essa ofensa. A ironia é fácil de ver, quando tantos dos acusadores são eles mesmos acusados, e de pecados piores. Por exemplo, Eduardo Cunha, o presidente da Câmara dos deputados, que orquestrou a campanha para o impeachment da presidente, no começo desse mês foi afastado porque ele enfrenta um julgamento por corrupção.
Quem deveria ser julgado e quem não deveria é uma questão importante. Mas o que deveria estar em julgamento, acima de todo o resto, é o falho modelo político brasileiro. A constituição brasileira separa o poder executivo da legislatura mas também, através da maneira que se contam os votos para o congresso, dá origem a uma grande quantidade de partidos políticos.
O resultado é que um presidente que recebeu a maioria dos votos populares enfrenta uma legislatura na qual o partido dele ou dela tem sorte se tiver 20% das cadeiras.
Para governar, o presidente deve fazer acordos que dificultam a execução de políticas e entrega milhares de cargos no governo para os frequentemente incompetentes nomeados pelos partidos políticos. Para piorar a situação, até os grandes partidos não podem levantar dinheiro suficiente de fontes legítimas para campanha em um país enorme com vários níveis de governo. As eleições brasileiras são quase tão caras como são as dos EUA.
Onde encontrar o dinheiro sempre foi uma questão obscura. Mas quando uma mina de ouro na forma de propinas de contratos com a Petrobrás aparece, o PT, seguido por políticos de quase todas as estirpes, toma vantagem. Uma nova administração brasileira deve iniciar mudanças constitucionais radicais que façam a política ser mais praticável e mais honesta. Mas se o novo governo que o vice-presidente, Michel Temer, está montando vai ser capaz de tal salto é, infelizmente, muito duvidável.