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sexta-feira, 25 de janeiro de 2019

O desgaste do governo Bolsonaro e o exílio de Jean Wyllys, por Roberto Bitencourt da Silva




 "Dominação bruta, sem pluralismo, nem apelo e respeito mínimo à heterogeneidade social, econômica e cultural, é o jogo protagonizado pelos setores em torno do reacionário, entreguista e despreparado presidente Jair Bolsonaro. O exercício do poder, assim, tende a tornar-se mais instável do que já é. Os Marinhos sabem muito bem disso. E o seu noticiário atual é reflexo, lembrando às vezes que podem fazer algo parecido com jornalismo."




O desgaste do governo Bolsonaro e o exílio de Jean Wyllys
Por Roberto Bitencourt da Silva, historiador e cientista político.

Tendo em vista as iniciativas que romperam com a soberania popular do voto, em 2016, com o assimétrico pacto interclasses assegurado pela Constituição de 1988, redundando em uma mutação semissilenciosa do regime político, entendo que três grandes ordens de ação e/ou de agentes sociais e políticos podem propiciar, no curso do tempo, senão condições para superar o atual e lastimável estado de coisas que vigora no País, ao menos amenizar os retrocessos e danos aos interesses populares e nacionais, a serem provocados pelo governo Bolsonaro.
Em primeiro lugar, mencione-se a possibilidade de alguma fissura no bloco hegemônico das classes dominantes. No seio das Organizações Globo, por exemplo, que desempenham há tempos papel de intelectual orgânico e coletivo das classes dominantes no Brasil, a dimensão da legitimidade no exercício do poder é decisiva. E legitimidade, envolvendo variáveis como moral, incorporação ou neutralização parcial do descontentamento político etc., é aspecto que se distancia, e muito, do comportamento dos grupos políticos no poder.
Dominação bruta, sem pluralismo, nem apelo e respeito mínimo à heterogeneidade social, econômica e cultural, é o jogo protagonizado pelos setores em torno do reacionário, entreguista e despreparado presidente Jair Bolsonaro. O exercício do poder, assim, tende a tornar-se mais instável do que já é. Os Marinhos sabem muito bem disso. E o seu noticiário atual é reflexo, lembrando às vezes que podem fazer algo parecido com jornalismo.
Ainda no andar de cima da hierarquia social, não seria surpresa alguma atitude de organizações representativas do grosso das exportações brasileiras, especialmente agropecuárias, visando pressões e medidas que influam em alguma potencial reorientação da política externa em vigência – acintosamente servil aos EUA, em consonância com o projeto lesa pátria de incremento do neocolonialismo, desde o golpe de 2016.
Ásia, América Latina, Oriente Médio e África, em conjunto, respondem por cerca de 65% do escoamento das exportações brasileiras.  O “3º mundo”, pois, responde pela maioria das trocas comerciais do nosso País. De modo que, entre outras graves lacunas do agrupamento no poder, falta saber o que é e mirar a balança comercial. Completos analfabetos políticos, sujeitos intelectualmente indigentes, os personagens do bolsonarismo não sabem do que se trata. Em poucos dias o novo e já desgastado governo sofreu retaliação da Liga Árabe, que suspendeu a compra de carne bovina. A seguir assim, arrisca o miserável governo Bolsonaro cair a partir de reunião promovida pelos fazendeiros da UDR... Uma ironia não muito longe da complexidade brasileira.
Em segundo lugar, consistindo na hipótese que o escrevinhador dessas linhas manifesta absoluta preferência, ainda que não veja ensaio mínimo de probabilidade no horizonte de curto prazo, a reorganização e a mobilização das entidades populares e sindicais, poderiam viabilizar, ao menos, a existência de um contrapeso nas lutas políticas, acentuando as lutas sociais promovidas pela enorme ganância das classes dominantes domésticas e transnacionais.
Qualquer resposta política consequente, que não apenas assegure, mas recupere direitos sociais, individuais e econômicos do Povo Brasileiro, como até mesmo os amplie, forçosamente passa, entre outros, pelo movimento sindical. Em particular, pela coordenação das centrais sindicais, para que se realizem ações de impacto dos trabalhadores em escala nacional.
O condomínio do poder no Brasil – fazendeirões, conglomerados multinacionais, banqueiros, especuladores, em geral –, precisa temer a capacidade de ação e escolha das classes trabalhadoras médias e populares. Para isso é requisito elementar a formação de uma identidade política com contornos mais nítidos de classe e de atenção aos interesses nacionais. Algo que somente se faz na luta social, política e econômica. Há anos, as centrais sindicais abdicaram da liderança, abrindo margens para uma frouxa identidade do trabalhador – suscetível a apelos estranhos a seus interesses até mesmo do cotidiano – e para as seguidas perdas de direitos. Mas, com o tempo isso irá mudar.
Uma terceira fonte potencial de desgaste do projeto golpista e entreguista de 2016, articulado com o seu grotesco filhote, o bolsonarismo, é a articulação de denúncias internacionais. Ao seu modo, em conjuntura e, sobretudo, circunstância diferente, o deputado federal Jean Willys, que abdicará do mandato e irá morar no exterior, fez o que o ex-presidente Lula deveria ter feito.
A mudança autocrática de regime político, mais violento e descomprometido ainda com a legalidade, para atender ao propósito maior de intensificação do neocolonialismo, de rebaixamento do já modesto perfil de inserção da economia brasileira na divisão internacional do trabalho, demanda atitude firme de denúncia, por parte dos representantes e líderes políticos de expressão e dotados de responsabilidade. Sobretudo denúncias com capacidade de reverberação global.
O pronunciamento do deputado Wyllys denuncia temores à sua vida, devido ao caráter miliciano/pseudo religioso e irracional do grupo político no poder, em especial a família Bolsonaro. O presidente e um dos filhos chegaram a debochar da tomada de decisão do deputado federal rumo ao exílio. Incrível! Como esse grupo no poder é impressionante e demasiadamente despreparado e incompatível com qualquer noção mínima de Estado de direito, não se dá ao trabalho sequer de disfarçar suas misérias, impressões e comportamentos. Com isso, por óbvio, é bastante plausível que as repercussões externas se farão sentir, no momento, sobre as escolhas e ações do rudimentar governo e das classes dominantes no país.
Diplomacia e comércio internacional, interligados, são vetores poderosos para fazer lembrar certas coisas básicas da convivência social e política e promover a aplicação doméstica de garantias legais aos cidadãos. É comum que enquadrem – para o bem e para o mal, violando soberanias nacionais ou alinhando-as a requisitos civilizatórios mínimos – aspirações e pulsões arbitrárias ou não de lideranças nacionais.
Jean Willys é o primeiro exilado político após o golpe de 2016. De forma ousada, denuncia, com o seu gesto, a apologética e hipócrita ideia que atribui “pleno funcionamento” às instituições brasileiras. Estas longe estão de qualquer coisa que se possa chamar de democracia, mesmo sob a tímida forma liberal e representativa. A voz de Wyllys, mesmo à distância, será importante fonte de denúncia do governo Bolsonaro e do estado de exceção em vigor e que pode ainda ganhar contornos mais nebulosos, fechados e drásticos.  
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Cumpre ainda observar que uma circunstancial aventura bélica contra a Venezuela pode servir como adicional fator de desgaste ao projeto, aos grupos e personagens vende pátria no poder. Mácula terrível para a imagem brasileira, em face dos povos coirmãos latino-americanos, com desgaste em curso, por suas ações “diplomáticas”. Ignóbil docilidade aos interesses golpistas e imperialistas estadunidenses, representantes de um mundo agonizante, que perde terreno para a multipolaridade emergente nas relações internacionais.
Um novo mundo cujos protagonistas em ascensão são dois especiais aliados do governo bolivariano de Nicolás Maduro: China e Rússia. Países que respondem, juntos, por cerca de 30% do comércio exterior brasileiro. A absoluta incapacidade de procurar atender às necessidades reais e gigantescas do País e do Povo, podem levar as classes dominantes e o governo Bolsonaro a optarem irresponsavelmente, como têm feito, pela tentativa de deslocar conflitos para fora do País, visando angariar alguma credibilidade. O preço lhes será muito caro. Muito mesmo.
Roberto Bitencourt da Silva – historiador e cientista político.

sexta-feira, 25 de novembro de 2016

A história marcará o Ministério Público como quem trouxe o terror institucional, por Roberto Tardelli


A história marcará o Ministério Público como quem trouxe o terror institucional

Do site Justificando.- Tempos de horrores e de morte do estado Democrático de Direito. Tempos sombrios, eu era criança quando surgiu o AI-5 e já era um promotor de justiça quando ele se foi, sem deixar – imaginávamos – saudades.
Deixou saudades e deixou marcas. Uma delas é o pacote anticorrupção do Ministério Público Federal, que, dentre outras vergonhas contemporâneas, cria a Comissão para recebimento de denúncias de corrupção, uma espécie de Gestapo, para acossar em nome da moralidade.
Está inaugurada a República dos Delatores – ou então a República dos Reportantes – e estão mais do que lançadas as bases para o país mais perigoso do mundo para se viver. Está feito o serviço sujo a que nem os militares se sujeitaram.
Brasil, o País do Medo. O País da Comissão que vai desmoralizar, constranger, achacar, pressionar, anular, humilhar, expor os inconvenientes. No mais sombrio período stalinista, havia essas comissões no Partido Comunista, que se espalharam pelos países do leste europeu. Era a submissão ou a exclusão, as opções que essas comissões davam.
A Ditadura chegou nos braços do Ministério Público. Chegou nas mãos de quem tem o compromisso constitucionalmente posto de lutar pela democracia. Veio nas mãos do Ministério Público, que fique claro isso, que fique claro que as pessoas que saíram ingenuamente às ruas pedindo adesão a um abaixo-assinado que não compreendiam foram enganadas, foram traídas.
Elas queriam apenas que alguém combatesse a corrupção que nos inferniza – ou que nos foi posto goela abaixo que nos inferniza mais que o fosso da desigualdade econômica – e obtiveram uma tirania, uma ditadura em que não mais existe um ditador, personalista e egocêntrico, mas incontáveis pequenos tiranos, egóicos e narcísicos, que vão destilar arbítrio por onde passarem.
Não serão todos os promotores nem todos os procuradores, apenas os mais proeminentes, apenas o que se acham cheios de brilho, apenas os que vão comandar os destinos do Ministério Público, explicita ou nas sombras da floresta obscura do Poder.
Os que não suportarem serão perseguidos; antes, serão desmoralizados. Depois, perseguidos, serão punidos; a ira santa irá queimá-los nos corredores. A fúria purificadora dos samurais irá estimular a deduragem, o denuncismo, irá estimular que se poderá ganhar uma grana a mais, que para ganhar uma grana a mais, bastará denunciar, bastará denunciar como se estivesse em uma pescaria, uma hora o peixe da recompensa pelo dedurismo vai chegar e o carro será trocado. É uma canalhice jurídica sem tamanho.
O dedo-duro recebe nome de ficção científica: reportante. Vale repetir, esse será o mau caráter do Séc. XXI, protegido por lei, o primeiro canalha a ser protegido por lei, o reportante, o canalha intocável, intangível, superior aos que não foram canalhas. A canalhice será virtuosa, se for em nome do Bem; se os canalhas se proliferarem, todos reportarão todos e quem quiser um esparadrapo em um posto de saúde haverá de suplicar de joelhos por isso.
Digo aliviado: não mais pertenço aos quadros da Instituição que traiu o país, o povo, a democracia, que conspirou contra a democracia, que trouxe o terror de estado, o medo institucional, que transformou esse país em um lugar em que canalhas serão celebrados como heróis.

Os indesejáveis e os inconvenientes vão sentir a perseguição

Não haverá privacidade, intimidade a ser respeitada, eis que o interesse público será superior a tudo isso e o telefone será a corda que envolverá o pescoço e a tecnologia, maravilhosa para libertar, será usada para oprimir. O Grande Irmão está na aristocracia do serviço público.
O amigo, a amiga está se divertindo com a delação premiada, que todos os dias anima o Jornal Nacional e alimenta a VEJA? Pois bem, a maioria de vocês nem faz idéia do que seja, nunca viu essa banda tocar, mas gosta e se deleita vendo gente ser presa, político é tudo ladrão.
O que você não sabe é que a delação é um acordo, um negócio, que pode ser extremamente lucrativo se for feito com uma dose mínima de pragmatismo bilateral.
Esse acordo, my friends, é feito sem que se conheçam as tratativas, muito embora versem sobre dinheiro público, ninguém, salvo os diretamente envolvidos, sabem o que rola nas conversas, o que é prometido, o que é incluído e o que é tirado. A prisão é um horror e a delação é a chave da cadeia. Não há nenhum registro de como se operam essas delações, essas conversas. O nome disso é Justiça Negocial, isso, a Justiça vira uma mercadoria a ser transacionada, vendida, trocada, vira um carrinho usado, posto num feirão de domingo.
O Ministério Público é o dono do armazém, onde se barganham informações, penas, em outro nome legal prá coisa, plea bargain, que nos habituamos a ver nos filmes americanos e que se tornou a pior experiência jurisdicional do mundo ocidental. Por quê? Porque nossos Bravos Rapazes Americanos são líderes em prisões e nem por isso diminuiu-se a criminalidade por lá.
Parece um pesadelo. Não é. Aos amigos e amigas, digo honestamente que a democracia sofreu o mais duro golpe dos últimos trinta anos, ou mais até. Democracia que amanhecerá bem menor, amanhecerá quase morta, olhando pra gente, com o olho que sobrou, pedindo socorro. Socorro.
O estado, desgraçadamente, é muito grave
Roberto Tardelli é Advogado Sócio da Banca Tardelli, Giacon e Conway. Procurador de Justiça do MPSP Aposentado.

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2016

Trecho do filme hindo-americano Kurbaan, de 2009, faz pensar (acima do discurso comprometido da mídia convencional) sobre as reais causas do "terrorismo" islâmico...




Veja um trecho do filme Kurban, de 009, e reflita sobre as reais causas e interesses que deflagraram  as diferentes célular terroristas no Oriente Médio... (fonte do vídeo: Nossa Época)



terça-feira, 24 de novembro de 2015

Contra o terrorismo e a guerra, a necessidade de uma cultura da paz, uma reflexão de Leonardo Boff



Texto de Leonardo Boff

Os fatos recentes de terrorismo e a declaração de guerra dos países ocidentais ao Estado Islâmico suscita de forma tenebrosa o fantasma da guerra moderna com grande capacidade de destruição. Nestas guerras apenas 2% dos mortos são soldados. Os demais são civis, especialmente mulheres e crianças inocentes. o que mostra o nível de barbárie a que chegamos. Os aviões militares atuais parecem figuras apocalípticas, carregadas de bombas que matam pessoas, destroem construções e danificam a natureza.

Precisamos ter presente que a cultura dominante, hoje mundializada, se estrutura ao redor da vontade de poder que se traduz por vontade de dominação da natureza, do outro, dos povos e dos mercados. Essa é a lógica dos dinossauros que criou a cultura do terrorismo, da guerra, da insegurança e do medo.

Por causa do terrorismo, atualmente, os EUA e a Europa são reféns do medo. A persistirem as atuais tensões, nunca mais terão paz. Todos necessitam sentar juntos, dialogar, chegar a convergências, por mínimas que sejam, convergências nas diferenças, caso quisermos desfazer os mecanismos que geram permamentemente espírito de vindita e de atos de terror ou de guerra.

Praticamente em todos os países as festas nacionais e seus heróis são ligados a feitos de guerra e de violência. Os meios de comunicação levam ao paroxismo a magnificação de todo tipo de violência, bem simbolizado nos filmes de Schwazenegger como o “Exterminador do Futuro”. Grande parte das películas atuais abordam temas de violência a mais absurda; até o contos infantis são contaminados pela ideia de destruição e de guerra.

Nessa cultura o militar, o banqueiro e o especulador valem mais do que o poeta, o filósofo e o santo. Nos processos de socialização formal e informal, ela não cria mediações para uma cutura da paz. E sempre de novo faz suscitar a pergunta que, de forma dramática, Einstein colocou a Freud nos idos de 1932: é possivel superar ou controlar a violência? Freud, realisticamente, responde: “É impossível aos homens controlar totalmente o instinto de morte…Esfaimados pensamos no moinho que tão lentamente mói que poderíamos morrer de fome antes de receber a farinha”. Mas não se entregava à resignação. Afirmava que os processos civilizatórios, a educação, a democracia, o esporte, o respeito aos direitos humanos e o cultivo de valores éticos podem diminui-lhe a destrutividade.


Sem detalhar a questão, tentemos aprofundar um pouco a questão da violência, um desafio para toda a inteligência. Diríamos que por detrás da violência funcionam poderosas estruturas. A primeira delas é o caos sempre presente no processo cosmogênico. Viemos de um caos originário, uma incomensurável explosão, o big bang. E a evolução é um processo que procura pôr ordem neste caos destrutivo e fazê-lo generativo na medida em que se dá o processo cosmogênico no decorrer de bilhões de anos. O próprio universo, por isso, comporta violência em todas as suas fases, embora sempre criando sistemas mais ordenados que permitem ascensões rumo a formas mais elevadas e harmônicas de organizão.

São conhecidas cerca de 15 grandes dizimações em massa, ocorridas aa Terra, há milhões de anos atrás. Na última, há cerca de 65 milhões de anos, pereceram todos os dinossauros após reinarem, soberanos, 133 milhões de anos. A expansão do universo possui também o significado de originar ordens cada vez mais complexas e, por isso também menos violentas. Possivelmente a própria inteligência nos foi dada para pormos limites à violência e conferir-lhe um sentido construtivo.

Em segundo lugar, somos herdeiros da cultura patriarcal que instaurou a dominação do homem sobre a mulher e criou as instituições do patriarcado assentadas sobre mecanismos de violência como o Estado, as classes, o projeto da tecno-ciência, os processos de produção como objetivação da natureza e sua sistemática depredação.

Em terceiro lugar, essa cultura patriarcal gestou a guerra como forma de resolução dos conflitos. Sobre esta vasta base se formou a cultura do capital, hoje globalizada; sua lógica é a competição e não a cooperação, por isso, gera guerras econômicas e políticas e com isso desigualdades, injustiças e violências.       Todas estas forças se articulam estruturalmente para consolidar a cultura da violência que nos desumaniza a todos.

A essa cultura da violência há que se opôr a cultura da paz. Hoje ela é imperativa pois há cerca de 80 focos de guerra, de maior ou menor intensidade, no mundo, a ponto de o Papa Francisco ter se referido, por várias vezes, que estamos dentro de uma terceira guerra mundial que acontece parceladamente.

É imperativa, porque as forças de destruição estão ameaçando, por todas as partes, o pacto social mínimo sem o qual regredimos a níveis de barbárie. É imperativa porque o potencial destrutivo já montado pode ameaçar toda a biosfera e impossibilitar a continuidade do projeto humano. Ou limitamos a violência e fazemos prevalecer o projeto da paz ou conheceremos, no limite, o destino dos dinossauros.

Onde buscar as inspirações para cultura da paz? Mais que imperativos voluntarísticos, é o próprio processo antroprogênico a nos fornecer indicações objetivas e seguras. A singularidade do 1% de carga genética que nos separa dos primatas superiores reside no fato de que nós, à distinção deles, somos seres sociais e cooperativos. Ao lado de estruturas de agressividade, comparecemos como seres de cuidado, principalmente da vida; temos capacidades de afetividade, com-paixão, solidariedade e amorização. Hoje é urgente que desentranhemos tais forças para conferir rumo mais benfazejo à história. Toda protelação é insensata.

O ser humano é o único ser que pode intervir nos processos da natureza e co-pilotar a marcha da evolução. Ele foi criado criador. Dispõe de recursos de re-engenharia da violência mediante processos civilizatórios de contenção e uso de racionalidade. A competitividade continua a valer mas no sentido do melhor e não de destruição do outro. Assim todos ganham e não apenas um.

 Há muito que filósofos da estatura de Martin Heidegger, resgatando uma antiga tradição que remonta aos tempos de César Augusto, vêem no cuidado a essência do ser humano. Sem cuidado ele não vive nem sobrevive. Tudo precisa de cuidado para continuar a existir. Cuidado representa uma relação amorosa para com a realidade. Onde vige cuidado de uns para com os outros desaparece o medo, origem secreta de toda violência, como analisou Freud.

A cultura da paz começa quando se cultiva a memória e o exemplo de figuras que representam o cuidado e a vivência da dimensão de generosidade que nos habita, como Francisco de Assis, Gandhi, Dom Helder Câmara, Luther King Jr, o Papa Francisco e outros. Importa fazermos as revoluções moleculares (Gatarri), começando por nós mesmos. Cada um estabelece como projeto pessoal e coletivo a paz e os sentimentos de paz. Els resulta dos valores da cooperação, do cuidado, da com-paixão e da amorosidade, vividos cotidianamente.

Fonte riquíssima de paz é o cultivo da espiritualidade como vem expressa na belíssima oração pela paz de São Francisco de Assis. As religiões, não raro, produzem guerras. As espiritualidades, paz e convivência pacífica entre os povos. Elas trabalham mais experiências fundamentais interiores de encontro com a Divindade, com o Sagrado, ou pouco importam os nomes, com uma Realidade Suprema de sentido. As doutrinas e as instituições religiosas gozam de valor secundáro, às vezes mais dificultam a experiência profunda do que a promovem.

A paz não é apenas uma meta a ser buscada mas também um caminho a ser seguido. Só um caminho de paz gera paz serena e permanente. Ao se “queres a paz prepara a guerra” devemos com determinação opor: “se queres a paz prepara a paz”.

 Leonardo Boff é teólogo, escritor e autor de A oração de S.Francisco, uma mensagem de paz para o mundo atual.

sábado, 21 de novembro de 2015

O Ocidente escolheu o pior caminho: a guerra



Segue, para reflexão, texto de Leonardo Boff

Seguramente são abomináveis e de todo rejeitáveis os atentados terroristas perpetrados no último dia 13 de novembro em Paris por grupos terroristas de extração islâmica. Tais fatos nefastos não caem do céu. Possuem uma pré-história de raiva, humilhação e desejo de vingança.
Estudos acadêmicos feitos nos USA evidenciaram que as persistentes intervenções militares do Ocidente com sua geopolítica para a região e a fim de garantir o suprimento do sangue do sistema mundial que é o petróleo, rico no Oriente Médio, acrescido ainda pelo fato do apoio irrestrito dado pelos USA ao Estado de Israel com sua notória violência brutal contra os palestinos, constituem a principal motivação do terrorismo islâmico contra o Ocidente e contra os USA (veja a vasta literatura assinalada por Robert Barrowes: Terrorism: Ultimate Weapon of the Global Elite en seu site: War is a Crime.org).
A resposta que o Ocidente tem dado, a começar com George W. Bush, agora retomado vigorosamente por François Hollande e aliados europeus mais a Rússia e os EUA é o caminho da guerra implacável contra o terrorismo seja interno na Europa seja externo contra o Estado Islâmico na Síria e no Iraque. Mas esse é o pior dos caminhos, como criticou Edgar Morin, pois guerras não se combatem com outras guerras nem o fundamentalismo com outro fundamentalismo (o da cultura ocidental que se presume a melhor do mundo e com o direito de ser imposta a todos).
A resposta da guerra que, provavelmente, será interminável pela dificuldade de derrotar o fundamentalismo ou grupos que decidem fazer de seus próprios corpos bombas de alta destruição, insere-se ainda no velho paradigma pré-globalização, paradigma enclausurado nos estados-nações, sem se dar conta de que a história mudou e tornou coletivo o destino da espécie humana e da vida sobre o planeta Terra. O caminho da guerra nunca trouxe paz, no máximo alguma pacificação, deixando um lastro macabro de raiva e de vontade de vindita por parte dos derrotados que nunca, na verdade, serão totalmente vencidos.
O paradigma velho respondia guerra com guerra. O novo, da fase planetária da Terra e da Humanidade, responde com o paradigma da compreensão, da hospitalidade de todos com todos, do diálogo sem barreiras, das trocas sem fronteiras, do ganha-ganha e das alianças entre todos. Caso contrário, ao se generalizar as guerras cada vez mais destrutivas, poderemos pôr fim a nossa espécie ou tornar a Casa Comum inabitável.
Quem nos garante que os terroristas atuais não se apropriem de tecnologias sofisticadas e comecem a usar armas químicas e biológicas que, por exemplo, colocadas nos reservatórios de água de uma grande cidade, acabe produzindo um dizimação sem precedentes de vidas humanas? Sabemos que estão se habilitando para montar ataques cibernéticos e telemáticos que podem afetar todo o serviço de energia de uma grande cidade, dos hospitais, das escolas, dos aeroportos e dos serviços públicos. A opção pela guerra pode levar a estes extremos, todos possíveis.
Devemos tomar a sério o que sábios nos alertaram como Eric Hobswbam ao concluir seu conhecido A era dos extremos: o breve século XX (1995:562):”O mundo corre o risco de explosão e implosão; tem que mudar…a alternativa para a mudança é a escuridão”. Ou então do eminente historiador Arnold Toynbee, depois de escrever dez tomos sobre as grandes civilizações históricas, nos vem esta advertência em seu ensaio autobiográfico Experiências(1969:422):” Vivi para ver o fim da história humana tornar-se uma possiblidade intra-histórica, capaz de ser traduzida em fato não por um ato de Deus mas do próprio homem”.
O Ocidente optou pela guerra sem trégua. Mas nunca mais terá paz e viverá cheio de medo e refém de possíveis atentados que são a vingança dos islâmicos. Oxalá não se realize o cenário descrito por Jacques Attali em seu Uma breve história do futuro (2008): guerras regionais, numa espécie de balcanização do mundo, são cada vez mais destrutivas a ponto de ameaçarem a espécie humana  . Aí a humanidade, para sobreviver, pensará numa governança global com uma hiiperdemocracia planetária. Será a última oportunidade que impedirá no mergulho num abismo que não conhece volta.
O que se impõe, assim nos parece, é o reconhecimento da existência de fato de um Estado Islâmico e em seguida formular uma coligação pluralista de nações e de meios diplomáticos e de paz para criar as condições de um diálogo para pensar o destino comum da Terra e da Humanidade.
Receio que a arrogância típica do Ocidente, com sua visão imperial e ao se julgar em tudo melhor, não acolha esse percurso pacificador mas prefira a guerra. Então torna a ganhar significado a sentença profética de M. Heidegger, conhecida depois de sua morte:” Nur noch ein Gott kann uns retten: então somente um Deus nos poderá salvar”.
Não devemos ingenuamente esperar a intervenção divina, pois o nosso destino está entregue à nossa responsabilidade. Seremos o que decidirmos: uma espécie que preferiu se auto-exterminar a renunciar à sua vontade absurda de poder sobre todos e sobre tudo ou então forjarmos as bases para uma paz perpétua (Kant) que nos conceda viver diferentes e unidos, na mesma Casa Comum.
Leonardo Boff é articulista do Jornal do Brasil on line, ecoteólogo e escritor.

segunda-feira, 3 de agosto de 2015

Os idiotas perderam a modéstia



"Os idiotas perderam a modéstia e hoje estão por aí. Alguns presidem e exercem podres poderes. Outros hegemonizam a mídia e alguns agridem pessoas nas ruas por usarem vermelho.
Idiotas interrompem, aos berros, momentos familiares de ex-ministros em restaurantes e há aqueles que mandam prender ilegalmente e posam de salvadores da pátria. Outro dia, na fila da padaria da minha quadra, um desses exemplares exibia suas plumas vociferando contra o governo, o PT e contra toda essa “corrupção”, mantras de ódio político. Procurava, ao certo, alguém para brigar ou extravasar a sua estultice. Poderia ser um petista, um nordestino ou um gay. O sono da razão produz monstros, nos dizia Goya."

Os idiotas perderam a modéstia, soltam bombas na madrugada e atropelam vendedores de doces em Madureira
Por Patrick Mariano - advogado, doutorando em Direito, Justiça e Cidadania no século XXI na Universidade de Coimbra, Portugal; mestre em direito, estado e Constituição pela Universidade de Brasília, integrante da Rede Nacional de Advogados e Advogadas Populares-Renap
Texto extraído do site da revista Caros Amigos
Adílio Cabral dos Santos, 33 anos, vendedor ambulante de doces e balas nos trens do Rio de Janeiro, morreu na contramão atrapalhando o tráfego.
Ao fugir da fiscalização, junto com seus colegas de trabalho, foi atropelado por um trem, enquanto corria por entre os trilhos da estação Madureira. Ele caiu e lá ficou. Por ordem da empresa, outro trem que vinha em sua direção passou por cima de seu corpo para que não houvesse interrupção do fluxo.
Adílio dos Santos cumpriu sua sina. Sina de uma vida indigna de ser vivida para o capitalismo. A empresa, entre proporcionar atendimento médico para o ambulante ou mandar que o trem passasse por cima de seu corpo, não titubeou e deixou que aquela máquina de milhares de toneladas estraçalhasse seus ossos. “A dignidade morreu no horário de pico”, título belíssimo da jornalista María Martín, resume bem. Só ousaria acrescentar que a nossa própria dignidade foi estraçalhada também naquele mesmo horário.
Cláudia e Adílio são retratos, molduras vivas do desrespeito à dignidade da pessoa humana e do caminho perigoso pelo qual percorre a sociedade brasileira rumo sabe-se lá para onde
Tragédias sociais como a que vitimou Adílio tem se tornado frequentes. Recentemente, fez um ano da morte da auxiliar de limpeza Claudia Silva Ferreira, 38 anos. Atingida por um tiroteio entre policiais e traficantes numa favela do Rio de Janeiro, seu corpo foi trancado num porta-malas da viatura da Polícia Militar que se abriu. O corpo de Cláudia foi arrastado e dilacerado por 350 metros, à vista de todos, em plena luz do dia.
Cláudia e Adílio são retratos, molduras vivas do desrespeito à dignidade da pessoa humana e do caminho perigoso pelo qual percorre a sociedade brasileira rumo sabe-se lá para onde.
Podres Poderes
Os idiotas perderam a modéstia e hoje estão por aí. Alguns presidem e exercem podres poderes. Outros hegemonizam a mídia e alguns agridem pessoas nas ruas por usarem vermelho.
Idiotas interrompem, aos berros, momentos familiares de ex-ministros em restaurantes e há aqueles que mandam prender ilegalmente e posam de salvadores da pátria. Outro dia, na fila da padaria da minha quadra, um desses exemplares exibia suas plumas vociferando contra o governo, o PT e contra toda essa “corrupção”, mantras de ódio político. Procurava, ao certo, alguém para brigar ou extravasar a sua estultice. Poderia ser um petista, um nordestino ou um gay. O sono da razão produz monstros, nos dizia Goya.
A ironia da história é que esse sono da racionalidade tenha surgido dentro de um projeto de poder de centro esquerda, depois de décadas de construção de uma proposta libertária desde as comunidades eclesiais de base, sindicatos, movimentos sociais, ex-presos políticos, bancários e trabalhadores.
O PT achou – por inocência ou comodismo – que fosse possível transformar uma sociedade extremamente desigual, com sinais claros de ranços escravocratas e formada em cima do manto sagrado dos latifúndios, com uma política de conciliação de classes, sem enfrentar temas cruciais como a regulação da mídia, sistema de justiça, reforma política e agrária.
Vácuo
Quando Dilma assume e faz um medíocre primeiro mandato, mesmo tendo altos índices de aprovação durante grande parte dele não assumindo nenhuma grande questão nacional, sem ousar em nada, com um ministério calado, inoperante e sem cor, já se desenhava, portanto, os sinais de que esse vácuo poderia trazer um custo.
A eleição foi uma janela histórica para uma guinada que por medo ou incapacidade política não veio. Ao contrário, o que veio foi uma desastrosa política econômica de austeridade e rentista. O vácuo de poder só se fez aumentar. Essa inação dos últimos governos petistas permitiu o ressurgimento e protagonismo de um conservadorismo que sempre existiu, mas que como vulcão adormecido esperava a sua hora.
Sei que essa análise é praticamente chover no molhado, mas não há como não dimensioná-la como um dos fatores para que chegássemos ao sono da razão.
A rádio Jovem Pan abriu espaço para exemplares perfeitos da imbecilidade humana que ocupam os horários mais nobres da programação para estimular o ódio contra sem qualquer limite ético. A TV aberta com seu jornalismo mundo cão transmite ao vivo, às 18 horas, execuções de pessoas e nenhuma autoridade sequer faz algo contra isso.
No Congresso Nacional se reduz a maioridade penal e há até quem defenda a morte, no útero, de bebês que forem propensos ao crime.
Os grandes pactos da humanidade foram firmados após tragédias sociais de imensas proporções. São textos que refletem um ideal de vida para todas as pessoas. A dignidade da pessoa humana tem um relevo fundamental em todos esses textos e na nossa Constituição da República. É a própria essência de um regime democrático.
O capitalismo, depois de 1989, reina absoluto no mundo e desde então há quem defenda o fim da história, um game over para o aprofundamento da democracia e para o avanço dos direitos e garantias fundamentais.
Essa forma de produção banaliza a vida humana, aprofunda a desigualdade e não dá conta de resolver os principais problemas das sociedades atuais. Estimula a formação de idiotas sociais que acreditam na meritocracia, criticam a corrupção do governo, mas sempre que viajam ao exterior cometem pequenos crimes tributários. Ouvem Jovem Pan, disseminam o ódio nas redes sociais e compartilham textos de Danilo Gentili.
Semana passada atacaram a sede do Instituto Lula com uma bomba. A ação, covarde, poderia ter matado uma pessoa que passasse pela rua, um segurança do prédio ou o próprio ex-presidente se estivesse saindo do trabalho após as inúmeras reuniões que realiza.
Os idiotas perderam a vergonha, soltam bombas na madrugada e passam com trens em cima do corpo de trabalhadores.

sábado, 1 de agosto de 2015

Rodrigo Viana sobre a movimentação terrorista insuflada por uma mídia tendenciosa



Na história da humanidade foi sempre assim: o ódio das bombas é precedido pelo ódio das palavras.
O Instituto Lula, em São Paulo, acaba de ser atacado por uma bomba caseira, lançada durante a noite. Percebam a gravidade da situação. Imaginem um Instituto Clinton, ou Instituto Chirac, ou ainda o Instituto FHC atacado de forma violenta. Um escândalo. Um ataque à democracia.

O ataque a Lula: o ódio das bombas foi precedido pelo ódio das palavras em revistas e blogs


por Rodrigo Vianna - Portal Fórum
Na história da humanidade foi sempre assim: o ódio das bombas é precedido pelo ódio das palavras.
O Instituto Lula, em São Paulo, acaba de ser atacado por uma bomba caseira, lançada durante a noite. Percebam a gravidade da situação. Imaginem um Instituto Clinton, ou Instituto Chirac, ou ainda o Instituto FHC atacado de forma violenta. Um escândalo. Um ataque à democracia.
No entanto, é preciso colocar o guizo no gato: a bomba demente foi precedida pelo ódio disseminado há anos e anos, por blogueiros, colunistas e revistas que se transformaram em panfletos do ódio e da mentira.
A polícia precisa dizer quem lançou a bomba no prédio, no bairro do Ipiranga. Não sabemos a identidade do criminoso. Mas sabemos bem quem disseminou o ódio que produziu o demente do Ipiranga. São as pessoas sentadas atrás dos teclados, em redações, bem pagas para propagar um clima de confronto e de extermínio de toda uma comunidade política.
Você não precisa gostar do Lula e do PT para entender que algo está errado. Estamos em meio a uma escalada autoritária. Que pode virar, sim, um surto fascista.
A escalada autoritária: querem exterminar todo um campo político
A escalada autoritária: querem exterminar todo um campo político
O demente que lançou a bomba contra o Instituto Lula foi precedido por colunistas, blogueiros e pelo bando de dementes que – nas redes e nas ruas – espalham o ódio, tratam os adversários como “facção criminosa” e alinham-se com o que o mundo produziu de pior no século XX: o fascismo.
Nas manifestações de março de 2015, alguns jovens kataguris chegaram a pedir abertamente que o PT seja cassado, proscrito, proibido. Claro, a lógica é essa: se do outro lado estamos lidando com “uma quadrilha” (como dizem parlamentares tucanos, como o tresloucado Carlos Sampaio), não é mais preciso disputar politicamente. A lógica é destruir o adversário, apagá-lo, exterminá-lo.
O ataque ao Instituto Lula é terrível. Mas deve servir para trazer os tucanos e conservadores mais lúcidos á razão. É preciso frear essa escalada que os serras ajudaram a criar, insuflando blogueiros e jornalistas de longa carreira a disseminar o ódio nas redes sociais.
Pronto, chegamos até aqui. O ódio deu as caras definitivamente.
É preciso dizer: os democratas, a turma da esquerda, dos sindicatos, universidades e organizações populares não vai assistir a isso impassível. Se insistirem na tática do ódio, vai sobrar pra todo mundo.
É preciso isolar a direita fanática, é preciso trazer os centristas para o combate em defesa da democracia.
Colunistas e blogueiros dementes, ligados à revista da marginal e a organizações de comunicação que floresceram na ditadura, produziram gente suficientemente demente para lançar bombas de madrugada.
Chegamos até aqui. Agora está na hora de traçar uma linha no chão.
Quem está do lado de cá vai se defender. Prioritariamente, com palavras, com argumentos e política. Mas, se preciso, também com atos e capacidade de luta.
Não brinquem com a democracia no Brasil!

terça-feira, 10 de março de 2015

Terrorismo, mentiras, manipulações e pedofilia no Sistema Globo de Comunicação


Segue texto de J. Carlos de Assis, economista e jornalista, extraído da Carta Maior:

Terrorismo, mentiras e pedofilia 

na pedagogia do Sistema Globo

Para o Sistema Globo de desinformação não há nenhuma regra moral, nenhuma regra de conveniência, nenhuma regra de respeito que norteie seu jornalismo



reprodução
Graças a Deus não temos terroristas no Brasil. Se tivéssemos, e se fossem do tipo dos que metralharam os cartunistas do Charlie Hebdo, em Paris, há semanas, algum jihadista revoltado com a charge do último domingo de Chico Caruso, no Globo, talvez resolvesse por em prática sua sugestão: cortar a cabeça, fisicamente, da Presidenta Dilma Roussef em nome de alguma guerra santa genérica, lembrança do lacerdismmo, contra a corrupção, mesmo depois de se tornar público que a Presidenta não foi sequer investigada na Lava Jato.

A liberdade “sem limites” do chargista brasileiro, que se denomina dois em um por causa do irmão gêmeo, é da mesma espécie da dos franceses. Não há nenhuma regra moral, nenhuma regra de conveniência, nenhuma regra de respeito à liberdade do outro que se contraponham ao sagrado direito de livre expressão. A cruzada, não só do Globo mas de toda a grande mídia escrita brasileira, assim como da maioria das televisões, é no sentido de enxovalhar a vida privada e pública dos cidadãos em nome da liberdade de imprensa.

Ah, dizem eles, as pessoas tem o direito de ir à Justiça para reclamar contra injúria, calúnia e difamação praticadas pela imprensa! Mas como, se elas coincidem com a publicação da ofensa? Além disso, na maioria dos casos, a Justiça se sente intimidada pelo poderio dos jornais, revistas e televisões, que se protegem reciprocamente quando não entram em cadeia privada para denegrir a imagem de alguém ou quando, como nesse caso, chegam à beira da própria exaltação do terrorismo? Não seria o da imprensa o verdadeiro terrorismo?

Tenho mais de 35 anos de jornalismo e jamais vi, exceto às bordas de 64, neste caso pela ação extremada de ação e reação ao lacerdismo, uma situação política tão exacerbada. A culpa é exclusivamente da imprensa. Depois dos anos de chumbo da ditadura – que durante muitos anos, por orientação de um livro de Fernando Henrique, chamei “carinhosamente” de autoritarismo -, a imprensa se posicionou crescentemente do lado oposto, num movimento dialético pendular da história, caracterizado por extremos dos dois lados.

Creio que chegamos ao momento da síntese que é o resultado de uma interação dinâmica entre opostos. Momentos como esse costumam ser caóticos. Na Teoria do Caos, ou pela Segunda Lei da Termodinâmica, a superação de situações como esta implica a completa degeneração do velho. Em outras palavras, é o momento da depuração do Executivo, do Legislativo e, por que não, do Judiciário. Os dois primeiros já estão sendo depurados; no caso do Judiciário, convém apoiar a iniciativa do Senador Renan para uma CPI do Ministério Público.

O jihadista que, pela mão de Chico Caruso, pretendeu degolar Dilma, não representa o povo brasileiro. Ela, como todo mundo, tem pontos fracos e fortes. No curto prazo, enquanto Presidenta eleita legitimamente, ela terá de se valer de todos os seus pontos fortes para tirar o Brasil do caos. Acho que tem competência para isso. E é o que vamos demonstrar, no dia 13, na Cinelândia, e estendendo-se até a Av. Chile, num comício em defesa da Petrobrás, da Engenharia Nacional e de uma política verdade de cunho social-desenvolvimentista.

A propósito, antes de terminar: onde estavam os irmãos Caruso quando  Dilma era torturada de verdade nos porões da ditadura militar? Estavam aprendendo a desenhar? Ou estariam ensinando desenho para quem fez a legenda da camiseta  de Luciano Huck, “vem nimim que tô facim”, exibida publicamente por uma menina de uns 12 anos no seu programa da Globo - num caso que, se não fosse de gente dela, a Globo descreveria como exaltação da pedofilia? Será que essa TV tem dono para responder por isso? Se tiver, vale a pena aplicar nele a jurisprudência nazista do “domínio do fato”,  invocada por Joaquim Barbosa e tão exaltada pela Globo no caso do mensalão!

*Jornalista, economista, doutor em Engenharia da Produção pela Coppe/RJ, autor de mais de 20 livros sobre Economia Política, sendo o mais recente “A Razão de Deus”, pela Civilização Brasileira.

terça-feira, 13 de janeiro de 2015

Je suis Baga, Je suis Africa




 No último dia 08 de janeiro, um imenso massacre ocorreu no nordeste da Nigéria, efetuado pelos extremistas radicais do Boko Haram. Ao todo, 16 povoados foram massacrados, com incontáveis inocentes mortos. A Anistia Internacional informou que os ataques, realizados principalmente em Baga (estado de Borno) e cidades vizinhas, podem ter sido os “mais mortais do Boko Haram em um catálogo de ataques cada vez mais hediondos realizadas pelo grupo”. Onde está a comoção internacional diante deste massacre? Ou será que, na prática, o fato é de que a África não tem pessoas, ou que negros não valem tanto? Ou de fato, a midia apenas retrata o que é imposto pelo neoliberalismo: a vida só vale naquilo que represente ou se associe ao poder econômico?

sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

O terrorismo, a extrema-direita e o suicídio europeu, segundo Flávio Aguiar






O ato terrorista contra os jornalistas do Charlie Hebdo é apenas a ponta do iceberg. A Europa inteira está assentada sobre uma bomba-relógio.

O texto a seguir, de Fláviio Aguiar, foi retirado da Carta Maior:

O terrorismo, a extrema-direita e o suicídio europeu


Flávio Aguiar

O ato terrorista contra os jornalistas do Charlie Hebdo francês, em Paris, que também provocou a morte de um funcionário da revista, de dois policiais no ato e possivelmente de mais um em tiroteio posterior, é apenas a ponta de um iceberg.

A Europa inteira está assentada sobre uma bomba-relógio. Não é uma bomba comum, porque casos como o do Charlie Hebdo mostram que ela já está explodindo. Nas pontas da bomba estão duas forças antagônicas, com práticas diferentes, porém com um traço em comum: a intolerância herdeira dos métodos fascistas de antanho.

De um lado, estão pessoas e grupos fanatizados que reivindicam uma versão do islamismo incompatível com o próprio Islã e o Corão, mas que agem em nome de ambos. Os contornos e o perfil destes grupos estão passando por uma transformação – o que aconteceu também nos Estados Unidos, no atentado em Boston, durante a maratona, e no Canadá, no ataque ao Parlamento, em Ottawa.

Cada vez mais aparecem “iniciativas individuais” nas ações perpetradas. Este tipo de terrorismo se fragmentou em pequenos grupos – muitas vezes de familiares – que agem “à la cria”, como se dizia, em ações que parecem “espontâneas” e até “amalucadas”, mas que obedecem a princípios e uma lógica cuja versão mais elaborada, para além da “franquia” em que a Al-Qaïda se transformou, é o Estado Islâmico que se estruturou graças à desestruturação do Iraque e da Síria. São fanáticos que negam a política consuetudinária como meio de expressão de reivindicações e direitos: negam, no fundo, a própria ideia de “direitos”, inclusive o direito à vida, como fica claro no gesto assassino que vitimou o Charlie Hebdo.

Do outro, estão os neofascistas – ou antigos redivivos – que se agarram à bandeira do anti-islamismo também fanático como meio de arregimentar “as massas” em torno de si e de suas propostas. Agem de acordo com as características próprias dos países em que atuam, mobilizando, de acordo com as circunstâncias, as palavras adequadas. No Reino Unido, criaram o United Kingdom Independence Party – UKIP, Partido da Independência do Reino Unido, nome malandro que oculta e ao mesmo tempo carrega a ojeriza pela União Europeia. Na França têm a Front Nationale da família Le Pen, que mobiliza o velho chauvinismo francês que lateja o tempo todo desde o caso Dreyfus, ainda no século XIX. Na Alemanha é feio ser nacionalista alemão, desde o fim da Segunda Guerra. Então criou-se um movimento – PEGIDA – que se declara de “Patriotas Europeus contra a Islamização do Ocidente”, procurando uma fachada pseudamente universalista para seus preconceitos anti-Islã e anti-imigrantes.

Esta, aliás, é a bandeira comum destes movimentos: fazer do imigrante ou do refugiado político ou econômico o bode-expiatório da situação de crise que o continente vive, assim como no passado se fez com o judeu e ainda hoje se faz com os roma e sinti(ditos ciganos). Na Itália este fascismo latente se organiza com o nome de “Liga Norte”, mobilizando o preconceito social contra o sul italiano, tradicionalmente mais empobrecido. São movimentos que, embora busquem por vezes o espaço da política partidária, como é o caso do UKIP e da Front Nationale, ou mesmo da Liga Norte, têm como cosmovisão a negação da política como espaço universal de manifestação de direitos e reivindicações. Negam a política como campo de manifestação das diferenças, barrando ao que consideram como alteridade o direito à expressão ou mesmo aos direitos comuns da cidadania. O exemplo histórico mais acabado disto foi o próprio nazismo que, chegando ao poder pelas urnas, fechou-as em seguida.

O caldo de cultura em que vicejam tais pinças contrárias à vigência dos princípios democráticos é o de uma crise econômico-financeira que se institucionalizou como paisagem social. Na Europa a tradição é a de que crises deste tipo levam a saídas pela direita. O crescimento do UKIP e da Front Nationale, partidos mais votados nas respectivas eleições para o Parlamento Europeu, em maio de 2013, é eloquente neste sentido. Na Alemanha as manifestações de rua do PEGIDA vêm crescendo sistematicamente, atingindo o número de 18 mil pessoas na última delas, na cidade de Dresden, reduto tradicional de manifestações nostálgicas em relação ao passado nazismo devido a seu (também criminoso) bombardeio ao fim da Segunda Guerra pelos britânicos.

Deve-se notar, como fator de esperança, que manifestações contra estas formas de intolerância – o terrorismo que reinvindica o Islã como inspiração e os movimentos de extrema-direita – têm tomado corpo também. Houve manifestações de solidariedade aos mortos na França em várias cidades europeias e na Alemanha manifestações contra o PEGIDA reuniram milhares de pessoas em diferentes cidades. Mas pelo lado da exprema-direita cresce a aceitação de suas palavras de ordem na frente institucional (líderes do novo partido alemão Alternative für Deutschland têm acolhido reivindicações do PEGIDA) e junto à opinião pública. Na Alemanha recente pesquisa trouxe à baila o dado preocupante de que 61% dos entrevistados se declararam “anti-islâmicos”.

Como ficou feio alegar motivos racistas, o que se alega agora no lado intolerante é a “defesa da religião” ou a “incompatibilidade cultural”. Os assassinos do Charlie Hebdo gritavam – segundo testemunhas – estarem “vingando o profeta”, referência a caricaturas de Maomé consideradas ofensivas. Na outra ponta jovens da Front Nationale, também no ano passado,  recusavam a pecha de racistas e declaravam aceitar o mundo muçulmano – em “seus territórios”, não na Europa agora dita “judaico-cristã”, puxando para seu aprisco a etnia ou religião que a extrema-direita europeia antes condenava ao ostracismo, ao campo de concentração e ao extermínio.

Os partidos e políticos tradicionais, em sua maioria, estão brincando com fogo, sem se dar conta, talvez. Não aceitam o reconhecimento, por exemplo, que grupos por eles apoiados na Ucrânia são declaradamente fascistas, homofóbicos e até antissemitas. Preferem exacerbar o sentimento antirrusso e anti-Putin. Durante mais de uma década as duas agências do serviço secreto alemão concentraram-se em esmiuçar a vida dos partidos e grupos de esquerda (além dos possíveis terroristas islâmicos) e negligenciaram criminosamente o controle sobre os grupos e terroristas alemães. No momento o “grande terror” que se alastra no establishment europeu não é o de que a extrema-direita esteja em ascensão, embora isto também preocupe, mas é o provocado pela possibilidade de que um partido de esquerda, o Syriza, vença as eleições na Grécia (marcadas para 25 de janeiro), forme um governo, e assim ponha em risco os sacrossantos pilares dos planos de austeridade.

Nega-se o pilar da democracia: contra o Syriza agitam-se as ameaças de expulsão da Grécia da zona do euro e até da União Europeia; ou seja, procura-se castrar a livre manifestação do povo grego através da chantagem política e econômica.
Se as coisas continuarem como estão, poderemos estar assistindo o suicídio da Europa que conhecemos. O que nascerá destes escombros ainda se está por ver, mas boa coisa não será, nem para a Europa, nem para o mundo.

(*) Originalmente publicado no Blogue do Velho Mundo, na Rede Brasil Atual.

sexta-feira, 14 de novembro de 2014

Noam Chomsky, em video, discute o Poder e o Terrorismo em nossos dias


Segue um vídeo extremamente importante onde é efetuada uma análise brilhante da relação entre Poder e terrorismo, a partir dos atentados do 11 de setembro mas abrangendo a questão do imperialismo global, pelo linguista, filósofo e crítico social norte-americano Noam Chomsky:



sábado, 31 de maio de 2014

Black Blocs, segundo o Estadão, parecem assumir seu caráter terrorista ao prometerem, segundo o jornal, o caos na Copa aliando-se ao PCC




Em entrevista dita "exclusiva" ao Estadão (portanto, a responsabilidade da veracidade da informação é deste joral), líderes classe média dos chamados Black Blocs dizem que estão buscando o PCC em São Paulo para "tocar o terror na Copa". Afirmam, assim, estarem em negociações com os chefes do tráfico e de grupos criminosos e marginais do PCC: "Não temos uma aliança ainda, mas eles tem poder de fogo". "O crime organizado respeita a gente porque são mentes pensantes".

Se isso for realmente verdade, é realmente representativa de uma fala equilibrada de quem pretende manifestações democráticas ou um descarado nazi-fascismo em forma explicita de crime organizado? E se não for verdade, ou ao menos não representa toda a verdade, então a mídia, do qual o Estadão faz parte, está praticando um tipo ainda mais sórdido de terrorismo. Seja um ou outro, é bom estarmos cientes do texto do citado jornal. Segue a reportagem de Lourival San'Anna tal quai saiu no Estadão:


Os black blocs que executaram as ações de grande repercussão do ano passado continuam fora do radar da polícia, e prometem transformar a Copa do Mundo “num caos”. Para isso, alguns deles esperam que o Primeiro Comando da Capital (PCC), a organização que domina os presídios paulistas e emite ordens para criminosos soltos, também entre em campo. Não se trata de uma parceria, mas de uma soma de esforços.

Com o compromisso de não identificá-los, o Estado ouviu 16 desses black blocs, em seis encontros, na última semana. À diferença dos adolescentes que os imitaram em depredações, e que acabaram arrolados em um inquérito do Departamento Estadual de Investigações Criminais (Deic), eles são adultos, seguem tática desenvolvida há décadas na Europa e nos Estados Unidos, não têm página no Facebook nem querem aparecer.



Dos 20 que formam o núcleo da rede, apenas um foi fichado, porque foi detido em uma manifestação. Movem-se na sombra do anonimato, articulam-se nacionalmente, e nunca haviam dado entrevista antes. Preocupados com sua imagem perante a opinião pública, decidiram falar, pela primeira vez. “Vamos estourar de novo agora”, promete o mais veterano deles, de 34 anos, formado em História na USP e com matrícula trancada no curso de Psicologia.

“A gente vai devolver o troco na moeda que o Estado impõe”, ameaça o ativista, que trabalha para um hospital público de São Paulo. “O caos que o Estado tem colocado na periferia, por meio da violência policial, na saúde pública, com pessoas morrendo nos hospitais, na falta de educação, na falta de dignidade no transporte, na vida humana, é o caos que a gente pretende devolver de troco para o Estado. E não na forma violenta como ele nos apresenta. Mas vamos instalar o caos, sim. Esse é um recado para o Estado.”

“A gente tem certeza de que o crime organizado, o PCC, vai causar o caos na Copa, e a gente vai puxar para o outro lado”, continua o veterano. “Não temos aliança nem somos contra o PCC. Só que eles têm poder de fogo muito maior do que o MPL (Movimento Passe Livre, que iniciou as manifestações, há um ano, com ajuda dos black blocs). Pararam São Paulo”, acrescentou, lembrando as ações do PCC na década passada.

O veterano e uma bailarina de 21 anos, que abandonou um curso em uma universidade pública para se dedicar exclusivamente à causa, contaram que membros do PCC receberam bem na Penitenciária do Tremembé (interior paulista) dois black blocs presos na manifestação de junho do ano passado do MPL. “Colocaram colchões para eles.” Igualmente, o Comando Vermelho acolheu um ativista preso no Rio.
“Os ‘torres’ respeitam o que fazemos, por causa do nosso idealismo”, explica o veterano, usando o jargão que designa os líderes do PCC. “Eles fazem por lucro e a gente, contra o sistema. Não nos arriscamos por dinheiro, mas para que a mãe deles também seja atendida pelo SUS.” O veterano prossegue: “Sou nascido e criado na ZL (zona leste). Conheço muito a cara do PCC. Somos os nerds do lado da casa deles. O crime organizado respeita a gente porque nasceu de mentes pensantes. Por isso talvez não nos coloquem na cadeia”, interpreta, intrigado com o fato de a polícia não os incomodar. “Porque vamos fazer uma revolução lá.”

sábado, 15 de fevereiro de 2014

Leonardo Boff sobre as manifestações, Black Blocs e o entendimento do que é, de fato, terrorismo


Para uma definição do terrorismo


14/02/2014


Leonardo Boff

Fonte: http://leonardoboff.wordpress.com/2014/02/14/para-uma-definicao-do-terrorismo/






As manifestações massivas de junho/julho de 2013, em grande parte pacíficas e as outras havidas neste ano de 2014 que mostraram a atuação violenta dos black blocs que, mascarados, quebram agências de bancos, vitrines de lojas e depredam edifícios públicos, atacam violentamente policiais, culminando com a morte do cinegrafista Santiago Andrade, suscitaram o tema do terrorismo.


É importante que se entenda que o terrorismo não é um fenômeno da guerra, mas da política. O terrorismo irrompe no seio de grupos insatisfeitos com os rumos da política do país ou da economia e que já não acreditam nas instituições, nem no diálogo e muito menos em mudanças sociais significativas. Pode até ocorrer que se opõem de tal maneira ao sistema mundial e nacional vigente, o capitalismo neoliberal, que investem contra seus símbolos, danificando-os. Ilusoriamente pensam que destruindo-os atingem o coração do sistema. Esse não se muda pela violência puntual mas por um processo histórico-político, por mais prolongado que seja. Tais grupos vem carregados de ressentimento, de amargura e de raiva. Dão vasão a este estado de ânimo através de ações destrutivas.

Paradigmático foi o atentado terrorista de 11 de setembro de 2001 contra os Estados Unidos. Num lapso de uma hora, os símbolos maiores da ordem capitalista no nível econômico as duas Torres Gêmeas em Nova Iorque, no nível militar o Pentágono e no nivel político a Casa Branca (o avião destinado a ela foi derrubado antes) foram diretamente golpeados.

A partir de então se instalou o medo em todo o país. E o medo produz fantasmas que desestabilizam as pessoas e a ordem vigente. Assim, por exemplo, um árabe, em Nova York, pede uma informação a um policial e este o prende, imaginando ser um terrorista. Depois se verifica ser um simples cidadão inocente. Com frequência o Governo norte-americano, especialmente, sob o Presidente Bush, assustava a nação inteira, anunciando a iminência de atentados. Embora não tenham acontecido até agora, acabam alimentando a paranóia generalizada.

Esta fenomenologia mostra a singularidade do terrorismo: a ocupação das mentes. Nas guerras e nas guerrilhas como na Colômbia precisa-se ocupar o espaço físico para efetivamente se impôr. Assim foi no Afeganistão e no Iraque. No terror não. Basta ocupar as mentes e ativar o imaginário através da ameaça de novos atentados e do medo que então se internaliza nas pessoas e nas instituições.

Os norte-americanos ocuparam fisicamente o Afeganistão dos talibãs e o Iraque de Saddan Hussein. Mas a Alqaeda que perpetrou os atentados, ocupou psicologicamente as mentes dos norte-americanos. Fizeram dos EUA uma nação refém do medo, do Governo ao simples cidadão.

A profecia do autor intelectual dos atentados de 11 de setembro, o então ainda vivo Osama Bin Laden, feita no dia 8 de outubro de 2001, infelizmente, se realizou: “Os EUA nunca mais terão segurança, nunca mais terão paz”. Ocupar as mentes das pessoas, mantê-las desestabilizadas emocionalmente, obrigá-las a desconfiar de qualquer gestou ou de pessoas estranhas, eis o que o terrorismo almeja e nisso reside sua essência.

Para alcançar seu objetivo de dominação das mentes, o terrorismo segue a seguinte estratégia:


(1) os atos têm de ser espetaculares, caso contrário, não causam comoção generalizada;

(2) os atos, apesar de odiados, devem provocar admiração pela sagacidade empregada;

(3) os atos devem sugerir que foram minuciosamente preparados;

(4) os atos devem ser imprevistos para darem a impressão de serem incontroláveis;

(5) os atos devem ficar no anonimato dos autores (usar máscaras) porque quanto mais suspeitos, maior o medo;

(6) os atos devem provocar permanente medo;

(7) os atos devem distorcer a percepção da realidade: qualquer coisa diferente pode configurar o terror. Basta ver alguém das comunidades pobres da periferia, ou os rolezinhos entrando nos shoppings e já se projeta a imagem de um assaltante potencial.

Formalizemos uma compreensão suscinta do terrorismo: é toda violência espetacular, praticada com o propósito de ocupar as mentes com medo e pavor.

O importante não é a violência em si, mas seu caráter espetacular, capaz de dominar as mentes de todos.

Um dos efeitos mais lamentáveis do terrorismo foi ter suscitado o Estado terrorista como os EUA. Criou-se uma legislação que fere os direitos humanos, impõe vigilância sobre toda a população, criou o organismo de segurança nacional com altas verbas para sua implantação em todo o pais, projetou a “guerra infinita” contra o terrorismo em qualquer parte do mundo com a ameaça de utilização de qualquer tipo de arma, não excluidas as armas nucleares. E organizou uma rede de espionagem eletrônica global que tudo e a todos controla.

Está em debate no Ministério da Justiça, nos órgãos de segurança do Estado e no Parlamento uma legislação visando tipificar os atos destrutivos dos black bocs de terrorismo. Sem dúvida, os atos obedecem à lógica terrorista mas não significa ainda um terrorismo articulado e organizado. Há o risco, já advertido pelo Ministro da Justiça Eduardo Cardoso, de não instaurarmos o medo na sociedade que acaba inibindo as manifestações populares, legítimas no regime democrático. O próprio povo com medo acaba se retraindo e terá dificuldade em apoiar estas manifestações legítimas.

Mais importante em saber quem cometeu e comete atos de terrorismo é saber o porquê se recorre a ele. Ai a importância do acompanhamento dos órgãos de informação, do diálogo aberto com todos os estratos da sociedade, especialmente, com aqueles mais penalizados pelo tipo de sociedade que temos, altamente desigual e discriminatória. Difundir mais e mais a educação e infundir confiança, amor às pessoas e cuidado de uns para com os outros como o disse, exemplarmente, a esposa do cinegrafista Sebastião Andrade e o enfatizou recentemente a ministra Maria do Rosário da Secretaria Nacional de Direitos Humanos num encontro na OAB do Rio a propósito da Comisão da Verdade.

São caminhos de outro tipo de estratégia política, certamente mais eficazes que a pura e simples repressão policial que ataca os efeitos mas não atinge o coração do problema deste terrorismo ainda inicial.

Veja do autor, Fundamentalismo, terrorismo, religião e paz, Vozes, Petrópolis 2009.