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quinta-feira, 25 de dezembro de 2014

Os Evangelhos e outros documentos gnósticos de Nag Hammadi



  Em 1945 uma série de papiros antigos foram descobertos em Nag Hammadi, Egito. Entre eles, o fantástico Evangelho de Tomé. O seguinte documentário (em espanhol) versa sobre a importância desta descoberta, implicações e possibilidades....


Reflexões sobre o Jesus Histórico



Anotações, Comentários e Resumos baseado em capítulos do livro de Gerd Theissen e Annette Merz, professores da Universidade de Heidelberg


“O Jesus Histórico”





Carlos Antonio Fragoso Guimarães



Parte I – Prefácio e Histórico das Pesquisas

I – Prefácio

               Os autores Gerd Theissen e Anette Merz iniciam a apresentação do seu livro destacando o fato de que se faz necessário ter em mente a distinção entre o Jesus possível de ser reconhecido pela História e o Cristo da fé, “revelado” nos textos cristãos – formulados, como se sabe, com uma preocupação mais teológico-doutrinária e com interesses de fé e interpretação de suas comunidades de origem que com a descrição de memórias e fatos biográficos precisos ocorridos décadas antes da formulação dos primeiros escritos que dariam origem aos evangelhos conhecidos, os atos dos apóstolos e - certamente os mais antigos dos textos - as cartas paulinas.

          Logo de início, os autores destacam o problema de harmonização entre as informações passíveis de serem extraídas das fontes (sejam textuais e/ou arqueológicas) acerca de Jesus e de sua época com a imagem tradicional do Cristo repassado pelas igrejas – imagem, aliás, que diverge a depender de que vertente se constituiu a visão teológica de cada igreja, seja a católica (romana, ortodoxa), protestante histórica (luterana, calvinista, episcopal, etc.) ou evangélica (em especial, as de cunho midiático fundamentalista atuais), sem falar dos que pretendem se debruçar sobre Jesus sem vincular-se a qualquer vertente religiosa tradicional – incluindo-se pesquisadores com vários de outras religiões, mesmo não cristãs, etc.

Por vezes, as tentativas de estudo do Jesus histórico nem sempre pareceu bem recebida por parte dos guardiães da teologia tradicional ou era recebida com reservas:

                “Em época recente, o estudo do Jesus histórico muitas vezes se vinculou com a mensagem de que não era teologicamente importante dedicar-lhe um exame detalhado. Decisivo era o Cristo anunciado e bastava assegurar-se de que ele não estava em contradição com o que sabemos sobre o Jesus histórico – o que era bem pouco” (p. 13).

                Os autores reconhecem que a tensão entre o estudo sério, científico, e a imagem tradicional de Jesus a qual a maioria das pessoas se habituaram deixam uma parcela importante da população em um estado de perplexidade, especialmente quando se põe em perspectiva certas construções dos textos evangélicos que são patentemente elaborações poéticas ou teológicas que possuem pouco ou nenhum respaldo histórico (por exemplo, as narrações conflitantes em Mateus e Lucas sobre o nascimento de Jesus e os diferentes e por vezes contraditórios relatos sobre as suas aparições post-mortem, que, ainda assim e pelas consequências que tiveram nos primeiros cristãos, parecem repercutir um evento histórico real, ocorrido diversas vezes).

Frequentemente, a busca por informações sobre o Jesus histórico por parte do público acaba levando a uma eclosão de trabalhos fora da pesquisa séria que, aproveitando-se da popularidade e mercado que floresce em torno do interesse variado sobre Jesus, levam a novas elaborações de imagens sobre sua figura, que refletem muito mais os anseios e modelos dos autores e seu contexto social que a uma visão coerente do homem que vivem e atuou há dois mil anos atrás:

                “Hoje muitas pessoas ficam perdidas quando tentam esclarecer com argumentos o que sabemos sobre o Jesus histórico, o que apenas conjeturamos e o que não podemos saber. Trabalhos (literários) que pretendem expor o verdadeiro Jesus por trás dos supostos falseamentos da Igreja preenchem essa lacuna do mercado de conhecimento, em forma de livros edificantes que, a partir dos anseios religiosos e valores éticos de nosso tempo, acabam por criar um novo Jesus. De ambos os lados, o trabalho paciente da pesquisa está sendo desconsiderado. Mas numa sociedade esclarecida e numa Igreja aberta, que deseja prestar contas de seus próprios fundamentos, este trabalho se impõe” (p. 13).

                A seguir os autores esclarecem o objetivo de seu trabalho: “apresentar a pesquisa científica sobre o Jesus histórico – não somente seus resultados, mas também o processo de aquisição desse conhecimento”, alertando ainda uma vez que “o processo científico exige uma postura de paciência dos leitores ávidos de esclarecimento imediato” (p. 13).

                Apontam, então, pontos importantes sobre a epistemologia e entendimento do processo científico em geral e que se aplicam, de maneira particular, à pesquisa sobre o Jesus histórico:

                I – A ciência não diz “foi assim”, mas “poderia ter sido assim, com base nas fontes (canônicas, não-canônicas, históricas, arqueológicas, etc.). Em acréscimo a esta observação, e ajudando a manter o equilíbrio frente à reconstrução possível a partir da análise das fontes, os autores destacam que:

                “A ciência nunca diz “é assim”, mas “assim se nos apresentam as coisas no estado atual da pesquisa – e isto significa: “no estado atual de nossos acertos e erros (p. 13).

                II – A ciência não se acomoda em um quadro explicativo considerado definitivo sobre seu objeto de estudo e não diz “este é o nosso resultado” como produto de nosso tempo e de pessoas que apenas decidiram refletir sobre as fontes, mas sim que “este é o nosso resultado com base em determinados métodos”. Métodos diferente, que, esperamos, venham a surgir e sejam mais abrangentes e mais aperfeiçoados que os de hoje, certamente nos farão perceber novos detalhes e novas manifestações da realidade passada que os atuais, em sua maneira de orientar nossa percepção, ainda não permitem não porque estejam errados, mas porque a forma de orientar uma pesquisa, seu método, leva a trilhar certos caminhos de busca e interpretação ao invés de outros. Por isso, os autores esclarecem que:

                “O caminho que se percorre para alcançar um objetivo é tão importante para a ciência quanto o próprio objetivo – às vezes, até mais importante. Pois o caminho pode ser correto, ainda que a meta se apresente como parada intermediária que deve ser abandonada” (p. 14).

                III – A ciência sabe que seus resultados, como expressão da reconstrução contínua do passado através das fontes (e sempre surgem novas fontes, novos achados, novas ideias para o estudo), são mais transitórios que os problemas a que procura responder. Na verdade, as respostas sempre se renovam frente aos mesmos grandes problemas e se isso é válido nas ciências em geral (veja-se o caso da física entre o legado de Newton e o de Einstein), o é ainda mais para a pesquisa sobre o Jesus histórico. As mesmas grandes perguntas sobre o homem de Nazaré terão respostas sempre mais aprofundadas e mais abrangentes com o decorrer do tempo e o aperfeiçoamento da pesquisa e das mentalidades que se debruçarem sobre elas.

Por tudo isso, dizem os autores:

                “A ciência é um empreendimento complicado porque não pode simplesmente “narrar” a realidade, mas refletir sobre fontes, estados da pesquisa e problemas” (p. 14).

                Os autores terminam sua introdução reconhecendo que eles mesmos, enquanto pesquisadores, não deixam de ter uma imagem de Jesus e esta é a que surge do estudo contextual deste personagem a partir do estudo e entendimento de sua cultura judaica e da história social e política de seu tempo. E isto leva à percepção igualmente de “pré-compreensões” e “interesses” que mantém a atualidade e importância de Jesus para os dias de hoje:

                “Estamos convencidos de que por meio do Jesus histórico se pode ter um acesso simpático ao judaísmo, de que uma reflexão sobre sua mensagem aguça a consciência social e de que o encontro com ele altera nossas questões sobre Deus” (p. 15).

§ 1

A História da Pesquisa Sobre a Vida de Jesus

                Introdução.

                Os autores reconhecem que, para haver uma pesquisa séria sobre o Jesus histórico, que tão profundamente acabou por marcar a humanidade apesar do pesado reboco de licença mítica e poética que se estabeleceu sobre ele, faz-se necessário uma boa dose de autonomia intelectual para se afastar da imagem que nos foi legada por séculos de tradição. Esta imagem teológica apresentava um ser que traria em si, ao mesmo tempo, as instâncias paradoxais do Deus encarnado, do rígido juiz escatológico e de amoroso salvador.

Por tudo isso, essa pesquisa sempre foi carregada de tensão e dramaticidade: era efetuado, especialmente no primeiro século da pesquisa científica séria, em meio a uma cultura modelada e imersa na imagem tradicional do Cristo sobre-humano com este tríplice aspecto, por pessoas que foram educadas neste ambiente e contexto e que, por isso mesmo, tinham de esforçar-se ainda mais que outros pesquisadores para manter a neutralidade axiológica necessária para perceber, nesta figura, menos o Cristo o Jesus, tornando-o objeto de uma crítica histórica coerente, que se enriqueceu e desenvolveu nos últimos duzentos e cinquenta anoso, passando por etapas que se tornaram bem definidas, sendo os primeiros esforços os mais difícieis.

                De início houve o estudo crítico das fontes clássicas (Evangelhos, Atos dos Apóstolos e Epistolas). O resultado do uso da crítica literária em comparação com fontes históricas e religiões comuns ao Império Romano foi que ficou claro que não foram uns poucos ‘versos satânicos’ que se infiltraram nas fontes, distorcendo a visão do Jesus histórico, mas que muitos versos sobre Jesus demonstravam uma reconstrução de sua vida envolta “numa aura a-histórica de mito e poesia” (p. 20). Aliás, outros homens extraordinários da mesma época, como Apolônio de Tiana, Hanina Bem Dosa e mesmo filósofos e oradores de antes e de então (Sócrates, Amônio Saccas, Plotino) acabaram mais ou menos por ter um destino de encobrimento mítico similar, efetuado por parte de seguidores e admiradores.

                Logo junto à crítica das fontes viria unir-se o problema do relativismo histórico. O modo de entender o mundo e as pessoas constituintes de uma cultura que possuem características próprias, clima intelectual diferenciado e influenciadas por seu tempo e lugar se tornam estranhas aos estudiosos de uma cultura diferente, de um espaço diverso e de um tempo posterior, exigindo um esforço de hermenêutica e compreensão nem sempre passível de ser completo e bem sucedido, exatamente porque o olhar posterior possui suas próprias influências e orientações culturais diferenciadas, o que poderia levar ao erro de se considerar o personagem histórico como estando deslocado ou desligado de seu próprio contexto. Ao mesmo tempo, é preciso levar em consideração que, por mais singular que seja um indivíduo, seu legado e suas ideias precisariam se adaptar ao contexto cultural em que nasceu e cresceu, sob o risco de não ser sequer minimamente compreendido pelos seus contemporâneos.

                Por fim, em ligação com o relativismo histórico, outro problema perturbaria igualmente os estudiosos do primeiro século e meio de estudos: o da estranheza hermenêutica. Jesus viveu em uma época de dominação romana e corrupção dos costumes sagrados de seu povo pela associação dos sacerdotes do Templo com o dominador estrangeiro. A ansiedade por libertação, a revolta da dominação e a constatação da degradação moral dos líderes religiosos tradicionais dariam ensejo a divisões e formação  de facções políticas e religiosas que buscavam renovar a situação da nação, projetadas na mitificação de um esperado Messias. Ao redor disso, a inflamação religiosa do povo e a expectativa por uma intervenção divina no estado de coisas caóticas (e que se tornariam ainda piores posteriormente), acenderia o misticismo popular onde curandeiros e homens santos ou pregadores apareciam frequentemente, sempre acolhidos por parte da população e perseguidos por parte dos dominadores e dos sacerdotes e alto-funcionários do Templo.
Assim, por parte de alguns pesquisadores,

                “Mesmo se possuíssemos informações historicamente confiáveis e encontrássemos nelas uma pessoa inconfundível, esse Jesus – que muitos na infância sentiam tão próximo quanto um bom amigo – isolou-se em seu mundo passado, cheio de exorcismos e estranhos temores pelo fim do mundo” (p. 20).

                Tais observações foram debatidas e divulgadas por pesquisadores dos séculos XVIII, XIX e início do XX, alguns mesmo por teólogos renomados. Contudo, apesar de tal distanciamento e mesmo dessacralização promovida pela  crítica das fontes, pelo relativismo histórico e pela estranheza hermenêutica, Jesus continua a atrair as atenções, a despertar interesses, a servir de referencial e, por isso continua atual:

“(...) nossa cultura apega-se até hoje a essa figura. Mesmo onde já não se considera tal pessoa como ‘Senhor’, busca-se no Rabino de Nazaré o grande irmão, o grande aliado. Onde se defende uma forma socialista de sociedade, Jesus se torna o precursor do socialismo, ele que criticou os ricos e rejeitou Mamon. (...) Onde surge uma decisão existencial, Jesus se torna o pregador de um chamado à decisão que incita o indivíduo a abandonar o esquecimento da vida. Onde há interesse pelo humanismo que se emancipou da tutela eclesiástica, Jesus se torna desafiador das instituições religiosas (...)” (p. 20).

 Por isso, qualquer que seja o tempo, a história da pesquisa sobre Jesus – que hoje está mais diferenciada e mais desenvolvida – é uma expressão de um movimento de distanciamento e reaproximação contínuos com este ser singular. E nestas idas e vindas um quadro mais estável, mais realista e mais humano do mestre da Galileia se faz mas claro e mais instigante, emergindo aos poucos sob séculos de maquiagens teológicas e deturpações mais ou menos conscientes feitas sobre a mensagem original de Jesus de Nazaré.

1.       Cinco Fases da Pesquisa sobre a Vida de Jesus

1.1. – Primeira fase: os “impulsos” críticos para a questão do Jesus histórico

1.1   .1 - Hermann Samuel Reimarus (1694-1768)

Reimarus foi professor de línguas orientais em Hamburgo. Foi influenciado pelos intelectuais britânicos e dedicou-se a desenvolver as bases para o desenvolvimento de uma religião da razão, dando seguimento às propostas do deísmo inglês. Propôs pela primeira vez um método histórico-crítico para a pesquisa de Jesus, destacando dois pontos metodológicos ainda válidos:

1.- Reimarus propõe um estudo em que se possa distinguir a pregação original de Jesus daquilo que é dito pelos seguidores, ou seja, as palavras originárias distintivas de Jesus devem ser diferenciadas, quando possível, do que é dito pela fé dos discípulos/apóstolos/seguidores posteriores: “Considero uma grande causa separar totalmente o que os apóstolos apresentam em seus escritos daquilo que Jesus de fato disse e ensinou em vida” (citado por Theissen e Merz, “O Jesus Histórico”, p. 21).

2.- A partir desta distinção, Reimarus propõe a compreensão histórico-contextual do ministério de Jesus a partir do pano de fundo de sua época, situação política e contexto religioso e social. “A pregação de Jesus só pode ser compreendida a partir do contexto da religião judaica de seu tempo.”  (p. 21). 

Pessoalmente, aceito o que Reimarus destaca como sendo o núcleo da pregação pública de Jesus: a chegada iminente do Reino de Deus. O chamado constante do personagem galileu à chegada do Reino de Deus – de resto, uma ideia que os essênios e os expectantes messiânicos e proto-zelotas já divulgavam, embora interpretando-o de uma maneira mais materialista e nacionalista – mostra que Jesus usava do discurso em voga para passar, por meio deles, sua própria interpretação do que seria este Reino (boa parte das parábolas de Jesus demonstram isso). O consequente chamado à “conversão” que, talvez, quisesse dizer transformação íntima e/ou de percepção - já que as imagens bucólicas da maior parte das parábolas parecem apontar para um reino construído que trará bons frutos a partir da ação responsável e sem malícia dos novos súditos deste Reino. É até possível que Jesus não entendesse o reino (de Deus/dos Céus) como um evento que há de vir, mas como algo já existente, presente, mas não percebido pelo estado espiritual atual das pessoas. Se olharmos os ditos constantes do evangelho de Tomé, um dos documentos mais importantes encontrado em Nag Hammadi em 1945, esta interpretação ganha maior solidez. É provável, contudo, que o entendimento mais direto deste reino mais espiritualizado fosse transmitido por Jesus mais particularmente aos discípulos mais próximos mas que não tenha sido bem compreendido pelos seguidores e posteriores e pela maior parte das seguintes comunidades cristãs. Seja como for, a mudança no século IV do domínio de um movimento que era originalmente dos oprimidos e que passa para a esfera dos opressores, a partir de Constantino, teria de modificar e diluir drasticamente a profundidade revolucionária da mensagem original de Jesus.

 Discorrendo sobre este importante achado (o Evangelho de Tomé - existem várias traduções em português. Eu uso a edição de Marvin Meyer, editora Imago), Gerd Theissen e Annette Merz destacam a semelhança algo budista da compreensão de Jesus do que seria o Reino dos céus:

"Escatologia presente: o reino (Reino do Pai/Reino dos céus) é uma grandeza supra-histórica, origem e destino do homem que encontrou a si mesmo. Porque o autoconhecimento é o conhecimento do Eu divino próprio e de sua pertença ao âmbito da luz divina. Por isso, o Reino dos céus está dentro como fora do ser humano, e igualmente presente em todos os tempos (cf. Evangelho de Tomé 3.49.50.113)" (p. 60).

De qualquer modo, o modo de ensino e o comportamento de Jesus, bastante socialista em sua defesa dos oprimidos, dos pobres, dos excluídos e da denúncia da hipocrisia das elites políticas e religiosas, não deixariam de causar escândalo aos poderosos de sua época, como, de fato, não deixou e o levou à morte sob dois julgamentos raivosos: um religioso, dos membros do Sinédrio, e outro político, por parte do procurador romano Pilatos.

1.1.2 – David Friedrich Strauss (1808-1874)

D.F. Strauss foi um filósofo e teólogo, seguidor de Hegel e F. C. Baur, escreveu um livro que causou profundo impacto: a Vida de Jesus, em 2 volumes (1835-1836) que lhe valeu uma proscrição social mas que, ao mesmo tempo, permitiu levar-se em conta características dos evangelhos que antes eram pouco percebidos ou, melhor dizendo, pouco debatidas:

“Imagine uma jovem comunidade que adora (...) seu fundador, uma comunidade fecundada com novas ideias... uma comunidade formada, na maioria, de homens sem instrução, que não tinham condições de adquirir e expressar essas ideias na forma abstrata da razão e da conceituação, mas sim na forma concreta da fantasia, como imagens e história. Sob essas condições o resultado só podia ter sido este, uma sequencia de narrativas sagradas que trouxe à consciência uma série de ideias novas provocadas por Jesus, assim como ideias velhas foram também transferidas para ele, apresentadas como momentos individuais de sua vida. A mais simples estrutura histórica da vida de Jesus foi cercada com as mais variadas e significativas guirlandas de reflexões e fantasias piedosas, na medida em que todas as ideias que a primeira cristandade teve sobre seu roubado mestre foram transformadas em fatos inseridos (décadas depois) em sua vida” (Strauss, citado em Theissen e Merz, p. 32).

Resumindo, Strauss destaca que o que chegou até nossos dias na forma de narrativas e evangelhos sobre Jesus está imerso em um caldo onde memórias históricas estão misturadas com construções míticas, surgida nas tradições e cultos de comunidades cristãs.

Nas palavras de Theissen e Merz, “Strauss vê o mito, ‘a saga que é poética sem intenção’, operando em todas as partes dos evangelhos em que as leis da natureza são invalidadas, as tradições se contradizem ou os motivos difundidos na história das religiões, especialmente do Antigo Testamento, são transferidos a Jesus” (p. 22).

As comunidades cristãs iniciais, formada por gente de diferentes classes, mas muito mais por gente simples, em especial durante o período da revolta dos judeus (66 a 74 d.C.), entendiam que uma vida extraordinária de um ser incrivelmente carismático - como Jesus o foi - só poderia ser reflexo direto do divino e, portanto, em suas tradições esse aspecto mítico foi paulatinamente se impondo sobre o aspecto humano e sábio de Jesus, que se tornou o foco arquetípico (no sentido junguiano) do herói. Este estado mítico se destaca nos diferentes textos cristãos, canônicos e não canônicos, e de maneira especial no Evangelho de João, bastante diferente dos outros três evangelhos sinóticos clássicos do Novo Testamento. Strauss foi um dos primeiros a reconhecer que este evangelho joanino é estruturado muito mais em premissas teológicas e míticas que em dados históricos (embora estes ainda possam ser encontrados no texto).

1.2   Segunda fase: o otimismo da pesquisa chamada liberal sobre a vida de Jesus

Durante a segunda metade do século XIX, em especial nas décadas finais e inicio do século XX, a Alemanha viveu um florescimento de liberalismo teológico que trouxe grandes insights e orientações  ao estudo do Jesus histórico. “Esperava-se”, afirmam Theissen e Merz, “pela reconstrução histórico-crítica da personalidade legitimadora de Jesus e de sua história, renovar a fé cristã e com isso deixar para trás o dogma cristológico da Igreja” (p. 23). Para estes autores:

“1. A base metodológica da pesquisa liberal sobre Jesus é a exploração crítico-literária das fontes mais antigas sobre Jesus. F. Chr. Baur demonstrou a primazia dos sinóticos (Marcos, Mateus e Lucas) sobre o Evangelho de João, e Heinrich Julius Holzmann ajudou a teoria das duas fontes (a base textual mais antiga e conhecida até então, ou seja Marcos e a coleção reconstituída de ditos de Jesus, denominada Q – de Quelle, fonte em alemão), desenvolvida por Christian Gottlob Wilke e Christian Hermann Weisse, a tornar-se um sucesso duradouro: Marcos e Q valiam agora como as mais antigas e confiáveis fontes para o Jesus histórico, ou seja, uma fonte que até então estivera fora dos interesses dos pesquisadores (Marcos), e uma que foi primeiramente reconstituída pelos cientistas (Q). Uma emancipação da tradicional imagem eclesiástica de Jesus pareceu possível sobre essa base.” (p. 23).

O paradigma desta fase de pesquisa, especialmente na Alemanha, consistia em que, a partir de uma análise crítica sobre o texto de Marcos, parecia ser possível traçar um esboço de desenvolvimento biográfico da vida de Jesus, ainda que preocupações teológicas posteriores tornassem turvas as linhas de desenvolvimento do seu pensamento. 

Heinrich Julius Holtzmann (1832-1910), o principal representante desta fase de pesquisa, reconstrói, a partir do material de Marcos, o que ele pensa ser as linhas gerais desta evolução: em Mc 8, na Galileia, há apontamentos para se pensar que Jesus desenvolve lá seu pensamento, ligado a uma consciência messiânica –  seja como for como o próprio Jesus pensasse, a mera possibilidade de que ele fosse o tão esperado Messias iria repercutir nos seus seguidores e em uma parte da população, que o veriam como o aguardado ungido “político”. Esta expectativa não seria nada saudável em uma sociedade dominada e rigidamente segmentada,  o que o faria confrontar-se, posteriormente, com o peso do Sinédrio e de Roma. Ainda assim, é questionável até que ponto o próprio Jesus se via como um Messias no sentido popular judaico do século I, ou seja, como sacerdote-general. John Dominic Crossan e outros pesquisadores recentes questionam a correspondência entre o auto pensamento de Jesus como mestre de sabedoria e, quem sabe, como um tipo de reformador social (e, assim, político, em um sentido menos beligerante), dentro do judaísmo, com os traços do messianismo político que estava fermentando entre os judeus e que explodiria em 66 d.C.

Marcos escreve décadas após os acontecimentos e em meio à revolta dos judeus e muito de seu olhar de narrador está interpretando atos passados, transmitidos em sua maior parte oralmente, com o olhar político do presente (por volta do ano 70 d.C.) e com as esperanças de uma comunidade que já não é tão contemporânea de Jesus nem formada em sua maioria por testemunhas diretas. Por isso, em seu relato, se a Galileia foi local onde se sugere pelo evangelista que Jesus desenvolve sua consciência messiânica – e o todo o evangelho de Marcos é construído como um processo da revelação de Jesus como O Cristo, ou seja, O Messias -, será em Cesaréia de Felipe que o autor porá Jesus a se revelar como Messias aos discípulos.

“As ‘vidas de Jesus’ liberais resultam da junção da ideia apriorística de um desenvolvimento da personalidade de Jesus refletido nas fontes com uma aguda análise crítico-literária. Elas acreditam reencontrar o ideal da personalidade do seu autor nas fontes sobre Jesus” (pp. 23-24).

1.3   O Colapso (do otimismo) da pesquisa (liberal) sobre a vida de Jesus

O fim do otimismo da fase liberal sobre uma reconstituição válida da vida de Jesus com base, sobretudo, na teoria das duas fontes (o material extraordinário que começou a ser encontrado e divulgado a partir das duas últimas décadas do século XIX só viria a ser integrado nas pesquisas mais tarde, a partir da segunda década do século XX. As descobertas de Nag Hammadi e outras ainda, textuais e arqueológicas, só o viriam a ser analisadas e debatidas depois de passada a primeira metade do século) deveu-se à consideração dos seguintes fatores:

A)     Os autores e pesquisadores da fase otimista esqueciam que muito do que descreviam em suas “vidas de Jesus” eram projeções, em Jesus, de suas próprias escolhas de traços de personalidade, considerados, talvez inconscientemente, por eles como altos ideais éticos. Tal afirmação foi elencada e fundamentada por Albert Schweitzer.

B)      Não se poderia esquecer que o evangelho de Marcos foi um evangelho construído e voltado para uma comunidade de cristãos que viviam uma crise aguda dentro do judaísmo - em embates com judeus ortodoxos - e fora, com a ameaça da rebelião contra Roma (que vai de 66 a 74). Ademais, ele descreve mais aspirações e anseios teológicos posteriores projetados retrospectivamente em Jesus, que uma apresentação imparcial de fatos. Sendo assim, “o evangelho de Marcos seria expressão da dogmática da comunidade. Nele, a fé pós-pascal (e alguma coisa realmente deve ter ocorrido de extraordinário após a crucificação para sedimentar tal fé em um meio tão adverso) na messianidade de Jesus é projetada intrinsecamente na vida (pré-pascal e) não-messiânica de Jesus” (p. 24).

C)      “K. L. Schmidt demonstrou o caráter fragmentário dos evangelhos ao argumentar que a tradição sobre Jesus consiste em ‘pequenas unidades’ e que o quadro cronológico e geográfico ‘da história de Jesus’ foi criado secundariamente pelo evangelista Marcos” (p. 24).

O ceticismo que surge da crítica aos liberais deu ensejo aos tradicionalistas e, mais ainda, aos teólogos voltados a um entendimento místico ou mesmo mágico da Bíblia um espaço de reação às pesquisas sobre o Jesus histórico. Entre eles, o mais conhecido foi Rudolf Bultmann (1884-1976).  Para ele, embebido na teologia mística de Paulo, o que importava do Jesus histórico era apenas o fato de que viveu e morreu, voltando na ressurreição. Para ele e seus seguidores, “o fator decisivo não era o que Jesus havia feito e dito, mas o que Deus feito e dito na cruz e na ressurreição. A mensagem dessa ação de Deus, o ‘querigma’ neotestamentário, não tem por objeto o Jesus histórico, mas o ‘Cristo querigmático’ “(p. 25). Se havia algum interesse em se saber algo sobre o Jesus histórico para estes teólogos, em especial sobre o Jesus pré-pascal, era se a exaltação na cruz-ressurreição teria alguma base na fase pré-pascal, ou seja, só se firmaria se o que surgisse dos estudos deste Jesus confirmasse, retrospectivamente, o Cristo da fé pós-pascal. Era o que constituiria uma nova – e efêmera – fase de pesquisa, quase um ramo excêntrico, que buscava sedimentar uma fé a partir de estudos no vácuo da pesquisa histórica. Não é preciso dizer que tal abordagem “pecava” por tendenciosidade e invertia negativamente a proposta da pesquisa. Era um bizarro retorno da teologia dogmática ao universo da crítica.

1.4   A pesquisa judaica sobre Jesus               

 Segundo Gerd Theissen e Annette Merz,

    “Enquanto a teologia cristã desvaloriza a busca pelo Jesus histórico ao abandonar o liberalismo teológico, a pesquisa judaica sobre Jesus, que se inicia concomitantemente, continua a tradição liberal e enfatiza aspectos que na pesquisa científica foram pouco considerados, a saber, o aspecto judaico da vida e do ensino de Jesus” (p. 27).

O representante mais conhecido e mais contemporâneo desta vertente é, sem dúvida, Geza Vermes.  Seus excelentes trabalhos sobre Jesus, baseados em pesquisas hermenêuticas, arqueológicas e históricas, devem ser lidos por todos os interessados. Boa parte dos trabalhos de pesquisadores não-judeus, como Charlesworth e Pagels, e mesmo Dominic Crossan, são bastante harmônico com as pesquisas de Vermes.

1.5. -Fase atual: a “thid quest” pelo Jesus histórico

Não tardou a que a tentativa dos teólogos conservadores se fizessem frustradas com os avanços das pesquisas arqueológicas e históricas, novos achados (os documentos de Nag Hammadi) e o fato de que os teólogos estavam contaminando a percepção dos documentos com sua ênfase em fundamentar a identidade cristã ao distingui-la de suas origens no âmbito do judaísmo e, ao mesmo tempo, ao querer destacá-la a prioristicamente do que se consideram de heresias cristãs primitivas (a gnose e o entusiasmo carismático, em especial), dando preferência às fontes ortodoxas e canônicas. Saindo da Alemanha, o mundo anglo-saxônico vai contribuir para que o interesse histórico-social suplante o teológico dos seguidores de Bultmann e, então, “a inserção de Jesus no judaísmo substitui o interesse de separá-lo dele, a abertura também a fontes não-canônicas (em parte heréticas) substitui a preferência por fontes canônicas” (p. 28) - por “fontes canônicas” não se deve entender apenas os textos “oficiais” do Novo Testamento, mas também os escritos dos “pais” e “doutores” da Igreja (Eusébio, Jerônimo, Irineu, etc.).

Desta fase atual percebe-se um retrato melhor desenhado de Jesus a partir de seu contexto histórico-social É possível, com um conhecimento do seu contexto judaico em um país dominado por uma potência estrangeira, perceber o pano de fundo sobre o qual se destaca a figura do pregador galileu. “Na aparição e destino de Jesus se refletem as tensões características da sociedade judaica do primeiro século d.C.” (p.  28). Com isto se depreende que o movimento original de Jesus se apresenta como uma corrente de renovação dentro do judaísmo – uma entre outras que estavam a ocorrer no mesmo período, mas que destas de diferencia por características sócio-político-ideológicas bem próprias:

“Jesus e seu movimento pertencem a uma extensa corrente de renovação dentro do judaísmo que, diante da grande pressão por mudanças que emanava da poderosíssima cultura helenística, tentavam preservar ou redefinir a identidade judaica. Em Jesus essa identidade é definida de forma comparativamente ‘aberta’.

1 – Enquanto outros movimentos de renovação e de protesto associam a expectativa de uma vitória (militar e política, além de religiosa) de Israel sobre os gentios com a esperança escatológica numa mudança profunda, na tradição de Jesus o reinado de Deus fica aberto ao afluxo dos gentios. Contra tendências separatistas, Jesus ativa a tradição judaica universalista da peregrinação dos povos a Sião (Mt 8,10s).
2 –Enquanto outros movimentos de renovação intensificam normas especificamente judaicas, encontramos em Jesus uma radicalização (ou destaque) na Torá em normas éticas gerais e, ao mesmo tempo, um relaxamento de normas rituais separatistas (o mandamento do sábado e as regras de pureza).
3 – Enquanto muitos movimentos de renovação se ‘separam’ do povo, encontramos na tradição de Jesus uma atenção consciente para aqueles (excluídos) que não correspondem às normas tradicionais e ficam na periferia. Jesus ativa aqui a fé em um Deus misericordioso e gracioso contra outras tendências.
4 – enquanto outros movimentos de renovação expressam um protesto direto contra os governantes estrangeiros com sua superioridade militar e são parte da resistência contra os estrangeiros, o movimento de Jesus evita uma confrontação direta: ele formula a identidade judaica de modo que evita fundamentalmente um embate com as legiões.

“É característicos do movimento de Jesus uma forte ação integradora, tanto para fora como para dentro. O que possivelmente era objetivo de alguns reformadores helenistas radicais da aristrocracia no começo de nossa era – um judaísmo que se abre, que ativa suas tradições integrativas e universalista contra tendências separatistas – é realizado em Jesus de outra forma: não contra o povo simples, mas a partir de seu meio. Em geral, uma característica do movimento de Jesus é encontrar elementos aristocráticos num ambiente não-aristocrático” (p. 167).


Portanto, a importância do impacto de Jesus – cujos vestígios podem ser encontrados em registros de Flávio Josefo, Mara Bar Sarapion (de forma neutra e positiva) e em Plínio, o Jovem e Tácito (de forma negativa) – já no primeiro século, se traduziu pelo impacto revolucionário de sua mensagem, o que garantiu sua propagação a partir de baixo, do povo, por todo o Império, apesar da sangrenta perseguição das elites conservadoras.... Impacto este sensivelmente diluído quando o movimento de Jesus passou da esfera dos oprimidos para o dos opressores no século IV quando da oficialização e adaptação imperial do cristianismo.
Fim da Primeira Parte. A esta pretendemos dar seguimento a outras reflexões, sempre baseadas, em especial, no livro de Gerd Thiessen e Annette Merz O Jesus Histórico.

Bibliografia sugerida:


Aslan, Reza (2013). Zelota - A vida e a época de Jesus de Nazaré. Zahar editora, Rio de Janeiro

Charlesworth, James H. (1992). Jesus dentro do Judaísmo. Editora Imago, São Paulo.

Meyer, Marvin.  (2001) O Evangelho de Tomé. Editora Imago, São Paulo

Theissen, Gerd & Merz, Annette (2002). O Jesus histórico - Um manual. Editora Loyla. São Paulo

quinta-feira, 28 de março de 2013

Jesus e sua mensagem







Carlos Antonio Fragoso Guimarães

Texto escrito em 29 de dezembro de 1996

(Revisto em 28 de março de 2013)




Um pouco de Arqueologia...


 Em dezembro de 1945, alguns felás (beduínos egípcios) deslocavam-se com seus camelos por perto de um rochedo chamado Jabal al-Tarif, que margeia o rio Nilo, no Alto Egito, não muito longe da moderna cidade de Nag Hammadi. Eles estavam procurando um tipo de fertilizante natural na área, chamado sabaque.

 No sopé do Jabal al-Tarif começaram a cavar em torno de uma pedra que caíra no talude, e, sem esperarem, encontraram um jarro de armazenagem com um recipiente selado na parte superior. Um dos felás, chamado Muhammad Ali Samman, quebrou o jarro com uma picareta na esperança de encontrar algo valioso, talvéz um pequeno tesouro. Deve ter ficado um tanto quanto decepcionado ao ver que ao invés de ouro ou algum tipo de objeto de igual valor, no jarro só havia fragmentos de papiros.

 Muhammad Ali Samman, sem querer ou se dar conta, havia descoberto treze livros de papiro (códices), a que hoje chamamos de a biblioteca copta de Nag Hammadi, dois anos antes de outra descoberta famosa, a dos Manuscritos do Mar Morto, conjunto de documentos encontrados na Palestina e que haviam pertencido a uma comunidade judáica que professavam uma forma ascética diferente de judaísmo, conhecido como essênios. Porém, apesar destes últimos manuscritos terem tido maior divulgação, serem mais famosos e terem sido avlos de debates, os primeiros possuem, todavia, caráter muito mais revolucionário, em especial por estarem ligados diretamente ao cristianismo.

 Além de outras obras valiosas, entre estes papiros estava algo muito interessante: o chamado Evangelho de Tomé, que é uma coletânea de sentenças de Jesus que teriam sido compiladas, segundo a primeira frase deste Evangelho, por Judas Tomé, O Gêmeo (Dydimus, em grego).

 Antes desta descoberta excepcional, os estudiosos dos evangelhos já tinham algumas referências dos pais da Igreja referentes a um documento denominado Evangelho de Tomé (ou de Tomás). Porém, o conteúdo deste documento punha em xeque alguns posicionamentos dogmáticos da Igreja. 

  Cirilo de Jerusalém, em suas Catequeses 6.31 afirmava que o Tomé que escreveu este Evangelho não era um seguidor de Jesus, mas um maniqueu - um maniqueísta, portanto, seguidor gnóstico e místico de Mani, mestre herético do século III. Só que, atualmente, é quase consenso de que o texto de Nag Hammadi foi bem escrito antes do movimento maniqueísta ter vindo à lume e, ainda mais, tudo indica que a cópia copta deste evangelho se baseia em um texto ainda mais antigo, provavelmente escrito em grego e/ou aramaico, a língua falada por Cristo. Além dos testemunhos dos chamados padres da Igreja, temos fragmentos de três papiros gregos - encontrados num monte de lixo em Oxirronco, atual Behnesa, no Egito -, publicados em 1897, e que contêm sentenças de Jesus quase idênticas aos encontrados no Evangelho de Tomé de Nag Hammadi, escrito em língua copta. Estes fragmentos de papiros eram, portanto, representantes ou cópias de edições em grego do Evangelho de Tomé.

 Ao contrário dos outros evangelhos conhecidos, quer sejam canônicos ou apócrifos, o Evangelho de Tomé não expõe em nada narrativas sobre a vida de Jesus de Nazaré, mas atém-se especificamente às sentenças que teriam sido proferidas por Jesus a seus discípulos. Entre elas, destaco as que se seguem:


Jesus disse: "Se seus líderes vos dizem: 'Vejam, o Reino está no céu', então saibam que os pássaros do céu os precederão, pois já vivem no céu. Se lhes disserem: 'Está no mar, então o peixe os precederá pelo mesmo motivo. Antes, descubram que o Reino está dentro de vocês, e também fora de vocês. Apenas quando vocês se conhecerem, poderão ser conhecidos, e então compreenderão que todos vocês são filhos do Pai vivo. Mas se vocês não se conhecerem a si mesmos, então vocês vivem na pobreza e são a pobreza".


 Evangelho de Tomé, logion 3.

Perguntaram-lhe os discípulos: "Quando virá o Reino?" Jesus respondeu: "Não é pelo fato de alguém estar à sua espera que o verá chegar. Nem será possível dizer: Está ali, ou está aqui. O Reino do Pai está espalhado por toda a terra e os homens não o vêem".


 Evangelho de Tomé, logion 113

Jesus disse: "Eu sou como a luz que está sobre todos. Eu sou o Todo: o Todo saiu de mim e o Todo retornou a mim. Rachem um pedaço de madeira: lá estou eu; levantem a pedra e me encontrarão ali".

 Evangelho de Tomé, logion 77.


  Passagens semelhantes a estas, ao menos no conteúdo que expressam, podem ser encontradas nos Evangelhos Canônicos, ou seja, nos Evangelhos reconhecidos pela Igreja, apesar do grande número de manipulações, enxertos e cortes pelos quais estes textos reconhecidamente passaram para se adaptar aos interesses que a Igreja, como instituição, passou a compor desde que Constantino a reconheceu como Movimento Religioso livre, pavimentando o caminho para que ela se tornasse religião oficial do Império, o que veio a ocorrer plenamente com o Imperador Teodósio logo depois.  Sobre a questão das traduções e distorções dos textos bíblicos, ver o livro do Professor Severino Celestino, da UFPB, intitulado Analisando as Traduções Bíblicas, Editora Ideia, João Pessoa. Ver também Bart D. Erhamann, "O Que Jesus Disse, o que Jesus não Disse" e o volume I da série Apócrifos - Os proscritos da Bíblia organizado por Maria Helena de Oliveira Tricca, editora Mercuryo, São Paulo.

 Podemos encontrar exemplos, como em Lucas 19,20, e que expressam a idéia de Reino de Deus não como um evento ou local espacial ou temporalmente determinado, mas uma conquista do espírito ou mesmo uma tomada de consciência de que, sem que se perceba, o Reino já existe dentro do homem, não sendo extrinsecamente necessário a presença de intermediários institucionais, ou doutores teológicos, que se arvorem na presunção de fazer a ligação entre Deus e o homem, ou a dizer onde está a entrada para um exo-Paraíso que as Igrejas fizeram cada vez mais longe do homem:



Havendo-lhe perguntado os fariseus quando chegaria o Reino de Deus, lhes respondeu Jesus: "- O Reino de Deus vem sem se deixar sentir. E não dirão: '- Vede-o aqui ou ali, porque o Reino de Deus já está dentro de vós' "


 É notável a semelhança entre o conteúdo destas sentença de Jesus com a máxima adotada por Sócrates, e que foi emprestada do pórtico do Templo de Apolo, em Delfos: "Homem, conhece-te a ti mesmo e conhecerás o universo". De igual forma, outro grande mestre do espírito humano, Buda, dizia que só o conhecimento de si levava à iluminação, do mesmo modo que Láo-Tsé dizia que apenas o conhecimento da ordem dentro de si levava à compreensão do Tao, do aspecto transcendente que a tudo engloba e vivifica. Da mesma forma, os órficos falavam do processo evolutivo como uma tomada de consciência de que somos deuses por sermos filhos de Deus. Apenas não temos nem a percepção, nem a consciência disto.

 Segundo Stephen Mitchell, cujo livro "O Evangelho Segundo Jesus" recomendo, quando Jesus falava do Reino de Deus, ele de fato não estava dizendo ou profetizando um evento que acontecerá de repente e nem uma perfeição fácil e livre de perigos, como interpretaram ao seu bel-prazer alguns doutores da teologia, ou como ainda o fazem alguns líderes de religiões institucionalizadas, retirando a ênfase no presente e pondo-a num futuro sempre mais ou menos distante. Ele estava falando de um estado de espírito que, ao se fazer presente, muda o modo como o homem se comporta com seu semelhante, como fica bem demonstrado em muitas de suas parábolas, como, por exemplo, a da mulher que perde uma moeda e revira a casa inteira em sua busca e, quando a acha, sai a correr chamando os vizinhos e dizendo: alegrem-se comigo, pois achei a moeda que havia perdido. Ela encontrou algo aparentemente muito simples, algo que sempre esteve bem perto dela...

 Este estado de espírito pode ser tão simples e poético quanto a revoada de pássaros no céu ou os lírios no campo. Ele não está fora, mas fora e dentro de nós. Tudo está ligado a tudo. O homem é um ser que depende da natureza e de outros homens para sobreviver e se desenvolver enquanto ser humano. É a afinidade crescente com as leis naturais, que no homem toma outra dimensão por incluir a lei moral, que promove a aproximação do ser humano com Deus. Por isso, como está em Mateus 25, não pe dizendo "Senhor, Senhor" ou se apresentando formalmente como cristão que se garante uma posição mais próxima de Deus, mas praticando a caridade, a tolerância e o amor. 

Tudo é um e temos de passar por várias etapas para adquirir a consciência disto: "Na casa de meu Pai há muitas moradas". Enfim, o Reino é o reconhecimento no coração de que todos somos filhos de um mesmo Pai, portanto, irmãos e irmãs, cada um refletindo o próprio Deus, portanto, a maior alegria é conviver com Deus que se reflete na presença do irmão. Por isso a crítica de Cristo à hipocrisia dos pretensos Doutores da Lei, que provavam claramente nada compreenderem (no sentido profundo e vivencial) a mensagem do Deus Pai, pois rejubilivam-se em se diferenciar dos "leigos" e determinar bem esta separação pela vida de luxo e opulência, ou ao menos de distinção social, que traz o poder. Eles eram (ou melhor, consideravam-se) o elo de ligação entre Deus e seu povo. Jesus demonstrava a infantilidade desta distinção na prática e de várias formas, em especial durante as refeições, já que ele fazia questão de unir na mesma mesa tanto os sábios e Doutores da Lei, quanto gente simples, publicanos, pecadores e pessoas socialmente consideradas impuras. Ademais, no Sermão da Montanha, Jesus deixa claro que não é necessário se postar de pé, em atitude pretensamente pia, para entrar em contato com Deus, nem se por nos primeiros lugares das sinagogas (e Igrejas, poderíamso dizer hoje). Basta se isolar em seu quato e, fechada a porta, entrar em contato com Deus e Este, que sabe o que se passa no íntimo, dará o necessário ao espírito.

Todos nascemos, porém com grau variável de pessoa para pessoa, com um pouco da percepção feliz deste Reino e a mantemos enquanto a cultura - o meio -, ou melhor, a cultura montada tendo em vista divisões de classe ajuda a retirar de nós a tendência natural à afetividade, corrompendo-nos. "Se vos fizerdes como uma criança, entrarás no Reino dos Céus". Os que se envolvem em demasia com as preocupações materiais têm certa dificuldade em entrar neste estado de espírito, pois são possuídos por suas posses que exigem um esforço considerável para serem mantidas e estão tão encarcerados em seus poderes e em sua fantasia social, que, para eles, é quase impossível desapegarem-se delas e terem a liberdade de SEREM longe do peso de demonstrar APARENTAR O TER.

"Não que seja fácil para qualquer um de nós. " Escreve Stephen Mitchell. "Mas, se precisarmos avivar a memória, sempre poderemos nos sentar ao pé de nossas criancinhas. Elas, como ainda não desenvolveram uma noção muito firme do passado e do futuro, sabem aceitar de peito aberto e com plena confiança a infinita abundância do presente". Para elas, o tempo corre de forma diferente que para o adulto, e isso se dá porque a alma se maravilha com a observação do mundo natural, e não está ainda enclausurada em normas, convenções e imposições que secam a sensilidade dos adultos, ou seja, ainda não comeram do fruto do "conhecimento do bem e do mal" e se mantêm em certo sentido no Jardim do Édem.

Nossa realidade é moldada pelas nossas crenças. Normalmente vemos aquilo que esperamos ver e outras coisas escapam simplesmente ao nosso olhar por não levarmos outras possibilidades em consideração. Se tememos ao relógio, se nos apegamos ao passado e se nos apavoramos com o futuro, nunca poderemos viver o presente. De certa forma, entrar no Reino de Deus significa sentir que existe algo que cuida de nós a cada instante, da mesma forma como alimenta as aves do céu e veste os lírios do campo, com infinito amor. Algo que Jesus chamava de Abba - Papai. Um pai bem diferente do patriarcal e vingativo Deus dos Exércitos do Antigo Testamento, ainda muito presente em algumas das igrejas cristãs atuais. Talvez Abba seja uma maneira carinhosa de Jesus de se referir a um Deus Pai-Mãe... "Qual de vós, se vosso filho vos pedir pão, lhe dará uma serpente, ou um escopião se vos pedir peixe? Pois se vós, que sois imperfeitos sabeis o que dar de bom para vossos filhos, quanto mas vosso Pai, que está nos céus!"

Todos os Mestres da humanidade, em todas as épocas e lugares, sempre apontaram para a necessidade de voltarmos a viver o presente como única realidade concreta da alma no mundo: "Não vos preocupeis com o dia de amanhã, pois a cada dia basta a sua própria preocupação....", disse Jesus.

As passagens do Evangelho em que Jesus fala de um Reino dos Céus no futuro não podem ser autênticas transcrições do pensamento do Cristo, e sim interpretações de pessoas ainda muito ligadas ao pensamento judáico da época, a não ser, como fala Stephen Mitchell, que Jesus tivesse dupla personalidade, como se fossem torneiras de água quente e fria. O problema é que Jesus usava uma linguagem figurada, mais próxima do imaginário mítico que da razão discursiva, freqüentemente composta por imagens fortes, mais propícias a impressionar a mente simples do povo igualmente simples que o ouvia, fazendo-os refletir seus atos de cada dia. Esta forma de discurso soa esquisita para nós, hoje. Estas palavras, contudo, podiam ser interpretadas de modo tão diferente -e, por isso, apropriadamente - quanto o número de ouvidos que as ouviam.

O que chegou à nós, em formas de textos evangélicos, não são mais do que interpretações sobre os dizeres do Cristo feito por discípulos. Algumas passagens são tão opostas à doce doutrina de amor e compreensão de Jesus que dificilmente não nos deixam de chocar. Estas estão muito impregnadas de um espírito de vingança e de uma agressividade apocalíptica de mesmo aspecto como encontrado nos textos dos profetas do Antigo Testamento, e cabem muito bem aos judeus que vivenciaram os terríveis acontecimentos da Revolta Judáica do ano 66 d. C. que terminaria com a destruição de Jerusalém pelos romanos e com a dispersão dos judeus por todo o mundo. 

Cristo desejava mudanças sociais que promovessem maior igualidade de oportunidades e desenvolvimento a todos sim, e foi sua proposta radical de um socialismo real que lhe custou a vida após sua ação contra os cambistas do Templo, mas mais que mera crítica o que ele queria era que a transformação partisse a partir da mudança íntima das pessoas que encontrasse a intuição, em si, de que todos são filhos de Deus e, portanto, que todas as demais criaturas são irmãos e irmãs que merecem respeito. Estas passagens de um reino externo por vir, muito provavelmente, poderiam ter sido inseridas no Evangelho por discípulos que interpretaram os acontecimentos como um início da materialização do Reino que Jesus pregava, sem atinarem que este Reino é de uma profunidade maior do eles pensavam. Eles viveram estes acontecimentos e tentaram ver neles uma concretização da mudança social que Jesus aspirava a implantar na Terra, ou ainda, por interpretações feitas por discípulos de discípulos.

Já que Jesus não deixou nada escrito, tudo o que dele sabemos é de segunda ou terceira mão, sendo o primeiro evangelho sinótico, o de Marcos, sido escrito provavelmente por volta do ano 60, ainda que baseado - segundo experts - em um texto anterior, chamado de quelle - fonte, em alemão, e que muitos pensam estar contido em grande parte no Evangelho de Tomé. Fora isso, a distância ajudou a acomodar os ensinos de Cristo ao que viviam seus seguidores (veja a Home Page O Cristianismo depois de Jesus).

Estes discípulos ainda estavam cheios da tradição judáica. Passagens que falam do Reino de Deus como algo que virá no futuro existem aos borbotões nos profetas e nos escritos apocalípticos judáicos redigidos sob o jugo romano dos primeiros séculos de nossa era, bem como na maioria dos textos geralmente muito partiarcais e calcados mais na figura mitologizada de Jesus que em sua mensagem, atribuídos a Paulo pela Igreja primitiva. 

 Elas são repletas de uma esperança passional, exclusivista, e, como apontou Nietzsche, de um amargurado ressentimento contra "eles" (os poderosos políticos e econômicos, os ímpios), sem questionar o porquê que leva à existência da divisão de classes e a figura do explorador social. Certamente, a mensagem original acabou por ser reduzida às interpretações mais concordes com a mentalidade média. Algumas das epístolas atribuídas a Paulo de Tarso chegam mesmo a ter uma visão favorável tanto à estrutura escravocrata e patriarcal do Império como um posicionamento estarrecedoramente machista contra a mulher. Mas tudo isso é fruto de uma estranheza ou má interpretação intelectual e passional das reformas sociais propostas por Jesus, que, em toda a sua vida, aboliu todo tipo de distinção de castas e de origens, devido à sua consciência de irmandade entre todos. Os discípulos dos discípulos tiveram uma noção adequada ao desenvolvimento intelectual e moral de cada um deles, atrelado às comunidades em que viviam,  e não da vivência do estado de espírito ou da consciência cósmica vivenciada por Jesus. Uma vivência que foi plenamente exemplificada por um Francisco de Assis ou por um Mahatman Gandhi, e que é profundamente revolucionária, na verdade tão revolucionária que seus propositores impreterivelmente são assassinados.

 Stephen Mitchell fala, com muita propriedade, que o Reino de Deus "não é algo que irá acontecer, porque não é algo que, temporalmente falando, possa acontecer. Não pode surgir num mundo" como se fosse uma invasão externa - "O meu Reino não é deste mundo" - "é uma condição que não tem plural, mas apenas infinitos singulares. Jesus falava das pessoas 'entrando' no Reino, e que as crianças já estavam nele (...).

 Se pararmos de olhar para frente e para trás, foi o que ele nos disse, poderemos nos dedicar a buscar o Reino que está bem debaixo de nosso pés, bem diante de nosso nariz; e, quando o encotrarmos, alimentos, roupas e outras coisas necessárias também nos serão dados, tal como o são às aves e aos lírios. (...) Este reino é como um tesouro enterrado num campo que é nossa alma; é como uma pérola de grande valor; é como voltar para casa. Quando o encontramos, encontramos a nós mesmos, tornamo-nos donos de uma riqueza infinita (...)", é por isto que todos os místicos falam em perderem-se em Deus. "Eu e o Pai somo um", pois nossa personalidade é apenas uma máscara mutável, mas o self, como diria Jung, é a parte mais próxima do divino, em nós. Vivenciando o Deus que há em nós, poderemos reconehcer o Deus que há no outro e, assim, poderemos viver, naturalmente, devido à nosso grau de consciência, a Liberdade, a Igualdade e a Fraternidade.

 O verdairo Jesus é o Jesus do Sermão da Montanha, o Jesus entre as crianças, o Jesus que admitia mulheres, publicanos e leprosos entre seus seguidores, tomando um posicionamento bastante crítico ao machismo exclusivista e fundamentalista do Antigo Testamento. Foi um homem que se esvaziou dos desejos mundanos comuns, esvaziou-se de doutrinas e regras - todos os inúteis aparatos intelectuais - e se deixou preencher pela vida, como o demonstram as suas parábolas, onde o reino é o campo, é a festa de núpcias, é a rede lançada ao mar... Porque se desapegou de tudo o que é egóico e passou a sentir o TODO - o Tao, como diria Lao-Tsé -, ele deixou de ser meramente alguém, para ser também todos, todo o mundo: "Tudo isso que fizeres a um destes pequeninos, fareis a mim". Porque admitiu ap resença de um comunhão com Deus em sí, sua personalidade é como um ímã que atrai a todos. Quanto mais se aproximam dele, mais sentem a pureza de seu coração. Um coração que é como um quarto claro e espaçoso: "Vinde a mim todos vóis que estais aflitos e sobrecarregados, e eu vos aliviarei". As pessoas ou as possibilidades abrem a porta e entram. O quarto recebe a todas o tempo que quiserem, sem impor regras além da do amor. É bem diferente de um coração cheio de pertences, de crenças e de certezas, cujo dono senta-se atrás da porta trancada com uma arma em punho, como o fazem as Igrejas de todas as denominações.

Jesus também reconhecia as verdades espirituais que foram ditas pelos outros Grandes Mestres da humanidade, em todas as épocas. É assim que se explica as grandes similaridades entre seus ensinamentos e os de Buda, por exemplo, que nasceu mais de 500 anos antes de Cristo.

Jesus enfatizava a importância da evolução e da transformação pessoal: "Não te maravilhes de eu ter dito: Necessário vos é nascer de novo (João, 3. 3-7)". Reconhecia a imortalidade da alma: "De fato, Elias há de vir e restabeler todas as coisas. Eu porém vos digo: Elias já veio e fizeram dele o que quiseram! E os discípulos compreenderam que era de João Batista de quem ele falava" (Mateus, 17, 11-13; Marcos, 9, 11-13). Bem, como Elias não voltou numa carruagem celeste ao tempo de Jesus, e como "os discípulos compreenderam que era de João Batista de quem ele lhes falava", Elias e João têm de ser a mesma pessoa... Ora, todos conheciam a história do nascimento de João - aliás, o anjo que aparece a Zacarias diz que o menino "irá adiante do Senhor no espírito e no poder de Elias (Lucas, 1. 17)".

 Sendo assim, a única possibilidade real de Elias ter retornado à terra como João era a de que ele reencarnou como João, conhecido como O Batista, primo de Jesus... Esta ideia na reencarnação, conhecida ao tempo e na região de Jesus com o nome confuso de ressurreição (Mateus, 16.13-15), era familiar a inúmeros sistemas filosóficos da era helenística, e é encontrado em Pitágoras, Sócrates e Platão, sendo retomado por Amônio Sacas e por seu discípulo Plotino e, já na era cristã, por Orígenes de Alexandria, um dos pais da Igreja. Esta crença permaneceu mais ou menos atuante durante os primeiros séculos do cristianismo até que os interesses temporais e políticos a tornaram numa crença herética. 

 Cristo também solapou a proibição de Moisés de não invocar os mortos, pois sabemos de seu encontro visível com dois mortos (Mateus, 17. 14-21; Lucas 9. 37-43) - o próprio Moisés, e Elias (João já havia sido degolado a esta época) -, no fenômeno da transfiguração, isso sem falar nas aparições póstumas durante os quarenta dias após a crucificação  já que Cristo podia aparecer e desaparecer de repente, tanto em Emaús ("então se lhes abriram os olhos, e o reconheceram; mas ele desapareceu da presença deles." Lucas, 24, 31), como em Jerusalém "estando as portas fechadas" ("Ao cair da tarde daquele dia, o primeiro da semana, estando trancadas as portas da casa onde estavam os discípulos com medo dos judeus, veio Jesus, pôs-se no meio e disse-lhes: Paz seja convosco! João, 20, 19. Ou nesta outra passagem: "Finalmente apareceu Jesus aos onze, quando estavam em casa..." Marcos, 16,14).

  Tal fenômeno se explica perfeitamente pelo processo da materialização do nobre e poderoso espírito de Jesus. É interessante notar, nesse ponto, o comportamento de algumas seitas de base fundamentalista que aceitam tudo ao pé da letra que está escrito na Bíblia mas, quando chegam nestas partes dos Evangelhos, INTERPRETAM o que está escrito da forma que mais lhes convenha para negar a realidade destes fatos, isso quando não invocam o suposto ser que acaba por se tranformar em seu maior aliado em questões que os embaraçam, ou seja, o "demônio", para dizer que estão errados os outros, os que aceitam a reencarnação ou a vida após a morte e que estão possuidos do espírito do mal, e não eles, detentores de todo o saber sobre o absoluto.... "Ai de vós, doutores da lei..." pois estão plenos de orgulho, e são como "Cegos a guiar outros cegos". Certamente o discurso pleno de preconceitos e incitamente à discriminação sexual e mesmo racial de certos "pastores" passam a anos luz da mensagem de tolerância, fraternidade e compreensão de Cristo.

Enfim, ainda citando Mitchell, Jesus foi o maior exemplo de quão longe pode o homem chegar. Ele soube viver plenamente entre os dois mundos: o material e o espiritual. Soube dar a César o que é de César e a Deus o que é de Deus. Ele foi uma árvore. Como fala Mitchell, a árvore não tenta arrancar da terra as suas raízes e plantar-se no céu, nem tampouco estende suas folhas para baixo, junto à lama. Ela precisa tanto do solo quanto da luz, e sabe a direção de cada coisa. Exatamente porque enterra as suas raízes na terra escura, é que pode sutentar suas folhas no alto para receber a luz do sol... É pena que Jesus de Nazaré seja frequentemente incompreentendido pelos Cristãos.


Bibliografia sugerida

Da Silva, Severino Celestino. "Analisando as Traduções Bíblicas", editora Idéia, João Pessoa, 1999.
Mateus, Marcos, Lucas e João. "O Novo Testamento : Os 4 Evangelhos", diversas editoras.
Meyer, Marvin. "O Evangelho de Tomé". Ed. Imago, Coleção Bereshit, Rio de Janeiro, 1993.
Miranda, Hermínio Correia. "O Evangelho de Tomé - Texto e Contexto". Ed. Arte e Cultura, Niterói, 1992.
Miranda, Hermínio Correia. "O Evangelho Gnóstico de Tomé". Publicações Lachatre, Niterói, 1995.
Mitchell, Stephen. "O Evangelho Segundo Jesus". Ed. Imago, Coleção Bereshit, Rio de Janeiro, 1994.
Benítez, J.J. "Operação Cavalo de Tróia" Editora Mercuryo, São Paulo, 1988.
Leloup, Jean-Yves. "O Evangelho de Tomé". Editora Vozes, Petrópolis, 1998.
Tricca, Maria Helena de Oliveira (Org.) "Apócrifos - Os Proscritos da Bíblia". Editora Mercuryo, São Paulo, 1989.

quinta-feira, 3 de junho de 2010

Jesus e sua mensagem














Carlos Antonio Fragoso Guimarães

Texto escrito em 29 de dezembro de 1996

Originalmente publicado no site "O Espiritualismo Ocidental" da extinta GeoCities


Um pouco de Arqueologia...

Em dezembro de 1945, alguns felás (beduínos egípcios) deslocavam-se com seus camelos por perto de um rochedo chamado Jabal al-Tarif, que margeia o rio Nilo, no Alto Egito, não muito longe da moderna cidade de Nag Hammadi. Eles estavam procurando um tipo de fertilizante natural na área, chamado sabaque.
No sopé do Jabal al-Tarif começaram a cavar em torno de uma pedra que caíra no talude, e, sem esperarem, encontraram um jarro de armazenagem com um recepiente selado na parte superior. Um dos felás, chamado Muhammad Ali Samman, quebrou o jarro com uma picareta na esperança de encontrar algo valioso, talvéz um pequeno tesouro. Deve ter ficado um tanto quanto decepcionado ao ver que ao invés de ouro ou algum tipo de objeto de igual valor, no jarro só havia fragmentos de papiros.

Muhammad Ali Samman, sem querer ou se dar conta, havia descoberto treze livros de papiro (códices), a que hoje chamamos de a biblioteca copta de Nag Hammadi, dois anos antes de outra descoberta famosa, a dos Manuscritos do Mar Morto, conjunto de documentos encontrados na Palestina e que haviam pertencido a uma comunidade judáica que professavam uma forma ascética diferente de judaísmo, conhecido como essênios. Porém, apesar destes últimos manuscritos terem tido maior divulgação, serem mais famosos e terem sido avlos de debates, os primeiros possuem, todavia, caráter muito mais revolucionário, em especial por estarem ligados diretamente ao cristianismo.

Além de outras obras valiosas, entre estes papiros estava algo muito interessante: o chamado Evangelho de Tomé, que é uma coletânea de sentenças de Jesus que teriam sido compiladas, segundo a primeira frase deste Evangelho, por Judas Tomé, O Gêmeo (Dydimus, em grego).

Antes desta descoberta excepcional, os estudiosos dos evangelhos já tinham algumas referências dos pais da Igreja referentes a um documento denominado Evangelho de Tomé (ou de Tomás). Porém, o conteúdo deste documento punha em xeque alguns posicionamentos dogmáticos da Igreja. Cirilo de Jerusalém, em suas Catequeses 6.31 afirmava que o Tomé que escreveu este Evangelho não era um seguidor de Jesus, mas um maniqueu - um maniqueísta, portanto, seguidor gnóstico e místico de Mani, mestre herético do século III. Só que, atualmente, é quase consenso de que o texto de Nag Hammadi foi bem escrito antes do movimento maniqueísta ter vindo à lume e, ainda mais, tudo indica que a cópia copta deste evangelho se baseia em um texto ainda mais antigo, provavelmente escrito em grego e/ou aramaico, a língua falada por Cristo. Além dos testemunhos dos chamados padres da Igreja, temos fragmentos de três papiros gregos - encontrados num monte de lixo em Oxirronco, atual Behnesa, no Egito -, publicados em 1897, e que contêm sentenças de Jesus quase idênticas aos encontrados no Evangelho de Tomé de Nag Hammadi, escrito em língua copta. Estes fragmentos de papiros eram, portanto, representantes ou cópias de edições em grego do Evangelho de Tomé.

Ao contrário dos outros evangelhos conhecidos, quer sejam canônicos ou apócrifos, o Evangelho de Tomé não expõe em nada narrativas sobre a vida de Jesus de Nazaré, mas atém-se especificamente às sentenças que teriam sido proferidas por Jesus a seus discípulos. Entre elas, destaco as que se seguem:


Jesus disse: "Se seus líderes vos dizem: 'Vejam, o Reino está no céu', então saibam que os pássaros do céu os precederão, pois já vivem no céu. Se lhes disserem: 'Está no mar, então o peixe os precederá pelo mesmo motivo. Antes, descubram que o Reino está dentro de vocês, e também fora de vocês. Apenas quando vocês se conhecerem, poderão ser conhecidos, e então compreenderão que todos vocês são filhos do Pai vivo. Mas se vocês não se conhecerem a si mesmos, então vocês vivem na pobreza e são a pobreza".


Evangelho de Tomé, logion 3.

Perguntaram-lhe os discípulos: "Quando virá o Reino?" Jesus respondeu: "Não é pelo fato de alguém estar à sua espera que o verá chegar. Nem será possível dizer: Está ali, ou está aqui. O Reino do Pai está espalhado por toda a terra e os homens não o vêem".


Evangelho de Tomé, logion 113

Jesus disse: "Eu sou como a luz que está sobre todos. Eu sou o Todo: o Todo saiu de mim e o Todo retornou a mim. Rachem um pedaço de madeira: lá estou eu; levantem a pedra e me encontrarão ali".

Evangelho de Tomé, logion 77.


Passagens semelhantes a estas, ao menos no conteúdo que expressam, podem ser encontradas nos Evangelhos Canônicos, ou seja, nos Evangelhos reconhecidos pela Igreja, apesar do grande número de manipulações, enxertos e cortes pelos quais estes textos reconhecidamente passaram para se adaptar aos interesses que a Igreja, como instituição, passou a compor desde que Constatino a reconheceu como Instituição Oficial (sobre a questão das traduções e distorções dos textos bíblicos, ver o livro do Professor Severino Celestino, da UFPB, intitulado Analisando as Traduções Bíblicas, Editora Idéia, João Pessoa. O professor Celestino aprendeu grego e hebráico e teve a acessoria de rabinos e exegetas cristãos para apontar as distorções "oficiosas" dos textos ditos sagrados. Ver também o volume I da série Apócrifos - Os proscritos da Bíblia organizado por Maria Helena de Oliveira Tricca, editora Mercuryo, São Paulo).

Podemos encontrar exemplos, como em Lucas 19,20, e que expressam a idéia de Reino de Deus não como um evento ou local espacial ou temporalmente determinado, mas uma conquista do espírito ou mesmo uma tomada de consciência de que, sem que se perceba, o Reino já existe dentro do homem, não sendo extrinsecamente necessário a presença de intermediários institucionais, ou doutores teológicos, que se arvorem na presunção de fazer a ligação entre Deus e o homem, ou a dizer onde está a entrada para um exo-Paraíso que as Igrejas fizeram cada vez mais longe do homem:



Havendo-lhe perguntado os fariseus quando chegaria o Reino de Deus, lhes respondeu Jesus: "- O Reino de Deus vem sem se deixar sentir. E não dirão: '- Vede-o aqui ou ali, porque o Reino de Deus já está dentro de vós' "


É notável a semelhança entre o conteúdo destas sentença de Jesus com a máxima adotada por Sócrates, e que foi emprestada do pórtico do Templo de Apolo, em Delfos: "Homem, conhece-te a ti mesmo e conhecerás o universo". De igual forma, outro grande mestre do espírito humano, Buda, dizia que só o conhecimento de si levava à iluminação, do mesmo modo que Láo-Tsé dizia que apenas o conhecimento da ordem dentro de si levava à compreensão do Tao, do aspecto transcendente que a tudo engloba e vivifica. Da mesma forma, os órficos falavam do processo evolutivo como uma tomada de consciência de que somos deuses por sermos filhos de Deus. Apenas não temos nem a percepção, nem a consciência disto.

Segundo Stephen Mitchell, cujo livro "O Evangelho Segundo Jesus" recomendo, quando Jesus falava do Reino de Deus, ele de fato não estava dizendo ou profetizando um evento que acontecerá de repente e nem uma perfeição fácil e livre de perigos, como interpretaram ao seu bel-prazer alguns doutores da teologia, ou como ainda o fazem alguns líderes de religiões institucionalizadas, retirando a ênfase no presente e pondo-a num futuro sempre mais ou menos distante. Ele estava falando de um estado de espírito que, ao se fazer presente, muda o modo como o homem se comporta com seu semelhante, como fica bem demonstrado em muitas de suas parábolas, como, por exemplo, a da mulher que perde uma moeda e revira a casa inteira em sua busca e, quando a acha, sai a correr chamando os vizinhos e dizendo: alegrem-se comigo, pois achei a moeda que havia perdido. Ela encontrou algo aparentemente muito simples, algo que sempre esteve bem perto dela...

Este estado de espírito pode ser tão simples e poético quanto a revoada de pássaros no céu ou os lírios no campo. Ele não está fora, mas fora e dentro de nós. Tudo está ligado a tudo. O homem é um ser que depende da natureza e de outros homens para sobreviver. Tudo é um e temos de passar por várias etapas para adquirir a consciência disto:"Na casa de meu Pai há muitas moradas". Enfim, o Reino é o reconhecimento no coração de que todos somos filhos de um mesmo Pai, portanto, irmãos e irmãs, cada um refletindo o próprio Deus, portanto, a maior alegria é conviver com Deus que se reflete na presença do irmão. Por isso a crítica de Cristo à hipocrisia dos pretensos Doutores da Lei, que provavam claramente nada compreenderem (no sentido profundo e vivencial) a mensagem do Deus Pai, pois rejubilivam-se em se diferenciar dos "leigos" e determinar bem esta separação pela vida de luxo e opulência, ou ao menos de distinção social, que traz o poder. Eles eram (ou melhor, consideravam-se) o elo de ligação entre Deus e seu povo. Jesus demonstrava a infantilidade desta distinção na prática e de várias formas, em especial durante as refeições, já que ele fazia questão de unir na mesma mesa tanto os sábios e Doutores da Lei, quanto gente simples, publicanos, pecadores e pessoas socialmente consideradas impuras. Ademais, no Sermão da Montanha, Jesus deixa claro que não é necessário se postar de pé, em atitude pretensamente pia, para entrar em contato com Deus, nem se por nos primeiros lugares das sinagogas (e Igrejas, poderíamso dizer hoje). Basta se isolar em seu quato e, fechada a porta, entrar em contato com Deus e Este, que sabe o que se passa no íntimo, dará o necessário ao espírito.

Todos nascemos, porém com grau variável de pessoa para pessoa, com um pouco da percepção feliz deste Reino e a mantemos enquanto a cultura - o meio -, ou melhor, a cultura montada tendo em vista divisões de classe ajuda a retirar de nós a tendência natural à afetividade, corrompendo-nos. "Se vos fizerdes como uma criança, entrarás no Reino dos Céus". Os que se envolvem em demasia com as preocupações materiais têm certa dificuldade em entrar neste estado de espírito, pois são possuídos por suas posses que exigem um esforço considerável para serem mantidas e estão tão encarcerados em seus poderes e em sua fantasia social, que, para eles, é quase impossível desapegarem-se delas e terem a liberdade de SEREM longe do peso de demonstrar APARENTAR O TER.

"Não que seja fácil para qualquer um de nós. " Escreve Stephen Mitchell. "Mas, se precisarmos avivar a memória, sempre poderemos nos sentar ao pé de nossas criancinhas. Elas, como ainda não desenvolveram uma noção muito firme do passado e do futuro, sabem aceitar de peito aberto e com plena confiança a infinita abundância do presente". Para elas, o tempo corre de forma diferente que para o adulto, e isso se dá porque a alma se maravilha com a observação do mundo natural, e não está ainda enclausurada em normas, convenções e imposições que secam a sensilidade dos adultos, ou seja, ainda não comeram do fruto do "conhecimento do bem e do mal" e se mantêm em certo sentido no Jardim do Édem.

Nossa realidade é moldada pelas nossas crenças. Normalmente vemos aquilo que esperamos ver e outras coisas escapam simplesmente ao nosso olhar por não levarmos outras possibilidades em consideração. Se tememos ao relógio, se nos apegamos ao passado e se nos apavoramos com o futuro, nunca poderemos viver o presente. De certa forma, entrar no Reino de Deus significa sentir que existe algo que cuida de nós a cada instante, da mesma forma como alimenta as aves do céu e veste os lírios do campo, com infinito amor. Algo que Jesus chamava de Abba - Papai. Um pai bem diferente do patriarcal e vingativo Deus dos Exércitos do Antigo Testamento, ainda muito presente em algumas das igrejas cristãs atuais. Talvez Abba seja uma maneira carinhosa de Jesus de se referir a um Deus Pai-Mãe... "Qual de vós, se vosso filho vos pedir pão, lhe dará uma serpente, ou um escopião se vos pedir peixe? Pois se vós, que sois imperfeitos sabeis o que dar de bom para vossos filhos, quanto mas vosso Pai, que está nos céus!"

Todos os Mestres da humanidade, em todas as épocas e lugares, sempre apontaram para a necessidade de voltarmos a viver o presente como única realidade concreta da alma no mundo: "Não vos preocupeis com o dia de amanhã, pois a cada dia basta a sua própria preocupação....", disse Jesus.

As passagens do Evangelho em que Jesus fala de um Reino dos Céus no futuro não podem ser autênticas transcrições do pensamento do Cristo, e sim interpretações de pessoas ainda muito ligadas ao pensamento judáico da época, a não ser, como fala Stephen Mitchell, que Jesus tivesse dupla personalidade, como se fossem torneiras de água quente e fria. O problema é que Jesus usava uma linguagem figurada, mais próxima do imaginário mítico que da razão discursiva, freqüentemente composta por imagens fortes, mais propícias a impressionar a mente simples do povo igualmente simples que o ouvia, fazendo-os refletir seus atos de cada dia. Esta forma de discurso soa esquisita para nós, hoje. Estas palavras, contudo, podiam ser interpretadas de modo tão diferente -e, por isso, apropriadamente - quanto o número de ouvidos que as ouviam.

O que chegou à nós, em formas de textos evangélicos, não são mais do que interpretações sobre os dizeres do Cristo feito por discípulos. Algumas passagens são tão opostas à doce doutrina de amor e compreensão de Jesus que dificilmente não nos deixam de chocar. Estas estão muito impregnadas de um espírito de vingança e de uma agressividade apocalíptica de mesmo aspecto como encontrado nos textos dos profetas do Antigo Testamento, e cabem muito bem aos judeus que vivenciaram os terríveis acontecimentos da Revolta Judáica do ano 66 d. C. que terminaria com a destruição de Jerusalém pelos romanos e com a dispersão dos judeus por todo o mundo. Cristo desejava mudanças sociais sim, e foi sua proposta radical de um socialismo real que lhe custou a vida após sua ação contra os cambistas do Templo, mas mais que mera crítica o que ele queria era que a transformação partisse a partir da mudança íntima das pessoas que encontrasse a intuição, em si, de que todos são filhos de Deus e, portanto, que todas as demais criaturas são irmãos e irmãs que merecem respeito. Estas passagens de um reino externo por vir, muito provavelmente, poderiam ter sido inseridas no Evangelho por discípulos que interpretaram os acontecimentos como um início da materialização do Reino que Jesus pregava, sem atinarem que este Reino é de uma profunidade maior do eles pensavam. Eles viveram estes acontecimentos e tentaram ver neles uma concretização da mudança social que Jesus aspirava a implantar na Terra, ou ainda, por interpretações feitas por discípulos de discípulos.

Já que Jesus não deixou nada escrito, tudo o que dele sabemos é de segunda ou terceira mão, sendo o primeiro evangelho sinótico, o de Marcos, sido escrito provavelmente por volta do ano 60, ainda que baseado - segundo experts - em um texto anterior, chamado de quelle - fonte, em alemão, e que muitos pensam estar contido em grande parte no Evangelho de Tomé. Fora isso, a distância ajudou a acomodar os ensinos de Cristo ao que viviam seus seguidores (veja a Home Page O Cristianismo depois de Jesus).

Estes discípulos ainda estavam cheios da tradição judáica. Passagens que falam do Reino de Deus como algo que virá no futuro existem aos borbotões nos profetas e nos escritos apocalípticos judáicos redigidos sob o jugo romano dos primeiros séculos de nossa era, bem como na maioria dos textos geralmente muito partiarcais e calcados mais na figura mitologizada de Jesus que em sua mensagem, atribuídos a Paulo pela Igreja primitiva. Elas são repletas de uma esperança passional, exclusivista, e, como apontou Nietzsche, de um amargurado ressentimento contra "eles" (os poderosos políticos e econômicos, os ímpios), sem questionar o porquê que leva à existência da divisão de classes e a figura do explorador social. Certamente, a mensagem original acabou por ser reduzida às interpretações mais concordes com a mentalidade média. Mas tudo isso é fruto de uma interpretação intelectual e passional das reformas sociais propostas por Jesus, que, em toda a sua vida, aboliu todo tipo de distinção de castas e de origens, devido à sua consciência de irmandade entre todos. Os discípulos dos discípulos tiveram uma noção apenas intelectual disto e não da vivência do estado de espírito ou da consciência cósmica vivenciada por Jesus. Uma vivência que foi plenamente exemplificada por um Francisco de Assis ou por um Mahatman Gandhi, e que é profundamente revolucionária, na verdade tão revolucionária que seus propositores impreterivelmente são assassinados.

Stephen Mitchell fala, com muita propriedade, que o Reino de Deus "não é algo que irá acontecer, porque não é algo que, temporalmente falando, possa acontecer. Não pode surgir num mundo" como se fosse uma invasão externa - "O meu Reino não é deste mundo" - "é uma condição que não tem plural, mas apenas infinitos singulares. Jesus falava das pessoas 'entrando' no Reino, e que as crianças já estavam nele (...).

Se pararmos de olhar para frente e para trás, foi o que ele nos disse, poderemos nos dedicar a buscar o Reino que está bem debaixo de nosso pés, bem diante de nosso nariz; e, quando o encotrarmos, alimentos, roupas e outras coisas necessárias também nos serão dados, tal como o são às aves e aos lírios. (...) Este reino é como um tesouro enterrado num campo que é nossa alma; é como uma pérola de grande valor; é como voltar para casa. Quando o encontramos, encontramos a nós mesmos, tornamo-nos donos de uma riqueza infinita (...)", é por isto que todos os místicos falam em perderem-se em Deus. "Eu e o Pai somo um", pois nossa personalidade é apenas uma máscara mutável, mas o self, como diria Jung, é a parte mais próxima do divino, em nós. Vivenciando o Deus que há em nós, poderemos reconehcer o Deus que há no outro e, assim, poderemos viver, naturalmente, devido à nosso grau de consciência, a Liberdade, a Igualdade e a Fraternidade.

O verdairo Jesus é o Jesus do Sermão da Montanha, o Jesus entre as crianças, o Jesus que admitia mulheres, publicanos e leprosos entre seus seguidores, um homem que se esvaziou dos desejos mundanos comuns, esvaziou-se de doutrinas e regras - todos os inúteis aparatos intelectuais - e se deixou preencher pela vida, como o demonstram as suas parábolas, onde o reino é o campo, é a festa de núpcias, é a rede lançada ao mar... Porque se desapegou de tudo o que é egóico e passou a sentir o TODO - o Tao, como diria Lao-Tsé -, ele deixou de ser meramente alguém, para ser também todos, todo o mundo: "Tudo isso que fizeres a um destes pequeninos, fareis a mim". Porque admitiu Deus em sí, sua personalidade é como um ímã que atrai a todos. Quanto mais se aproximam dele, mais sentem a pureza de seu coração. Um coração que é como um quarto claro e espaçoso: "Vinde a mim todos vóis que estais aflitos e sobrecarregados, e eu vos aliviarei". As pessoas ou as possibilidades abrem a porta e entram. O quarto recebe a todas o tempo que quiserem, sem impor regras além da do amor. É bem diferente de um coração cheio de pertences, de crenças e de certezas, cujo dono senta-se atrás da porta trancada com uma arma em punho, como o fazem as Igrejas de todas as denominações.

Jesus também reconhecia as verdades espirituais que foram ditas pelos outros Grandes Mestres da humanidade, em todas as épocas. É assim que se explica as grandes similaridades entre seus ensinamentos e os de Buda, por exemplo, que nasceu mais de 500 anos antes de Cristo.

Jesus enfatizava a importância da evolução e da transformação pessoal: "Não te maravilhes de eu ter dito: Necessário vos é nascer de novo (João, 3. 3-7)". Reconhecia a imortalidade da alma: "De fato, Elias há de vir e restabeler todas as coisas. Eu porém vos digo: Elias já veio e fizeram dele o que quiseram! E os discípulos compreenderam que era de João Batista de quem ele falava" (Mateus, 17, 11-13; Marcos, 9, 11-13). Bem, como Elias não voltou numa carruagem celeste ao tempo de Jesus, e como "os discípulos compreenderam que era de João Batista de quem ele lhes falava", Elias e João têm de ser a mesma pessoa... Ora, todos conheciam a história do nascimento de João - aliás, o anjo que aparece a Zacarias diz que o menino "irá adiante do Senhor no espírito e no poder de Elias (Lucas, 1. 17)".

Sendo assim, a única possibilidade real de Elias ter retornado à terra como João era a de que ele reencarnou como João, conhecido como O Batista, primo de Jesus... Esta idéia na reencarnação, conhecida ao tempo e na região de Jesus com o nome confuso de ressurreição (Mateus, 16.13-15), era familiar a inúmeros sistemas filosóficos da era helenística, e é encontrado em Pitágoras, Sócrates e Platão, sendo retomado por Amônio Sacas e por seu discípulo Plotino e, já na era cristã, por Orígenes de Alexandria, um dos pais da Igreja. Esta crença permaneceu mais ou menos atuante durante os primeiros séculos do cristianismo até que os interesses temporais e políticos a tornaram numa crença herética. Cristo também solapou a proibição de Moisés de não invocar os mortos, pois sabemos de seu encontro visível com dois mortos (Mateus, 17. 14-21; Lucas 9. 37-43) - o próprio Moisés, e Elias (João já havia sido degolado a esta época) -, no fenômeno da transfiguração, isso sem falar nas aparições póstumas durante os quarenta dias após a cruxificação, já que Cristo podia aparecer e desaparecer de repente, tanto em Emaús ("então se lhes abriram os olhos, e o reconheceram; mas ele desapareceu da presença deles." Lucas, 24, 31), como em Jerusalém "estando as portas fechadas" ("Ao cair da tarde daquele dia, o primeiro da semana, estando trancadas as portas da casa onde estavam os discípulos com medo dos judeus, veio Jesus, pôs-se no meio e disselhes: Paz seja convosco! João, 20, 19; "Finalmente apareceu Jesus aos onze, quando estavam em casa..." Marcos, 16,14). Tal fenômeno se explica perfeitamente pelo processo da materialização do nobre e poderoso espírito de Jesus. É interessante notar, nesse ponto, o comportamento de algumas seitas de base fundamentalista que aceitam tudo ao pé da letra que está escrito na Bíblia mas, quando chegam nestas partes dos Evangelhos, INTERPRETAM o que está escrito da forma que mais lhes convenha para negar a realidade destes fatos, isso quando não invocam o suposto ser que acaba por se tranformar em seu maior aliado em questões que os embaraçam, ou seja, o "demônio", para dizer que estão errados os outros, os que aceitam a reencarnação ou a vida após a morte e que estão possuidos do espírito do mal, e não eles, detentores de todo o saber sobre o absoluto.... "Ai de vós, doutores da lei..." pois estão plenos de orgulho, e são como "Cegos a guiar outros cegos".

Enfim, ainda citando Mitchell, Jesus foi o maior exemplo de quão longe pode o homem chegar. Ele soube viver plenamente entre os dois mundos: o material e o espiritual. Soube dar a César o que é de César e a Deus o que é de Deus. Ele foi uma árvore. Como fala Mitchell, a árvore não tenta arrancar da terra as suas raízes e plantar-se no céu, nem tampouco estende suas folhas para baixo, junto à lama. Ela precisa tanto do solo quanto da luz, e sabe a direção de cada coisa. Exatamente porque enterra as suas raízes na terra escura, é que pode sutentar suas folhas no alto para receber a luz do sol... É pena que Jesus de Nazaré seja frequentemente incompreentendido pelos Cristãos.


Bibliografia sugerida

Da Silva, Severino Celestino. "Analisando as Traduções Bíblicas", editora Idéia, João Pessoa, 1999.
Mateus, Marcos, Lucas e João. "O Novo Testamento : Os 4 Evangelhos", diversas editoras.
Meyer, Marvin. "O Evangelho de Tomé". Ed. Imago, Coleção Bereshit, Rio de Janeiro, 1993.
Miranda, Hermínio Correia. "O Evangelho de Tomé - Texto e Contexto". Ed. Arte e Cultura, Niterói, 1992.
Miranda, Hermínio Correia. "O Evangelho Gnóstico de Tomé". Publicações Lachatre, Niterói, 1995.
Mitchell, Stephen. "O Evangelho Segundo Jesus". Ed. Imago, Coleção Bereshit, Rio de Janeiro, 1994.
Benítez, J.J. "Operação Cavalo de Tróia" Editora Mercuryo, São Paulo, 1988.
Leloup, Jean-Yves. "O Evangelho de Tomé". Editora Vozes, Petrópolis, 1998.
Tricca, Maria Helena de Oliveira (Org.) "Apócrifos - Os Proscritos da Bíblia". Editora Mercuryo, São Paulo, 1989.