Mostrando postagens com marcador mediocridade de Bolsonaro. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador mediocridade de Bolsonaro. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 1 de abril de 2020

Quanto tempo dura a psicopatia de extrema-direita no poder? Texto de Fernando Brito


Ao contrário, o que aconteceu ontem mostra que o cinismo está forte e presente dentro do núcleo do governo, com a estapafúrdia decisão de limitar aos cadastrados e ao integrantes do Bolsa Família o auxílio-merrecal e, assim mesmo, pagá-lo apenas no dia 16 quando, aliás, será muitíssimo mais perigoso formar filas para recebê-lo.


Texto de Fernando Brito, no site Tijolaço:




É, sem dúvida, melhor que Jair Bolsonaro tenha cedido às pressões que de todo lado lhe vêm e moderado o grau de insanidade de seu discurso, ontem à noite.
Recordemos, porém, que o fez por conveniência e não por convicção.
E, portanto, não vai corresponder com atos concretos à gravidade do momento, o que ele segue desprezando como tragédia.
Bolsonaro não está apenas deixando de comandar – como deveria – o enfrentamento, mas também atrapalhando quem tenta, desesperadamente, proteger a população.
Se os senhores generais estão, de fato, preocupados com a irrupção de saques e conflitos sociais, deveriam estar, a esta altura, pressionando o presidente a que mandasse Paulo Guedes operacionalizar esta ajuda miserável que anunciou para ontem.
Na hora da fome, meio quilo de feijão vale mais que dois quilos no “mês que vem”.
Ao contrário, o que aconteceu ontem mostra que o cinismo está forte e presente dentro do núcleo do governo, com a estapafúrdia decisão de limitar aos cadastrados e ao integrantes do Bolsa Família o auxílio-merrecal e, assim mesmo, pagá-lo apenas no dia 16 quando, aliás, será muitíssimo mais perigoso formar filas para recebê-lo.
E Guedes “descobre”, ainda por cima, que seria necessária a edição de um Emenda Constitucional para isso.
Não é para ser levada a sério, portanto, a aparente “tomada de consciência” do Governo na crise que estamos e vamos enfrentar.
Um valente pode, eventualmente, acovardar-se, mas um covarde jamais de toma da ousadia necessária.
E, creiam, todo aquele que se faz de valentão, como o atual presidente é, antes de tudo, um covarde.

quinta-feira, 19 de março de 2020

Luis Nassif: "Nesses momentos extremos, bebo Brasil e aposto que eles não passarão"




E ouvindo, e vendo a celebração nacional em torno da música, a maneira como se enfrenta a perda, me passa a esperança de que eles não passarão.

Nesses momentos extremos, bebo Brasil.
Inclusive para superar o sentimento de raiva que paira no ar, tão corrosivo quanto o coronavirus, principalmente quando se fica sabendo da infiltração do ódio bolsonarista nos escalões médios e baixos das Forças Armadas e das Polícias Militares em um momento em que a peste necessita de um movimento de solidariedade nacional. E tudo estimulado por um presidente desequilibrado, obcecado pela síndrome da morte.
O que acontecerá é uma incógnita, mas que reforça o sentimento de indignação com pessoas como Luis Roberto Barroso, o general Villas Boas e outros oportunistas que se valeram das armas institucionais para jogar o Brasil nas mãos de loucos pirados, uma aventura inconsequente, como se não fosse a consequência lógica do discurso de ódio legitimado por eles e outros oportunistas institucionais.
Entra-se no maior desafio da história, com o terror difuso da coronavirus e do desemprego ameaçando nossas crianças, nossos velhos, e o Brasil se transformando em uma nau sem rumo dirigida por insensatos, com o risco do próximo porto ser o da rebelião final da ralé.
Mas não é hora do ódio consumir as energias. É hora de juntar forças e de buscar, nos nossos valores imemoriais, as forças para enfrentar a peste. É esse sentimento que dobrará os broncos, os toscos, os primários que passaram a comandar o país.
As lembranças correm solta e remetem à infância, com os filhos sentindo-se seguros, protegidos pelos pais. Fico lembrando da minha crise de crupe, de sarampo, indo ao doutor Martinho que me receitou três injeções. A de menor tamanho era a mais dolorida. De volta à minha casa, aparece a prima Rosa Maria para me ler o livro do Pinochio e outros que me encantavam. Durante todo o dia, outros parentes, primas, tias e a vó Martha trazendo o alento familiar. E à noite, a tranquilidade de se sentir protegido por seu Oscar e dona Tereza, me embalando o sono com suas canções
E aí salto agora para minhas meninas, para as doenças infantis que as acometeram e para a corrida aos prontos socorros mais aparelhados da capital. Lembro até hoje a Bibi e a Dodó, depois de uma intoxicação alimentar, pequenas, com braços furados para injetar soros, mas com o olhar tranquilo de quem sabe protegidas pelos pais.
E agora? Trancado em casa, sem poder sair, vendo se espalhar um vírus que ataca com a letalidade de uma gripe espanhola, que invade sem sutileza os ambientes mais improváveis, como proteger minhas seis meninas, quatro filhas, duas netas, expostas a um país que perdeu o rumo?
Pior, sabendo que o vírus assassino se espalhou pela cidade com as manifestações estimuladas por um presidente da República insano, cercado de terraplanistas desvairados e suportados por instituições acovardadas, sem sentimento de Brasil.
Aí ligo o Youtube e vou atrás da alma brasileira, a música que melhor sintetiza meu sentimento de Brasil, o “Que nem jiló”, de Luiz Gonzaga, cantada por corais em homenagem à morte da professora que os ensinou.
E ouvindo, e vendo a celebração em torno da música, a maneira como se enfrenta a perda, me passa a esperança de que eles não passarão.

Você pode fazer o Jornal GGN ser cada vez melhor

Assine e faça parte desta caminhada para que ele se torne um veículo cada vez mais respeitado e forte.

segunda-feira, 18 de março de 2019

Glenn Greenwald em vídeo: Quando Bolsonaro encontrar Trump, não esqueçam de sua ligação com o que há de pior no crime organizado no Brasil The Intercept





TOPSHOT - Brazil's newly sworn-in President Jair Bolsonaro is pictured during his inauguration ceremony, at the Congress in Brasilia on January 1, 2019. - Bolsonaro takes office with promises to radically change the path taken by Latin America's biggest country by trashing decades of centre-left policies. (Photo by NELSON ALMEIDA / AFP)        (Photo credit should read NELSON ALMEIDA/AFP/Getty Images)

ASSISTA AO VÍDEO ABAIXO: Quando Bolsonaro encontrar Trump, não esqueça de sua ligação com o que há de pior no crime organizado no Brasil

Glenn Greenwald — 18h15
Se a imprensa quer mesmo noticiar quem é o homem que visita a Casa Branca nesta terça, não pode ignorar os laços que ele e sua família mantêm com a milícia.












Do The Intercept:


JAIR BOLSONARO ESTÁ em Washington para conhecer, enfim, Donald Trump na Casa Branca nesta terça. Enquanto oficialmente a viagem é focada nos esforços conjuntos dos EUA e do Brasil para mudar o governo da Venezuela, ela tem sido vendida por Bolsonaro como uma forma de “reabilitar” sua presidência depois da série de escândalos que paralisou os três primeiros meses de seu governo.
Mas quando se trata de melhorar sua imagem, o timing dessa viagem dificilmente poderia ser pior. Eventos chave ocorridos nas últimas semanas – entre eles a prisão de dois suspeitos de terem assassinado Marielle Franco – destacaram os aspectos mais danosos e, para muitos, mais terríveis, da relação entre Bolsonaro e seus filhos com as milícias.

Apenas pare para pensar como – mesmo antes da prisão de um dos assassinos de Marielle no mesmo condomínio em que o presidente mora –, tantos pontos já tinham aparecido ligando o presidente Bolsonaro e seus filhos, a esses grupos, compostos majoritariamente de policiais e militares. O próprio Bolsonaro é um ex-capitão do Exército, que serviu durante a ditadura e deixou a corporação sob alegações de má conduta – ainda que o seus seguidores e amigos insistam em seguir chamando-o de “capitão”.
Em janeiro, a polícia fez uma megaoperação para prender membros de uma das milícias mais poderosas e terríveis da cidade, que abriga o time de assassinos de aluguel conhecido como “Escritório do Crime”. Esse grupo é composto por ex-policiais altamente treinados que usam seus conhecimentos para conduzir assassinatos com baixíssimas chances de serem descobertos. Eles estavam entre os principais suspeitos da morte de Marielle há meses. Entre os principais alvos da polícia, estava o ex-capitão do Bope Adriano Magalhães da Nóbrega, um dos chefes do Escritório.
18-03-19-marielle-1552940123
A morte de Marielle teve repercussão mundial. Na imagem, mulheres lembram da sua luta durante um dos atos de 8 de março em Los Angeles.

Foto: Mario Tama/Getty Images
A operação levou a uma revelação chocante: a mãe e esposa de Nóbrega eram formalmente contratadas no gabinete do hoje senador Flávio Bolsonaro, filho mais velho do presidente, durante toda a última década, enquanto ele atuava como deputado estadual no Rio.
Pouco depois dessa descoberta, o trágico rompimento da barragem da Vale em Brumadinho deixou mais de 200 mortos, tomando, como era de se esperar, todo o noticiário. Isso resultou em bem menos atenção para a estreita conexão entre Flávio e Adriano do que era merecido. Então apenas reflita sobre isso: o filho de Bolsonaro tinha a mãe e a esposa de um dos mais notórios assassinos da milícia no país, suspeito de ter matado Marielle, em sua folha de pagamento.
Em fevereiro, as conexões entre Flávio e a milícia se tornaram ainda mais claras. Foram encontrados cheques de despesas de campanha em nome Flávio assinados por Valdenice de Oliveira Meliga, irmã de Alan e Alex Rodrigues de Oliveira, milicianos presos em agosto. Apenas alguns meses antes da prisão dos dois, o filho do presidente postou uma foto em seu Instagram ao lado do próprio Bolsonaro, então candidato à presidência, na festa de aniversário dos gêmeos Oliveira, os parabenizando e elogiando a família.
Em retrospecto, Flávio tem ligações tão íntimas com a milícia que o fato da mãe e da esposa de um dos mais notórios chefes desse grupo estar trabalhando em seu gabinete não deveria ser uma surpresa. Como deputado estadual, ele ainda concedeu medalhas a Nóbrega e outro miliciano, à época ainda trabalhando como policiais, em homenagem por seus serviços prestados ao estado.
O próprio presidente Bolsonaro enquanto deputado federal já expressou mais de uma vez seu apreço pela milícia, que definiu como uma forma de combater o crime no país. Em agosto de 2003, ele usou a tribuna para elogiar um grupo de extermínio que aterrorizava a Bahia. Acrescentou que o esquadrão da morte teria seu apoio se resolvesse migrar para o Rio.
18-03-19-bolsonaro-queiroz-1552940121
Fabrício Queiroz (ao lado de Bolsonaro) é um dos amigos de longa data mais próximos do presidente.
Foto: Reprodução
NAS ÚLTIMAS DÉCADAS, as milícias têm ocupado grande parte das áreas mais pobres das principais cidades do país, incluindo o Rio. Uma reportagem do Intercept mostrou que as milícias tomaram a cidade inteira.
Apesar de ter sido eleito com foco na epidemia de violência e criminalidade que toma o país, quando Bolsonaro e a família falam sobre crime, eles quase sempre concentram a atenção no tráfico de drogas. Nunca falam nada a respeito dessa outra tão mais ameaçadora e terrível fonte de criminalidade: a milícia.
Não é difícil de entender por que Bolsonaro – apesar da importância de sua postura anti-criminalidade para a sua popularidade – seja mais ávido em agradar do que de fato condenar e combater as milícias. Esses grupos são controlados por seus amigos, vizinhos, camaradas e mais próximos colaboradores.]
Fabrício Queiroz, o miliciano que trabalhou para Flávio pela última década, movimentou enormes quantias de dinheiro – incluindo um depósito na conta da esposa do presidente – e deu início ao primeiro escândalo relacionado a sua presidência, é um dos mais antigos e próximos amigos de Bolsonaro. Quando a polícia o questionou sobre as movimentações financeiras envolvendo a família Bolsonaro, Queiroz, como já era esperado, foi se esconder na favela de Rio das Pedras, mais conhecida por ser o berço da milícia no Rio.
NA SEMANA PASSADA, quase imediatamente após a polícia anunciar a identidade dos dois suspeitos de terem assassinado Marielle, mais conexões com Bolsonaro surgiram. O atirador, o ex-policial Ronnie Lessa, mora no mesmo condomínio que Bolsonaro. Uma incrível coincidência considerando o tamanho da cidade do Rio. Em outras palavras, o assassino de Marielle – o homem que colocou quatro balas em sua cabeça –, é vizinho de Bolsonaro, em um dos condomínios mais caros e exclusivos da cidade, apesar de ter trabalhado a sua vida inteira como funcionário público.
Pouco depois, apareceu uma foto do parceiro de Lessa no crime com Bolsonaro em uma rede social. A polícia ainda confirmou que o filho mais novo do presidente e a filha do matador já namoraram. Apesar de nenhum desses fatos ser capaz de ligar Bolsonaro diretamente ao assassinato de Marielle, são muitas coincidências envolvendo o atual presidente da República às milícias e ao assassinato de uma das mais proeminentes jovens políticas de esquerda do país.
Todo esse montante de evidências – a maioria desenterradas nessas dez semanas desde que Bolsonaro chegou à presidência –, pintam um quadro profundamente perigoso e perturbador. O Brasil está nas mãos de uma família com múltiplas e cada vez maiores ligações com os principais grupos de assassinos e paramilitares do país.
Quando Bolsonaro encontrar Trump na Casa Branca amanhã, esse encontro deve ser visto primeiro e sobretudo dentro desse contexto. Bolsonaro rapidamente se colocou no primeiro escalão dos líderes mais criminosos, violentos e perigosos do planeta. E dada a posição do Brasil – geopolítica, culturalmente, economicamente, ambientalmente e militarmente – esse é claramente um dos mais preocupantes acontecimentos do último ano. Independente do que mais seja verdade, a cobertura da presença de Bolsonaro na Casa Branca deveria ter como foco principal esses fatos, em especial se o desejo dessas reportagens é ser preciso e refletir exatamente quem o atual presidente do Brasil é e quem ele representa.
Dependemos do apoio de leitores como você para continuar fazendo jornalismo independente e investigativo. Junte-se a nós 

sexta-feira, 15 de março de 2019

Embaixador Samuel Pinheiro Guimarães sobre o atual momento político bolsonárico-caótico: "Este é um governo sem decoro". Vídeo-análise






Em sua coluna no Nocaute, o diplomata Samuel Pinheiro Guimarães fala sobre o programa econômico do governo Bolsonaro, que classifica como ultra neoliberal. Segundo Guimarães, o programa parte de três premissas: a iniciativa privada pode resolver todos os problemas do Brasil, a iniciativa privada estrangeira é melhor que a brasileira e a iniciativa privada não resolveu os problemas do Brasil até agora por causa da intervenção do Estado. “É um programa que beneficia a classe mais rica, não é um programa para o povo brasileiro. As forças progressistas brasileiras precisam lutar para impedir que esse programa seja implementado, porque ele destruirá a sociedade brasileira”, diz Samuel.

quinta-feira, 7 de março de 2019

The Intercept: Como Bolsonaro se elegeu usando as mesmas táticas de Trump, seu ídolo. Ambos fazem parte da tradição da política como espetáculo.




Presidente Jair Messias Bolsonaro e equipe se reúnem para discutir a reforma da previdência.

‘Política é show business para pessoas feias’

Análise de Rosana Pinheiro-Machado — 0h02 - 

No The Intercept Brasil:
Jair Messias Bolsonaro e equipe se reúnem para discutir a reforma da previdência. Foto: Reprodução/Twitter Rogério Marinho





DURANTE MINHA INFÂNCIA, nos anos 1980, escutava com frequência pessoas falarem que queriam que Silvio Santos fosse presidente. A Xuxa também teria seu lugar na política. Nas eleições de 1989, eles não concorreram, mas não faltou diversão na propaganda eleitoral: de Marronzinho a Enéas, todo mundo tinha o seu “cômico” de estimação. Enéas Carneiro, por sinal, foi por muito tempo o do deputado mais votados da história do Brasil, seguido justamente pelo comediante Tiririca.
Não é à toa que Bolsonaro tentou criar um projeto lei para homenagear Enéas como herói da nação – posição ocupada por apenas 41 personalidades brasileiras, como Santos Dumont e Getulio Vargas. Apesar de Enéas ter sido eloquente com as palavras, e Bolsonaro ser um incapaz nesse aspecto, os dois têm muito em comum. Isso se dá não apenas na defesa da família tradicional brasileira e no anticomunismo, mas principalmente na capacidade de “causar”. De cabeça quente, eles teatralizaram, especialmente em programas de TV de grande audiência, uma indignação patriótica que gera grande audiência.
Bolsonaro é um palhaço de palco. Passou por diversos programas de auditório na TV e se tornou um fenômeno midiático, como bem apontaram os pesquisadores Victor Piaia e Raul Nunes. Entender sua eleição passa menos por teorias de escolha racional e mais pelas vísceras e pela emoção.
Ele tampouco é uma exceção: faz parte de uma tradição da cultura popular que vê a política como entretenimento e como espetáculo. A apresentadora de televisão Cathy Barriga, no Chile, ou o ator Arnold Schwarzenegger e o boxeador Jesse Ventura, nos Estados Unidos, são alguns exemplos fora do Brasil de como famosos conseguiram seu lugar na política. O último, em especial, exatamente como Bolsonaro, começou com um nicho engajado em sua figura caricata, com 7% de intenção de votos, e foi eleito governador de Minnesota em 1998 como um outsider do sistema político “profissional”, proferindo um pioneiro discurso antiestablishment.
Como mostra o documentário Trump, the American Dream, Dean Barkley, o coordenador da campanha de Jesse Ventura, acreditava que: “dizer coisas audaciosas, mesmo que te achem uma pessoa burra, funciona, pois você terá mídia de graça”. E os eleitores de Ventura diziam: “ele é um cara direto, ele diz o que ele realmente pensa” ou “ele é como a gente”. Trump aprendeu muito com Ventura, especialmente porque entendeu que existe uma sede por figuras conectadas com a cultura popular “gente como a gente”, bem como uma grande rejeição às elites intelectuais.
Trump é um fenômeno do entretenimento. Ele é uma criação de muitos outros homens, mas principalmente do marqueteiro Roger Stone, Mark Burnnet (produtor do The Apprentice) e do estrategista Steve Bannon (Cambridge Analytica) – todos responsáveis por sua composição midiática. Como mostra o imperdível perfil da New Yorker, Burnnet, em especial, criou a imagem de Trump como assertivo, um “mito” e um ícone de sucesso por meio de um longo (e manipulador) processo de edição.
Stone, por sua vez, conhece a cultura popular como poucos e usou isso para gerar fama aos seus candidatos. Entre as suas “leis”, encontra-se a que mais se aplica a Trump e Bolsonaro: “melhor ser infame do que não ser famoso”. Quando surgiu a ideia da eleição de Trump, eles decidiram lançar um primeiro tuíte com uma frase que chocasse a muitos, mas que tocasse no âmago racista de muitos: “vamos construir um muro”.
A estratégia, tão adotada por Bolsonaro pelo menos desde 2010 (muito antes de ele começar a imitar Trump), é simples: você fala qualquer aberração na mídia – aquilo que ninguém tem coragem de dizer. Toda a imprensa se voltará para você e você conquistará um lugar na memória de muitos, especialmente porque isso terá eco no ressentimento daqueles que mantiveram seus preconceitos no armário.
A filósofa Judith Butler entende que Trump é um fenômeno midiático em que a vulgaridade enche a tela e se passa por inteligência. Mesmo sem carisma e envolvido em escândalos de abuso sexual, Trump conseguia se vendendo como alguém que diz o que quer e consegue o que quer, permitindo a identificação subversiva de quem “infringe as regras”, especialmente por ter como seu símbolo de campanha o gesto de armas.
Para os especialistas em política e entretenimento Keith Hall, Donna Goldstein and Matthew Ingram, Trump se alia a um gênero de comédia grotesca que tem muito apelo na cultura popular. Esse trecho, é particularmente revelador sobre o contexto norte-americano, mas serve para descrever os eleitores de Bolsonaro: “rindo junto com Trump, seus eleitores se sentem empoderados, suas diferenças diminuem (…) os insultos contra minorias se passam como engraçados ”. E os autores ainda lembraram que, com George W. Bush, todo mundo queria tomar uma cerveja.
Bolsonaro é um político da mesma laia. É uma figura durona e igualmente sem carisma. Além disso, ele foi um deputado medíocre por 28 anos, um militar de escalão médio e inteligência limitada. Como que um homem como esse se tornou um fenômeno midiático? Em uma interessante artigo, Mauricio Stancey mostrou o papel crucial dos programas de auditório na eleição de Bolsonaro, comparando justamente com Trump e as (indignas) leis de Stone: “O consultor político de Trump diz ainda: “Política é show business para pessoas feias”. E acrescenta: “Você acha que os eleitores não sofisticados sabem diferenciar entretenimento de política?”
Em um vídeo de 2014, os berros, Bolsonaro manda todo mundo se foder diversas vezes. Funcionou.
Como mostraram Piaia e Nunes, Bolsonaro ocupou um lugar imenso na mídia de TV aberta entre 2010 e 2018, somando 33 participações em programas como SuperPop, Pânico e CQC, tendo como centro do programa suas opiniões polêmicas. Após cada participação de programa, ele foi se sentindo mais confortável e entrando nas brincadeiras, como o homofóbico jogo da verdade que perguntava “você já teve sonho erótico com macho?” Segundo os autores: “como ocorre no humor, o deputado acertava a audiência ao disparar o gatilho entre o cotidiano e o inusitado”.
Após 2013, em plena crise política e econômica, ele ganhou repercussão nas guerras culturais, atacando Dilma Rousseff e alavancando brigas com Benedita da Silva, Maria do Rosário e Jean Wyllys. Falando coisas criminosas, a mídia toda se voltava para ele. E ele se colocou a como o grande herói anti-esquerda.
Em um de seus vídeos mais famosos, em 2014, a grande imprensa de todo o país o rodeia como uma verdadeira celebridade e lhe dá todo o holofote para que ele falasse atrocidades, como “que tem que endurecer com vagabundo”, que “existe kit gay”, que a “única coisa que presta no Maranhão é o presídio”. Neste vídeo, ele se comporta muito diferente do tiozão do pavê que usa ridder e come pão com leite condensado: aos berros, ele manda todo mundo se foder diversas vezes. Funcionou. Ele encenava indignação contra o sistema – algo, aliás, que nossos políticos não demonstram sentir há muito tempo.
Infelizmente, o único nome que chegou na periferia, depois de Lula, foi Bolsonaro.
Uma rápida busca no Google Trends mostra que o interesse por Bolsonaro cresceu justamente por meio desse envolvimento em polêmicas com políticos, e assim foi caindo nas graças do povo que achava que ele era autêntico e sincero. No final do turbulento ano que mudou o Brasil – 2013 –, uma das categoria mais buscadas no Google em relação a ele, e que teve crescimento repentino, foi “Bolsonaro zuero”. Em 2014, quando ele se tornou o deputado mais votado do Rio de Janeiro, a busca que predomina em seu nome já é por “Bolsonaro presidente”.
No meu trabalho de campo em uma periferia de Porto Alegre, vi o fenômeno aparecer desde 2016. Como observou Lúcia Scalco (minha parceira de pesquisa), ele ficou conhecido inicialmente por meio de instituições que tinham acesso à internet, como escolas e igrejas. Extremamente popular entre a juventude, os meninos que conhecemos achavam as ocupações secundaristas coisa de vagabundo e compartilhavam vídeos de Bolsonaro com suas “mitadas”. Infelizmente, o único nome que chegou na periferia, depois de Lula, foi Bolsonaro, por meio de um engajamento (inicialmente) orgânico: os meninos faziam questão de editar os vídeos em que ele aparecia para se sentir parte da política.
De 2016 a 2018, vimos seu nome se fixar na memória do povo, sempre por meio de polêmicas que despertavam amor ou ódio. Meses antes da eleição, com Lula fora da parada, muita gente que outrora dizia que odiava ele, disse-nos algo como: “ele é péssimo, mas votar nele porque é a única opção” ou “acho ele muito radical, mas não tem outro candidato, tem?” Bolsonaro reinou sozinho porque soube usar dos espaços da cultura popular: primeiro indo a programas de auditório TV e da TV virando memes “zuero” na internet.
Eleito presidente, diante de um governo que já começa fracassado e com envolvimentos de corrupção até a pescoço, só resta a Bolsonaro seguir investindo em sua imagem “mito”, agora na versão “homem simples de família”. Pode funcionar, mas não acredito que por muito tempo.
Os problemas de político-celebridade são muitos. Eles não conseguem sair do pessoal e entrar para a política de fato. Políticos celebridades esvaziam o coletivo, promovem o caráter anti-democrático e reforçam modelos autoritários que cultuam a personalidade. E imagens, torcidas e emoções que negam os dados e os debates, e estimulam o “nós” contra “eles” – são, em última instância, expressões fascistas.
Por fim, diante de todo esse cenário de pão e circo, é ainda possível tirar algumas lições para a esquerda. Boa parte de seus analistas e seus principais líderes não viram o fenômeno Bolsonaro crescer e, quando viram, desdenharam. Isso é muito sintomático de uma esquerda completamente ignorante e avessa do que se passa na cultura popular. É a prova cabal de seu distanciamento das pessoas comuns e de seu encastelamento.
O problema de uma parte da esquerda é achar que representa os interesses do povo, mas não sabe o que se passa na televisão ou no WhatsApp da vendedora de pastel. Estava evidente desde 2014 que Bolsonaro tinha grandes chances porque ele era o famoso infâme. O que assombra é que poucos viram isso. Não creio que a solução para a esquerda seja adotar a estratégia apolítica de criar líderes celebridade, mas entendo que é nosso dever reaprender a nos comunicarmos com o Brasil profundo.
Dependemos do apoio de leitores como você para continuar fazendo jornalismo independente e investigativo. Junte-se a nós