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quinta-feira, 23 de outubro de 2025

Por quê o Socialismo, por Albert Einstein, Prêmio Nobel de Física de 1921

 


Por que o Socialismo?

Texto de

Albert Einstein

   Publicado em

Maio 1949


A Primeira Edição deste  artigo escrito especialmente para o primeiro número da revista estadunidense (ainda existente) Monthly Review, lançada em maio de 1949, e está disponível em http://monthlyreview.org/2009/05/01/why-socialism/
Fonte da Transcrição: Blog do Ralf e do Pluralismo Radical. Também disponível em apresentação bilíngue em https://tr.im/EinsteinSocialismoPDF


Será aconselhável que um não especialista em assuntos econômicos e sociais manifeste pontos de vista sobre o tema “socialismo”? Por várias razões, eu acredito que sim.

Comecemos considerando a questão pelo ponto de vista epistemológico [isto é, que analisa o próprio conhecimento científico]. Poderia parecer que não houvesse diferenças metodológicas essenciais entre a Astronomia e a Ciência da Economia: nos dois campos, os cientistas tentam descobrir leis que sejam aceitáveis de modo generalizado para um determinado grupo de fenômenos, com a finalidade de tornar compreensível a interconexão desses fenômenos do modo mais claro possível.

Na realidade, diferenças metodológicas existem. No campo da Economia, a descoberta de leis gerais é dificultada pela circunstância de que os fenômenos econômicos observáveis são com frequência afetados por muitos fatores que é muito difícil avaliar separadamente.

Além disso, como é bem sabido, a experiência acumulada desde o início do assim chamado período civilizado da história humana tem sido grandemente influenciada e limitada por fatores cuja natureza de nenhum modo é exclusivamente econômica.

Por exemplo, a maioria dos grandes Estados da história deveu sua existência à conquista. Os povos conquistadores estabeleceram a si mesmos, legal e economicamente, como a classe privilegiada do território conquistado; apossaram-se do monopólio da propriedade da terra e designaram uma classe sacerdotal a partir de suas próprias fileiras. Os sacerdotes, no controle da educação, fizeram da divisão da sociedade em classes uma instituição permanente, criando um sistema de valores pelo qual o comportamento social das pessoas passou a ser guiado desde então, em grande medida em nível inconsciente.

Mas a tradição histórica começou ontem, por assim dizer. Em nenhum lugar nós superamos de fato o que Thorstein Veblen chamou de “fase predatória” do desenvolvimento humano. Os fatos econômicos observáveis pertencem a essa fase, e as leis que podemos derivar deles não são aplicáveis a outras fases. Como o verdadeiro propósito do socialismo é precisamente superar a fase predatória do desenvolvimento humano e avançar para além dela, a Ciência Econômica em seu estado atual pode esclarecer bem pouco sobre a sociedade socialista do futuro.

Em segundo lugar, o socialismo se direciona para uma finalidade socioética. A ciência, no entanto, não tem o poder de criar finalidades, e muito menos de instilá-las nos seres humanos; a ciência pode, no máximo, fornecer os meios com que atingir certas finalidades. As finalidades são concebidas por personalidades com ideais éticos elevados – ideais esses que, quando não são natimortos e sim cheios de vida e vigor – são adotados e levados adiante por aquela multitude de seres humanos que, de modo parcialmente inconsciente, terminam por determinar a evolução da sociedade.

Por essas razões, deveríamos nos precaver no sentido de não superestimar a ciência e os métodos científicos quando o que está em questão são problemas humanos - e não deveríamos presumir que somente especialistas têm direito a se manifestar sobre as questões que afetam a organização da sociedade.

Incontáveis vozes vêm afirmando, já desde há algum tempo, que a sociedade humana está passando por uma crise; que sua estabilidade foi gravemente abalada. É característico dessa situação que os indivíduos se sintam indiferentes ou até mesmo hostis ao grupo a que pertencem, seja o pequeno grupo ou ao grupo de maior escala. Permitam-me recordar aqui uma experiência pessoal para ilustrar o que quero dizer: não faz muito, eu debatia com um homem inteligente e de boa disposição sobre a ameaça de mais uma guerra – o que, na minha opinião, poria em sério perigo a existência da humanidade – e observei que somente uma organização supranacional ofereceria proteção contra esse perigo. Nesse ponto o meu visitante me disse, com toda calma e indiferença: “Mas por que você se opõe tão profundamente ao desaparecimento da raça humana?”

Tenho certeza que apenas um século atrás ninguém teria declarado algo desse tipo com toda essa despreocupação. Temos aí uma declaração de um homem que lutou em vão para alcançar um equilíbrio interior e mais ou menos perdeu a esperança de alcançá-lo. É expressão de uma dolorosa solidão e isolamento, de que tanta gente sofre hoje em dia. Qual é a causa? Existe saída?

É fácil levantar essas perguntas, mas é difícil respondê-las com qualquer grau de segurança. No entanto eu preciso tentar, o melhor que puder, embora esteja bem consciente de que nossos sentimentos e aspirações são muitas vezes contraditórios e obscuros, e não podem ser expressos em nenhuma fórmula simples e fácil.

O homem é ao mesmo tempo um ser solitário e um ser social. Como ser solitário, ele tenta proteger sua própria existência e a dos que lhe são mais próximos, satisfazer seus desejos pessoais, desenvolver suas habilidades inatas. Como ser social, busca conquistar o reconhecimento e afeição dos seus companheiros de humanidade, compartilhar de seus prazeres, confortá-los em seus sofrimentos, melhorar suas condições de vida. Somente a existência dessas diferentes aspirações, muitas vezes conflitantes, já responde pelo caráter especial de uma pessoa, e sua combinação específica determina a medida em que o indivíduo consegue, por um lado, alcançar um equilíbrio interior e, por outro lado, consegue contribuir para o bem-estar da sociedade.

É bem possível que a intensidade relativa desses dois impulsos seja, em seu principal, determinada pela hereditariedade – mas a personalidade que termina emergindo é formada em ampla medida pelo ambiente em que acontece de a pessoa se encontrar durante o seu desenvolvimento, pela estrutura da sociedade em que ela cresce, pela tradição daquela sociedade, e pelo valor que a sociedade atribui a este ou àquele tipo de comportamento.

Para o indivíduo humano, o conceito abstrato “sociedade” significa a soma de suas relações diretas e indiretas com os seus contemporâneos e com todas as pessoas das gerações anteriores. O indivíduo é capaz de pensar, sentir, aspirar e trabalhar por si mesmo; mas [ao mesmo tempo] ele depende tanto da sociedade – em sua existência física, intelectual e emocional – que é impossível pensá-lo ou entendê-lo fora da moldura que é o contexto social. É “a sociedade” o que lhe proporciona comida, roupas, um lar, a ferramentas do seu trabalho, a linguagem, as formas de pensar, e a maior parte do conteúdo do pensamento; a sua vida se faz possível mediante o trabalho e realizações dos muitos milhões, passados e presentes, que estão escondidos por trás da pequena palavra “sociedade”.

É evidente, portanto, que a dependência do indivíduo em relação à sociedade é um fato da natureza que não pode ser abolido – tanto quanto o é no caso das formigas e abelhas. No entanto, enquanto o inteiro processo de vida das formigas e abelhas é determinado nos mínimos detalhes por instintos hereditários rígidos, o padrão social e os inter-relacionamentos dos seres humanos são altamente variáveis e suscetíveis de mudanças. A memória, a capacidade de realizar novas combinações e o dom da comunicação verbal possibilitaram desenvolvimentos, entre os seres humanos, que não são ditados por necessidades biológicas. Tais desenvolvimentos se manifestam em tradições, instituições e organizações; em literatura; em realizações científicas e técnicas; em obras de arte. Isso explica como acontece de o ser humano ser capaz de, em certo sentido, influir em sua vida mediante a sua própria conduta, e de que nesse processo o pensamento e a vontade conscientes consigam desempenhar um papel.

O ser humano adquire ao nascer, através da hereditariedade, uma constituição biológica que precisamos considerar determinada e inalterável, inclusive os impulsos naturais que são característicos da espécie humana. Em acréscimo, ao longo de sua vida ele adquire uma constituição cultural que ele adota da sociedade por meio da comunicação e de muitos outros tipos de influências. É a sua constituição cultural que está sujeita a mudanças com a passagem do tempo, e que determina em vasta medida a relação entre o indivíduo e a sociedade. A antropologia moderna nos ensinou, através da investigação comparativa das culturas chamadas de primitivas, que o comportamento social dos seres humanos pode diferir grandemente, dependendo dos padrões culturais e dos tipos de organização que predominam na sociedade. Os que se empenham em melhorar a condição humana podem fundamentar suas esperanças nisso: seres humanos não estão condenados por sua constituição biológica a aniquilarem uns aos outros, nem a estar à mercê de um destino cruel autoinfligido.

Se nos perguntarmos de que modo a estrutura da sociedade e a atitude cultural do ser humano deveriam ser mudados para tornar a vida humana tão satisfatória quanto possível, deveríamos estar sempre conscientes de que há certas condições que somos incapazes de modificar. Como já foi mencionado, para todos os efeitos práticos a natureza biológica do ser humano não é modificável. Além disso, os desenvolvimentos tecnológicos e demográficos dos últimos séculos criaram condições que estão aqui para ficar. Em populações assentadas com considerável densidade, levando em conta os bens que são indispensáveis para a continuidade de sua existência, tornam-se absolutamente indispensáveis uma extrema divisão de trabalho e um aparato produtivo altamente centralizado. Foi-se para sempre o tempo – que, olhando-se para trás, parece tão idílico – em que indivíduos ou grupos relativamente pequenos podiam ser completamente autossuficientes. Há pouco exagero em dizer que a humanidade já constitui uma comunidade planetária de produção e consumo.

Cheguei agora ao ponto em que posso indicar brevemente o que, para mim, constitui a essência da crise do nosso tempo: refere-se à relação do indivíduo com a sociedade. O indivíduo se tornou mais consciente do que nunca de sua dependência da sociedade - mas sua experiência dessa dependência não é a de um bem positivo, um laço orgânico, uma força protetora, e sim a de uma ameaça aos seus direitos naturais, ou até mesmo à sua existência econômica. Além disso, o indivíduo está posicionado na sociedade de modo tal, que os impulsos egoístas da sua constituição recebem reforço constante, enquanto que os seus impulsos sociais, que por natureza já são mais fracos, se deterioram progressivamente. Todos os seres humanos, qualquer que seja sua posição na sociedade, vêm sofrendo esse processo de deterioração. Prisioneiros de seu próprio egoísmo sem saber disso, sentem-se inseguros, sozinhos e privados de todo desfrute da vida que seja inocente, simples, não sofisticado. O ser humano somente pode encontrar sentido na vida, curta e arriscada como é, mediante sua dedicação à sociedade.

A anarquia econômica da sociedade capitalista como existe hoje é, na minha opinião, a verdadeira fonte do mal. Vemos diante de nós uma enorme comunidade de produtores cujos membros se empenham sem cessar em privar uns aos outros dos frutos de seu trabalho coletivo – não por força, mas em inteiro e fiel cumprimento de regras estabelecidas legalmente. A respeito disso, é importante dar-se conta [do papel do fato] de que os meios de produção – quer dizer, tudo o que dá capacidade de produzir bens para os consumidores, bem como bens de capital adicionais – possam ser propriedade privada de indivíduos (e de fato o sejam, em sua maior parte).

Pelo bem da simplicidade, na discussão a seguir chamarei de “trabalhadores” todos os que não têm parte na propriedade dos meios de produção – embora isso não corresponda com exatidão ao uso costumeiro do termo. O proprietário dos meios de produção está em posição de comprar a força de trabalho do trabalhador. Usando os meios de produção, o trabalhador produz novos bens que se tornam propriedade do capitalista. O ponto essencial deste processo é a relação entre o que o trabalhador produz e aquilo que lhe pagam, ambos medidos em termos de valor real. Na medida em que a contratação do trabalho é “livre”, o que o trabalhador recebe não é determinado pelo valor real dos bens que ele produz, e sim por quais são suas necessidade mínimas, bem como pela relação entre a demanda por força de trabalho por parte dos capitalistas e o número de trabalhadores que competem por empregos. É importante entender que nem mesmo na teoria o pagamento do trabalhador é determinado pelo valor do seu produto.

Capital privado tende a se concentrar em poucas mãos, em parte devido à competição entre os capitalistas, em parte porque o desenvolvimento tecnológico e o crescimento da divisão do trabalho estimulam a formação de unidades de produção maiores, em prejuízo das menores. O resultado desses desenvolvimentos é uma oligarquia do capital privado, cujo enorme poder não pode ser efetivamente controlado sequer por uma sociedade política democraticamente organizada.

Isso é assim porque os membros dos corpos legislativos são selecionados por partidos políticos, que são amplamente financiados, ou influenciados de algum outro modo, por capitalistas privados que, para todos os propósitos práticos, separam o eleitorado da legislatura. A consequência é que os representantes do povo não protegem de fato e de modo suficiente os interesses dos setores menos privilegiados da população. Além disso, nas condições atuais os capitalistas privados inevitavelmente controlam, direta ou indiretamente, as principais fontes de informação (imprensa, rádio, educação). Torna-se assim extremamente difícil para o cidadão individual, e de fato impossível na maioria dos casos, chegar a conclusões objetivas e fazer uso inteligente dos seus direitos políticos.

A situação predominante em uma economia baseada na propriedade privada de capital caracteriza-se então por dois princípios centrais: primeiro, os meios de produção (capital) são possuídos privadamente, e os proprietários dispõem deles como acham melhor; segundo, a contratação de trabalho é livre [isto é, não regulada]. É claro que não há sociedade capitalista pura nesse sentido. Em especial, é preciso registar que os trabalhadores, através de longas e amargas lutas políticas, conseguiram assegurar uma forma um tanto melhorada de “livre contrato de trabalho” para algumas categorias de trabalhadores. Mas, tomada em seu conjunto, a economia atual não difere muito de um capitalismo “puro”.

A produção é realizada com a finalidade do lucro, não com a do uso. Não existem disposições para garantir que todas as pessoas capazes e dispostas a trabalhar sempre consigam achar emprego; quase sempre existe um “exército de desempregados”. O trabalhador está perpetuamente com medo de perder seu emprego. Devido ao fato de que desempregados e trabalhadores mal pagos não formam um mercado rendoso, a produção de bens de consumo é restrita, o que resulta em grandes privações. O progresso tecnológico resulta com frequência em mais desemprego, em lugar de aliviar a carga de trabalho para todos. O lucro como motivação, em conjunto com a concorrência entre os capitalistas, é responsável por uma instabilidade na acumulação e utilização do capital, a qual leva a crises cada vez mais graves. A competição irrestrita leva a um gigantesco desperdício de força de trabalho, e também àquela deformação da consciência social dos indivíduos, que eu mencionei anteriormente.

Essa deformação dos indivíduos, eu a considero o pior dos males do capitalismo. Nosso sistema educacional inteiro sofre desse mal. Uma atitude competitiva exagerada é inculcada no estudante, que, como preparação para sua futura carreira, é treinado para idolatrar um sucesso aquisitivo.

Estou convencido de que existe apenas um caminho para eliminar esses graves males, e esse é o estabelecimento de uma economia socialista, acompanhada por um sistema educacional orientado para objetivos sociais. Em uma economia tal, os meios de produção são propriedade da própria sociedade, e utilizados de modo planejado. Uma economia planejada, que ajusta a produção às necessidades da comunidade, distribuiria o trabalho a ser feito entre todos os capazes de trabalhar, e garantiria o sustento de cada homem, mulher e criança. A educação do indivíduo, além de desenvolver suas próprias habilidades inatas, se empenharia em desenvolver nele um senso de responsabilidade por seus companheiros de humanidade, em lugar da glorificação do poder e do sucesso, como temos na sociedade atual.

Contudo é preciso lembrar que uma economia planejada ainda não é socialismo. Uma economia planejada pode ser acompanhada por uma escravização completa do indivíduo. A realização do socialismo requer a solução de alguns problemas sociopolíticos extremamente difíceis: como é possível, em face da centralização abrangente do poder político e econômico, impedir que a burocracia se torne todo-poderosa e prepotente? Como se podem proteger os direitos do indivíduo e garantir com isso um contrapeso democrático ao poder da burocracia?

A clareza quanto às metas e aos problemas do socialismo é da mais alta significação em nossa era de transição. Como, na conjuntura atual, a discussão livre e sem barreiras destes problemas se tornou um grande tabu, eu considero a fundação desta revista um relevante ato de interesse público.



sexta-feira, 1 de setembro de 2023

A propriedade privada e os meios de exclusão social no capitalismo selvagem: uma reflexão entre Marx e Kardec

 "A proposta socialista acerca da propriedade privada é sempre muito mal compreendida pelo vulgo. Além disso, a direita sempre buscou mal informar por interesse óbvio e mentir em relação a esse ponto importante (...)"

Do site Espíritas à esquerda:





Foto: Hermes Rivera / Unsplash
A proposta socialista acerca da propriedade privada é sempre muito mal compreendida pelo vulgo. Além disso, a direita sempre buscou mal informar por interesse óbvio e mentir em relação a esse ponto importante da superação do sistema capitalista de produção.

Um exemplo sobre essa confusão é a acusação feita amiúde aos movimentos sociais, mormente MTST e MST, de que lutam para tomar sua terra ou sua casa. Não, isso não é verdade!

Foto: Hermes Rivera / Unsplash
Quando Marx e Engels falam em expropriação da propriedade privada não se referem à sua casinha suburbana nem ao seu carro financiado em 60 vezes. Não! A propriedade privada a ser expropriada é a que se transforma em capital, ou seja, aquela que está ligada de forma direta ao sistema de produção capitalista. Resumindo, os meios de produção devem ser coletivos.

Portanto, o sistema socialista de produção não pretende coletivizar sua casa nem quer tomar seu moderno telefone celular. Esses bens não são meios de produção. O que o socialismo pretende tomar, isso sim, são os meios de produção do capitalista, ou seja, a fábrica, o banco, o latifúndio, o maquinário de produção etc., para que a produção econômica da sociedade seja coletiva, bem como seus resultados, pois é a produção capitalista que explora o trabalho e o impede de usufruir dos bens produzidos.

Por isso Marx diz que nove décimos da sociedade não têm acesso à propriedade privada, porque a imensa parcela da população não possui bens de produção, apenas bens de consumo.

E o espiritismo? Bem, quando na questão 882 de “O livro dos espíritos” Kardec fala sobre a legitimidade da propriedade, é da propriedade dos bens de consumo e não dos bens de produção que trata, porque fala em propriedade advinda do resultado do trabalho. E, adiante, na questão 884, conclui da seguinte forma: “Propriedade legítima só é a que foi adquirida sem prejuízo de outrem.”

Ora, mas o mecanismo de reprodução do capital por meio da posse dos bens de produção é justamente a acumulação de mais capital, portanto propriedade, com enorme prejuízo aos trabalhadores explorados em seus direitos e em sua dignidade, afora a questão econômica da mais-valia.

Dessa forma, fica claro que não há interdição nas propostas de Kardec acerca daquilo que se entende como expropriação da propriedade privada nas propostas socialistas. Muito pelo contrário, entende-se que há uma grande aproximação entre o que as duas linhas de pensamento propõem.

No mais, fica a reflexão final sobre o tema colocada na questão 885:

“885. Será ilimitado o direito de propriedade?

 É fora de dúvida que tudo o que legitimamente se adquire constitui uma propriedade. Mas, como havemos dito, a legislação dos homens, porque imperfeita, consagra muitos direitos convencionais, que a lei de justiça reprova. Essa a razão por que eles reformam suas leis, à medida que o progresso se efetua e que melhor compreendem a justiça. O que num século parece perfeito, afigura-se bárbaro no século seguinte.”

segunda-feira, 21 de agosto de 2023

Programa O Espírito da Coisa, em vídeo, com o tema Espiritismo, o pensamento socialista e o antifascismo.

 

Do Canal da Associação Brasileira de Pedagogia Espírita:

Dora Incontri e Sergio Mauricio entrevistam Alessandro César Bigheto e Marcio Salles Saraiva - ambos coautores do livro Espiritismo, Sociedade e Política - Projetos de Transformação. No livro, estão representados diversos matizes de pensamento espírita à esquerda, todos buscando inspiração em Kardec e em diálogo com correntes socialistas e anarquistas.


Conheçam o site Espíritas à Esquerda - http://espiritasaesquerda.com.br/ O link para a pré-venda do livro - https://editoracomenius.com.br/produc... Siga a ABPE no instagram: https://www.instagram.com/pedagogia_e...

terça-feira, 9 de abril de 2019

Espiritismo, Marxismo e Psicanálise – e a complexidade do real, por Dora Incontri


"E as três correntes ainda hoje não são consideradas científicas pela ortodoxia da ciência, dita mainstream. Mas o marxismo e a psicanálise pelo menos têm espaços largos em universidades e inúmeros pesquisadores e intelectuais desdobraram seus pressupostos; já o espiritismo, por mexer com paradigmas talvez mais cristalizados, com preconceitos muito arraigados e, sobretudo, por ferir interesses muito estabelecidos - ao mesmo tempo do materialismo e das religiões institucionais, com seus mistérios), e também talvez por ter se popularizado como uma forma de religião – é o que mais sofre ostracismo e silenciamento (...)" - Dora Incontri



Do Jornal GGN: Três modelos teóricos de interpretação de mundo, de visão do ser humano e de ação prática nasceram no século XIX. Os três se autodenominavam científicos. Os três pretendiam desvendar aspectos de certa maneira até então desconhecidos ou desconsiderados, que melhor explicariam o comportamento humano, individual e coletivamente.
E as três correntes ainda hoje não são consideradas científicas pela ortodoxia da ciência, dita mainstream. Mas o marxismo e a psicanálise pelo menos têm espaços largos em universidades e inúmeros pesquisadores e intelectuais desdobraram seus pressupostos; já o espiritismo, por mexer com paradigmas talvez mais cristalizados, com preconceitos muito arraigados e, sobretudo, por ferir interesses muito estabelecidos (ao mesmo tempo do materialismo e das religiões institucionais, com seus mistérios), e também talvez por ter se popularizado como uma forma de religião –  é o que mais sofre ostracismo e silenciamento – apesar de ser talvez das três propostas, a que coleciona maior número de evidências de pesquisa, que corroboram seu modelo explicativo.
Vamos nos debruçar brevemente sobre essas questões, que são complexas e sutis e que num breve artigo de blog podem apenas ser esboçadas, como um convite para pesquisas, diálogos e estudos mais aprofundados.
Primeira coisa em comum entre as três vertentes: há algo que não se vê, de que não se está consciente, mas que influi e até determina nosso modo de estar no mundo.
Para o marxismo, são as infraestruturas econômicas, são os determinismos da classe social em que nascemos. Então, por exemplo, alguém que nasce na burguesia, está sem perceber embebido da ideologia dessa classe social e age, sem pensar, como produto de sua classe, reproduzindo as formas de relação de poder.
Para a Psicanálise, é o inconsciente que impulsiona palavras e ações, sem que nos demos conta de nossas profundas motivações – que podem ser pulsionais (provindas do ID – essa zona nebulosa do nosso psiquismo, zona dos desejos, dos impulsos de vida e de morte) e que podem ser também provindas do nosso superego, que são as normas e leis que introjetamos da cultura, que freiam o nosso ID. Estabelece-se uma arena de conflito dentro de nós, intermediada pelo Ego, a parte mais consciente de nossa estrutura psíquica.
Para o Espiritismo, o que está em relação com nosso eu, são as heranças de nossas vidas passadas, com nossas capacidades já desenvolvidas e nossos desajustes inatos, e as influências espirituais que nos cercam, para o bem e para o mal, de acordo com as afinidades que estabelecemos.
Duas questões interessantes se nos apresentam então:
  • Uma teoria anula a outra? De jeito nenhum! E até o seu entrelaçamento pode ser altamente interessante. A realidade é mais complexa do que a que cabe num só modelo teórico. Pode haver diferentes camadas sociais e psíquicas, biológicas e espirituais, que constituem o ser humano. Cenários antropológicos, cósmicos, internos podem se conectar em diversos nexos. Psicanálise e Marxismo já dialogaram através de vários autores fecundos, como Erich Fromm e Zygmunt Bauman. Entre Espiritismo e Marxismo, por exemplo, há textos de Humberto Mariotti e Herculano Pires. Entre Espiritismo e Psicanálise, ainda está por ser feito um diálogo.
  • Há possibilidade de liberdade e transcendência diante dos condicionamentos apontados nas três teorias? Podemos nos sobrepor aos nossos determinismos de classe? Sim, para Marx é possível, tomarmos consciência dos modelos de exploração e dominação em que estamos inseridos e fazermos a hora (ou a história), como na canção de Geraldo Vandré. Para Freud, é possível a sublimação, que seria a forma de transformarmos nossas pulsões de vida e de morte em cultura, civilização, arte… e obtermos alívio de nossas tensões internas. Para o espiritismo, mais ainda… porque o espírito imortal está destinado à evolução, à transcendência, com realização plena de si e pode sempre exercer seu livre arbítrio.
O problema filosófico que se apresenta para um diálogo com essa terceira ciência nascida no século XIX – o Espiritismo – que tanta resistência encontra e que é tão desconhecida por seus próprios adeptos é que tanto o Marxismo como a Psicanálise (pelo menos a freudiana), desqualificam qualquer forma de espiritualidade. E o Espiritismo justamente quer abordar a dimensão espiritual do ser humano, revelando-a como uma instância natural. Marx e Engels consideram religiões, formas de alienação, e Freud, formas de ilusão – fantasias inúteis e patológicas.
Mas essas críticas, como já disse em meu livro Deus e deus, podem ser proveitosas aos que aceitam o espírito – porque elas nos previnem de uma religiosidade comprometida com o conservadorismo que explora o outro ser humano, em nome de Deus e também nos alerta para os possíveis aspectos fantasiosos de nossas percepções extra-sensoriais. Separar o que é de nosso inconsciente do que é de uma manifestação mediúnica; distinguir o que é um trauma de infância de um trauma de outra vida; avaliar o que é projeção de nossos desejos e o que é uma percepção extra-sensorial; tudo isso pode ser um exercício necessário, em que o autoconhecimento e o desenvolvimento de nossas potencialidades mediúnicas se conjugam.
Ficar no materialismo positivista do século XIX sem qualquer abertura de diálogo com a espiritualidade é um caminho de dogmatismo, que muitos praticam. Assim como permanecer no Espiritismo, sem tomar conhecimento de outras formas de pensar o mundo, que nos descortinam outros horizontes sociais e psíquicos – é encarcerar-se num sistema fechado de pensamento, coisa que Kardec não propôs, e estacionar à beira da história.
 *Retirado, com autorização da autora Dora Incontri, do blog da Associação Brasileira de Pedagogia Espírita

quarta-feira, 13 de março de 2019

Para professora, indígenas “são considerados uma ameaça à nação, porque o modo de pensamento desenvolvimentista não aceita a diferença” sendo, portanto, socialista.



 "O primeiro texto lido pela professora Alik Wunder, da Faculdade de Educação (FE), ao voltar das férias em meados de janeiro, foi “Os últimos socialistas – Ou por que perseguir os povos indígenas?”, de Daniel Munduruku, uma leitura que em sua opinião ajuda a compreender porque os indígenas estão sendo tão atacados por este novo governo."

Do GGN:


do Jornal da Unicamp 
Os últimos socialistas
por Luiz Sugimoto 
O primeiro texto lido pela professora Alik Wunder, da Faculdade de Educação (FE), ao voltar das férias em meados de janeiro, foi “Os últimos socialistas – Ou por que perseguir os povos indígenas?”, de Daniel Munduruku, uma leitura que em sua opinião ajuda a compreender porque os indígenas estão sendo tão atacados por este novo governo. “O respeito à diferença entre os mais de 300 povos indígenas que vivem no Brasil hoje é muito forte dentro do pensamento e do movimento indígena, e isto é ameaçador. Esta é a ameaça, que vem do que Daniel Munduruku chama de “últimos socialistas”. Para além do fato de muitos povos indígenas estarem em terras com riquezas minerais e recursos hídricos, eles são considerados uma ameaça à nação, porque o modo de pensamento desenvolvimentista não aceita a diferença. Não aceita outros modos legítimos de estar no mundo, outras formas de conceber o que é desenvolvimento. Daí, ser simbólico que o primeiro decreto seja contra os indígenas.”
Alik Wunder lembrou-se também de um texto de Ailton Krenak, importante pensador e liderança do movimento indígena no Brasil, sobre a complexa engenharia social destes povos. “Krenak fala da capacidade dos povos indígenas de viverem juntos sem se matar, respeitando a identidade e o território do outro. Mesmo em tempos de luta, havia o respeito pelo inimigo, bem diferente do que se faz no mundo ocidental. São outras formas de se relacionar com o mundo natural, com o tempo, enfim, nos apresentam outras humanidades. São modos de viver extremamente potentes, que de alguma maneira vão contra tudo o que se constrói dentro do pensamento ocidental moderno e da lógica capitalista”.


Fotos do grupo Sabuká Kariri-Xocó, dentro de projeto de extensão conduzido por Alik Wunder
A docente da FE observa que o primeiro decreto do atual governo foi o desmantelamento da Funai em dois ministérios, com duas ministras, Tereza Cristina (Agricultura) e Damares Alves (Família, Mulher e Direitos Humanos), que fazem colocações completamente contrárias aos direitos indígenas. “O decreto visa claramente a integração dos indígenas à sociedade, dentro de uma ideia de que eles não precisam de tanta terra e que precisam ser mais produtivos. Este é um pensamento construído na época da ditadura e que retorna agora com força. Os indígenas são povos que resistem há 519 anos e de maneiras múltiplas. Para além do preconceito, há o medo desta força indígena em resistir. Daniel Munduruku lembra que os principais pontos de resistência à ditadura foram na floresta, onde os militares tiveram muita dificuldade de entrar.”
Alik Wunder trabalha há sete anos junto ao povo Kariri-Xocó de Alagoas. São cerca de 3.000 indígenas que vivem na Terra Indígena Kariri-Xocó no município de Porto Real do Colégio, próximo à foz do rio São Francisco, que foi ponto de entrada dos portugueses. “Diferente dos indígenas do Xingu, com quem temos 50 ou 60 anos de contato, os Kariri-Xocó convivem com não indígenas há séculos. O fato de se reconhecerem como indígenas hoje, demonstra uma força de resistência incrível. Antes da Constituição de 88, eles escondiam esta condição identitária (que era um risco de vida) e denominavam-se caboclos, para sobreviver. Mas nestes últimos anos os indígenas do Nordeste estão revitalizando sua cultura e saberes e reivindicando o direito à demarcação de terras.”
Segundo a professora, cada povo indígena vive uma realidade própria em relação ao direito à terra: há os que vivem em territórios demarcados e homologados; outros em áreas demarcadas, mas ainda não homologadas, ou seja, onde fazendeiros permanecem na terra porque não foram indenizados (caso dos Kariri-Xocó, que têm uma grande área demarcada, mas não vivem nela); e povos que estão em um momento que chamam de retomada, ocupando seus territórios tradicionais. “Existe uma manobra política que visa tirar o direito inclusive dos povos que já têm a terra demarcada, por meio do chamado ‘marco temporal’. Esta estratégia jurídica é uma leitura rasa e tendenciosa das leis que garantem direito à terra aos indígenas na Constituição de 88.”
Alik Wunder, professora da Faculdade de Educação: “Para além do preconceito, há o medo desta força indígena em resistir”
Alik Wunder explica que o artigo 231 da constituição (Capítulo VIII – Dos Índios) diz: São reconhecidos aos índios sua organização social, costumes, línguas, crenças e tradições, e os direitos originários sobre as terras que tradicionalmente ocupam, competindo à União demarcá-las, proteger e fazer respeitar todos os seus bens. Juristas e parlamentares ruralistas fazem uma interpretação do tempo gramatical da lei, argumentando que o direito a terra vale apenas para os grupos indígenas que ocupavam suas terras tradicionais em 1988. Ou seja, as áreas que posteriormente consideradas territórios tradicionais, por meio de laudos antropológicos, e demarcadas, devem ser revistas. “Os Kariri-Xocó são um exemplo deste impasse: estavam inseridos na cidade quando tiveram sua terra tradicional demarcada e para lá voltaram. No caso do ‘marco temporal’ prevalecer, a área demarcada será revista. Atualmente, sem a homologação, o povo Kariri-Xocó vive em uma área muito pequena, sem espaço para plantio. Por outro lado, a Terra Indígena Kariri-Xocó, que vai até o horizonte, continua nas mãos de grandes latifundiários e, na beira do São Francisco, onde estão as áreas mais férteis, há várias chácaras da elite local.”
Área de tensão
O interior de Alagoas é uma área de tensão entre indígenas e grandes latifundiários pecuaristas, respaldados por políticos no Congresso, que inclusive são fazendeiros, comenta a docente da Unicamp. “É grande a dificuldade para dar continuidade ao processo de homologação da terra indígena por causa das manobras jurídicas de fazendeiros para não perderem suas terras nas áreas demarcadas. Há vinte anos é assim. Importante dizer que a área que está sob o domínio dos Kariri-Xocó é a única com vegetação nativa preservada, a caatinga; onde há pecuária extensiva, a vegetação está queimada, a terra é seca. Isso se repete em todo o país. A Unicamp aplicou seu Vestibular Indígena em Dourados (MS), que é um grande “mar de soja” com pequenas ilhas de mata nativa exatamente onde existe agricultura familiar, nas aldeias Guarani, Terena e Kaiowá. Onde há indígenas e outros povos tradicionais como quilombolas e caiçaras, de alguma maneira há áreas preservadas e alta biodiversidade.”
Alik Wunder considera que esta estratégia política de tirar o pouco de terra que sobrou aos povos indígenas é uma forma de demostrar o desejo de que sejam efetivamente dominados ou exterminados. Mas ela lembra que o movimento indígena conta com grandes pensadores e pensadoras a serem ouvidos, em especial neste momento político. E, como sinal da resistência que o novo governo enfrentará, a docente da FE encerra a entrevista lendo o trecho de uma narrativa de Ailton Krenak, intitulada “Eterno retorno do encontro” (1999) e publicada em “A outra margem do Ocidente”, livro organizado por Adauto Novaes, pela Companhia das Letras:
“O encontro e contato entre as nossas culturas e os nossos povos, ele nem começou ainda e às vezes parece que ele já terminou. Quando a data de 1500 é vista como marco, as pessoas podem achar que deviam demarcar esse tempo e comemorar ou debaterem de uma maneira demarcada de tempo o evento de nossos encontros. Os nossos encontros, eles ocorrem todos os dias e vão continuar acontecendo, eu tenho certeza, até o terceiro milênio, e quem sabe além desse horizonte. Nós estamos tendo a oportunidade de reconhecer isso, de reconhecer que existe um roteiro de um encontro que se dá sempre, nos dá sempre a oportunidade de reconhecer o Outro, de reconhecer na diversidade e na riqueza da cultura de cada um de nossos povos o verdadeiro patrimônio que nós temos, depois vêm os outros recursos, o território, as florestas, os rios, as riquezas naturais, as nossas tecnologias e a nossa capacidade de articular desenvolvimento, respeito pela natureza e principalmente educação para a liberdade.”
Edição de imagem por Luis Paulo Silva

sexta-feira, 8 de março de 2019

Mea culpa, mea maxima culpa



  "Ex-bispo auxiliar da arquidiocese de são sebastião do Rio de Janeiro, dom Hélder Câmara, por entender a independência da igreja em que estava inserido, não se calou diante das injustiças. Consequência? Houve."


Dom Hélder Câmara
Mea culpa, mea maxima culpa
por Diogo de Andrade
São Joaquim, Guanabara e Cidade. Em comum o fato de serem palácios importantes na história da cidade e do estado do Rio de Janeiro. Ah, se essas paredes falassem…
O primeiro, situado no bairro da Glória, tem um passado glorioso. Os mais garbosos bailes do país, que contavam com a presença de suas majestades Dom Pedro II e Dona Teresa, além do Marquês de Abrantes, do Visconde de Meriti, então dono do palácio, e da alta sociedade carioca daquele tempo, ocorriam no espaço onde hoje vivem os bispos católicos da igreja carioca.
O Palácio são Joaquim foi doado à igreja para servir de moradia ao primeiro cardeal do Rio de Janeiro, o cardeal Arcoverde.
Já o Palácio da Cidade, que foi a embaixada do Reino Unido no Brasil entre 1950 e 1970, em 74 foi vendido à cidade do Rio de Janeiro e, desde 75, é sua sede.
O Palácio Guanabara, por sua vez, foi residência da princesa Isabel, posteriormente abrigou o presidente Getúlio Vargas e foi doado ao estado do Rio quando a capital passou para Brasília
Prédios são símbolos. No caso dos três palácios, de poder político e religioso.
Assim como os três poderes da república, o religioso e o político precisam ser independentes. Diferentemente, porém, não precisam ser harmônicos quando o que está em jogo é o bem da população.
Ex-bispo auxiliar da arquidiocese de são sebastião do Rio de Janeiro, dom Hélder Câmara, por entender a independência da igreja em que estava inserido, não se calou diante das injustiças. Consequência? Houve. Em 1964, por pressão e intervenção dos militares que golpearam o Estado brasileiro, dom Hélder foi transferido da arquidiocese da capital do Brasil. Dom Hélder, fundador da CNBB, optou por denunciar a verdade em vez de ter uma relação harmônica com o poder político usurpador. E claro… Diante disso, restava aos militares o discurso que voltou à moda quando se pretende desqualificar alguém:
“comunista”, “socialista”, “esquerdista”.
“Quando dou comida aos pobres, me chamam de santo. Quando pergunto porque eles são pobres, chamam-me de comunista” – Dom Hélder Câmara
O que observamos, hoje, na relação entre arquidioceses e o Estado Brasileiro é algo fora dos padrões do evangelho de Jesus Cristo. Prova disso é o acordo tríplice-palaciano por silêncio ou, no máximo, por amenização a críticas, fazendo-as de modo genérico. Evidência disso é que nunca se ouviram críticas explícitas do cardeal a ações dos governos estadual e municipal em casos agudos de crise. Cito 5 exemplos.
1 – Demolição do Museu do Índio para construção de estacionamento em vistas da copa do mundo. Cabral mandou, e a PM “desceu o cacetete” nos moradores da Aldeia Maracanã. Não houve nem uma notinha da Igreja, que tem como essência a opção preferencial pelos pobres.
Cf. https://m.folha.uol.com.br/…/1250643-batalhao-de-choque-da-…
A aldeia continua sob ataque, dessa vez retórico.
“Aldeia Maracanã é lixo urbano. Quem gosta de índio, vá para a Bolívia”
Rodrigo Amorim, deputado estadual eleito pelo PSL em entrevista a O Globo em 04/01/19
2 – Greve dos professores da rede municipal do Rio de Janeiro, em 2013. Diante de uma violência polícial totalmente desproporcional, em que professoras com mais de 50 anos de idade apanharam de Pms e na qual educadores foram alvejados por balas de borracha e bombas de gás, nada de denúncia contra a violência praticada pelo estado.
Cf. https://educacao.uol.com.br/…/rj-pm-afasta-policial-que-jog…
3 – Operações em favelas. A política do enfrentamento praticada pelo governo do estado costuma apreender alguma quantidade de drogas, algumas armas e prender alguns traficantes. No entanto, deixa um rastro de mortes inocentes de moradores e policiais em serviço. Em que momento o cardeal rompeu o silêncio e exclamou o óbvio: parem com operações dessa natureza! Parem de matar inocentes! Parem de enviar jovens soldados da PM para a morte! (Ou, se acredita na política de enfrentamento, quando o cardeal foi justo: Cabral, manda um caveirão para as portas de boates na zona sul, entre atirando e prenda os traficantes de drogas sintéticas. Ou quando o cardeal solicitou operações contra o tráfico de drogas que ocorre dentro da PUC?)
Cf.https://g1.globo.com/…/numero-de-mortes-por-intervencao-pol…
4 – De acordo com O Globo, a obra do Maracanã para a copa de 2014 custou aos cofres públicos 1,346 bilhão de reais. Levantamentos em dados oficiais mostram que a contrução de uma escola custa em torno de 6 milhões de reais e de um hospital 25 milhões. Seria possível construir cerca de 220 escolas públicas e, assim, evitar que agora, em 2019, houvesse mais de 20 mil alunos que ou não conseguiram vagas para o primeiro ano do Ensino Médio, ou estão tendo, com 15, 16 anos de idade, estudar à noite e longe de casa em uma das cidades mais violentas do país. Os gastos com um Maracanã também também equivalem à construção 50 hospitais públicos…
Cf. https://m.oglobo.globo.com/…/governardo-pezao-denunciado-pe…
5 – Crivella e o caso “Chama a Márcia”. Após um apoio explícito de parte efusiva de padres nas eleições para a prefeitura do Rio de Janeiro, quando, no segundo turno, o duelo foi entre Crivella x Freixo, houve o escândalo no Palácio da Cidade em que a máquina pública foi colocada à disposição de pastores evangélicos. Mais uma vez o cardeal arcebispo, que fingiu não ver padres fazendo campanhas nas missas para Crivella, não foi efetivo na denúncia contra a apropriação da máquina pública pela IURD.
Diante da flagrante má administração dos recursos públicos e da corrupção latente comandada por Cabral e Pezão e das denúncias contra Eduardo Paes, e Crivella, fica a dúvida:
POR QUE um dos cardeais mais influentes do Brasil, comandando uma das arquidioceses mais importantes do Brasil que configura o segundo maior colégio eleitoral do Brasil nunca teve a atitude profética que se espera de um sucessor dos apóstolos de se colocar frontalmente contra as ações de Cabral, Pezão, Paes e, mais recentemente, Crivella?
O cristianismo não deve assumir-se como detentor do poder político, mas tem o dever de lutar para que os que se encontram em cargos executivos, legislativos e judiciários ajam em defesa do bem comum. Quando isso não é feito de modo profético e efetivo, tem-se a omissão.
Sugiro ao cardeal orar com mais fervor:

Confiteor Deo omnipotens et vobis, fratres, quia peccavi omissione: mea culpa, mea culpa, mea maxima culpa.


quarta-feira, 27 de fevereiro de 2019

Dialogando com o Deus-Comunhão-de-Divinas Pessoas e com o povo, por Leonardo Boff




Silhueta se Deus é um livro singular de alguém que tem um pé no meio do povo e dos pobres e outro pé na universidade e na academia. Fernando Altmeyer Junior é bem conhecido na PUC de São Paulo e em Sapopempa e outras localidades da periferia onde viveu ou trabalhou e ainda trabalha. Possui rigorosa formação acadêmica unida a um sério compromisso com os direitos humanos e a justiça social. Foi importante assessor do Cardeal Dom Paulo Evaristo e move-se bem nas entrevistas em rádios e em programas de televisão. É fascinado por números da história da Igreja antiga e moderna.Para as grandes festas litúrgicas prepara excelentes subsídios numa linguagem que todos entendem e situada na realidade de hoje. Onde aparece traz sorriso, alegria,senso de humor e é capaz de despertar a esperança do mais prostrado. Escrevi o prefácio  ao seu livro, que publico aqui.Recomendo vivamente este belo livro por seu conteúdo moderno e especialmente por sua linguagem clara, leve e até poética: SILHUETAS DE DEUS, Vozes 2019. 

Eis o meu prefácio:
Finalmente um livro sobre o Deus cristão: a Trindade de Divinas Pessoas em eterno amor e infinita comunhão. O autor Fernando Altmeyer tem toda as virtudes para escrever este livro em três partes: Um grande diálogo com o Deus-Abbba; uma prosa com Jesus, o Filho amado e uma carícia do Espírito de Amor, o Espírito Santo.
A singularidade deste livro  reside nisso: não aborda como os manuais as reflexões sobre o Deus cristão que é sempre a Trindade de Divinas Pessoas em comunhão e amor. Ele escreve como ele pessoalmente é: um teólogo e pastor que tomou a sério a opção pelos pobres e sua inserção no meio popular. E encontrou um meio de expressão adequado ao espírito de hoje.
Seus textos mostram alguém que frequentou a academia e ainda frequenta, como professor da PUC-SP mas nunca tirou os pés do meio do povo e da pastoral popular.
O livro revela grande erudição, mas não ostensiva que ofusca o olhar do leitor e da leitora, mas ela está a serviço da mensagem. Frequenta a literatura antiga do Padres da Igreja, dos filósofos gregos e dos escritores romanos. Visita os autores modernos, não só teólogos e pensadores, mas também  escritores da literatura universal e valoriza enormemente as histórias e os diálogos com gente do povo que ele bem conhece.
Não faz grandes tratados  como os já clássicos. Toma temas da vida cotidiana como a festa, a alegria, a felicidade, o silencio interior, as virtudes, a biografia de santos, santas e figuras seminais que nos inspiram até hoje e até um belo comentário à oração antes de dormir “Santo Anjo protetor, meu zeloso guardador…”
Não se recusa a tratar temas espinhosos como o do mal, do ateísmo, de gênero, mas sempre deixando  as portas abertas e uma aura de esperança. Belíssimo é o ultimo capítulo dedicado a São Francisco de Assis e à Senhora Pobreza, possivelmente em homenagem ao Papa Francisco. Há de se sublinhar seu gosto pessoal pelas datas exatas, atrás de cada autor citado e de fatos do passado, com o dia e o ano.
Em tudo há leveza e jovialidade, próprias da personalidade de Altmeyer. Quando chega, traz sorriso, humor inteligente e uma irradiação de alegria de viver, mesmo quando se indigna sobre os escândalos da política e da própria Igreja.
Vale citar um texto que ele toma de um grande teólogo espanhol, Antônio Pagola, que escreveu um dos mais belos livros sobre Jesus de Nazaré e que mostra bem a linha de pensamento e a linguagem de Altmeyer:
“É muito raro em nossos dias ouvir pregar sobre a felicidade. Há tempos que ela desapareceu do horizonte da teologia. Ao que parece, esqueceu-se daquela explosão de júbilo que viveu nas origens o cristianismo e acabamos ficando exclusivamente com as exigências, a lei e o dever. A impressão global que os cristãos dão hoje é de uma fé que estreitaria e angustiaria a vida do homem, que aliena sua ação e mataria seu prazer de viver. A acusação de F.Nietzsche, em geral, é correta: não temos feições de redimidos, parecemos pessoas acorrentadas do que libertadas por seu Deus“(p.38).
Vale ler e meditar  este livro, pois passa pelos principais temas da vida cristã com uma linguagem fluente, elegante e cheia de belos exemplos e metáforas criativas.
Destes escritores precisa o cristianismo de hoje. Temos teólogos e teólogas das várias igrejas cristãs  que escrevem de forma erudita, mas que dificilmente chegam aos leitores e às leitoras da base. Este livro pode significar um desafio aos colegas para que sigam esta linha: sem diminuir a teologia e a reflexão séria, chegar finalmente, pela linguagem fácil e sugestiva, ao coração das pessoas.
Petrópolis 12 de outubro, festa da Padroeira do Brasil, Nossa Senhora de Aparecida