quarta-feira, 4 de dezembro de 2019

O estranho mundo crepuscular que envolve os vivos em "O Fantasma da Sicília", por Wilson Roberto Vieira Ferreira


Em 1993 um jovem de 14 anos foi sequestrado pela Máfia siciliana como resposta ao seu pai, ex-membro da organização criminosa, que passou a delatar companheiros para a polícia. “O Fantasma da Sicília” (“Sicilian Ghost Story”, 2017) traz ao cinema essa história de uma forma inusitada, misturando a realidade brutal com fantasia onírica: elementos de romance adolescente, psicodrama gótico, fantástico e suspense político. A namorada do jovem estranha porque todos naquele vilarejo (da polícia local aos colegas de escola) são complacentes com o sequestro. Então ela passa a procura-lo não só no mundo físico, mas também com os olhos da mente. “O Fantasma da Sicília” abre para o espectador um estranho mundo crepuscular que envolve o mundo dos vivos: onde o mundo onírico se encontra com o plano astral. 



Há um mundo crepuscular no qual o mundo físico se encontra com o psíquico e com o astral ou espiritual – pós morte, como queiram. Dada uma conjunção de predisposição psíquica, personalidade e adversidades, qualquer um pode contatar essa dimensão repleta de sincronicidades, arquétipos, formas pensamento além de, claro, humanos mortos ou em projeção astral. 
Este Cinegnose já analisou vários filmes ambientados nesse mundo crepuscular: Donnie Darko (2001), Sonhando Acordado (2006), Ink (2009), Branded (2012), a série American Gods (2017-), The Frame (2014), entre outros – veja links ao final dessa postagem.
Mas nada parecido como o filme italiano O Fantasma da Sicília (Sicilian Ghost Story, 2017), uma narrativa que combina elementos de romance adolescente, psicodrama gótico, fantástico e suspense político. 
Uma estória vagamente baseada no caso real ocorrido em 1993 sobre um jovem chamado Giuseppe Di Matteo, cujo pai ex-membro da máfia siciliana, começou a delatar seus antigos colegas à polícia. A Máfia reagiu sequestrando Giuseppe e mantendo-o em cativeiro por quase 800 dias.
Os diretores e roteiristas Fabio Grassadonia e Antonio Piazza contam o drama de Giuseppe sob a perspectiva de uma adolescente, colega do jovem e apaixonada por ele. Ela tem dons artísticos com uma imaginação vívida, um comportamento disfuncional e contestador e uma incorrigível tendência de sonhar acordada.

Em outros termos, O Fantasma de Sicília é o encontro de um Conto Fantástico sobre um primeiro amor com um caso real de crime. Um mix de natural e sobrenatural, fantasia e realidade.
Tudo se passa num bucólico e aparentemente pacífico vilarejo siciliano, Sul da Itália: florestas com árvores frondosas, pacíficos lagos e a presença de animais, como uma onipresente coruja que parece observar a todas atribulações humanas.


Há uma realidade mágica circundante, um crime cometido pela Máfia. Mas também um sombrio pacto tanto da polícia local quando dos moradores com a Máfia – tentam ignorar o sequestro, enquanto a jovem apaixonada pelo seu primeiro amor tenta encontra-lo a todo custo.
Também uma estória de inconformismo tanto político como familiar – o próprio preconceito da sua mãe com o Sul italiano.
O Fantasma da Sicília consegue amarrar todos esses diferentes temas, do plano físico ao plano astral.

O Filme

Luna (Julia Jedilowska) é obcecada pelo seu bonito namorado, o jovem Giuseppe (Gaetano Fernandez) da maneira como todos os adolescentes tendem a ficar obcecados. Ela é atraída pela sua aparência arrojada, hipnotizada pelo seu comportamento encantador.
Os pais de Luna, e principalmente a mãe Loredana (Corinne Musallari), mandam ela se afastar de Giuseppe – há algum problema com a família dele envolvendo violência e assassinatos, embora seja uma família rica e com influência local.
Nas cenas iniciais juntos, Giuseppe parece algo intocável, entre um serafim ou uma fada, ao mesmo tempo perto e inacessível. Diferente da visão tradicional, Sicília no filme é mostrada mística, fria e fabulesca: borboletas voam para as mãos de Giuseppe, animais circundam o jovem casal na floresta. Um interlúdio lírico para algo terrível que está por vir.


Está claro que se criou uma relação onde o amor transcendeu para o espiritual. Por isso, para Luna pouco importa quem Giuseppe realmente é.
De um dia para outro, Giuseppe deixa de frequentar a escola. Preocupada, Luna não recebe respostas satisfatórias da família sobre seu paradeiro. Aos poucos, Luna vai percebendo que há algum tipo de cumplicidade de todo aquele vilarejo - simplesmente os professores, polícia e outros colegas da escola estão pouco preocupados com o sumiço de Giuseppe.
Sem a realidade dar uma resposta satisfatória do desaparecimento, a imaginação de Luna começa a assumir totalmente o controle e ela mergulha em um mundo onírico que mistura a realidade com a fantasia que atormenta mas, ao mesmo tempo, mantém a esperança viva.
Luna percebe que as pessoas criam obstáculos e estratagemas e se vê como a única no local a se importar se Giuseppe está vivo ou morto, a única que ousa entrar na escuridão em busca da mais tênue luz.

Símbolos crepusculares: a Lua e a coruja

O que segue na estória é menos um encadeamento lógico de eventos do que encontros evocativos em algum lugar entre os sonhos e um plano astral – em muitos momentos, Giuseppe no cativeiro vê-se a si próprio, como se o espírito apaixonado ainda tivesse esperanças, enquanto seu corpo enfraquecido jaz inerte na cama do cativeiro.


O filme é hábil em costurar sequências de horror, fantástico e lirismo com momentos de forte comentário social – como a da mãe de Luna obcecada por disciplina, organização e pureza – tranca-se regulamente numa sauna seca no porão da casa para “se purificar”. Na verdade, ela quer pegar sua filha e marido e mudar-se para o Norte do país para fugir daquele lugar infeliz: uma referência ao secular preconceito do Norte italiano industrializado contra o Sul “atrasado”. Como no Brasil, o “Sul maravilha” contra o Nordeste “ignorante”.
A dupla de diretores-roteiristas também explora bastante os simbolismo narrativos. Dois símbolos fazem a mediação entre o mundo físico e o crepuscular: a Lua e a coruja. Luna (Lua) é o nome da jovem protagonista inconformada com a cumplacência de toda aquela comunidade com a Máfia – a polícia é apática e outras crianças da escola acham que Giuseppe recebeu o que merecia. 


Dois símbolos crepusculares. Nesse universo arquetípico a Lua tem um duplo simbolismo: o feminino e da passagem da vida para a morte. Por atravessar fases diferentes, expressa os ritmos biológicos de transformação, crescimento, fecundidade, renovação. 
E também da passagem para a morte como um renascimento: ela parece que desapareceu e está morta. Para depois reaparecer e crescer em brilho.
Conectada com a coruja, a guardiã desse mundo crepuscular. Em O Fantasma da Sicília, as cenas são pontuadas pela onisciente coruja que parece observar as adversidades humanas. Ave noturna conectada com a Lua em diversas culturas, além da associação com a sabedoria. Mas uma sabedoria especial: a clarividência – a capacidade de ver os dois mundos, o físico e o dos mortos.
A grande virtude de O Fantasma da Sicília e conseguir juntar de forma delicada o realismo brutal e a fantasia onírica. Luna não está apenas à procura do garoto desaparecido no mundo físico: está à procura também com os olhos da mente – sonhos, devaneios e vislumbres dessa realidade crepuscular que envolve o nosso mundo.


Ficha Técnica 

Título: O Fantasma da Sicília
Diretor: Fabio Grassadonia e Antonio Piazza
Roteiro: Fabio Grassadonia e Antonio Piazza
Elenco: Julia Jedlikowska, Gaetano Fernandez, Corinne Mussilari, Andrea Falzoni, Lorenzo Curcio
Produção: Cristaldi Pictures, Indigo Film
Distribuição: Pandora Filmes
Ano: 2017
País: Itália, França

Postagens Relacionadas










Nenhum comentário:

Postar um comentário

Olá... Aqui há um espaço para seus comentários, se assim o desejar. Postagens com agressões gratuitas ou infundados ataques não serão mais aceitas.