quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

Tutela, soberania e (ameaça das) Forças Armadas, por Francisco Celso Calmon

 

O golpe militar que derrubou Pedro II e instaurou a República instituiu, desde então, o signo da tutela como marca da nova forma de governo no Brasil.

Do Jornal GGN:

    Foto de Marcelo Casal Jr - Agência Brasil

Tutela, soberania e Forças Armadas

por Francisco Celso Calmon

A recente declaração de um general brasileiro, registrada em publicação vinculada a uma instituição militar sediada nos Estados Unidos, recolocou no debate público uma questão estrutural da história política nacional: o papel das Forças Armadas na definição dos rumos do Estado. Ao afirmar que a liderança militar pode influenciar decisões estratégicas, institucionais e políticas, o general André Luís Novaes Miranda explicitou uma concepção ampliada da atuação militar – concepção que dialoga diretamente com a tradição de tutela sobre o poder civil que marcou sucessivos momentos da experiência republicana brasileira.

Historicamente, as Forças Armadas ocuparam um lugar central e contraditório nesse processo. Instituições indispensáveis à defesa territorial e à integridade nacional, foram, ao mesmo tempo, reiteradamente mobilizadas como instrumentos de intervenção interna, culminando no regime autoritário instaurado em 1964. Essa ambiguidade se estrutura a partir de uma concepção tutelar, onde os militares assumiram a função de poder, legitimando sua interferência nos ciclos de instabilidade política.

O golpe militar que instaurou a República instituiu, desde então, o signo da tutela como marca da nova forma de governo no Brasil.

As redemocratizações não foram capazes de desmontar plenamente essa lógica tutelar.

Ao longo dos três governos Lula, não se construiu um planejamento sistemático e de longo prazo voltado à desarticulação da tutela no interior das Forças Armadas. Faltaram políticas continuadas de formação, presença institucional consistente, diálogo político permanente e, sobretudo, uma estratégia clara de disputa de projeto. O resultado foi a manutenção de um distanciamento estrutural entre o poder civil democrático e a instituição militar, abrindo espaço para a reprodução autônoma de heranças ideológicas.

A conjuntura recente tornou esse limite ainda mais visível. De um lado, a responsabilização de militares de alta patente envolvidos na tentativa de golpe de 8 de janeiro de 2023 sinaliza que certos marcos institucionais começam, ainda que tardiamente, a ser afirmados. De outro, persiste a ausência de uma estratégia estatal consistente para reinserir as Forças Armadas no campo da soberania nacional e da legalidade democrática.

Em 2024, o Supremo Tribunal Federal reafirmou, por unanimidade, que a Constituição de 1988 não confere às Forças Armadas qualquer papel de poder moderador. Ao julgar ação que questionava interpretações distorcidas do artigo 142, a Corte deixou explícito que a atuação militar está estritamente subordinada ao poder civil e limitada à defesa da Pátria, à garantia dos poderes constitucionais e, de forma excepcional, da lei e da ordem. A decisão buscou afastar leituras que vinham sendo instrumentalizadas no debate político recente para justificar intervenções indevidas na dinâmica institucional.

É nesse contexto que as declarações do atual ministro da Defesa, José Múcio, ganham maior densidade política. Ao confirmar sua permanência no governo e sinalizar disposição para contribuir com o projeto de reeleição do presidente Lula, Múcio desloca o debate sobre as Forças Armadas para o centro da disputa política nacional. Esse movimento, contudo, é marcado por tensões. Ao longo do governo, o ministro acumulou divergências com setores do próprio campo governista e assumiu posições controversas, como a defesa de tratamento leniente aos envolvidos nos atos golpistas de 8 de janeiro.

Ao fazer essa declaração, Múcio deu no governo um golpe de MMA, evitando qualquer mudança que o Presidente pudesse pensar em demovê-lo.  

Múcio era peça-chave na intentona bolsonarista, não concretizada porque Janja exclamou GLO é golpe! 

Tais gestos evidenciam os limites de uma condução que, embora reconheça a centralidade da defesa e da soberania, permanece atravessada por ambiguidades políticas. Dessa maneira, torna-se evidente que a redefinição do papel das Forças Armadas não pode depender exclusivamente de figuras pouco alinhadas a um projeto democrático e popular.

Cabe ao governo assumir, de forma ativa, a disputa pelos sentidos da instituição militar e por sua inserção estratégica no projeto de país que se pretende construir.

Reconhecê-las como instituição de Estado – e não como um bloco homogêneo – é condição para qualquer projeto democrático consistente.

Nenhum dos governos Lula estruturou uma política contínua capaz de disputar, no interior das Forças Armadas, os sentidos de soberania, democracia e projeto nacional. A ausência dessa disputa, não apenas fragilizou o controle civil, como permitiu que visões autoritárias e tuteladoras permanecessem latentes, prontas para se reativar em momentos de crise.

Esse debate precisa ser situado na conjuntura internacional pela sociedade civil organizada.

As recentes movimentações do governo Donald Trump, marcadas pelo fortalecimento de uma lógica imperialista explícita e de viés fascista, recolocam no centro da cena a disputa por territórios, recursos e zonas de influência.

As veias abertas do continente permanecem abertas, irrigando o capital estrangeiro e fortalecendo o poder político das potências imperialistas, enquanto os países do Sul Global seguem submetidos a estruturas de dependência que limitam sua autonomia estratégica.

É precisamente nesse ponto que o papel das Forças Armadas se torna incontornável. Elas ocupam um lugar estratégico na proteção do território, dos recursos e da autonomia política do país. Mas, para que cumpram essa função, é indispensável romper com heranças ideológicas que historicamente as afastaram da sociedade civil e as aproximaram, reiteradas vezes, de projetos alheios ao interesse nacional.

Pensar a soberania brasileira hoje, exige, portanto, abandonar leituras simplificadoras. Defender a democracia implica enfrentar, simultaneamente, os discursos autoritários internos e as estruturas internacionais, as quais historicamente condicionam os países do Sul Global.

É indispensável, pois, que o Brasil disponha de Forças Armadas preparadas, profissionalizadas e politicamente presentes em um projeto nacional comprometido com a soberania popular – não como instância tutelar, mas como instrumento legítimo de defesa do país e de sua autodeterminação. Por isso mesmo, reafirmamos, como mantra, a necessidade de um Projeto de Nação.

Nessas eleições é uma situação propícia e necessária para formular o projeto do Brasil que queremos.

É com essa compreensão que defendemos, há algum tempo, a revogação do artigo 142 da Carta Magna. Ainda que o Supremo Tribunal Federal tenha firmado entendimento claro sobre seus limites, consideramos que sua exclusão é politicamente necessária, sobretudo para não seguir alimentando interpretações golpistas no interior das Forças Armadas.

A garantia da lei e da ordem não deve caber às instituições militares, mas às forças policiais, como previsto em um Estado democrático. As Forças Armadas, subordinadas ao comando supremo do presidente da República, devem ser acionadas apenas em situações estritamente excepcionais, quando efetivamente necessárias.

Este texto contou com a colaboração de Lucas Cedro.

Francisco Celso Calmon, Analista de TI, administrador, advogado, autor dos livros Sequestro Moral – E o PT com isso?, Combates Pela Democracia, 60 anos do golpe: gerações em luta, Memórias e fantasias de um combatente; coautor em Resistência ao Golpe de 2016 e em Uma Sentença Anunciada – o Processo Lula. Coordenador do canal Pororoca e um dos organizadores da RBMVJ.



Reinaldo Azevedo – Discurso de Macron em Davos dá uma dimensão dos desastres de Tump

 

Do Canal BandNews FM:




domingo, 18 de janeiro de 2026

Da BBC: O 'pavor' de imigrantes brasileiros em Massachusetts em meio a violências e deportações em massa nos EUA

 

Da  BBC Brasil:

Desde setembro, o Estado americano de Massachusetts tem sido alvo de uma nova fase de combate à imigração irregular o governo de Donald Trump. Massachusetts abriga a segunda maior comunidade brasileira nos Estados Unidos, com aproximadamente 440 mil pessoas, atrás apenas da Flórida. Desde o início da operação Patriot 2.0, agentes do ICE (a agência migratória americana) se espalharam pelas cidades de Massachusetts em busca de imigrantes sem documentos. O enviado da BBC News Brasil Leandro Prazeres percorreu o interior do Estado e conversou com pessoas e famílias brasileiras que têm sido alvo das operações. Alguns têm evitado ir buscar os filhos no ponto de ônibus escolar, com medo de serem presos e deportados - tendo de deixar as crianças para trás. Confira na reportagem especial.



Deutshe Welle: Como a vida de imigrantes e latinos tornou-se muito pior nos EUA de Donald Trump

 

Da Deutsche Welle:

Os Estados Unidos estão em uma encruzilhada, divididos em duas realidades marcantes. Para milhões de famílias sem documentos, o sonho americano tornou-se um pesadelo de medo e incerteza. Agentes do Serviço de Imigração e Controle de Aduanas (ICE, na sigla em inglês) estão intensificando as prisões, varrendo bairros e locais de trabalho e deixando comunidades paralisadas. Enquanto isso, em Washington, ativistas da Geração Z, como Mary, estão reagindo, arrecadando fundos para famílias dilaceradas pelas deportações. Em outras partes do país, vozes conservadoras da Geração Z pedem leis mais rigorosas, exigindo uma nação que priorize os americanos. A divisão é profunda, desde bailes de gala em Nova York a esforços comunitários em bairros latinos. É uma batalha sobre identidade, pertencimento e o significado da cidadania. Duas Américas, uma geração — e um futuro pendendo na balança.




sexta-feira, 16 de janeiro de 2026

Doutrina Donroe ou Frankenstein neoliberal? Por Claudia Henschel de Lima e Antonio José Alves Junior

 

Exame da nova Doutrina de Segurança Nacional dos EUA. A Crítica às elites, ao globalismo e às instituições internacionais “usurpadoras” não esconde o essencial: a aposta na força, ideia de que não há alternativas e crença na primazia dos mercados acima de tudo e de todos



Título original: A Doutrina Donroe e o desenho de uma nova ordem global neoliberal: America First

Estamos longe de ser especialistas em Venezuela e em relações internacionais. Mas os acontecimentos que atravessaram a América Latina — porque é de América Latina que se trata neste momento em que assistimos ao sequestro do presidente Nicolás Maduro — no quadro da governamentalidade Trump 2.0, nos colocaram, mais uma vez, diante da relação entre neoliberalismo e crise; e de uma pergunta: ainda é neoliberalismo? O ataque militar Trump 2.0 à Venezuela é orientado pelo espectro do neoliberalismo, classicamente entendido como globalismo?

A leitura do documento National Security Strategyof the United States of America — que contém o Trump Corollary to the Monroe Doctrine, ou simplesmente, Doutrina Donroe,e que fora publicado em novembro de 2025 — parece indicar a complexidade dessas perguntas, que não podem ser respondidas por meio de uma alternativa “sim ou não”. É um documento que reestrutura a ordem internacional, desenhada a partir de 1945, no pós-Guerra, para a centralização dos Estados Unidos na geopolítica, como nação forte e respeitada, que garante a paz em todo o mundo — o America First (“America is strong and respected again-and because of that, we are making peace all over the world” — p.2 / “Os Estados Unidos estão fortes e novamente respeitados — e, por causa disso, estamos promovendo a paz em todo o mundo”).

Este ensaio não propõe uma genealogia que responderia de forma definitiva à complexidade dos dias atuais; ele visa apenas oferecer uma primeira incursão no que pode se configurar como uma escalada do neoliberalismo com Trump 2.0. E essa escalada se manifesta pela virulência do niilismo do America First: típico de uma torção discursiva imanente ao neoliberalismo globalista que funde liberdade e autoritarismo, que rejeita os limites institucionais e a autodeterminação dos povos em nome da centralização dos Estados Unidos na geopolítica mundial. Ignora, assim, a relevância da Carta da ONU na garantia da estabilidade e equilíbrio de poder entre os países. Essa torção, que faz com que o neoliberalismo se funde ao autoritarismo, foi o que Wendy Brown denominou como o Frankenstein do Neoliberalismo.

O caso da Venezuela se encaixa nessa virulência niilista. Sabemos que a intervenção dos Estados Unidos na região é conhecida, desde 2002, com a aprovação da tentativa de golpe de Estado contra o então presidente Hugo Chávez.

De lá para cá, a Venezuela vem sendo posicionada como ameaça à segurança nacional e à política externa dos Estados Unidos. Em Trump 2.0, testemunhamos a escalada desse niilismo, com a rejeição do artigo 2 da Carta da ONU e a aplicação do Peace Through Strength desde junho de 2025: a redução de Nicolás Maduro, de presidente da Venezuela a narcoterrorista internacional, chefe do Cartel de Los Soles, ameaçador da segurança americana, foragido e procurado pela justiça americana com recompensa de 25 milhões de dólares pela captura; e a ação da força militar na Venezuela, de sequestro e prisão de Nicolás Maduro. É essa centralização dos Estados Unidos na geopolítica que justifica também a ameaça de anexação da Groenlândia para garantir a defesa nacional e a invasão à Colômbia com uma nova redução no horizonte: a de Gustavo Petro, presidente da Colômbia, a um homem doente, que gosta de produzir cocaína e vendê-la aos Estados Unidos.

Para construir essa primeira incursão no que pode se configurar como uma escalada do neoliberalismo com Trump 2.0., com a virulência do niilismo do America First, propomos destacar os eixos estruturantes da Doutrina Donroe — ela substitui a Doutrina Monroe (“The Monroe Doctrine is a big deal, but we’ve superseded it by a lot, by a real lot. They now call it the Donroe document”/ “A Doutrina Monroe é algo muito importante, mas nós a superamos — e muito, muito mesmo. Agora eles chamam isso de Documento Donroe” — declaração de Donald Trump em 3 de janeiro de 2026): uma visão ampliada, integrada e centralizada de poder, que articula segurança, liderança tecnológica, economia, cultura, moral e identidade nacional. E que entendemos estar organizada em oito eixos estruturantes:

  1. Redefinição do conceito de estratégia nacional.
  2. Centralidade da soberania, do nacionalismo e do America First.
  3. Segurança nacional ampliada: fronteiras, economia e cultura.
  4. Economia no fundamento da segurança nacional.
  5. Peace Through Strength e predisposição ao não-intervencionismo.
  6. Concorrência estratégica com a China, Rússia e Irã.
  7. Organização regional da estratégia global.
  8. Crítica às elites e às ideologias contemporâneas.

I. Os eixos estruturantes da Doutrina Donroe

O primeiro eixo do documento se refere à redefinição do conceito de estratégia nacional à luz da crítica direcionada à política do pós-Guerra Fria — caracterizada como difusa, idealista e divorciada dos interesses nacionais concretos: ou seja, uma lista de desejos, platitudes vagas, que não definem clara e objetivamente o que os Estados Unidos querem (p.5). Essa redefinição está alicerçada em três perguntas: 1. O que os Estados Unidos deveriam querer?; 2. Quais são os meios disponíveis para alcançá-lo?; 3. Como podemos conectar fins e meios em uma estratégia de segurança nacional viável?

Essas perguntas mostram como a concepção de estratégia nacional deve se fundamentar em uma posição clara a respeito do que os Estados Unidos querem para si e de uma articulação precisa entre fins e meios, baseada em prioridades explícitas e na limitação do escopo da ação externa. Tudo em nome do America First e não da autodeterminação dos povos, defendida pela Carta da ONU.

O que nos leva diretamente ao segundo eixo estruturante da Doutrina Donroe: centralidade da soberania, do nacionalismo — pilares do America First.

National Security Strategyof the United States of America reafirma a soberania nacional como princípio organizador da política externa e de segurança, rejeitando o multilateralismo e as agendas globais (ambos considerados ameaças à autonomia dos Estados). Sendo pilares do America First, a defesa da soberania e do nacionalismo criam um muro de proteção contra tudo o que representa uma ameaça existencial aos Estados Unidos, visando: garantir sua continuidade como república soberana e independente; proteger a população, o território, a propriedade intelectual, a economia e o american way of life (por exemplo, a família tradicional americana) de ameaças internacionais/globalistasenfrentar as ameaças militares e não militares (migrações em massa, espionagem, narcotráfico, influência estrangeira, propaganda).

O que nos leva, diretamente, ao terceiro eixo estruturante da Doutrina Donroe — a segurança nacional ampliada: fronteiras, economia e cultura. É importante destacar a centralidade tecnológica para as forças armadas, tornando-a a mais avançada do mundo, com vistas à dissuasão de conflitos e a vencer guerras de forma rápida e decisiva. Essa centralidade tecnológica se manifesta na superioridade nuclear e no desenvolvimento de sistemas de defesa antimísseis (incluindo o Golden Dome). Mas a defesa da soberania e do nacionalismo compõe uma compreensão ampliada do que vem a ser a segurança nacional, pois integra o enfrentamento às ameaças militares e não militares externas à proteção da economia, do território e do american way of life. Para isso, a segurança nacional ampliada deve cobrir: o encerramento da era das migrações em massa; o controle total das fronteiras e das redes de transporte; a defesa de liberdades fundamentais (especialmente, a liberdade de expressão e de religião) em oposição a agendas, definidas no documento, como elitistas ou tecnocráticas (principalmente, o multiculturalismo, as políticas identitárias e de diversidade e a agenda climática e regulatória).

No escopo da segurança nacional ampliada, chegamos ao quarto eixo estruturante da Doutrina Donroe: a economia no fundamento da segurança nacional.

O documento sustenta que a segurança econômica é a segurança nacional. Para isso, é fundamental que a política econômica seja orientada pela lógica da segurança nacional e se concentre: 1) na garantia de economia forte com uma política comercial baseada na reciprocidade, tarifas e combate a práticas “predatórias”; 2) na proteção das cadeias produtivas e minerais críticos; 3) no fortalecimento da indústria nacional, especialmente a vinculada à defesa; 4) na edificação do setor energético como ativo geopolítico (energy dominance), inseparável da rejeição à agenda climática global; 5) na associação direta entre prosperidade econômica interna, poder global e capacidade militar.

Essa associação direta nos conduz ao quinto eixo: Peace Through Strength e predisposição ao não-intervencionismo.Ele não se reduz a um slogan militar; mas se constitui como um princípio organizador da política externa americana, em que a paz deriva da assimetria de poder claramente reconhecida, e não da confiança em normas e instituições. Neste sentido, o eixo situa a força como fundamento da dissuasão, ou seja, os atores estatais ou não estatais, suficientemente dissuadidos, não ameaçam os interesses americanos. Para isso, a Doutrina Donroe defende o forte investimento militar. Os princípios incluem: a superioridade militar articulada à superioridade econômica, tecnológica, nuclear e de propriedade intelectual; a capacidade de solucionar conflitos com rapidez,evitando sua extensão por tempo indeterminado; realinhamento da diplomacia para a força como condição para a paz; ênfase em burden-sharing, ou seja, os aliados devem assumir maior responsabilidade por sua própria defesa; articulação direta entre força externa e coesão interna por meio de valores como meritocracia e confiança nacional, que garantem a unidade dos Estados Unidos frente a comunidade internacional.

Peace Through Strengthnos conduz ao sexto eixo: concorrência econômica, tecnológica e infraestrutural com China, Rússia e Irã (que fornece armas e drones para países como Venezuela, que ameaçam a segurança do território continental dos EUA). O documento destaca, ainda, a China como principal concorrente no plano econômico, tecnológico e de inovação. O que nos coloca no sétimo eixo: a organização regional da estratégia global.

Esse eixo, na verdade, apresenta a reestruturação da ordem global a partir da centralidade geopolítica dos Estados Unidos — com capilaridade na América Latina. Segundo o documento, após anos de negligência, os Estados Unidos reafirmarão e farão cumprir a Doutrina Monroe para restaurar a preeminência americana no Hemisfério Ocidental, e para proteger os Estados Unidos e seu acesso a geografias-chave em toda a região. Este “Corolário Trump” à Doutrina Monroe é uma restauração do poder e da centralidade das prioridades americanas em termos de segurança ampliada. Essa organização regional da estratégia global exige uma avaliação crítica das elites e ideologias contemporâneas — o oitavo eixo da Doutrina Donroe.

Trata-se de um dos eixos estruturantes da Doutrina Donroe. O documento diagnostica que as elites intelectuais, desde o fim da Guerra Fria, têm ficado aquém do esperado, com listas intermináveis ​​de desejos ou estados finais almejados; não definiram claramente o que os Estados Unidos queriam; em vez disso, proferiram platitudes vagas. Elites econômicas, políticas e intelectuais teriam produzido um desvio estratégico profundo ao calcularem muito mal a disposição dos Estados Unidos em arcar para sempre com fardos globais, em relação aos quais o povo americano não tinha sinergia alguma. O documento afirma que tais elites superestimaram a capacidade econômica e política dos Estados Unidos de manter simultaneamente um Estado administrativo expansivo e um complexo militar-diplomático global, além de terem aceitado passivamente a transferência de encargos de defesa para os EUA por parte de aliados. Associada a essa avaliação crítica, o documento situa ainda a rejeição das ideologias contemporâneas. Em primeiro lugar, a ideologia da diversidade, equidade e inclusão (DEI) — considerada tóxica aos valores dos Estados Unidos — defende a reinstauração de uma cultura do mérito e da competência. Em segundo lugar, a ideologia do transnacionalismo, que desloca o centro decisório para além do Estado-nação e enfraquece a coragem, a força de vontade e o patriotismo. Essa crítica às ideologias contemporâneas converge para uma leitura mais ampla de declínio moral, cultural e político, em que a perda de confiança nas tradições nacionais, na história e na identidade civilizacional teria enfraquecido tanto a política interna quanto a projeção internacional dos Estados Unidos.

A primeira impressão, após a exposição dos oito eixos da Doutrina Donroe, é que configuram uma escalada do neoliberalismo, fundindo liberdade e autoritarismo, rejeitando os limites institucionais e a autodeterminação dos povos, em nome da centralidade dos Estados Unidos na geopolítica mundial. Isso é feito por meio do exercício unilateral de poder, legitimado por uma gramática moral esvaziada de limites normativos — fusão essa denominada por Wendy Brown de Frankenstein do Neoliberalismo. O traço distintivo da Doutrina Donroe reside nessa fusão niilista da liberdade e do autoritarismo, que corrói a própria ideia de ordem internacional, substituindo-a por uma geopolítica na qual a ausência de limites institucionais deixa de ser exceção e se converte em princípio organizador da política global no século XXI.

Do ópio à Internet, da dominação ao estrangulamento informacional, por Luiz Alberto Melchert

 

O estrangulamento informacional cumpre hoje a mesma função que o bloqueio de portos ou a queima de armazéns cumpriam no passado.

    Imagem: conexão web 

Do Jornal GGN:

Do ópio à Internet, da dominação ao estrangulamento, por Luiz Alberto Melchert


A história da dominação raramente começa com tiros. Em regra, ela se inicia pela criação de uma dependência estrutural que, uma vez naturalizada, permite ao dominador controlar fluxos vitais sem necessidade de ocupação militar. O confronto armado surge apenas quando o resultado já está decidido. O caso clássico é o da China do século XIX, inundada pelo ópio britânico até perder a capacidade material e política de reagir. Quando tentou cortar o vício, encontrou os canhões. A guerra não começou com os disparos; começou com a dependência.

O mesmo mecanismo reaparece, com outras tecnologias, ao longo da história. O dólar cumpriu papel análogo no século XX. Primeiro, o mundo foi levado a adotá-lo como meio de troca, reserva de valor e unidade de conta no comércio internacional. Em seguida, a infraestrutura financeira global foi organizada de tal forma que os fluxos em dólar passassem inevitavelmente por instituições sob jurisdição dos Estados Unidos. No passo seguinte, o controle da fonte permitiu o estrangulamento seletivo: congelamento de reservas, bloqueio de pagamentos, exclusão de sistemas de compensação. A dependência monetária converteu-se em arma estratégica. Não houve inovação histórica, apenas sofisticação técnica.

A Internet representa a etapa mais recente — e mais profunda — desse processo. Diferentemente do ópio ou da moeda, ela não atua apenas sobre o comércio ou as finanças, mas sobre o próprio sistema nervoso das sociedades. Comunicação, coordenação econômica, logística, defesa, informação pública e legitimidade política passaram a depender de redes digitais globais. Criou-se, assim, uma dependência ainda mais sensível: a do tráfego de dados.

Costuma-se afirmar que a Internet é descentralizada e, portanto, imune ao controle. Essa afirmação é apenas parcialmente verdadeira. O tráfego pode ser distribuído, mas os pontos de coordenação não o são. A gestão última dos identificadores fundamentais da rede — números IP, sistemas autônomos e raiz do DNS — permanece concentrada na IANA, historicamente vinculada ao Departamento de Comércio dos Estados Unidos. A criação da ICANN não alterou esse fato material; apenas revestiu o poder existente de uma linguagem multistakeholder que não corresponde a controle operacional efetivo.

A proposta de transferir essa função para a União Internacional de Telecomunicações sempre encontrou resistência justamente porque a ITU resolve, há décadas, aquilo que a governança da Internet evita enfrentar: a interconexão global sob soberania nacional. A telefonia internacional sempre foi roteada, padronizada e coordenada em ambiente multilateral, sem que isso implicasse submissão política. Não por acaso, mesmo hoje, quando mais de noventa por cento da telefonia mundial já é voz sobre IP, o poder de coordenação real migrou para a camada IP, mas sem a proteção institucional que existia no regime telefônico clássico.

É nesse ponto que entram as grandes plataformas digitais. Quando empresas como a Meta utilizam números telefônicos como identificadores globais de usuários, passam a exercer, na prática, uma função análoga à de um gestor de domínios. A diferença entre chamar um destino de www.zezinho.com.br ou de +55 11 99999-9999 é meramente semântica. Em ambos os casos, trata-se de um rótulo simbólico resolvido internamente em endereços IP, rotas, servidores e prioridades de tráfego. O que muda é quem controla a resolução e quem observa os metadados.

Aplicações como WhatsApp ou Messenger não são simples softwares de comunicação. Constituem camadas privadas de roteamento lógico sobre a Internet pública, definindo caminhos, tempos, prioridades e formas de encapsulamento dos dados. Criam redes globais paralelas, opacas ao controle estatal, que atravessam fronteiras regulatórias e concentram poder informacional em poucas corporações. O que antes era feito por organismos públicos e tratados internacionais passou a ser exercido por contratos de adesão e termos de uso.

Nesse contexto, o corte ou a degradação do acesso à Internet deixa de ser um evento técnico e passa a ser um instrumento clássico de guerra. Não se trata apenas de silenciar vozes, mas de paralisar sistemas de defesa, interromper cadeias logísticas, desorganizar serviços públicos e minar o apoio popular. O estrangulamento informacional cumpre hoje a mesma função que o bloqueio de portos ou a queima de armazéns cumpriam no passado. A diferença é que seus efeitos são mais difusos, mais rápidos e politicamente mais fáceis de negar.

Do ópio à Internet, o padrão se repete com notável regularidade. Primeiro cria-se a dependência, depois naturaliza-se seu uso, em seguida controla-se a fonte e, por fim, aplica-se o estrangulamento seletivo. A tecnologia muda; a lógica permanece. Chamar isso de “guerra híbrida” não acrescenta clareza analítica. Guerra é guerra, e sempre se fez com todos os meios disponíveis, dos mais rudimentares aos mais sofisticados.

A questão central do nosso tempo não é técnica, mas política: aceitar ou não que o sistema nervoso digital da sociedade mundial permaneça subordinado a estruturas de poder concentradas, privadas ou nacionais. Enquanto essa dependência for tratada como neutralidade tecnológica, o estrangulamento continuará sendo apresentado como mera contingência operacional. A história mostra que não é. É método.

A questão central do nosso tempo não é técnica, mas política: aceitar ou não que o sistema nervoso digital da sociedade mundial permaneça subordinado a estruturas de poder concentradas, privadas ou nacionais.

 Não há, até o momento, provas materiais conclusivas de que o apagão informático e energético ocorrido na Venezuela durante a operação de sequestro do presidente Nicolás Maduro, assim como o caos persistente nas comunicações digitais vivido hoje pelo Irã, tenham sido provocados por ações externas deliberadas. Nada impede, à primeira vista, que tais eventos tenham decorrido de falhas eventuais, limitações estruturais ou mesmo de disputas políticas internas. Ainda assim, à luz da experiência histórica e da dependência crítica das infraestruturas digitais globais, tampouco se pode descartar que esses colapsos tenham sido induzidos a partir de fora, por meios técnicos opacos, precisamente porque foram concebidos para parecer contingências. Enquanto essa dependência for tratada como neutralidade tecnológica, o estrangulamento informacional continuará sendo apresentado como acidente ou incompetência local. A história mostra que não é. É método.

Luiz Alberto Melchert de Carvalho e Silva é economista, estudou o mestrado na PUC, pós graduou-se em Economia Internacional na International Affairs da Columbia University e é doutor em História Econômica pela Universidade de São Paulo. Depois de aposentado como professor universitário, atua como coordenador do NAPP Economia da Fundação Perseu Abramo, como colaborador em diversas publicações, além de manter-se como consultor em agronegócios. Foi reconhecido como ativista pelos direitos da pessoa com deficiência ao participar do GT de Direitos Humanos no governo de transição.

Reinaldo Azevedo: A hipocrisia dos bolsonaristas sobre o “superflat” do “Mito” na Papuda (que o aguardou)

 

Da BandNews FM:




Canadá Diário: A IMPRENSA ESCONDE: Caos nas Ruas dos EUA! ICE ATACA INOCENTES e espalha pânico nos EUA! 😱 🇺🇸

 

Do Canal Canadá Diário:

    No vídeo de hoje vamos reagir e analisar um caso chocante que viralizou recentemente: agentes da Patrulha de Fronteira dos EUA quebrando a janela de um carro e arrastando um homem em Minnesota, em plena luz do dia, durante uma operação federal de fiscalização de imigração. Este episódio revela de forma clara a militarização das ruas americanas, o uso excessivo de força por agentes federais e como políticas autoritárias têm impactado diretamente a vida de cidadãos inocentes.


    Mostramos imagens inéditas e comentamos o contexto político que levou a esses episódios, incluindo operações recentes do ICE em Minneapolis e St. Paul, protestos de moradores e denúncias de violações de direitos civis. O vídeo também explica como o clima de medo e tensão nas cidades americanas é resultado de políticas de extrema direita, com uso de força desproporcional, intimidação e repressão contra pessoas comuns.

    Além de reagir ao vídeo viral, apresentamos notícias recentes relacionadas, como relatos de motoristas abordados de forma agressiva, operações de fiscalização em larga escala e ações judiciais locais contra abusos de autoridades federais. Analisamos como essas práticas afetam a população, a confiança nas instituições e a democracia nos Estados Unidos.

    Se você quer entender o que realmente está acontecendo nas ruas americanas, como a política autoritária se manifesta no dia a dia e qual é o impacto disso na vida de cidadãos comuns, este vídeo é essencial. Assista até o final para uma análise detalhada, com informações verificadas, fatos recentes e comentários críticos sobre a política e a sociedade americana.
    


quinta-feira, 15 de janeiro de 2026

Do pretenso Destino Manifesto ao explícito imperialismo da Doutrina Donroe, por André Luiz V. Neves

 

Análise Histórica da expansão Territorial, projeção de Poder e a reconfiguração Contemporânea da Doutrina Monroe

Do Jornal GGN:

Do Destino Manifesto à Doutrina Donroe, por André Luiz V. Neves

    Reprodução: Casa Branca

Nota de Apresentação

A análise que se segue não é apenas uma recuperação histórica, mas um diagnóstico de urgência sobre a integridade soberana da América do Sul. Ao identificar a transição da Doutrina Monroe para o que o autor denomina “Doutrina Donroe”, André Luiz Varella Neves oferece o crivo necessário para compreendermos o sequestro de Nicolás Maduro não como um fato isolado, mas como o esgotamento de uma diplomacia de fachada em favor de um pragmatismo extrativista. Minha intermediação aqui cumpre o papel de curadoria crítica, atestando a relevância deste pensamento para o debate público brasileiro, especialmente no que tange aos riscos de interferências em nossos próprios processos eleitorais.
Thiago Gama é Doutorando em História Comparada pela UFRJ  Curador e Intelectual Mediador do texto abaixo.

Por André Luiz Varella Neves

Do Destino Manifesto à Doutrina Donroe: Dois Séculos de Hegemonia Americana na América Latina

Análise Histórica da expansão Territorial, projeção de Poder e a reconfiguração Contemporânea da Doutrina Monroe

Introdução.

Na madrugada de 3 de fevereiro de 2026, uma operação militar sem precedentes na América do Sul redefiniu as regras do jogo geopolítico hemisférico. O ataque norte-americano a Caracas, resultando no sequestro do presidente venezuelano Nicolás Maduro e de sua esposa Cília Flores para julgamento em solo americano, não foi um evento isolado nem uma anomalia histórica. Ao contrário, representou a manifestação mais explícita e brutal de uma lógica geopolítica que atravessa dois séculos de relações interamericanas.

Esta intervenção violou frontalmente o princípio fundamental do direito internacional consagrado na Carta das Nações Unidas — a proibição do uso da força contra a integridade territorial ou independência política de qualquer Estado. No entanto, para compreender seu verdadeiro significado, é necessário situá-la dentro de uma trajetória histórica que começa com a formação dos Estados Unidos como nação e evolui através de doutrinas, guerras e reinterpretações estratégicas que sempre enxergaram a América Latina como área de influência exclusiva.

O questionamento que emerge deste evento dramático é: afinal, neste primeiro quarto do Século XXI estaremos diante de  um Neo-Monroísmo pragmático? Para respondermos esta pergunta, exige que percorramos o caminho que vai da expansão continental do século XIX à construção do Canal do Panamá, da proclamação da Doutrina Monroe ao Corolário Roosevelt, e finalmente à emergência do que analistas contemporâneos denominam “Doutrina Donroe”.

Este texto traça essa trajetória, demonstrando como a intervenção de 2026 é menos uma ruptura do que uma atualização particularmente explícita de princípios que sempre orientaram a política externa norte-americana para a região.

  1. A Construção de uma Nação Continental (1800-1850).

1.1 O Contexto Pós-Independência e a Busca por Consolidação Territorial

Após a consolidação da União e a estabilização do regime político, os Estados Unidos voltaram-se para um projeto ambicioso: a expansão territorial que transformaria uma jovem república atlântica em uma potência continental. O período entre 1800 e 1850 testemunhou uma das expansões territoriais mais rápidas e abrangentes da história moderna.

O processo começou em 1803 com a compra da Louisiana — uma negociação com a França napoleônica que dobrou o território nacional por 15 milhões de dólares. Em 1819, a aquisição da Flórida da Espanha consolidou o controle sobre a península estratégica. Mas foi na década de 1840 que a expansão atingiu seu ritmo mais agressivo. Em 1846, o Tratado do Oregon estabeleceu o paralelo 49° como fronteira com os territórios britânicos, garantindo o acesso ao Pacífico.

O evento mais transformador, porém, foi a Guerra Mexicano-Americana (1846-1848). Desencadeada por disputas fronteiriças após a anexação do Texas em 1845, o conflito terminou com a esmagadora vitória norte-americana. O Tratado de Guadalupe-Hidalgo forçou o México a ceder aproximadamente 55% de seu território — os atuais Estados da Califórnia, Novo México, Arizona, Nevada, Utah, e partes do Colorado e Wyoming. Em 1867, a compra do Alasca da Rússia por 7,2 milhões de dólares completaria a expansão continental.

    Fonte : U.S. Geological Survey

1.2 A Dimensão Demográfica e Econômica da Expansão.

Em apenas cinquenta anos, os Estados Unidos adquiriram 2,3 milhões de milhas quadradas, aumentando seu território em dez vezes. Essa expansão não foi apenas geográfica, mas também demográfica e econômica. A população cresceu de 5,3 milhões em 1800 para 23 milhões em 1850, enquanto a economia se transformava rapidamente de agrária para industrial.

O movimento para oeste teve primeiro os exploradores e caçadores, depois os missionários e comerciantes, seguidos pelos agricultores e finalmente pelos interesses comerciais e industriais. A construção de ferrovias, particularmente a Primeira Ferrovia Transcontinental concluída em 1869, acelerou a integração econômica dos novos territórios.

Esta expansão teve custos humanos devastadores para as populações nativas. A política de remoção forçada, culminando no infame “Trail of Tears” que deslocou milhares de cherokee de suas terras ancestrais, foi justificada pela necessidade econômica. A ideia de “terra vazia” (terra nullius) ignorava deliberadamente a presença de centenas de nações indígenas com suas próprias culturas, sistemas políticos e reivindicações territoriais.

1.3 O Destino Manifesto: A Ideologia da Expansão.

A expansão territorial necessitava de uma justificativa ideológica poderosa, e essa foi fornecida pela doutrina do Destino Manifesto. Cunhado pela primeira vez pelo jornalista John L. O’Sullivan em 1845, o termo encapsulava a crença de que os Estados Unidos tinham uma missão divina para expandir-se por todo o continente, levando consigo os valores da democracia, liberdade individual e civilização cristã.

Destino Manifesto operava em múltiplos níveis. Religiosamente, apresentava a expansão como cumprimento de um plano providencial. Racialmente, baseava-se em teorias de superioridade anglo-saxônica que justificavam a dominação sobre mexicanos e povos indígenas. Politicamente, associou a expansão territorial à difusão dos valores republicanos.

Esta doutrina foi respaldada pela “Tese da Fronteira” do historiador Frederick Jackson Turner, apresentada em 1893. Turner argumentava que a existência de uma fronteira em constante movimento para oeste havia sido o fator fundamental na formação do caráter nacional americano — individualista, democrático, inovador e intrinsecamente expansionista. Quando o censo de 1890 declarou oficialmente o fechamento da fronteira continental, uma questão crucial emergiu: para onde direcionar essa energia expansionista que havia se tornado parte integral da identidade nacional?

 2 –  A Doutrina Monroe.

2.1 O Contexto Hemisférico de 1823.

A proclamação da Doutrina Monroe em 2 de dezembro de 1823 ocorreu em um momento de transformação geopolítica. As antigas colônias ibéricas na América Latina travavam suas guerras de independência (1808-1826), inspiradas pelas revoluções Americana e Francesa. Enquanto isso, as potências europeias da Santa Aliança — Rússia, Prússia, Áustria e França — consideravam intervir para restaurar o domínio espanhol ou estabelecer novas colônias.

A posição dos Estados Unidos era ambivalente. Por um lado, simpatizavam com os movimentos independentistas que espelhavam sua própria experiência revolucionária. Por outro, temiam que a instabilidade regional pudesse atrair intervenção europeia que ameaçasse sua segurança. A solução encontrada por Monroe foi estabelecer dois princípios fundamentais que moldariam a política externa dos Estados Unidos por dois séculos.

  1. O princípio da não-colonização que declarava que os continentes americanos… não estão mais abertos à colonização europeia.
  2. O princípio da não-intervenção que alertava que qualquer tentativa da Europa de estender seu sistema político às Américas seria considerada uma ameaça a paz e a segurança dos Estados Unidos.

Na sua essência original, a doutrina era defensiva e isolacionista. Os Estados Unidos, ainda uma nação jovem com recursos militares limitados, não tinham capacidade — nem inicialmente intenção — de impor sua vontade sobre o resto do hemisfério. Curiosamente, a viabilidade da doutrina dependia do apoio tácito da Royal Navy, que também tinha interesse em manter a América Latina livre de monopólios coloniais para garantir mercados abertos ao seu comércio.

2.2 Protetorado sem Consentimento.

A contradição no cerne da Doutrina Monroe residia em seu caráter unilateral. Monroe declarou-se protetor das nações latino-americanas sem consultá-las, sem pedir sua permissão e sem estabelecer mecanismos de decisão conjunta. Esta conduta estabeleceu um padrão que marcaria as relações interamericanas pelos séculos seguintes: a ideia de que os Estados Unidos sabiam o que era melhor para seus “vizinhos” do sul.

Esta atitude refletia não apenas diferenças de poder, mas também profundas assimetrias culturais e raciais. A visão predominante em Washington via as repúblicas latino-americanas como politicamente instáveis, economicamente atrasadas e racialmente inferiores — portanto, necessitadas de orientação e proteção.

Por décadas após sua proclamação, a Doutrina Monroe permaneceu mais como princípio retórico do que como política ativa. Isso mudaria radicalmente com a virada do século XX, quando os Estados Unidos emergiram como potência industrial e militar capaz de fazer cumprir, pela força se necessário, os princípios que Monroe havia apenas declarado.

 3: A Virada Imperial: Guerra Hispano-Americana e a Emergência como Potência Global (1898).

3.1 O Contexto do Final do Século XIX

O final do século XIX encontrou os Estados Unidos em uma posição paradoxal. Economicamente, haviam superado o Reino Unido como a maior economia industrial do mundo. Sua produção de aço, carvão e manufaturas superava a de qualquer país europeu. Militarmente, porém, permaneciam uma potência essencialmente continental, com capacidade limitada de projeção de poder além de suas costas.

Esta discrepância entre poder econômico e capacidade militar gerou um debate intenso sobre o papel dos Estados Unidos no mundo. De um lado, estavam os isolacionistas que argumentavam que o país deveria focar no desenvolvimento interno. Do outro, expansionistas como o almirante Alfred Thayer Mahan, cuja obra “A Influência do Poder Naval na História” (1890) defendia que o futuro pertencia às potências que controlassem os mares e estabelecessem bases estratégicas globais.

3.2 A Guerra Hispano-Americana: Causas e Consequências

O ponto de virada foi a Guerra Hispano-Americana de 1898. O conflito teve origem na luta cubana pela independência da Espanha, mas foi precipitado pelo misterioso naufrágio do navio de guerra USS Maine no porto de Havana em 15 de fevereiro de 1898. A imprensa sensacionalista americana (na prática conhecida como “yellow journalism”) imediatamente atribuiu o desastre a sabotagem espanhola, criando um clamor público por guerra.

A guerra propriamente dita foi breve — durou apenas dez semanas — e unilateral. A esquadra americana destruiu a frota espanhola nas Filipinas (Batalha da Baía de Manila) e em Cuba (Batalha de Santiago de Cuba). O Tratado de Paris, assinado em 10 de dezembro de 1898, estabeleceu os termos da rendição espanhola:

  • Cuba: Tornou-se protetorado dos Estados Unidos status formalizado pela Emenda Platt de 1901, que dava aos EUA o direito de intervir nos assuntos cubanos.
  • Porto Rico, Guam e Filipinas: Foram cedidos aos Estados Unidos como territórios
  • Havaí: Anexado durante o conflito (Resolução Newlands de 1898)

3.3 Significado Geopolítico da Guerra

A Guerra Hispano-Americana representou múltiplas transformações simultâneas, como segue: Primeiro, marcou a transição dos Estados Unidos de potência continental para potência imperial global. Pela primeira vez, adquiriam territórios ultramarinos habitados por populações não anglo-saxãs que não seriam integradas como estados da União. Segundo, estabeleceu os Estados Unidos como potência naval com capacidade de projeção global. A vitória demonstrou a eficácia das teorias de Mahan sobre poder naval. Terceiro, criou uma infraestrutura imperial no Pacífico e Caribe que exigiria proteção e manutenção, levando logicamente a intervenções futuras. Quarto, estabeleceu um padrão de justificativa ideológica: a guerra foi vendida ao público americano não como conquista imperial, mas como missão humanitária para “libertar” cubanos e filipinos do jugo espanhol.

Em síntese, os Estados Unidos não apenas defendiam o hemisfério de potências externas mas antes, assumiam o papel de potência colonial na região, estabelecendo um protetorado sobre Cuba que duraria até 1934.

 4- O Corolário Roosevelt e a Política do “Big Stick” (1901-1914)

4.1 Theodore Roosevelt e a Reinterpretação da Doutrina Monroe

Sob a presidência de Theodore Roosevelt (1901-1909), a Doutrina Monroe foi reinterpretada de forma agressiva e expansionista. Roosevelt personificava a nova confiança americana: jovem, enérgico, profundamente convencido do destino imperial de seu país e discípulo das teorias navais de Mahan.

A oportunidade para reformular a doutrina surgiu em 1904, durante uma crise financeira na República Dominicana. O país havia acumulado dívidas significativas com credores europeus, que ameaçavam intervenção armada para cobrá-las. Roosevelt viu nisso uma violação potencial da Doutrina Monroe e agiu decisivamente.

Em sua mensagem anual ao Congresso em 6 de dezembro de 1904, Roosevelt anunciou o que ficaria conhecido como o “Corolário Roosevelt” à Doutrina Monroe. Seu raciocínio era simples, mas suas implicações eram revolucionárias: se os Estados Unidos proibiam a Europa de intervir na América Latina para cobrar dívidas ou restaurar a ordem, então tinham a responsabilidade de intervir eles mesmos para garantir que as dívidas fossem pagas e a estabilidade mantida.

4.2 A Política do “Big Stick”

A política ficou conhecida como a do “Big Stick”, baseada no provérbio africano que Roosevelt apreciava: Fale suavemente e carregue um grande porrete; você irá longe. O “porrete” era a Marinha de guerra dos EUA, que Roosevelt modernizou e expandiu agressivamente, criando a Great White Fleet (Grande Frota Branca) que circum-navegou o globo entre 1907 e 1909 para demonstrar o poder naval americano.

.

Roosevelt aplicou sua política de forma consistente em toda a região como apresenta o mapa.

  1. 1903: Apoiou a separação do Panamá da Colômbia para garantir os direitos de construção do Canal do Panamá
  2. 1906-1909: Intervenção em Cuba para “restaurar a ordem” durante a Revolução Cubana
  3. 1912-1933: Ocupação da Nicarágua
  4. 1915-1934: Ocupação do Haiti
  5. 1916-1924: Ocupação da República Dominicana

Fonte: International Enciclopedia the First World War.

4.3 O Canal do Panamá: Símbolo da Nova Hegemonia

O Corolário Roosevelt encontrou sua expressão mais concreta no projeto do Canal do Panamá. Roosevelt reconhecia que um canal interoceânico seria vital tanto para o poder naval quanto para o comércio global dos EUA. Quando o Senado colombiano rejeitou o tratado que daria aos Estados Unidos direitos perpétuos sobre uma zona do canal, Roosevelt apoiou um movimento separatista no Panamá.

O novo país, reconhecido imediatamente pelos Estados Unidos, assinou o Tratado Hay-Bunau-Varilla (1903), que concedia aos norte-americanos o controle virtualmente permanente sobre uma Zona do Canal de 10 milhas de largura. O Canal, concluído em 1914 após uma década de construção que custou milhares de vidas, não apenas facilitou o comércio global, mas transformou o Caribe em no “Mare Nostrum Americano

Para proteger essa rota vital, os Estados Unidos estabeleceram uma rede de bases navais e justificaram intervenções frequentes na região sob o argumento de proteger seus interesses estratégicos. A lógica era circular, mas eficaz: o Canal exigia proteção, que por sua vez exigia intervenção, que reforçava o controle sobre a região, que garantia a segurança do Canal.

5: Do “Big Stick” ao “Bom Vizinho”: Evoluções e Continuidades (1914-1945)

5.1 A Primeira Guerra Mundial e o Intervencionismo

O período entre as duas guerras mundiais testemunhou uma expansão, paradoxalmente, tanto do intervencionismo quanto das críticas a ele. A Primeira Guerra Mundial reforçou a posição dos Estados Unidos como potência global, enquanto a Revolução Russa de 1917 introduziu uma nova dimensão ideológica às relações interamericanas: o temor do comunismo.

Na década de 1920, as intervenções americanas continuaram, mas começaram a enfrentar resistência crescente tanto internamente quanto na América Latina. O massacre de haitianos por fuzileiros navais americanos em 1929, por exemplo, gerou críticas ferozes no Congresso e na imprensa.

5.2 A Política do “Bom Vizinho”

A Grande Depressão e a eleição de Franklin D. Roosevelt em 1932 trouxeram mudanças significativas. Em 1933, Roosevelt anunciou a Política do “Bom Vizinho”, prometendo respeito à soberania latino-americana e não-intervenção. Na prática, isso significou o fim das ocupações militares na República Dominicana em 1924, na Nicarágua em 1933 e no Haiti em 1934. Além da revogação da Emenda Platt em 1934 que tinha tornado efetivamente Cuba um protetorado dos Estados Unidos.

No entanto, o “Bom Vizinho” foi mais retórica do que realidade. O poder econômico americano continuou a dominar a região, e quando interesses estratégicos foram considerados ameaçados — como no caso do governo reformista de Jacobo Árbenz na Guatemala em 1954 — a intervenção retornou sob novas formas.

5.3 A Segunda Guerra Mundial e a Consolidação da Hegemonia

A Segunda Guerra Mundial consolidou definitivamente a hegemonia americana no hemisfério. Com a Europa devastada pelo conflito, os Estados Unidos emergiram como a única potência econômica e militar intacta, posição que utilizaram para moldar a ordem internacional pós-guerra através das instituições de Bretton Woods (FMI, Banco Mundial) e do sistema das Nações Unidas.

Na América Latina, isso se traduziu em uma mistura de cooperação e coerção. Por um lado, os Estados Unidos promoveram a aliança militar através do Tratado Interamericano de Assistência Recíproca (TIAR) de 1947. Por outro, começaram a ver qualquer movimento reformista ou nacionalista como potencialmente comunista, preparando o terreno para a intervenção da Guerra Fria.

6: A Guerra Fria: Monroe Vestindo a Roupa Anticomunista (1947-1991)

6.1 A Reconfiguração da Doutrina Monroe

O início da Guerra Fria trouxe uma nova e poderosa justificativa para a intervenção americana na América Latina: o combate ao comunismo. A Doutrina Monroe foi atualizada e enquadrada dentro da Doutrina de Contenção formulada por George F. Kennan, que defendia a necessidade de conter a expansão soviética em todo o mundo.

Qualquer governo reformista, nacionalista ou de esquerda passou a ser visto como uma potencial cabeça-de-ponte de Moscou no Hemisfério Ocidental. Esta lógica justificou algumas das intervenções mais controversas da história americana:

6.2 Casos Emblemáticos da Guerra Fria

Guatemala, 1954: A CIA orquestrou o golpe que derrubou o presidente democraticamente eleito Jacobo Árbenz, cujas reformas agrárias ameaçavam os interesses da United Fruit Company. O operativo PBSUCCESS estabeleceu um padrão: uso de propaganda, apoio a forças opositoras e negação plausível.

Cuba, 1961-1991: Após a Revolução Cubana, os Estados Unidos iniciaram uma campanha multifacetada que incluía a invasão fracassada da Baía dos Porcos (1961), o embargo econômico (iniciado em 1960 e intensificado em 1962), tentativas de assassinato de Fidel Castro e isolamento diplomático.

República Dominicana, 1965: Intervenção militar de 20.000 fuzileiros navais para impedir a volta ao poder do ex-presidente reformista Juan Bosch, sob a alegação de prevenir “outra Cuba”.

Chile, 1973: Apoio financeiro e político da CIA à oposição que desestabilizou o governo de Salvador Allende, culminando no golpe militar de Augusto Pinochet.

América Central, anos 80: Envolvimento profundo nas guerras civis de El Salvador (apoio ao governo) e Nicarágua (apoio aos “Contras”), com o argumento de barrar a expansão sandinista.

6.3 A Sofisticação dos Métodos

Durante a Guerra Fria, a intervenção se sofisticou: menos ocupações militares prolongadas, mais golpes de Estado patrocinados, guerra econômica, operações secretas e apoio a regimes autoritários aliados. A Escola das Américas, estabelecida no Panamá em 1946, treinou milhares de militares latino-americanos em técnicas de contrainsurgência, muitos dos quais depois participaram de governos ditatoriais.

A justificativa ideológica era poderosa, mas frequentemente servia para encobrir interesses econômicos. Como observado por analistas, mesmo durante a Guerra Fria os EUA frequentemente “abandonaram qualquer pretensão de que isso tenha sido feito pelo bem da democracia”, apoiando regimes autoritários desde que fossem anticomunistas.

Para ilustrar, segue o mapa com todas as intervenções dos Estados Unidos apoiando os golpes militares na América Latina.

   Fonte : G Zero.

7: O Pós-Guerra Fria e as Novas Justificativas (1991-2016)

7.1 O “Momento Unipolar” e a Busca por Novas Missões

O colapso da União Soviética em 1991 eliminou a principal justificativa ideológica para a intervenção americana. Nos anos 1990, os Estados Unidos falaram em uma Parceria para as Américas e promoveram iniciativas como a Área de Livre Comércio das Américas (ALCA).

No entanto, a lógica subjacente da Doutrina Monroe não desapareceu; ela se adaptou a novas “ameaças” que justificassem a presença e influência americanas:

7.2 As Novas “Ameaças”

As ‘novas ameaças’ foram identificadas como : narcotráfico, terrorismo e imigração.

 A “Guerra às Drogas”, declarada por Richard Nixon em 1971, ganhou novo impulso nos anos 1990 como justificativa para intervenção. O Plano Colômbia, iniciado em 2000, canalizou mais de 10 bilhões de dólares em ajuda militar e policial, transformando um conflito interno em uma frente da guerra global contra as drogas.

Os ataques de 11 de setembro de 2001 forneceram uma justificativa ainda mais ampla. A “Guerra ao Terror” global se estendeu à América Latina através de iniciativas como a Iniciativa Mérida no México.

O controle dos fluxos migratórios tornou-se uma prioridade de segurança nacional, influenciando políticas para a América Central e justificando intervenções indiretas.

Como podemos notar, não há nada de novo nas narrativas atuais, pois todas ainda declaram os mesmos problemas.

 8: A “Doutrina Donroe”: A Intervenção na Venezuela (2026)

8.1 O Contexto Imediato

A intervenção militar direta na Venezuela em fevereiro de 2026 representa, nas algo sem precedentes, pois pela primeira vez os Estados Unidos intervém diretamente na América do Sul.  A operação que resultou no sequestro do presidente Nicolás Maduro e sua esposa, seguido por seu transporte para julgamento em Nova York, marca uma escalada qualitativa na longa história da intervenção americana na região.

Geograficamente, rompe com um padrão histórico: enquanto no século XX as intervenções diretas se concentraram no Caribe e na América Central, na América do Sul os EUA preferiram métodos indiretos. A ação na Venezuela estabelece um precedente perigoso para a sub-região.

8.2 Características da “Doutrina Donroe

A análise da intervenção revela características distintivas que o próprio governo denomina de  “Doutrina Donroe” — uma fusão dos nomes Donald Trump e James Monroe que sintetiza esta nova fase.

Enquanto intervenções passadas eram justificadas por valores como democracia ou direitos humanos, a ação na Venezuela não houve nenhuma menção a estas questões. A justificativa apresentada — inicialmente narcoterrorismo, depois clientelismo via narcotráfico — mostrou-se insustentável. Como vimos na declaração do Presidente Trump em Mar-a-Lago, a preocupação foi essencialmente na questão do petróleo. Este interesse reside no fato de que a Venezuela detém as maiores reservas comprovadas de petróleo do mundo, e o governo americano deixou claro que busca acesso para empresas norte-americanas. O próprio discurso oficial referiu-se ao “nosso petróleo”, em clara demonstração de apropriação de recursos localizados em outro país soberano.

Se a Doutrina Monroe original visava potências europeias, e durante a Guerra Fria focava no comunismo soviético, a “Doutrina Donroe” mira claramente a República Popular da China. O motivo é que ela tornou-se nas últimas décadas o principal parceiro comercial de vários países latino-americanos, investindo massivamente em infraestrutura através da Iniciativa do Cinturão e Rota.

A intervenção na Venezuela pode ser traduzida na seguinte mensagem: os Estados Unidos não permitirão que a China expanda sua influência no que consideram sua esfera exclusiva. A postagem do Departamento de Estado no X — Este é o NOSSO hemisfério — sintetiza essa mentalidade renovada de posse.

Outra característica que se identifica claramente na Doutrina de Trump está localizada em duas correntes distintas. A primeira é ideológica e é representada pela figura do Secretário de Estado Marco Rubio. Esta corrente tem como objetivo as mudanças de regime na Venezuela, em Cuba e na Nicarágua.

A segunda corrente é transacional representada pelo Presidente Trump cujo interesse está focado em acordos econômicos vantajosos do que apoiar ou promover valores democráticos.

9: Implicações Regionais e Respostas Latino-Americanas

9.1 O Dilema Latino-Americano

A resposta dos países da região à intervenção tem sido limitada, consistindo principalmente em condenações verbais e pedidos de reunião do Conselho de Segurança da ONU. A fragmentação ideológica dificulta uma resposta coordenada: enquanto governos de esquerda condenam veementemente a ação, governos de direita tendem a apoiá-la ou manter silêncio cúmplice.

Esta divisão é habilmente explorada pela estratégia americana, que isola países e os pressiona individualmente. A política de acordos comerciais bilaterais preferenciais com governos alinhados, combinada com sanções contra governos opositores, aprofunda as divisões regionais.

9.2 Brasil e as Interferências Eleitorais e Futuro imediato da Venezuela.

A intervenção na Venezuela expõe um grande risco de termos interferências em processos eleitorais regionais no Brasil. Poderá ocorrer por parte do Governo Trump apoio a candidatos da extrema direita em nosso país, além da pressão econômica e sanções seletivas criando um novo modelo de intervenção indireta, mas eficaz.

Em relação ao cenário venezuelano permanece difuso. Os militares mantêm, até o momento, apoio ao governo chavista, agora liderado interinamente pela vice-presidente Delcy Rodríguez. A Constituição exige eleições em prazos curtos (30 dias se a ausência for permanente, 180 se for temporária), mas o temor de líderes políticos e militares de serem processados e extraditados, como ocorreu com Maduro, atua como fator de coesão.

O governo interino enfrenta o dilema de resistir nacionalmente ou negociar condições que garantam sua sobrevivência política. A retórica inicial de resistência — “não seremos uma colônia” — deu lugar a sinais de disposição para negociar “pelo desenvolvimento”, sugerindo uma acomodação pragmática aos novos fatos no terreno.

Conclusão:

A intervenção na Venezuela de 2026, analisada através da lente histórica da expansão americana e da evolução da Doutrina Monroe, revela-se não como um evento isolado, mas como o capítulo mais recente em uma história de dois séculos. A “Doutrina Donroe” representa tanto continuidade quanto ruptura.

Continuidade na afirmação de hegemonia americana sobre o hemisfério ocidental. Desde a expansão territorial do século XIX até a intervenção de 2026, uma linha conecta a crença no Destino Manifesto, a proclamação unilateral da Doutrina Monroe, o Corolário Roosevelt, as intervenções da Guerra Fria e a ação contemporânea na Venezuela: a convicção de que os Estados Unidos têm direito a determinar os rumos de seu “quintal” estratégico.

Ruptura na declaração da hegemonia estadunidense no Hemisfério Ocidental. O que mudou não é a intenção, mas os métodos e a franqueza com que os interesses são declarados. Enquanto no século XIX falava-se em “Destino Manifesto”, no início do XX em “missão civilizatória”, durante a Guerra Fria em “defesa da democracia”, no século XXI fala-se simplesmente em nosso hemisfério” e “nosso petróleo.

Para a América Latina, o que nos cabe é responder a seguinte questão: como construir soberania coletiva frente a uma potência que nunca abandonou a visão intervencionista?

Este é o nosso desafio histórico, pois a sombra da Doutrina Monroe de 1823 ainda se projeta na nossa região.

André Luiz Varella Neves – Doutor em Ciência Política pela USP e Subchefe do Departamento de Estudos Estratégicos e Relações Internacionais do INEST/UFF. Especialista em Geopolítica e Estratégia dos Estados Unidos, coordena o Laboratório de Estudo da Grande Estratégia dos Estados Unidos (Lab-GEST).

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para dicasdepautaggn@gmail.com. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

“Democracia é coisa frágil. Defendê-la requer um jornalismo corajoso e contundente. Junte-se a nós: https://www.catarse.me/JORNALGGN “