quinta-feira, 9 de dezembro de 2021

‘A disputa de Natal’: documentário sobre o Natal ‘alt-right’ do passado que jamais existiu, por Wilson Ferreira

 

Um microcosmo que mostra como a América Profunda fez emergir o fenômeno alt-right do Trumpismo, depois irradiado para todo o planeta.

‘A disputa de Natal’: documentário sobre o Natal ‘alt-right’ do passado que jamais existiu

por Wilson Ferreira

Jeremy Morris acredita que tem uma missão: compartilhar o “espírito do Natal” com o maior número de pessoas possível. Por isso, todo ano transforma sua casa num enorme presépio com camelo, coral de 35 vozes, milhares de lâmpadas e inúmeras bugigangas festivas que atrai milhares de turistas. Nem que seja ao custo de uma batalha judicial (marcada pelo “lawfare” de Jeremy Morris – ele é advogado) contra a Associação de Moradores que viu um subúrbio residencial pacato virar uma caótica atração das festas de final de ano. Uma batalha que atraiu a simpatia de grupos de extrema-direita que viram em Morris um herói que lutava contra a intolerância religiosa de… comunistas e ateus! Esse é o documentário Apple TV+ “A Disputa de Natal” (“Twas The Fight Before Christmas”, 2021), um microcosmo que mostra como a América Profunda fez emergir o fenômeno alt-right do Trumpismo, depois irradiado para todo o planeta. Principalmente pela hiper-realidade midiática que enxerta a nostalgia de um passado que jamais existiu. 

O leitor deve lembrar do clássico Férias Frustradas de Natal em que Chevy Chase interpreta Clark Griswold que, depois de muitas confusões, heroicamente consegue ligar sua gigantesca iluminação natalina que envolvia toda a sua casa – trazendo a edificante mensagem de que, não importam as dificuldades, uma família unida sempre consegue enfrentar os reveses da vida.

Combine esse e mais outros filmes (que ajudaram a construir memórias idílicas e hiper-reais das festas de Natal) com fundamentalismo religioso somado ao fenômeno recente da judicialização que ameaça as democracias e terá uma verdadeira batalha em plenas festas natalinas. 

É essa combinação explosiva, num EUA dividido politicamente desde a vitória de Trump e a corrosão da opinião pública pelas táticas de propaganda alt-right, que descreve o documentário A Disputa de Natal (Twas The Fight Before Christmas, 2021) dirigido por Becky Read e produzido por Chris Smith – produtora de outro excelente documentário, Três Estranhos Idênticos” – clique aqui. Um documentário estranhamente sombrio e ao mesmo tempo cômico que oferece diferentes perspectivas de um evento de Natal que deu totalmente errado, transformando-se em uma ferrenha batalha jurídica que até hoje não teve uma conclusão.

 Em um típico e pacato subúrbio de classe média norte-americano em Hyden, Idaho, uma batalha judicial fez a até então desconhecida cidade do país chegar aos noticiários nacionais em todo o mundo. Manchetes como “Guerra jurídica no Natal” que envolviam até a existência de um camelo vivo como decoração em um presépio, chamaram a atenção da cineasta.

Para ela tudo parecia bizarro: uma discussão entre vizinhos sobre uma comemoração de Natal acabou em um tribunal de júri, assumindo proporções políticas combinada com uma custosa artilharia jurídica que, seja o lado que perder na batalha, terá como destino da falência. 

No conflito, de um lado um advogado chamado Jeremy Morris, obcecado pela ideia de transformar em realidade as suas lembranças de infância, cuja hiper-realidade midiática transformaram em memórias idílicas combinada com um senso religioso distorcido; e do outro, a associação de bairro, incomodada por um evento que atrai milhares de pessoas de todo o país, mergulhando o pacato subúrbio em um caos de trânsito despejando multidões, muito lixo e depredações dos bem cuidados jardins das redondezas.

O hiperativo e egocêntrico advogado imediatamente aceitou em contar sua história no documentário. Percebemos nas cenas sua alegria infantil em mostrar suas toneladas de equipamentos decorativos que guarda em um depósito, à espera da chega do final do ano. Porém, uma infantilidade que, de repente, pode se transformar em agressão e ódio instrumentalizado pelo lawfare e práticas ilegais como grampos telefônicos e microfones ocultos para gravar conversas da vizinhança – para, logicamente se voltarem contra ela no processo.

Porém, foi extremamente difícil os vizinhos aceitarem participar do documentário: desconfiados, achavam que a produção seria mais uma arma de Morris para intimidá-los. Com muito esforço, Becky Read conseguiu reverter essa percepção e ganhou a confiança de todos – compreenderam que o documentário mostraria todos os lados do litígio.

E o resultado é não só tragicômico, mas também um instantâneo da atual corrosão social e política resultante das estratégias da chamada direita alternativa que envolvem mídia, judicialização e apropriação oportunista de uma certa noção de liberdade e direitos fundamentais como o impedimento legal da proibição do exercício de religião e de expressão – nos EUA, à Primeira Emenda da Constituição.

O Documentário

Um homem que proclama “amar o Natal mais do que a própria vida”, Jeremy Morris também acredita ter como missão compartilhar seu “espírito natalino” com o maior número possível de pessoas.

É por isso que, em 2014, ele decidiu iluminar e enfeitar sua casa com milhares de luzes e tantas bugigangas festivas quanto possível. E mais! Alugar um coral de 35 vozes, um camelo e distribuir chocolate quente e algodão doce, doando todo o dinheiro para instituições de caridade. 

Depois de publicar o evento no Facebook, o público veio em massa, com carros e ônibus fretados enfileirados por quilômetros. 

Ao ser advertido de que precisaria futuramente de uma autorização da Câmara Municipal, Morris rebateu dizendo que o que ele organizava “não era um evento, mas um milagre de Natal”.

Irritado com a necessidade regulatória e estimulado pelo sucesso de seu projeto, Morris convenceu a esposa Kristy e suas pequenas filhas de que deveriam se mudar para uma casa maior – fora dos limites da cidade.

West Hayden Estates, um bairro de subúrbio com suas ruas largas e abertas, parecia o lugar perfeito. O advogado Morris estava convencido de que não haveria qualquer problema em cumprir o imponente volume de convênios, condições e restrições da associação de proprietários de casas locais. 

Na verdade, foi mais do que isso: com seus conhecimentos a respeito de jurisprudência, Morris buscou no livro de regras da Associação todas as lacunas, pontos falhos ou ambiguidades que pudessem dar margens a interpretações, garantindo-se de quaisquer processos.

Não sem antes intimidar os vizinhos (e principalmente a presidenta da Associação, uma pessoa que no momento atravessava uma extrema vulnerabilidade emocional), com “carteiradas” e ameaças de mobilizar uma equipe de advogados, por meio de cartas, e-mail e telefonemas.

O que se seguiu foram alegações de perseguição religiosa, espionagem, telefones grampeados por Morris, segurança apoiada por grupos de direita, alegações de terrorismo, ameaças legais e físicas e animosidade crescente que ameaçava separar uma comunidade antes tranquila.

Garantido por milícias de extrema-direita (que se identificaram com a causa de Morris, que passaram a ver nele um herói em defesa da liberdade na América), os eventos se realizaram com um número cada vez mais crescente de visitantes – chegando a atrair turistas canadenses.

A princípio, até pensamos que Morris é simplesmente um cara sensível que deseja fazer o bem no mundo. Então, gradualmente, fica claro que ele fará tudo o que for preciso para conseguir o que quer.

Continue lendo no Cinegnose.

terça-feira, 7 de dezembro de 2021

Para entender o Orçamento Secreto - sistema de corrupção/dizimação do Centrão-Bolsonarismo - em vídeo do Meteoro Brasil

 

Do Canal Meteoro Brasil:

Não se trata apenas da corrupção nossa de cada dia: o caso do orçamento secreto é muito mais grave: ele muda as regras que definem como o orçamento público é usado, tornando tudo menos transparente e eficiente. De quebra, o caso volta a causar tensão entre os poderes.



Garimpo destrutivo avança em áreas preservadas na Amazônia sob aval do General Heleno, de ultradireita

 

Ministro do Gabinete de Segurança Institucional autorizou sete projetos de pesquisa de ouro na fronteira; medida é inédita na última década




Garimpo avança em áreas preservadas na Amazônia sob aval de General Heleno
Marcos Corrêa/PR
Garimpo avança em áreas preservadas na Amazônia sob aval de General Heleno

O  ministro do Ministro do Gabinete de Segurança Institucional (GSI) da Presidência, general Augusto Heleno, autorizou que o garimpo explore uma região praticamente intocada da Amazônia para exploração de ouro. Atitude do Conselho de Defesa Nacional é inédita na última decada.

O aval para que projetos de exploração e mineração em faixas da fronteira, numa largura de 150 km, é de atribuição do ministro do GSI.

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Em 2021, o general deu o aval para que sete programas de exploração de ouro na região de São Gabriel da Cachoeira (AM) ocorresse - todos encaminhados pela Agência Nacional de Mineração (ANM). A região é cohecida como 'Cabeça do Cachorro' e faz divisa com a Colômbia e a Venezuela.

Lá, encontram-se 23 etnias indígenas. O município é o mais indígena do país, e a região é tida como uma das mais preservadas da Amazônia. Autorizações de exploração de São Gabriel da Cachoeira foram concedidas em 2021 e são as primeiras para empresas e empresários nos últimos dez anos.

Questionada pela Folha de S.Paulo, a ANM não respondeu se o GSI havia autorizado a exploração de ouro na Cabeça do Cachorro anteriormente. Informações públicas indicam que não.

domingo, 5 de dezembro de 2021

Justiça climática e descolonialidade, por Hamid Dabashi

 

É chegada a hora de as antigas potências coloniais do mundo assumirem a responsabilidade pela emergência climática que criaram.


A COP26 foi bem organizada e recebeu atenção significativa da mídia. Mas, como a maioria das cúpulas do clima anteriores, ela não conseguiu nenhum resultado significativo, escreve Dabashi [Ben Stansall / AFP]

do Al Jazeera

Justiça climática e descolonialidade

por Hamid Dabashi

Em novembro deste ano, a cidade portuária escocesa de Glasgow foi a anfitriã de um evento que mais uma vez trouxe a questão urgente das mudanças climáticas ao foco global: a COP26.

As Nações Unidas convidam signatários de sua Convenção-Quadro sobre Mudança do Clima para uma “Conferência das Partes (COP)” todos os anos há quase 30 anos. A cúpula deste ano na Escócia foi a 26ª desse tipo.

A COP26 foi bem organizada e recebeu atenção significativa da mídia. Mas, como a maioria das cúpulas sobre o clima anteriores, não obteve resultados significativos.

“Uma das maiores lutas na cúpula do clima das Nações Unidas em Glasgow”, como o jornal New York Times declarou em um artigo de 12 de novembro, foi “se – e como – as nações mais ricas do mundo, que são desproporcionalmente responsáveis ​​pelo aquecimento global até o momento , deve compensar as nações mais pobres pelos danos causados ​​pelo aumento das temperaturas. ”

Esta questão está no cerne da questão da justiça climática, pois, sem abordá-la, a tarefa urgente de mitigar a mudança climática degenera em nações mais ricas que continuam a poluir a Terra e a destruir o meio ambiente enquanto se reúnem em conferências inúteis para se sentirem melhor sobre si mesmas.

As raízes dessas nações ricas serem “desproporcionalmente responsáveis ​​pelo aquecimento global” são muito mais antigas do que essas 26 conferências. “Os países ricos”, aponta o mesmo relatório do New York Times, “incluindo os Estados Unidos, Canadá, Japão e grande parte da Europa Ocidental, respondem por apenas 12 por cento da população global hoje, mas são responsáveis ​​por 50 por cento de todo o planeta. aquecimento dos gases de efeito estufa liberados de combustíveis fósseis e da indústria nos últimos 170 anos. ”

Cento e setenta anos antes, nos colocam bem na metade do século 19 – o que coloca essas nações ricas no auge de sua pilhagem colonial da terra. Central para a questão da mudança climática é, portanto, a história da conquista e destruição imperial e colonial dos Estados Unidos e da Europa e o atual sistema predatório de capitalismo globalizado ao qual ele deu origem – um sistema que exige que os produtos sejam fabricados em silício Valley, Califórnia, produzido em fábricas exploradoras na Índia ou China usando materiais da África e enviado para lojas em Nova York, Londres, Rio de Janeiro e além.

Sempre que um navio de carga fica preso no Canal de Suez por alguns dias, sentimos o quão difundida e enraizada está essa rede de selvageria planetária que começou com o domínio europeu do globo e continua danificando rapidamente a Terra.

Colonialismo e descolonialidade ambiental

Não é por acaso que as nações ricas responsáveis ​​por metade de todas as emissões históricas de CO2 – Estados Unidos, Alemanha, Reino Unido, França, Itália, Espanha, Bélgica, Holanda e 15 outras – também são as antigas potências coloniais do mundo.

Enquanto os europeus subjugavam impiedosamente os povos de todos os continentes e destruíam de forma imprudente seus conhecimentos locais, filosofias de vida, culturas de coabitação com a terra e habitats naturais, eles estavam totalmente alheios ao fato de que também estavam devastando a terra. A principal consequência da chamada Revolução Industrial europeia não foi apenas a conquista colonial, mas também as calamidades ambientais que testemunhamos hoje. Os europeus chamavam sua selvageria de “modernidade”, o resto de nós chamava de “colonialismo”, mas seu efeito de extensão no planeta em que todos vivemos foi a crise climática contínua.

O que significou o colonialismo europeu? Produção em massa de commodities que enriqueceu as nações europeias e empobreceu suas colônias. Isso exigia mão de obra barata e matéria-prima. Assim, onde quer que tenham ido, os colonizadores não só desmantelaram a soberania das nações que “modernizaram”, mas também esgotaram seus recursos naturais. Enquanto escravizavam pessoas e roubavam seus recursos, os bárbaros colonizadores da Europa também drenaram a Terra de suas riquezas sustentáveis ​​e abriram caminho para catástrofes climáticas.

Enquanto os espanhóis e os portugueses mineravam prata e ouro na América Latina, os franceses, os alemães e os belgas pilhavam os recursos da África e os britânicos faziam seu terrível chá com gloriosas colheitas indianas, suas elites em casa festejavam com essas riquezas roubadas, mas permaneceram totalmente alheios à destruição gradual que sua produção visitou na Terra.

À medida que os minerais eram extraídos e explorados ao redor do globo, e como pastagens, florestas tropicais, bosques, selvas, pântanos e pântanos na Ásia, África e América Latina eram limpos para construir fábricas, pedreiras, plantações, fazendas, ferrovias e rodovias de propriedade de europeus quase ninguém prestou atenção ao terror que estava sendo visitado na Terra. À medida que rios, lagos, mares e oceanos se tornaram o cemitério de resíduos industriais, os europeus consideraram isso não um problema. Enquanto o massacre em massa de animais para suas peles e órgãos deixou as populações indígenas lutando para sobreviver e várias espécies à beira da extinção, os mercadores europeus, aventureiros e industriais se concentraram em suas fortunas crescentes. Em meio a toda essa destruição e selvageria,

Hoje, esses países que historicamente devastaram o planeta para enriquecer seus poderosos ainda estão prejudicando o mundo mais do que qualquer outro. “A Índia como um todo produziu cerca de 7% das emissões mundiais de dióxido de carbono este ano, quase o mesmo que a União Europeia e cerca de metade dos Estados Unidos”, explica o relatório do New York Times. “Mas a Índia tem muito mais habitantes do que ambas as regiões juntas e é muito mais pobre, com centenas de milhões de pessoas sem acesso confiável à eletricidade.”

O que precisa ser feito, portanto, não é reunir todas as nações do mundo em conferências como a COP26 e dar palestras sobre a redução de CO2 – o que não é apenas injusto, mas inútil. Os países ricos – os colonizadores que são os maiores responsáveis ​​por esta calamidade – devem pagar o custo do aquecimento global, reduzir sua produção e consertar a desigualdade de recursos e renda que criaram e que está paralisando o mundo.

Uma revolta nacional, regional ou global dos pobres contra os ricos não é mais o cenário esperado para o nosso futuro. O próprio planeta Terra já é revoltante – mas não em um sentido clichê ou metafísico. E a Terra não está apenas se revoltando contra os ricos, contra pirralhos mimados como Jeff Bezos da Amazon e Elon Musk da Tesla, que começaram a explorar uma vida além deste planeta que todos chamamos de lar. É revoltante contra o resto de nós também – que não temos essas fantasias delirantes. Os ricos e os miseráveis ​​da terra estão sentados sobre uma bomba-relógio – enquanto a ONU entretém seus países membros em conferências inúteis e se recusa a responsabilizar essas potências ricas pelo terror que têm causado à Terra.

Hamid Dabashi é o Professor Hagop Kevorkian de Estudos Iranianos e Literatura Comparada na Universidade de Columbia.

Este texto não expressa necessariamente a opinião do Jornal GGN

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sexta-feira, 3 de dezembro de 2021

quinta-feira, 2 de dezembro de 2021

Mendonça STF: Indicação de Bolsonaro foi confiável? Constituição Federal ou Bíblia?

 


Do Portal do José:

O que se pode esperar de alguém indicado por Bolsonaro para algo? Se Mendonça não for aprovado o que devemos aguardar? Mendonça passa de serviçal de Bolsonaro a "defensor de valores republicanos"? Isso é possível ?

O modelo de escolha de Ministros do STF funciona para que lado? Orações no STF não acontecerão mais? Evangélicos traídos? Flávio Bolsonaro faria indicação melhor? Bolsonaro e o Centrão! Ter caráter é algo que prejudica na política? General Heleno anda meio sumidão. Sigamos!

O "Terrivelmente Evangélico" pró-Bolsonaro André Mendonça chega ao STF. Análise em vídeo de Henry Bugalho

 

Brasil vai deixando cada vez mais de ser laico e se aproxima ainda mais da mais reacionária teocracia de extrema direita com André Mendonça no STF, indicado por Bolsonaro

Do Canal de Henry Bugalho:




Não morra de Bolsonaro! Por Ana Cláudia Laurindo

 

    "O Brasil vive hoje um dos seus piores momentos históricos. Bombardeado por mentiras oficializadas e verdades predatórias, se torna um caldeirão fascista mexido pelas mãos da religião, enquanto a política de morte semeia a perda, a retirada e a negação da vida ao povo brasileiro."


Charge: Carol Andrade

Segue o texto da educadora Ana Cláudia Laurindo publicado no site Repórter Nordeste:

Passam os dias e as inquietações aumentam, pois quem não percebe de pronto está intuindo que a força de atraso segue avançando, arrastando ingênuos, incautos e mal intencionados na mesma bola de lã, configurando um tumulto paradigmático que marcará parte deste século no mundo.

Na América Latina o eco do conservadorismo tem alimentado sistemas ditatoriais com maior ou menor alcance político desde os princípios da colonização, mas sempre houve luta. Nestas lutas muito sangue derramado, relatos históricos de resistência e resiliência cultural que nos permitiram avanços tecnológicos, tempos de estabilidade econômica, até que os golpes voltassem a ser aplicados, ameaçando a identidade e a soberania das nações alvejadas.

O Brasil vive hoje um dos seus piores momentos históricos.

Bombardeado por mentiras oficializadas e verdades predatórias, se torna um caldeirão fascista mexido pelas mãos da religião, enquanto a política de morte semeia a perda, a retirada e a negação da vida ao povo brasileiro.

As instituições já não se importam com as fachadas, tudo está aberto e descampado para ser engolido pelo liberalismo atroz.

Bolsonaro joga a vida da nação na geena ardente, e neste inferno não há quem possa molhar a boca do sedento, porque tudo está travado, menos as negociatas que facilitam a vitória do projeto que o elegeu.

Como levar aos populares eleitores, vítimas da falta de emprego, comida, saúde, educação e moradia, esta visão última que poderia nos salvar em futuro breve?

As bocas dos religiosos continuam abertas em espasmos de glórias ao deus infernal, pregando em nome do Deus traído, acorrentando os adeptos em grossas correntes de ilusão.

Não há religião no Brasil que hoje não esteja dividida.

A sensibilidade está retraída, mas a esperança sempre fez de nós um povo forte.

Este século pede luta, corpo a corpo, intelecto, comunicação.

Apesar dos algoritmos, das redes sociais, dos religiosos caídos, dos burgueses analfabetizados e dessa dor que abre o coração de cada um de nós, este círculo nos envolve e a única maneira de continuar vivendo é saber resistir à névoa e sentir o sol, gritando juntos pela vida!

Não deixe Bolsonaro te matar!

Moro e o Judiciário parcializado tem grande papel na crise institucional de hoje. Por Tatiana Correia

 


Ministros "iluministas" e operação pró-mídia corporativa e interesses externos que extrapolou limites da legalidade contribuíram para ascensão da ultradireita e do bolsonarismo no Brasil


Sergio Moro (Foto: Wilson Dias/Agência Brasil).

Jornal GGN  A candidatura do ex-ministro Sergio Moro à presidência do Brasil e a ascensão da ultradireita no país foram alguns dos temas explorados na TV GGN 20 horas desta quarta-feira (01/12), quando os jornalistas Luis Nassif e Marcelo Auler conversam com o escritor e jornalista César Callejon.

Antes, Nassif divulgou os dados da covid-19 no Brasil. Nassif inicia o programa com uma análise dos dados da covid-19 no Brasil. Nesta quarta-feira, foram registrados 11.413 casos. A média diária semanal chegou a 8.966 casos, queda de 4,1% na média de sete dias e de 8,2% na média de 14 dias.

Quanto aos óbitos, foram registradas 566 mortes. A média diária semanal chegou a 232 vidas perdidas, alta de 9,2% ante sete dias, mas 10,5% a menos do que o visto há 14 dias.

A degringolada moral do Brasil

Nassif chama a atenção para a degringolada moral vivenciada pelo Brasil ao longo dos últimos anos.

“O Bolsonaro rebaixou o nível de julgamento moral lá para o lixo, lá para o esgoto. E, com isso, rebaixou todos os outros atentados à ética pública. Uma coisa impressionante”, diz Nassif

“A imprensa perdeu totalmente a capacidade de denunciar, que é o primeiro filtro que você tem de moralizador”, diz Nassif, ressaltando que isso não acontece com Bolsonaro uma vez que “as milícias não tem essa sensibilidade”.

Um exemplo disso é o que ocorre no Supremo nos países considerados saudáveis, onde um ministro que sai da linha é alvo de crítica e de pressão moral para que volte aos eixos. Isso não ocorre mais no Brasil.

Para contextualizar, Nassif cita como exemplo a chamada voz das ruas. “A voz das ruas é o que de mais selvagem existe em uma sociedade. O que é a voz das ruas: aquela voz não submetida a regras morais, regras legais, regras jurídicas (…)”

“Aquele assassino que habita mentes mais doentias, ele era contido pelas regras morais da sociedade, pelas regras judiciais, pelo papel do Judiciário”, afirma Nassif.

Contudo, Nassif lembra um pedido do ministro Luís Roberto Barroso para ‘ouvir a voz das ruas’, o que foi o ponto de partida para um jogo que se propagou por toda a estrutura do Ministério Público, da Polícia Federal e da mídia.

“Um país é composto pelo povo, por alguns setores organizados, é composto por um lumping empresarial – um pessoal útil para o país, mas que não são pensadores, não pensam conceitos filosóficos, jurídicos, de civilização. Nem os próprios políticos”, lembra Nassif.

“Então, você tem uma elite pequena – que pode vir do meio empresarial também, mas muito pouco -, mas essa elite intelectual que garante a idoneidade moral de um país vem dos tribunais, especialmente da Suprema Corte”.

No caso da Suprema Corte, Nassif lembra que seu poder foi fortalecido após o nazismo justamente para evitar a voz das ruas e, assim evitar que momentos de comoção levassem a linchamentos, e para evitar a politização das ruas de forma a fazer com que maiorias ocasionais liquidassem com o processo político e processo legal.

Contudo, houve um “liberou geral” – “essa semente da maldade está perpassando, é presente na sociedade. Quando tem o liberou geral, você tem a selvageria. Brigas de torcidas organizadas, linchamentos de ruas”, ressalta Nassif.

“E aqui nós tivemos a espinha dorsal da civilização sendo destruída por ministros do Supremo, em nome do que? Do novo Iluminismo”, lembra Nassif.

O despertar não aconteceu

Nassif lembra que, em tempos de guerra, a consciência coletiva costuma despertar após o desastre. Isso ocorreu na Segunda Guerra Mundial, mas não ocorreu no Brasil de Bolsonaro.

“A gente imaginava que depois dos 650 mil mortos (por covid-19) o Brasil tivesse tido a sua guerra mundial. Não teve, e daí vem a candidatura Moro como terceira via para enfrentar a ultradireita do Bolsonaro”

“Ou seja, (a candidatura Moro é) um barco salva-vida para essa ultradireita perniciosa, uma ultradireita que faz parte do Brasil improdutivo, que não produz, que não trabalha, que quebra empresas, acaba com empregos e com uma banalidade do mal expressiva”

Para discutir o tema, Nassif e o jornalista Marcelo Auler conversam com o jornalista e escritor César Callejon.

Voz das ruas dando aval à selvageria

Callejon não só mostra preocupação com a atual situação do país, como cita um exemplo clássico do efeito da voz das ruas – quando uma pessoa filma e aprova um policial militar arrastando uma pessoa algemada à sua moto por uma importante avenida da cidade de São Paulo.

“A ascensão do bolsonarismo mudou essa dinâmica, e mudou o devido processo legal no sentido de banalizar tudo isso de uma forma sem precedentes (…)”, diz Callejon

“Acho que a gente precisa atentar, agora, é que quem pavimentou esse caminho, quem rompeu esse caminho rompendo o devido processo legal, passando por cima de liberdades individuais, de direitos políticos, foi o próprio Sergio Moro e a figura da Lava-Jato”, afirma Callejon.

Para o jornalista e escritor, Moro é o principal risco à democracia brasileira. “A democracia pressupõe uma série de coisas que transcendem em alta medida isso – pressupõe uma imprensa relativamente livre e idônea, pressupõem liberdades individuais, direitos políticos, tudo o que a Lava-Jato atropelou sem dó nem piedade”.

Lava-Jato e os EUA

César Callejon ressalta a interferência norte-americana dentro da operação Lava-Jato – o que o levou a ser alvo de ataques de parlamentares e de jornalistas, que o acusaram de ‘organizar teoria da conspiração’.

“Ora, pesquisem o que disse Kenneth Blanco, que é um procurador norte-americano, (…) Esse senhor se gaba que, em cooperação com a Lava-Jato e com esses membros do MPF e com time Sergio Moro/Dallagnol, eles romperam os processos legais (…)”

“Não me espanta que a gente esteja no meio desse caos que a gente está vivendo atualmente, e que isso represente uma afronta ao processo civilizatório como a gente conhece”, afirma César Callejon.

O pesquisador também aponta Espionage Act e o Sedition Act, que são a lei de espionagem e lei de traição americana.

“Nos EUA, o Moro estaria olhando para uma prisão perpétua ou para pena capital. Ele seria executado (…) Com o apoio americano, ele (Moro) ele é capaz não só de não enfrentar nenhuma consequência mais séria, mas ainda se lança à Presidência da República em 2022. Então, isso te dá conta do estado de coisas que a gente tem de surrealismo (…)”, afirma Callejon.

Confira a íntegra do debate entre Nassif, Auler e Callejon no vídeo abaixo

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terça-feira, 30 de novembro de 2021

O legado indecente e cruel do golpe jurídico-midiático-empresarial-parlamentar com apoio militar de 2016: a volta da fome ao Brasil

 

A volta da fome ao Brasil é o legado mais abjeto, devastador e inaceitável do golpe jurídico-midiático-empresarial dado contra a democracia brasileira em 2016

O legado do Golpe: a indecência da fome de volta ao Brasil, por Eliara Santana

Em 16 de setembro de 2014, a FAO, o órgão das Nações Unidas para a Alimentação, declarou que o Brasil saía finalmente do Mapa da Fome da ONU. E  isso graças às políticas públicas adotadas desde 2003 pelos governos petistas, sobretudo o Bolsa Família e o Programa Fome Zero.  

Em 2021, sete anos depois, os números revelam que o Brasil está miseravelmente voltando para o Mapa da Fome. Uma pesquisa do Sistema de Vigilância Alimentar e Nutricional (SISVAN) do Ministério da Saúde, que foi obtida pela GloboNews por meio da Lei de Acesso à Informação, revelou que até outubro deste ano, apenas 26% das crianças brasileiras de 2 a 9 anos fazem três refeições por dia. Somente uma em cada quatro crianças brasileiras tem condições de fazer três refeições ao longo do dia – café da manhã, almoço e jantar. O SISVAN monitora a situação alimentar e nutricional das famílias atendidas pelo SUS. Pode-se tentar justificar esses números absurdos em função da pandemia. No entanto, o problema é mais grave e  vem se agravando desde o golpe de 2016, como informa a própria reportagem. Vejam o quadro abaixo:

Em 2015, começo do segundo mandato de Dilma Rousseff, 76% das crianças brasileiras faziam pelo menos três refeições por dia. Já em 2016, ano do golpe (Dilma foi afastada da presidência em maio), esse percentual despencou para 42%; volta a subir em 2018, ano eleitoral, e despenca de novo em 2020 e em 2021.

Nutrólogos e pediatras alertam que a falta de alimentação adequada afeta de modo marcante o desenvolvimento infantil, físico e cognitivo. As crianças desnutridas desenvolvem, por exemplo, anemia grave, o que contribui para lesar os neurônios, causando dificuldade no aprendizado. Segundo a nutróloga Virgínia Weffort, ouvida pela reportagem do G1, essa alteração nos neurônios das crianças desnutridas é irreversível, é uma alteração para sempre – o coeficiente intelectual da criança que passou fome e teve anemia nunca será recuperado. Ou seja, essa criança será um adulto, uma adulta, com limitações em sua potência intelectual. Podíamos até entabular, a partir desse dado, uma conversa com os hipócritas defensores da meritocracia. Mas nem cabe diante da gravidade absurda do problema. 

Numa conversa com o médico nutrólogo Enio Cardillo, da UFMG, ele me disse que o fato de o Brasil ter saído do Mapa da Fome da ONU o emocionava profundamente, porque significava a possibilidade de desenvolvimento pleno para as crianças. que teriam acesso a uma alimentação adequada.

Ou seja, hoje, em 2021, o que estamos vendo é a realidade de um país que é um dos maiores produtores de alimentos do mundo e onde crianças até os 5 anos não fazem três refeições por dia, e essas crianças que não têm acesso a uma alimentação adequada nunca serão recuperadas em seu potencial intelectual, cognitivo.

Nas décadas de 1980 e 1990 era comum ver crianças nas ruas, crianças pedindo, crianças muito magrinhas, desnutridas. Nos anos 2000, isso se altera drasticamente, e passamos a ver crianças gordinhas nas escolas e nas creches públicas. Não mais nas ruas, não mais desnutridas. Hoje, a realidade novamente é a daqueles piores momentos de convulsão social.

Em 29 de novembro deste ano, reportagem do Uol mostra que pessoas estão desmaiando nas filas dos postos de saúde da cidade mais rica do país, São Paulo. Desmaiando de fome. Adultos jovens, mulheres grávidas, idosos, adolescentes – a fome no Brasil não escolhe faixa etária. As pessoas estão indo às Unidades Básicas de Saúde pedindo comida pelo amor de deus. Uma médica relatou que atendeu uma jovem mulher, grávida, que tremia e tinha os olhos fundos e a pele seca. A médica perguntou se ela usava drogas, e a moça pediu comida e contou que estava sem comer há dois dias. Grávida, sem comer há dois dias.

É um retrato deprimente, arrasador, inaceitável do país que já foi a sexta economia do mundo. Do pais que é um dos maiores produtores de alimentos do mundo. País que já teve programadas de referência no combate à fome e pela segurança alimentar como o Fome Zero, o Bolsa Família, o Restaurante Popular.

É revoltante que crianças não tenham condições de comer pelo menos três vezes ao dia. É aviltante que mulheres grávidas fiquem dois dias sem comer! É desumano que pessoas desmaiem de fome nas filas dos postos de saúde.

A volta da fome ao Brasil é o legado mais abjeto, devastador e inaceitável do golpe jurídico-midiático-empresarial dado contra a democracia brasileira em 2016, golpe que tirou Dilma Rousseff da presidência da República e que, posteriormente, levou Jair Bolsonaro ao poder. A destruição agora impetrada por Bolsonaro e seu governo demolidor é resultado da mobilização dos patos amarelos, do ódio à política disseminado pela mídia, do ódio a grupos políticos – e da soma de tudo isso surge Jair Bolsonaro, que leva o Brasil de volta ao Mapa da Fome e à fome efetiva de seus cidadãos. Os dados estão aí para mostrar toda a destruição que vem sendo feita desde 2016. Os números são irrefutáveis e escancaram um país adoecido, vilipendiado, um país que tem fome. E esse é o pior dos legados.

Eliara Santana é uma jornalista brasileira e Doutora em Linguística e Língua Portuguesa pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC-MG), com especialização em Análise do Discurso. Ela atualmente desenvolve pesquisa sobre a desinfodemia no Brasil em interlocução com diferentes grupos de pesquisa.

Um grito de clamor por justiça!, por César Locatelli

 

Tribunal popular reavalia a atuação de Bolsonaro e o condena por cinco crimes

Créditos da foto: (Sérgio Lima/Poder 360)

Um grito de clamor por justiça!

por César Locatelli

O Tuca foi palco, na quinta (25/11), do Tribunal do Genocídio. A condenação de Bolsonaro, nos cinco crimes, entre eles o crime de genocídio, foi unânime. O conteúdo das argumentações das(os) participantes do tribunal vem reforçar as conclusões da CPI da Covid.

A ex-Procuradora Geral da República, Débora Duprat, pela promotoria, trouxe, em sua peça acusatória, provas dos crimes de epidemia, charlatanismo, infração de medida sanitária preventiva, crime contra a humanidade e genocídio. Seguem trechos selecionados de sua exposição.

Exército produz cloroquina para “trazer tranquilidade a corações aflitos”

A acusação de crime de charlatanismo é relativa à promoção falsa de medicamento como eficaz para a cura da Covid-19, no que o presidente contou com o apoio do Exército. Diz Débora Duprat:

“O Comando do Exército foi chamado, pelo TCU, a esclarecer por que comprou os insumos – lembrando que o Exército tem laboratório de fabricação de cloroquina porque é um medicamento para malária … – com 167% de ágio, de sobrepreço em relação ao ano anterior. O Comando do Exército responde da seguinte maneira: ‘Era necessário trazer tranquilidade para os corações aflitos’.”

Cenas que precisam ser lembradas

Para demonstrar a infração de medida sanitária, Débora Duprat relembra duas das inúmeras aglomerações promovidas pelo presidente.

“Há dois lugares [de aglomeração promovida por Bolsonaro] que eu gostaria de chamar a atenção. Um em Uberlândia. Ele promove um evento quando o Brasil enfrenta a pior situação da Covid, quando todos os leitos de UTI estão ocupados no país… Ele promove uma aglomeração em Uberlândia sem o uso de máscaras. A outra é uma aglomeração no Rio Grande do Norte em que ele, sem máscara, pega no colo uma criança com máscara, ou seja, os pais tiveram a intenção que aquela criança fosse protegida, e tira a máscara, abaixa a máscara dessa criança.”

‘Um manda, outro obedece’

Embora seja impossível avaliar o número de mortes provocadas pelo atraso no início da vacinação, é certa a enorme letalidade originada pelo atraso no entendimento do governo federal com o Butantã.

“O Butantã começou a oferecer vacinas para o governo em julho de 2020. Disse que tinha capacidade de fornecer 60 milhões de doses da vacina, que seriam entregues até o último semestre de 2020. Renovou essa proposta em agosto de 2020. Até então, nenhuma resposta.

Em outubro de 2020, o Butantã começou a ter uma sinalização positiva do Ministério da Saúde de que sua vacina poderia ser incorporada ao programa nacional de imunização e, também, da ajuda na reforma de uma fábrica para a produção. Diante desse sinal positivo, o Butantã refez sua proposta e afirmou ter condições de oferecer 100 milhões de doses, sendo 45 milhões em dezembro, 15 milhões até o final de janeiro de 2021 e 40 milhões até maio de 2021.

Em 20 de outubro, o presidente do Butantã foi convidado para uma cerimônia no Ministério da Saúde. Na ocasião, Pazuello falou: ‘Essa vai ser a vacina brasileira’, além de prometer a incorporação de 46 milhões de doses ao plano nacional de imunização…

O mundo iniciou a vacinação em 8 de dezembro de 2020, aplicou 4 milhões de doses de vacina até o final de dezembro de 2020. O Butantã tinha disponíveis, para vacinação da população brasileira, 5,5 milhões de doses. Mas, Bolsonaro disse: ‘Não. A vacina chinesa, não. A vacina do Dória, não’. E foi aí que o ministro Pazuello disse: ‘Uma manda, o outro obedece’. E não tivemos vacina, por isso o atraso da vacinação no Brasil.”

O difícil papel da defesa

O advogado Fabio Tofic Simantob, pela defesa, argumentou contra a classificação dos atos de Bolsonaro como genocídio e favorável ao direito de todos à defesa. Segue trecho de sua argumentação:

“Eu venho aqui hoje fazer a defesa da legalidade. Eu não venho aqui fazer apologia do bolsonarismo, e nem poderia até porque eu estava aqui em 2018 naquele magnífico evento que pregava o ‘EleNão’, aqui nesse palco… Não venho fazer apologia do Presidente da República, não venho, muito menos, fazer apologia dos atos nefastos praticados pelo governo Bolsonaro. Não venho aqui, muito menos, negar os fatos e as provas pela digníssima acusação, representada por essa hoje grande advogada Débora Duprat. O que venho a Vossas Excelências é pedir que, dentro da PUC, nós possamos ser uma barreira contra o arbítrio, contra o autoritarismo penal. Que nós sejamos um exemplo de como se deve aplicar a lei penal num estado de direito.”

‘Eles não falam nossa língua. Não tem dinheiro. Não tem cultura’

Ex-Procuradora Geral da República usa sua réplica para compor caso de genocídio contra os povos indígenas:

“Há muita literatura sobre a gênese exatamente desse crime de genocídio, mas há um acordo de que os holocaustos europeus só foram possíveis porque a experiência da máxima violência foi vivida na América, nos chamados grandes descobrimentos. O europeu aqui chegando considerou o indígena um ser inferior, sem cultura, sem história, sem instituições. Por isso o expropriou de todo e qualquer direito, foi confinado, foi obrigado a viver uma vida que não era sua. Foi obrigado a adotar todos os códigos das sociedades envolventes.

E foi na América que se desenvolveu as grandes teorias raciais do século XIX, porque depois da submissão dos indígenas veio a escravidão. Essa noção de supremacia racial vai marcar o estados nacionais. Essa é a gênese da expulsão dos armênios pela Turquia. É a gênese também do holocausto dos judeus. Não é banalizar, longe de mim querer banalizar, mas o genocídio nasce não só com o evento morte, mas com o evento da superioridade, com a noção de que há segmentos superiores que devem comandar os demais…

De fato, genocídio é um crime contra uma etnia, um segmento religioso, um segmento moral, mas ela [a convenção sobre o crime de genocídio] tem um dispositivo que diz o seguinte: ‘submeter intencionalmente o grupo a condições de existência capazes de ocasionar a destruição física total ou parcial. O que quis dizer esse dispositivo? Que o grupo é submetido a condições de tal forma externas à sua própria compreensão que ele deixa de existir como grupo, como povo.”

“Olhem o que Bolsonaro diz sobre os indígenas:

‘Eles não falam nossa língua. Não tem dinheiro. Não tem cultura. São povos nativos. Como eles conseguem ter 13% do território nacional? Como aqui não houve, como nos Estados Unidos, a morte de muitos deles. Não tem terra indígena onde não têm minerais. Ouro, estanho e magnésio estão nessas terras, especialmente na Amazônia, a área mais rica do mundo. Não entro nessa balela de defender terra para o índio. Se depender de mim, não vai ter um centímetro demarcado para reserva indígena ou para quilombola. Em 2019 vamos desmarcar a Raposa Serra do Sol. Vamos dar fuzil e armas a todos os fazendeiros.’

E deu. E deu. O MST sabe com está o campo. As populações indígenas sabem como está o entorno deles… Segundo relatório produzido pelo CIMI [Conselho Indigenista Missionário], em 2020, ano mais severo da pandemia, 201 terras indígenas estavam invadidas, de 145 povos, em 19 estados. Isso é sim cumprir com o requisito que está tanto na convenção quanto no estatuto de ‘submeter intencionalmente o grupo a condições de existência capazes de ocasionar a destruição física total ou parcial’.

Os cinco crimes

Antes de dar a palavra às juradas e aos jurados, a desembargadora aposentada do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo, Kenarik Boujikian, atuando como juíza-presidenta, repassou os crimes indicados pela acusação:

“A doutora Débora apresentou a acusação e indicou cinco crimes. O primeiro é o crime contra a humanidade previsto no Estatuto de Roma do Tribunal Penal internacional. O segundo crime é o crime de genocídio previsto em uma lei brasileira e previsto em documentos internacionais. Depois, ela indicou mais três crimes que estão no nosso código penal: o crime de epidemia, infração de medida sanitária preventiva e charlatanismo. Eu vou passar a palavra para cada um dos jurados para que se manifestem, cada um, sobre a absolvição ou condenação em relação a esses cinco crimes.”

“Cerca de 487 mil vidas poderiam ter sido poupadas”

O médico sanitarista, Arthur Chioro, pelo conselho de sentença, foi o primeiro a se pronunciar:

“Quero expressar, antes de mais nada, meu respeito e a minha solidariedade às mais de 613 mil famílias que perderam seus entes queridos. Gente que poderia e deveria estar hoje ainda vivendo entre nós, se não fosse o conjunto de crimes inacreditáveis, bárbaros, inclusive aqueles que tipificam como crimes contra a humanidade, cometidos pelo senhor Jair Bolsonaro, presidente da República, a quem de cara considero culpado.

Considero Bolsonaro culpado por sustentar e colocar em prática, em conluio com membros civis e militares que compõem o seu governo, empresários, parlamentares e todos aqueles que embarcaram e deram viabilidade à tese, esdrúxula e absolutamente anticientífica, da imunidade de rebanho por exposição massiva da população brasileira ao coronavírus, desconsiderando a gravidade do evento pandêmico, o maior em 100 anos de história, os alertas da Organização Mundial de Saúde e da comunidade científica…

(…)

Considero Jair Bolsonaro culpado por suas medidas, omissões e crimes terem transformado o Brasil, que possui apenas 2,7% da população, no epicentro mundial da pandemia com 12% dos óbitos registrados. Ainda que cerca de 126 mil óbitos brasileiros possam ser considerados inevitáveis a partir da média global, cerca de 487 mil vidas poderiam ter sido poupadas.

(…)

Considero Jair Bolsonaro culpado por não ter incidido sobre a chaga da desigualdade social, que atingiu desigualmente populações vulneráveis. A Covid não é democrática, matou de forma diferente os pretos, os pobres, as pessoas da periferia e todas as populações vulneráveis, em particular os povos indígenas.

(…)

Para que essa tragédia, que é a expressão de uma crime contra a humanidade, para que a necropolítica nunca mais seja modo de governo, para que possamos acreditar no futuro, na vida, na paz, na felicidade e na solidariedade, é que julgo como criminosos e genocidas o presidente Jair Bolsonaro e como seus cúmplices todos os negacionistas, do governo ou da sociedade civil, tanto aqueles que agiram explicitamente quando aqueles que se omitiram frente a tantas atrocidades. Para que essa história não se repita jamais, espero que Jair Bolsonaro seja julgado e condenado. Eu o considero culpado pelo crimes apresentados pela acusação, inclusive pelos crimes contra a humanidade pelos quais é acusado, o julgo culpado, também, por 613 mil vítimas, mas o julgo, pela evidência com os povos indígenas, culpado pelo crime de genocídio.”

Mais de 30% dos cotistas das universidades federais foram obrigados a abandonar suas vagas

O segundo jurado, Frei David Santos, diretor executivo do Educafro Brasil, pelo conselho de sentença, apresenta sua decisão de condenar Bolsonaro:

“Não tenho dúvida: das mais de 613 mil mortes que o Brasil sofreu, mais de 400 mil foram mortes desnecessárias, que seriam evitadas se a presidência da República, que coordena a União, fosse responsável. .. Dessas 400 mil mortes quantos eram afro-brasileiros? Bolsonaro é culpado. Todas as pesquisas mostram que a grande maioria eram afro-brasileiros.

(…)

Por causa da pandemia mais de 30% dos cotistas das universidades federais – política pública que conquistamos com muito suor e lágrimas – mais de 30% foram obrigados a abandonar suas vagas nas universidades. Isso eu não aceito. Alguém tem que pagar por isso.

Os afro-brasileiros da Educafro Brasil, entidade que eu dirijo, mais de 80% perderam suas vagas nas universidades por causa do desemprego e do abandono generalizado desse governo à população afro-brasileira. Quem vai pagar por isso? Tem culpado, sim. Não podemos ser omissos nesta hora de apresentar os culpados.”

O genocídio dos índios: um projeto histórico

O professor de história indígena Edson Kaiapó, pelo conselho de sentença

“Toda essa maldade, toda essa perversidade já apresentada pela acusação e pelos demais colegas do júri, quero ressaltar que o governo federal, para nós indígenas, foi e continua sendo o principal agente do genocídio. Suas irresponsabilidades, as suas omissões provocaram uma situação em que, por exemplo, os principais agentes da transmissão do coronavírus entre os povos indígenas são servidores do governo federal, da saúde e de outras instituições.

Essa mesma omissão do Estado, que tem a ver com fake news, com o negacionismo, com a própria relativização da doença, provocou uma situação de invasão dos territórios indígenas. O próprio governo, por uma voz oficial, de um senhor que era ministro do meio ambiente, senhor Salles, falava então, em plena pandemia, que era necessário fazer a boiada passar, se reportando ao agronegócio, ao latifúndio invadindo os território indígenas. São ações convergentes que agravaram a situação de pandemia entre os povos indígenas.

(…)

É uma série de instrumentos, de artifícios, inclusive jurídicos e políticos e ações de todo tipo que os Estados português e brasileiro têm utilizado ao longo da história, como por exemplo as guerras justas que foram decretadas contra os nossos antepassados por não aceitarem a fé cristã e não aceitarem as ordens da coroa portuguesa, como dizia o Estado português. E ainda lembrando as próprias ações missionárias, especialmente eu quero me reportar nos dias de hoje, em tempos de pandemia, ações missionárias de grupos extremamente conservadores, que não são todos obviamente os missionários conservadores, me reporto aqui, e quero falar isso sem rancor, aos grupos neopentecostais que não respeitam os povos indígenas e que tem sido vetores de extermínio junto aos nossos povos.

Para nós, povos indígenas, está muito evidente, nos casos históricos, e nesse momento novamente se repetindo, o epistemicídio, que Boaventura Sousa Santos apresenta como uma tradição, um conhecimento que vem de fora para exterminar os conhecimentos locais.

Para nós está muito evidente a política do ecocídio, a ação do ecocídio. especialmente nesse momento em que o próprio Estado afirma sobre a necessidade de fazer a boiada passar, enquanto a pandemia acontece, a boiada passar especialmente dentro dos territórios indígenas, ou seja, a instalação do agronegócio.

Está muito evidente a repetição de uma ação de necropolítica, que é o extermínio de grupos de pessoas subalternizadas e fecho o foco para reportar aos povos indígenas. Sobretudo está caracterizado, no meu parecer, um genocídio, que é na verdade um projeto histórico e que nesse momento é retomado com bastante fôlego através da pandemia da Covid-19.”

“Sua vida e sua obra devem ser depositadas no lixo da história”

Membro da coordenação nacional do MST, João Pedro Stedile, pelo conselho de sentença, faz a sustentação de seu voto. Ele agrega outros argumentos para fundamentar sua condenação. Aponta os crimes ambientais: as queimadas, as invasões às terras indígenas, o incentivo e a liberação de mais 400 novos rótulos de agrotóxicos. Denuncia a paralisação da reforma agrária e de todas as políticas de estímulo à produção de alimentos. Culpa o governo por agressões contra a soberania nacional e contra as estatais, pelo desmonte da Petrobras, da Eletrobras e da indústria naval e, também, pelos planos de entregar os Correios, a Caixa e o serviço de processamento de dados. Qualifica de estúpida a liberação do uso de armas e condena a entrega da base de Alcântara, no Maranhão, aos interesses do capital dos Estados Unidos.

E conclui:

“Por tudo isso, colegas do Tribunal, em nome do MST e dos movimentos que compõem a Frente

Brasil Popular, quero aqui pedir a condenação do ‘Capetão’ Jair Bolsonaro e todo seu governo. Proponho que se condene, primeiro, a devolver todos os recursos públicos usurpados no sistema de rachadinha do Rio de Janeiro.

Segunda coordenação: que ele revele quem mandou matar Marielle Vive. Que se condene a que ele revele quem mandou matar o miliciano Adriano Nóbrega, seu colega, lá na Bahia. Que ele revele quem contratou o senhor Abílio para fazer aquele papel do teatrinho da facada em Juiz de Fora. Que ele revele quem pagou os poderosos computadores, instalados na Irlanda e Taiwan para, durante toda a campanha de 18 e até agora, emitirem milhões de mensagens de fake news contra o povo brasileiro, contra a esquerda e contra todos os adversários

Queremos saber quem está pagando por toda essa despesa, porque não é do salário dele, talvez a Faria Lima e Avenida Paulista tenham muitos dos seus pagadores e eles precisam ser responsabilizados por esses crimes que agora resultam em mortes.

Quarta proposta de condenação é que o nome desse sujeito, sua vida e obra devem ser depositadas na lata do lixo da história, fazendo companhia com seus líderes Hitler, Mussolini, Pinochet, Fleury e Coronel Ulstra. Todos eles na mesma lata do lixo. E, por último, eu proponho que se condene a ele devolver o cargo de presidente da república para o povo brasileiro Esse é o meu voto.”

“A gente não é julgado, a gente já é condenado”

Luana Hansen, DJ e Mc e produtora musical, pelo conselho de sentença, inicia sua fala com foco no “privilégio” que Bolsonaro tem de ser julgado, pois a periferia é assassinada sem direito a julgamento:

“Por exemplo, quando uma mãe entra no mercado e rouba um miojo para alimentar a família dela, ela já é tratada como culpada … o presidente não. Ainda tem defesa, ainda é julgado. E as mortes quando acontecem na periferia que a polícia chega e assassina? A gente não é julgado, a gente já é condenado, então o que eu só queria é que ele fosse tratado, principalmente, como culpado que isso ele não foi ainda.

(…)

Eu mesmo não votei nele, mas ele estava lá. Não sei justificar até hoje como ele chegou a ser o presidente desse país. Só que eu consigo ver nitidamente a periferia morrendo e passando fome. Não vou dizer para vocês que a gente não passava fome, só está piorando a situação da gente, porque a fome está em todos os lugares. Se você sair daqui agora, você vai ver que aumentou o índice de pessoas em situação de rua, aumentou muito índice. Isso é culpa de quê? De uma economia fracassada, de um presidente fracassado, de uma política fracassada e de respostas de uma vacina que… demorou para chegar e demorou porque teve, como foi dito aqui, 80 emails negados. É absurdo isso, é absurdo a gente não colocar que o povo … a gente não tem esse acesso e ele teve acesso a poderia ter mudado a vida de muita gente e morte, gente, não volta, quem perdeu não volta.

(…)

Então eu acho que condenar ele é pouco. Ele deveria pagar de uma forma verdadeira pelo que ele está fazendo e perder, de fato, como foi colocado aqui, os cargos e devolver aquilo que ele roubou nosso para o povo, porque ele não é o presidente, ele não merecia estar ali e realmente o lixo ainda é muito para ele, porque lixo pode ser reciclável. No caso do Bolsonaro, nem isso.”

“Vamos amassar igual baratas, eles vão morrer igual baratas”

Sheila de Carvalho, advogada internacional de direitos humanos, pelo conselho de sentença, faz a ligação entre os mais de 300 anos de escravidão, os massacres nas periferias e a ação de Bolsonaro durante a pandemia.

“Não tem como a gente fazer essa discussão, hoje, sobre se é genocídio ou não, sem olhar a história. Sem entender e realmente tentar compreender o impacto de mais de três séculos de escravidão

nas estruturas brasileiras. Entender o quanto a escravidão de pessoas negras ainda é um elemento que estrutura todas as nossas relações enquanto sociedade.

Nós precisamos ver a história para analisar o presente e determinar o futuro. Então eu peço que vocês façam esse exercício, de olhar quem foram as maiores vítimas dessa pandemia. E aí, nós sabemos isso hoje, nós sabemos até aquilo naquele momento: março de 2020. Quantas vezes – não, Frei David? – o movimento negro apontou, no começo da pandemia, de que a gente vai morrer mais? Quantas vezes o movimento indígena não pontuou: a gente vai morrer mais? Quantas vezes, Luana, o movimento periférico não colocou: nós que vamos morrer? Março de 2020.

Não eram só as pessoas nesse palco que sabiam que ia morrer mais. Bolsonaro tinha muita ciência de quem ia morrer. E aí eu trago para essa análise uma fala que ele nos brindou durante a sua campanha eleitoral nas eleições de 2018 e naquele momento tinha acontecido mais uma chacina no Rio de Janeiro, mais uma chacina numa favela do Rio de Janeiro e ele estava numa coletiva de imprensa e ele foi questionado e pelos jornalistas presentes sobre o que ele achava disso, sobre a violência policial nas periferias do Rio de Janeiro. A frase dele foi: ‘Vamos amassar igual baratas, eles vão morrer igual baratas’.

Esse já foi o propósito quando ele entrou no governo. A pandemia foi um mecanismo eficaz para ele efetivar uma política de morte que ele já tinha a intenção de aplicar no nosso país.

(…)

Então, eu venho aqui falar para vocês que sim, vidas negras importam, vidas indígenas importam, vidas quilombolas importam e a gente reforça isso porque por toda a história brasileira nos foi ensinado de que essas vidas não importam. E para a gente garantir que todas as vidas importam mesmo, a gente precisa responsabilizar o crime, a barbárie, a desumanidade que estamos assistindo hoje no Brasil pela pessoa que ocupa o cargo da presidência da república. Para que nunca mais se repita, para que nunca mais aconteça, Que Bolsonaro seja condenado por ser um genocida.”

A criação de baratas em seu cabelo

A professora da Puc-SP, Lucineia Rosa dos Santos, pelo conselho de sentença, entende a atuação de Bolsonaro na pandemia como um continuação do genocídio histórica, porém intensificada.

“Eu quero aqui trazer, e fiz questão de trazer, algumas falas ditas pelo presidente da república. Falas essas que trazem o seu racismo impregnado. Ao dizer, inclusive sendo condenado, ao dizer que os seus filhos foram bem educados e jamais casariam com uma mulher negra. Ao dizer, por exemplo, que os quilombolas nem sequer sabem procriar ou ao mencionar a um apoiador como é que estava ali a criação de baratas em seu cabelo. Isso e tantas outras falas racistas.

(…)

Com todas essas ações, desse governo, desse Presidente da República, a sua posição de racista e vindo uma pandemia, falando de uma imunidade em rebanho, já se sabia quem seriam essas pessoas, se não pobres negros e indígenas. Então, não houve algo não preparado. Sim, porque você sabendo de uma grande desigualdade e onde está essa população de negros, pretos e pardos, sabe-se sim: ‘vamos exterminá-los’. Da mesma forma aos indígenas, que está aí mais do que provado, com todas as ações praticadas em relação também aos indígenas e que sabemos qual é o motivo: para valorizar, para atribuir sabemos que grupos se beneficiam também com o extermínio dos indígenas. Então não há como aqui mencionar um ou outro crime, todos foram efetivamente praticados.

(…)

Eu tive não foi um nem dois membros da minha família mortos. Não foi um não foram dois amigos mortos… meus familiares foram cinco… Eu dizia: ‘puxa faltava tão pouco tempo para vacina’. Muitos deles se cuidando, mas não conseguiram, muitos não conseguiram.”

Um clamor por justiça!

Kenarik Boujikian
, atuando como juíza-presidenta, encerra os trabalhos:

“Eu espero que todos que estão aqui um dia possam, em breve, o quanto mais breve possível, realizar esse julgamento pelas autoridades próprias, pela instância próprias. Que o Tribunal Penal Internacional cumpra o seu papel. Que o Poder Judiciário brasileiro, que o Ministério Público brasileiro façam seu papel e façam o julgamento devido em relação aos crimes que lhe [a Bolsonaro] foram imputados.

Que outras esferas, com crimes de outras categorias, crimes de responsabilidade, também sejam, efetivamente, julgados. Nós temos mais de uma centena de representações referentes ao impeachment e, até hoje, isso não aconteceu.

Este tribunal é um grito de clamor por justiça.”

O Tribunal do Genocídio, organizado pelo Coletivo Professor André Naveiro Russo, junto com docentes, estudantes e funcionários e apoio da Reitoria da PUC-SP, teve como objetivo julgar os atos e as omissões dos responsáveis pelas mais de 600 mil mortes no Brasil, em razão da pandemia de Covid-19. A íntegra está disponível no canal da TvPuc no YouTube.