segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

O Natal do capitalismo contra o Natal de Jesus



Carlos Antonio Fragoso Guimarães

   Então... é mais uma vez época do Natal... E o que de fato comemoramos, hoje em dia, nesta época? Será a lembrança e agradecimento pelo nascimento de uma das mais importantes personalidades da História, que canalizou e influenciou toda uma civilização ou um evento capitalista de compras, futilidades, propaganda e incentivo ao consumismo desenfreado? A estima, a fraternidade a confraternização precisam mesmo ser medidos pelo valor dos presentes? Onde está, hoje, aquele "clima" ou "cheiro de Natal" que os mais velhos sentiam nesta época, onde a alegria estava em reunir a família e falar sobre Jesus e o significado do amor? Abafados foram pela pressão neurótica do consumo, exercida pelo comércio, e pelos problemas urbanos criados pelo próprio capitalismo, hoje mais agudos que há alguns anos.

  Onde fica a representação do nascimento de Jesus, como a criança simples, um inocente excluído pelas demais pessoas, nascida num estábulo e deitada em uma manjedoura? Foi suplantada pela do capitalismo, que pôs o elitista "Papai" Noel no lugar de Cristo para incentivar o consumo... O comércio, a mídia mercantil, os cartões de crédito e os bancos comemoram... os shoppings (os novos templos) comemoram... A "igrejas" eletrônicas midiáticas comemoram (por ser mais um momento de enriquecer seus cofres pelo comércio de uma nova fé calcada em ganhos materiais)... E assim, o "deus" Mercado comemora... E o significado do Natal está se perdendo... E o espírito do Capitalismo (tão incentivado que foi pela ética protestante calvinista e afins) predomina em nossos corações...

  E, então, no dia 26 as árvores e os enfeites do Natal começam a dar lugar para os enfeites do próximo feriado (o Carnaval, também cada vez dominado e descaracterizado pelo capitalismo, cuja prévia é o Reveillon, hoje evento meramente profano, pouco tendo do sentido de uma confraternização universal ligado ainda ao Natal, como antes), e logo não se pensa mais no significado do que ocorreu há dois mil anos. E assim somos levados a ser joguetes dos interesses dos figurões do mercado...

 No fim, veja-se a que fim o comércio - incentivado por muitos fundamentalistas - o "natal" do consumo reverteu os símbolos de gratuidade e amor do Natal de Jesus. O simbolismo do nascimento humilde daquele que revolucionou a ética por uma vida de coerência pelo amor deu lugar a dinâmica materialista representada pela figura fabricada de um velho - deturpação da bonita história de São Nicolau -, que carrega um saco de presentes para os bem nascidos e que, cruelmente, faz pouco dos infortunados, já que tais presente nunca chegarão às crianças pobres.. Figura cruel que se se popularizou vestido de vermelho e branco devido ao marketing da Coca-Cola.

  Como bem reflete Frei Betto:

"Por ser festa de origem cristã, para celebrar o nascimento de Jesus, a sociedade laica e religiosamente plural a descaracteriza pela introdução da figura consumista de Papai Noel. O que deveria ser memória da presença de Deus na história humana, passa a ser mero período de miniférias centrada em muita comilança e troca compulsiva e compulsória de presentes.

"Daí o desconforto que todo Natal nos traz. Como se o nosso inconsciente denunciasse o blefe. Sonegamos a espiritualidade e realçamos o consumismo. Ótimo para o mercado. Mas o será também para as crianças que crescem sem referências espirituais e valores subjetivos, sem ritos de passagem e senso de celebração?

Longe de mim pretender restaurar a religiosidade repressiva do passado. Mas se há algo tão inerente à condição humana, como a manutenção (comer) e a procriação (sexo) da vida, é a espiritualidade. Ela existe há cerca de um milhão de anos, desde que o símio deu o salto para o homo sapiens. As religiões são recentes, surgiram há menos de dez mil anos.

"Se a espiritualidade não é fomentada na linha da interiorização subjetiva e da expressão de conexão com o Transcendente, ela corre o sério risco de, apropriada e redirecionada pelo sistema, cair na idolatria de bens materiais (patrimônio) e de bens simbólicos (prestígio, poder, estética pessoal etc). Talvez isso explique por que a maioria dos shoppings centers tem linhas arquitetônicas similares a catedrais pós-modernas...
Já não são princípios religiosos que norteiam a nossa vida. Desestimulados ao altruísmo e à solidariedade, centramos a existência no próprio umbigo - o que certamente explica, na expressão de Freud, "o mal-estar da civilização", hoje acrescido desse vazio interior que gera tanta angústia, ansiedade e depressão."


  E, assim, os feriados que foram criados para levar a pensar hoje levam a comprar. Regojize-mo-nos! A História, para os que enriqueceram com o sistema, acabou! Não há outros deuses além do capitalismo! E se a fórmula de exploração funciona para o Natal, por que não para outros feriados que, originariamente, nada tinham de comerciais? Então, até a vinda do "Coelhinho da Páscoa"!

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