quinta-feira, 29 de janeiro de 2026

Globo e a arte de destruir reputações

 


A vítima agora é Ailton Aquino, diretor do Banco Central. Funcionário de carreira, negro - uma minoria ainda no serviço público

Do Jornal GGN:



Não se imagine que esses períodos de linchamento, na mídia, visem apenas personagens conhecidos. Quando a carniça é jogada no picadeiro, há uma disputa que não poupa ninguém.

Ailton Aquino é diretor do Banco Central. Funcionário de carreira, negro – uma minoria ainda no serviço público – ascendeu ao cargo de Diretor de Fiscalização sem padrinhos.

Foi fuzilado pelo O Globo, na reportagem “Diretor do BC pediu a presidente do BRB que comprasse carteiras fraudadas do Master

A delação se baseia, obviamente, em perícias realizadas pela Polícia Federal no celular de Paulo Henrique Costa, presidente do BRB. Ele é acusado de ter pedido ao presidente que adquirisse os créditos para ajudar o Master a resolver seus problemas de liquidez.

Segundo a reportagem – de Malu Gaspar – as mensagens de Aquino foram apresentadas aos conselheiros do BRB em reunião do conselho, de 25 de março de 2025. A mesma que aprovou a oferta de compra de 58% das ações do Master por R$ 2 bilhões. E foi utilizada como instrumento de pressão para a aprovação da operação.

Segundo a matéria, “nos meses seguintes, a oferta do BRB seria reduzida a 22% do Master, mas mesmo assim o BC vetou a operação”. Mas como assim. Esse “mesmo assim” foi introduzido em uma frase colocada logo após a denúncias de que o diretor de Fiscalização estava pressionando o BRB a entrar no Master. Significa que “mesmo assim”, o BC não topou. E onde entyra Aquino nisso?

O BC soltou uma nota informando que coube ao próprio Aquino o encaminhamento de denúncias contra o Master ao Ministério Público Federal. Na nota, informa-se que ele abriu mão do seu sigilo bancário e dos registros das conversas que realizou com o ex-Presidente do BRB.

Pouco vai adiantar. Nos próximos meses, será olhado com desconfiança pelos vizinhos, pelos pais dos colegas de seus filhos na escola. Sempre que for a um restaurante, ou a qualquer local público, será apontado como a pessoa que agiu como cúmplice do Master.

Jamil Chade: Trump parece desejar guerra civil para se sustentar no poder

 

Chade alerta que republicano pode usar Lei da Insurreição para conter violência e suspender eleições no país


Do Jornal GGN:

Em um
a entrevista exclusiva ao jornalista Luís Nassif, na noite de terça (27), para o canal TV GGN no Youtube, o correspondente internacional Jamil Chade expressou profunda preocupação com a possibilidade de Donald Trump estar deliberadamente provocando uma guerra civil nos Estados Unidos, não como um “acidente”, mas como uma estratégia para se manter no poder.

Sob Trump, os Estados Unidos vivem um momento de tensão extrema e forte polarização, com eventos de violência política e manifestações nas ruas, e medo crescente entre parte da população de que o país esteja caminhando para uma guerra civil. Chade, que vive em Nova York com a família, avaliou que pode existir método nas decisões de Trump que têm feito esse clima escalar diariamente. Para o jornalista, Trump seria favorecido por uma guerra civil ou, pelo menos, tentaria se aproveitar dela ao lançar mão da Lei da Insurreição para conter violência doméstica e rebeliões.

“Eu tenho muito medo do que está acontecendo porque eu não vejo essa guerra civil como uma ameaça para Donald Trump. Temo que seja uma jogada justamente para esticar a corda a um ponto tão absurdo que só a Lei da Insurreição poderia dar algum tipo de, entre aspas, solução. É a solução que ele quer. Por exemplo, suspender a eleição [de meio mandato] que ele sabe que ele vai perder”, explicou Chade.

Chade ressaltou que a sociedade americana, acostumada a exportar um conceito de democracia forte, mas não possui a “tecnologia de resistência” interna para lidar com essa ameaça trumpista, o que torna a situação ainda mais perigosa. Nassif comparou a situação atual dos EUA ao declínio do Império Romano, com um esgarçamento da moral interna e a aceitação passiva de abusos, culminando em figuras como Trump. “É um momento muito dramático, sem dúvida nenhuma”, confirmou Chade.

Ainda na entrevista, Jamil Chade detalhou a “capoeira” da política externa brasileira para 2026, cujo objetivo primordial é blindar a eleição de 2026 e manter Donald Trump “contido”, evitando qualquer atrito que possa gerar problemas no pleito interno.

AMÉRICA LATINA – Além disso, Chade abordou a preocupação do Brasil com a ampliação da cooperação militar dos EUA com países vizinhos, especialmente a possibilidade de uma base militar americana no Paraguai, um ponto geopoliticamente estratégico. O Itamaraty busca fortalecer relações com esses países para evitar a formação de um “grupo de Lima” contra o Brasil e para que qualquer ofensiva contra o país seja prejudicial aos vizinhos.

EUROPA – A entrevista também abordou a crise existencial da Europa, que está descobrindo que não é imune a ameaças externas, e a fragilidade das instituições globais, como a ONU, que enfrenta cortes orçamentários significativos, impactando programas humanitários e resultando na morte de centenas de milhares de pessoas.

CONSELHO DA PAZ – O Brasil, segundo Chade, adotou uma estratégia “marota” ao propor algo que sabia ser inaceitável, mas que não permitiria que o outro lado acusasse o Brasil de absurdo, como a sugestão de um Conselho da Paz com mandato exclusivo para Gaza e a inclusão dos palestinos.

A entrevista completa foi transmitida ao vivo no canal TV GGN, no Youtube, na noite de terça-feira, 27 de janeiro. Assista ao corte abaixo:




Leia também:

LUIS NASSIF ALERTA: CAMPANHA DA MÍDIA NO CASO MASTER VISA TIRAR PODER DO STF

 

Do Canal da TV GGN:




Do Portal do Jospe: MALANDRAGEM! GLOBO QUER MASTER NO COLO DE LULA! DIREITA DETONA FLAVIO BOZO! ECONOMIA E FALA-BOMBA

 


Do Portal do José:

MUITA AGITAÇÃO HOJE! SEGUE A CAMPANHA CONTRA O STFMALÚGASPAR QUER COLOCAR ESCÂNDALO NO COLO DE LULA! O QUE ESTÁ POR TRÁS DA CAMPANHA CONTRA O STF?




A importância de Karl Marx hoje, por Wesley Sousa

 

A filosofia (e profundidade) de Marx é maior que o estandarte comum de “comunismo”, “luta de classes” e tantos outros jargões que o senso comum propagara


Do Jornal GGN:

    Reprodução


A importância de Marx hoje, por Wesley Sousa

Não é demais afirmar que Marx foi, antes de tudo, um filósofo. Um filósofo que, certamente, é mais comentado do que lido ao longo dos tempos – sobretudo pelos seus “adversários” políticos e teóricos. Com a segmentação das ciências, todavia, cada ramo quer um Marx para chamar de “seu”: o Marx sociólogo, o Marx historiador, o Marx da ciência política e o Marx da economia.

A filosofia de Marx é maior que o estandarte comum de “comunismo”, “luta de classes” e tantos outros jargões que o senso comum propagara ao longo dos tempos. No que é mais central ao pensamento de Marx: a crítica da forma do capital em seu núcleo[2]. A mercadoria é o ponto de partida, a célula do funcionamento do capitalismo; mas, é o capitalismo, a sociedade cujo pressuposto se efetiva através da produção de valor (e o consequente mais-valia), engendrando alienações e estranhamentos específicos de sua base, o conjunto crítico mais profundo –, o que não coloca tais conceitos e temas outros como menores[3].

Em seu pensamento, há um nível profundo de compreensão da natureza da realidade e do Homem (sentido de humanidade). Uma das coisas que mais chama a atenção é como ele trata a autoconstituição humana. A modo como Marx fala da “atividade sensível”, entre subjetividade e objetividade, o entrelaçamento entre a matéria e o espírito; a discussão entre torno do materialismo do século XVIII (Diderot, Voltaire, ou mesmo Bentham[4]). Tudo isso fez de um jovem leitor de filosofia e literatura se interessar por aquilo de modo profundo. Era ali uma elevação filosófica que, vale lembrar, fundamentou uma tradição relevante até nossos dias – mais do que uma formação juvenil.

Marx escreve em “A Ideologia Alemã” algo como “As representações que seus indivíduos elaboram são representações a respeito de sua relação com a natureza, ou sobre suas mútuas relações […]. Os homens são produtores de suas representações, de suas ideias, etc. mas a consciência jamais pode ser outra coisa que o ser consciente, e o ser dos homens é o seu processo de vida real”.

A dinâmica capitalista explodiu a sua própria forma social e se coloca agora em processo ainda mais acelerado e incontrolável. A cultura de massas e as novas mídias parecem “aplainar” a “diferenciação” sistêmica: o que a crítica há mais de meio século denunciava, hoje é festejado como uma reintegração da arte à vida. A midiatização já vale nela mesma como certa emancipação das coerções da realidade capitalista.

Marx em O Capital escreve que “o modo de produção da vida material é que condiciona o processo da vida social, política e espiritual”. Marx não fundamenta a teoria da mais-valia para provar que o proletariado é explorado; ele a descobre no processo de produção da sociedade burguesa, a forma específica de exploração dessa classe particular, o proletariado. Ou seja, ele não rebaixa a ciência à política. O ponto é que o capitalismo, no decorrer de sua história (as categorias que engendram a maneira de expressar um conteúdo social), e como ele veio a ser, se colocou como diferente da maneira em que se expressa pela sua lógica, pelo seu funcionamento interno.

Assim, há quem interprete que sua lógica (do capital) refletiria como se desenvolveu na história, em identidade com seus desdobramentos lógicos, no qual um aspecto começa a ser pressuposto do desenvolvimento do outro, e que historicamente então só poderia ter se dado dessa forma. Caso contrário, a própria lógica do capital pareceria ficar “sem sentido”. Pois, como poderia o capitalismo e sua lógica ter vindo ao mundo e se autonomizado? Essa pergunta era desconcertante. Como o capitalismo funciona de tal forma como “funciona”?

Para Marx, o capital posto em marcha, em seu automovimento, exibe um funcionamento que não explica sua gênese. Suas categorias como resultados históricos viraram pressupostos (pela dependência de uma categoria se desdobrar na outra), então tudo se confunde[5].

“[…] Seria impraticável e falso, portanto, deixar as categorias econômicas sucederem-se umas às outras na sequência em que foram determinantes historicamente. A sua ordem é determinada, ao contrário, pela relação que têm entre si na moderna sociedade burguesa, e que é exatamente o inverso do que aparece como sua ordem natural ou da ordem que corresponde ao desenvolvimento histórico. Não se trata da relação que as relações econômicas assumem historicamente na sucessão de diferentes formas de sociedade. Muito menos de sua ordem “na ideia” ([como em] Proudhon) (uma representação obscura do movimento histórico). Trata-se, ao contrário, de sua estruturação no interior da moderna sociedade burguesa. […]” (Marx, Grundrisse, p. 87)[6]

Como escreveu Marx no terceiro livro do Capital, sobre o reino da necessidade (necessidade eterna de intercâmbio orgânico entre homem e natureza) se emerge o reino da liberdade (campo de escolha entre alternativas postas). O gérmen da sociedade futura brota das contradições insolúveis desta forma atual de sociabilidade. A superação – ou rompimento – não se trata de nenhum modelo a priori e idealizado, mas dos fundamentos da falsa universalidade burguesa.

A crítica de Marx é salutar porque “dá um nó” na forma convencional como pensamos as categorias filosóficas. Há realmente uma dificuldade muito genuína em romper com algumas interpretações possíveis e conseguir apreender a teoria, o abstrato sempre aparece no imediato (como a noção de “trabalho”). Acredito que, no caso, foi um acidente por vias tortas: por exemplo, um tipo “materialismo aleatório” (expressão de Louis Althusser), ou seja, uma apreensão do imediato que foi se complexificando, que eu tinha há muito tempo em mente, advindo daquele ateísmo crítico da religião de outrora (algo que falta hoje, para a crítica de mundo). Isso obviamente facilita perceber o caráter de uma sociedade regida amplamente por abstrações, tal qual seria dos deuses ou Deus; assim, descendo da crítica dos céus à terra, a crítica sem piedade de um mundo sem coração se faz valer, sem dúvidas, a importância de Marx. Em resumo, naquela crítica da religião anterior foi possível desdobrar a compreensão de mundo.

Fazendo uma paráfrase de Hegel: fazer valer as abstrações no mundo real significa destruir a realidade. Portanto, a importância de Marx hoje se justifica, pois o que chamamos de realidade ainda é a configuração destrutiva das categorias do capitalismo.


[1] Doutorando em Filosofia pela UFMG.

[2] Eu especularia que, o sentido de “crítica” (Kritik) em Marx, pode fazer alusão ao conceito de crítica de Kant: a delimitação e a circunscrição de uma ciência racional.

[3] Agradeço pela dica e interpelação do amigo Rodrigo Cruz (USP).

[4] O professor Rogério Picoli (UFSJ) havia, em certa ocasião, mencionado um certo Marx leitor de Bentham.

[5] Devo essa interpretação, entre outras sugestões, ao amigo e estudioso Gabriel Ahmad, pelo diálogo em tornar sucinta a exposição.

[6] Edição da Boitempo (São Paulo, 2011).

terça-feira, 27 de janeiro de 2026

A religião, a plebe e a praga: o estertor político evangélico, por Wesley Sousa

 

    "(...) o fundamento religioso – evangélico – parte do uso instrumentalizado (no contexto da ascensão das Igrejas neopentecostais e afins), como condicionante imediato do fetichismo. Bem como o dinheiro se torna como aparência da forma autônoma e portadora dos predicados do capital (valor, trabalho etc.), na religiosidade então aparece como os predicados de Deus (prosperidade, pátria e família)."


Do Jornal GGN:


A religião, a plebe e a praga: o estertor político evangélico, por Wesley Sousa

A religião não é só algo simbólico, mas uma práxis social objetiva no conjunto cultural da vida.

    Agência Brasil

A explicação do mundo é uma necessidade dos Homens (humanidade) também de explicarem sua vida, encontrarem sentido na sua cotidianidade, ainda que seja feita por “explicações falsas” do mundo que, no entanto, permitem esta ou aquela reprodução. Um exemplo é dado pelo filósofo György Lukács[2], em sua obra póstuma intitulada Para uma ontologia do ser social [Zur Ontologie des gesellschaftlichen Seins]. Segundo ele, para explicar como o geocentrismo servia para a orientação no mar (rotas marítimas etc.), mesmo que não fosse um conhecimento verdadeiro, essa teoria justificava algo da realidade factual dos homens em suas vidas. 

Similarmente, a forma religiosa produz um mecanismo de explicação e de regulação social, exatamente porque aí está imbricado na conduta moral e na ética para o ser que faz dessas leis – religiosas – sua forma de vida. Desta maneira, a religião não é só algo simbólico, mas uma práxis social objetiva no conjunto cultural da vida.

Assim como as teorias e práticas decoloniais buscam um certo resgate ancestral, uma espécie de pátria transcendental, como visão de mundo rumo à certa emancipação dentro da caducidade do mundo liberal, o fundamento religioso – evangélico – parte do uso instrumentalizado (no contexto da ascensão das Igrejas neopentecostais e afins), como condicionante imediato do fetichismo. Bem como o dinheiro se torna como aparência da forma autônoma e portadora dos predicados do capital (valor, trabalho etc.), na religiosidade então aparece como os predicados de Deus (prosperidade, pátria e família).

A crítica, portanto, está em torno daquilo que Marx, em meados da década de 1840, já deixava claro na VII Tese ad Feuerbach: “Feuerbach não vê que o próprio ‘espírito religioso’ é um produto social e que o indivíduo abstrato, em que ele analisa, pertence na realidade a uma forma social determinada”[3]. Assim, Marx aponta que o homem produz a religião, e tal como produto dela, o fundamento de Deus não é quem cria a realidade, mas a realidade religiosa quem cria a representação de Deus.

No texto intitulado O livro de Apocalipse [The Book of Revelation] (originalmente publicado em 1883), Friedrich Engels afirma: “O cristianismo, como todo grande movimento revolucionário, foi feito pelas massas. Surgiu na Palestina, de uma maneira totalmente desconhecida para nós, em um tempo em que novas seitas, novas religiões, novos profetas surgiam aos montes”[4].

Sem adentrar em minúcias, no pequeno ensaio “Contribuições para a história do cristianismo primitivo” [Zur Geschichte des Urchristentums][5], publicado no periódico Die Neue Zeit [O novo tempo] (1894-95), Engels relembra também que o Cristianismo “era originalmente um movimento dos oprimidos, inicialmente parecia ser a religião dos escravos e dos libertos, dos pobres e dos homens sem direitos, dos povos subjugados e dispersos pelo Império Romano”[6].

É interessante aqui essa consideração de Engels. Embora não seja meu objetivo fazer uma análise histórico-filosófica do texto, a menção funciona para compreender como uma religiosidade menor foi transformada em religião oficial de Estado: uma ampliação cultural que nos diz muito para a problemática, em nosso tempo, na atualidade conjuntural brasileira.

De fato, pulverizam os “homens de fé”, junto às figuras políticas carimbadas que instrumentalizam o debate público em “nome de Deus”. Em seus interesses e projetos privados buscam convencer seus seguidores que há um destino e um mandamento que fala em “nome de Cristo” em face da desgraça social que eles mesmos sustentam.

A praga (a começar pela figura do ex-presidente J.B. e seus consortes), ao mesmo tempo em que trabalham como estelionatários da crença alheia, acusa aqueles que não aderem às ideias e movimentos (o verde-amarelismo contra a “ditadura do STF”, em favor da “anistia” para os recentes crimes políticos deles próprios etc.) de pecadores, traidores do evangelho e da igreja, ou mesmo de “comunistas” etc., fazendo a exposição caricatural de parcela significativa da comunidade civil que não partilham de tais práticas.

A plebe, cuja matriz se funda pela miséria espiritual, acaba de rebanho aderindo, por convicção ou ignorância, pela força real e simbólica, aos projetos políticos e “espirituais” de um mundo alienado; este conteúdo é um dos pilares do fenômeno da alienação no capitalismo. Os estertores políticos evangélicos se camuflam e revelam em passeatas, nas manifestações das redes sociais, bem como nas relações familiares e “afetivas” etc.

Nos últimos anos temos visto de modo vertiginoso o crescimento do evangelismo político, principalmente nos centros urbanos. (As mediações histórico-conceituais deixo para uma ocasião mais oportuna[7].) O sintoma político se revela na emergência do capitalismo em crise e de um horizonte social em retração. O imaginário real de grande parte da população é capturado pela doutrina neopentecostal que se fundou em objetivos políticos. A chamada “bancada evangélica”, uma de nossas pragas, ludibriam os interesses comuns, cuja tônica é dita como “opinião pública”. É essa gente quem determina os rumos institucionais de nosso país; essa gente quem delibera sobre corpos, mentes e corações de milhões e milhões de brasileiros todos os dias.

No entanto, vale lembrar que o protestantismo (vertente do catolicismo que se originou os evangélicos) surge da Reforma Protestante. O curioso é que a base do protestantismo tem como fundamento ideológico a ideia de que ninguém é representante oficial de Deus (embora as relações de poder e autoridade se reorganizaram dentro das igrejas reformadas). Seu pastor, líder, bispo etc., não tem autoridade para determinar em quem você deve ou não votar, qual ideário político seguir, e muito menos de definir quem é ou não um cristão; muito menos falar em “nome de Deus” referentes aos assuntos de interesse comum.

Além disso, como Marx apontava no núcleo, o problema é remetido inicialmente em Crítica da Filosofia do Direito de Hegel. Introdução [Zur Kritik der hegelschen Rechtsphilosophie. Einleitung] (1843-44): “O homem é o mundo do homem, o Estado, a sociedade. Esse Estado e essa sociedade produzem a religião, uma consciência invertida do mundo, porque eles são um mundo invertido. A religião é a teoria geral deste mundo, seu compêndio enciclopédico, sua lógica em forma popular, seu point d’honneur espiritualista, seu entusiasmo, sua sanção moral, seu complemento solene, sua base geral de consolação e de justificação”[8].

Não se trata todavia de deslegitimar as crenças alheias, mas de submetê-las ao exame crítico de que a forma política não é isolada do fenômeno religioso (uma forma da consciência invertida). A plebe ergue a bandeira ideológica “em nome de Deus”, ou similar, reabre o assunto que, sem dúvidas, requer uma investida desmistificadora junto às ideias propagadas.

Em suma, diria que não é o ateísmo ou a ciência que irão acabar com a consciência religiosa das pessoas. Porém, é nesse mundo que provém a consciência em que elas vivem, a sua “teoria geral”. Como escreveu Engels, “O cristianismo se apoderou das massas, exatamente como o socialismo moderno, sob a forma de uma variedade de seitas e mais ainda de visões individuais conflitantes – algumas mais claras, outras mais confusas, estas últimas a grande maioria –, mas todas opostas ao sistema dominante para ‘os poderes que existem’”[9]. Noutras palavras, assim como o cristianismo se alastrou na sociedade como consciência real, o socialismo trata-se de superar os males reais da sociedade em que o cristianismo se fundamentou.


[1] Doutorando em Filosofia pela UFMG.

[2] LUKÁCS, György. Para uma ontologia do ser social II. 1° edição. Tradução Nélio Schneider. São Paulo: Boitempo, 2013

[3] MARX, Karl. Thesen über FeuerbachIn:___; ENGELS, Friedrich. Werke(MEGA). Berlim: Dietz, 1958. v. 3, p. 535.

[4] ENGELS, Friedrich. O Livro de Apocalipse. Tradução Lucas Parreira. Revisão Gabriel Perdigão. Notas Lucas Parreira e Gabriel Perdigão. Verinotio, Rio das Ostras-RJ, v. 26, n. 2, p. 299-304, 2020, p. 300.

[5] ENGELS, Friedrich. Contribuições para a história do comunismo primitivo. 1° edição. Prefácio Frei Betto. Expressão Popular/Perseu Abramo, 2023.

[6] ENGELS, 2023, p. 29.

[7] Entre outras recomendações possíveis, menciono aqui o livro de Iafet Leonardi Bricalli. Cf. BRICALLI, Iafet. O espírito neoliberal entre o diabo e o dinheiro: evangélicos, governamentalidades e lutas no Rio de Janeiro.São Paulo: Dialética, 2024.

[8] MARX, K. Introdução. In:__. Crítica da filosofia do direito de HegelTradução de Rubens Enderle

e Leonardo de Deus. 2ª edição. São Paulo, Boitempo, 2010, p. 145, grifos do autor.

[9] ENGELS, Friedrich, 2020, p. 300.

Trump enquanto farsa, violência, imperialismo e canastrice política em artigo de Wilson Ferreira

 

A performance de Donald Trump subverte a diplomacia tradicional para instaurar a era da "canastrice política".


Do CinegnoseJornal GGN:



Trump e o fenômeno do “Loop de Feedback da Hiper-realidade”


por Wilson Roberto Vieira Ferreira


Donald Trump em Davos: presidente ou comediante de stand-up? O comportamento bizarro do líder norte-americano diante dos aliados europeus levanta uma questão central para a comunicação moderna: quem imita quem? Da paródia no programa Saturday Night Live ao “mimetismo reverso”, exploramos como a política contemporânea se tornou um reflexo circular de simulacros, onde a verossimilhança é ditada pela ficção e o poder é exercido através de um estranho, porém eficaz, efeito de realidade. A performance de Donald Trump subverte a diplomacia tradicional para instaurar a era da “canastrice política”. Entre o mimetismo reverso das paródias do SNL e a construção ficcional de líderes como Zelensky, o que vemos não é mais a política dos fatos, mas o triunfo do simulacro. Neste texto, analisamos como o stand-up de Trump fecha o “Loop de Feedback da Hiper-realidade”, onde a autenticidade não reside na verdade factual, mas na fidelidade absoluta do líder à sua própria caricatura.

“Fila de uma hora e meia para entrar no auditório… parecia dia de jogo no Maracanã”. Assim a correspondente internacional da Globo News, Bianca Rothier, descreveu as horas que antecederam a palestra de Donald Trump em que o presidente dos EUA falaria à elite global no Fórum Econômico Mundial realizado anualmente em Davos, Suíça.

Como fosse a entrada de um show.

E o que se viu foi um profundo desprezo irônico de Trump com os aliados europeus: zombou de Macron e seus óculos escuros “Eu o vi ontem, com aqueles lindos óculos de sol. Que diabos aconteceu?”, chamou da Groelândia de “pedaço de gelo” e diversas vezes a confundiu com a Islândia; referiu-se à presidenta da Suíça como “uma senhora que me ligou para pedir para não tarifar um país tão pequeno como a Suíça”; reclamou dos EUA terem gastos bilhões de dólares na Ucrânia etc.

E preferiu muito mais falar dos “billions and trillions” de uma suposta reindustrialização do país (“o mundo está produzindo seus produtos nos EUA”), consertando “os fracassos das administrações anteriores”, do que sobre “ordem global” ou coisa que o valha. Tudo embalado com uma retórica exageradamente adjetivada e irônica.

Diante do nível de beligerância e belicosidade com o qual Trump vem se mostrando aos seus próprios aliados e ao resto do planeta nos últimos meses, no mínimo o que esse humilde blogueiro esperava reações da plateia parecidas com o que ocorreu com Netanyahu na plenária da ONU: pessoas em fila se retirando, burburinhos de reprovação etc.

Mas o que se viu foi o contrário: aqui e ali algumas risadas e o silêncio – ou de cemitério, ou de consentimento.

A impressão geral é que diferente dos chefes de Estado tradicionais que usam teleprompters e discursos estruturados, o que assistimos foi uma espécie de show de stand-up comedy com suas características principais:

(a) Crowd work: Trump interage com a plateia, está atento ao feed-back não verbal da audiência e testa “piadas” ou apelidos (como, por exemplo, Crooked HillarySleepy Joe) para ver qual gera mais risada.

(b) Timing e Pausas: Ele utiliza o silêncio e as expressões faciais de uma forma que lembra os mestres da comédia americana como Don Rickles (o “mercador de veneno”) ou Rodney Dangerfield (piadas depreciativas em alto ritmo).

(c) O “Bit” recorrente: Ele tem histórias que repete em quase todos os “shows”, como se fossem um “repertório” esperado pelos fãs.

(d) Roll Over: Um certo senso de “esportividade” (relaxamento mesclado com performance) e jogo. Tal como no stand-up comedy, o ritmo vocal de Trump sugere a existência de uma batida rítmica imaginária. Trump é verborrágico, mas com um estranho ritmo hipnótico, roll over.

Reprodução

Demência e verossimilhança

Para além do deleite particular desse humilde blogueiro, como alguém que pesquisa as conexões entre Comunicação, Política e Semiótica (vamos combinar! Com Trump as reuniões de cúpula globais deixaram de ser previsíveis e entediantes para ficarem mais divertidas…), há algo de incômodo em tudo isso: como a elite econômica global, a comunidade política internacional, jornalistas e demais profissionais de mídia naturalizam a bizarra situação em que o líder do Império faz um show de stand-up comedy ao vivo?

Como, para todos, Donald Trump é um personagem verossímil (excêntrico, vá lá, mas chefe de Estado da maior potência militar do planeta), cujos discursos devem ser interpretados, compreendidos, para ser descoberta suas verdadeiras intenções? Como se os seus discursos contivessem alguma ontologia, isto é, pudessem ser dissecados por alguma hermenêutica, para encontrar alguma verdade oculta por trás das camadas de retórica.

Será que aquela plateia no auditório em Davos ficou “pianinho” por temerem estar diante de um Nero incendiário sentado sobre o maior arsenal militar do planeta?

Será que todos estão pensando “louco não pode contrariar… então, deixa ele falar”?

Embora a grande mídia Ocidental esteja buscando alguma evidência clínica de demência no mandatário – chegou-se até a noticiar uma recorrente “mão roxa” com a presença de hematoma na mão do presidente, além da ingestão de aspirina em doses muito maiores do que a recomendado pelos médicos – clique aqui.

Esse Cinegnose prefere ir por um outro caminho: na verdade, apenas o medo de que um demente esteja com o dedo do lado do botão que pode mandar o planeta para os ares não explica.

Isso dá no que pensar: as duas personalidades que mais catalizaram a atenção de microfones e objetivas das câmeras no Fórum Econômico de Davos são personagens NÃO oriundos das contendas do campo político ou geopolítico – Trump, cuja imagem do “magnata bilionário de Nova York” foi diligentemente construída através de tabloides, fazendo pontas em cenas de filmes, aparições em programas de TV e, fundamentalmente, pela sua atuação como apresentador de reality show. Transformou sua merca pessoal em um ativo midiático.

E Zelensky, um comediante que alcançou a notoriedade numa série ucraniana Netflix de baixo orçamento, replicou a ficção tornando-se presidente e contou com todo o investimento semiótico da Mídia OTAN para transformá-lo num líder político e herói geopolítico.

Loop de Feedback da Hiper-realidade

Isso quer dizer que principalmente Donald Trump é uma resultante de um fenômeno media life (Apud Mark Deuze) que muitos teóricos da comunicação e sociólogos chamam de “Loop de Feedback da Hiper-realidade”.

A fronteira entre o político e o performer não apenas se tornou tênue; ela se tornou circular. O paradoxo de quem imita quem (será que os comediantes do “Saturday Night Live”, como Alec Baldwin ou James Austin Johnson, parodiam Trump ou Trump parodia suas próprias parodias?) sugere que não estamos mais lidando com uma “realidade” que é parodiada, mas com uma paródia que dita o ritmo da realidade.

Chamamos esse fenômeno de “canastrice política”: esse estranho efeito de verossimilhança circular que cada vez mais substitui o poder persuasivo da retórica política clássica. Um século de cultura visual e do espetáculo fizeram a nossa percepção da realidade ficar invertida. Tomamos o real não a partir dele mesmo, mas tomando como referencia imagens anteriormente feitas do próprio real.

O efeito estranho ocorre porque:

(a) Mimetismo Reverso: Muitas vezes, Trump parece adotar os maneirismos que os comediantes exageraram. Se o SNL o retrata como alguém que se perde em tangentes absurdas, ele passa a abraçar essas tangentes de forma ainda mais performática.

(b) Verossimilhança Midiática: Para o público que consome política via redes sociais, o Trump “real” parece mais verdadeiro quando ele age como o “Trump da TV”. A “verdade” do personagem não está na precisão dos fatos, mas na coerência com a sua própria caricatura.

Mas há uma diferença fundamental entre Trump e Zelensky, muito embora o mecanismo do Loop de Feedback da Hiper-realidade seja idêntico.

Zelensky interpretou um presidente na série Servo do Povo. O público votou no personagem Vasyl Holoborodko tanto quanto no homem Volodymyr Zelensky. A ficção serviu de “ensaio” para a realidade. A Ficção se torna realidade.

Enquanto em Trump temos o inverso: o fato que se torna ficçãoEle veio do reality “O Aprendiz”, onde interpretava a “ideia” de um bilionário de sucesso. Ao chegar à presidência, ele não abandonou o papel; ele transformou a Casa Branca no set da segunda temporada…

Tanto que em suas postagens nas redes sociais tornou-se uma assinatura formal do presidente a expressão “Obrigado pela sua atenção a este assunto” (ou “TYFYATTM”) como se não fosse um comunicado de cunho presidencial, mas um mero informe comercial para usuários de algum serviço comercial ou corporativo.

O que chamamos de “estranho efeito de realidade” é o que o filósofo Jean Baudrillard certa vez definiu como Hiper-realidade: o momento em que o simulacro (a cópia) é mais real para as pessoas do que o próprio objeto original.

Trump é considerado “autêntico” por seus seguidores não porque ele diz a verdade factual, mas porque ele é fiel ao personagem midiático que ele e seus parodistas criaram. Ele é “verdadeiro” por ser uma performance perfeita de si mesmo.

Wilson Ferreira

Wilson Roberto Vieira Ferreira – Mestre em Comunição Contemporânea (Análises em Imagem e Som) pela Universidade Anhembi Morumbi.Doutorando em Meios e Processos Audiovisuais na ECA/USP. Jornalista e professor na Universidade Anhembi Morumbi nas áreas de Estudos da Semiótica e Comunicação Visual. Pesquisador e escritor, autor de verbetes no “Dicionário de Comunicação” pela editora Paulus, e dos livros “O Caos Semiótico” e “Cinegnose” pela Editora Livrus.