segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

A Folha de São Paulo mostra sua tendenciosidade no embuste publicado chamando o trabalhador brasileiro preguiçoso. Luís Nassif discute o caso em arigo do GGN

 


As pesquisas de força de trabalho medem horas trabalhadas na semana anterior, sem incluir deslocamento, que é um tempo dedicado ao trabalho.


Do Jornal GGN:

A Folha e o embuste do trabalhador brasileiro preguiçoso, por Luís Nassif



    Foto de José Cruz - Agência Brasil

Uma das maiores manipulações econométricas brasileiras é praticada nas estatísticas sobre o mercado de trabalho. Passei a década de 90 ajudando a desmistificar essas jogadas.

Quando veio a abertura da economia, nos anos 90, o bordão preferencial dos economistas do trabalho era comparar o tempo de estudo do brasileiro com o do norte-americano e do japonês. E tirar a conclusão definitiva: o trabalhador brasileiro é ineficiente.

Não era isso o que me diziam os executivos estrangeiros com quem eu conversava. Perguntei ao presidente da Samsung, recém instalada em Manaus, sobre a maior surpresa com o país. E ele: a qualidade do trabalhador brasileiro. Fiz a mesma pergunta para o executivo da Nokia. Mesma resposta.

Indaguei do diretor de recursos humanos da Mercedes, o impacto da diferença de estudos em relação ao trabalhador alemão. E ele me contou que mudou uma área da Mercedes, de mecânica para digital. Depois de um mês de curso, os metalúrgicos, “nordestinos com curso primário” estavam mais habilidosos que seus colegas alemães.

A troca dos nove foi com Carlos Salles, presidente da Xerox brasileira, nos tempos em que a Xerox era símbolo mundial de inovação. Ele me disse de um concurso anual de qualidade, entre todas as Xerox do mundo. Havia cinco prêmios. Indaguei qual foi a premiação brasileira. 6 prêmios me disse. Mas não são 5 prêmios? O 6º era pelo fato de, pelo segundo ano seguido, a Xerox brasileira ter vencido os 5 outros prêmios. Perguntei se era uma característica da Xerox brasileira. E ele: de toda multinacional instalada no país.
Qual a razão? O “jeitinho” brasileiro, a capacidade de encontrar soluções no dia-a-dia, a facilidade em se adaptar a toda sorte de método de trabalho.

Quando o inominável José Pastore – o mais preconceituoso dos especialistas em economia do trabalho – dá o exemplo dos bares para mostrar a baixa produtividade do trabalhador brasileiro, não entende que maior ou menor produtividade depende do modelo de trabalho implantado, desde o bar até a grande empresa.

Hoje em dia, na maioria dos bares vê-se garçons de todas as idades manobrando com toda familiaridade celulares para anotar os pedidos e fechar as contas.

Os embustes estatísticos

Mesmo assim, os embustes estatísticos continuam frequentes.

Algumas décadas atrás, um pesquisador do IPEA (Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas) constatou que 55% dos lares brasileiro tinha ou um aposentado ou um pensionista como arrimo de família. E, nesses lares, era maior o tempo de escolaridade das crianças, menores os gastos com saúde, maior a blindagem contra a cooptação pelo crime organizado. Enfim, uma defesa fantástica dos efeitos do aumento do salário mínimo na Previdência.

O mercado entrou em pânico e contratou José Márcio Camargo para comprovar que o aumento do SM na Previdência aumentava a propensão dos jovens à “vagabundagem”, Para dar credibilidade do trabalho, Camargo trouxe como parceiro um pesquisador do IPEA. E só conseguiu emplacar a tese da “vagabundagem” no final, como uma hipótese, mas sem comprovação do estudo.

Mas a aventura mais extravagante foi do economista Cláudio Haddad. Ele estimou o custo do salário de um executivo. Depois, o atraso que os donos de carrocinhas provocam no trânsito. E cruzou o salário hora dos executivos com a perda de tempo por conta desses exploradores de executivos, as carrocinhas. A partir daí gerou um índice de desperdício e a bandeira para serem proibidas as carrocinhas, de pessoas que recolhem objetos pela cidade, para sobreviver.

O brasileiro que trabalha pouco

Faço essa introdução para comentar a inacreditável manchete da Folha de hoje, claramente alinhada com a ofensiva conservadora para impedir a escala 5 x 2 . 

O trabalho é do economista Daniel Duque, pesquisador do FGV Ibre, a partir de um novo banco de dados global de horas trabalhadas organizado pelos economistas Amory Gethin, do Banco Mundial, e Emmanuel Saez, da Universidade da Califórnia em Berkeley (EUA).

Vamos a algumas características desse estudo: as pesquisas de força de trabalho medem horas trabalhadas na semana anterior, normalmente perguntando “quantas horas você trabalhou?”, não “quanto tempo você dedicou ao trabalho incluindo deslocamento”.
Ou seja, se um trabalhador trabalha 44 horas por semana, gasta 10 horas semanais no trajeto (ida e volta), o estudo registrará 44 horas, não 54.

Vamos incluir o tempo no trânsito com base nos dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, Censo de 2022, Eurostat e United States Census Bureau.

A média aproximada diária de tempo no trânsito:

Brasil: 64 minutos.

União Europeia: 50 minutos

Estados Unidos: 53 minutos

Como no Brasil a semana é de 6 dias e na União Europeia e EUA é de 5 dias, a conta semanal, de tempo gasto no trânsito, fica assim:

Brasil: 384 minutos, ou 6,4 horas semanais.

União Europeia: 250 minutos, ou 4,2 horas semanais

Estados Unidos: 265 minutos ou 4,4 horas semanais.

Agora vamos acrescentar essas horas nas estatísticas apresentadas.

Média mundial: 42,7 horas

Media brasileira: 40,1 horas, ou 6% a menos.

Incluindo tempo de transporte:

Média mundial: 47,1

Média brasileira: 46,9

MedidaBrasilUnião EuropeiaEUA
Dias da semanadias655
Transporte/diaminutos dia645053
minutos semana384250265
horas semana6,44,24,4
Horas trabalhadas40,142,742,7
Diferença0,00%6,48%6,48%
Horas trabalhadasMais translado46,546,947,1
Diferença0,00%0,79%1,33%

O economista Daniel Duque é definitivo:

“Sob qualquer desses critérios, o brasileiro trabalha menos do que seria esperado. Para Duque, o que provavelmente explica o desvio brasileiro é uma questão cultural, uma preferência por maior quantidade de lazer”.

“Sob qualquer critério”! Peguei o mais básico dos critérios, o critério óbvio, de incluir o tempo gasto no transporte, e a média brasileira se iguala estatisticamente à internacional

Aí, o economista conclui que o brasileiro trabalha menos por “uma preferência por lazer”. E, magnânimo, concede que “não é necessariamente ruim”.

No final dos anos 40, um grupo de funcionários públicos sérios, trabalhando as ideias originais do conceito de previdência – e liderados pelo professor Luiz Palmério – defendia a semana de 5 dias e, mais que isso, a possibilidade do trabalhador escolher os dias de folga.

A ideia era que o comércio ficava aberto só durante a semana. Assim, as folgas em finais de semana não permitiam ao trabalhador o acesso aos bens de cultura, de lazer e de consumo.

Entre dr. Palmério e Daniel Duque não há apenas 75 anos: são 300 anos, período que separa a Idade Média do Iluminismo.

LEIA TAMBÉM:


Nenhum comentário:

Postar um comentário

Olá... Aqui há um espaço para seus comentários, se assim o desejar. Postagens com agressões gratuitas ou infundados ataques não serão mais aceitas.