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domingo, 28 de julho de 2019

Saiu no The New York Times: destruição da floresta Amazônica acelera no "governo" Bolsonaro



Jornal norte-americano destaca viés autoritário do governo e lembra de recente frase dita por Onyx Lorenzoni para jornalistas: “Aqui está uma pequena mensagem: não brinque com a gente

Do Jornal GGN:



Jornal GGN – Neste domingo (28), o New York Time publicou uma matéria sobre a relação entre o aumento da destruição da floresta Amazônica com o governo Jair Bolsonaro, por conta da redução dos esforços da gestão “para combater a extração ilegal de madeira, pecuária e mineração”.
“Proteger a Amazônia esteve no centro da política ambiental do Brasil nas últimas duas décadas. Em um ponto, o sucesso do Brasil em desacelerar a taxa de desmatamento fez dele um exemplo internacional de conservação e do esforço para combater a mudança climática”, escrevem Letícia Casado e Ernesto Londoño, que assinam a matéria.
“Mas com a eleição do presidente Jair Bolsonaro, um populista que foi multado por violar as regulamentações ambientais, o Brasil mudou substancialmente de rota, recuando dos esforços que fez para desacelerar o aquecimento global ao preservar a maior floresta tropical do mundo”, completam.
Os jornalista pontuam que, durante a campanha eleitoral, no ano passado, Bolsonaro declarou que as vastas terras protegidas do Brasil eram um obstáculo ao crescimento econômico, prometendo que iria abrir a região à exploração comercial.
Sete meses após assumir o Planalto, é isso que vem acontecendo. A Amazônia brasileira perdeu mais de 1.330 milhões de quilômetros quadrados de cobertura florestal, desde que Bolsonaro assumiu o poder. Um aumento de 39% em relação ao mesmo período do ano passado, de acordo com dados oficiais.
Somente em junho, durante a estação mais fria e seca, que facilita o corte de árvores, a taxa de desmatamento aumentou drasticamente em 80% em relação a junho de 2018.
“O desmatamento da Amazônia está aumentando à medida que o governo de Bolsonaro recua com medidas de fiscalização, como multas, advertências e apreensão ou destruição de equipamentos ilegais em áreas protegidas”, diz a reportagem.
Um levantamento com base nos registros públicos do próprio New York Times revela que as ações de fiscalização do governo brasileiro caíram em 20% nos seis primeiros meses de 2019, em comparação ao mesmo período de 2018.
A reportagem destaca que as duas tendências – o aumento do desmatamento e a crescente relutância do governo em enfrentar atividades ilegais – são preocupantes para pesquisadores, ambientalistas e ex-autoridades. Eles alegam que o mandato de Bolsonaro pode levar a perdas impressionantes de um dos recursos mais importantes do mundo.
“Estamos enfrentando o risco de desmatamento descontrolado na Amazônia”, escreveram oito ex-ministros do Meio Ambiente do Brasil em uma carta conjunta em maio, argumentando que o país precisava reforçar as medidas de proteção ambiental, e não enfraquecê-las.
Bolsonaro, por outro lado, rejeitou os dados mais recentes sobre desmatamento, chamando os dados que são do próprio governo – do INPE (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) – de mentirosos. A declaração, tida como infundada por especialistas, aconteceu durante uma reunião com jornalistas estrangeiros, quando o presidente chamou a preocupação com o desmatamento na Amazônia de “psicose ambiental”. “A Amazônia é nossa, não sua”, prosseguiu Bolsonaro a um jornalista europeu.
“A posição do governo Bolsonaro tem atraído fortes críticas dos líderes europeus, injetando uma irritação a um acordo comercial fechado no mês passado entre a União Europeia e um bloco de quatro países sul-americanos, incluindo o Brasil”, reforça a matéria do NYT se referindo ao Mercosul.
O artigo lembra que, durante uma recente visita, à cidade de São Paulo, o ministro de Cooperação Econômica e Desenvolvimento da Alemanha, Gerd Müller, disse que proteger a Amazônia é um imperativo global, especialmente considerando o papel vital da floresta tropical na absorção e armazenamento de dióxido de carbono. Fenômeno contrário acontece quando as árvores são cortadas e queimadas, liberando mais ainda dióxido de carbono para a atmosfera, o que acelera o aquecimento global.
“A Alemanha e a Noruega ajudam a financiar um fundo de conservação de US $ 1,3 bilhão para a Amazônia, mas o governo Bolsonaro questionou sua eficácia, levantando a possibilidade de que o esforço possa ser suspenso”, escreve o NYT.
Clareira aberta na floresta pelos madeireiros, usada para manobrar os caminhões e carregar as toras. Reserva Extrativista Riozinho do Anfrísio (RESEX), Altamira, Pará | Foto: Lilo Clareto
O jornal norte-americano lembra que ainda durante a campanha eleitoral, Bolsonaro prometeu acabar com o Ministério do Meio Ambiente, mas não cumpriu essa promessa por pressão do próprio agronegócio, que temia que a medida gerasse um boicote internacional contra os produtos brasileiros.
A matéria aponta também que, pouco depois de assumir o governo, Bolsonaro tirou o Brasil do compromisso de sediar os eventos da cúpula global sobre mudanças climáticas. E, em seguida, cortou em 24% o orçamento oficial do Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis).
A reportagem lembra que Bolsonaro acusou os órgãos ambientais de fiscalização de funcionarem como “indústrias da multa” que precisam ser fechados, prometendo que, em seu governo, eles teriam a autoridade enfraquecida.
Com essas medidas, Bolsonaro se tornou alvo de críticas internacionais, todas rejeitadas por ele, “argumentando que os pedidos para preservar grandes partes do Brasil fazem parte de um plano global para impedir o desenvolvimento de seu país”.
Seguindo a mesma trajetória, neste mês, em julho, Bolsonaro acusou os líderes europeus de pressionar o Brasil por uma conservação mais forte da Amazônia, porque eles esperam desenvolvê-la no futuro. “O Brasil é como uma virgem que todo pervertido do lado de fora quer”, disse Bolsonaro.
“O Brasil já havia tentado se apresentar como um líder na proteção da Amazônia e no combate ao aquecimento global. Entre 2004 e 2012, o país criou novas áreas de conservação, aumentou o monitoramento e retirou créditos governamentais de produtores rurais que foram apanhados arrasando áreas protegidas. Isso trouxe o desmatamento ao nível mais baixo desde que os registros sobre desmatamento começaram”, pontua o NYT.
A partir de 2014, o Brasil entrou em um período de recessão tornando-o mais dependente das commodities agrícolas, especialmente dos setores de carne bovina e soja, os grandes causadores do desmatamento e de poderosos do lobbies políticos. A partir de então, os níveis de desmatamento no país voltaram a subir.
A reportagem lembra que os setores ambientais de fiscalização atacados por Bolsonaro já autuaram o político, antes de assumir a presidência.
“Em 25 de janeiro de 2012, agentes ambientais interceptaram um pequeno barco de pesca em uma reserva ecológica no estado do Rio de Janeiro que o Sr. Bolsonaro, então deputado federal, estava a bordo. Ele discutiu com os agentes por cerca de uma hora e ignorou suas exigências de que ele fosse embora, disse José Augusto Morelli, o agente responsável pela equipe”.
O jornal norte-americano ressalta que Bolsonaro nunca pagou pela multa. “No final de março, Morelli foi rebaixado do cargo, decisão que ele considera uma forma de retaliação à multa de 2012”.
A recusa de Bolsonaro em pagar a multa é comum. Quase 5% das multas ambientais no Brasil são contestadas na justiça, um processo que muitas vezes se arrasta por vários anos.
Agora, o ministro do Meio Ambiente de Bolsonaro, Ricardo Salles, quer criar um mecanismo que daria ao governo o poder de reduzir ou suspender penalidades ambientais.
O NYT diz que Salles não aceitou a vários pedidos de entrevista, entretanto respondeu algumas perguntas que foram enviadas. Em uma delas, reconheceu as deficiências das agências de fiscalização ambiental encarregadas de policiar a atividade comercial em áreas protegidas. “Mas argumentou que o sistema havia sido esvaziado pelos governos anteriores”, diz a reportagem.
“Quanto ao meio ambiente, Salles disse que o governo está priorizando problemas urbanos, como a modernização dos sistemas de gerenciamento de esgoto e tratamento de esgoto, que ele disse estarem em um estado ‘vergonhoso’”.
O NYT também conseguiu resposta do ministro-chefe da Casa Civil, Onyx Lorenzoni, que chamou a preocupação ambiental “de tentativas do exterior para moldar a política ambiental do Brasil”.
“Não somos ingênuos. Existe uma visão no mundo, patrocinada por organizações não-governamentais, que relativiza a soberania do Brasil sobre a Amazônia”, disse.
O NYT lembra que, em uma recente reunião com jornalistas, o mesmo ministro disse: “Aqui está uma pequena mensagem: não brinque com a gente”.

Clique aqui para acessar a matéria do NYT na íntegra. 

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domingo, 3 de fevereiro de 2019

Xadrez do eixo Bolsonaro-Lava Jato, por Luis Nassif




  "Com sua atitude, o PSDB fortalece a mistura de fundamentalismo religioso com milícias, que caracteriza o governo Bolsonaro, abre caminho para o populismo de direita, e para o mais desbragado fundamentalismo religioso, conforme o Twitter do pecador convertido Onix Lorenzoni."


Do Jornal GGN:




A derrota de Renan Calheiros nas eleições para a presidência do Senado é mais um passo na
escalada da violência e na desestabilização do que resta de democracia no país.
 
Peça 1 – os paradigmas da transparência e da fisiologia
 
A eleição do inacreditável Davi Alcolumbre (DEM-AP) para presidente do Senado, expôs duas
hipocrisias que, por força das redes sociais, se tornaram verdades.
 
O pararadigma da transparência
 
Porque o voto secreto foi considerado um avanço nas modernas democracia?
 
Primeiro, por impedir a pressão dos mais fortes sobre os mais fracos. Dois exemplos simples:
 a pressão das milícias sobre os eleitores dos territórios conquistados;
 
 a pressão do Executivo sobre o parlamento, em todas suas instâncias.
 
Segundo, por reduzir as barganhas. Na votação em aberto, as barganhas são extremamente
facilitadas, porque o alvo da pressão é obrigado a comprovar que entregou o combinado.
Houve uma intensa e maliciosa campanha pelo Twitter contra a votação secreta. Tendo sido
instituída para impedir as barganhas e as pressões espúrias, nesse circo-hospício brasileiro, se
transformou em atentado à transparência.
 
Renan saiu da disputa quando o PSDB exigiu que seus senadores abrissem voto. Entre os
tucanos, havia dois votos favoráveis a Renan. Com o voto em aberto, recuaram. E por que
recuaram? Para não se expor a represálias do Executivo (através do braço armado da Lava
Jato), é óbvio.
 
O paradigma da fisiologia
 
Há duas formas de apoiar o poderoso, visando benefícios:
 
1. Defendendo o poderoso contra ataques de terceiros.
 
2. Atacando os terceiros, sem explicitar o apoio ao poderoso.
 
Peça 2 – o partido da Lava Jato
 
E aí se entra no ativismo político e nas relações que se consolidam entre Lava Jato e o governo Bolsonaro.
Há duas formas de apoio:
 
1. O apoio explícito, que consiste em defender o governo.
 
2. O apoio envergonhado, que consiste em atacar os adversários do governo e se calar
antes seus erros.
 
A Lava Jato se encaixa como uma luva na segunda forma de apoio.
 
Além do articulador político do governo, Onx Lorenzoni – “absolvido” por Sérgio Moro após
um pedido de desculpas por financiamento ilícito de campanha – a Lava Jato caiu de cabeça na campanha pró-Alcollumbre. Seu papel consistiu em atacar Renan e defender o voto em aberto.
 
E, assim como Sérgio Moro, não se pronunciar sobre as rumorosas ligações de Flávio
Bolsonaro com as milícias, nem sobre o risco de se ter as milícias com linha direta com o
sistema de poder.
 
Além da Lava Jato, Alcolumbre teve o apoio de senadores da Rede, como Randolphe
Rodrigues, mostrando que, assim como Aldo Rebelo, assimilou perfeitamente as janelas de
oportunidade da política. A demagogia correu solta no Twitter.
 
Finalmente, o papel do PSDB, obrigando seus senadores a votar compulsoriamente em
Alcolumbre, mesmo sabendo que sua eleição cria um fator adicional de instabilidade no país.
Mais uma vez, o fígado se sobrepõe à lógica, mesmo sabendo que o caminho mais correto
para reformas negociadas seria Renan.
 
Com sua atitude, o PSDB fortalece a mistura de fundamentalismo religioso com milícias, que
caracteriza o governo Bolsonaro, abre caminho para o populismo de direita, e para o mais
desbragado fundamentalismo religioso, conforme o Twitter do pecador convertido Onix
Lorenzoni.
 
Peça 3 – o papel do Senado e o jogo democrático
 
O Senado é o primeiro filtro para conter inconstitucionalidades do Executivo. É o algodão entre
cristais, para evitar embates maiores com o STF (Supremo Tribunal Federal). O presidente do
Senado tem o papel de interlocução não apenas com o STF, mas com o governo. É função que
exige experiência, conhecimento e capacidade de negociar.
 
Cabe ao Senado aparar os exageros de projetos de lei draconianos, impedir o avanço de
propostas inconstitucionais, fazer a interlocução com os demais poderes. Daí a importância do
cargo de presidente do Senado.
 
Pelo comportamento nas prévias, o senador eleito, Davi Alcolumbre (DEM-AP) parece do nível
de Severino Cavalcanti. Já foi denunciado por incorrer em deslizes do baixo clero, como
falsificar notas fiscais com gastos de combustíveis, e por frequentar escritórios de doleiros.
Com o esquema Bolsonaro conquistando a cidadela do Senado, o próximo passo será a
conquista da Procuradoria Geral da República e do Supremo. Essa função será assumida pela
Lava Jato que, definitivamente escancarou seu ativismo político.
 
Com a retaguarda de Sérgio Moro, a Lava Jato lançou as primeiras escaramuças contra a
Procuradoria Geral da República e alimentou Lorenzoni com denúncias conta Renan no dia das eleições. E conta, no STF (Supremo Tribunal Federal), com o apoio de Luís Roberto Barroso, o homem que previu a “refundação” que jogou o país de volta à idade das trevas.
 
Em um quadro ideal (para o Bolsonarismo) o desenho final é o de Sérgio Moro avançando na
repressão política, tendo na Lava Jato e na Polícia Federal seu braço armado.
Faltou apenas combinar com os russos. E, por isso mesmo, tem a pedra das milícias no meio
do caminho.
 
Nas próximas semanas, o jogo ficará mais pesado. E ficará cada vez mais difícil à Lava Jato o
álibi de que apenas combate a corrupção, sem nenhum viés político.
 
Especial para a Câmara dos Deputados, representando a Casa Civil, o médico Carlos
Humberto Manato, que fez parte da Scuderie le Coq, precursora das milícias e dos
escritórios da morte. A nomeação foi assinada por Jair Bolsonaro e Onix Lorenzoni.

domingo, 20 de janeiro de 2019

quarta-feira, 16 de janeiro de 2019

Promessa de campanha coisa nenhuma, decreto das armas é agrado para a indústria bélica. Por Marcos Sacramento


"Juntas, a Taurus e a Companhia Brasileira de Cartuchos (CBC) doaram aos comitês do Democratas, PP, PMDB, PSC, PTB e Solidariedade. Entre os políticos ajudados estava Onyx Lorenzoni, atual chefe da Casa Civil."

Do DCM:

Promessa de campanha coisa nenhuma, decreto das armas é agrado para a indústria bélica. Por Sacramento

 


Bolsonaro e Salesio Nuhs (Foto: Reprodução/Facebook)

Por mais que os entusiastas de revólveres, pistolas e carabinas comemorem a assinatura do decreto de Bolsonaro que facilita a posse de armas de fogo, não foi por eles que o presidente agiu. Em vez de promessa de campanha, a medida foi um acerto de contas com aqueles que ajudaram a financiar sua escalada rumo ao Palácio do Planalto.
Nas eleições estaduais e federais de 2014, última com doações de empresas para campanhas políticas, as duas principais indústrias de armas leves do país doaram cerca de R$ 1,9 milhão a candidatos e partidos.
Juntas, a Taurus e a Companhia Brasileira de Cartuchos (CBC) doaram aos comitês do Democratas, PP, PMDB, PSC, PTB e Solidariedade. Entre os políticos ajudados estava Onyx Lorenzoni, atual chefe da Casa Civil.
Em 2014, quando disputou para deputado federal, Onyx recebeu R$ 50 mil de cada uma das empresas.
Nas prestações de contas de Jair Bolsonaro e dos filhos Eduardo e Flávio, que no pleito disputaram os cargos de deputado federal e estadual, não há doações diretas vindas da Taurus ou da CBC.
Porém, os partidos em que estavam na época, PP e PSC, receberam dinheiro das duas empresas. Como parte das doações para as campanhas desses candidatos vieram dos diretórios dos partidos, é possível que eles também tenham recebido uma parcela dos quase R$ 2 milhões doados pela dupla Taurus/CBC.
O valor parece uma espoleta quando comparado às doações bombásticas declaradas pela JBS, que ultrapassaram R$ 360 milhões. Isso faz das doações da Taurus/CBC um investimento formidável, porque além do fato de que a cruzada dos Bolsonaros em defesa das armas é uma publicidade gratuita, o atual decreto abre excelentes flancos de negócios.
Uma matéria da Deutsche Welle publicada em novembro do ano passado dá noção da euforia do mercado de armas leves diante da expectativa de facilitação da posse de armas prometida por Bolsonaro.
De acordo com o diretor de um clube de tiro citado na matéria, a procura por inscrições acompanhou o crescimento do então candidato no cenário político. Ele informou à DW que havia mais de 300 fichas pendentes de aspirantes a sócios.
Mais sócios representam mais armas no mercado, que levam a despesas com projéteis e aumentam os lucros da Taurus e da CBC, respectivamente as líderes na fabricação e comercialização de armas e munições no Brasil.
A matéria destaca um levantamento da ONG Small Arms Survey que revela o número de armas por habitantes no país e mostra o potencial de crescimento do mercado por aqui. Enquanto no Brasil são 8,8 armas para cada 100 habitantes, nos Estados Unidos são 123 armas para o mesmo grupo de civis.
Estes números representam um mercado fascinante para a Taurus, cujos principais clientes estão no mercado externo – o Brasil representa menos de 20% do faturamento da empresa, segundo a DW.
Não por acaso, as ações da Taurus se valorizaram mais de 800% nos últimos 12 meses, conforme reportagem do Estadão publicada um dia antes da assinatura do decreto.
Também não dá para acreditar que foi apenas a afinidade ideológica que levou Salesio Nuhs, vice- presidente da CBC, que vem a ser a principal acionista da Taurus, à cerimônia de posse de Bolsonaro.
Embora muitos “cidadãos de bem” festejem a possibilidade de ter uma pistola no criado mudo para ficarem seguros enquanto dormem, os donos da festa são os fabricantes de armas, que têm no decreto a oportunidade concreta de ganhar muito dinheiro.

Análise contrafactual, Moro e a taxa de homicídio, por Jorge Alexandre Neves


  "Logo após sua fala, a televisão mostrou um pesquisador afirmando que as evidências científicas têm demonstrado de forma consistente que o desarmamento tem um impacto significativo de redução das taxas de homicídio. Todavia, o Dr. Moro tentou desqualificar as pesquisas científicas sobre o assunto ao afirmar, segundo a Folha de São Paulo, que: “Essa questão de estatística, de causa de violência, sempre é um tema bastante controvertido”. Ele mostrou que não tem a menor ideia do que seja uma análise contrafactual."

Foto Agência Brasil

GGN. - Chama a atenção como no governo Bolsonaro até os quadros mais qualificados demonstram sérias limitações intelectuais. Assisti há pouco a reprise de parte de uma entrevista de Sérgio Moro na qual ele afirma que se o desarmamento tivesse tido algum efeito sobre a taxa de homicídio, o Brasil não teria uma taxa tão alta hoje. Logo após sua fala, a televisão mostrou um pesquisador afirmando que as evidências científicas têm demonstrado de forma consistente que o desarmamento tem um impacto significativo de redução das taxas de homicídio. Todavia, o Dr. Moro tentou desqualificar as pesquisas científicas sobre o assunto ao afirmar, segundo a Folha de São Paulo, que: “Essa questão de estatística, de causa de violência, sempre é um tema bastante controvertido” (1). Ele mostrou que não tem a menor ideia do que seja uma análise contrafactual (2).
Que um indivíduo como Onyx Lorenzoni fale bobagens como a de que um liquidificador é tão perigoso quanto uma arma (3), ainda vá lá. Mas, uma figura como Sérgio Moro, Professor Doutor de uma grande universidade federal, falando bobagens desse calibre é algo chocante. A análise contrafactual é algo básico, até instintivo, do método científico. Será que Sérgio Moro fez Bacharelado, Mestrado e Doutorado (além de um aperfeiçoamento em Harvard) e não conseguiu aprender nada do método científico? Como me dizia meu velho professor Heraldo Souto Maior, na UFPE: “há doutos que não são doutores e há doutores que não são doutos” (4). Definitivamente, credencialismo não é meritocracia.
Fernanda Mena, jornalista da Folha de São Paulo, parece entender mais do método científico (5). Em um artigo publicado na FSP em 09 de novembro último, ela mostra, usando um gráfico com base em dados puramente descritivo (a terceira figura do seu texto), uma análise contrafactual – simples, porém útil – que evidencia o impacto do Estatuto do Desarmamento sobre a taxa de homicídios, no Brasil. O gráfico dela é igual ao que apresento, abaixo (o leitor pode achar que o efeito visual da linha está mais suavizada no gráfico dela, mas isso se deve apenas ao fato de que o aplicativo de construção de gráfico que ela usou produz uma figura mais alargada do que o que utilizei).

O gráfico acima mostra que: a) a taxa de homicídio no Brasil despenca entre 2002 e 2004 e; b) a partir de 2005 ela retoma uma tendência de crescimento, porém a um ritmo menor do que antes. Lembrando que o Estatuto do Desarmamento é de 2003, o gráfico indica haver um efeito robusto deste sobre a taxa de homicídio. Para ter maior confiança de que o efeito é relevante, fiz uma análise econométrica básica conhecida como Teste de Chow (6). Este teste mostrou que: a) o valor esperado da queda da taxa de homicídio após o Estatuto do Desarmamento foi de 3,14 homicídios por 100 mil e; b) que a elevação esperada da taxa anual cai de 0,60 homicídio por 100 mil no período anterior ao Estatuto do Desarmamento para 0,35 homicídio por 100 mil no período posterior. O gráfico abaixo mostra de forma mais clara a diferença entre os valores esperados antes e depois do Estatuto do Desarmamento.

Observe-se que é possível identificar duas retas bem diferentes para o período de 1996 a 2003 e para os anos posteriores. Na linguagem técnica, dizemos que houve uma quebra estrutural da regressão (ou uma descontinuidade na regressão) a partir de 2004. Há tanto uma mudança no coeficiente linear (uma queda abrupta entre 2002 e 2004) quanto no coeficiente angular (a reta se torna menos inclinada a partir de 2004). O gráfico abaixo deixa ainda mais clara a mudança no coeficiente linear.

Pode-se ver que os dados posteriores a 2003 geram uma curva de regressão menos inclinada do que os dados do período anterior. Como era de se esperar, o coeficiente de determinação (R2) é menor para os dados do período mais recente.
Portanto, podemos concluir que a análise contrafactual apresentada acima deixa bastante claro que o Estatuto do Desarmamento teve, sim, um efeito bastante relevante de contenção das taxas de homicídio, no Brasil. Ou seja, as taxas de homicídio atualmente seriam bem maiores se o Estatuto do Desarmamento não tivesse existido. Sérgio Moro precisa melhorar muito sua capacidade de embromação para se tornar um político mais competente.
Jorge Alexandre Neves - Ph.D. em Sociologia pela Universidade de Wisconsin-Madison (EUA), Professor Titular do Departamento de Sociologia da UFMG, Professor Visitante da Universidade do Texas-Austin (EUA) e da Universidad del Norte (Baranquilla, Colômbia), pesquisador do CNPq. Especialista em desigualdades socioeconômicas, análise organizacional, políticas públicas e métodos quantitativos.
(1) Talvez ele estivesse pensando no uso ridículo, absolutamente equivocado, da estatística bayesiana feita pelo procurador Deltan Dallagnol na denúncia que preparou contra o ex-presidente Lula no vexatório processo do tríplex.
(2) A contrafactual é a situação ou evento que não aconteceu, mas poderia ter acontecido. Os experimentos usam grupos selecionados aleatoriamente para conseguir a contrafactual de um grupo exposto a um tratamento, que seria, portanto, um grupo idêntico não exposto ao tratamento. No caso das taxas anuais de homicídio, a análise contrafactual tenta simular taxas de homicídio que teriam sido observadas se o Estatuto do Desarmamento não tivesse existido.
(3) Aliás, um dos ministros generais (não lembro qual, são tantos) falou algo semelhante, em uma entrevista na televisão. Porém, no lugar do liquidificador, usou o carro. Embora a escolha seja menos ridícula do que a do liquidificador – até porque o carro se tornou uma recorrente “arma” usada por terroristas – ele se esquece de um ponto fundamental: o carro é algo extremamente útil para o transporte, enquanto que armas de fogo só servem para ferir ou matar.
(4) Sérgio Moro está longe de ser o único doutor a formar o alto escalão do governo de Bolsonaro a demonstrar claras limitações intelectuais. Aliás, não sei onde conseguiram encontrar tantos doutores que não são doutos. Inclusive, formados em Chicago (o que não é nenhuma novidade, Joseph Stiglitz – prêmio Nobel de Economia, professor de Columbia, tendo antes lecionado em Princeton e Stanford – relatou que, quando foi economista chefe do Banco Mundial, viu que o mercado financeiro está repleto dos piores egressos dos melhores programas de Ph.D. do mundo). Habilidade intelectual significa capacidade analítica, o que parece ser algo bem escasso neste governo.
(5) Tive a curiosidade de buscar seu CV. Além de jornalista, é Mestre em Sociologia pela LSE-Universidade de Londres e está cursando o doutorado em RI na USP. Seus estudos parecem ter lhe dado mais capacidade analítica do que a alcançada pelo esforço de formação acadêmica de Sérgio Moro.
(6) Há análises bem mais complexas do que essa, mas que me tomariam muito mais tempo e só caberiam em um trabalho para publicação em um periódico científico. Para uma aplicação mais acadêmica do Teste de Chow, ver um capítulo, do qual fui um dos autores, de um livro organizado por Ernesto Amaral, hoje professor da Universidade do Texas-A&M (http://www.ernestoamaral.com/docs/books/avaliacao11.pdf).

Além da gafe do liquidificador, Onyx usa argumentos insustentáveis para defender armas (e sua indústria)


  "No mesmo dia em que Jair Bolsonaro assinou o decreto que altera o Estatuto do Desarmamento para facilitar a posse de armas em todos os estados do País, Onyx Lorenzoni deu uma entrevista na GloboNews defendendo a medida. Para isso, despejou uma série de argumentos insustentáveis." - Jornal GGN

 Estamos na era "Pelo lucro, matai-vos uns aos outros"

Foto: Agência Brasil
 
Jornal GGN - No mesmo dia em que Jair Bolsonaro assinou o decreto que altera o Estatuto do Desarmamento para facilitar a posse de armas em todos os estados do País, Onyx Lorenzoni deu uma entrevista na GloboNews defendendo a medida. Para isso, despejou uma série de argumentos insustentáveis.
 
A entrevista e outras declarações de Onyx deixam claro que o governo Bolsonaro não se importa em manipular ou ignorar dados e estudos quando quer fazer valer seu ponto de vista.
 
O argumento mais fácil de ser desarmado é o de que o brasileiro quer a facilitação da posse de arma.
 
Segundo Onyx, em 2005, 64% da média nacional e 82% da população do Rio Grande do Sul votaram no referendo para "manter o direito à legítima defesa".
 
Mas isso nunca esteve em xeque naquele referendo. A pergunta no referendo foi: “O comércio de armas de fogo e munição deve ser proibido no Brasil?”
 
A maioria respondeu que não, e a comercialização foi mantida de acordo com as regras estipuladas pelo Estatuto do Desarmamento, que estava em vigor desde 2003.
 
O Datafolha publicou no mesmo dia do decreto de Bolsonaro os resultados da pesquisa mais recente sobre o assunto. E 61% dos entrevistadores responderam que não concordam com a "facilitação da posse de armas", na contramão do que acredita o atual governo.
 
Outro dado lançado por Onyx foi o de que até 9 milhões de famílias brasileiras têm uma arma em situação irregular em casa. Segundo apuração da Agência Lupa, não existe estudo sobre isso. Em 2010, o Ministério da Justiça informou que 7,6 milhões de armas eram irregulares no Brasil. O número representava metade das armas no País. Mas não é possível dizer quantas famílias tinham a posse de pelo menos uma.
 
O Instituto Sou da Paz alertou também que o governo Bolsonaro usou dados de segurança pública apenas de 2016 para analisar quais estados seriam alcançados pelo decreto. O ano não foi escolhido à toa: naquele ano, todos os estados brasileiros atendiam ao critério de mais de 10 homicídios a cada 100 mil habitantes.
 
Outra ideia falsa propagada por Onyx é a de que mais armas erquivale a menos morte. Em 2013, quando o Estatuto do Desarmamento fez 10 anos, o Ipea divulgou um estudo que mostra o contrário: os locais que mais se livraram de armas são os que tem as maiores quedas nas taxas de homicídio.
 
Não suficiente, Onyx ainda disparou na GloboNews que a Declaração Universal dos Direitos Humanos garante a possibilidade de matar alguém para proteger uma vida. Confundiu, provavelmente, com o Código Penal brasileiro, que prevê que não há crime quando o homicídio se deu por auto-defesa. A Declaração da ONU não fala sobre isso.
 
LIQUIDIFICADOR
 
A cereja do bolo da argumentação capenga de Onyx foi a comparação entre uma arma de fogo e um liquidificador. Na visão do ministro, os dois artefatos expõem as crianças à risco - mas nem por isso alguém pensou em proibir liquidificador.
 
"A gente vê criança pequena botar o dedo dentro do liquidificador e ligar o liquidificador e perder o dedinho. Então, nós vamos proibir os liquidificadores? Não. É uma questão de educação, é uma questão de orientação."
 
Segundo Onyx, para proteger as crianças, o governo Bolsonaro colocou no decreto a exigência de cofre ou local com tranca em casa, para armazenar a arma.
 
Mas é com pudor zero que Onyx admitiu aos jornalistas que a Polícia Federal não vai fiscalizar a existência do cofre nem exigir comprovação. O governo se dispôs a acreditar na boa fé do requerente. Basta declarar que tem o cofre em casa, mesmo que não tenha.

Quem se beneficia com o decreto de armas de Bolsonaro? A Saúde? A Educação? O Emprego ou empresários da indústria da morte? Por Paulo Ghiraldelli



Do Canal do educador e filósofo Paulo Ghrialdelli