domingo, 15 de junho de 2014

Miguel Nicolelis responde às imbecilidades de Reinaldo Azevedo, Diogo Mainardi e Roger Moreira. O Jornalista e comentarista José Trajano enfrenta o fascismo dos coxinhas nas Redes Sociais, seguidores de Diogo Mainardi, Constantino e outros cultivadores do ódio em nome do capitalismo




  Reinaldo Azevedo não é apenas um " escaravelho (besouro) rola-bosta" (royalties ao grande Leonardo Boff), mas a expressão mais clara do extremismo golpista da Veja (a mesma que abraça outras sumidades da mais sórdida direita, como Rodrigo Constantino ou Diogo Mainardi) , a revista dos coxinhas reacionários..... E ele, a sumidade azevediana, foi "rola-bosticamente" tirar onda logo com quem? Com o mais reconhecido cientista vivo brasileiro, que lhe é não só mais famoso, mas intelectualmente muito superior: Miguel Nicolelis..... Mas quem curte a Veja, como todo bom golpista coxinha , não deve lá levar isso em consideração....





Vejamos a análise direta e sucinta do caso, feita por Miguel do Rosário em O Tijolaço:


A nossa mídia está tão doente que resolveu ofender e desqualificar um dos maiores (quiçá o maior) cientistas brasileiros vivos, Miguel Nicolelis, só porque entendeu que ele é “amigo de Lula”.
Só que, desta vez, Miguel Nicolelis não deixou barato, e respondeu imediatamente. E a resposta já virou um clássico.


Também o conhecido extremista de direita, ídolo dos coxinhas e profundo deturpador de notícias, Diogo Mainardi, o mesmo que foi desancado finamente por Luiza Trajano, querendo aparentar saber mais de ciência que o cientista, faz mais uma besteira ao criticar Nicolelis pelo mesmo motivo de seu colega Reinaldo Azevedo e do mesmo modo que aquele, foi igualmente desancado e desnudo em sua ignorância por Miguel Nicolelis:



  Só à guisa de complementação, veja-se o vídeo abaixo onde a arrogância de Mainardi mais uma vez recebe um balde de água fria de uma correspondente brasileira na Inglaterra ao responder que os ingleses passaram a olhar para o Brasil a partir do governo Lula.... A cara de contrariedade de Mainardi nesta resposta não tem preço!




 Também o decadente, mas atualmente muito badalado (pela mesma mídia com traços golpistas), cantor Roger Rocha Moreira, que se julga um gênio e o maior QI do Brasil,  postou na net a sua crítica "científica" contra Nicolelis (que já foi indicado ao Prêmio Nobel). O vocalista do mumificado conjunto Ultraje a Rigor tentou ultrajar o cientista brasileiro, como se pode ver abaixo e, mais uma vez, o real gênio brasileiro respondeu muito bem à provocação:




Já o comentarista esportivo da ESPN, José Trajano, assim como também o fizera seu colega Juca Kfouri, foi brilhante ao enfrentar os coxinhas seguidores dos fomentadores de ódio elitista, como Catanhede, Mainardi, Merval e Azevedo, nas redes sociais:


“Eu queria dizer a esses destemperados e malcriados, frequentadores de mural, que tem a mania de dizer impropérios, xingar, maltratar, não respeitari a opinião alheia. E que tem como gurus gente que só semeia o ódio, a inveja – gente como Demétrio Magnoli, Augusto Nunes, Diogo Mainardi, Reinaldo Azevedo – , que eu continuarei, daqui dessa tribuna, falando desse jeito, do jeito que eu faço. Eu não vou me envergar! Podem vir, com pedras, que eu trarei laranjas, pra gente saborear aqui nos intervalos.”

Segue o vídeo de Trajano:


 Segue-se, agora, artigo do cientista político Antonio Lassance, extraído da Carta Maior, sobre a exorbitância da cretinice dos que, torcendo contra o Brasil mas à favor do elitismo desavergonhado da minoria atrelada ao capital, ataca quem mais faz não só pelo próprio país, mara para a humanidade:

Exoesqueleto do Professor Nicolelis deu um chute no traseiro dos detratores do Brasil


De vez em quando, torcer contra o Brasil chega ao limite do ridículo e faz vítimas improváveis. O mais recente alvo dessa babaquice foi Miguel Nicolelis.

Antonio Lassance


Dizem os mais espirituosos que, no jogo de abertura da Copa, Brasil x Croácia, quando o lateral Marcelo (tricolor) viu a bola e o goleiro Júlio César (flamenguista) à sua frente, não resitiu e pensou: "quer saber, isso aqui é Fla-Flu" - e mandou a bola para dentro do gol brasileiro.

A piada é ótima porque explora o absurdo de uma situação improvável. Improvável?

Torcer contra o Brasil, por razões que vêm de outros carnavais, é algo mais comum do que se imagina.

Há, de tudo, um pouco. Comemorar o gol da  Croácia é o de menos. Dizer que #NaoVaiTerCopa e queimar nossa bandeira em praça pública mostraram-se atos isolados, que acabaram surtindo efeito contrário.

Torcida do contra, para valer mesmo, foi aquela feita pelo representante oficial de um grande banco privado brasileiro, feita em Davos (Suíça) e alhures, que declarou enfaticamente torcer para que o país fosse rebaixado pelas agências de classificação de risco - aquelas mesmas que não viram o elefante na sala de estar do capitalismo na megacrise que explodiu em 2008.

De vez em quando, torcer contra o Brasil chega ao limite do ridículo e faz vítimas improváveis.

O mais recente alvo desse tipo de babaquice foi o respeitado neurocientista Miguel Nicolelis - respeitado principalmente lá fora, pois, aqui dentro, sobram detratores.

Nicolelis se apresenta nas redes sociais como cientista e "apaixonado pelo Brasil". Revela, porém, seu defeito de ser palmeirense - ainda assim, uma razão irrelevante para se torcer contra Nicolelis.

Este brasileiro de quem me ufano lidera pesquisas pioneiras que se dedicam a fazer com que pessoas que perderam seus movimentos voltem a andar, a correr, a jogar bola, a ter uma vida com menos limitações. Seu principal projeto tem um sugestivo e emocionante nome: "Andar de novo".

Sua mágica é juntar neurociência, computação e robótica. A combinação foi representada no exoesqueleto levado a campo, na abertura da Copa, para ajudar o paraplégico Juliano Pinto a dar um chute que, simbolicamente, foi o pontapé inicial de muitos avanços.

Mas nada disso mostrou-se suficiente para evitar que Nicolelis fosse alvo dos ataques dos calunistas de plantão, que o acusaram de midiático, perdulário com o dinheiro público, farsante e de criar algo que pode ter futuro uso militar - claro, como a pólvora, o avião, os alimentos enlatados, o satélite, o computador, o telefone celular.

Acredite, Nicolelis foi acusado de "nacionalista" e também de ser um novo Santos Dumont, pejorativamente, por se dizer inventor de algo já inventado - sim, há quem, por aqui, prefira acreditar na lenda de que quem inventou o avião foram os irmãos Wright, aqueles que fabricaram um planador que só decolava catapultado, que teve um voo documentado por uma foto desfocada e de escassas testemunhas. 

Até hoje, ninguém conseguiu fazer uma réplica do aeroplano dos irmãos Wright que conseguisse voar, ao contrário do voo perfeito da réplica do 14-Bis, em seu centenário (2006).

A maledicência contra Nicolelis lembra o destino de outro gigante da Ciência do Brasil, Carlos Chagas (1878-1934).

A tripanossomíase americana, popularmente conhecida como Doença de Chagas, em homenagem ao cientista, era um verdadeiro flagelo de várias regiões mais pobres de países de clima tropical.

Chagas descobriu o agente transmissor da doença, descreveu seu ambiente de propagação, seu ciclo evolutivo e, mais importante, salvou muitas vidas.

Como o professor Nicolelis, Chagas era um apaixonado pelo Brasil. Seu filho, Carlos Chagas Filho, também grande cientista, conta em seu livro de memórias que uma das mais marcantes recomendações que recebeu do pai foi a de que conhecesse o Brasil - que fosse para o interior do País, visitasse as localidades mais distantes e pobres. Isso era ciência para os Chagas.

Carlos Chagas, o pai, foi indicado ao Prêmio Nobel e sua descoberta tinha razões de sobra para que ele fosse laureado.

Curiosamente, a principal oposição à indicação de Chagas não vinha da comissão do Nobel, mas de alguns de seus compatriotas do Instituto de Patologia Experimental de Manguinhos (hoje, Fundação Oswaldo Cruz) e da Academia Nacional de Medicina.

A oposição dos "colegas", que disputavam influência no Instituto, contra o herdeiro natural de Oswaldo Cruz, ia ao ponto de se negar a existência da doença e de se levantar dúvidas sobre a seriedade do trabalho de Chagas.

Essas desavenças chegaram aos ouvidos da comissão do Nobel, que, por via das dúvidas, deixou o ano de 1921 sem a premiação da área para a qual Chagas estava indicado.

Nicolelis, com Santos Dumont e Carlos Chagas, está em boa companhia.

Ao fim e ao cabo, não só os calunistas de Nicolelis, mas a própria Fifa, que desprezou o experimento e foi uma das principais críticas da Copa do Mundo no Brasil, receberam um chute no traseiro, para usar a expressão preferida do cartola Jérôme Valcke.

Foi um chute no traseiro com estilo, VIP, dado de dentro de um exoesqueleto por alguém que quer andar de novo.



(*) Antonio Lassance é cientista político. Texto publicado originalmente no Blog da Editora Boitempo

a resposta dos coxinhas:


sábado, 14 de junho de 2014

A Mídia Golpista preparou e incentivou os xingamentos dos "Vips"




"Aquele ato bizarro, que seria bizarro seja quem estivesse na Presidência, Dilma, Serra ou Marina, não brota do nada. Pelo contrário, foi construído ao longo do tempo.

"Todo colega jornalista (ou aquele que não se vê como tal, mas assume um papel de interpretar a sociedade), que ajudou a inflar monstros ao longo dos anos ou se omitiu diante disso tem uma parcela de culpa no show de horrores e de vergonha alheia. Agora, muitos tratam de tirar o seu da reta, mas o estrago já foi feito e os
trolls, devidamente alimentados por eles, correm livres por aí.“

Leonardo Sakamoto

sexta-feira, 13 de junho de 2014

Os VIPS de São Paulo na Copa e em sua mais completa traduação: sem água, sem educação, sem coerência, mas plenos de arrogante hipocrisia



"Ontem, coube a uma única mulher receber toda a agressão de uma torcida rica e privilegiada que conseguiu ingressos para o jogo de abertura em São Paulo. Uma elite raivosa que não perde a chance de destilar seu ódio de classe, seus preconceitos e sua falta de educação. Parabéns, presidenta Dilma, você não se escondeu nos palácios da República como fizeram os governadores." 
Florestar Fernandes Jr.
“Era a torcida da balada, era a elite branca. Se você conversar com os voluntários e funcionários do estádio, como eu fiz no final do jogo, você verá que 95% deles não gostaram nenhum pouco dos xingamentos à presidenta. (...)
“ Será que esse xingamento é o exemplo que eles dariam para seus filhos, é a lição de educação para eles, de democracia? O curioso é que isso veio de uma cidade que nunca teve coragem de fazer isso com Paulo Maluf, por exemplo.”

Juca Kfouri 
ao comentar a expressão de bestialidade dos "VIPS" contra Dilma Roussef na abertura da Copa


  Apesar de todos os esforços ola ala golpista do empresariado, da mídia e da classe média, há Copa. E como eles não conseguiram o Caos que, dando vexame, sangrasse o governo e a presidente, apelaram para, a partir da ala dos Vips, puxar uma vaia contra a presidente e a FIFA, contagiando outros coxinhas pela arena. Contudo, a ação, que não se seguiu pelo país, só demonstra o grau de reacionarismo contradição da pretensa elite sem educação e cada vez mais claramente hipócrita. 

  A elite e convidados globais e que, sem água, sem educação e sem razão,mas com dinheiro para pagar quase mil reais nos melhores setores das arenas da Copa - a mesma dita "elite" que dizia estar contra e/ou que torcia para um fracasso total da mesma Copa - mostra toda a sua vertente fascista e desesperada ante um novo fracasso em conquistar o poder federal... É este tipo elitista e intolerante, simpatizantes do golpismo, que quer dirigir o Brasil... Intelectualmente? Bem, eles adoram o Lobão, o Jabor, a Leitão, acreditam que Olavo de Carvalho é filósofo e aceitam tudo o que vem da Globo e da Veja como verdade..... esperar alguma nobreza de gente assim é demais....

 O Jornal do Brasil terminou um editorial sobre o lamentável fato com as seguintes palavras: “Triste do país cuja elite usa um tipo de agressão de tão baixo nível para ofender seu Presidente sob os olhos do mundo. Elite que não imagina o que poderá acontecer com o país quando, um dia, o povo sofrido tiver o mesmo lamentável comportamento contra ela.”


Carlos Antonio Fragoso Guimarães






quinta-feira, 12 de junho de 2014

Comentário de Bob Fernandes, seguida da mensagem do Papa Francisco, sobre os 3,5 bilhões de pessoas com os olhos voltados para a Copa no Brasil enquanto a classe média paulista, orquestrada em seu antipetismo, demonstra sua arrogância e má-educação no Estadio e no Estado em que o PSDB está acabando com a água e outros bens públicos



Segue o video com o comentário político de Bob Fernandes sobre a Copa, seus ganhos e a imbecilidade de alguns que agreidem o direito coletivo com protestos que, menos que a Copa, possuem objetivos políticos  (texto transcrito abaixo do video). Após, o video a mensagem do Papa Francisco desejando que a Copa do Brasil seja uma festa de solidariedade universal:



Vai ter Copa… Porque há 7 anos o governo, governos e a maioria da população quiseram a Copa.

Vai ter Copa porque todo o "negócio futebol" no mundo, estima-se, beira o US$ meio trilhão. E a Fifa é a banca nesse negócio.

Como é o COI no negócio Olimpíada. O esporte é grande motor e indutor do capital internacionalizado. No oficial e no paralelo, nos paraísos fiscais.

Também por isso a comunista China torrou US$ 42 bilhões numa Olimpíada. E Londres gastou R$ 30 bilhões. Agora, a Inglaterra quer tirar do Catar a Copa de 2022. Os Estados Unidos correm por fora.

A Copa é um grande negócio…Para alguns. Quem paga uns R$ 200 milhões por direitos de transmissão pode faturar dez vezes mais.

Copa, Olimpíada, são grandes negócios para empreiteiras. No mundo todo. Por isso os 12 estádios novos.

Vai ter Copa porque empreiteiras, entre outros, financiam campanhas eleitorais por todo o Brasil. Para candidatos de todos, TODOS os grandes partidos.

Protestar é direito, dever do cidadão. Como é dever do Estado impedir que protestos agridam a lei, e o direito coletivo.

Vai ter Copa, e não é demais lembrar: os Estados Unidos se tornaram Império ao impor seu poderio econômico-militar. Mas também ao conquistar corações e mentes.

Conquistaram com Hollywood, com Jesse Owens vencendo Hitler, com o beisebol, o jazz, o rock, pop, o basquete…

O Brasil, sem pretensões de ser império, se espalhou pelo imaginário do mundo a partir de 1958. Desde Pelé, Garrincha & cia.. até Neymar.

Gostem ou detestem, Brasil & futebol são indissociáveis aos olhos do mundo. E isso tem, saibamos, enorme valor.

Com muito ou pouco protesto, vai ter Copa. Daqui a horas, 3,5 bilhões de pessoas estarão de olhos, corações e mentes voltados para o Brasil.

O Brasil com seus enormes, seculares desafios e desigualdades. O Brasil com suas gigantescas e admiráveis qualidades.


domingo, 8 de junho de 2014

Carl Rogers, o humanismo em Psicologia e a Abordagem Centrada na Pessoa


Texto de

Carlos Antonio Fragoso Guimarães






  Destacado pioneiro no desenvolvimento da chamada Psicologia Humanista, ou Terceira Força em Psicologia - seguindo a classificação de Abraham Maslow -, Carl R. Rogers (1902-1987) foi um dos principais responsáveis - embora quase nunca se fale nisso - pelo acesso e reconhecimento dos psicólogos ao universo clínico, antes dominado pelapsiquiatria médica e pela psicanálise - que, nos EUA, era exercida exclusivamente por médicos até bem pouco tempo atrás. Sua postura enquanto terapêuta sempre esteve apoiada em sólidas pesquisas e observações clínicas, podendo-se, sem sombra de dúvida, dizer que o campo de pesquisas objetivas voltadas para o referencial teórico da Abordagem Centrada na Pessoa é formado por um número considerável de trabalhos e estudos, indo mesmo além  do número de pesquisas feitas sobre muitas outras abordagens, incluindo a psicanálise (Rogers & Kinget, 1977; Hart & Tomlinson,1970; Hall & Lindzey, 1993).

  Nascido em Oak Park, Ilinois, EUA, em 8 de janeiro de 1902, Carl Ranson Rogers era o filho do meio de uma grande família protestante de vertente fundamentalista - vertente esta que Rogers iria romper e criticar -, onde os valores tradicionais e religiosos, juntamente com oincentivo ao trabalho duro eram amplamente cultivados. Aos doze anos,Rogers e sua família mudam-se para uma fazenda, onde, em terreno tão fértil eestimulante, passou a se interessar por agricultura e ciências naturais.

  Posteriormente, na universidade, Rogers se dedicaria, inicialmente,   ao aprofundamento de seus estudos em ciências físicas e biológicas. Logo após graduar-se na Universidade de Wisconsin, em 1924, Rogers passou, como era de se esperar diante das espectativas de sua família, a frequentar o Seminário Teológico Unido, em Nova York, onde, felizmente, recebeu uma liberal visão mais filosófica que fundamentalista da religião. 

  Transferindo-se para o Teachers College da ColumbiaUniversity, foi introduzido no estudo da psicologia. Nesta mesma universidade obteveseus títulos de Mestre, 1928, e Doutor, 1931. Suas primeiras experiências clínicas, calcadas de início na tradição behaviorista e, ainda mais, psicanalista, foram feitas como interno do Institute for Child Guidance, onde sentiu a forte ruptura entre o pensamento especulativo freudiano e o mecanicismo medidor, interventivo e estatístico do behaviorismo. 

  Depois de receber seu título de Doutor, Rogers passou a fazer parte da equipe do Rochester Center, do qual passaria a ser diretor. Neste período, Rogers muito  havia aprendido e sido provocado pelas idéias e exemplos de Otto Rank, um clínico e teórico que havia se separadoda linha ortodoxa de Freud.

  Foi trabalhando em Rochester que Rogers atingiu novos insights e percepções do tratamento psicoterpêutico, o que lhe liberou da forte amarra acadêmica e concentual que havia (e ainda há) no ensino e prática da psicologia nas universidades:


“A equipe era eclética, constituída de elementos de várias procedências, e nossas discussões sobre métodos de tratamento baseavam-se na nossa experiência pessoal diária com nossos clientes (crianças, jovens e adultos). Era o princípio de um esforço transdisciplinar que muito significou para mim, e com o qual podíamos descobrir a ordem que existe em nossas experiências ao trabalhar compessoas (...)" (Rogers, 1977).

  Em 1939, Rogers passou a ocupar a cátedra de Psicologia da Universidade de Ohio. Por ter passado muito tempo envolvido diretamente coma clínica, a passagem para o meio acadêmico foi muito dura para ele. Ficou claro que, durante seu trabalho ativo com clientes, ele tinha atingido novas formas de pensar a prática psicoterapêutica que eram muito diferentes das abordagens acadêmicas convencionais e sua postura intelectualista. De todo modo, as críticas iniciais a que foi submetido e o interesse que os estudantes demonstravam em sua teoria compeliu-o a explanar melhor seus pontos de vista, resultando uma sériede livros, principalmente seu Counseling and psychoterapy (1942).

  Em 1945, Carl Rogers tornou-se professor de Psicologia na Universidade de Chicago e secretário executivo do Centro de Aconselhamento Terapêutico, quando elaborou e definiu ainda mais seu método de terapia centrada no cliente, a partir do legado de outros teóricos, principalmente Kurt Goldstein (c.f. a home page Psicologia Holística), formulando uma original teoria da personalidade e, ainda mais importante para o destaque de seu trabalho, conduzindo pesquisas sobre psicoterapia, o que muito pouco era feito comrelação à abordagem do momento, a Psicanálise (Hall & Lindzey, 1993;Rogers, 1951; Rogers & Dymond, 1954).

  A partir de 1957, Rogers passa a ensinar na Universidade em que se graduou, Winconsin, onde permanecerá até 1963. Durante esses anos, ele liderou um grupo de pesquisadores que realizou um brilhante estudo intensivo e controlado, utilizando a psicoterapia centrada com pacientes esquizofrênicos, obtendo, em alguns pontos, muito material sobre a relação terapêutica e muitos outro sdados de interesse científico, em termos estatísiticos, com estes pacientes e com seus familiares.  Foi o início de uma abordagem mais humana junto aos pacientes hospitalares e o início de um movimento de questionamento das técnicas padrão de tratamento manicomial.

 Em 1964, Rogers associa-se ao Centro de Estudos da Pessoa, em La Jolla, Califórina, entrando em contato com outros teóricos humanistas, como Abraham Maslow, e filósofos, como Buber e outros. 

Rogers passou a ser agraciado por muitos psicólogos pelo seu trabalho científico, e atacado por outros, que viam nele e em sua teoria uma abordagem tola e/ou perigosa para o status e o poder que tinham, principalmente nos meios médicos que se viram forçados a reconhecer, à custas das inúmeras pesquisas sérias levantadas por Rogers eseus auxiliaraes, que o psicólogo pode ter tanto ou mais sucesso no tratamento piscoterapêutico quanto um psiquiatra ou psicanalista... É duro para a medicina perder um espaço que lhe diminui o poder político e mítico sobre a visão que dela têm as pessoas comuns. Rogers foi, por duas vezes, eleito presidente da Associação Americanade Psicologia e recebeu desta mesma associação os prêmios de Melhor Contribuição Científica e o de Melhor Profissional.

  Carl Rogers morreu ativo, em 1987, aos 85 anos de idade.

 
O posicionamento filosófico de Rogers, e sua perspectiva e visão do ser humano foram bastante avançadas para a sua época, pois apresentam e representam um entendimento altamente holista, existencialista e sistêmico do homem, que fica extremamente claro em seus livros, e, em resumo, nesta passagem de Liberdade para aprender:


 “Sinto pouca simpatia pela idéia bastante generalizada de que ohomem é, em princípio, fundamentalmente irracional e que os seusimpulsos, quando não controlados, levam à destruição de si e dosoutros. O comportamento humano é, no seu conjunto, extremamenteracional, evoluindo com uma complexidade sutil e ordenada para osobjetivos que o seu organismo, como um todo sistêmico, se esforça poratingir. A tragédia, para muitos de nós, deriva do fato de que as nossasdefesas internas nos impedirem de surpreender essa racionalidade maisprofunda, de modo que estamos conscientemente a caminhar numadireção, enquanto organicamente caminhamos em outra".

  A Visão Sistêmica de Rogers
  

   É extremamente interessante que Rogers se refira à lógica do organismo como um  todo vivo, em processo de desenvolvimento contínuo, intuindo um tipo de racionalidade orgânica-holística que é muito mais sutil e mais profunda que o tipo de racionalidade intelectual, analítica e linear que, ordinariamente, se põe como a única coisa digna deste termo, racionalidade, eque, via de regra, se resume à capacidade de reter algumas informações ouhabilidades técnicas, adestradas a partir da educação formal. Nisto, podemos lembrar a célebre citação de Pascal de que "O Coração possui razões que aprópria razão desconhece".
  
   É este tipo de sabedoria interna ao organismo que se expressa noequilíbrio ecológico de todo o sistema vital encontrado no planeta. Assim como no amplo espectro do leque natural, a mesma racionalidade implícita à vida se expressano homem, como tendência à auto-atualização, que é a tendência natural doorganismo para atingir um grau de maior harmonia dinâmica interna e externa,exercitando suas potencialidades adaptivas de acordo com o seudesenvolvimento global junto ao meio em que vive. 

 Escreve Rogers: 


"É este impulsoque é evidente em toda vida humana e orgânica - expandir-se, estender-se,tornar-se autônomo, desenvolver-se, amadurecer - a tendência a expressar eativar todas as capacidades do organismo na medida em que tal ativação valoriza o organismo ou o self" (c.f. Fadiman &Frager, 1986, p. 229).

 Desta forma, Rogers e sua teoria está inteiramente conforme à nova visão holística, ecológica, organísmica e sistêmica, dentro dos novos paradigmas orgânicos que surgem nas ciências físicas e biológicas, indo muito além do reducionismo simplista do Behaviorismo, ou do determinismo mecanicista da psicanálise e seu modelo hidráulico da psique humana, ainda muito aceito e comentadodevido à mística da abordagem mecanicista na cultura acadêmica, sempre a última a se abrir aos avanços do pensamento humano. Assim mesmo, convém lembrar que Rogers sempre concordou com pontos importantes destas duas escolas, e via em Freud um grande teórico, embora consideressa seu escopo e visão de homem, restritivo.

  A Escola Humanista

  Rogers, juntamente com outros teóricos, como Maslow, Goldenstein e outros, está convencido de que, tal como ocorre com uma planta que, mesmo em locais insalubres, luta em busca do sol e da vida, embora os meios lhe sejam adversos, nós, os seres humanos, temos um impulso inerente ao organismocomo um todo para nos direcionarmos ao desenvolvimento de nossascapacidades tanto quanto for possível, quer sejam físicas, intelectuais oumorais, em conjunto. 

  Embora Rogers não tenha incluido formalmente umadimensão espiritual ou transcendente em sua formulação da Tendência à Auto-Atualização, ele deixa claro suas percepções de um nível transpessoal em seusúltimos livros, particularmente em seu livro "Um Jeito de Ser", e a grande aproximação entre seus insights do contato profundo e transcendente no encontroterapêutico com a nova visão de mundo da Física Moderna, que é um ponto comum à Psicologia Transpessoal, a abordagem mais sofisticada emtermos de psicoterapia, atualmente. De qualquer forma, outros autores, comoCampbell e McMahon estederam a teoria rogeriana para descrever algunsaspectos da experiência de percepção transcendental.

  De um modo geral, as escolas humanistas de psicologia, na qual se insere o trabalho de Rogers e Maslow, opõem-se às concepções fragmantadoras da visão de homem de outras escolas. É por isso que elas criticam à psicanálise ortodoxa, por esta ter como visão de homem uma concepção semi-animalizada, onde a pessoa é movida muito mais por forças pulsionais ou, como na tradição anglo-saxônica, instinitvas de prazer eagressão, ao qual só por meio de muitas restrições culturais se pode, quandomuito, aplicar um certo verniz de civilização e socialização precária, com uminevitável preço de frustrações e de Mal estar na Civilização. Maslow, especialmente, criticou vementemente a psicanálise ortodoxa freudiana porgeneralizar suas conclusões sobre o ser humano a partir da observação clínicade indivíduos emocionalmente perturbados, do que resultou uma visãopessimista da natureza humana (Maslow, 1993). 

  Os humanistas também se recusam a aceitar a visão do behaviorismo radical de Skinner, que identifica o homem ao robô ou marionete do meio, cuja natureza comportamental é moldada, manipulada e controlada pelo condicionamento ambiental (idéia cara ao capitalismo e à propaganda homogeneizante). Seria um crasso erro, segundo os humanistas, a tendência exagerada a generalizar conclusões obtidas a partir de experimentos - muitos deles crueis e extremamente artificiais - realizados comanimais; ou mesmo quando, ao se fazer experimentos com pessoas, ao fato dese reduzir (por princípio de visão de mundo) a aspectos fisiológicos ou outrosmecanicistas, perdendo a dimensão psicológica propriamente dita. Os psicólogos humanistas preferem o estudo do homem em seupotencial mais positivo e a abordar a Psicologia a partir do prisma da saúde e do crescimento psicológico.

  Além deste aspecto teórico altamente positivo, a contribuição de Rogerspara a psicoterapia é constituída pelos princípios de sua experiênciaterapêutica denominado propriamente de "Terapia Centrada na Pessoa", onde é de fundamental importância a ênfase na experiência atual, relacionado aomaterial trazido pelo cliente no momento do encontro terapêutico, e que éligado à totalidade da experiência subjetiva vivenciada, o que se liga,igualmente, ao amplo oceano fluido e corrente dos sentimentos mais íntimos.Ela se refere ao que se é sentido imediatamente e que é implicitamentesignificativo para o sentimento que o sujeito experimenta ao ter umaexperiência. 

  O terapêuta, assim, age como um facilitador e um espelho para ossentimentos e pensamentos do cliente, que passa a tomar maior consciência econtato com o seu material vivencial, "percebendo" aspectos de suapersonalidade e de seus comportamente que lhe escapavam anteriormente.Daí, o cliente, auxiliado pela ajuda terapêutica, acaba por modificar ouamadurecer o conceito que tem de si e, consequentemente, a reavaliar suasestratégias de vida e visão de mundo. No fundo, todo o processo, em seuandamente, é fruto da ação do próprio cliente, de sua imersão ou não noprocesso terapêutico e de seu grau de investimento no mesmo. Daí o nome "Abordagem Centrada no Cliente ou na Pessoa".

  Sendo assim, os principais aspectos da abodagem rogeriana são:

  Atenção ao impulso sutil, mas sempre existente, em direção ao crescimento, à saúde e ao ajustamento. A terapia nada mais é que a ajuda para a libertação do cliente em sua busca natural para o crescimento e o desenvolvimento normais.

  Maior ênfase aos aspectos afetivos e existenciais, que são muito maispotentes que os intelectuais.

   Maior ênfase ao material trazido pelo cliente e à sua situação imediatado que ao passado.

  Ênfase no relacionamento terapêutico em si mesmo, que constitui um tipo de entidade orgânica que se forma a partir do encontro entreterapêuta e cliente e que, em si, traz uma forte força para a experiência decrescimento de ambos, cliente e terapeuta. 


   Muito apropriadamente, Rogers usa a palavra "cliente" ao invés do termo "paciente", carregado do ranço mecanicista da abordagem biomédica. Um paciente é visto como alguém doente, que se submete passivamente à ação ativa de profissionais formados, que são mais "sábios" e competentes que ele mesmo. Um cliente é alguém que deseja um serviço que não pode executar sozinho,mas que está mais em pé de igualdade e, por isso, é menos "incompetente"que o paciente, ou seja, o cliente é visto como uma pessoa inerentementecapaz de entender e atuar sobre a sua própria situação. Há uma igualdade implícita no modelo terapêuta-cliente, hoje, terapeuta-pessoa, que não existe na abordagemmecanicista médico-paciente:

    "O indivíduo tem dentro de si a capacidade, aomenos latente, de compreender os fatores de sua vida que lhe causaminfelicidade e dor, e de reorganizar-se de forma a superar tais problemas".Rogers, portanto, entende a terapia como um processo que leva uma pessoa adescobrir as nuances de seu próprio dliema com o mínimo de ação por partedo terapêuta, que funciona como um espelho para o cliente. A terapia é "aliberação de capacidades já presentes em estado latente (...). Tais opiniões seopõem diretamente à concepção da terapia como uma manipulação, por umespecialista, de um organismo mais ou menos passivo" (Rogers & Kinget,1977, p. 192).

  Tal aspecto é fundamentalmente diferente da abordagens ondeo terapêuta é visto como o "mecânico" apto a "consertar" o problema do"paciente".

   Outra extraordinária contribuição de Rogers à psicoterapia foi sua dedicação à dinâmica da psicoterapia de grupo. Rogers compreendeu profundamente que os indívíduos em um grupo deixam-se envolver mais fortemente por um clima terapêutico, e que o grupo, em si, é um organismo, um sistema auto-regulador, onde cada indívíduo é parte fundamental constituinte do todo, ao mesmo tempo que também é um todo em si. Caracteristicamente, todos os grupos de encontro possuem um clima de segurança psicológica queencoraja a expressão de sentimentos à estímulos dos membros do próprio grupo, e abrange sempre o envolvimento afetivo como um todo. O modo como se dá o desenvolvimento do grupo é, quase sempre, imprevisível, mas segue, via de regra, um percurso auto-reguldor e auto-dirigente de uma criatividadeimpressionante, levando eficazmente a uma atuação terapêutica e cartáticagrupal, ligando os indíviduos do organismo coletivo, mesmo que haja um amplo amálgama de sentimentos díspares em momentos críticos do encontro coletivo.

   Por tudo isso, está claro que o legado de Rogers é de extremaimportância e atualidade, não podendo certos representantes da correnteracionalista dominante, por uma questão simplória de poder, defini-lo comoultrapassado ou superficial. Diante das mazelas de nossa época tecnocrata,onde as coisas estão cada vez pipores em termos de qualidade de vida, nãopode alguém que se diz representante de uma abordagem com 102 anos searvorar como sabedor de toda a verdade, pois, apesar dela, o mundo está cadavez pior. Neste momento, o aspecto existencial e otimista da PsicoterapiaCentrada no Cliente parece ser um método altamente positivo para nossasaúde psíquica. Cabe ao tempo, enfim, confirmar ou não tudo isso.

  

sábado, 7 de junho de 2014

Leonardo Boff Sobre o Mistério e Beleza do Tempo


Segue texto extremamente belo de Leonardo Boff sobre o tempo:




Cada um tem seu tempo e depois entra em silêncio




Há um livro curioso do Primeiro Testamento, o Eclesiastes (em hebraico Coélet), que não menciona a eleição do povo de Deus, nem a aliança divina, sequer a relação pessoal com Deus. Representa a fé judaica inculturada na visão grega da vida. Possui um olhar agudo sobre a realidade assim como se apresenta e nutre a reverência para com todos os seres. Há uma passagem assáz conhecida que fala do tempo: “há tempo de nascer e tempo de morrer, tempo de plantar e tempo de colher, tempo de rir e tempo de chorar, tempo de amar e tempo de odiar, tempo de guerra e tempo de paz” e por aí vai (c. 3,2-8).

Há muitas formas de tempo. Precisamos nos libertar de um tipo de tempo dominante, aquele dos relógios. Todos somos reféns deste tipo de tempo mecânico. Conhecem-se relógios – o primeiro foi o relógio do sol – já há 16 séculos. Supõe-se que foram os asiáticos que, por primeiro, inventram o relógio. Em 725 da nossa era, um monge budista maquinou um relógio mecânico que à base de baldes de água fazia uma rotação completa em 24 horas. No Ocidente atribui-se a outro monge, um beneditino, depois Papa Silvestre II (950-1003) a invenção do relógio mecânico atual.

Hoje ninguém anda sem algum tipo de relógio mecânico que mede o tempo a partir das rotações da Terra ao redor do Sol. Mas essa visão mecânica do tempo do relógio, estreitou nossa percepção dos muitos tempos que existem, como referidos pelo Eclesiastes acima. Foram os cosmólogos modernos que nos despertaram para os vários tempos. Tudo no processo da evolução possui o seu timing. Não respeitando certo timing, tudo muda e nós mesmos não estaríamos aqui para falar do tempo.

Assim, por exemplo, imediatamente após a primeira singularidade, o big bang, a explosão imensa (mas silenciosa pois não havia ainda o espaço para recolher o estrondo) ocorreu a primeira expressão do tempo. Se a força gravitacional aquela que faz expandir e ao mesmo tempo segurar as energias e as partículas originárias (a mais importante das quatro existentes) fosse por milionésimos de segundo mais forte do que se apresentou, retrairia tudo para si e causaria explosãoes sobre explosões e tornaria o universo impossível. Se fosse, por milionéssima parte de segundo, um pouco mais forte, os gazes se expandiriam de tal forma que não ocasionariam a sua condensação e não teriam surgido as estrelas, os elementos todos que compõem o universo, nem haveria o Sol, Terra e a nossa existência humana.

Mas ocorreu aquele tempo necessário para o equilíbrio entre a expansão e a contenção que acabou abrindo um tempo para surgir tudo o que veio posteriormente. Houve um exato tempo em que se formaram as grandes estrelas vermelhas dentro das quais se forjaram todos os tijolinhos que compõem todos os seres. Se esse tempo exato fosse disperdiçado, nada mais teria acontencido.

Houve um tempo exatíssimo em que naquele dado momento deveriam surgir as galáxias. Se tivesse faltado aquele tempo, não surgiriam as cem bihões de galáxias, as bilhões e bilhões de estrelas, em seguida os planetas como a Terra. Num exatíssimo momento de alta complexidade de sua evolução, irrompeu a vida. Perdido esse tempo, a vida não estaria aqui irradiando. Tudo apontava para a irrupção da vida lá na frente. O celebrado físico Freeman Dayson diz:”Quanto mais examino o universo e estudo os detalhes de sua arquitetura, mais vejo a evidência de que o universo de alguma forma pressentia que nós estávamos a caminho”.

Há pois tempos e tempos e não apenas o tempo escravizante e mecânico do relógio. A Igreja guardou o sentido da diversidade dos tempos. Para cada tempo do ano, se Natal, se Quaresma ou Páscoa há a sua cor específica.

Geralmente vivemos os tempos das quatro estações com as transformações que ocorrem na natureza. Na nossa infância interiorana os tempos eram bem definidos: janeiro-abril: tempo das uvas, dos figos, das melancias,dos melões. Tempo de maio, o plantio do trigo e outubro-novembro de sua colheita.

Nós crianças esperávamos com ansiedade dois tempos sociais, nos quais a vila toda se reunia para uma grande confraternização: a festa da “polenta e osei”(polenta e passarinhos). Como as matas eram virgens, abundava todo tipo de pássaros que eram caçados especialmente para a festa. A outra era a “buchada” comida com pão e vinho, em longas mesas, seguida de cucas e geléias.

Estes tempos e outros conferiam distintos sentidos para a vida. Havia a espera do tempo, sua vivência e sua recordação.

O universo inteiro tem o seu tempo que se concretiza em dois movimentos que se dão também em nós: nossos pulmões e nossos corações se expandem e se contraem. O mesmo faz o universo mediante a gravidade: ao mesmo tempo que se dilata ele é segurado, mantendo um equilíbrio sutil que faz tudo funcionar harmoniosamente. Quando perde esse equilíbrio é sinal que prepara um salto para frente e para cima rumo a uma nova ordem que também se exapande e se contrái.

Cada um de nós tem seu tempo biológico, determinado não pelo relógio mecânico, mas pelo equilíbrio de nossas energias. Quando chegam ao seu climax que pode ser com 10, 15, 50, 90 anos, se fecha o nosso ciclo e entramos no silêncio do mistério. Dizem que é ai habita Deus nos esperando com os braços abertos como um Pai e uma Mãe, cheio de saudades de cada um de nós.

Fonte: http://leonardoboff.wordpress.com/2014/06/06/cada-um-tem-seu-tempo-e-depois-entra-em-silencio/

sábado, 31 de maio de 2014

Black Blocs, segundo o Estadão, parecem assumir seu caráter terrorista ao prometerem, segundo o jornal, o caos na Copa aliando-se ao PCC




Em entrevista dita "exclusiva" ao Estadão (portanto, a responsabilidade da veracidade da informação é deste joral), líderes classe média dos chamados Black Blocs dizem que estão buscando o PCC em São Paulo para "tocar o terror na Copa". Afirmam, assim, estarem em negociações com os chefes do tráfico e de grupos criminosos e marginais do PCC: "Não temos uma aliança ainda, mas eles tem poder de fogo". "O crime organizado respeita a gente porque são mentes pensantes".

Se isso for realmente verdade, é realmente representativa de uma fala equilibrada de quem pretende manifestações democráticas ou um descarado nazi-fascismo em forma explicita de crime organizado? E se não for verdade, ou ao menos não representa toda a verdade, então a mídia, do qual o Estadão faz parte, está praticando um tipo ainda mais sórdido de terrorismo. Seja um ou outro, é bom estarmos cientes do texto do citado jornal. Segue a reportagem de Lourival San'Anna tal quai saiu no Estadão:


Os black blocs que executaram as ações de grande repercussão do ano passado continuam fora do radar da polícia, e prometem transformar a Copa do Mundo “num caos”. Para isso, alguns deles esperam que o Primeiro Comando da Capital (PCC), a organização que domina os presídios paulistas e emite ordens para criminosos soltos, também entre em campo. Não se trata de uma parceria, mas de uma soma de esforços.

Com o compromisso de não identificá-los, o Estado ouviu 16 desses black blocs, em seis encontros, na última semana. À diferença dos adolescentes que os imitaram em depredações, e que acabaram arrolados em um inquérito do Departamento Estadual de Investigações Criminais (Deic), eles são adultos, seguem tática desenvolvida há décadas na Europa e nos Estados Unidos, não têm página no Facebook nem querem aparecer.



Dos 20 que formam o núcleo da rede, apenas um foi fichado, porque foi detido em uma manifestação. Movem-se na sombra do anonimato, articulam-se nacionalmente, e nunca haviam dado entrevista antes. Preocupados com sua imagem perante a opinião pública, decidiram falar, pela primeira vez. “Vamos estourar de novo agora”, promete o mais veterano deles, de 34 anos, formado em História na USP e com matrícula trancada no curso de Psicologia.

“A gente vai devolver o troco na moeda que o Estado impõe”, ameaça o ativista, que trabalha para um hospital público de São Paulo. “O caos que o Estado tem colocado na periferia, por meio da violência policial, na saúde pública, com pessoas morrendo nos hospitais, na falta de educação, na falta de dignidade no transporte, na vida humana, é o caos que a gente pretende devolver de troco para o Estado. E não na forma violenta como ele nos apresenta. Mas vamos instalar o caos, sim. Esse é um recado para o Estado.”

“A gente tem certeza de que o crime organizado, o PCC, vai causar o caos na Copa, e a gente vai puxar para o outro lado”, continua o veterano. “Não temos aliança nem somos contra o PCC. Só que eles têm poder de fogo muito maior do que o MPL (Movimento Passe Livre, que iniciou as manifestações, há um ano, com ajuda dos black blocs). Pararam São Paulo”, acrescentou, lembrando as ações do PCC na década passada.

O veterano e uma bailarina de 21 anos, que abandonou um curso em uma universidade pública para se dedicar exclusivamente à causa, contaram que membros do PCC receberam bem na Penitenciária do Tremembé (interior paulista) dois black blocs presos na manifestação de junho do ano passado do MPL. “Colocaram colchões para eles.” Igualmente, o Comando Vermelho acolheu um ativista preso no Rio.
“Os ‘torres’ respeitam o que fazemos, por causa do nosso idealismo”, explica o veterano, usando o jargão que designa os líderes do PCC. “Eles fazem por lucro e a gente, contra o sistema. Não nos arriscamos por dinheiro, mas para que a mãe deles também seja atendida pelo SUS.” O veterano prossegue: “Sou nascido e criado na ZL (zona leste). Conheço muito a cara do PCC. Somos os nerds do lado da casa deles. O crime organizado respeita a gente porque nasceu de mentes pensantes. Por isso talvez não nos coloquem na cadeia”, interpreta, intrigado com o fato de a polícia não os incomodar. “Porque vamos fazer uma revolução lá.”

sexta-feira, 30 de maio de 2014

A vingança e o ódio como herança de Joaquim Barbosa

Para pensar e avaliar Joaquim Barbosa em sua súbita "aposentadoria", seguem artigos de Paulo Nogueira, Luis Nassif e Bepe Damasco





  O jornalista Paulo Nogueira, do Diário do Centro do Mundo, em seu artigo O legado de Joaquim Barbosa, um antibrasileiro,  diz que "se for confirmada a aposentadoria de Joaquim Barbosa para junho, chegará ao fim uma das mais trágicas biografias do sistema jurídico brasileiro"; ele diz que "o legado de Barbosa resume-se em duas palavras absolutamente incompatíveis com a posição de juiz e, mais ainda, de presidente da mais alta corte nacional: ódio e vingança"



"Foi a negação do brasileiro, um tipo cordial, compassivo e tolerante por natureza", ressalta. "Ele foi, na vida pública brasileira, mais um caso de falso novo, de esperanças de renovação destruída, de expectativas miseravelmente frustradas", completa.


Abaixo texto na íntegra:

Se for confirmada a aposentadoria de Joaquim Barbosa para junho, chegará ao fim uma das mais trágicas biografias do sistema jurídico brasileiro.

O legado de Barbosa resume-se em duas palavras absolutamente incompatíveis com a posição de juiz e, mais ainda, de presidente da mais alta corte nacional: ódio e vingança. Foi a negação do brasileiro, um tipo cordial, compassivo e tolerante por natureza.

A posteridade dará a ele o merecido espaço, ao lado de personalidades nocivas ao país como Carlos Lacerda e Jânio Quadros.

Barbosa acabou virando herói da classe média mais reacionária do Brasil e do chamado 1%. Ao mesmo tempo, se tornou uma abominação para as parcelas mais progressistas da sociedade.

É uma excelente notícia para a Justiça. Que os jovens juízes olhem para JB e reflitam: eis o que nós não devemos fazer.

O que será dele?


Dificuldades materiais Joaquim Barbosa não haverá de ter. O 1% não falha aos seus.

Você pode imaginá-lo facilmente como um palestrante altamente requisitado, com cachês na casa de 30 000 reais por uma hora, talvez até mais. Com isso poderá passar longas temporadas em Miami.

Na política, seus passos serão necessariamente limitados. Ambições presidenciais só mediante uma descomunal dose de delírio.

Joaquim Barbosa é adorado por aquele tipo de eleitor ultraconservador que não elege presidente nenhum.

Ele foi, na vida pública brasileira, mais um caso de falso novo, de esperanças de renovação destruída, de expectativas miseravelmente frustradas.

Que o STF se refaça depois do trabalho de profunda desagregação de Joaquim Barbosa em sua curta presidência.

Nunca, desde Lacerda, alguém trouxe tamanha carga de raiva insana à sociedade a serviço do reacionarismo mais petrificado.

Que se vá – e não volte a assombrar os brasileiros.



Barbosa Protagonizou o falso moralismo que comprometeu o CNJ


Artigo de Luis Nassif, no Jornal GGN



O anúncio da aposentadoria do Ministro Joaquim Barbosa livra o sistema judicial de uma das duas piores manchas da sua história moderna.

O pedido de aposentadoria surge no momento em que Barbosa se queima com os principais atores jurídicos do país, devido à sua posição no caso do regime semi-aberto dos condenados da AP 470. E quando expõe o próprio CNJ (Conselho Nacional de Justiça) a manobras pouco republicanas. E também no dia em que é anunciada uma megamanifestação contra seu estilo ditatorial na frente do STF.

A gota d’água parece ter sido a PEC 63 – que dispõe sobre o aumento do teto salarial da magistratura.

Já havia entendimento no STF que corregedor não poderia substituir presidente do CNJ na sua ausência. Não caso da PEC 63 – que aumenta o teto dos magistrados – Barbosa retirou-se estrategicamente da sessão e colocou o corregedor Francisco Falcão na presidência. Não apenas isso: assumiu publicamente a defesa da PEC e enviou nota ao Senado argumentando que a medida seria “uma forma de garantir a permanência e estimular o crescimento profissional na carreira” (http://tinyurl.com/mf2t6jl).

O Estadão foi o primeiro a dar a notícia, no dia 21. À noite, Barbosa procurou outros veículos desmentindo a autoria da nota enviada ao Senado ou o aval à proposta do CNJ (http://tinyurl.com/m5ueezb).

Ontem, o site do CNJ publicou uma nota de Barbosa, eximindo-se da responsabilidade sobre a PEC.

O ministro ressalta que não participou da redação do documento, não estava presente na 187ª Sessão Ordinária do CNJ no momento da aprovação da nota técnica, tampouco assinou ofício de encaminhamento do material ao Congresso Nacional.

A manipulação política do CNJ
Não colou a tentativa de Barbosa de tirar o corpo do episódio. É conhecido no CNJ – e no meio jurídico de Brasília – a parceria estreita entre ele e o corregedor Francisco Falcão.

É apenas o último capítulo de um jogo político que vem comprometendo a imagem e os ventos de esperança trazidos pelo CNJ.

Para evitar surpresas como ocorreu no STF - no curto período em que Ricardo Lewandowski assumiu interinamente a presidência -, Barbosa montou aliança com Falcão. Em sua ausência, era Falcão quem assumia a presidência do órgão, embora a Constituição fosse clara que, na ausência do presidente do CNJ (e do STF) o cargo deveria ser ocupado pelo vice-presidente – no caso Ricardo Lewandowski.

Muitas das sessões presididas por Falcão, aliás, poderão ser anuladas.

Com o tempo, um terceiro elemento veio se somar ao grupo, o conselheiro Gilberto Valente, promotor do Pará indicado para o cargo pelo ex-Procurador Geral da República Roberto Gurgel.

Com o controle da máquina do CNJ, da presidência e da corregedoria, ocorreram vários abusos contra desafetos. Os presos da AP 470 não foram os únicos a experimentar o espírito de vingança de Barbosa.

Por exemplo, o presidente do STJ (Superior Tribunal de Justiça) Félix Fischer é desafeto de Falcão e se candidatará ao cargo de Corregdor Geral quando este assumir a presidência do STJ. De repente, Fischer é alvejado por uma denúncia anônima feita diretamente a Joaquim Barbosa, de suposto uso de passagens aéreas para levar a esposa em viagens internacionais. O caso torna-se um escândalo público e o conselheiro Gilberto Martins é incumbido de investigar, na condição de corregedor interino (http://tinyurl.com/qg6cjx3) .

Passa a exigir, então, o detalhamento de todas as viagens oferecidas pelo STJ a ministros, mulheres de ministros e assessores (http://tinyurl.com/l6ezw3k). A investigação é arquivada por falta de fundamentos mas, àquela altura, o nome de Fischer já estava lançado na lista de escândalos.

A contrapartida de Falcão foi abrir uma série de sindicâncias contra desembargadores do Pará, provavelmente adversários de Gilberto Martins.

Nesse jogo de sombras e manobras, Barbosa foi se enredando em alianças e abandonando uma a uma suas bandeiras moralizadoras.

Sua principal agenda era combater o “filhotismo”, os escritórios de advocacias formado por filhos de ministros.
Deixou de lado porque Falcão, ao mesmo tempo em que fazia nome investindo-se na função de justiceiro contra as mazelas do judiciário, tem um filho – o advogado Djaci Falcão Neto – que atua ostensivamente junto ao STJ (mesmo quando seu pai era Ministro) e junto ao CNJ (http://tinyurl.com/ku5kdl5), inclusive representando tribunais estaduais. Além de ser advogado da TelexFree, organização criminosa que conseguiu excepcional blindagem no país, a partir da falta de ação do Ministro da Justiça.

Por aí se entende a razão de Falcão ter engavetado parte do inquérito sobre o Tribunal de Justiça da Bahia que envolvia os contratos com o IDEP (Instituto Brasiliense de Direito Público), de Gilmar Mendes.

E, por essas estratégias do baixo mundo da política do Judiciário, compreende-se porque Barbosa e Falcão crucificaram o adversário Fischer, mas mantiveram engavetado processo disciplinar aberto contra o todo-poderoso comandante da magistratura fluminense, Luiz Sveiter, protegido da Rede Globo.


A melhor notícia do ano



artigo de Bepe Damasco, do Brasil 247



No final da manhã fria para os padrões cariocas desta quinta-feira, 29 de maio, entro na internet em busca de notícias com a certeza de topar pela milésima vez com mais manchetes sobre greves e manifestações ou problemas nos estádios e em outras obras para a Copa. Coisas de uma mídia conservadora e partidarizada que, mais uma vez, vai perdendo a queda de braço com a realidade, já que os  estádios estão prontos e grande parte das obras também. Mas não. Desta vez o destaque absoluto é para o périplo de Joaquim Barbosa pelo Congresso Nacional e Palácio do Planalto para anunciar sua aposentadoria em junho. Comemorei como pretendo comemorar um gol do Neymar na final da Copa. Afinal, não é toda hora que se recebe um notícia capaz de tornar o Brasil um país melhor.



Jornalista Kennedy Alencar sobre a era Barbosa-Mendes


Ao longo do seu protagonismo midiático, que teve início em 2007 quando o Supremo aceitou a denúncia contra os réus da Ação Penal 470, Barbosa disseminou ódio e intolerância, violou o Código Penal e o Código de Processo Penal, desprezou jurisprudências, afrontou a Constituição brasileira, cerceou o direito dos réus à ampla defesa, aplicou teorias jurídicas estapafúrdias para condenar sem provas, desprezou o depoimento de mais de 600 pessoas que negaram o mensalão (para dar crédito apenas ao denunciante), fatiou o processo da forma mais oportunista, sustentou toda a acusação sob o  falso pilar do desvio de dinheiro público, aplicou penas absurdas ( Marcos Valério cumpre pena de mais de 37 anos, enquanto o jovem que tirou a vida de 67 militantes trabalhistas, na Noruega, pegou 17 anos), enfim, é responsável pela maior farsa da história do Judiciário brasileiro. Sua falta de espírito democrático, de respeito a ideias divergentes e de um mínimo de civilidade no trato com os outros ministros proporcionaram cenas constrangedoras difíceis de esquecer.

Não satisfeito, inovou ao se transformar no primeiro presidente de Suprema Corte dublê de chefe de carceragem. No exercício dessa função canhestra e bizarra, perseguiu de maneira implacável os presos petistas. Sofrendo de cardiopatia grave, Genoíno é mandado de volta para a Papuda, enquanto José Dirceu, que cumpre pena de forma ilegal há seis meses, já que foi condenado pelo regime semiaberto e cumpre pena no regime fechado, vê negados todos os seus pedidos para trabalhar fora, sob as justificativas mais torpes e mentirosas. Acabou por suspender o direito ao trabalho de todos os outros presos da AP 470, trancafiando todo mundo de volta na Papuda. Na tentativa de dar algum verniz de legalidade a esses atos apelou para a exigência do cumprimento de pelo menos 1/6 da pena para se ter direito ao trabalho externo.


Com essa medida insana, que se choca com decisões de tribunais superiores e com toda jurisprudência, ele não só se lixou para a situação dos quase 100 mil apenados que cumprem pena no semiaberto e trabalham, como deu a derradeira demonstração de que pratica uma espécie medieval de direito, na qual não há espaço para  um pingo de humanismo, mas sobram impulsos mesquinhos e vingativos. Os recursos da defesa dos presos, pedindo que o plenário do STF se posicionasse sobre o direito ao trabalho, jamais foram pautados por Barbosa na ordem do dia do Supremo. Por temer a derrota entre seus pares, ele não hesita em lançar mão de uma prerrogativa execrável e antidemocrática do regimento do STF, que permite ao presidente da Corte a definição da pauta de votações.

O fato é que, pelo conjunto da obra, Barbosa hoje é praticamente uma unanimidade negativa no mundo jurídico, diante do qual vive um isolamento irreversível. Todas as associações de magistrados já se manifestaram contra sua conduta, bem como juristas progressistas e conservadores, OAB, instâncias da Igreja Católica, movimentos sociais, intelectuais e artistas e centrais sindicais. Apenas reacionários até a medula de setores da classe média e da elite ainda aplaudem as atrocidades cometidas por Barbosa, além é claro da velha mídia monopolista, mas com defecções vindas de um ou outro articulista mais independente ou notadas através de algumas matérias críticas a Barbosa, publicadas principalmente no Estadão.

Nem vou perder muito tempo aqui com considerações sobre episódios como a compra do  apartamento de Miami, o emprego do filho por Luciano Hulck, na Globo, as diárias recebidas em viagens de férias, o convite para uma jornalista de O Globo acompanhá-lo em viagem autopromocional ao exterior, etc. Afinal, esses acontecimentos falam por si em relação ao falso moralismo de Barbosa,

Joaquim Barbosa parte sem deixar saudade em todos aqueles que têm apreço pela tolerância e pelo debate democrático, pela afabilidade e serenidade, pela generosidade e pelo respeito à dor alheia. Fica a esperança de que o mais grosseiro e despreparado de todos os juízes que já passaram pelo STF seja um dia lembrado nos bancos escolares de direito como um exemplo a não ser seguido.

Capitalismo e mecanicismo: Nossos pressupostos equivocados e a marcha à destruição, segundo Leonardo Boff


Nossos pressupostos equivocados nos podem liquidar


Texto de Leonardo Boff


Fonte: http://leonardoboff.wordpress.com/2014/05/30/nossos-pressupostos-equivocados-nos-podem-liquidar/


Inegavelmente vivemos uma crise dos fundamentos que sustentam nossa forma de habitar e organizar o planeta Terra e de tratar os bens e serviços da natureza. Na perspectiva atual eles são totalmente equivocados, perigosos e ameaçadores do sistema-vida e do sistema-Terra. Temos que ir além.

Dois pais fundadores de nosso modo de ver o mundo, René Descartes(1596-1650) e Francis Bacon(1561-1626) são seus principais formuladores. Viam a matéria como algo totalmente passivo e inerte. A mente existia exclusivamente nos seres humanos. Estes podiam sentir e pensar enquanto os demais animais e seres agiam como máquinas, destituídas de qualquer subjetividade e propósito.

Logicamente, essa compreensão criou a ocasião para que se tratasse a Terra, a natureza e os seres vivos como coisas que podíamos dispor à bel-prazer. Na base do processo industrialista selvagem está esta compreensão que persiste ainda nos dias de hoje, mesmo dentro das universidades, ditas progressistas, mas reféns no velho paradigma.

As coisas, no entanto, não são bem assim. Tudo mudou quando A. Eistein mostrou que matéria é um campo densíssimo de interações; mais ainda, ela, de fato nem existe no sentido comum da palavra: é energia altamente condensada; basta um centrímetro cúbico de matéria, como ouvi ainda em seu último semestre de aulas na Universidade de Munique em 1967 Werner Heisenberg, um dos fundadores da física das partículas subatômicas, a mecânica quântica, dizer que se esse pouco de matéria fosse trasnsformado em pura energia poderia desestabilizar todo o nosso sistema solar.
Em 1924 Edwin Hubble (1889-1953) com seu telescópio no Monte Wilson no sul da Califórnia, descobriu que não temos apenas a nossa galáxia, a Via Láctea, mas centenas (hoje cem bilhões) delas. Notou, curiosamente, que elas estão se expandindo e se afastanto duma das outras com velocidades inimagináveis. Tal verificação levou os cientistas a imaginar que o universo observável era muito menor, um pontozinho ínfimo que depois se inflacionou e explodiu dando origem ao universo em expansão. Um eco ínfimo desta explosão pode ser ainda identificado permitindo a datação do evento, ocorrido há 13,7 bilhões de anos.

Mas uma das maiores contribuições que vem demantelando o velho olhar sobre a Terra e a natureza nos vem do prêmio Nobel de química o russo-belga Ilya Prigogine (1917-2003). Ele deixou para trás a concepção da matéria como inerte e passiva e demonstrou, experimentalmente, que elementos químicos, colocados sob certas condições, podem organizar-se a si próprios, sob complexos padrões que requerem a coordenação de trilhões de moléculas. Elas não precisam de instruções, nem os seres humanos entram em sua organização. Sequer existem códigos genéticos que guiem suas ações. A dinâmica de sua auto-organização é intrínseca, como aquela do universo e articula todas as interações.

O universo é penetrado por um dinamismo auto-criativo e auto-organizativo que estrutura as galáxias, as estrelas e os planetas. De tempos em tempos, a partir da Energia de Fundo, ocorrem emergências de novas complexidades que fazem aparecer, por exemplo, a vida e a vida consciente e humana.

Toda essa dinâmica cósmica tem seus tempos próprios, tempo das galáxias, das estrelas, da Terra, dos distintos ecossistemas com seus representantes, cada um também com o seu próprio tempo, das flores, das borboletas etc. Especialmente os orgnismos vivos têm seus tempos biológicos próprios, um para os micro-organismos, outro para as florestas, outro para os animais, outro para os oceanos, por fim, outro para cada ser humano. Completado seu tempo, ele parte.

Que fizemos nós modernamente para gestar a crise atual? Inventamos o tempo mecânico e sempre igual dos relógios. Ele comanda a vida e todo o processo produtivo, não tomando em conta os demais tempos. Submete o tempo da natureza ao tempo tecnológico (certa árvore demora 40 anos para crescer, e a motoserra a derruba em dois minutos). Não alimentamos nenhum respeito para os tempos de cada coisa. Assim não lhe damos tempo de se refazer de nossas devastações: poluimos os ares, envenenamos os solos e quimicalizamos quase todos os nossos alimentos. A máquica vale mais que o ser humano.

Ao não concedermos um sábado, biblicamente falando, para a Terra descansar, a extenuamos, a mutilamos e a deixamos adoecer quase mortalmente, destruindo as condições de nosssa própria subsistência.

Neste momento estamos vivendo num tempo em que a própria Terra está tomando consciência de sua enfermidade. O aquecimento global sinaliza que ela vai entrar num outro tempo. Se continuarmos a feri-la e não a ajudarmos a se estabilizar num outro tempo, podemos começar a contar as décadas que inaugurarão a tribulação da desolação. Por causa de nossos equívocos não conscientizados e formulados há séculos, não os corrigimos e que  teimosamente os reafirmamos.

Com Mark Hathaway escrevi O Tao da libertação, premiado nos USA em 2010 com a medalha de ouro em nova ciência e cosmologia.

terça-feira, 27 de maio de 2014

Ricardo Melo, colunista da Folha de São Paulo, discute a burrice dos protestos contra a Copa




Diante do processo midiático-político de manipulação de informações, seria inevitável que vários assumissem o papel instrumentalmente calculado pela velha elite de um midiático revoltado, apesar dos 13 anos do Brasil sem apelar ao FMI, dos avanços nos indices de emprego, de desenvolvimento sical... Os "revoltados" agem a partir de um quadro teleguiado, experimentando a na pizza do mensalão tucano, substituindo a água que falta com pó de helicoptero em pleno metrô paulista... Mas vejamos uma análise sobre todo o imbróglio encomendado presente na corrente "Não vai ter Copa":

Extraído da Folha de São Paulo, 26/05/2014:


A Copa, o X-Tudo e a lista da Forbes


Ricardo Melo


Os movimentos criados em torno de bandeiras como "não vai ter Copa" são, antes de tudo, um atestado de burrice. No Brasil, é mais ou menos como apostar em alguma audiência para um Dia Nacional contra a Feijoada ou o Paulinho da Força organizar uma manifestação contra a venda da tequila no Primeiro de Maio.

Um exemplo disso aconteceu neste sábado (23) na capital paulista. Um desses atos, organizados sabe-se lá por quem, reuniu cerca de 350 manifestantes a pretexto de protestar contra a Copa. Confrontados com a própria insignificância, líderes da "mobilização" passaram a teorizar. "A conjuntura há duas semanas era diferente. A luta contra a Copa mudou de qualidade quando a sociedade organizada iniciou um movimento", afirmou um representante do grupo Território Livre, seja lá o que a declaração quis dizer. Ao fundo, soavam como cântico lemas como "Greve Geral, piquete e ocupação, contra Fifa, a PM e o patrão"; à frente, um bando segurava uma faixa pregando uma "Copa de greves".

A pregação do "X-Tudo" é, novamente, uma tentativa típica de rebeldes sem causas, mas com muitas consequências. Uma delas é lançar trabalhadores contra trabalhadores. Na mesma onda misturam-se provocadores, gente bem intencionada e lideranças espertas. Os eventos em São Paulo são eloquentes.



As paralisações de transportes afetaram a maioria da população. Nelas, havia motoristas e cobradores que recebem uma miséria e têm o direito a melhores condições de vida. Empregados de uma das viações pediam, por exemplo, respeito ao horário de almoço e o fim do desconto do salário nos dias de falta por doença. Reivindicações que, em pleno século 21, remontam a tempos do capitalismo selvagem. Mas havia também uma parcela bastante articulada muito mais interessada em ver o circo pegar fogo.

Como lembrado à exaustão, tais categorias exibem dirigentes com um histórico de banditismo e subserviência patronal indignos dos milhares de trabalhadores que dizem representar. Lideranças parasitárias do imposto sindical aproveitam-se da dispersão profissional da área em que atuam -funcionários de empresas de transportes, por natureza, trabalham isolados, diferentemente do que ocorre numa fábrica- para exercer a manipulação e infiltrar asseclas de objetivos obscuros, às vezes nem tanto.

Isso nada tem a ver com a Copa. Reportagem da Folha prestou um serviço inestimável ao mostrar que os gastos públicos com o torneio são ínfimos se comparados às demais despesas oficiais. Pelos cálculos do jornal, o governo está investindo cerca de R$ 26 bilhões na competição, total que na verdade é menor considerando que haverá reembolso de uma fatia do dinheiro. Pode-se ir mais longe no capítulo proporções.

Segundo lista da revista americana Forbes, as quinze famílias mais abastadas do Brasil concentram uma fortuna de R$ 270 bilhões de reais, cerca de 5% do PIB nacional. Ao final da Copa, aliás, estarão ainda mais ricas, pois muitas delas fazem parte de grupos de mídia beneficiários do torneio.

Nada disso anula o fato de que, num território com as enormes carências do Brasil, sempre que o Tesouro deixa de gastar com o básico da sobrevivência, há uma sensação de desperdício. Também é reprovável embarcar num clima de pão e circo e varrer para baixo do tapete as irregularidades na construção de estádios e de outras obras -males que contagiam a vida pública nacional e devem ser investigados sem nenhuma complacência.

Mas daí a tentar criar um clima de não vai ter Copa vai uma distância muito grande. Brasileiro gosta de futebol, assim como detesta roubalheira. Colocar tudo no mesmo saco só faz sentido na cabeça de senhores e oportunistas que conhecem massas apenas quando servidas em cantinas de luxo.

Ricardo Melo, 58, é jornalista. Na Folha, foi editor de 'Opinião', editor da 'Primeira Página', editor-adjunto de 'Mundo', secretário-assistente de Redação e produtor-executivo do 'TV Folha', entre outras funções. Também foi chefe de Redação do SBT (Sistema Brasileiro de Televisão), editor-chefe do 'Diário de S. Paulo', do 'Jornal da Band' e do 'Jornal da Globo'. Na juventude, foi um dos principais dirigentes do movimento estudantil 'Liberdade e Luta' ('Libelu'), de orientação trotskista.