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terça-feira, 21 de janeiro de 2025

Depois de Steve Bannon, Elon Musk também fez gesto nazista no dia da posse de Donald Trump

 Do ICL Notícias:

INTERNACIONAL

Em discurso na posse de Donald Trump, Elon Musk faz gesto nazista

É o segundo apoiador importante de Trump que faz essa mesma saudação em 48 horas


Apoiador de primeira hora de Donald Trump, o dono do X e da Tesla, Elon Musk, discursou em um evento da posse de Donald Trump nesta segunda-feira (20), em Washington, no ginásio Capitol One Arena.

A grande repercussão ficou por conta do gesto feito por Musk com o braço estendido para a frente e a mão espalmada. A saudação é igual à que faziam os nazistas durante o Terceiro Reich.

O empresário foi escolhido por Trump para chefiar o novo Departamento de Eficiência Governamental. Ele exaltou “o sentimento da vitória”. “E não foi uma vitória qualquer. Foi um momento decisivo para a civilização humana.”

“Essa eleição realmente importava. E eu quero apenas agradecer a vocês por fazerem isso acontecer. Obrigado”, afirmou Musk, fazendo o gesto em seguida.


“Graças a vocês, o futuro da civilização está garantido. Teremos cidades seguras, finalmente, fronteiras seguras, gastos sensatos, coisas básicas”, completou.

Musk também falou que o país irá a Marte e disse que será “inspirador” o momento em que “astronautas norte-americanos colocarem a bandeira em outro planeta pela primeira vez”.

Steve Bannon faz gesto nazista

OUTRO APOIADOR DE TRUMP FEZ GESTO NAZISTA

Em evento realizado no domingo (19), outro apoiador importante de Trump fez o gesto nazista: Steve Bannon.

Isso aconteceu em uma das atividades relacionadas à posse do novo presidente dos Estados Unidos, em que estavam presentes parlamentares brasileiros, inclusive Eduardo Bolsonaro.

No encontro, Bannon fez referência ao partido alemão de extrema direita AfD e comemorou o fato de a Alemanha ser o próximo país a eleger um governo de direita. A fala foi acompanhada do gesto nazista: braço direito com a palma da mão virada para baixo.

“Nós tivemos uma grande vitória aqui [nos EUA] e estamos ganhando no mundo todo, certo? A próxima parada é a Alemanha. Posso pedir que a Alternativa Para a Alemanha (AfD) se levante? Queremos saudá-los”, disse Bannon.

domingo, 29 de novembro de 2020

Sérgio Camargo, chefe da Fundação Palmares, agradece ex-secretário Roberto Alvim, que foi destituído por apologia ao nazismo

 

Em um vídeo de janeiro deste ano, Alvim citou Joseph Goebbels, ministro da propaganda na época da Alemanha nazista

Sérgio Nascimento de Camargo

Sérgio Nascimento de Camargo (Foto: Reprodução)

247 - Sérgio Camargo, presidente da Fundação Palmares, fez uma postagem em seu Twitter onde agradece, entre outros, o ex-secretário da Cultura Roberto Alvim, destituído do cargo por fazer apologia ao nazismo.

Confira a postagem:

Em janeiro deste ano, Alvim gravou um vídeo de 6 minutos sobre uma "nova arte" no Brasil, onde fez referências ao ministro da propaganda da Alemanha nazista, Joseph Goebbels. Em fevereiro, Camargo afirmou que a fundação que chefia seguiria “a linha de Alvim”.

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segunda-feira, 3 de agosto de 2020

O nazi-fascismo brasileiro dos saudosistas da ditadura militar e amantes da ignorância, por Dora Incontri



Não vamos acordar? Vamos deixar assim o país mergulhar em águas sombrias e medievais, de negação da ciência, de indiferença diante da morte de nossos concidadãos, do autoritarismo crescente, com discursos e ações de ódio?
Jornal GGN:

O nazi-fascismo brasileiro, por Dora Incontri

Não me lembro se comentei aqui que morei três vezes na Alemanha, uma vez na infância, outra na adolescência e já quando jovem. E desenvolvi uma relação de amor e ódio com os alemães, porque admiro a cultura, gosto da organização, aprecio as belas paisagens e os monumentos históricos, mas sempre me foi difícil engolir o que eles fizeram no nazismo. O povo aderiu em massa àquela barbárie, um povo que era escolarizado, instruído… e como em minhas vivências lá tanto na infância, quanto na adolescência, encontrei gente racista, xenófoba… tremendo desconforto com os alemães crescia dentro de mim, como uma raiva, um ressentimento, um inconformismo… Durante as aulas que tinha numa escola em Berlim, campanhas antinazistas eram feitas (isso era década de 70, o auge da social democracia alemã). Nunca me esquecerei de um judeu sobrevivente ao holocausto, vindo nos contar sobre a noite dos cristais, ou dos filmes originais que víamos, de quando os aliados chegaram aos campos de concentração e filmaram estarrecidos o que encontraram nesses locais de tortura e morte. E eu me indagava: como um povo que teve um Bach, um Beethoven, um Goethe, um Schiller, um Bertold Brecht e tantos outros, sem citar filósofos e cientistas, poderia ter gerado algo tão histriônico, bizarro e macabro quanto o nazismo?
E eu então, ingenuamente pensava, que se tratava de um problema quase especificamente alemão. Conforme fui amadurecendo e estudando, aprofundando inclusive meu conhecimento sobre os movimentos fascista e nazista, fui compreendendo que não se tratou de um fenômeno pontual, isolado, de uma raça, que se considerava superior. Não cabe aqui fazer uma descrição aprofundada sobre o tema, mas hoje sabemos que a eugenia existia em vários locais no mundo (aliás, desde o século XIX), foi objeto de experimentações com negros nos Estados Unidos, era uma ideologia que permeava as primeiras décadas do século XX no Brasil (com a adesão irrestrita de alguém que me foi tão caro na infância, Monteiro Lobato – ele lamentava que no Brasil não houvesse uma Ku Klux Klan, para “colocar os negros no seu lugar”.). Hoje sabemos que as corporações e os bancos do mundo se beneficiaram com o nazismo e o apoiaram.
E também é mais familiar para todos, que houve outros momentos ou períodos históricos em que outros genocídios foram praticados, como os séculos de tráfico e escravização dos povos africanos nas Américas, como o genocídio armênio pelos turcos, como os mais diversos massacres que o colonialismo europeu praticou aos quatro ventos do mundo. O comunismo de Estado também tem seus números terríveis, com os goulags stalinistas e os mortos na Revolução maoísta. Desculpem-me os que defendem a luta armada e o comunismo de Estado, mas para mim, matança é matança, é coisificar o ser humano e eliminá-lo sem pena.
Entretanto, diante de tudo isso, não contava, não esperava que em minha maturidade, eu tivesse de assistir ao meu país – o Brasil de Castro Alves e Guimarães Rosa, de Tom Jobim e Darcy Ribeiro, de Tarsila do Amaral e Elis Regina… – caindo no abismo de um nazifascismo tupiniquim, com o apoio de um terço da população!
Está certo que o genocídio dos negros e dos indígenas e o feminicídio das mulheres já acontecem desde sempre; que temos um racismo e um machismo estruturais, que já tivemos a tortura institucionalizada na Ditadura militar e continuamos torturando as classes desfavorecidas nas delegacias e presídios… então, há substrato social e (des)humano para o que estamos vendo recrudescer hoje.
Mas não é possível ficarmos impassíveis com um “e daí”? – diante de 5 mil mortes; com uma população fanática burlando uma quarentena recomendada mundialmente e ainda agredindo profissionais heroicos da saúde; com funcionários obrigados a ficar de joelhos diante dos estabelecimentos comerciais em que trabalham, com um vírus galopante matando a população e o ministro robotizado, recém-colocado na Saúde, dizer que não sabe…
Muitos brasileiros manifestam esse mesmo desgosto perplexo diante do que estamos vivendo: a pior crise de saúde, com mortes em massa da população, com o pior e mais fascista dos governos que já tivemos em toda a nossa história… onde está o Brasil do chorinho, da solidariedade, da poesia e da boa vizinhança? Ele está subjacente, está nas margens, está debaixo das cinzas, porque somos nós. Estranho a apatia de líderes, de políticos à esquerda, de representantes de instituições importantes. Estarão com medo, perplexos, sem saber o que fazer?
Não vamos acordar? Vamos deixar assim o país mergulhar em águas sombrias e medievais, de negação da ciência, de indiferença diante da morte de nossos concidadãos, do autoritarismo crescente, com discursos e ações de ódio que já atingem os que estão trabalhando, os que estão lutando por um mundo melhor, incluindo os profissionais da saúde, que estão literalmente oferecendo suas vidas para salvar outras e estão sendo agredidos? Quando o país inteiro estiver coberto de cadáveres – que é o que vai acontecer de acordo com a previsão dos cientistas (vejam live do dia 3 de maio do Atila Iamarino – um brasileiro jovem, cientista, brilhante), vamos nos arrepender suficientemente de termos entregue nossas vidas a um psicopata, cercado de bajuladores e apoiadores fundamentalistas, que urlam por aí, carregando caixões e empunhando a pobre e vilipendiada bandeira nacional?
Como espírita, espiritualista, cristã, não me é dado o luxo de perder a esperança. Estou em luto, mas continuo a luta e conto que a nossa profunda e saudável alma brasileira desperte sem demora…

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quinta-feira, 23 de abril de 2020

Memória de Varsóvia: Resistência ao mal nazista-fascista-militarista e a luta pela vida, por Caio Henrique Lopes Ramiro


Para aqueles e aquelas que se interessam pelos acontecimentos ligados à segunda guerra planetária, ao período sombrio da história alemã com o nazismo e ao Holocausto, uma das questões que se apresentam está ligada à resistência.

Do Jornal GGN

Memória de Varsóvia: Resistência e luta pela vida[1]

por Caio Henrique Lopes Ramiro[2]

No último domingo, dia 19 de abril de 2020, completaram-se 77 anos da insurreição dos judeus do gueto de Varsóvia, na Polônia, ocorrida no dia 19 de abril de 1943, também um domingo, véspera da páscoa judáica[3]. A pretensão aqui é de recuperar a memória do ato de resistência de homens e mulheres que lutaram contra o projeto imperial e o poderio bélico da Alemanha à época capitaneada por Hitler e pelo partido nazista. Vale destacar que no ano de 2001 foi produzida uma dramática narrativa cinematográfica, a saber: Uprising, filme escrito por Jon Avnet e Paul Brickmann ─ que no Brasil ganhou como título Insurreição ─ que relata de maneira muito interessante o levante dos judeus de Varsóvia, liderados por Mordechai Anielewicz (Hank Azaria).
Para aqueles e aquelas que se interessam pelos acontecimentos ligados à segunda guerra planetária, ao período sombrio da história alemã com o nazismo e ao Holocausto, uma das questões que se apresentam está ligada à resistência. Na literatura de testemunho dos campos de concentração, não é incomum o relato da questão: Por que não resistiram? Antes mesmo de meditarmos a respeito da resistência, mostra-se interessante notar que a proposta da lembrança de Varsóvia denuncia uma técnica política utilizada pelos nazistas, mas que não foi uma invenção de seus “gênios”, sem dúvida, malignos. Conforme Giorgio Agamben destaca ─ no livro que inaugura o projeto Homo Sacer, a saber: “o poder soberano e a vida nua”─, o campo pode ser compreendido como o paradigma biopolítico da modernidade e, desse modo, o filósofo italiano pretende sublinhar que esse último pode encontrar seus ancestrais remotos, não sem alguma controvérsia entre os historiadores, nos campos de concentração espanhóis em Cuba, surgidos a partir de 1896 com o objetivo de reprimir a insurreição da população da colônia do Caribe ou, ainda, nos concentration camps ingleses do início do século XX. De qualquer modo, o que interessa a Agamben é destacar que o campo é utilizado como uma técnica da guerra colonial europeia em que o estado de exceção é extendido a uma população civil inteira.
Além disso, ressalta Agamben que os primeiros campos de concentração na Alemanha não surgem no período em que sobe ao poder o nazismo (1933-1945), mas aparecem em 1923, em governos social-democráticos, sendo que nesse ano foi nomeado como chanceler do Reich Gustav Stresemann. A utilização de tal expediente de combate ao inimigo político encontra seu fundamento jurídico nas Schutzhaft (que em tradução literal significa custódia protetiva), tendo sido, então, utilizado após a proclamação do estado de exceção com apoio no artigo 48 da Constituição de Weimar, oportunidade em que aos suspender os direitos fundamentais dos cidadãos, fecharam-se milhares de militantes comunistas e, ainda, criaram os Kozentration für Ausländer que abrigaram refugiados hebreus orientais.
A capital polonesa à época se encontrava ocupada pelas forças militares de Hitler, que se projetavam como uma sinistra sombra autoritária pela Europa e utilizavam como técnica de combate à política do campo. Nesse sentido, tendo em vista o caráter espectral dessa racionalidade técnica, que se constitui como uma localização-deslocante, os nazistas recuperam uma antiga tradição de combate dos europeus e a utilizam na Polônia ocupada, com o objetivo de reunir os judeus em guetos. Como bem destaca Roberto Bueno[4], no caso de Varsóvia era crescente o número de pessoas que foram sendo aprisionadas em um pequeno espaço da cidade, apresentando-se no horizonte uma única certeza, a saber: a morte.
Para Bueno a constituição do espaço de exceção do gueto de Varsóvia traduz a face da bárbarie nazista, uma vez que o objetivo dos ocupantes da Polônia era o da construção de um espaço para a destruição de vidas, da liberdade e da dignidade humanas, com a exposição dos judeus à morte e a toda sorte de violências. Dessa maneira, pode-se observar a comprovação de tal política da morte com os dados surgidos a respeito dos campos após o término da Segunda Guerra Mundial, oportunidade em que se verificou, de acordo com Roberto Bueno, o extermínio pelos nazistas de ¾ da população do gueto, o que se traduziria “como uma ‘eficiente’ organização para o assassinato”. No testemunho de Marek Edelmann, sobrevivente do Gueto de Varsóvia, verifica-se algo a dimensionar das condições de sobrevivência e da dor perpetrada aos prisioneiros, pois no bairro onde viviam cem mil pessoas, foram como diz, amontoadas 400 mil, com a convivência de sete a oito pessoas num quarto, assim, “havia fome, aperto e frio”.
Ao se considerar o gueto a partir da estrutura espectral do campo, torna-se possível compreender que dentro de um pequeno espaço situado em área empobrecida da capital polonesa, fechado com muros, cercas de arame farpado e toda sorte de dispositivos de vigilância, constitui-se um espaço de anomia, ou seja, um estado de exceção como vazio normativo, o que significa, em última análise, a suspensão da normatividade jurídica e moral. Nessa linha, o princípio válido e de sustentação das práticas nazistas é o de que “tudo é possível”, em especial naquilo que diz respeito à violência contra o inimigo judeu. Não obstante, o gueto contava, ainda, com um milicianato interno de prisioneiros desarmados, organizado pelos nazistas a fim de se prevenir as fugas, prática de desigualação hierárquica que também será verificada nos campos de concentração e extermínio. Essa última não é a única coincidência do gueto com o campo, uma vez que a gama de restrições impostas aos forçados habitantes de ambos os lugares eram em muito semelhantes, em especial no que diz respeito à quantidade de alimentos notoriamente racionados, totalmente insuficientes para as necessidades elementares de um ser humano. Além disso, na luta pela sobrevivência, os esgotos serviam de abrigo e esconderijo das constantes rondas e buscas das SS (Schutzstafell), grupo paramilitar, que podemos compreender a partir do léxico do historiador Daniel Goldhagen, como os sombrios, brutais e leais carrascos voluntários de Hitler e do partido nazista. No que tange às mílicias judias, Roberto Bueno as caracteriza como a radicalização do mal e da perversidade das práticas nazistas, em especial em sua forma do “conselho de judeus” que, dentre outras tarefas, tinha de limpar e organizar o campo, inclusive com o dever de dar “bom” andamento as deportações para as fábricas da morte operadas pelo regime. Dessa forma, foram deportados de Varsóvia para Treblinka cerca de 300 mil judeus. As deportações começaram no verão de 1942 e, após o vazamento das informações dos assassinatos em massa e sua chegada ao gueto de Varsóvia, organizou-se a Z.O.B (Organização Judaica Combatente, em polonês: Zydowska Organizacja Bojowa), liderada por Mordechai Anielewicz.
A crueza de tal racionalidade técnica terá também a sua imagem nos campos de extermínio nazistas. Conforme o testemunho do sobrevivente italiano Primo Levi, houve a elaboração pelas SS de uma política de seleção e de privilégios dentre os prisioneiros judeus. Alguns foram escolhidos como Kapos, algo como uma posição hierárquica e de auxílio dos SS e, para além de outros critérios, eram selecionados aqueles indíviduos particularmente ferozes, vigorosos e desumanos. De outro lado, alguns se tornaram muçulmanos ─ expressão que era utilizada pelos prisioneiros de Auschwitz e de outros campos para se referirem às pessoas que se encontravam totalmente destruídas justamente pelo cumprimento integral das ordens, do trabalho, por comerem apenas a ração, ou seja, pelo fato de obedecerem se tornaram um feixe de funções biológicas cuja postura arqueada do corpo lembra a maneira de oração dos muçulmanos ─, vindo a ser parte constitutiva dos Sonderkomando, grupo encarregado de tarefas como o enterro dos mortos, bem como da condução para e da limpeza das câmaras de gás. Os muçulmanos são descritos por Levi como aqueles que desejam sucumbir, pois já não tem interesse pela vida, tornando-se mortos-vivos, figura que é compreendida por Giorgio Agamben como um produto biopolítico do campo.
Feitas estas considerações acerca do sinistro espaço de exceção do campo, que se materializa e toma forma legal no gueto de Varsóvia, voltamos à questão: Por que não resistiram? Essa pergunta, em linhas gerais, pode ser colocada para além das demarcações do recorte da memória do gueto e da luta pela vida ali existente. A resistência já foi considerada um direito natural dos seres humanos, em especial no que diz respeito à luta contra a tirania, justificando, inclusive, o tiranicídio (assassinato do tirano). Contudo, houve o interesse de amaldiçoá-la, de criminalizá-la, a fim de que fosse esquecida para a despolitização da vida e a neutralização da luta e dos corpos, docilizando-os. Desse modo, Primo Levi bem destaca em seu texto O tempo das suásticas, que compõe o livro Assim foi Auschwitz, que a resistência sempre teve e ainda têm inimigos, esses últimos articulam para que não se fale dela, para que não se ative sua memória. Ora, outra não foi à estratégia nazista, especificamente de Himmler, que ordena a Jürgen Stroop a destruição, em abril de 1943, do que restava do gueto de Varsóvia, após já terem sido emitidas, em janeiro do mesmo ano, as ordens de deportação em massa. Todavia, as tropas lideradas por Stroop vão se deparar com a inesperada resistência judia organizada pela Z.O.B. Motivados pela dor e pelo desespero, no dia 19 de abril de 1943, iniciou-se o primeiro levante contra as forças nazistas na Europa, oportunidade em que cerca de 750 partisans, homens e mulheres, em heróica atitude, iniciaram um combate desproporcional contra as forças de Hitler, em muito superiores em nutrição, armamento e contigente.
A ordem de destruição do gueto dada por Himmler tinha como prazo 3 dias. No entanto, o combate perdurou por 27 dias (19/04/1943-16/05/1943), findando-se o conflito no mês de maio de 1943, “com o paradigmático incêndio da sinagoga do gueto”. No horizonte desse conflito, do ponto de vista dos prisioneiros que se levantaram para resistir à violência nazista, jamais esteve à perspectiva da vitória. Justamente aqui se encontra a virtude da coragem, podendo-se, talvez, reconhecer a herança das Termópilas e dos bravos espartanos. Dessa maneira, a memória da resistência em Varsóvia ultrapassa a consideração do objetivo básico de um combate, qual seja: o triunfo. Aqui parece oportuno lembrar novamente com Primo Levi, em Se isto é um homem, da sombria imagem do campo de extermínio de Auschwitz, para dimensionar a memória da dor, mas, também, da luta, da resistência pela vida daqueles que se encontraram no espaço anômico erguido no coração da Europa e diante do dilema de sucumbir ou salvar-se. Nesse lugar rigorosamente controlado, instituiu-se uma gigantesca experiência biológica e social, oportunidade em que o experimentador pode estabelecer condições tais para examinar o comportamento do “animal-homem perante a luta pela vida”.
Assim, mesmo sem a perspectiva elementar da vitória, os combatentes continuaram lutando com o que tinham em mãos e no espírito, ou seja, a certeza de que era imperativo recuperar a tradição daqueles que se opõem aos tiranos, à tirania e à injustiça; era necessário lutar pela liberdade daqueles que virão depois de nós, logo, o que estava em jogo era que em política, entre muitas coisas e em alguns momentos, pode-se dar o cenário do antagonismo de máxima intensidade com a decisão que nos reconhece como o inimigo político (hostis) último, o que implica que será preciso arriscar a própria vida para sedimentar à resistência como esperança para a liberdade, desse modo, torna-se imperiosa a revolta contra a dominação e a falta de sentido da dor infligida aos corpos e a alteridade e, portanto, a pergunta pelo sentido da vida se repõe e apresenta uma possibilidade de leitura do caráter histórico da experiência da morte, questão já meditada por tantos sistemas de religião, tradições metafísicas e culturais, passando a morte a poder ser reconhecida como um dia em que se valeu a pena viver e, dessa maneira, retomando o canto dos poetas ou mesmo os ritos e monumentos funerários, ela pode assumir, na epopéia, por exemplo, a função de construção da memória coletiva, de tal modo, quando falamos dos resistentes de Varsóvia e de sua morte é aos vivos e ao nosso tempo que nos dirigimos.

[1] Agradeço de maneira muito especial aos amigos professores Roberto Bueno e Felipe Alves da Silva, pela oportunidade do diálogo, pelas preciosas sugestões e pelo estímulo à publicação.
[2] Professor no curso de direito do Centro Universitário Central Paulista (UNICEP).

[3] Os registros de dados do levante foram retirados da The Holocaust Encyclopedia. Em especial ver o verbete: Levante do gueto de Varsóvia. In: https://encyclopedia.ushmm.org/content/pt-br/article/the-warsaw-ghetto-uprising. Acesso em: 20/04/2020.
[4] Todas as referências ao amigo prof. Dr. Roberto Bueno dizem respeito ao seu instigante texto Resistir ao extermínio, publicado no último dia 19/04/2020 em: https://www.brasil247.com/blog/resistir-ao-exterminio. Acesso em 20/04/2020.

domingo, 8 de março de 2020

A cada um o seu inferno? É preciso da um basta às bestas nazistas atuais. Por Fabianna Freire Pepeu



É preciso dar um basta às bestas. É preciso dizer não hoje, ontem ou mesmo anteontem, pois é por conta desse relativismo e tolerância com posturas monstruosas que os monstros crescem e reproduzem. 

A cada um o seu?

por Fabianna Freire Pepeu, no GGN

Um dia depois de um grupo de estudantes do Colégio Santa Maria, do Recife, postar no Instagram uma foto de uma saudação nazista feita por eles mesmos em sala de aula — cena considerada gravíssima por milhares de pessoas ou “apenas uma brincadeira de jovens” por outro tanto —, jornais ingleses publicaram um achado ocorrido na Polônia.
Numa feirinha de antiguidades, um álbum de fotografia estava sendo comercializado. Dentro, imagens de paisagens diversas. Mas o material do álbum gerou incômodo e levantou suspeitas.
Resumindo: de acordo com especialistas, o álbum foi confeccionado com pele humana de uma das milhares de vítimas do Holocausto e as investigações apontam para as vítimas de Buchenwald, no leste europeu — o primeiro campo de concentração instalado por Hitler.
Buchenwald esteve em operação de 1937 até 1945, fim da Segunda Guerra. Ali estiveram confinados, além de judeus, comunistas, ciganos, homossexuais, entre outros grupos perseguidos pelo Nazismo.
Sobre o portão de entrada desse inferno, havia a inscrição: ‘Jedem das seine’ (A cada um o seu).
O lugar ficou conhecido pelo tipo de execuções ali praticadas, condições bestiais, experimentos científicos e depravação dos guardas nazistas.
Na condução das maldades, que poucos conseguem imaginar sem sentir a pressão cair, estava Ilse Koch, mulher de Karl-Otto Koch, comandante do campo.
Ilse tinha interesse particular por prisioneiros homens adultos com tatuagem, pois utilizava a pele desses homens para fazer encadernações, toalhas de mesa, abajour e outros objetos.
Diante desse fato tão atual, a descoberta desse objeto feito de pele com tatoo que mostra a infinita capacidade humana de planejar e realizar atrocidades, eu gostaria de perguntar a esse tanto de pessoas que viram na cena recente ocorrida em Pernambuco — em um dos muitos colégios particulares brasileiros de elite, movidos, como mostram as centenas de denúncias, por preconceito de classe, cor e muitos outros —, se elas continuam achando que tudo não passou de uma “brincadeirinha juvenil.”
Quem sabe, porque algumas pessoas são muito lentas para ligar os pontos das coisas, elas perceberam, finalmente, a gravidade do Holocausto. Sim, estou sendo bem Pollyanna, mas não são essas pessoas mesmo que dizem que a gente deve olhar o lado positivo das situações? O álbum pode servir de despertador, quem sabe?!
Mas, caso insistam nessa desumanidade frente às dores dos outros e na cegueira política, é fundamental que todas as outras pessoas da roda digam que não, não é possível — de modo algum —, normalizar e aceitar piadas a respeito das vítimas do Nazismo. E, afinal, juventude não é sinônimo de falta de empatia. Não são essas pessoas que também falam da redução da maioridade penal (sou contra!) ou essa redução só vale para os jovens da periferia?
Também não é possível relativizar que pessoas sejam torturadas no Brasil ou aceitar o genocídio da juventude preta e pobre desse país.
Não, não é possível aceitar que os homens continuem a matar mulheres no país.
Não, não é possível aceitar que se abandone as regiões pobres do país, enviando recursos apenas para as áreas mais abastadas.
Não, não é possível aceitar que se deixe a população de rua morrer à míngua, como foi feito com os confinados dos campos nazistas.
É preciso dar um basta às bestas. É preciso dizer não hoje, ontem ou mesmo anteontem, pois é por conta desse relativismo e tolerância com posturas monstruosas que os monstros crescem e reproduzem.
Pelo enquadramento das bestas humanas que não são apenas os membros desse governo de enlouquecidos e recalcados, além de fascistas, mas também as bestas que usam o elevador e que moram no apartamento ao lado ou no fim da rua.
Sejamos duros com essa gente má, fascista e oportunista, sem (e isso vai ser difícil!), perder a ternura jamais.

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sexta-feira, 24 de janeiro de 2020

Nazismo em ninho bolsonarista: além da mera coincidência ideológica. Texto do defensor público Rochester Oliveira Ribeiro



O então Secretário da Cultura do governo de Bolsonaro, Roberto Alvim, participara de mais uma manobra da extrema direita para, simultaneamente, testar e naturalizar discursos de regimes autoritários no Brasil com raízes em pensamentos fascistas e nazistas.


Do Justificando:



Além da coincidência ideológica

Quarta-feira, 22 de janeiro de 2020

Imagem ao fundo: German Federal Archives/Wikimedia Commons – Arte: Gabriel Pedroza / Justificando
Por Rochester Oliveira Araújo

O Secretário da Cultura do governo de Bolsonaro participa de mais uma manobra da extrema direita para, simultaneamente, testar e naturalizar discursos de regimes autoritários no Brasil com raízes em pensamentos fascistas e nazistas.

 Me lembra uma marcha sobre areia de dunas, do período que passeava pelas montanhas de areia de Natal. Em uma marcha de quem sobe dunas de areia, cada passo para cima dá a sensação de um imediato recuo posterior que nos voltaria à posição inicial. Um passo pra cima, a areia sob os pés cede e nos trás de volta pra baixo. Parece uma subida impossível. Mas não é isso que acontece, pois a cada passo, mesmo que haja esse recuo obrigatório com a areia que desliza sob os pés, ainda assim há um avanço e uma escalada. Nesse caso, o avanço e a escalada são no sentido de um regime autoritário e violento contra minorias diversas, trazendo não só os tons fascistas já identificados no comportamento antidemocrático do governo Bolsonarista, mas também outros tons nazistas.

 Na manobra da vez, o então Secretário da Cultura Ricardo Alvim plagiou em parte de seu discurso um pronunciamento do Ministro da Propaganda do Regime Nazista, Joseph Goebbels. Em uma “coincidência retórica” que envolvia inclusive uma sincronia sonora com Goebbels, já que Roberto Alvim fala ao som de uma obra de Richard Wagner, compositor favorito de Adolf Hitler, este anunciava que seu projeto de governo seria baseado em uma “arte brasileira da próxima década será heroica e será nacional. Será dotada de grande capacidade de envolvimento emocional e será igualmente imperativa (…) ou então não será nada”, parafraseando o Ministro da propaganda Nazista.

 A reação ao vídeo publicado foi imediata e a repercussão negativa provocou aquele recuo obrigatório da areia que cede sob os pés da marcha, mas não deixa de permitir um pequeno avanço e uma naturalização dos discursos do governo. Ricardo Alvim foi exonerado, fazendo parte dessa manobra as respostas públicas onde falsamente se deixam pelo caminho quem comete equívocos, num falacioso desvio de intenção do comando central e das ideias conjugadas.

 Contudo, o que é interessante de ponderar é que a reação imediata, após a identificação do plágio do discurso e de sua fonte odiosa se resumiu em um sentimento de indignação – ainda que inflamado – pela audácia do Secretário em fazer de forma tão descarada essa referência e esse aceno ao regime nazista. Pra além da coincidência retórica, para além da obviedade dessa continência que o Secretário fez ao regime nazista, para além do trecho plagiado, o que nos afetou? Será que se o discurso do Secretário não fosse tão evidente na sua menção e alusão ao regime nazista, teríamos percebido ou a indignação teria sido inflamada? Ou será que a marcha sob a duna teria encontrado um piso mais firme para avançar?

 No discurso do Secretário há uma soberba cultural evidente que julga seu projeto de governo como capaz de construir um novo projeto civilizatório para o Brasil a partir da construção de uma cultura baseada em “mitos fundantes” como a pátria, a família, Deus e a coragem do povo, destacando elementos como a fé, a lealdade, o autosacrifício e a luta contra o mal como fundamentais para esse projeto. 

Como já havia se manifestado anteriormente, a ideia de Alvim sobre a cultura é que esta funcionasse como uma “máquina de guerra”, e talvez por isso mesmo seu nome tenha sido escolhido para a pasta do governo Bolsonarista. O funcionamento de um braço do governo – que adquiriu natureza de secretaria, não mais de Ministério – voltado diretamente para a propaganda das suas concepções e ideologias, não tratando a cultura como uma expressão popular que merece respeito e revela a diversidade da formação nacional, mas sim como um instrumento de imposição de um pensamento e propagandista. Em seu discurso, o secretário destaca a necessidade de artistas que percebam sentimentos novos que brotam na sociedade brasileira, destacando a ideia de um porvir que quer construir como projeto de governo, funcionando como propaganda positiva.

Dando ares de regimes autoritários, o principal dessa função propagandista, contudo, – para além da propaganda positiva – é a destruição ou aniquilação do que lhe é contrário ou diferente. É o não reconhecimento da possibilidade de uma cultura expressiva baseada nos afloramentos da sociedade. Ao final da fala escolhida para ser parafraseada pelo secretário, fica tal evidência onde se anuncia que a cultura ou será tal projeto ou não será nada. É essa ameaça que denota o tom autoritário e o projeto de governo. É o avanço mínimo da marcha da duna que permanece, sobretudo quando para além da coincidência retórica que foi reprimida, permanece a coincidência ideológica que não é contraposta.

 É esse tom de propaganda negativa que se herda do regime nazista. Goebbels foi o responsável por políticas como a de queimar livros que não fossem adequados ao projeto de cultura do regime nazista, fazendo arder em 451 graus fahrenheit tudo que fosse considerado subversivo. Em um país em que as obras culturais como o cinema e o teatro dependem do suporte financeiro público, o posicionamento do Secretário Alvim já era bem próximo ao de Goebbels, anunciando os cortes à tais financiamentos e disfarçando sua censura como uma “curadoria”.

A soberba do projeto cultural implica em um não reconhecimento da cultura como uma expressão plural e diversa, e tal discurso tem vasto campo de aceitação na nossa sociedade. Infelizmente, tanto por pessoas que se posicionam à direita como por pessoas que se posicionam à esquerda, politicamente. É o discurso que busca ser capaz de taxar e identificar o que é culturalmente merecedor de fomento, de incentivo e de aplauso a partir das suas concepções individuais que torna esse discurso viável. Foi o discurso ouvido, por exemplo, após o massacre de Paraisópolis, quando se condenou o funk como uma expressão cultural.

 É esse o pequeno avanço da marcha da duna que podemos identificar. É notar que o discurso, revestido de correspondência com o discurso do propagandista do regime nazista só dispara o alerta e as reprovações em razão da sua estética depravada e do seu flerte. Que as indignações se concentram mais na existência de uma referência ao regime nazista, na ideia de que alguém foi capaz de fazer essa alusão do que no conteúdo de um discurso que igualmente é repugnante.

Rochester Oliveira Araújo é mestre em Direito Constitucional e Defensor Público do Estado do Espírito Santo.