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quinta-feira, 23 de abril de 2020

Memória de Varsóvia: Resistência ao mal nazista-fascista-militarista e a luta pela vida, por Caio Henrique Lopes Ramiro


Para aqueles e aquelas que se interessam pelos acontecimentos ligados à segunda guerra planetária, ao período sombrio da história alemã com o nazismo e ao Holocausto, uma das questões que se apresentam está ligada à resistência.

Do Jornal GGN

Memória de Varsóvia: Resistência e luta pela vida[1]

por Caio Henrique Lopes Ramiro[2]

No último domingo, dia 19 de abril de 2020, completaram-se 77 anos da insurreição dos judeus do gueto de Varsóvia, na Polônia, ocorrida no dia 19 de abril de 1943, também um domingo, véspera da páscoa judáica[3]. A pretensão aqui é de recuperar a memória do ato de resistência de homens e mulheres que lutaram contra o projeto imperial e o poderio bélico da Alemanha à época capitaneada por Hitler e pelo partido nazista. Vale destacar que no ano de 2001 foi produzida uma dramática narrativa cinematográfica, a saber: Uprising, filme escrito por Jon Avnet e Paul Brickmann ─ que no Brasil ganhou como título Insurreição ─ que relata de maneira muito interessante o levante dos judeus de Varsóvia, liderados por Mordechai Anielewicz (Hank Azaria).
Para aqueles e aquelas que se interessam pelos acontecimentos ligados à segunda guerra planetária, ao período sombrio da história alemã com o nazismo e ao Holocausto, uma das questões que se apresentam está ligada à resistência. Na literatura de testemunho dos campos de concentração, não é incomum o relato da questão: Por que não resistiram? Antes mesmo de meditarmos a respeito da resistência, mostra-se interessante notar que a proposta da lembrança de Varsóvia denuncia uma técnica política utilizada pelos nazistas, mas que não foi uma invenção de seus “gênios”, sem dúvida, malignos. Conforme Giorgio Agamben destaca ─ no livro que inaugura o projeto Homo Sacer, a saber: “o poder soberano e a vida nua”─, o campo pode ser compreendido como o paradigma biopolítico da modernidade e, desse modo, o filósofo italiano pretende sublinhar que esse último pode encontrar seus ancestrais remotos, não sem alguma controvérsia entre os historiadores, nos campos de concentração espanhóis em Cuba, surgidos a partir de 1896 com o objetivo de reprimir a insurreição da população da colônia do Caribe ou, ainda, nos concentration camps ingleses do início do século XX. De qualquer modo, o que interessa a Agamben é destacar que o campo é utilizado como uma técnica da guerra colonial europeia em que o estado de exceção é extendido a uma população civil inteira.
Além disso, ressalta Agamben que os primeiros campos de concentração na Alemanha não surgem no período em que sobe ao poder o nazismo (1933-1945), mas aparecem em 1923, em governos social-democráticos, sendo que nesse ano foi nomeado como chanceler do Reich Gustav Stresemann. A utilização de tal expediente de combate ao inimigo político encontra seu fundamento jurídico nas Schutzhaft (que em tradução literal significa custódia protetiva), tendo sido, então, utilizado após a proclamação do estado de exceção com apoio no artigo 48 da Constituição de Weimar, oportunidade em que aos suspender os direitos fundamentais dos cidadãos, fecharam-se milhares de militantes comunistas e, ainda, criaram os Kozentration für Ausländer que abrigaram refugiados hebreus orientais.
A capital polonesa à época se encontrava ocupada pelas forças militares de Hitler, que se projetavam como uma sinistra sombra autoritária pela Europa e utilizavam como técnica de combate à política do campo. Nesse sentido, tendo em vista o caráter espectral dessa racionalidade técnica, que se constitui como uma localização-deslocante, os nazistas recuperam uma antiga tradição de combate dos europeus e a utilizam na Polônia ocupada, com o objetivo de reunir os judeus em guetos. Como bem destaca Roberto Bueno[4], no caso de Varsóvia era crescente o número de pessoas que foram sendo aprisionadas em um pequeno espaço da cidade, apresentando-se no horizonte uma única certeza, a saber: a morte.
Para Bueno a constituição do espaço de exceção do gueto de Varsóvia traduz a face da bárbarie nazista, uma vez que o objetivo dos ocupantes da Polônia era o da construção de um espaço para a destruição de vidas, da liberdade e da dignidade humanas, com a exposição dos judeus à morte e a toda sorte de violências. Dessa maneira, pode-se observar a comprovação de tal política da morte com os dados surgidos a respeito dos campos após o término da Segunda Guerra Mundial, oportunidade em que se verificou, de acordo com Roberto Bueno, o extermínio pelos nazistas de ¾ da população do gueto, o que se traduziria “como uma ‘eficiente’ organização para o assassinato”. No testemunho de Marek Edelmann, sobrevivente do Gueto de Varsóvia, verifica-se algo a dimensionar das condições de sobrevivência e da dor perpetrada aos prisioneiros, pois no bairro onde viviam cem mil pessoas, foram como diz, amontoadas 400 mil, com a convivência de sete a oito pessoas num quarto, assim, “havia fome, aperto e frio”.
Ao se considerar o gueto a partir da estrutura espectral do campo, torna-se possível compreender que dentro de um pequeno espaço situado em área empobrecida da capital polonesa, fechado com muros, cercas de arame farpado e toda sorte de dispositivos de vigilância, constitui-se um espaço de anomia, ou seja, um estado de exceção como vazio normativo, o que significa, em última análise, a suspensão da normatividade jurídica e moral. Nessa linha, o princípio válido e de sustentação das práticas nazistas é o de que “tudo é possível”, em especial naquilo que diz respeito à violência contra o inimigo judeu. Não obstante, o gueto contava, ainda, com um milicianato interno de prisioneiros desarmados, organizado pelos nazistas a fim de se prevenir as fugas, prática de desigualação hierárquica que também será verificada nos campos de concentração e extermínio. Essa última não é a única coincidência do gueto com o campo, uma vez que a gama de restrições impostas aos forçados habitantes de ambos os lugares eram em muito semelhantes, em especial no que diz respeito à quantidade de alimentos notoriamente racionados, totalmente insuficientes para as necessidades elementares de um ser humano. Além disso, na luta pela sobrevivência, os esgotos serviam de abrigo e esconderijo das constantes rondas e buscas das SS (Schutzstafell), grupo paramilitar, que podemos compreender a partir do léxico do historiador Daniel Goldhagen, como os sombrios, brutais e leais carrascos voluntários de Hitler e do partido nazista. No que tange às mílicias judias, Roberto Bueno as caracteriza como a radicalização do mal e da perversidade das práticas nazistas, em especial em sua forma do “conselho de judeus” que, dentre outras tarefas, tinha de limpar e organizar o campo, inclusive com o dever de dar “bom” andamento as deportações para as fábricas da morte operadas pelo regime. Dessa forma, foram deportados de Varsóvia para Treblinka cerca de 300 mil judeus. As deportações começaram no verão de 1942 e, após o vazamento das informações dos assassinatos em massa e sua chegada ao gueto de Varsóvia, organizou-se a Z.O.B (Organização Judaica Combatente, em polonês: Zydowska Organizacja Bojowa), liderada por Mordechai Anielewicz.
A crueza de tal racionalidade técnica terá também a sua imagem nos campos de extermínio nazistas. Conforme o testemunho do sobrevivente italiano Primo Levi, houve a elaboração pelas SS de uma política de seleção e de privilégios dentre os prisioneiros judeus. Alguns foram escolhidos como Kapos, algo como uma posição hierárquica e de auxílio dos SS e, para além de outros critérios, eram selecionados aqueles indíviduos particularmente ferozes, vigorosos e desumanos. De outro lado, alguns se tornaram muçulmanos ─ expressão que era utilizada pelos prisioneiros de Auschwitz e de outros campos para se referirem às pessoas que se encontravam totalmente destruídas justamente pelo cumprimento integral das ordens, do trabalho, por comerem apenas a ração, ou seja, pelo fato de obedecerem se tornaram um feixe de funções biológicas cuja postura arqueada do corpo lembra a maneira de oração dos muçulmanos ─, vindo a ser parte constitutiva dos Sonderkomando, grupo encarregado de tarefas como o enterro dos mortos, bem como da condução para e da limpeza das câmaras de gás. Os muçulmanos são descritos por Levi como aqueles que desejam sucumbir, pois já não tem interesse pela vida, tornando-se mortos-vivos, figura que é compreendida por Giorgio Agamben como um produto biopolítico do campo.
Feitas estas considerações acerca do sinistro espaço de exceção do campo, que se materializa e toma forma legal no gueto de Varsóvia, voltamos à questão: Por que não resistiram? Essa pergunta, em linhas gerais, pode ser colocada para além das demarcações do recorte da memória do gueto e da luta pela vida ali existente. A resistência já foi considerada um direito natural dos seres humanos, em especial no que diz respeito à luta contra a tirania, justificando, inclusive, o tiranicídio (assassinato do tirano). Contudo, houve o interesse de amaldiçoá-la, de criminalizá-la, a fim de que fosse esquecida para a despolitização da vida e a neutralização da luta e dos corpos, docilizando-os. Desse modo, Primo Levi bem destaca em seu texto O tempo das suásticas, que compõe o livro Assim foi Auschwitz, que a resistência sempre teve e ainda têm inimigos, esses últimos articulam para que não se fale dela, para que não se ative sua memória. Ora, outra não foi à estratégia nazista, especificamente de Himmler, que ordena a Jürgen Stroop a destruição, em abril de 1943, do que restava do gueto de Varsóvia, após já terem sido emitidas, em janeiro do mesmo ano, as ordens de deportação em massa. Todavia, as tropas lideradas por Stroop vão se deparar com a inesperada resistência judia organizada pela Z.O.B. Motivados pela dor e pelo desespero, no dia 19 de abril de 1943, iniciou-se o primeiro levante contra as forças nazistas na Europa, oportunidade em que cerca de 750 partisans, homens e mulheres, em heróica atitude, iniciaram um combate desproporcional contra as forças de Hitler, em muito superiores em nutrição, armamento e contigente.
A ordem de destruição do gueto dada por Himmler tinha como prazo 3 dias. No entanto, o combate perdurou por 27 dias (19/04/1943-16/05/1943), findando-se o conflito no mês de maio de 1943, “com o paradigmático incêndio da sinagoga do gueto”. No horizonte desse conflito, do ponto de vista dos prisioneiros que se levantaram para resistir à violência nazista, jamais esteve à perspectiva da vitória. Justamente aqui se encontra a virtude da coragem, podendo-se, talvez, reconhecer a herança das Termópilas e dos bravos espartanos. Dessa maneira, a memória da resistência em Varsóvia ultrapassa a consideração do objetivo básico de um combate, qual seja: o triunfo. Aqui parece oportuno lembrar novamente com Primo Levi, em Se isto é um homem, da sombria imagem do campo de extermínio de Auschwitz, para dimensionar a memória da dor, mas, também, da luta, da resistência pela vida daqueles que se encontraram no espaço anômico erguido no coração da Europa e diante do dilema de sucumbir ou salvar-se. Nesse lugar rigorosamente controlado, instituiu-se uma gigantesca experiência biológica e social, oportunidade em que o experimentador pode estabelecer condições tais para examinar o comportamento do “animal-homem perante a luta pela vida”.
Assim, mesmo sem a perspectiva elementar da vitória, os combatentes continuaram lutando com o que tinham em mãos e no espírito, ou seja, a certeza de que era imperativo recuperar a tradição daqueles que se opõem aos tiranos, à tirania e à injustiça; era necessário lutar pela liberdade daqueles que virão depois de nós, logo, o que estava em jogo era que em política, entre muitas coisas e em alguns momentos, pode-se dar o cenário do antagonismo de máxima intensidade com a decisão que nos reconhece como o inimigo político (hostis) último, o que implica que será preciso arriscar a própria vida para sedimentar à resistência como esperança para a liberdade, desse modo, torna-se imperiosa a revolta contra a dominação e a falta de sentido da dor infligida aos corpos e a alteridade e, portanto, a pergunta pelo sentido da vida se repõe e apresenta uma possibilidade de leitura do caráter histórico da experiência da morte, questão já meditada por tantos sistemas de religião, tradições metafísicas e culturais, passando a morte a poder ser reconhecida como um dia em que se valeu a pena viver e, dessa maneira, retomando o canto dos poetas ou mesmo os ritos e monumentos funerários, ela pode assumir, na epopéia, por exemplo, a função de construção da memória coletiva, de tal modo, quando falamos dos resistentes de Varsóvia e de sua morte é aos vivos e ao nosso tempo que nos dirigimos.

[1] Agradeço de maneira muito especial aos amigos professores Roberto Bueno e Felipe Alves da Silva, pela oportunidade do diálogo, pelas preciosas sugestões e pelo estímulo à publicação.
[2] Professor no curso de direito do Centro Universitário Central Paulista (UNICEP).

[3] Os registros de dados do levante foram retirados da The Holocaust Encyclopedia. Em especial ver o verbete: Levante do gueto de Varsóvia. In: https://encyclopedia.ushmm.org/content/pt-br/article/the-warsaw-ghetto-uprising. Acesso em: 20/04/2020.
[4] Todas as referências ao amigo prof. Dr. Roberto Bueno dizem respeito ao seu instigante texto Resistir ao extermínio, publicado no último dia 19/04/2020 em: https://www.brasil247.com/blog/resistir-ao-exterminio. Acesso em 20/04/2020.

terça-feira, 7 de abril de 2020

Tocantes reflexões e posicionamento de Lima Duarte diante desta época de pandemia e trevosa imbecilidade nazista-fascista-bolsonarista-morista-olavista. Seguido do texto "Os Novos Isentos e a Crise Mundial", de Marcelo Guimarães Lima

Falar da velhice não é fácil', diz Lima Duarte - Aqui Notícias

Tocante e proundo, assistam, escute o vídeo até o fim.... Leiam o texto indicado por Lima Duarte abaixo do vídeo. E por favor, REFLITAM!


Do Canal de Jandira Feghali:



OS NOVOS ISENTOS E A CRISE MUNDIAL


Marcelo Guimarães Lima


Aqueles que apoiaram Bolsonaro, ativa ou passivamente, nas eleições passadas, principalmente os membros da classe média brasileira, tem hoje uma curiosa reação ao mais que evidente impasse nacional e ao papel do líder da extrema direita brasileira na gênese e no agravamento da crise social, política e econômica no Brasil, refletindo a realidade da crise do sistema mundial hoje.

Quando o tema é a incompetência, a enorme ignorância e vulgaridade e, digamos diretamente, a agressividade, a maldade destrutiva antinacional e antipopular do amigo e protetor de milicianos, hoje no papel que lhe foi confiado de representante dos interesses da classe dominante brasileira, os recém-convertidos “isentões” tentam por todos os meios mudar de assunto.

Discorrem em termos genéricos sobre a gravidade do momento e protestam contra uma suposta “fulanização” da crise, contra a polarização, na qual tiveram parte ativa consumindo e replicando com satisfação os ataques constantes da mídia monopolizada do Brasil a Lula e Dilma, ao “PT” genérico, aos “comunistas” em geral, sendo alimentados e alimentando a histeria oportunista e reacionária, as aberrações lógicas e éticas que, naturalizadas pela televisão, os jornais e parte das redes sociais, passaram a ser a atmosfera cotidiana da vida no país, preparando e consolidando o golpe de 2016.

Face ao desastre longamente anunciado e hoje escancarado do (des)governo Bolsonaro, muitos dos novos “isentos” apelam ao nobre sentimento nacional, apelam a um patriotismo vago, incolor e inodoro, apelam à compaixão genérica e passiva para com os “outros”, a massa desfavorecida que o golpe de 2016 e, na sequência, o desgoverno Bolsonaro atacou de modo vil e cruel (assim como atacou trabalhadores e a própria classe média) e continuará atacando até onde a crise permitir e usando a crise para aprofundar um projeto de antissociedade e antinação ao estilo Tatcher-Reagan-Pinochet. Projeto “renovado”, aprofundado e adaptado ao novo século, mas que não nega sua origem histórica no período, tão “longínquo” e tão próximo, das ditaduras militares na América Latina sob a hegemonia e o suporte ativo dos EUA.

Tais apelos à “responsabilidade” e “neutralidade partidária” tem por finalidade evidente isentar de responsabilidade real os novos viúvos e viúvas do bolsonarismo, isentar os “isentões” e assim salvaguardar seus sentimentos e convicções profundas, reiterar o seu amor-próprio que não pode  de modo algum ser abalado, confirmar, ainda que seja “clandestinamente” dado o novo contexto, as certezas absolutas de quem duvida de tudo que possa contradizer minimamente seus preconceitos. Certezas desnudadas hoje pela realidade da crise, mas que devem ser guardadas para uso público quando novas oportunidades surgirem.

Unem-se neste processo de um lado a covardia, de outro a má-fé. Receita de desastre na vida pessoal de todos e qualquer um, aqui sim, independente de determinações outras, de partidarismos reais ou imaginários, cor dos olhos, estilos de vestimentas, etc, etc.

A crise brasileira é parte da crise mundial: crise estrutural, crise do sistema, ou seja, crise das formas de vida hoje impostas mundialmente por uma minoria de beneficiários. A atual pandemia do corona vírus, unindo-se à fragilidade da economia global em perigo de desintegração, veio desnudar o ponto de inflexão no qual nos encontramos. A crise mundial exige soluções locais: a raiz das soluções globais está nas iniciativas de todos e cada um.

Uma sociedade não pode seguir por muito tempo em períodos críticos ignorando ou fingindo ignorar suas reais mazelas, tentando adiar as escolhas que a realidade exige sob pena de sofrimentos ainda maiores dos que os temidos conscientemente, os que se evidenciam em toda mudança. Aos novos isentos lembramos que a sua neutralidade imaginária é engajamento de fato na continuidade da crise. Ou escolhemos um caminho novo para todos, mais justo e racional, ou nos serão impostas formas de vida ainda mais excludentes que as atuais.

Os desafios, as dificuldades, as mudanças que a realidade impõe na vida de cada um e na vida das sociedades tem um custo proporcional à coragem das iniciativas de fato para enfrentá-las, para mudar a vida e nos transformarmos a nós mesmos - ao mesmo tempo condição para e resultado da transformação da realidade.


terça-feira, 28 de janeiro de 2020

Leonardo Boff: a nova teologia do Ecoceno



De um Brasil em crise, escravizado, “campo de batalha na guerra fria entre Estados Unidos e China”, de um continente explorado “para satisfazer as superpotências”, humilhado, pisoteado, chega uma mensagem de esperança. De renovação. Que toca os temas do ambiente “rumo a um novo Ecoceno” e da igualdade social. Que fala do papel da mulher, do novo rosto da Igreja – a do Papa Francisco. Uma mensagem livre, “como o Espírito Santo”.


A nova teologia do Ecoceno: entrevista a Leonardo Boff

Revista IHU on-line 27 janeiro 2020
De um Brasil em crise, escravizado, “campo de batalha na guerra fria entre Estados Unidos e China”, de um continente explorado “para satisfazer as superpotências”, humilhado, pisoteado, chega uma mensagem de esperança. De renovação. Que toca os temas do ambiente “rumo a um novo Ecoceno” e da igualdade social. Que fala do papel da mulher, do novo rosto da Igreja – a do Papa Francisco. Uma mensagem livre, “como o Espírito Santo”.
A reportagem é de Annachiara Sacchi, publicada no caderno La Lettura, do jornal Corriere della Sera, 26-01-2020. A tradução é de Moisés Sbardelotto.
Leonardo Boff, expoente de destaque da teologia da libertação, incômodo quando era sacerdote e também depois (abandonou a batina em 1992; em 1985, havia sido advertido pela Congregação para a Doutrina da Fé), ativista dos direitos humanos, dos direitos da natureza e da Terra, professor universitário, está confiante: “De toda grande crise, surge a possibilidade de uma mudança, podem irromper novas forças. E o Brasil é maior do que sua crise atual”.
Eis a entrevista.
Professor Boff, então o senhor está otimista ou não?
Na realidade, estou preocupado. A situação no Brasil é trágica: o ultraliberalismo de Jair Bolsonaro, a extrema direita política que faz apologia da violência e dos regimes ditatoriais, que exalta os torturadores como heróis nacionais… Nunca vivemos nada semelhante.
Qual a explicação?
Por trás disso, está o projeto de recolonizar a América Latina e obrigá-la a ser somente exportadora de commodities (carne, alimentos, minerais…). E, nessa perversa estratégia, o Brasil é central.
Por quê?
Porque é um país riquíssimo, uma reserva de bens naturais que faltam no mundo. Como disse várias vezes o prêmio Nobel Joseph Stiglitz, nos próximos anos toda a economia dependerá da ecologia. E o Brasil terá um papel primordial nesse jogo.
É difícil viver no Brasil hoje?
Muito. O ministro da Economia, Paulo Guedes, é um dos “Chicago Boys”, formado na Escola de Chicago, que trabalhou no Chile de Pinochet. O ultraliberalismo de direita está fazendo uma política dos ricos para os ricos, está privatizando tudo. Guedes está trazendo a política de Pinochet ao Brasil de privatização de tudo o que pode. E você sabe por que ninguém protesta, por que as pessoas não saem às ruas como está acontecendo agora no Chile?
Não.
Porque o governo anunciou que reprimirá qualquer protesto com o exército! Aqui todos têm medo, pois o exército usa de violência e de brutalidade, mesmo que a discordância cresça. Mas dentro das paredes de casa. Assistimos a uma triste forma de inércia popular.
Na América Latina, presidentes como Evo Morales e Lula encerraram a sua era. Agora, novas forças orientam a opinião pública. Acabou o impulso reformista?
Tivemos governos que fizeram muito pelos pobres. No Brasil, 36 milhões de pessoas foram incluídas no welfare. Mas, no ano passado, um milhão de famílias passou da pobreza para a miséria. O governo está desmontando as políticas sociais de Lula. Estamos lidando com uma elite reacionária e escravista que nunca aceitou que um operário – no caso do Brasil, Lula, ou um indígena no caso da BolíviaEvo Morales – chegasse à presidência do país. Essa elite fez de tudo, com os meios mais brutais. Mas essa onda violenta está sendo oposta por um movimento de grupos progressistas, de movimentos populares, como o MST, o Movimento dos Sem Teto, de descendentesafro-latino-americanos, de indígenas. São os brotos de uma realidade que pode irromper. Essa é a esperança que alimentamos.
O senhor vê algum novo líder político?
Infelizmente não, estamos em um momento de vazio, faltam figuras carismáticas, principalmente no Brasil. Talvez também por culpa de Lula, grande carismático, mas que não soube formar uma classe dirigente também com novos carismas.
O seu novo livro, “Soffia dove vuole” [Sopra onde quer] (no prelo, pela editora Emi), fala do Espírito Santo. Por quê?
Os tempos inquietantes que estamos vivendo, exigem uma séria reflexão sobre o Spiritus Creator.
Que ficou à margem da teologia.
Isso não é verdade. Existem estudos grandiosos sobre o Espírito, desde o de  Yves Congar até o de Jürgen Moltmann, este, em diálogo com o novo paradigma cosmológico. Mas o que podemos dizer é isto: o Espírito Santo esteve quase sempre à margem da hierarquia eclesiástica. E com razão.
Como assim?
A hierarquia está orientada para “áreas” como o poder, a ordem, a ortodoxia, os dogmas, o direito canônico, em uma constante condição de autorreferência. São todos aspectos que servem para manter o status quo e que têm a sua razão de existir, eu não nego isso. Do mesmo modo, porém, eles não podem ser predominantes e ocupar toda a cena. O Espírito é mais carisma do que poder, mais movimento do que estabilidade, mais inovação do que permanência. Ele segue uma lógica diferente da hierarquia da Igreja. Por isso, quase todos os portadores do Espírito Santo foram marginalizados ou perseguidos. Os fatos confirmam isso. O meu livro, julgado em 1985 pela Congregação para a Doutrina da Fé (cujo prefeito era Joseph Ratzinger), intitulava “Igreja: carisma e poder”. Em Roma, porém, leram-no como “Igreja: carisma ou poder”. Por causa dessa confusão, me condenaram.
Ao invés disso, o que o senhor queria dizer?
Eu queria criar um equilíbrio entre carisma e poder. Mas esse equilíbrio deve começar pelo carisma. Se se começa pelo poder, corre-se o risco de que o poder sufoque o carisma. Em vez disso, se se começa do carisma, impede-se que o poder seja exercido de forma autoritária, limites são-lhe impostos, e ele é obrigado ser poder-serviço e a se colocar a serviço da comunidade.
Qual é o papel do Espírito Santo hoje?
Estamos em um momento histórico, o Antropoceno, em que as bases que sustentam a vida e a Terra foram profundamente atacadas,as bases físicas, químicas e ecológicas. Ou mudamos ou morremos. O Espírito é Spiritus CreatorSpiritus Vivificans. Só o Espírito pode restaurar o equilíbrio destruído pela voracidade do homem. Só com o Espírito é possível superar o Antropoceno e chegar ao Ecoceno, a uma sociedade sustentável, vital, aberta à convivência de todos com todos e onde o ecológico ocupará a centralidade. Daí ecoceno.
Por que, na sua elaboração teológica, o senhor insiste em enfatizar o papel da ciência?
Não é possível fazer uma teologia atualizada sem um diálogo profundo com a nova visão do mundo proveniente das ciências da vida, da Terra, do cosmos. Essa leitura já tem um século, mas não é hegemônica. São poucos os teólogos que aceitaram esse desafio.
Por quê?
Porque obriga a estudar ciências diferentes: a física quântica, a nova biologia, a astrofísica, a teoria do caos e da complexidade. Depois de tal caminho, digo isto por experiência, é mais fácil fazer teologia, porque. com esses dados, Deus aparece imediatamente como a Energia misteriosa e amorosa que sustenta o todo e que leva em frente todo o processo cosmogênico. A categoria teológica do Espírito Santo é mais adequada para essa nova forma de teologia.
O que a consciência ecológica tem a ver com o Espírito Santo?
O principal objetivo do meu livro é afirmar que o diálogo com a ecologia e com a nova cosmologianos obriga a mudar o paradigma. O paradigma da filosofia e da teologia ocidentais é de raiz grega, essencialista, baseado em natureza, substância, essência e outros termos semelhantes que pertencem à área da permanência, da estabilidade. Em vez disso, quando se fala de Espírito, tudo é dinamismo, inovação. É preciso mudar a forma de pensar Deus, a história, a Igreja. Deus é dinamismo de três pessoas divinas em comunicação eterna entre si e com a criação,  envolvendo tudo, Deus, o ser humano, a vida, o universo.
Teologia da ecologia, então?
Eu tentei fazer uma teologia com um novo horizonte de compreensão. O mesmo que o Papa Francisco indica na encíclica Laudato si’: tudo é relação; nada existe fora da relação. Poeticamente, Francisco escreve: “O sol e a lua, o cedro e a florzinha, a águia e o pardal: o espetáculo das suas incontáveis diversidades e desigualdades significa que nenhuma criatura se basta a si mesma. Elas só existem na dependência umas das outras, para se completarem mutuamente no serviço umas das outras”. A tese da ecologia é precisamente esta que eu antas vezes  ouvi no último semestre de aulas dado por Werner Heisenberg, um dos formuladores da mecânica quântica, por volta de 1967, na Universidade de Munique, onde fazia meu doutorado em teologia sistemática: tudo está conectado com tudo para formar a grande comunidade de vida, o todo da natureza e do universo. E esse modo de pensar corresponde à natureza do Espírito Santo.
O senhor acha que a Igreja Católica está pronta para aceitar essas suas reflexões?
Em cada país, a situação é diferente. Mas em toda parte faltam profetas. Com Wojtyla e Ratzinger, assistimos ao retorno à Grande Disciplina, vimos uma Igreja fechada em si mesma, preocupada com a ortodoxia, atenta a combater inimigos como a modernidade, as novas liberdades. E, acima de tudo, distante do povo, com uma teologia erudita mas pobre em inovação e uma liturgia alheia à sensibilidade moderna.
Enquanto agora…?
Com o Papa Francisco, emerge outro tipo de Igreja, aberta como um hospital de campanha, em que a centralidade não é tanto a ortodoxia, mas sim a pastoral do encontro, da ternura, da convivência. Para o Papa Francisco, as doutrinas são importantes, mas, acima de tudo, importa entender que Cristo veio para nos ensinar a viver os bens do Reino como o amor incondicional, a misericórdia, a solidariedade, a compaixão por quem sofre, pelos últimos em total abertura ao Pai de bondade e de misericórdia.
Mensagem recebida?
Nem sempre. Muitos católicos tradicionalistas não se deram conta de que estamos diante de outro tipo de papa, menos doutor e mais pastor no meio do seu povo. Um papa que carrega menos os símbolos pagãos dos imperadores romanos e mais a simplicidade de um pároco de aldeia, simples, humilde, amigo de todos. Um homem que vem de longe e, por isso, livre. Se não fosse assim, por que o nome de Francisco? Seria uma contradição pensar um São Francisco de Assis em um palácio pontifício. Mas temos outro Francisco de Roma que vive numa casa de hóspedes, se serve em fila e come junto com os outros, e não sozinho.
O crescimento de protestos públicos na Igreja contra o Papa Francisco lhe preocupa?
Não me preocupa, porque não o preocupa. Como eu sei disso? Contou-me um amigo dele, Carlo Petrini, um agnóstico que escreveu uma espécie de prefácio à encíclica Laudato Sí e com o qual o Papa Francisco gosta de dialogar, exatamente por não se confessar cristão, mas um agnóstico. O Papa contou-lhe (ele me visitou em dezembro em Petrópolis) que  dorme às 21h30, até as 5h30 como uma pedra, bebe o seu mate e leva em frente, franciscanamente, a sua missão, com uma irradiação mundial em sentido religioso, ético e político. Nós nos conhecemos desde 1972. Troquei com ele algumas cartas sobre temas de ecologia e sobre o Sínodo para a Amazônia de outubro passado.
A propósito, o que o senhor espera da exortação apostólica pós-sinodal de Francisco, prevista para breve?
Algo de bom. Acima de tudo, sobre a defesa do rosto indígena da Igreja e sobre as mulheres. Nas minhas cartas, eu pedi a ele que fizesse um gesto profético sem pedir nada a ninguém, como João XXIII fez quando convocou o Concílio Vaticano II.
Que gesto?
Ordenar as mulheres ao sacerdócio.
Ele lhe respondeu?
Agradeceu-me pela carta.
O senhor dedica seu livro às mulheres.
Eu digo que a primeira Pessoa divina a entrar neste mundo, ou a irromper no processo da evolução, não foi o Filho, como diz a Teologia comum e a Tradição. Foi o Espírito Santo. Isso está muito claro no texto de Lucas: “O Espírito virá sobre ti… E te cobrirá com a sua sombra”. Eu fiz uma pesquisa de meses na patrologia: não há nenhum rastro da centralidade do Espírito. Nem sequer nos grandes teólogos. De acordo com uma leitura predominantemente masculina, prevalece o Filho e se esquece do Espírito que gera em Maria o Filho. Portanto, o Filho veio depois da aceitação (“fiat”) de Maria, quer dizer, depois da vinda do Espírito. Digo mais: o Espírito assumiu Maria, divinizou-a. No projeto do Altíssimo, homem e mulher são igualmente divinizados. Fazem parte de Deus. As mulheres deveriam se conscientizar desta sua dignidade e assumir sua porção divina.
Hoje, a teologia da libertação é ecoteologia, teologia feminista, teologia afro. Mas os pobres continuam sendo muitos e oprimidos. A teologia da libertação ainda tem um longo caminho pela frente?
A existência dos pobres, dos oprimidos sempre me faz pensar em Jesus, em São Francisco e em tantos outros que tiveram misericórdia deles.Enquanto existirem pobres especialmente na medida em que seu número aumenta, mais necessária se faz uma teologia de libertação. É a nossa situação atual,mundo afora.
Acusaram-no de ser pró-marxista.
Marx nunca foi pai ou padrinho da teologia de Libertação, como insinuavam os ditadores latino-americanos e os conservadores entre os bispos e os leigos. Mas hoje, mais do que nunca, a teologia da libertação é urgente. O exército dos pobres aumentou assustadoramente. Se a teologia, seja ela qual for, não levar a sério a situação atual, de verdadeura crucificação da maioria da humanidade, dificilmente se livrará da crítica de cinismo e de irrelevância histórica. É preciso ler os sinais do tempo. O Espírito nos convida a tomar uma posição, dos lados das vítimas, daqueles que pelo sistema imperante são feitos invisíveis.

Há em portugues o livro: “O Espírito Santo: fogo interior, doador de vida e pai dos pobres” Vozes 2013.

domingo, 30 de dezembro de 2018

Feliz Ano Novo de Resistência à violência, ao fascismo e ao autoritarismo, por Henrique Vieira


O autoritarismo e o elitismo dos poderosos não toleraram discursos e práticas de valorização da pessoa humana e das minorias.... A mesma mentalidade persecutória e elitista matou Jesus, encarcerou e depois estimulou a execução de Gandhi, assassinou Martin Luther King e Chico Mendes.... Mas eles ajudaram a mudar o mundo.... pela resistência à opressão.... Façamos nossa parte a partir de seus exemplos... Assistam o vídeo abaixo do pastor progressista Henrique Vieira e boas reflexões...  Carlos Antonio Fragoso Guimarães
Do Canal Mídia Ninja:


terça-feira, 30 de outubro de 2018

Tempo de resistência, tempo de luta contra a barbárie, por Sergio da Motta e Albuquerque




   "Serão os membros da nova extrema-direita brasileira aceitos na comunidade internacional dos supremacistas brancos? Como será, se acontecer, a relação entre esses grupos? Enfrentamento? Dominação? Subordinação complementar?

   "A curiosidade e a ansiedade são grandes. Mas não há tempo para especulações, estupores, espantos ou fraqueza. Nem o merecido descanso, depois de tanto sofrimento nesta luta que agora, para muitos, parece inútil. Não é verdade. Há uma fera que anda solta no planeta, e a cena que se apresenta como futuro próximo assinala necessidade de luta. Não entender esta urgência significa pôr em risco a própria vida."



Tempo de luta, por Sergio da Motta e Albuquerque
atentado contra a Sinagoga em Pittysburg, Pensilvânia (27/10), perpetrado por um extremista da direita norte-americana, trouxe aos olhos do mundo os novos termos que definem o avanço da extrema-direita pelo mundo: ‘nacionalismo branco’ (“white nationalism”). Onze cidadãos de religião judaica foram mortos. O nacionalismo branco não é nazismo ou fascismo. Não pressupõe o mesmo controle sobre as grandes organizações sindicais, como faziam os regimes de Hitler e Mussolini. Em comum, todos esses movimentos têm o racismo.
Donald Trump, para  espanto de grande parte da imprensa e público americano, declarou-se “nacionalista”. O que o exclui do mundo neoliberal. Agora, as comunidades judaicas exigem que ele denuncie o “nacionalismo branco”, um tipo de doutrina fanática da direita assassina, que prega um nativismo belicoso. O extermínio dos “diferentes” e indesejáveis.
A imprensa ianque culpa a retórica de Trump pelos crimes de ódio nos Estados Unidos. O “Donald”, responde responsabilizando Hollywood, a imprensa e as “fake-news” pelo ódio e divisão nos Estado Unidos.. Diante dos repetidos ataques com armas de fogo praticados nas escolas norte-americanas por estudantes vítimas do ódio, ele propõe a resposta armada dos professores. Sua proposta deveria ser entendida, condenada e punida como administração irresponsável e criminosa. Ela expõe jovens e crianças a perigo de morte. Trump é um relapso. Ele repete os mesmos erros uma e outra vez. E tem a intenção de continuar a fazê-lo.
Aqui no Brasil, restam algumas considerações a fazer sobre o recente avanço da extrema-direita entre nós. Se nos Estados Unidos existe o “nacionalismo branco”, como se chama a nossa versão da extrema-direita nacionalista? Nacionalismo mestiço tupiniquim? Nativismo feito de ódio? Populações mais mestiçadas podem ser tão ou mais racistas que as mais homogêneas. Lembrem o Antigo Egito, com aquelas representações dos africanos da Núbia (hoje Sudão) – ajoelhados e atados pelo pescoço - escravizados pelos mestiços mais claros do Norte.
Serão os membros da nova extrema-direita brasileira aceitos na comunidade internacional dos supremacistas brancos? Como será, se acontecer, a relação entre esses grupos? Enfrentamento? Dominação? Subordinação complementar?
A curiosidade e a ansiedade são grandes. Mas não há tempo para especulações, estupores, espantos ou fraqueza. Nem o merecido descanso, depois de tanto sofrimento nesta luta que agora, para muitos, parece inútil. Não é verdade. Há uma fera que anda solta no planeta, e a cena que se apresenta como futuro próximo assinala necessidade de luta. Não entender esta urgência significa pôr em risco a própria vida.