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quarta-feira, 22 de julho de 2020

Além do Coronavírus, por Ladislau Dowbor (com introdução de Leonardo Boff)


Solidariedade-social - Creci-RJ

Ladislau Dowbor é um dos melhores economistas que temos, com experiência internacional, pensamento ecológico e forte sentido de justiça social em favor dos mais pobres e vulneráveis. Estamos bem instruídos pelos epimidiólogos e outros especialista, focando a dimensão da medicina, das técnicas,dos insumos e da busca frenética por uma vacina. Tudo isso é indispensável mas redutor. Não se fala do contexto que gerou o Covid=19, o sistema capitalista mundializado e entre nós, selvagem, pouco se refere à natureza e sua resposta contra nossa sistemática violência contra ela. Aqui Dowbor com linguagem simples e clara mas manejando os dados mais seguros nos mostra um outro lado do Coronavírus: o aprofundamento das desigualdades, o proveito que os financistas tiram da crise, sem qualquer senso de solidariedade com a humanidade sofredora; especialmente os mais beneficiados são os bancos, estes cruéis e sem piedade nas taxas de juros e na ganância de acumular mais e mais, atendendo às grandes empresas e se negando a emprestar a pequenas e médias, aquelas que trazem comida às nossas mesas e fazem circular o dinheiro. Tudo isso é desmascarado com inteligência e fácil compreensão por este conhecido economista, professor da PUC-SP e consultor de muitos grupos mundiais que pensam outra saída para a humanidade. Assim como estamos, já o afirmou muitas vezes Dolwbor, em seus artigos e livros,  vamos a encontro de um caminho do desastree de proporções inimagináveis. - LEONARDO BOFF                                        


Além do Corona Vírus         
Ladislau Dowbor

Não sou médico para comentar os aspectos epidemiológicos do vírus que nos assola. Mas algumas implicações sociais e políticas são óbvias. O primeiro ponto é que desde o golpe há uma fragilização generalizada das políticas sociais – e para efeitos de governança tudo começa já em 2013 com as manifestações, e com o boicote (“Dilma pode até ganhar, mas não irá governar”) e a inversão de prioridades em 2014 favorecendo o sistema financeiro. O teto de gastos, a perda de direitos trabalhistas, o retrocesso na Previdência, os ataques às organizações da sociedade civil, o congelamento do salário mínimo e do Bolsa Família e outras medidas tiveram como denominador comum o travamento da renda e do acesso aos bens de consumo coletivo pelo grosso da população, enquanto se expandia radicalmente o lucro dos bancos e dos grandes aplicadores financeiros.

Foi justamente isso o que paralisou a economia. Os números são claros. Na fase distributiva, entre 2003 e 2013, tivemos um crescimento médio do PIB da ordem de 4% ao ano, apesar da crise de 2008; e de lá para cá, tivemos uma queda do PIB da ordem de 3,5% em 2015 e 3,3% em 2016, seguido da paralisia, o fundo do poço onde nos encontramos, com crescimento em torno de 1% ao ano, o que descontando o crescimento demográfico implica que estamos parados no nível de uns 8 anos atrás. E tudo foi feito “para proteger o país do déficit” atribuído à irresponsabilidade de Dilma Rousseff que “devia ter aprendido que uma dona de casa tem de gastar apenas o que tem”. Para registro, anotem os déficits apresentados no Resultado Fiscal do Governo Central, entre 2012 e 2019. O déficit foi de R$ 61 bilhões (1,3% do PIB) em 2012, 111 em 2013, passando para 272 em 2014 (já com a reversão política), 514 em 2015, 478 em 2016, 459 em 2017, 426 em 2018, e 400 em 2019. Em suma: Joaquim Levy, Henrique Meirelles, Paulo Guedes ou quem seja viraram campeões de déficit, prejudicando seriamente a vida do grosso da população.

A questão é que esses recursos, que não foram investidos na população, tampouco entraram no governo – e se tivessem entrado teria equilibrado as contas –, mas não entraram e foram para algum lugar… Se vocês consultarem o site do Tesouro Nacional vão constatar que o governo tem transferido em juros, essencialmente para bancos e outros aplicadores financeiros, entre R$ 300 e 400 bilhões por ano, dinheiro que precisamente deixou de ir para educação, segurança e o SUS. Consultem a fonte, acessem http://www.tesouro.fazenda.gov.br/pt_PT/resultado-do-tesouro-nacional, cliquem em “Resultado Fiscal do Governo Central – Estrutura Nova”, e embaixo acessem a tabela 2.1. (Por alguma razão deslocaram recentemente os dados da tabela 4.1 para 2.1, vá lá entender). Vejam as linhas IX, X e XI, os números estão lá, discretos mas firmes, apontando a farsa. Aliás, a PEC 10/2020, a “da guerra”, desvincula gastos do controle, “exceto os recursos vinculados ao pagamento da dívida pública.” (Par. 6)

Não há nenhum mistério quanto à paralisia econômica. Quando se reduziu a capacidade de compra da população, as empresas tiveram de reduzir o ritmo de produção – hoje estão trabalhando com menos de 70% da capacidade – e demitir seus empregados. O desemprego dobrou e se mantém nas alturas, com apenas um pouco de recuperação no setor informal. Ao travar o consumo das famílias e a produção das empresas (que dirá do investimento empresarial, ninguém investe com tamanha insegurança) se reduz também os impostos pagos tanto sobre o consumo como sobre outras atividades econômicas. Aprofunda-se ainda mais o déficit, ferrando com a população e as empresas.

O teto de gastos foi apresentado como medida séria, de “austeridade”, e reduziu drasticamente a capacidades de ação do SUS. Para os que tomam as decisões e têm planos de saúde sofisticados (aliás outra forma de extorsão), não havia preocupação nenhuma em travar o SUS. Estão cobertos pelo Einstein e outros hospitais. Para o grosso da população, foi um desastre, reduzindo fortemente a capacidade pública e gratuita de atendimento. Isso impacta evidentemente a expansão do Corona Vírus, e eis que os grupos privilegiados descobrem que o vírus não foi informado sobre a diferença entre quem tem plano de saúde e quem tem SUS. Ferrar o sistema universal e gratuito de atendimento, facilita a expansão do vírus, e isso vai atingir diretamente a todos. Aliás, as elites que viajam são as que mais contribuíram para trazer o vírus para o país, mas a generalização da vulnerabilidade cria precisamente o que se chama Crise. E é o que estamos vivendo, com C maiúsculo.

O vírus Corona é de índole democrática. Não tem preferências de classe. Mas nós não somos democráticos. Os privilegiados têm sem dúvida mais meios de se proteger, com trabalho em casa pelo computador, com casa de campo, com amplos quartos que permitem evitar contatos diretos. Mas no conjunto a fragilização do sistema de saúde na massa da população agrava a vulnerabilidade do país como um todo.

Lições já estamos tirando, é um efeito indireto frequente quando surgem crises. De repente, nós lembramos que somos todos apenas seres humanos, com as mesmas vulnerabilidades, e fragilizar a saúde de uns gera tragédias para todos. E travar o Estado, em nome da “luta contra a corrupção”, quando se está desviando dinheiro do essencial (Saúde, Educação, Segurança…) para a acumulação financeira de milionários, constitui um escândalo sem tamanho que as pessoas estão começando a compreender.

A crise atinge a todos, ou quase. E neste momento (milagre!) os mesmos grupos que vieram “nos salvar” ao “nos proteger do Estado”, “enfrentar o déficit”, “privatizar bens públicos” se lembram precisamente da generosidade dos cofres públicos. Como em 2008, quando os desmandos dos bancos foram recompensados, pelo mundo afora, com o dinheiro público, no momento atual, o Estado volta a ser o salvador da pátria. São 6 trilhões de dólares nos Estados Unidos, 1 trilhão de reais no Brasil, outros tantos em diversos países.

É necessário? Sem dúvida, mas vem tarde, e vem muito deformado: migalhas para os assalariados. Conseguiu-se os 600 reais para um segmento da sociedade, por três meses, mal chega a 100 bilhões no conjunto, e o resto vai essencialmente para bancos. Lembrando que na nossa força de trabalho de 105 milhões de pessoas, temos 13 milhões de desempregados, 40 bilhões no setor informal, ou seja, a metade da nossa força de trabalho é desprotegida. No emprego formal privado temos apenas 33 milhões, menos de um terço da força de trabalho. Mesmo antes da crise atual a precariedade já era imensa. A massa de dinheiro público que vai para os bancos irá, como anunciado, ajudar as empresas e as famílias? Os bancos já reagiram, aumentam juros, dizem que precisam “evitar riscos”. E ficam com o dinheiro.

A meu ver, devemos juntar as forças para enfrentar o vírus, mas devemos também pensar que onde funciona, a saúde é pública, gratuita e universal, porque nesta área, as atividades públicas são muito mais eficientes do que o sistema privado. Nos Estados Unidos, o sistema é em grande parte privado, e custa 10.400 dólares por pessoa e por ano. No Canadá, onde é dominantemente público, atinge-se um nível de saúde muito superior com 4.400 dólares. O setor privado é ótimo para produzir hambúrguer, bicicletas, automóveis. Na saúde, educação, segurança, intermediação financeira e outros serviços essenciais de consumo coletivo, a privatização é uma desgraça. Vira indústria da doença, indústria do diploma, indústria da dívida. Sem falar das milícias.

O que temos pela frente, além do Corona vírus, é pensar uma sociedade mais solidária e resiliente, em cada país e em cada cidade.

Uma outra dimensão capaz de ultrapassar a pandemia e apontar novos rumos é o desafio da governança planetária. No caso do aquecimento global, por exemplo, estamos assistindo a uma catástrofe em câmara lenta, enfileirando reuniões internacionais em que se constata que… “temos de tomar providências”. Quais providências? As providências cabíveis. Quando? No momento oportuno. Por quem? Pelas autoridades competentes. E assim por diante, o velho discurso que conhecemos. Os governos até assinam compromissos com boa vontade, mas voltando para casa, eles se preocupam mais com a sobrevivência do seu mandato do que com a sobrevivência da humanidade.

As corporações sempre conheceram perfeitamente, muito antes de nós, o tamanho dos desastres que contribuem para gerar. As empresas de cigarro conheciam, por pesquisas internas, a expansão do câncer e os milhões de mortes que ocasionavam – e que continuam a ocasionar – enquanto o negavam publicamente. A Volkswagen conhecia perfeitamente o volume de emissões de partículas que seus carros produziam, e sabia que estava contribuindo com cerca de 6 milhões de mortes que esta poluição ocasionava anualmente no mundo. A British Petroleum conhecia a tecnologia de exploração de petróleo em águas profundas, mas dinheiro para os acionistas era mais importante.

A Vale sabe como se constrói uma simples barragem segura – somos um país que tem capacidade de construir uma Itaipu, mas aqui também os interesses financeiros dominaram. As empresas de petróleo e do carvão sabem há décadas que estão levando a economia mundial para o desastre. A lista aqui pode ser imensa, o denominador comum é que o rendimento das ações e o bônus do conselho de administração, e sempre no curto prazo, dominam. A partir de um certo número de níveis hierárquicos, a própria responsabilidade se dilui. Os desmandos convergem e se ampliam, mas as culpas se tornam abstratas enquanto os desastres se tornam sistêmicos.

Onde esses exemplos se cruzam com a presente pandemia? Na dimensão planetária dos desafios. A Europa está parando de produzir medicamentos porque depende de insumos da China e de outros países. Nos Estados Unidos, empresas param por falta às vezes de uma peça. A crise atual está nos fazendo tomar consciência de a que ponto somos hoje um sistema interligado e interdependente. Somos uma economia mundial, os seres humanos circulam freneticamente pelo planeta como milhões de formigas, o dinheiro imaterial circula na velocidade da luz sem controle provocando instabilidade generalizada, a informação se tornou uma commodity global, mas não temos governança planetária. Pelo contrário, predomina o oportunismo nefasto, que pode tomar a forma de exportação de lixo da Europa para a Ásia, de cobrança de níveis ridículos de impostos pela Irlanda (e tantos outros) para atrair empresas a qualquer custo, da manutenção de paraísos fiscais com soberania fictícia para favorecer transações ilegais e assim por diante.

Em outros termos, somos uma humanidade terráquea que se comporta politicamente como se o mundo do século XXI pudesse conviver com tribalismo político. Mas enquanto nos feudos europeus de antigamente os deslocamentos a cavalo e os massacres com espadas tinham limites físicos, não há limites neste planeta hiperconectado e interdependente, dotado de tecnologias de impacto global, e que ainda se mobiliza em torno a gritos nacionalistas, a ódios religiosos, a demagogos histéricos. Isso não funciona. Os países mais pobres estão fechando os seus portos aos navios com lixo dos países ricos, os países ricos estão se fechando por trás de cercas de arame farpado para se proteger dos pobres. Todos os países estão fechando suas fronteiras como se o Corona precisasse de visto de entrada! E a culpa pelo aquecimento global está sendo empurrada de um lado para outro. Cada um clama o seu direito soberano de defender os seus interesses a seu modo, ainda que o resultado sistêmico seja um desastre.

O que o Corona vírus nos lembra, ou praticamente esfrega na nossa cara, é que estamos realmente maduros para um sistema de soberania compartilhada e regulada no plano global. A ONU apresenta o Global Green New Deal, a OCDE negocia o acordo Base Erosion and Profit Shifting (BEPS) buscando assegurar primeiros passos na regulação fiscal e financeira do planeta, o World Inequality Database (WID) sistematiza os dados básicos sobre a rupturas sociais e econômicas, grandes corporações e grupos financeiros estão acenando com possíveis reorientações no seu comportamento, até Davos apela para evoluirmos da prioridade dos acionistas para as prioridades da sociedade e do meio ambiente (From Shareholders to Stakeholders). Um simples apelo do Papa para discutir uma outra economia, a Economia de Francisco, reúne pesquisadores de primeira linha mundial.

A crise global pode gerar – e apenas pode – um choque de bom senso. Confinado em casa, tenho todo o tempo de enfrentar as 1200 páginas de Capital e Ideologia, de Thomas Piketty, na edição francesa (ainda não saiu em português, mas está disponível em inglês). Raramente vi tanto bom senso organizado. O livro trata essencialmente do nosso principal drama, a desigualdade, e é um primor de realismo na análise e de clareza nas propostas. E me impressiona o leque de trabalhos de primeira linha que estão construindo uma nova visão de como a economia e a sociedade podem ser reorganizadas. O People, Power and Profits do Joseph Stiglitz, A Economia Donut de Kate Raworth, O Estado Empreendedor de Mariana Mazzucato, A Apropriação Indébita de Gar Alperovitz e Lew Daly, The Public Bank Solution de Ellen Brown, os trabalhos de Há-Joon Chang, de Marjorie Kelly, de Ann Pettifor, de Saez e Zucman, de Jeremy Rifkin, enfim, há uma revolução teórica em curso que está transformando a forma de analisarmos o que acontece no mundo. Uma nova visão está surgindo.

Não há dúvidas que continuamos nas poderosas mãos de gigantes corporativos, que os interesses financeiros se apropriam dos próprios governos, que populações frustradas pela política que não lhes serve votam em qualquer demagogo que lhes alimente o ódio. Mas tampouco há dúvidas de que as soluções estão na construção de novos pactos sociais, não apenas de preservar ou reconquistar o que já tivemos. É tempo de pensar caminhos.


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8 de abril de 2020
Ladislau Dowbor é professor de economia na PUC-SP e consultor de várias agências internacionais. Os seus trabalhos, inclusive resenhas dos livros mencionados, podem ser encontrados em http://dowbor.org
Versão atualizada do artigo
publicado pelo Le Monde Diplomatique.

domingo, 10 de maio de 2020

Sobre o exílio de nós mesmos, por Rômulo Moreira



Disse Brodsky que “um homem libertado não é um homem livre, e a libertação é apenas o meio de alcançar a liberdade, mas não seu sinônimo.”

Sobre o exílio de nós mesmos

por Rômulo Moreira

No outono de 1987, o poeta e dissidente russo Joseph Brodsky, escreveu, em um espaço curtíssimo de tempo entre um e outro, dois discursos que foram reunidos em um pequeno livro, cujo título – “Sobre o Exílio” –, diz muito de nós mesmos, seja porque trata do exílio (especialmente a primeira conferência: “A condição chamada exílio”), seja porque foram escritos no exílio (ambos).[1] O primeiro ensaio foi feito para ser lido numa palestra em Viena, na Wheatland Foundation, e o segundo foi o discurso que Brodsky pronunciou em Estocolmo, na Academia Sueca, quando recebeu o Prêmio Nobel de Literatura, naquele mesmo ano.
A condição chamada exílio”, o primeiro texto do livro, é uma bela reflexão acerca da condição do escritor que se encontra longe de sua terra e, nada obstante se tratar de um texto aparentemente escrito desde aquele ponto de vista, é possível, no decorrer da leitura, vermo-nos ali sendo retratados, de uma maneira ou de outra, ainda que se trate de uma experiência muito pessoal pela qual passava o escritor. Na verdade, é preciso que se veja o “exílio” ali retratado como (também) uma categoria metafísica, conforme, aliás, consta da apresentação da obra.
Brodsky, logo no início, observa que no século XX “o lugar-comum foi o desenraizamento e a inadequação”, comparando o escritor exilado com o refugiado político, ou mesmo com qualquer outro trabalhador migrante, identificando neles um traço comum: o fato de estarem sempre “fugindo do pior para o melhor, pois só é possível se exilar de uma tirania numa democracia.”
A atualidade desta afirmação vê-se com a tragédia que representa a crise de refugiados na Europa Ocidental, um drama humanitário vivido por centenas de milhares de seres humanos, oriundos principalmente da África e do Oriente Médio, que buscam desesperadamente (e muitos, em vão) chegar em um lugar seguro.
Ora, diz ele, se por um lado isso é bom (sair de uma tirania para uma democracia, passando a gozar de uma relativa segurança física), por outro lado, e sob outro aspecto, este novo ambiente acaba por torná-lo “socialmente insignificante”, o que representa, no caso específico do escritor, um sofrimento absurdo, pois, como ele próprio admite (desde o seu lugar de fala), “a busca de significância, muitas vezes, constitui o resto da carreira de um escritor, exilado ou não, pois um escritor satisfeito com a insignificância, a indiferença e o anonimato é coisa tão rara de se ver quanto um papagaio no polo Norte.”
E, ao cabo, quem estaria mesmo satisfeito com a sua própria insignificância, a indiferença dos outros, ou mesmo o anonimato? Afinal, “é claro que um escritor sempre pensa em si em termos póstumos.”
Por isso, em geral, a realidade do escritor exilado “consiste na luta e conspiração constante para recuperar sua significância, seu papel instigador, sua autoridade”, levando sempre em consideração, naturalmente, “o povo de sua terra de origem.”
Brodsky, já àquela época, notava que havia “escritores demais por leitor, e que o público alinhava-se, estatisticamente, pela normalidade e pela mediocridade: hoje, alguém entra em uma livraria como em uma loja de discos, lotada de gravações de grupos e solistas que não daria para ouvir nem durante uma vida inteira.”
Se esta observação era absolutamente pertinente já no final do século XX, hoje, passados vinte anos do século XXI, a realidade de outrora, bem constatada por Brodsky, ainda mais se tornou visível, e evidente está, certamente alimentada pela burrice e pela mediocridade que povoa o ambiente virtual e acadêmico.[2]
Brodsky também notou a extraordinária “capacidade da espécie humana de reverter e de retroceder, principalmente em sonhos e pensamentos – visto que neles geralmente estamos a salvo também –, qualquer que seja a realidade que estejamos enfrentando.” Afinal, o passado, “sendo agradável ou sombrio, sempre é um território seguro, quando menos porque já é conhecido.”
E esta capacidade – que é só nossa – foi desenvolvida, menos para “acalentarmos ou recuperarmos o passado”, e mais “para adiarmos a chegada do presente”, ou seja, no fundo no fundo, o que queremos mesmo é “retardar a passagem do tempo”, como Fausto, de Goethe, que “se prende ao seu belo instante (ou não tão belo), não para o contemplar, mas para postergar o subsequente.”
(Falando do tempo – e do passar do tempo… -, lembrei-me de Françoise que, ao responder à Srª. Octave, a tia de Marcel (o narrador), disse-lhe: “Meu tempo não é assim tão caro; quem fez o tempo não o vendeu para a gente.”).
O escritor, exilado ou não, na verdade, “precisa contar ao seu leitor (que pensa conhecer tudo), algo que lhe seja qualitativamente novo sobre ele e sobre o mundo dele.” Assim, “em certo sentido, todos nós trabalhamos para um dicionário, afinal a natureza é um dicionário, um compêndio de sentidos para este ou aquele homem, para esta ou aquela experiência.”
E, na medida de suas possibilidades, “tendo oportunidade, temos que deixar de ser apenas os efeitos resultantes na grande cadeia causal das coisas e tentar agir nas causas”, sejamos ou não escritores, pois, “para cada um de nós se oferece uma única vida, e sabemos muito bem como isso tudo termina.”
Em outras palavras: a contemporaneidade exige de todos (e de todas) uma atuação afirmativa no sentido de restabelecer a ordem das coisas, a democracia substancial, o vigor das liberdades públicas, a vergonha dos governantes, o respeito às pessoas, o bem-estar social e a dignidade da nação.
Lembremos, então, falando de contemporaneidade, da poesia de Osip Mandel’stam (“O século” ou “Época”), citada por Agambem:
Meu século, minha fera, quem poderá olhar-te dentro dos olhos,
e soldar com o seu sangue as vértebras de dois séculos?[4]
Disse Brodsky que “um homem libertado não é um homem livre, e a libertação é apenas o meio de alcançar a liberdade, mas não seu sinônimo.” Assim, “se quisermos desempenhar um papel maior, o papel de um homem livre, então deveríamos ser capazes de aceitar – ou pelo menos imitar – a maneira como um homem livre fracassa, e um homem livre, quando fracassa, não culpa ninguém.”
Ao final deste primeiro discurso, Brodsky considera que se havia “algo de bom no exílio era o fato de ensinar a humildade, lição suprema dessa virtude.”
Em tempos de quarentena, de isolamento social e de lockdown, e considerando o exílio como uma categoria metafísica (como referido acima), eis uma boa lição para aprendermos.
No outro texto reunido, Brodsky, no início do seu pronunciamento na Academia Sueca, afirmou que “não é a conduta no pódio que dá a medida da nossa dignidade profissional.”
Eis um grande exemplo em tempos de vaidades imensas e de pavonadas ridículas!
Aqui, ao receber o Prêmio Nobel, alertou para a importância da literatura em nossa vida, pois “um homem com bom gosto, especialmente literário, é menos suscetível aos encantos e amarras de qualquer versão da demagogia política.”
Brodsky também teorizou acerca do sistema político – e o fez em várias outras vezes -, afirmando ser a “forma do passado que aspira a se impor sobre o presente (e, por vezes, sobre o futuro também); e o homem cuja profissão é a linguagem é o último que pode se dar ao luxo de se esquecer disso.”
Ademais, “quanto mais substancial é a experiência estética de um indivíduo, mais sólido é seu gosto, mais afiado é seu foco moral, portanto, mais livre ele é, mesmo que não seja necessariamente mais feliz.”
Sobre a função da leitura em geral, e do livro em especial, ele afirmou ter “a impressão de que um livro é mais confiável que um amigo ou um amantepois um romance, ou um poema, não é um monólogo, é uma conversa deveras privada entre o escritor e o leitor, da qual se exclui todo o resto do mundo.” Eis porque “o romance ou o poema é o produto de uma solidão mútua – do autor ou do leitor, constituindo-se num meio de transporte pelo espaço da experiência, na velocidade do passar de uma página.
Sobre o poeta, e sobre o fazer um poema, disse ele “que escrever versos é um extraordinário acelerador da consciência, do pensamento, da compreensão do universo, e aquele que experimenta essa aceleração uma vez, não consegue mais abandonar a chance de repetir essa experiência, caindo numa dependência, como outros o fazem com drogas e álcool.
Então, ele define o poeta como sendo justamente “aquele que se encontra nesse tipo de dependência da linguagem, que é mais duradoura que o homem, e mais do que ele é capaz de mutação.”
Para Brodsky “a pior da violações é a de não ler livros e por esse crime paga-se por toda a vida, e quando o violador é a nação, ela paga com sua história.”
Ao que parece, vive-se no Brasil exatamente este risco, povoado que estamos por uma pletora de analfabetos e estúpidos, desde os de cima.[5]
Rômulo de Andrade Moreira – Procurador de Justiça no Ministério Público do Estado da Bahia e Professor de Direito Processual Penal na Faculdade de Direito da Universidade Salvador – UNIFACS
[1] BRODSKY, Joseph. Sobre o exílio. Belo Horizonte: Editora Âyné, 2016. Brodsky, expulso da União Soviética, chegou aos Estados Unidos para dar aulas na Universidade de Michigan em 1972, e nunca mais voltou para a sua terra, morrendo em Nova York, em 1996, já cidadão americano.
[2] É conhecida a declaração feita pelo escritor e filósofo italiano Umberto Eco “que as redes sociais deram o direito à palavra a uma legião de imbecis que antes falavam apenas em um bar e depois de uma taça de vinho, sem prejudicar a coletividade.” Esta afirmação foi dada em um evento no qual ele recebeu o título de doutor honoris causa em comunicação e cultura na Universidade de Turim, em 10 de junho de 2015. Disse Eco, então: “Normalmente, eles (os imbecis) eram imediatamente calados, mas agora eles têm o mesmo direito à palavra de um Prêmio Nobel. A TV já havia colocado o idiota da aldeia em um patamar no qual ele se sentia superior. O drama da internet é que ela promoveu o idiota da aldeia a portador da verdade.” (Disponível em: . Acesso em: 09 de maio de 2020).
[3] PROUST, Marcel. Em busca do tempo perdido, Volume I. Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, 2016, p. 63.
[4] AGAMBEM, Giorgio. O que é o contemporâneo? E outros ensaios. Chapecó: Editora Argos, 2009, p. 60.
[5] Uma vez, Pablo Neruda, de longe, escreveu um poema pensando em nós: “Quantas coisas quisera eu dizer hoje, brasileiros, quantas histórias queria eu contar-lhes, quantas lutas, desenganos, vitórias que carrego por anos no meu coração para lhes dizer, pensamentos e saudações. Saudações das neves andinas, saudações do Oceano Pacífico, palavras que os trabalhadores, os mineiros, os pedreiros, todos os habitantes de minha distante terra natal me disseram quando passaram. Vou lhes dizer que não guardas ódio. Que só quer que sua pátria viva. E que a liberdade cresça nas profundezas do Brasil, como uma árvore eterna. Eu gostaria de lhe dizer, Brasil, muitas coisas calmas, realizadas nestes anos entre a pele e a alma, sangue, dores, triunfos, o que os poetas e o povo devem dizer um ao outro: será novamente, um dia.” (NERUDA, Pablo. Canto General. Chile: Pehuén Editores, 2014, p. 174, numa tradução livre).

domingo, 12 de abril de 2020

Papa Francisco propõe cessar-fogo mundial e anulação da dívida dos países pobres para enfrentar pandemia




PUBLICADO NA RFI
O papa Francisco pediu neste domingo de Páscoa (12), data em que a Igreja Católica celebra a ressurreição de Jesus Cristo, um cessar-fogo mundial e imediato para combater a pandemia do coronavírus.
Ele fez um apelo para que a Europa se mostre solidária e adote soluções inovadoras para enfrentar essa crise sanitária inédita. Francisco também propôs “reduzir” ou “anular” as dívidas dos países pobres.
No interior da Basílica de São Pedro totalmente esvaziada de fiéis, o chefe da Igreja Católica iniciou a leitura de sua mensagem de Páscoa, que é transmitida pela TV e por streaming aos católicos do mundo todo. Francisco lançou um apelo à redução das sanções internacionais, para ajudar os países a enfrentarem a crise da Covid-19.

sábado, 11 de abril de 2020

Silêncio de Deus, por Roberto E. Zwetsch


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Hoje estamos irmanados na dor da paixão e do luto de milhares de pessoas que viveram e sofreram a solidão radical, em termos teológicos, o silêncio de Deus.



Silêncio de Deus

por Roberto E. Zwetsch, no GGN

Hoje – 10 de abril de 2020 – é dia de luto e de silêncio segundo a mais antiga tradição cristã. É o dia da paixão e morte de Jesus de Nazaré, nosso Senhor e Salvador. Dia de silêncio e reflexão. De ausência de qualquer fio de esperança ou alegria. Dia das trevas como se proclama ao final da celebração do Tríduo Pascal para a sexta-feira santa. Este dia é tão importante que na tradição do catolicismo romano é o único dia em que os padres não celebram a eucaristia. Definitivamente, é um dia incomparável. 
Quando criança, lembro que este era um dia estranho para nós. Normalmente, feriado era dia de correr, de brincar, de festa. Mas neste feriado tudo era diferente. Em casa, meu pai e minha mãe exigiam silêncio das crianças. Parece que até os cães, gatos e galinhas entendiam. E mesmo as rádios na época mudavam sua programação. Os locutores falavam de forma mais controlada, contrita e as músicas eram orquestradas, algumas rádios com programação escolhida de música clássica com os temas da paixão de Cristo e do evento da cruz.
No mundo da globalização neoliberal, tudo mudou. Não existe mais tempo sagrado ou tempo litúrgico voltado ao silêncio e à reflexão. Tudo é frenético e vertiginoso. As músicas das rádios, TVs e tantos outros aparelhos que hoje estão nas mãos das pessoas em qualquer lugar não respeitam dias, liturgias, credos, memórias. Porque hoje o credo é um só: crescer, ganhar dinheiro, usufruir, buscar prazer sem limite. Claro que este credo é uma ilusão. Mas como todo falso credo, também este encontra seus limites, sua finitude, seu espelho mau. E este acaba de nos deixar estarrecidos e sem fala. Mudos. Hoje estamos de luto. Um luto extraordinário, um luto universal!
Pois, neste 10 de abril de 2020 o mundo e não só o Brasil está de luto. E não apenas porque hoje é o dia da memória da paixão de Jesus, o profeta de Nazaré, o Inocente condenado pelo Império, torturado e morto numa abjeta e maldita Cruz, como milhares de outros que ousaram opor-se à dominação romana de então.
  Não! Hoje é dia de paixão e luto no mundo inteiro porque já foram contaminados mais de 1,5 milhão de pessoas pelo coronavírus Covid-19, das quais 88.338 já morreram, enquanto apenas 328.661 foram curadas. Hoje e pelos próximos dias, meses e quem sabe quanto mais tempo, estaremos de luto permanente e sem dia marcado para acabar. Esta é a nossa paixão. Não apenas a paixão de Cristo, mas a paixão do mundo, a cruz do vírus que atingiu de forma fatal o mundo inteiro, abalando o sistema mundial das mercadorias e do dinheiro que se julgava forte, inexpugnável, sólido, sem limites. O sistema está em frangalhos e todos haveremos de sofrer, e como é sabido, uns mais outros menos. 
Hoje caímos na real, como costumam dizer os jovens em sua linguagem precisa e sem sofisticação. Hoje estamos todos de luto. E quem acha que está fora dessa, desça do ônibus da história, pois seu lugar é em outro mundo. Neste mundo em que vivemos aqui no Brasil, na China, na Europa, no Reino Unido, nos EUA ou no Equador, todos estamos de luto e assim viveremos por meses a fio. Esta é a solidariedade incomum que nos irmana, queiramos ou não. Algo grandioso e incontrolável se abateu sobre nós como uma clava, como uma tempestade, como uma hecatombe, maior do que todas as anteriores guerras ou catástrofes que ceifaram milhões de vidas. A partir deste tempo da nossa paixão, nós, habitantes deste pequeno planeta que gira no espaço sideral, por justiça, deveremos marcar em nossa memória que o dia 10 de abril de 2020 foi um dia em que a morte de Jesus na Cruz deixou de ser apenas um feriado litúrgico cristão. Este dia nos coloca frente à paixão do mundo, à paixão de centenas, de milhares de pessoas, de países inteiros que choram, gritam, clamam porque seus cidadãos, suas pessoas queridas estão mortas e na sua maioria não puderam sequer receber uma despedida humana decente, digna, honrosa. É a morte na sua mais absoluta crueza e sem enfeites.
Porque neste 10 de abril de 2020 as pessoas morrem na mais absoluta solidão. Esta é a experiência que desgraçadamente milhares de pessoas, mais de 80 mil pessoas no mundo, tiveram que sofrer. Só elas podem entender o que o profeta de Nazaré passou, sofreu e pelo qual gritou na cruz: “Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?” (Marcos 15.34). A tradição cristã dos evangelhos é muito estrita e cuidadosa nas páginas dedicadas à paixão e morte de Jesus. As descrições da crucificação são de uma simplicidade popular que surpreende a qualquer pessoa mais piedosa. As narrativas não enfeitam nem exageram. Limitam-se a descrever da forma mais realista e direta possível. O Evangelho de Marcos, o mais antigo entre os quatro evangelhos, fonte para os demais, no capítulo 15, por exemplo, dedica alguns versículos para narrar a crucificação e a morte de Jesus, menos de uma página. E este é o evento-fonte da narrativa cristã. Que depois se completa, evidentemente, com a narrativa da ressurreição, também ela sucinta e focada justamente no testemunho das mulheres do movimento de Jesus, em especial, Maria Madalena, a mulher de quem Jesus expelira sete demônios, e que se tornou a primeira a ter um encontro com o Ressuscitado. 
Na cruz de sua paixão Jesus gritou em sua língua, o aramaico: Eloí, Eloí, lamá sabactâni, que traduzido quer dizer: Meu Deus, meu Deus, por que me desamparaste? Este é o drama humano do filho de Deus. Ele, que era Deus, sentiu a solidão radical, o total desamparo, a ausência, o silêncio de Deus. Nós como seguidores e seguidoras deste Jesus Libertador talvez nunca vamos entender suficientemente esta experiência do silêncio de Deus, a não ser que enfrentemos – como as pessoas que hoje sofrem moribundas nas UTIs dos hospitais e que se encontram à beira da morte – esta solidão impossível de explicar, a solidão e o silêncio de Deus
É procurando me colocar na pele dessas pessoas que fico a pensar que este tempo da paixão de Cristo de abril de 2020 nos confronta com algo que jamais poderíamos ter imaginado antes. É que estamos irmanados no mundo globalizado não pela sua riqueza, nem pela mais sofisticada tecnologia que nos permite acompanhar on line a desgraça do mundo. Nada disso! Hoje estamos irmanados na dor da paixão e do luto de milhares de pessoas que viveram e sofreram a solidão radical, em termos teológicos, o silêncio de Deus. E no luto que estas mortes provocam, estamos irmanados com suas famílias, que choram a perda de pessoas queridas que não mais podem abraçar, beijar, consolar. Talvez como nunca antes temos as reais condições de avaliar e refletir sobre a oração da Cruz na qual Jesus recupera sua tradição mais antiga ao citar o Salmo 22, onde aquele grito está registrado por um outro sofredor. Logo depois, no mesmo Salmo, a pessoa inocente clama: “Deus meu, clamo de dia e não me respondes; também de noite, porém não tenho sossego”. Deus se calou. Deus não diz uma só palavra! Este é o silêncio de Deus que Jesus sentiu e que o levou – na Cruz do Império – à morte. Não há consolo, não há luz. Apenas a treva da morte radical e sem sentido.
Sabemos – pela experiência e por fé – que esta história não terminou assim. E a madrugada do domingo mudou tudo, sem que isto fossem favas contadas. Não para Jesus! Mas enquanto a narrativa cristã nos consola e enche de esperança com a notícia da Ressurreição, com a notícia de que a Vida vence a Morte, e nisso cremos e colocamos toda nossa esperança e compromisso pela justiça neste mundo, enquanto isso, dizia, hoje ainda não podemos cantar como na tradição. Temos de ser solidários com as milhares de vítimas fatais da Covid-19. Precisamos juntar toda a força de nossa fé, solidariedade, oração e amor para aguentar o luto e a ausência dessas pessoas queridas que foram cremadas ou sepultadas nesses dias e das muitas que ainda o serão por muitos e muitos dias. Esta é a nossa contribuição neste dia da paixão de Jesus, centro da fé cristã. Pois nós não cremos num herói vencedor, mas no Crucificado. Este é o centro da fé libertadora. Somente o Crucificado venceu a morte. Somente ele ressuscitou, verdadeiramente ressuscitou, como cantamos no domingo da Páscoa. E é este Crucificado que se identifica no mais profundo abismo com cada pessoa falecida, como afirmamos no Credo. E é ele que nos convoca para o bom combate da fé e da luta por justiça neste mundo mau e injusto. Por isto a fé no crucificado não é passiva, mas é ativa e comprometida com a luta pela vida em todo o lugar onde esta vida é destruída de tantas formas.
Mas antes de cantarmos a glória da madrugada feliz, há que aguentar firmes e solidários o luto e o silêncio de Deus. Esta é a paradoxal fé cristã. Somente assim seremos fieis ao Cristo da Cruz, à paixão do Senhor que nos precedeu na morte para que também nós e todas as pessoas recebam a graça da Vida plena, a vida que somente Deus nos pode conceder. A graça da ressurreição! Mas nunca antes do silêncio de Deus.
Roberto E. Zwetsch – Teólogo, professor associado de Faculdades EST, em São Leopoldo, RS, pastor luterano.

quinta-feira, 2 de abril de 2020

Cientistas mostram como criar um mundo colaborativo. Mas os neoliberais, como Guedes e os terraplanistas olavistas, vão deixar?



Vários cientistas disseram que a comparação mais próxima a esse momento pode ser a altura da epidemia de Aids nos anos 90, quando cientistas e médicos travaram os braços para combater a doença.



Cientistas mostram como criar um mundo colaborativo


Por Luis Nassif, reproduzindo o The New York Times


Do The New York Times

Segundo os cientistas, nunca antes tantos pesquisadores do mundo se concentraram com tanta urgência em um único tópico. Quase todas as outras pesquisas foram interrompidas.
Cientistas franceses trabalhando em amostras de pacientes potencialmente infectadas no Instituto Pasteur, em Paris, em fevereiro. Crédito … Francois Mori / Associated Press
Usando memes com bandeiras e terminologia militar , o governo Trump e seus colegas chineses colocaram a pesquisa sobre coronavírus como imperativos nacionais , provocando discussões sobre uma corrida armamentista biotecnológica .
Os cientistas do mundo, na maioria das vezes, responderam com um rolo de olho coletivo.
“Absolutamente ridículo”, disse Jonathan Heeney, pesquisador da Universidade de Cambridge que trabalha com uma vacina contra o coronavírus.
“Não é assim que as coisas acontecem”, disse Adrian Hill, chefe do Instituto Jenner em Oxford, um dos maiores centros de pesquisa de vacinas de uma instituição acadêmica.
Embora os líderes políticos tenham bloqueado suas fronteiras, os cientistas os estão quebrando, criando uma colaboração global diferente de qualquer outra história. Os pesquisadores dizem que nunca antes, tantos especialistas em tantos países se concentraram simultaneamente em um único tópico e com tanta urgência. Quase todas as outras pesquisas foram interrompidas.
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Imperativos normais como crédito acadêmico foram deixados de lado. Os repositórios online disponibilizam estudos meses antes das revistas. Os pesquisadores identificaram e compartilharam centenas de sequências genômicas virais. Mais de 200 ensaios clínicos foram lançados, reunindo hospitais e laboratórios em todo o mundo.
“Nunca ouço cientistas – cientistas verdadeiros, cientistas de boa qualidade – falarem em termos de nacionalidade”, disse Francesco Perrone, que lidera um teste clínico de coronavírus na Itália. “Minha nação, sua nação. Minha lingua, sua lingua Minha localização geográfica, sua localização geográfica. Isso é algo muito distante dos verdadeiros cientistas de nível superior. ”
Em uma manhã recente, por exemplo, cientistas da Universidade de Pittsburgh descobriram que um furão exposto a partículas do Covid-19 havia desenvolvido febre alta – um avanço potencial para testes de vacinas em animais. Em circunstâncias comuns, eles teriam começado a trabalhar em um artigo de periódico acadêmico.
“Mas você sabe o que? Haverá tempo de sobra para publicar artigos ”, disse Paul Duprex, virologista que lidera a pesquisa de vacinas da universidade. Em duas horas, ele disse, ele compartilhou as descobertas com cientistas de todo o mundo em uma teleconferência da Organização Mundial da Saúde. “É bem legal, né? Você acaba com a porcaria, por falta de uma palavra melhor, e começa a fazer parte de uma empresa global. ”
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Para Trump, o descaradamente presidente da America First, Dr. Duprex e outros cientistas americanos representam a melhor esperança do mundo para uma vacina. “A América fará isso!” o presidente declarou .
Mas tentar costurar um rótulo “Feito nos EUA” em pesquisas científicas fica complicado.
O laboratório do Dr. Duprex em Pittsburgh está colaborando com o Instituto Pasteur em Paris e com a empresa farmacêutica austríaca Themis Bioscience. O consórcio recebeu financiamento da Coalition for Epidemic Preparedness Innovation, uma organização norueguesa financiada pela Fundação Bill e Melinda Gates e um grupo de governos, e está conversando com o Serum Institute of India, um dos maiores fabricantes de vacinas do mundo. o mundo.
Pesquisadores de vacinas em Oxford recentemente fizeram uso de resultados de testes em animais compartilhados pelo Laboratório das Montanhas Rochosas do Instituto Nacional de Saúde, em Montana.
Separadamente, o centro francês de pesquisa em saúde pública Inserm está patrocinando ensaios clínicos em quatro medicamentos que podem ajudar a tratar pacientes com Covid-19. Os ensaios estão em andamento na França, com planos de expansão rápida para outros países.
De certa forma, a resposta do coronavírus reflete uma comunidade médica que tem escopo internacional há muito tempo. No Hospital Geral de Massachusetts, uma equipe de médicos de Harvard está testando a eficácia do óxido nítrico inalado em pacientes com coronavírus. A pesquisa está sendo realizada em conjunto com o Hospital Xijing na China e um par de hospitais no norte da Itália. Os médicos desses centros colaboram há anos.
Mas o coronavírus acendeu a comunidade científica de maneiras que nenhum outro surto ou mistério médico havia antes. Isso reflete o escopo da pandemia e o fato de que, para muitos pesquisadores, a zona quente não é mais uma vila empobrecida no mundo em desenvolvimento. São as suas cidades natais.
“Isso está tocando em casa”, disse o professor Hill, de Oxford. Ele trabalhou em vacinas para o Ebola, malária e tuberculose, doenças que foram mais prevalentes na África. “Mas para Covid, está acontecendo bem aqui.”
Vários cientistas disseram que a comparação mais próxima a esse momento pode ser a altura da epidemia de Aids nos anos 90, quando cientistas e médicos travaram os braços para combater a doença. Mas a tecnologia de hoje e o ritmo do compartilhamento de informações superam o que era possível três décadas atrás.
Na prática, os cientistas médicos hoje têm pouca escolha a não ser estudar o coronavírus, se quiserem trabalhar. A maioria das outras pesquisas de laboratório foi suspensa por causa do distanciamento social, bloqueios ou restrições do trabalho em casa.
No Hospital Geral de Massachusetts, uma equipe de médicos de Harvard está testando a eficácia do óxido nítrico inalado em pacientes com coronavírus. Crédito: Michael Dwyer / Associated Press
A pandemia também está corroendo o segredo que permeia a pesquisa médica acadêmica, disse o Dr. Ryan Carroll, professor de Harvard Medical que está envolvido no teste de coronavírus no local. Pesquisas grandes e exclusivas podem levar a doações, promoções e posse de propriedade. Por isso, os cientistas costumam trabalhar em segredo, acumulando dados suspeitos de possíveis concorrentes, disse ele.
“A capacidade de trabalhar em colaboração, deixando de lado o seu progresso acadêmico pessoal, está ocorrendo agora porque é uma questão de sobrevivência”, disse ele.
Uma pequena medida de abertura pode ser encontrada nos servidores do medRxiv e do bioRxiv, dois arquivos online que compartilham pesquisas acadêmicas antes de serem revisadas e publicadas em periódicos. Os arquivos foram inundados por pesquisas com coronavírus de todo o mundo. Apesar do tom nacionalista estabelecido pelo presidente chinês, Xi Jinping, os pesquisadores chineses contribuíram com uma parte significativa da pesquisa sobre coronavírus disponível no arquivo.
Embora as autoridades chinesas inicialmente tenham encoberto o surto e desde então o tenham usado para fins de propaganda , os cientistas chineses lideraram de várias maneiras a pesquisa mundial de coronavírus. Um laboratório chinês tornou público o genoma viral inicial em janeiro, uma divulgação que serviu de base para os testes de coronavírus em todo o mundo. E alguns dos ensaios clínicos mais promissores da atualidade podem traçar suas origens nas primeiras pesquisas chinesas sobre a doença.
Poucas áreas do mundo foram poupadas. No ano passado, Jamal Ahmadzadeh, epidemiologista da Universidade Urmia, no Irã, alertou que o mundo precisava de um sistema de alerta rápido em resposta ao MERS, outro coronavírus. Nenhum país estava imune ao risco, escreveu ele. Em um e-mail na semana passada, quando o Irã enfrentou um dos piores surtos de coronavírus do mundo, ele escreveu que derrotar o vírus exigia o compartilhamento de informações entre laboratórios e além-fronteiras.
Até cientistas que trabalham em campos além de doenças infecciosas foram atraídos para o esforço. O Dr. Perrone, que supervisiona um ensaio clínico italiano do medicamento imunossupressor tocilizumab, é especialista em câncer. Ele está envolvido por causa de sua experiência na condução de ensaios clínicos para o Instituto Nacional do Câncer, em Nápoles.
O Dr. Perrone disse que a pandemia de coronavírus pode tornar a ciência médica mais ágil, muito depois da emergência. Dez dias depois que os pesquisadores conceberam o estudo, o processo normalmente trabalhoso de aprovação do governo foi concluído e os médicos começaram a registrar pacientes, disse ele. “Isso deve ser uma lição para o futuro”, disse ele.
Embora Trump tenha elogiado as proezas farmacêuticas americanas, e grandes empresas farmacêuticas como Pfizer e Johnson & Johnson tenham anunciado que estão financiando a pesquisa de vacinas contra o coronavírus, as maiores empresas farmacêuticas se concentram em medicamentos que podem vender ano após ano em países ricos, não durante períodos curtos. crises vividas centradas no mundo em desenvolvimento. A pesquisa de vacinas tem sido vista como insuficientemente lucrativa.
Quando o Ebola capturou a atenção do mundo em 2014, por exemplo, os gigantes da droga que perseguiram uma vacina sofreram grandes perdas em seus investimentos. A primeira vacina, originalmente criada por um laboratório do governo canadense e agora vendida pela Merck, foi aprovada para venda no ano passado, muito depois que a epidemia desapareceu.
“Claro que existem pessoas em competição. Essa é a condição humana ”, disse o Dr. Yazdan Yazdanpanah, diretor de doenças infecciosas da Inserm na França. “O importante é encontrar uma solução para todos. A maneira de conseguir isso é colaborar. ”