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domingo, 15 de agosto de 2021

Centenário de Dom Paulo Evaristo Arns é alento para resistência diante do nazifascismo golpista em ação atualmente. ‘País está despencando pelo precipício’, afirma ex-ministro

 

A um mês dos 100 anos do cardeal, ativistas e entidades se organizam e destacam o legado do religioso, que morreu em 2016

CNBB
Cardeal completaria 100 anos no mês que vem. Tornou-se símbolo do movimento pelos direitos humanos e da resistência ao autoritarismo

São Paulo – A um mês do centenário de dom Paulo Evaristo Arns, algumas pessoas que conviveram com ele se reuniram para falar de seu legado, recordar histórias e enfatizar a necessidade de manter a mobilização no atual momento do Brasil. “Nós temos que seguir o legado dele, temos que lutar pelos direitos humanos, pela democracia, que está em risco”, afirmou o ex-ministro e ex-secretário estadual (de São Paulo) de Justiça, José Carlos Dias, atual presidente da Comissão Arns. Para ele, “o país está despencando pelo precipício, com pessoas absolutamente inconsequentes”. E citou Bolsonaro, o “presidente (que) se distrai andando de moto enquanto as pessoas morrem”.

Advogado de presos políticos durante a ditadura e também integrante da Comissão Nacional da Verdade, Dias participou ontem (10) à noite de encontro virtual sobre dom Paulo, que completaria 100 anos em 14 de setembro. Ele morreu em dezembro de 2016, aos 95. Também estavam na live, apresentada pelo jornalista Juca Kfouri, a ativista Margarida Genevois – que recentemente ganhou biografia, escrita pelo jornalista Camilo Vannuchi – e o presidente do Conselho do Instituto Vladimir Herzog (IVH), Ivo Herzog.

Perseguidos políticos

Na conversa, Dias lembrou da formação da Comissão Justiça e Paz (CJP), na Arquidiocese de São Paulo. Ele recebeu convite para participar de reunião na residência do cardeal – “Uma casa modesta na rua Mococa, no Sumaré” – com outros advogados, como Dalmo Dallari, Fabio Konder Comparato, Mári Simas, José Gregori, Hélio Bicudo. “Dom Paulo falou da necessidade de ter um grupo de pessoas que pudesse dar apoio a ele na defesa dos direitos humanos e protegendo aqueles perseguidos políticos”, recorda. “Foi uma conversa tensa, mas muito forte, que mexeu com cada um de nós.”

Outra lembrança foi de uma viagem a Brasília, ao lado do cardeal-arcebispo, para uma reunião com várias famílias de presos políticos. Eles iriam se encontrar com o então poderoso ministro Golberi do Couto e Silva. “Chega Golberi, ele senta, aí dom Paulo fala: ‘Ministro, estas pessoas que aqui estão vão dar testemunho de violência praticada contra pessoas de sua família. Quero que o senhor ouça”. Então aconteceu um fato impressionante: o Golberi chorou. E disse: eu me comprometo a tentar achar essas pessoas. Claro que isso ficou só na promessa. Mas foi uma cena que eu guardo presente na minha lembrança de uma forma indelével.”

Paz, liberdade, respeito, democracia

Ivo Herzog conheceu dom Paulo quando criança, em circunstância triste: no ato ecumênico em memória de seu pai, morto sob tortura no DOI-Codi paulista em outubro de 1975. Lembra-se dele “acolhendo minha mãe, que tinha acabado de perder o marido, dois filhos pequenos… Sempre me senti muito acolhido por ele.”

Quando surgiu a proposta de criar o IVH, Ivo foi com a mãe, Clarice, e com o jornalista Ricardo Carvalho visitar o já “aposentado” cardeal, em Taboão da Serra, na Grande São Paulo. Dom Paulo, conta, já tinha ideias na cabeça sobre a futura entidade. “O instituto tinha que promover a paz, a liberdade, o respeito e a democracia. Essa é a nossa missão até hoje, contra essa cultura estabelecida de ódio e violência.”

Não se pode esquecer

Margarida conta que conheceu dom Paulo por meio de convite feito por Comparato, que a convidava para integrar a CJP. Ela não sabia do que se tratava, e foi com o jurista para uma reunião com o cardeal. “Uma casinha pequena, modesta, um piso só, um portãozinho mínimo…” A reunião foi na cozinha, um lugar mais discreto da casa. Durante duas horas, ouviu relatos de prisões, torturas, desaparecimentos. “Eu nem desconfiava que aquilo fosse possível. Era proibido falar disso no jornal. A quem recorrer?” Depois de formada a comissão, “as pessoas contavam seus dramas, suas angústias, procurando as pessoas da família que tinham desaparecido”, recorda.

Uma dessas famílias era do atual presidente da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), Felipe Santa Cruz. “Eu me lembro dele, pequenininho, devia ter uns 2 anos, nos braços da mãe.” O pai do advogado, Fernando Santa Cruz Oliveira, militante político, desapareceu durante a ditadura.

Margarida lamenta que os jovens atualmente não se interessem tanto pelo assunto, pelas memórias desse tempo. “E isso me machuca muito, sabe? É preciso não esquecer essas dramas que vivemos”, pediu.

Assista ao encontro sobre o legado de Dom Paulo:

terça-feira, 7 de abril de 2020

Tocantes reflexões e posicionamento de Lima Duarte diante desta época de pandemia e trevosa imbecilidade nazista-fascista-bolsonarista-morista-olavista. Seguido do texto "Os Novos Isentos e a Crise Mundial", de Marcelo Guimarães Lima

Falar da velhice não é fácil', diz Lima Duarte - Aqui Notícias

Tocante e proundo, assistam, escute o vídeo até o fim.... Leiam o texto indicado por Lima Duarte abaixo do vídeo. E por favor, REFLITAM!


Do Canal de Jandira Feghali:



OS NOVOS ISENTOS E A CRISE MUNDIAL


Marcelo Guimarães Lima


Aqueles que apoiaram Bolsonaro, ativa ou passivamente, nas eleições passadas, principalmente os membros da classe média brasileira, tem hoje uma curiosa reação ao mais que evidente impasse nacional e ao papel do líder da extrema direita brasileira na gênese e no agravamento da crise social, política e econômica no Brasil, refletindo a realidade da crise do sistema mundial hoje.

Quando o tema é a incompetência, a enorme ignorância e vulgaridade e, digamos diretamente, a agressividade, a maldade destrutiva antinacional e antipopular do amigo e protetor de milicianos, hoje no papel que lhe foi confiado de representante dos interesses da classe dominante brasileira, os recém-convertidos “isentões” tentam por todos os meios mudar de assunto.

Discorrem em termos genéricos sobre a gravidade do momento e protestam contra uma suposta “fulanização” da crise, contra a polarização, na qual tiveram parte ativa consumindo e replicando com satisfação os ataques constantes da mídia monopolizada do Brasil a Lula e Dilma, ao “PT” genérico, aos “comunistas” em geral, sendo alimentados e alimentando a histeria oportunista e reacionária, as aberrações lógicas e éticas que, naturalizadas pela televisão, os jornais e parte das redes sociais, passaram a ser a atmosfera cotidiana da vida no país, preparando e consolidando o golpe de 2016.

Face ao desastre longamente anunciado e hoje escancarado do (des)governo Bolsonaro, muitos dos novos “isentos” apelam ao nobre sentimento nacional, apelam a um patriotismo vago, incolor e inodoro, apelam à compaixão genérica e passiva para com os “outros”, a massa desfavorecida que o golpe de 2016 e, na sequência, o desgoverno Bolsonaro atacou de modo vil e cruel (assim como atacou trabalhadores e a própria classe média) e continuará atacando até onde a crise permitir e usando a crise para aprofundar um projeto de antissociedade e antinação ao estilo Tatcher-Reagan-Pinochet. Projeto “renovado”, aprofundado e adaptado ao novo século, mas que não nega sua origem histórica no período, tão “longínquo” e tão próximo, das ditaduras militares na América Latina sob a hegemonia e o suporte ativo dos EUA.

Tais apelos à “responsabilidade” e “neutralidade partidária” tem por finalidade evidente isentar de responsabilidade real os novos viúvos e viúvas do bolsonarismo, isentar os “isentões” e assim salvaguardar seus sentimentos e convicções profundas, reiterar o seu amor-próprio que não pode  de modo algum ser abalado, confirmar, ainda que seja “clandestinamente” dado o novo contexto, as certezas absolutas de quem duvida de tudo que possa contradizer minimamente seus preconceitos. Certezas desnudadas hoje pela realidade da crise, mas que devem ser guardadas para uso público quando novas oportunidades surgirem.

Unem-se neste processo de um lado a covardia, de outro a má-fé. Receita de desastre na vida pessoal de todos e qualquer um, aqui sim, independente de determinações outras, de partidarismos reais ou imaginários, cor dos olhos, estilos de vestimentas, etc, etc.

A crise brasileira é parte da crise mundial: crise estrutural, crise do sistema, ou seja, crise das formas de vida hoje impostas mundialmente por uma minoria de beneficiários. A atual pandemia do corona vírus, unindo-se à fragilidade da economia global em perigo de desintegração, veio desnudar o ponto de inflexão no qual nos encontramos. A crise mundial exige soluções locais: a raiz das soluções globais está nas iniciativas de todos e cada um.

Uma sociedade não pode seguir por muito tempo em períodos críticos ignorando ou fingindo ignorar suas reais mazelas, tentando adiar as escolhas que a realidade exige sob pena de sofrimentos ainda maiores dos que os temidos conscientemente, os que se evidenciam em toda mudança. Aos novos isentos lembramos que a sua neutralidade imaginária é engajamento de fato na continuidade da crise. Ou escolhemos um caminho novo para todos, mais justo e racional, ou nos serão impostas formas de vida ainda mais excludentes que as atuais.

Os desafios, as dificuldades, as mudanças que a realidade impõe na vida de cada um e na vida das sociedades tem um custo proporcional à coragem das iniciativas de fato para enfrentá-las, para mudar a vida e nos transformarmos a nós mesmos - ao mesmo tempo condição para e resultado da transformação da realidade.


segunda-feira, 27 de janeiro de 2020

O papel da Igreja na Bahia durante a funesta ditadura militar, por Romulo Moreira



Definitivamente, “não se consegue entender a história do Brasil sem a da Bahia, nem a da Bahia sem a do Brasil"

O cientista político Joviniano Neto, Professor da UFBA e Doutor em Comunicação e Cultura Contemporânea pela mesma Universidade, no livro “Igrejas e Ditadura Militar na Bahia”, lançado em 2018, pela Editora Sagga, traça com muita precisão um quadro a respeito de como se deu a participação das igrejas baianas – especialmente a Igreja Católica, mas não somente – no período pós-golpe de 1964. A obra é fruto do trabalho do Professor quando da elaboração do relatório da Comissão Estadual da Verdade, na Bahia.
Trata-se de uma pesquisa importantíssima para entender a posição das igrejas durante o regime militar, desde o seu início, sendo, sem dúvidas “uma contribuição relevante para o conhecimento e a compreensão da ação das Igrejas em um momento de divisor de águas na história do Brasil e da Bahia.”
O capítulo primeiro reserva-se, basicamente, para mostrar, inclusive com base em dados fornecidos pelo IBGE, como a Igreja Católica era “amplamente majoritária no Brasil e na Bahia.” Também relembra que o golpe militar de 1964 coincidiu com o Concílio Vaticano II, realizado em Roma entre os anos 1962 a 1965.
Mostra que, inicialmente, a Igreja Católica e a Igreja Evangélica apoiaram os militares, mesmo porque, como se sabe, histórica e supostamente os militares travavam uma luta “contra o Comunismo ateu, que ameaçaria o mundo e o Brasil e estava infiltrado ´insidiosamente` em todos os setores da sociedade.”
Nada obstante este começo sombrio, a posição das igrejas foi se modificando – apesar de alguma resistência por parte dos mais conservadores – a partir do momento em que ficou muito claro as constantes “violações dos direitos humanos e a repressão aos Movimentos Sociais.”
A partir desta percepção e de uma resistência – às vezes mais cautelosa, outras mais destemida –, os militares et caterva passaram a enfrentar os religiosos mais progressistas da Igreja Católica e da Igreja Evangélica, aqui na Bahia.
No capítulo seguinte, o autor reserva-se para analisar especificamente a Igreja Católica, no Estado, concentrando a sua pesquisa na Arquidiocese de São Salvador e a Primaz do Brasil, destacando a atuação dos três arcebispos contemporâneos da época: D. Augusto Álvaro da Silva (1924 a 1968), D. Eugênio de Araújo Sales (1968 a 1971, quando foi transferido para o Rio de Janeiro) e D. Avelar Brandão Vilela (irmão de Teotônio Brandão Vilela), que esteve à frente da arquidiocese da Bahia de 1971 até a sua morte, em 1986.
O primeiro deles – D. Augusto Álvaro da Silva – é pouco mencionado quanto à sua atuação no período, posto já estar com 88 anos de idade na data do golpe e não mais dirigia “efetivamente a Arquidiocese”, cuja administração já estava a cargo de D. Eugênio Sales, nomeado pelo Papa Paulo VI para exercer as funções de Administrador Apostólico, responsável por gerir a Arquidiocese.
Em relação a D. Eugênio Sales, o Professor Joviniano Neto faz questão de reconhecer que, nada obstante ter sido “considerado um dos expoentes da linha conservadora na Igreja e por isso bem visto pelas autoridades”, apoiou, já no Rio de Janeiro, os opositores e os perseguidos do regime militar.
O seu sucessor, D. Avelar Brandão Vilela, apesar de moderado (como ele próprio se definia), “geria uma política pastoral que comportava a manifestação de todas as correntes e carismas da Igreja”, tendo defendido “os Direitos Humanos dos perseguidos pela Ditadura.”
Sobre ele há uma transcrição de um trecho de um documento do Serviço Nacional de Informação, revelando que o Arcebispo adotava uma “posição moderada e frequentemente indefinida, com referência aos movimentos contestatórios.”
Consta também do mesmo documento que “a Igreja Católica vem se destacando pela intensa atuação de alguns de seus integrantes nos movimentos contestatórios, particularmente em Salvador, e nos problemas fundiários do interior do Estado”, onde “alguns padres vêm atuando intensamente, radicalizando as posições em torno do problema fundiário, que se constituiu numa das maiores preocupações das autoridades.”
O capítulo terceiro cuida de relatar o conhecido “roubo (ou ´desapropriação`) do ´tesouro do Pilar`, com o objetivo de fornecer recursos para a luta contra a Ditadura, tema abafado pela Igreja e pela própria Ditadura, nunca explicado claramente à opinião pública.”
A partir de uma entrevista realizada com Jean Lacrevaz, então um dos quatro padres franceses da Igreja do Pilar no período de 1965 a 1970 – ao lado dos padres Camile Roland, Alfredo Hervegruier e Pierre Demoulier –, o cientista político mostra como a Igreja do Pilar transformou-se, por obra dos padres franceses, em “um espaço no qual se realizavam reuniões de padres e estudantes (´subversivas` ou públicas), hospedavam pessoas, discutiam a realidade.” Ele revelou na entrevista que o “tesouro” ficava guardado em uma arca, cujo conteúdo era de objetos sacros e “prataria.”
O capítulo subsequente é reservado para homenagear uma figura icônica, D. Timóteo Amoroso Anastácio, abade e líder espiritual do tradicional Mosteiro de São Bento, “espaço da liberdade para reflexões e reuniões.”
Naquela época o mosteiro era não apenas um espaço religioso, mas também um lugar “de reunião e planejamento de setores progressistas”, tendo sido o primeiro mosteiro Beneditino das Américas.
  1. Timóteo foi eleito abade em 31 de agosto de 1965 e, “ligado a D. Helder Câmara, é o principal líder contestador do Estado; apoia e exerce grande influência nos movimentos contestatórios realizados em Salvador”, conforme consta em relatório feito pelo Serviço Nacional de Informação. Ele aproxima-se de outras religiões, especialmente o Candomblé, tornando-se grande amigo da Yalorixá Olga de Araketu. A propósito, lembra o autor, que até 1975 os terreiros de Candomblé eram obrigados a registro na Delegacia de Polícia de Jogos e Costumes.
No dia 11 de dezembro de 1965 celebrou-se no mosteiro uma missa, a conhecida “Missa do Morro”, realizada ao som de “pandeiros, atabaques, berimbau, combinando músicas explicitamente religiosas com outras populares (samba)”, o que rendeu uma “grande reação contrária dos tradicionalistas e polêmica nos jornais”, sendo alvo, inclusive, de uma investigação por parte do Núncio Apostólico, o representante do governo do Vaticano no Brasil.
Neste capítulo do livro há um relato que chega a ser comovente, dada a dignidade, a resiliência e a coragem demonstradas por D. Timóteo: no dia 08 de agosto de 1968 o Mosteiro de São Bento foi invadido por tropas policiais, após acolher estudantes que se manifestavam no centro da cidade de Salvador, violentamente reprimidos. Os estudantes entraram no mosteiro e fugiram pelos fundos, pela Rua do Paraíso. O próprio D. Timóteo revelaria mais tarde:
“E aí eu fiquei no centro do portal e eles, assim com armas, querendo entrar. Eu disse: não posso permitir. Vocês têm algum mandado policial (sic) para entrar aqui? Porque eu nem invoco a natureza de templo religioso, mas domicílio civil. Aí, um tenente disse assim: ´mas que mandado judicial? O senhor está dando abrigo a vagabundos que estão fazendo encrencas na rua e tumultuando…` E eu fiquei assim conversando com ele para dar tempo.”
Ocorre que entre os acolhidos pelo religioso havia também mulheres, e era terminantemente proibida a entrada de mulheres na clausura monástica, razão pela qual, em tese, o abade deveria entregar uma carta de renúncia ao Papa. Ao recebê-la pronta das mãos de um velho monge – que a entregou chorando – responde-lhe D. Timóteo, “citando as regras do fundador, o próprio São Bento, sobre o respeito aos hóspedes e a primazia da vida.”
No capítulo cinco apresenta-se a criação do Centro de Estudos e Ação Social, o CEAS, tido pela ditadura como “o principal Centro Clerigal Progressista do Nordeste.” Era mais do que isso, porém. O CEAS “desempenhou papel relevante nas lutas ocorridas na cidade e no campo baiano”, sendo decisivo para ajudar “na conscientização, organização e atuação das Igrejas e das forças populares.” É uma instituição jesuíta, “de inspiração religiosa, mas de caráter não confessional, que reúne religiosos e leigos, cristãos ou não, e foi espaço de encontro e atuação das forças progressistas que reagiam contra a Ditadura Militar.”
Nesta parte são citadas as principais pressões impostas ao CEAS, especialmente a tentativa de expulsão dos padres Cláudio Perani e Andrés Mato, além da apreensão do caderno nº. 27, lançado em outubro de 1973, que continha manifestos dos Bispos do Nordeste e do Centro Oeste. Este Caderno foi apreendido pela Polícia Federal já nos Correios, tendo sido proibida a sua venda.
Também é lembrado neste mesmo capítulo o episódio que ficou conhecido em Salvador como o “Caso do Marotinho.” O Baixo do Marotinho era uma pequena comunidade existente entre dois bairros periféricos da cidade de Salvador. O Estado e a Prefeitura iniciaram um processo de desocupação dos imóveis que haviam sido construídos pelos moradores. No dia 05 de março de 1976 “100 funcionários da prefeitura, 300 soldados da Polícia Militar, 15 caminhões para transportar os móveis, iniciaram a demolição que durou mais de 3 dias, sábado, domingo e segunda.”
O caso teve repercussão nacional, fato que levou o Governo do Estado – muito em decorrência também das intervenções de D. Avelar Brandão Vilela e D. Timóteo Amoroso – a doar lotes de terra para os que haviam sido desalojados. Assim, “a luta do Marotinho estabelece um paradigma para as lutas futuras – resistir, permanecer ou sair com a garantia de novos lotes.”
No sexto capítulo o autor destaca o apoio dado pela Igreja Católica aos presos políticos e à campanha pela anistia. No primeiro caso, o apoio “traduzia-se em visitas nas prisões e acompanhamento com familiares, advogados e militantes oposicionistas”, além de “pronunciamentos denunciando prisões, as intervenções solicitando informações e as propostas de intermediação. No período, a procura da intervenção de Dom Avelar era constante”, destacando-se, ainda, a figura do Padre Renzo Rossi que, “com credencial emitida por Dom Avelar, desempenhava desde 1975-1976, o papel de visitador e apoiador dos presos políticos e de seus familiares em todo o Brasil. Nessa condição, visitava todos os presos políticos, apoiando tanto em termos humanos quanto materiais. Circulando entre os presídios, era também importante na circulação de informações e na articulação dos mesmos.”
A defesa pela Anistia também é mostrada neste capítulo, a partir da criação do núcleo da Bahia do Comitê Brasileiro pela Anistia, criado originariamente em 1978, no Rio de Janeiro. O autor dá um depoimento pessoal, pois presidiu o referido núcleo baiano.
O capítulo subsequente refere-se, muito especialmente, a duas figuras importantíssimas na história da Bahia: Irmã Dulce (hoje Santa Dulce dos Pobres) e Padre Paulo Tonucci. A primeira, segundo o autor, “apesar de postura conservadora, sempre se mostrou independente dos militares, ainda que não expressasse posições políticas explícitas.” O segundo foi “de grande presença na periferia de Salvador e depois em Camaçari, líder da Pastoral da periferia.” Para ele, o importante realmente “era a comunicação com o ´povão`, para que este, nas suas palavras, se transformasse em autor e sujeito de sua própria história. Começou a preparar textos e cadernos populares em quadrinhos, sobre História, Teologia da Libertação e Religião.”
No livro também são lembradas três dioceses do interior do Estado, todas situadas no baixo médio São Francisco: Juazeiro, Paulo Afonso e Senhor do Bonfim, importantes na “defesa dos posseiros e pequenos agricultores rurais, enfrentando a pressão dos latifundiários e da construção de barragens no Rio São Francisco.”
A primeira teve a presença, como Bispo, de D. José Rodrigues, assumindo “a defesa da população rural impactada pela implantação da barragem de Sobradinho.” Para o Serviço Nacional de Informação, tratava-se de um bispo “muito atuante no meio rural em apoio aos posseiros e contra as iniciativas da CHESF.”
Os três últimos capítulos são dedicados à Igreja Evangélica – cujo trabalho é incompleto, conforme reconhece o próprio autor -, especialmente a Igreja Batista e a Igreja Presbiteriana. Narra como “dentro das Igrejas, os evangélicos progressistas e ecumênicos sofreram repressão promovida por dirigentes das próprias Igrejas.”
Assim, “na Presbiteriana, foi a decisão nacional contra o Presbítero de Salvador; na Batista 2 de Julho, foi a expulsão dos dissidentes”, fazendo com que “os perseguidos e expulsos criassem uma nova Igreja.” Neste período, destacaram-se os pastores Djalma Torres, Eliabe Gomes, Celso Loula Dourado, Josué da Silva Mello, dentre outros, todos perseguidos dentro da própria Igreja.
Nas suas conclusões, o autor afirma ter cumprido o seu objetivo, qual seja “o de fornecer uma visão de conjunto, pistas, elementos que permitissem a inserção das história das Igrejas na Bahia, na história das relações entre Igrejas e Ditadura no Brasil.”
Definitivamente, “não se consegue entender a história do Brasil sem a da Bahia, nem a da Bahia sem a do Brasil.” A obra do Professor Joviniano Neto mostra bem isso, razão pela qual deve ser lida.

quinta-feira, 20 de setembro de 2018

Lembrar dos horrores da Ditadura Militar e da coragem de Dom Paulo Evaristo Arns é resistir à onda da ignorância do fascismo, como lembra Izaías Almada





Lembrar é resistir
Termina neste final de semana, domingo 22/09, a exposição em homenagem a Dom Paulo Evaristo Arns, arcebispo de São Paulo durante os difíceis anos da ditadura civil militar que se impôs ao país em 1964.
Inaugurada em 21 de julho passado dentro do belíssimo espaço do Centro Cultural dos Correios, junto ao vale do Anhangabaú no centro da cidade, a exposição – que deverá ir a outras capitais do país – recebeu boa afluência de público, que além da obra iconográfica e escultural de acentuado bom gosto, tem a curiosidade de apresentar uma parte viva com a apresentação da peça teatral “Lembrar é Resistir”.
Sob a curadoria de Evanize Sydow e Marilda Ferri, autoras de um excelente livro sobre Dom Paulo, e do professor Paulo Pedrini, a mostra procura salientar, entre outras virtudes, o trabalho humanista e corajoso do arcebispo de São Paulo em defesa dos Direitos Humanos.
No sábado, dia 21, às 12 h, a exposição receberá os ex-jogadores corintianos, Basílio, Vladimir, Zé Maria, para uma roda de conversa com Juca Kfouri, Chico Malfitani, o padre Júlio Lancelotti e Antonio Rago. Dom Paulo foi grande incentivador da democracia corintiana.
A cerimônia de encerramento está prevista para 16h do próximo domingo e contará com a presença de várias personalidades e do Coral Luther King.
A entrada é gratuita e a exposição fica aberta ao público das 11h às 17h.