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quarta-feira, 8 de abril de 2020

Xadrez dos ensaios do próximo jogo político, por Luis Nassif



Os novos atores políticos sairão dessa guerra contra o coronavírus e as imbecilidades da ultra-direita bolsonarista.

Por Luis Nassif, no Jornal GGN:



Peça 1 – o bolsonarismo

O cientista político Luiz Azvriter sintetizou bem como o coronavirus colocou em crise três pilares do pensamento olavista:
  1. Repulsa ao pensamento científico. A ciência assume o protagonismo nessa guerra.
  2. Repulsa ao Estado e às instituições. Máquina do Estado, Congresso, Supremo e Forças Armadas se tornam únicas garantias contra loucuras de Bolsonaro.
  3. Racha na direita, com o isolamento da ultradireita bolsonarista.
Bolsonaro está interditado, mas ainda é o Presidente. Durante o dia, manteve várias reuniões com lideranças do centrão, tentando recompor sua base de apoio. No pronunciamento previsto para esta noite se saberá melhor até onde irá seu recuo.
Há apenas uma certeza: vai durar pouco tempo. O único ponto previsível nessa crise é o padrão de desequilíbrio de Bolsonaro, tão inteligente e previsível quanto um touro ante um pano vermelho.
De qualquer modo, seu futuro depende de outros fatores, da progressão de seu nível de desequilíbrio e das condições para a montagem de um pacto de governabilidade.
O candidato natural a ocupar o espaço da ultradireita é o anódino Ministro da Justiça Sérgio Moro, incapaz de avançar em qualquer ideia além dos autos e das delações premiadas.

Peça 2 – os novos personagens

Os novos atores políticos sairão dessa guerra contra o coronavirus.
A vulnerabilidade exposta pela pandemia chamou a atenção para os riscos enormes de se persistir no irracionalismo e na polarização política. Por isso mesmo, todos os novos atores ensaiam uma corrida para o centro.
De imediato há dois grupos de candidatos: os agentes de saúde e os governadores.
Do lado da Saúde, o candidato óbvio é o Ministro Luiz Fernando Mandetta, apesar de sua biografia política de baixíssimo nível – inclusive, antes do coronavirus, acatando maluquices bolsonaristas, como as de que os médicos cubanos iriam incentivar a guerrilha no país. Cresceu na pandemia pela cabeça organizada e pela capacidade de dialogar com todos os setores. Ou seja, por ter caminhado para o centro.
Não se pode perder de vista o crescimento político do presidente da Câmara Rodrigo Maia.
Entre os governadores há dois tipos de disputa, pela direita e pela esquerda, ambos convergindo para o centro.
Pela direita, o lance mais bem-sucedido até agora foi do governador paulista João Doria Jr., aproveitando o momento para tentar repaginar sua imagem original, extremamente agressiva e preconceituosa.
Agora, tem-se comportado como o comandante em chefe da guerra contra o coronavirus, inclusive manifestando preocupações – por enquanto, retóricas – com os mais vulneráveis, e cometendo gentilezas até com Lula.
É inegável que as próximas pesquisas de opinião mostrarão uma redução nos seus índices de rejeição. Aliás, os comentários de alguns colunistas, sobre a reação negativa que seu gesto teria provocado nos antigos quadros do PSDB, traz o impensável: Dória se tornando mais liberal que os filhos de José Serra e Geraldo Alckmin. Alguns analistas ainda não perceberam que a guerra fria acabou – só se mantem no front bolsonarista –  e já teve início uma política de détente.
Há movimentos também do governador do Rio de Janeiro Wilson Witzel em direção ao centro. Mas este se queimou definitivamente com sua política genocida de “acertar na cabecinha”. E a imagem dele ao lado de partidários arrebentando a placa com o nome de Marielle o perseguirá por toda sua vida política.
Do lado esquerdo, pontificam os governadores do Nordeste, com maior visibilidade para Flávio Dino, do Maranhão, e Rui Costa, da Bahia, com uma fantástica renovação dos hábitos políticos a partir das realizações do consórcio do Nordeste.

Peça 3 – as novas bandeiras

O coringavirus radicalizará dois movimentos opostos: o irracionalismo vs o planejamento, especialmente quando sobrevier a depressão econômica prevista.
A ultradireita jogará com a superstição, agindo como vendedores de bíblias e de elixires mágicos.
O lado racional do país trabalhará com algumas ideias síntese essenciais:

A mudança no conceito de segurança nacional

Setores como energia, complexo econômico da saúde, propriedade de terras passarão a ser tratados como prioridade no conceito de segurança nacional.
Todos os passos de políticas públicas, daqui para frente, serão analisados sob a ótica da segurança nacional.
Os programas de C&T (ciência e tecnologia) ganharão novo impulso, mais focado nos setores estratégicos. O mesmo ocorrerá com a indústria de defesa e os institutos militares, com as Forças Armadas recuperando um pensamento estratégico totalmente abandonado nas últimas décadas.
As Forças Armadas que, nos últimos anos perderam qualquer veleidade estratégica, rendendo-se a um neoliberalismo de Globonews, irão rever seus procedimentos. Haverá novas prioridades para os institutos militares e a indústria de defesa.
Acaba, assim, a aventura inconsequente da tentativa de privatização da Eletrobras. E ficará exposta a irresponsabilidade do desmanche da Petrobras e da liquidação da indústria naval, perpetrado na gestão Pedro Parente.

A volta das políticas sociais

O SUS passa a ser visto com outros olhos e será reforçado. Mas a recuperação das políticas sociais dependerá dos resultados eleitorais e da eventual vitória de um candidato de centro-esquerda.
Há uma herança invencível brasileira, de incapacidade de entender que a redução da desigualdade é peça central para a construção de um país moderno.

O conceito de consórcio e de parceria

Daqui a algum tempo, o conceito de consórcio estadual e municipal e de parcerias suprapartidárias e intersetoriais serão ideias centrais na reconstrução econômica do país.
As lições do consórcio do Nordeste é o que há de mais estimulante em reconstrução do pacto federativo.

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domingo, 3 de novembro de 2019

É tempo de opor ideias ao vazio beligerante de indivíduos como Donald Trump, Jair Bolsonaro/Paulo Guedes, Boris Johnson, Sebastián Piñera e suas políticas de exclusão. Artigo de Sebastião Nunes




  "Periodicamente emergem em diferentes países, numa súbita eclosão de tumores malignos, movimentos de extrema direita alimentados a ódio e dispostos a queimar tudo nas fogueiras de sua intolerância."

A “Equação de Drake” e a beligerância humana, por Sebastião Nunes




Periodicamente emergem em diferentes países, numa súbita eclosão de tumores malignos, movimentos de extrema direita alimentados a ódio e dispostos a queimar tudo nas fogueiras de sua intolerância.
Contra eles de pouco valem pensamento crítico ou preocupações éticas, já que seu propósito é a guerra ostensiva contra instituições e grupos humanos que contrariem as regras impostas pela elite branca e pelo capital financeiro internacional.
Vivemos um destes momentos.
É tempo, portanto, de combate duro e sem tréguas.
É tempo de opor ideias ao vazio beligerante de indivíduos como Donald Trump, Jair Bolsonaro, Boris Johnson, Sebastián Piñera e suas políticas de exclusão.
Uma das maneiras de fazer isso é repensar a Terra e seu futuro.

VIDAS INTELIGENTES NO UNIVERSO
Desde a década de 1960, o astrônomo Frank Drake, trabalha com a possibilidade da existência de vida inteligente na Via-Láctea.
Um de seus amigos foi Carl Sagan, morto em 1996, outro apaixonado pela dupla questão de saber se existe vida inteligente fora da Terra e se uma civilização avançada tecnologicamente é capaz de sobreviver a seus terríveis brinquedos nucleares e a suas sangrentas birras raciais, religiosas, políticas, geográficas e econômicas.
Se existirem milhares ou milhões de sistemas solares parecidos com o nosso, torna-se bastante provável que a vida tenha surgido e se desenvolvido em pelo menos algumas centenas (ou milhares) de outros planetas. E se a vida surgiu e se desenvolveu, por que até hoje não tivemos conhecimento disso? Será que todas as jovens civilizações se autodestruíram antes do amadurecimento? Será que nenhuma foi além da infância tecnológica, quando aprenderam a capturar, mas não a controlar, as poderosas forças fisico-químicas do átomo?
Drake não é pessimista.
Em 1960 usou pela primeira vez um radiotelescópio na busca de sinais eletromagnéticos que indicassem vida inteligente. No ano seguinte formulou sua equação. Mais tarde foi um dos criadores do Projeto SETI (busca por inteligências extraterrestres, em inglês), ao qual tem se dedicado. No princípio, recebeu ajuda do governo dos Estados Unidos, mas, a partir de 1993 trabalhou às próprias custas, com a ajuda de outros abnegados otimistas, batalhadores incansáveis pela sobrevivência da vida na Terra, a despeito de todos os governos, poderes, armas, guerras e desastradas experiências que costumamos apelidar de progresso. Em 2015, em Londres, uniu-se ao inglês Martin Rees, ao russo Yuri Milner e ao físico Stephen Hawking (morto em 2018), fornecendo em conjunto 100 milhões de dólares para o financiamento, durante 10 anos, de novos estudos do SETI, usando a mais avançada tecnologia existente.

A EQUAÇÃO POSTA NA MESA
A formulação original e seus desdobramentos é a seguinte:
N* x Fp x Fe x Fl x Fi x Fc x L = N, onde
N*, número de estrelas na Via-Láctea;
Fp, percentagem de estrelas com sistemas planetários;
Fe, percentagem de planetas em condições ecológicas semelhantes às da Terra;
Fl, percentagem desses planetas onde a vida possa ter surgido;
Fi, percentagem de planetas com vida onde possa ter surgido a inteligência;
Fc, percentagem de planetas onde a vida inteligente desenvolveu tecnologia;
L, duração da vida no planeta a partir do desenvolvimento tecnológico;
N, número de civilizações capazes de se comunicarem com a Terra.

EXPANDINDO A EQUAÇÃO
Como se vê, não é preciso ser astrônomo, físico ou matemático para entender o problema. Mas é preciso um pouco de conhecimento para chegar a conclusões. Por exemplo, se qualquer dos fatores tender a zero, o resultado final será igualmente zero. Em princípio, não há nada de errado com os quatro primeiros fatores. Da inteligência (Fi) em diante é que a história se complica. Testes elementares de laboratório sugerem que o aparecimento da vida é praticamente instantâneo dadas as condições mínimas necessárias. Também é tacitamente aceito que a vida tende a evoluir para níveis superiores de complexidade. Não fica claro, contudo, se a chamada inteligência faz parte da escalada inexorável em direção ao, digamos assim, sucesso biológico. Pode ser que para a natureza, em seu processo de criação e seleção, sobrevivência e inteligência não sejam sinônimos. O que seria trágico para nós, e para a inteligência.
É importante considerar que a busca se restringe a organismos quimicamente aparentados, dados os termos “condições ecológicas semelhantes às da Terra”. Nada, no entanto, nos obriga a descartar outra hipótese, essa muito mais ampla e promissora, a de que vida inteligente não significa necessariamente vida inteligente igual ou semelhante ou parecida com a nossa.
Pelo contrário, o mais provável é que essa “vida inteligente” seja radicalmente diferente, habitando planetas de conformação inusitada e muito distantes, em suas exigências, da nossa dependência de água, luz solar e atmosfera.
As hipóteses são infinitas. O futuro continua aberto.

sexta-feira, 15 de março de 2019

Bolsonaro: regeneração ou destruição. Artigo do embaixador Samuel Pinheiro Guimarães, com introdução de Leonardo Boff


Resultado de imagem para Jota Camelo charges


De fato, a sociedade e o Estado brasileiro têm características que necessitam ser enfrentadas.
A sociedade brasileira se caracteriza por extremas disparidades de renda e de riqueza; de gênero; étnicas; educacionais; culturais; entre as regiões; entre as periferias e as zonas ricas das cidades.
Essas disparidades, resultado histórico da escravidão, do latifúndio e do colonialismo, são responsáveis pelo fraco desenvolvimento da demanda e do mercado interno; pelo desequilíbrio regional do desenvolvimento; pela tensão social; e em parte pela violência.
O Estado brasileiro agrava mais as desigualdades devido à tributação regressiva; ao financiamento privilegiado de grandes empresas sem contrapartidas; à ineficiência dos serviços; à conivência com a sucção da economia pelo sistema financeiro e à parcialidade da Justiça do que as reduz por programas de transferência de renda para os mais pobres.
A sociedade e o Estado se caracterizam por vulnerabilidades externas, de natureza política, militar, econômica, tecnológica e ideológica.
Essas características são responsáveis pelo desenvolvimento insuficiente do potencial produtivo e distributivo do Brasil, de sua força de trabalho, de seu capital, de seus recursos naturais.
* * *
A estratégia para enfrentar tais desafios estruturais não pode se fundamentar em preconceitos e premissas simples, mas levar em conta a complexidade atingida pela sociedade, pela economia e pelo Estado brasileiro, desde 1930.
Em 1930:
a população brasileira era de 37 milhões de habitantes;
30% era urbana;
80% vivia ao longo da costa;
70% era analfabeta;
a principal atividade econômica era a produção e exportação de café;
a indústria era incipiente e o Brasil importava os produtos industriais que consumiam suas classes ricas e médias;
era exportador de produtos agrícolas, e o café respondia por mais de 90% das receitas de exportação;
o mercado de trabalho era semi-servil, pois não existia contrato de trabalho; salário mínimo; descanso semanal; férias; limite de horas de trabalho;
havia 100 km de rodovia asfaltada;
as mulheres não tinham direito de voto, o voto não era secreto e as eleições eram fraudadas em grande escala;
o Estado moderno não existia, havendo apenas sete Ministérios: Fazenda (1808), Guerra (1815), Exterior (1821), Marinha (1822), Justiça (1822), Transportes (1860) e Agricultura (1860).
Este quadro da sociedade e do Estado, arcaicos e frágeis, foram atingidos pela crise de 1929 que reduziu o preço da saca de café de 200 para 20 libras, desorganizando a economia brasileira, sua atividade interna e seu comércio, a que se juntariam os efeitos do protecionismo na economia mundial e da Segunda Guerra.
 De 1930 até hoje, graças à ação de estadistas, de empresários, de trabalhadores, do Estado e das Forças Armadas, o Brasil:
tem uma população de 210 milhões;
85% da população é urbana;
a percentagem de analfabetos é de 10%;
é grande exportador de produtos agrícolas, graças à Embrapa, empresa estatal, criada em 1972;
é um dos cinco maiores fabricantes de automóveis do mundo;
construiu a maior indústria aeronáutica de aviões regionais do mundo, graças ao ITA, ao CTA e à Embraer, criadas pela Aeronáutica;
dominou o ciclo industrial completo da tecnologia nuclear, graças à Marinha, e aos cientistas que mobilizou;
produz ultracentrifugas com tecnologia própria;
constrói navios e submarinos;
constrói helicópteros;
tem centros de pesquisa científica e tecnológica avançada;
construiu um dos maiores institutos de pesquisa em saúde do mundo, a Fiocruz;
exporta produtos manufaturados;
descobriu, com tecnologia própria, uma das maiores reservas de petróleo do mundo, o pré-sal, graças à Petrobrás, criada em 1954 pelos esforços dos Centros de Estudos de Defesa do
Petróleo do Exército brasileiro, e por uma ampla campanha popular pela nacionalização do petróleo;
criou instituições estatais capazes de financiar investimentos privados, em grande escala e a largo prazo, como o Banco do Brasil (na agropecuária) a CEF (na habitação e saneamento) e
o BNDES (na indústria e todos os campos de atividade);
integrou seu território com o Programa de Metas de JK, a construção de Brasília, e o programa Calha Norte, na Amazônia;
tem 222 mil km de rodovias asfaltadas;
manteve elevado grau de coesão social e regional;
se tornou uma das dez maiores economias do mundo;
manteve relações pacíficas e de cooperação com todos os seus vizinhos.
Os países que podem melhor defender e promover seus interesses são aqueles que têm grande território; grande população; grande coesão social e convicção de destino.
O território extenso permite uma gama maior de recursos minerais, inclusive energéticos e uma agricultura diversificada.
A população grande e urbana permite o desenvolvimento de uma economia e um mercado interno amplo, capaz de produzir e absorver os bens das mais diversas linhas de produção industrial.
A maior coesão social é fator fundamental para o desenvolvimento e para a ação externa eficiente.
A convicção das classes hegemônicas, e das elites que dirigem o Estado em seu nome, de que um país que reúne as condições acima, tem a capacidade e o dever de realizar seu potencial de forma autônoma ocorre em sociedades e Estados como a China, a Rússia, os Estados Unidos e daí seu papel protagônico na política internacional.
No caso do Brasil, que reúne as condições acima, esta convicção existiu em diversos momentos de sua História, mas não ocorre no presente.
O Presidente Bolsonaro se apresenta como defensor radical das políticas do Mercado.
Bolsonaro tem como principal assessor econômico Paulo Guedes, economista ultra neoliberal, formado nos princípios da antiga escola de Chicago.
Jair Bolsonaro, Presidente, e Paulo Guedes, superministro da economia, declararam ser necessário prosseguir, acelerar e aprofundar medidas que são, em seu conjunto, o que se pode definir como um “projeto do Mercado” para o Brasil.
O Projeto do Mercado para o Brasil é o projeto dos muito ricos, dos megainvestidores, das empresas estrangeiras, dos rentistas, dos grandes ruralistas, dos proprietários dos meios de comunicação de massa, dos grandes empresários, dos grandes banqueiros, e de seus representantes na política, na mídia e na academia.
É o projeto de uma ínfima minoria do povo brasileiro, para uma pequena parte do povo brasileiro.
Segundo a Secretaria da Receita Federal, um total de 30 milhões de brasileiros apresentam declaração de renda em que revelam ter rendimento superior a dois salários mínimos, cerca de 500 dólares por mês. Portanto, dos 150 milhões de brasileiros adultos, que são eleitores, 120 milhões ganham menos de dois salários mínimos por mês e estão isentos de apresentar declaração de renda.
Na outra extremidade, seis mil brasileiros declaram voluntariamente ter rendimentos superiores a mais de 320 mil reais por mês. Todavia, pode-se dizer que os que “controlam” o Mercado seriam aqueles que declaram ter renda superior a 160 salários mínimos por mês, cerca de 20 mil indivíduo
O projeto econômico ultraneoliberal de Bolsonaro/Guedes se fundamenta em premissas simplistas:
(a) a iniciativa privada pode resolver, sozinha, todos os problemas brasileiros;
(b) a iniciativa privada estrangeira é sempre melhor do que a brasileira.
fonte:8 de Março de 2019

segunda-feira, 21 de janeiro de 2019

Bolsonaro estará também em "fórum anti-Davos" do ultra-direitista Steve Bannon, sobre "nacionalismo e supremacia branca". Por Cíntia Alves



Enquanto magnatadas reunidos no Fórum Econômico Mundial de Davos tendem a discutir o risco do populismo na América e em países da Europa, Steve Bannon reúne representantes da extrema-direita em um evento paralelo. Na pauta do guru de Trump, supremacia branca, ultra-nacionalismo, defesa da família tradicional contra a "ideologia de gênero". Bolsonaro, é claro, "se inscreveu" para o anti-Davos, revela jornalista do La Vanguardia

Por Cíntia Alves

Jornal GGN - Jair Bolsonaro aproveitará a viagem ao Fórum Econômico Mundial de Davos para dar uma escapadinha e participar de um evento que tem as digitais do guru da extrema-direita internacional, Steve Bannon. É o que revela o jornalista do La Vanguardia, Andy Robinson, em artigo publicado em seu blog, o Diário Itinerante, no último dia 19.
Andy foi barrado em Davos oficial neste ano porque se indispôs com parte da elite econômica que circula no local após a publicação de um livro que revela os bastidores do Fórum - ele concedeu uma entrevista exclusiva ao GGN, em 2015, para falar disso. E, dessa vez, tampouco irá ao evento de Bannon porque, além de indesejados, lá os jornalistas correm o risco de "levar uma boa surra", afirmou.
Segundo Andy, Bannon ajudou a organizar um "evento alternativo" ao Fórum de Davos, e mantém a data fora do conhecimento da imprensa.
O "anti-Davos" é um encontro da cúpula do Movimento, grupo criado por Bannon para fortalecer a ascensão da extrema-direita ao redor do mundo.
A conferência está a cargo do belga e "sócio" de Bannon, Michael Modrikamen. "Líderes desta nova extrema-direita [crescente na Europa] - certamente haverá representante da VOX [partido espanhol] - serão apresentados como defensores dos valores da pátria contra os globalistas de Davos." 
Bannon, pessoalmente, fará parte de uma agenda que defende "os valores da tradicional família branca, com olhos azuis e cabelos bem arrumados, contra as perversões da ideologia de gênero e a imigração descontrolada." De acordo com Andy, "Bolsonaro se inscreveu" neste debate.
No anti-Davos, o Brexit, por exemplo, será celebrado por seu caráter nacionalista. Enquanto isso, no Fórum de Davos, os magnatas falarão contra o Brexit.
No evento oficial, os "representantes cosmopolitas da comunidade internacional de ricos farão um esforço corajoso para defender a globalização, o liberalismo e a democracia: uma sociedade aberta diante da perigosa invasão, na política europeia e americana, dos novos populismos nacionalistas e iliberais [democracia liberais com doses de autoritarismo]".
"(...) Davos reivindicará mais do que nunca um mundo diversificado, multicultural e tolerante com todas as minorias", incluindo na programação discussões sobre o movimento feminista #MeToo e a discriminação contra a comunidade gay.
Apesar disso, Andy ressaltou que, em Davos, "ninguém vai se opor a ouvir um Jair Bolsonaor que, diferente de outros representantes da nova direita intolerante, é um neoliberal que já entregou as rédeas da política econômica do País para um gestor de fundos de investimentos chamado Paulo Guedes. Guedes é um chicago boy ultraliberal, que se encaixa perfeitamente no perfil do financista global que frequenta Davos. Com Guedes no comando da política econômica, Davos fechará os olhos quando Bolsonaro proibir a 'ideologia de gênero das escolas' ou classificar homossexuais como uma aberração."
Andy, ao final, escreveu que não participará de nenhum dos dois fóruns. Em Davos não entrará por causou "tensões" decorrentes do livro "Um repórter na Magic Mountain", sobre a hipocrisia e os bastidores do Fórum. E no evento com dedos de Bannon tampouco entrará porque "eles não só vetam um jornalista que não lhe cai bem, como lhe dá uma boa surra."
"De qualquer forma, para a saúde mental, decidi que é melhor manter uma distância segura tanto do Davos globalizado quanto do anti-Davos da ultra-direita não globalista. Ambos são altamente tóxicos."

quinta-feira, 17 de janeiro de 2019

O enforcamento de Dom Quixote na ultra-direitista Avenida Paulista, por Sebastião Nunes




Os tambores rufaram quando Dom Quixote parou diante do cadafalso, armado em frente ao edifício do Itaú Cultural. Magro como uma vassoura, o Cavaleiro da Triste Figura vestia o camisolão branco dos condenados, tinha os pés descalços e as mãos amarradas nas costas.

Na entrada do prédio, 170 artistas (poetas, romancistas, músicos, pintores, escultores, cantores e performers, entre outros) aglomeravam-se em respeitoso silêncio. Entre eles, vários nomes conhecidos, alguns de muito sucesso na televisão.

Nas janelas dos andares superiores, também convidados especialmente para a cerimônia, debruçavam-se ministros, juízes de instâncias superiores, procuradores, deputados federais, senadores, agiotas-banqueiros e operadores de bolsas de valores.

Diante do cadafalso, 666 meninas vestidas de rosa e saias abaixo do joelho empunhavam bíblias e agitavam bandeirinhas do Brasil. Imediatamente atrás delas, 666 meninos vestidos de azul suavam carregando fuzis, submetralhadores e escopetas.

Fora das correntes de isolamento, controladas por soldados armados, enorme multidão de basbaques se acotovelava ansiosa e fremente.

Dom Quixote olhou para cima e seu proeminente gogó subiu e desceu. Olhou para a direita, e lá estava Sancho Pança, seu fiel escudeiro, também de mãos amarradas nas costas, suando como um peba. Olhou para a esquerda – e quem era que estava lá?

Antes que abrisse a boca de susto, viu que se aproximava velozmente um blindado do exército, do qual desceu um Juiz-Togado-de-Alto-Coturno, paramentado que nem um agente funerário, que desceu solene, ladeado por dois praças armados, caminhou sem pressa e parou diante do cadafalso.

A CÉSAR O QUE É DE CÉSAR

– Digníssimos senhores ministros e jurisconsultos, nobilíssimos deputados e senadores, distintíssimos senhores banqueiros e financistas, caros artistas convidados, meninos e meninas, senhores e senhoras – principiou ele o Discurso de Condenação, depois de tirar do bolso algumas folha de papel amassado. – Estamos reunidos para dar seguimento à limpeza que o governo iniciou recentemente, e que hoje contempla um dos mais notórios e perversos inimigos da pátria: Dom Quixote.

Sancho, que ouvia com interesse o discurso, não gostou nem um pouco. Então ele não era ninguém? Não era a ele que o Cavaleiro da Triste Figura recorria em busca de conselhos, dicas e sugestões? Por que não era citado?

Irritado com a interrupção silenciosa de Sancho, o Juiz-Togado-de-Alto-Coturno olhou feio para o gorducho, pigarreou com força e continuou:

– Não satisfeito em conspurcar a mente de seus compatriotas há quatrocentos anos, teve esse infeliz a ousadia de, na Nova Ordem de Extrema Direita que se instalou no Brasil, destinada a uniformizar corações e mentes, teve a ousadia, repito, de tentar introduzir entre nossos jovens a maligna tentação do sonho, da fantasia e da esperança.

Aplausos prolongados.

– Obrigado – agradeceu ele, modestamente. – Nosso objetivo, como sabem, é extirpar para sempre essas perniciosas sementes. Nunca mais será permitido a artistas, negros, feministas, minorias e ativistas de movimentos sociais buscarem a diversidade, o direito de ser diferente e de pensar diferente. Pelo contrário: nosso objetivo é o da linearidade mais absoluta. Como prova, ali estão 170 artistas portadores da boa nova, criadores do Realismo Extremista Brasileiro, cujas obras são divulgadas apenas depois de análise rigorosa e minuciosa copidescagem.

Novos e delirantes aplausos, diante dos quais os 170 artistas integrantes do Realismo Extremista Brasileiro se curvaram em agradecimento.

À DIREITA, VOLVER!

– Como amostra – prosseguiu o eloquente orador –, o coral de crianças entoará o início do Hino Oficial da Uniformidade, também conhecido pela sigla HINOFU.

Não se sabe de onde, surgiu um maestro, cujas dragonas sugeriam um tenente do exército, que se pôs a frente da criançada, ergueu a batuta e comandou o coral.

Entoado por vozes estridentes e patrióticas, sobem aos ares os versos iniciais do HINOFU:

Duzentos milhões em delírio

Pra frente, Brasil, do meu coração...

Toda violência é um colírio

Que inunda meus olhos

De pura emoção!

De repente é aquela corrente pra frente

Parece que todo o Brasil

Perdeu a razão...

O entusiasmo foi geral e contagiante.

Do alto do Itaú Cultural começaram a chover moedas de 17 reais, cunhadas especialmente para a ocasião, que a multidão em êxtase disputou a socos e pontapés, resultando em 170 mortos e 1700 feridos que foram atendidos ali mesmo, antes da remoção dos defuntos para o necrotério e dos sobreviventes para o Pronto Socorro.

Sebastião Nunes
No GGN