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terça-feira, 23 de abril de 2019

GGN: Crise da Democracia – Notas sobre como evitar governos de palhaços, por Sérgio Guedes Reis



  "O populismo tem sido interpretado como uma forma de se exercer o poder ao largo das instituições representativas, no qual o líder carismático contorna as decisões tomadas por atores legítimos – congressistas eleitos, por exemplo – a partir das “manifestações das ruas”. O populismo é visto por acadêmicos no Brasil e no exterior como uma forma deletéria de governo, na medida em que rompe o chamado sistema de freios e contrapesos exercido pelos demais poderes e, pior, a própria lei, o que resulta na conformação de regimes erráticos e, potencialmente, autoritários." - Sérgio Guedes Reis, Mestre em Ciências Sociais pela University of California, Los Angeles



Neste Domingo, Volodimir Zelenskiy foi eleito o novo presidente da Ucrânia. O ator e comediante, que interpretou na televisão a exata função que agora passará a exercer, ganhou as eleições com mais de 70% dos votos. Nos últimos 3 meses, não deu nenhuma entrevista, e pouco se expôs publicamente em sua campanha presidencial, exceto pelas interações nas redes sociais (por vezes regadas a muito humor). Não se sabe muito sobre sua plataforma política, para além de sua vaga defesa de um país íntegro; seu personagem no popular seriado ucraniano lutava contra oligarcas e políticos corruptos, buscando afirmar o (bom) senso do cidadão comum. A história em questão soaria ingênua, talvez ridícula, não estivéssemos nós mesmos enredados em contexto razoavelmente similar no Brasil – temos o nosso próprio bufão no poder.
A questão é que esses processos políticos não são mais excepcionais nessa década de 10 do século XXI. Trump nos Estados Unidos, Beppe Grillo na Itália, Jimmy Morales na Guatemala, Jón Gnarr na Islândia e os tantos entertainers que disputam a política institucional no Brasil são sintomas de processos de desgaste que transcendem o domínio local ou nacional. É evidente que muitos artistas já ocuparam o poder ao longo do século XX. Mas parece claro que há o surgimento, crescimento ou redescoberta em escala muito maior desse tipo de figura como agente político viável nas democracias contemporâneas, inclusive nas mais desenvolvidas. Há uma parte substancial dos melhores cientistas políticos do nosso tempo que classifica esse fenômeno como uma espécie de “volta” ao populismo. Eles estão provavelmente corretos, mas será que não há mais aí?
Ao longo da década passada, testemunhamos aquilo que costumeiramente passou a se chamar de “virada à esquerda” na América Latina. Tivemos Chávez (depois, Maduro) na Venezuela, Zelaya em Honduras, Ortega na Nicarágua, Correa no Equador, Evo Morales na Bolívia, Michelle Bachelet no Chile, Fernando Lugo no Paraguai, Nestor e Christina Kirchner na Argentina, Tabaré Vásquez e Pepe Mujica no Uruguai, e Lula da Silva e Dilma no Brasil. Extemporaneamente a esse movimento – na medida em que a Direita conseguiu voltar ao poder na maioria dos países citados, por vezes a partir de putschs (extra-) constitucionais –, López Obrador ganhou no México. À exceção do Uruguai e do Chile, todos os demais governos dos demais países foram classificados como “populistas” por algum politólogo conhecido. No caso do Brasil, é necessário ressaltar que tal alcunha é atribuída a Lula essencialmente por publicistas brasileiros, e não estrangeiros – o que nos diz algo sobre a “opinião pública” em nosso país.
O populismo tem sido interpretado como uma forma de se exercer o poder ao largo das instituições representativas, no qual o líder carismático contorna as decisões tomadas por atores legítimos – congressistas eleitos, por exemplo – a partir das “manifestações das ruas”. O populismo é visto por acadêmicos no Brasil e no exterior como uma forma deletéria de governo, na medida em que rompe o chamado sistema de freios e contrapesos exercido pelos demais poderes e, pior, a própria lei, o que resulta na conformação de regimes erráticos e, potencialmente, autoritários. Afinal, quando o líder atua conforme a sua própria bússola ou de acordo com aquilo que interpreta como a vontade popular, então a moralidade pública passa a ser personificada em sua própria figura, e logo o aparelho do Estado passa a ser um apêndice do governo. Pressupõe-se, por outro lado, que o bom governo é técnico, exercido pelos mais competentes, exercido em nome de um projeto de governo referendado pelas urnas, mas controlado continuamente por agentes com poder de veto – de forma a garantir, em tese, que ninguém ultrapasse os limites da lei.
Essa é, em síntese, a crítica e a proposta de parte importante dos cientistas políticos. Ela faz sentido, e a defesa da institucionalidade, em seu escopo mais amplo, deveria ser um dos componentes mais prioritários do arsenal de defesa do Estado de Direito por qualquer democrata. Essa visão, contudo, tem muitos problemas. Em tempos em que todos pedem uns aos outros um pouco de autocrítica, talvez valha fazer esse apelo aqui. Vou me centrar em um aspecto específico dessa objeção, que é a relação entre Estado e sociedade.
Salvo alguns poucos países, os níveis de coesão social e confiança nas instituições se encontram em queda em dezenas das maiores democracias no mundo todo. Um contingente cada vez maior dos cidadãos não se vê representado por seus eleitos, seja com relação ao conteúdo das decisões que estes promovem quando estão no poder, seja pelo fato de que o eleito em nada se parece com o eleitor em seus atributos descritivos: no caso do Brasil, o primeiro é muito provavelmente homem, muito mais rico, mais branco, mais cristão, e possivelmente tem uma atuação profissional pretérita em nível muito mais elevada do que a do segundo. O sinal básico desse distanciamento, para os analistas, é a oposição dos eleitores à corrupção, grande chaga da classe política. Nessa toada, a própria arte da política, a qual se consubstancia em um jogo de articulações, negociações, cessões e trocas, passa a ser compreendida como a arte da corrupção. Não é à toa que a narrativa pisada e repisada pela força tarefa da Operação Lava Jato sobre o mundo da política teve tanta ressonância popular.
Cabem, contudo, duas perguntas: como que o pensamento liberal interpreta o poder do dinheiro na política? E o que é que a democracia, em seu modelo liberal, tem a oferecer como alternativa ou aperfeiçoamento aos mecanismos existentes? Se fizermos uma leitura bastante generosa, poderemos dizer: sim, o pensamento liberal tem propostas interessantes. Mas ele tem reconhecido essas propostas como pertencentes à sua tradição? Entendo que não. Vários dos governos latino-americanos citados mais acima foram responsáveis pela criação e desenvolvimento de um ferramental inovador e criativo no campo do debate público e da gestão das políticas públicas: audiências públicas, conselhos, conferências, ouvidorias, estruturas de orçamento participativo, mecanismos de referendo, etc. Todos esses instrumentos apresentam limitações e problemas, mas representam esforços de alargamento da democracia, de tentativa de conectar e integrar o povo à política. Não raro, contudo, intérpretes da ciência política liberal viram essas estratégias com desconfiança; vários não coraram ao chamá-los de “apelos populistas”. Mas os erros não foram só deles. Os partidos, à esquerda e à direita, se tornaram mais e mais burocráticos ao longo do tempo; pouco espaço foi dado a novos e mais diversos quadros, e líderes continuaram a ser ungidos ao poder pelas figuras mais sêniores. As dificuldades em manter políticas reformistas conforme as forças conservadoras expunham sua resistência autoritária se traduziram muitas vezes não em mais inovação institucional por parte de governos progressistas, mas sim no uso das mesmas armas nas batalhas. Todos desperdiçaram, nessa resistência, uma chance de ouro de tentar reformar por dentro um sistema representativo gasto e carcomido de cima a baixo.
Um dos núcleos do problema parece estar, contudo, na dificuldade do pensamento liberal em questionar o papel do dinheiro em desvirtuar a democracia. O horizonte da crítica de integrantes dessa escola parece ser bastante estreito: por um lado, interessam-se sobremaneira pelo fenômeno do clientelismo, tentando entender como e por que cidadãos vendem os seus votos; por outro, pelos esquemas de suborno envolvendo empresas e políticos. Os estudos (e as ações de gestão) relacionadas a tais questões são evidentemente importantes, mas não raro – como, mais uma vez, os intrépidos Power Points da Operação Lava Jato não nos deixam enganar – ficamos com a sensação de que 1) o povo, que comercializa seu direito, é moralmente vil; 2) os políticos, que praticam “caixa 2” e corrupção passiva, “sequestram” os pobres empresários, e não lhes deixam outra alternativa que não corrompê-los. Sobra muito pouco espaço para as questões estruturais, para a desigualdade, para a cultura política das elites, e para o poder do dinheiro. Nada a dizer sobre políticos honestos, mas que em nada se conectam com que os elegeu; nem sobre a força incontrolável do financiamento privado ou a respeito dos níveis cada vez maiores de desigualdade e seus impactos sobre a representação.
Einstein diria que a insanidade está em repetir os mesmos erros ao longo do tempo. Ao passo em que atiram contra bolivarianistas e, agora, contra bolsonaristas, os liberais parecem não se atentar ao fato de que as sociedades estão exaustas do modelo institucional vigente. Estão cansadas da postura fria e distante dos eleitos, das promessas não cumpridas, dos políticos preparados, mas ineficazes; e, é claro, da própria corrupção. Diante da ausência de representação real e de sentido na existência do Estado e do poder, elas querem na política um “deles” no poder: alguém espontâneo, engraçado, cativante, talvez pouco solene. Mas que soe, ao mesmo tempo, comum e autêntico. O colapso da democracia em curso representa nada menos do que a falência do modelo impessoal de se relacionar com o espaço público. A disputa que se coloca é aquela entre aqueles que acreditam que a resolução do afastamento entre as pessoas e delas com relação ao Estado passa pelo fortalecimento do espaço público, e aqueles que desejam que os cidadãos se encerrem em seus espaços privados, enquanto nos públicos viceje uma moralidade austera (baseada em valores privados, mas guiada por líderes que sejam “como o povo”). Em nenhum desses modelos cabe a democracia liberal, tal qual existente no último século.
O segundo modelo indicado acima é o neoliberal. Ele se presta a esvaziar o público, fazendo com que este se torne mero espaço ampliado de gestão pelo big business. Não há sociedade propriamente dita: as relações sociais são diádicas, representando contratos entre um “agente” e um “principal”; pressupõe-se que um quer passar a perna no outro o tempo todo, então o (auto) controle é necessário. Na medida em que não há aí possibilidade de bem comum, a moralidade possível é potencialmente religiosa: os valores comuns possíveis são metafísicos, pois não são construídos socialmente. Abre-se espaço para a ética baseada em máximas, e não no contexto ou na vida de cada um (que sequer se quer conhecer). 
O rigor ao desvio comportamental é impassível: encarceramento, corrupção como terror, “bandido bom é bandido morto”. Culpa do indivíduo. Desse senso comum segregado em infinitas particularidades distantes umas das outras e traídas cotidianamente pela falência das instituições é que emerge o apelo anti-institucional, o cinismo, e até o desejo pelo “demagogo mentiroso”, que desafia o sistema podre com suas “verdades” empacotadas em fake news. O populismo, tal qual vemos hoje, é produto social do neoliberalismo. Não é difícil ver como o anti-intelectualismo é, também, seu filho bastardo. E não é inviável perceber que esta resposta à crise diagnosticada ao longo do texto configura uma estratégia de permanência no poder por parte daqueles que temem uma ruptura mais aguda da ordem, uma aposta em cavalos-de-tróia capazes de implementar as mesmas medidas austeras de antes, agora sob roupagem despojada.
O primeiro modelo ainda está para ser construído. Ele é de nossa responsabilidade. Uma forma de defini-lo seria chamá-lo de  “institucionalismo orgânico”. Os liberais estão absolutamente corretos em defender que não há vida política possível sem instituições, i.e., sem a existência de formações sociais que regulem a ação humana em questões políticas para além da existência e da vontade particular de indivíduos. Mas essas instituições precisam ser responsivas, e não fins em si mesmas, ou burocracias autofágicas. Elas precisam estar integradas à vida das pessoas, levando-se em conta suas rotinas, suas necessidades de sobrevivência, seus interesses e vocações. Elas não podem ser ocupadas apenas por “profissionais”, pelos mesmos de sempre; ou por aqueles que, por variados fatores, não representam os demais. A ideia em si de representação deve ser questionada: por que relacionar democracia e eleição, e republicanismo (no sentido de respeito a valores públicos) com meritocracia? As instituições precisam ser eficazes, o que não significa que precisem se converter em distopias tecnocráticas: elas precisam ser receptáculos das opiniões das pessoas, mas também muito mais do que isso. Elas precisam significar espaços de construção, de produção de impacto social, e as pessoas precisam ver as suas contribuições reais nesses processos. Conferências não podem ser meras “festas da democracia”, meros fetiches “decisionistas”. A participação na gestão pública é essencialmente um processo pedagógico, a ensinar cada um o funcionamento e os limites do aparelho estatal. Precisa ser bem humorada, dinâmica, familiar, criativa, solidária. E, ao mesmo tempo, as pessoas precisam ser responsabilizadas por suas decisões nesses espaços. O público se torna “de todos” quando uma maioria expressiva se vê como parte dele. Se apenas uma pequena minoria o faz, esta o preda, privatizando-a, e os demais a veem como espaço de ninguém, abandonando-a. Na longa duração da história política brasileira, pelo menos, essa narrativa soa familiar. “O Brasil não tem povo, tem público”, dizia Lima Barreto. Daria para dizer, no mesmo tom: “O Brasil não tem elites, tem classes dominantes”.
Talvez, portanto, a morte da democracia (liberal) seja um caminho sem volta. Sem entendermos o seu significado e razões, então teremos uma longa agonia pela frente – e o poder tomado por palhaços, comediantes, apresentadores de TV assistencialistas, atores carismáticos, etc. Sem produzirmos formas de arranjo político-social que deem de volta às pessoas a capacidade de se nelas se reconhecerem, e então a revolta populista se aprofundará. Sem entendermos como a desigualdade afeta a distribuição de poder, a moralidade, as visões de mundo e capacidade de decisão das pessoas, e então continuaremos a atacar os sintomas, e não as causas da crise. Sem nos arriscarmos na produção e reforma de institucionalidades que são vistas como “populistas”, e então, com um estrondoso aplauso, vanecerá a liberdade.
    
Sérgio Guedes Reis é Mestre em Ciências Sociais pela University of California, Los Angeles, Mestre em Políticas Públicas pela Fundação Getúlio Vargas, e Bacharel em Relações Internacionais pela Universidade de São Paulo
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segunda-feira, 21 de janeiro de 2019

Como combater o populismo, as fake news empresariais da extrema-direita e o anti "politicamente correto". Artigo do jornal português Público




“O populismo não emerge apenas da manipulação. É um sintoma de muitos problemas e desafios sérios, genuínos e complexos que o mundo contemporâneo está a enfrentar”, explica o acadêmico finlandês Risto Kunelius . “O que torna o populismo tão aliciante é o fato de oferecer respostas simples para problemas complexos, construindo uma parede ou negando a ciência”.

Foto: MIGUEL SCHINCARIOL/AFP

Por Liliana Borges
Populismo, fake news e politicamente correto: a relação entre a linguagem e os movimentos
Definir o populismo pode ajudar-nos a distinguir e desconstruir movimentos? Ruth Wodak, uma linguista austríaca que dedicou a carreira à investigação da linguagem política, acredita que sim. A professora da Universidade de Lancaster foi uma das especialistas que na última semana esteve em Lisboa, num encontro organizado pela Universidade Católica para discutir o populismo e o papel dos media na sua desconstrução, no qual defendeu uma nova abordagem às expressões usadas nos discursos políticos.
Expressões como “fake news”, “fatos alternativos”, “politicamente correcto” e “populismo” são cada vez mais recorrentes. Mas Wodak defende que só devemos usar estes conceitos “se os definirmos corretamente”. A acadêmica acredita que poucos conhecerão a origem da expressão “politicamente correto”, já desvirtuada do seu significado, pela forma como é aplicada de forma vaga no quotidiano.
“Por exemplo, o politicamente correto tem uma longa história de significados, oriundos do movimento de direitos civis dos EUA na década de 1960”, começa por contextualizar a especialista, em resposta ao PÚBLICO. “Naquela época, as minorias, especificamente os afro-americanos, pediram para ser referidos de uma maneira politicamente correta e de acordo com os nomes que eles próprios usavam. Outros rótulos pejorativos e negativos deviam tornar-se obsoletos”, conta-nos Wodak. Ora, foi a partir daí que “este conceito foi apropriado pela direita política e se tornou um polêmico grito de guerra, pressupondo uma ‘polícia da língua’.”
A mesma lógica aplica-se ao populismo. “O populismo perdeu significado. Tudo agora é populismo”, critica. Wodak acredita que desconstruir estas definições através do estudo da linguagem pode ser uma das formas de combate contra os movimentos populistas.
“As pessoas são imersas em bolhas de informações falsas e tendenciosas, em que as opiniões são apresentadas como fatos” e em que o recurso a ferramentas como “a publicidade política micro-segmentada” contribui para a eficiência dessa desinformação e manipulação, acrescenta Risto Kunelius, investigador da Universidade de Helsínquia, na Finlândia​.
O populismo está mais popular?

“O populismo não emerge apenas da manipulação. É um sintoma de muitos problemas e desafios sérios, genuínos e complexos que o mundo contemporâneo está a enfrentar”, explica o acadêmico finlandês. “O que torna o populismo tão aliciante é o fato de oferecer respostas simples para problemas complexos, construindo uma parede ou negando a ciência”.

A eficácia do populismo assenta nas “experiências reais e vividas de incerteza e de risco, na sensação de segurança e de direito” para as quais sugere “soluções nostálgicas e dramáticas”. “Há uma confiança na liderança carismática” e, por outro lado, uma “desconfiança no debate, na discussão e na evidência”.
“À medida que o mundo se torna cada vez mais globalizado, muitas pessoas sentem-se mais inseguras e impotentes para lidar com os grandes desafios. “Ser rude tornou-se um sinônimo de coragem. Há um discurso contra as elites muito eficaz porque se apresenta como representativo de uma grande parte dos eleitores”, nota Ruth Wodak.
A comunicação como arma
Coloca-se então a dúvida: o que pode fazer a sociedade para evitar o crescimento do populismo? A primeira coisa é reconhecer que não existem respostas simples — uma das bases do populismo —, ironiza Risto Kunelius. Mas podemos anotar algumas estratégias.
“Sustentar um debate normativo que nos ajude a distinguir e a resistir ao racismo, à política de identidade exclusivista e defender a qualidade do discurso público”, começa por enumerar.
“Devemos expor as falsidades e exigir justificações, evidenciar as mentiras e discrepâncias”, continua. E, por fim, “pensar em práticas mais cooperativas e orientadas em termos de soluções conjuntas entre o jornalismo e redes de conhecimento e ação social, alertando para a conscientização dos problemas que surgiram com a digitalização do contexto de media.”



Bolsonaro estará também em "fórum anti-Davos" do ultra-direitista Steve Bannon, sobre "nacionalismo e supremacia branca". Por Cíntia Alves



Enquanto magnatadas reunidos no Fórum Econômico Mundial de Davos tendem a discutir o risco do populismo na América e em países da Europa, Steve Bannon reúne representantes da extrema-direita em um evento paralelo. Na pauta do guru de Trump, supremacia branca, ultra-nacionalismo, defesa da família tradicional contra a "ideologia de gênero". Bolsonaro, é claro, "se inscreveu" para o anti-Davos, revela jornalista do La Vanguardia

Por Cíntia Alves

Jornal GGN - Jair Bolsonaro aproveitará a viagem ao Fórum Econômico Mundial de Davos para dar uma escapadinha e participar de um evento que tem as digitais do guru da extrema-direita internacional, Steve Bannon. É o que revela o jornalista do La Vanguardia, Andy Robinson, em artigo publicado em seu blog, o Diário Itinerante, no último dia 19.
Andy foi barrado em Davos oficial neste ano porque se indispôs com parte da elite econômica que circula no local após a publicação de um livro que revela os bastidores do Fórum - ele concedeu uma entrevista exclusiva ao GGN, em 2015, para falar disso. E, dessa vez, tampouco irá ao evento de Bannon porque, além de indesejados, lá os jornalistas correm o risco de "levar uma boa surra", afirmou.
Segundo Andy, Bannon ajudou a organizar um "evento alternativo" ao Fórum de Davos, e mantém a data fora do conhecimento da imprensa.
O "anti-Davos" é um encontro da cúpula do Movimento, grupo criado por Bannon para fortalecer a ascensão da extrema-direita ao redor do mundo.
A conferência está a cargo do belga e "sócio" de Bannon, Michael Modrikamen. "Líderes desta nova extrema-direita [crescente na Europa] - certamente haverá representante da VOX [partido espanhol] - serão apresentados como defensores dos valores da pátria contra os globalistas de Davos." 
Bannon, pessoalmente, fará parte de uma agenda que defende "os valores da tradicional família branca, com olhos azuis e cabelos bem arrumados, contra as perversões da ideologia de gênero e a imigração descontrolada." De acordo com Andy, "Bolsonaro se inscreveu" neste debate.
No anti-Davos, o Brexit, por exemplo, será celebrado por seu caráter nacionalista. Enquanto isso, no Fórum de Davos, os magnatas falarão contra o Brexit.
No evento oficial, os "representantes cosmopolitas da comunidade internacional de ricos farão um esforço corajoso para defender a globalização, o liberalismo e a democracia: uma sociedade aberta diante da perigosa invasão, na política europeia e americana, dos novos populismos nacionalistas e iliberais [democracia liberais com doses de autoritarismo]".
"(...) Davos reivindicará mais do que nunca um mundo diversificado, multicultural e tolerante com todas as minorias", incluindo na programação discussões sobre o movimento feminista #MeToo e a discriminação contra a comunidade gay.
Apesar disso, Andy ressaltou que, em Davos, "ninguém vai se opor a ouvir um Jair Bolsonaor que, diferente de outros representantes da nova direita intolerante, é um neoliberal que já entregou as rédeas da política econômica do País para um gestor de fundos de investimentos chamado Paulo Guedes. Guedes é um chicago boy ultraliberal, que se encaixa perfeitamente no perfil do financista global que frequenta Davos. Com Guedes no comando da política econômica, Davos fechará os olhos quando Bolsonaro proibir a 'ideologia de gênero das escolas' ou classificar homossexuais como uma aberração."
Andy, ao final, escreveu que não participará de nenhum dos dois fóruns. Em Davos não entrará por causou "tensões" decorrentes do livro "Um repórter na Magic Mountain", sobre a hipocrisia e os bastidores do Fórum. E no evento com dedos de Bannon tampouco entrará porque "eles não só vetam um jornalista que não lhe cai bem, como lhe dá uma boa surra."
"De qualquer forma, para a saúde mental, decidi que é melhor manter uma distância segura tanto do Davos globalizado quanto do anti-Davos da ultra-direita não globalista. Ambos são altamente tóxicos."

sexta-feira, 18 de janeiro de 2019

Populismo que demoniza "minorias" vulenabilizadas é o problema central para os direitos humanos, afirma Human Rights Watch



  "No Brasil, ainda em campanha presidencial, o agora presidente Jair Bolsonaro afirmou que não daria “um centavo” para organizações não governamentais (ONGs) e caracterizou ambientalistas como “xiitas”. No primeiro dia de governo, nomeou Ricardo Salles para o Ministério do Meio Ambiente e o general da reserva Carlos Alberto dos Santos Cruz para o Ministério da Secretaria de Governo. Juntos, os ministros prometem passar um pente fino no orçamento destinado às ONGs."



Populismo é o problema central para os direitos humanos, afirma Human Rights Watch

Imagem: Caroline Oliveira
O primeiro passo de governos populistas é “demonizar” as minorias vulnerabilizadas
Por Caroline Oliveira
Foi lançado nesta quinta-feira, 17 de janeiro, o Relatório Mundial de Direitos Humanos da Human Rights Watch (HRW). Segundo José Miguel Vivanco, Diretor para as Américas da HRW, o problema central atualmente para o exercício dos direitos humanos é a ascensão de governos populistas de esquerda e direita ao redor do mundo.
Na Itália, o movimento Liga do Norte, anti-imigrantes. Na Grécia, o partido Aurora Dourada (AD), que nega ser neonazista, mas defende a “raça branca”. Na Eslováquia, o partido neonazista Nossa Eslováquia conseguiu 14 assentos no Parlamento, de um total de 150. Viktor Orbán na Hungria. Recep Erdoğan na Turquia. Donald Trump, um “déspota”, como afirmou Vivanco, nos Estados Unidos. Marine Le Pen na França. Alexander Gauland, do partido ultranacionalista Alternativa para a Alemanha (AfD). Na Venezuela, Nicolás Maduro. Na Nicarágua, Daniel Ortega. Nas Filipinas, Rodrigo Duterte.
No Brasil, ainda em campanha presidencial, o agora presidente Jair Bolsonaro afirmou que não daria “um centavo” para organizações não governamentais (ONGs) e caracterizou ambientalistas como “xiitas”. No primeiro dia de governo, nomeou Ricardo Salles para o Ministério do Meio Ambiente e o general da reserva Carlos Alberto dos Santos Cruz para o Ministério da Secretaria de Governo. Juntos, os ministros prometem passar um pente fino no orçamento destinado às ONGs.
Na segunda semana de governo Bolsonaro, Salles ameaçou suspender por 90 dias a assinatura dos contratos com ONGs presumindo sumariamente todas as organizações como criminosas. Na primeira semana, Santos Cruz ganhou, por meio de uma medida provisória, uma nova atribuição em sua pasta: a de “coordenação”, “monitoramento” e “supervisão” de atividades de organismos internacionais e de ONGs. Ao ser questionado se a HRW está no rol desse novo controle por José Miguel Vivanco, Santos Cruz afirmou que reconhece o trabalho realizado pela organização no Congo.
Segundo Kenneth Roth, Diretor Executivo da HRW, “diferentemente de tradicionais ditadores, os supostos autocratas nos dias de hoje tipicamente emergem de ambientes democráticos. A maioria persegue uma estratégia de duas etapas para minar a democracia”. De acordo com Roth, o primeiro passo é “demonizar” as minorias vulnerabilizadas. Em um encontro na Paraíba, em fevereiro de 2017, Bolsonaro afirmou que “não tem essa historinha de Estado laico não. O Estado é cristão e a minoria que for contra, que se mude. As minorias têm que se curvar para as maiorias”.
Depois, os populistas passam a enfraquecer “os pesos e contrapesos do poder público necessários para preservar os direitos humanos e o Estado de Direito, como um judiciário independente e uma imprensa livre”. O presidente brasileiro já deu claras demonstrações de embate com veículos e profissionais de imprensa, copiando a estratégia de Donald Trump.
De acordo com Roth, Bolsonaro é um homem que “encoraja abertamente o uso de força letal por policiais e membros das forças armadas em um país já devastado por uma alta taxa de homicídios”. Segundo o relatório, o País atingiu um novo recorde na taxa: cerca de 64 mil homicídios em 2017. Para César Muñoz, pesquisador da HRW, o decreto presidencial, sobre a facilitação do acesso à posse de armas de fogo, vai na contramão de pesquisas empíricas que mostram o aumento da taxa de violência em países que seguiram a mesma medida tomada por Bolsonaro.
Dados do Atlas da Violência 2018, do Fórum Brasileiro de Segurança Pública e Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), mostram que 367 policiais foram mortos em 2017, ao passo que 5.144 civis foram mortos pelos mesmo no período, 20% a mais do que em 2016. Segundo Muñoz, aumentar o número de posse de armas é um perigo para todos, “porque quando um policial entra em uma casa, não sabe se ali também tem uma arma”.

Condições carcerárias, tortura e maus tratos a detentos

O governo federal estimava que até o final de 2018, haveria 842 mil pessoas em situação de cárcere. O último dado coletado é de 2016, 726 mil presos. Segundo a HRW, a superlotação e a escassez de funcionários no sistema carcerário tornam “impossível que as autoridades prisionais mantenham o controle de muitas prisões, deixando os presos vulneráveis à violência e ao recrutamento por facções”.
No Ceará, o secretário de Administração Penitenciária do estado Luís Mauro Albuquerque afirmou que aplicaria com mais rigor a entrada de celulares nos presídios e acabaria com a divisão de detentos em penitenciárias distintas de acordo com as facções às quais pertencem. As principais organizações criminosas que dominam o sistema penitenciário do estado, a paulista Primeiro Comando da Capital (PCC), a fluminense Comando Vermelho (CV), a cearense Guardiões do Estado (GDE) e a amazonense Família do Norte (FDN), reagiram com uma onda de violência por todo o estado. Do dia 2 ao 16 de janeiro, foram contabilizados 206 ataques criminosos em pelo menos 46 cidades.

Direito das mulheres e meninas

Segundo o relatório, no final de 2017, cerca de 1,2 milhão de casos de violência doméstica tramitavam nos tribunais brasileiros. A Lei Maria da Penha, que data de 2006 e é considerada uma das melhores legislações contra esse tipo de violência, ainda não foi implementada completamente. Dados do relatório mostram que 23 abrigos para mulheres e crianças com necessidade de proteção urgente foram fechados em 2017 pelo governo para limitar gastos. “Apenas 74 abrigos permanecem abertos em um país com mais de 200 milhões de habitantes. Para José Miguel Vivanco, isso mostra que combater a violência contra a mulher não é uma prioridade”.
O novo decreto que versa sobre a posse de armas de fogo pode agravar a situação. Segundo dados do Atlas da Violência 2018, metade dos assassinatos de mulheres causados em 2016 se deu esse tipo de armas: cerca de 2.339.

quinta-feira, 10 de janeiro de 2019

Saída do Brasil do Pacto Global Para Migração da ONU prejudica brasileiros no exterior


"Na diplomacia existe o princípio da reciprocidade. A maneira como tratamos os estrangeiros que chegam aqui é a maneira que tratam os brasileiros que estão lá fora"
Jornal GGN - Dizer que o Pacto Global para Migração fere a soberania de um País é "de um apelo linguístico muito rasteiro", além de ser "populista" e "raso". O discurso até serve para agradar eleitores do presidente de extrema-direta, Jair Bolsonaro, que identificam-se genuinamente com seu nacionalismo exarcebado. Mas, na contramão das relações diplomáticas, a decisão carrega o ônus de "fragilizar" a situação de milhões de brasileiros que vivem no exterior.
Esta é a opinião da jornalista, mestre em Comunicação e pós-doutoranda Cilene Victor da Silva, que cobriu a assinatura do Pacto, no Marrocos, no final de 2018. Ela concedeu entrevista exclusiva ao GGN, nesta quarta (9), para comentar a retirada do Brasil do Pacto.
Nas redes sociais, além de copiar a tese dos Estados Unidos, de que o Pacto fere a soberania dos Estados, Bolsonaro também disse que não é qualquer um que pode atravessar nossas fronteiras e quem o fizer, deve sujeitar-se à nossa cultura e "cantar nosso hino".
Para Cilene, Bolsonaro usa a incompetência do governo para lidar com a crise envolvendo a entrada de venezuelanos pelo Norte do País para levar a opinião pública a acreditar que temos um problema com imigrantes que se equipara ao de outras Nações que também recusaram o Pacto.
A postura do presidente desafia os números, pois o Brasil tem mais cidadãos vivendo no exterior (passam dos 3 milhões, sendo que um terço está nos Estados Unidos) do que imigrantes (1 milhão). 
Além disso, Cilene alerta que o discurso de Bolsonaro e de seu chanceler, Ernesto Araújo, causa confusão porque mistura a questão dos refugiados com imigrantes.
O Pacto Global, em si, não trata de refugiados (que, com status oficial concedido pelo governo brasileiro, somam apenas 5 mil atualmente) e não tem efeito vinculante, ou seja, não impõe aos países signatários regras específicas sobre como agir na questão migratória. 
É de se perguntar qual é o conceito do novo governo sobre soberania nacional.
"Se o chanceler decidir retirar o Brasil de todos os pactos não vinculantes ou vinculantes que ele acha que fere a soberania nacional, o País terá de abandonar a Agenda 2030 para a sustentabilidade, o Acordo de Paris - que é vinculante e para sair, é mais moroso - e ainda o Marco de Sendai, que rege as políticas de redução de desastres."
Cilene é mestre em Comunicação, doutora em Saúde Pública e pós-doutoranda em Planejamento e Gestão Territorial pela UFABC. Ministra aulas nas universidades Metodista e Fapcom.
Leia abaixo a entrevista completa:
***
GGN: O governo Bolsonaro retirou o Brasil do Pacto Global para Migração com a desculpa de que o acordo afeta a nossa soberania nacional. Você concorda?
Cilene Victor: Não tenho como concordar com isso. É um discurso de apelo meramente populista, porque o acordo é não vinculante, não tem força de lei. Acordos sem força de lei servem para nortear nossas políticas públicas, neste caso voltadas para a questão migratória. Não impõem nenhuma medida sobre o País. O objetivo do Pacto era apenas humanizar o tratamento com os imigrantes.
Em 2016, eu cobri a Cúpula Mundial Humanitária na Turquia, e já se falava de um documento, de um pacto que tivesse o mesmo apelo da Declaração Universal dos Direitos Humanos, adotado pelo Brasil.
Esse discurso do ministro [Ernesto Araújo], que na verdade corrobora a posição de Bolsonaro, de que fere a soberania nacional, serve apenas para ir ao encontro daqueles que votaram na proposta nacionalista.
GGN: A decisão tomada pelo novo governo prejudica brasileiros que vivem no exterior?
CileneSim. Nós temos cerca de 1 milhão de imigrantes no Brasil e 3 milhões de brasileiros no exterior. Então, para cada 1 imigrante que entra no País, 3 brasileiros saem. 
O Pacto traz instruções sobre o tráfico humano, tráfico de mulheres, trabalho análogo à escravidão... Os brasileiros fora do País, em busca de melhores condições de vida e mais dignidade, acabam caindo nessas armadilhas.
Saindo do Pacto o Brasil está, na verdade, virando as costas para imigrantes - dizendo ‘Bom, aqui é minha casa, eu controlo quem entra na minha casa’ - e com isso está fragilizando a situação de brasileiros que vivem fora do País, em condições que demandam atenção do Estado que não o absorveu aqui. Quantos brasileiros temos fora do País, trabalhando em condições análogas à escravidão ou habitando lugares precários? 
Na diplomacia existe o princípio da reciprocidade. A maneira como tratamos os estrangeiros que chegam aqui é a maneira como tratam os brasileiros que estão lá fora. Esse espelho da reciprocidade pode até acontecer em Países que se mantiveram no Pacto, mas que vão questionar que responsabilidade eles precisam ter com brasileiros, se o País de origem deles não deu atenção ao Pacto Global.
GGN: Os Estados Unidos não entraram no Pacto alegando que os planos de Donald Trump para a migração são incompatíveis. Usaram o discurso da soberania nacional, que Bolsonaro repete aqui. Mas o Brasil tem os mesmos problemas de migração que países como Estados Unidos para emprestar essa visão mais dura sobre as fronteiras?
Cilene: Eu cobri a assinatura do Pacto, no Marrocos, em 9, 10 e 11 de dezembro de 2018. O Brasil adotou o Pacto em discurso do então ministro Aloysio Nunes. Poucas horas depois, o novo chanceler Ernesto Araújo tuitou que retiraria o Brasil sob o pretexto da ameaça à soberania, repetindo o discurso dos norte-americanos. É de um apelo linguístico muito rasteiro porque, de novo, não é um pacto que fere soberanias.
O Brasil não vive nem de longe a situação de outros Países [que desenvolvem uma política dura de migração]. Exceto pela situação que estamos vivendo hoje com a Venezuela, o Brasil, pela sua localização, não é destino de refugiados.
É importante diferenciar refugiados de imigrantes. O Brasil tem hoje, segundo o Conare [Conselho Nacional para os Refugiados, órgão ligado ao Itamaraty] e a Polícia Federal, cerca de 10,8 mil refugiados dos quais apenas metade tem o status oficial de refugiado. Temos mais de 30 mil solicitações de refúgio. É um País que historicamente tem dificuldade de lidar com esse tema, mas comparado com outros Países, nem de longe tem os mesmos problemas.
Não que a própria postura dos EUA se justifique. Hoje a Alemanha, por exemplo, tem 1 milhão de refugiados. Tudo bem, é uma política migratória que enfraqueceu Angela Merkel politicamente, mas nem de longe o Brasil pode se comparar com Países que receberam 500 mil, 1 milhão ou mais de refugiados. [A Turquia, que é impactada pelos conflitos na Síria, tem 2,5 milhões.]
GGN: Além do discurso da soberania nacional, Bolsonaro deu a entender que a questão da migração será alterada porque não é qualquer um que 'pode entrar na nossa casa', como se as fronteiras fossem ganhar restrições duras...
Cilene: A fronteira está aberta porque ela não pode ser fechada mesmo. O Brasil é signatário da Convenção de Genebra, de 1951, e de seus protocolos subsequentes, e não pode fechar fronteiras. Se fecha fronteiras, fere a Convenção.
A questão é que Bolsonaro fica tratando venezuelanos como refugiados, e aí gera uma grande confusão. Refugiado é aquele que deu entrada no requerimento de refúgio, e precisa ganhar o status do País para receber proteção legal. Entre as proteções está o princípio da não devolução, essa pessoa não pode ser devolvida para o País de onde saiu.
Mas acontece que a Convenção só reconhece como causa para refúgio perseguição política, violência generalizada ou guerras. Não é o caso venezuelano, que requer mais uma abertura de nossas fronteiras de forma regular.
O Brasil demorou muito para entender o que estava acontecendo em Roraima, em cidades de fronteira pequenas como Pacaraima, que mal têm estrutura para seus habitantes. Receber 5 mil, 10 mil, 30 mil venezuelanos é claro que iria impactar.
A incompetência do governo brasileiro em lidar com a questão migratória na fronteira com a Venezuela está sendo usada para justificar a saída do Brasil do Pacto. 
GGN: Chama atenção também no discurso de Bolsonaro a ideia de que quem entra no País deve se submeter à nossa cultura, cantar o nosso hino. Um discurso que parece violar o direito do imigrante a ter costumes próprios...
Cilene: Visivelmente Bolsonaro não leu o Pacto e hoje eu até duvido que o próprio chanceler tenha lido. Essa questão é uma afronta, porque estamos falando de migrações forçadas, de pessoas que se viram diante de uma 'escolha impossível', não tinham outra saída senão migrar. Essas pessoas estavam fugindo da fome, de perseguição política ou, no caso dos haitianos, fugiram em decorrência de um desastre ambiental e estão no Brasil com visto humanitário.
Você tentar impor seus valores e sua cultura sobre esses imigrantes não têm nada a ver com soberania, mas tem a ver com atrocidades cometidas contra aqueles que procuram nosso acolhimento. Preservar cultura e valores não anula a obrigatoriedade de respeitar as leis de um País.
Então o discurso de Bolsonaro é populista e de apelo muito raso. Não tem consistência. A fala dele sobre imigrantes foi pueril, porque você não pode comparar uma casa com um País. Um País não tem um dono. Na minha casa mando eu. No País não existe só o presidente, existe o Legislativo, o Judiciário, a sociedade civil. Não existe um chefe só.