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quinta-feira, 15 de janeiro de 2026

Do pretenso Destino Manifesto ao explícito imperialismo da Doutrina Donroe, por André Luiz V. Neves

 

Análise Histórica da expansão Territorial, projeção de Poder e a reconfiguração Contemporânea da Doutrina Monroe

Do Jornal GGN:

Do Destino Manifesto à Doutrina Donroe, por André Luiz V. Neves

    Reprodução: Casa Branca

Nota de Apresentação

A análise que se segue não é apenas uma recuperação histórica, mas um diagnóstico de urgência sobre a integridade soberana da América do Sul. Ao identificar a transição da Doutrina Monroe para o que o autor denomina “Doutrina Donroe”, André Luiz Varella Neves oferece o crivo necessário para compreendermos o sequestro de Nicolás Maduro não como um fato isolado, mas como o esgotamento de uma diplomacia de fachada em favor de um pragmatismo extrativista. Minha intermediação aqui cumpre o papel de curadoria crítica, atestando a relevância deste pensamento para o debate público brasileiro, especialmente no que tange aos riscos de interferências em nossos próprios processos eleitorais.
Thiago Gama é Doutorando em História Comparada pela UFRJ  Curador e Intelectual Mediador do texto abaixo.

Por André Luiz Varella Neves

Do Destino Manifesto à Doutrina Donroe: Dois Séculos de Hegemonia Americana na América Latina

Análise Histórica da expansão Territorial, projeção de Poder e a reconfiguração Contemporânea da Doutrina Monroe

Introdução.

Na madrugada de 3 de fevereiro de 2026, uma operação militar sem precedentes na América do Sul redefiniu as regras do jogo geopolítico hemisférico. O ataque norte-americano a Caracas, resultando no sequestro do presidente venezuelano Nicolás Maduro e de sua esposa Cília Flores para julgamento em solo americano, não foi um evento isolado nem uma anomalia histórica. Ao contrário, representou a manifestação mais explícita e brutal de uma lógica geopolítica que atravessa dois séculos de relações interamericanas.

Esta intervenção violou frontalmente o princípio fundamental do direito internacional consagrado na Carta das Nações Unidas — a proibição do uso da força contra a integridade territorial ou independência política de qualquer Estado. No entanto, para compreender seu verdadeiro significado, é necessário situá-la dentro de uma trajetória histórica que começa com a formação dos Estados Unidos como nação e evolui através de doutrinas, guerras e reinterpretações estratégicas que sempre enxergaram a América Latina como área de influência exclusiva.

O questionamento que emerge deste evento dramático é: afinal, neste primeiro quarto do Século XXI estaremos diante de  um Neo-Monroísmo pragmático? Para respondermos esta pergunta, exige que percorramos o caminho que vai da expansão continental do século XIX à construção do Canal do Panamá, da proclamação da Doutrina Monroe ao Corolário Roosevelt, e finalmente à emergência do que analistas contemporâneos denominam “Doutrina Donroe”.

Este texto traça essa trajetória, demonstrando como a intervenção de 2026 é menos uma ruptura do que uma atualização particularmente explícita de princípios que sempre orientaram a política externa norte-americana para a região.

  1. A Construção de uma Nação Continental (1800-1850).

1.1 O Contexto Pós-Independência e a Busca por Consolidação Territorial

Após a consolidação da União e a estabilização do regime político, os Estados Unidos voltaram-se para um projeto ambicioso: a expansão territorial que transformaria uma jovem república atlântica em uma potência continental. O período entre 1800 e 1850 testemunhou uma das expansões territoriais mais rápidas e abrangentes da história moderna.

O processo começou em 1803 com a compra da Louisiana — uma negociação com a França napoleônica que dobrou o território nacional por 15 milhões de dólares. Em 1819, a aquisição da Flórida da Espanha consolidou o controle sobre a península estratégica. Mas foi na década de 1840 que a expansão atingiu seu ritmo mais agressivo. Em 1846, o Tratado do Oregon estabeleceu o paralelo 49° como fronteira com os territórios britânicos, garantindo o acesso ao Pacífico.

O evento mais transformador, porém, foi a Guerra Mexicano-Americana (1846-1848). Desencadeada por disputas fronteiriças após a anexação do Texas em 1845, o conflito terminou com a esmagadora vitória norte-americana. O Tratado de Guadalupe-Hidalgo forçou o México a ceder aproximadamente 55% de seu território — os atuais Estados da Califórnia, Novo México, Arizona, Nevada, Utah, e partes do Colorado e Wyoming. Em 1867, a compra do Alasca da Rússia por 7,2 milhões de dólares completaria a expansão continental.

    Fonte : U.S. Geological Survey

1.2 A Dimensão Demográfica e Econômica da Expansão.

Em apenas cinquenta anos, os Estados Unidos adquiriram 2,3 milhões de milhas quadradas, aumentando seu território em dez vezes. Essa expansão não foi apenas geográfica, mas também demográfica e econômica. A população cresceu de 5,3 milhões em 1800 para 23 milhões em 1850, enquanto a economia se transformava rapidamente de agrária para industrial.

O movimento para oeste teve primeiro os exploradores e caçadores, depois os missionários e comerciantes, seguidos pelos agricultores e finalmente pelos interesses comerciais e industriais. A construção de ferrovias, particularmente a Primeira Ferrovia Transcontinental concluída em 1869, acelerou a integração econômica dos novos territórios.

Esta expansão teve custos humanos devastadores para as populações nativas. A política de remoção forçada, culminando no infame “Trail of Tears” que deslocou milhares de cherokee de suas terras ancestrais, foi justificada pela necessidade econômica. A ideia de “terra vazia” (terra nullius) ignorava deliberadamente a presença de centenas de nações indígenas com suas próprias culturas, sistemas políticos e reivindicações territoriais.

1.3 O Destino Manifesto: A Ideologia da Expansão.

A expansão territorial necessitava de uma justificativa ideológica poderosa, e essa foi fornecida pela doutrina do Destino Manifesto. Cunhado pela primeira vez pelo jornalista John L. O’Sullivan em 1845, o termo encapsulava a crença de que os Estados Unidos tinham uma missão divina para expandir-se por todo o continente, levando consigo os valores da democracia, liberdade individual e civilização cristã.

Destino Manifesto operava em múltiplos níveis. Religiosamente, apresentava a expansão como cumprimento de um plano providencial. Racialmente, baseava-se em teorias de superioridade anglo-saxônica que justificavam a dominação sobre mexicanos e povos indígenas. Politicamente, associou a expansão territorial à difusão dos valores republicanos.

Esta doutrina foi respaldada pela “Tese da Fronteira” do historiador Frederick Jackson Turner, apresentada em 1893. Turner argumentava que a existência de uma fronteira em constante movimento para oeste havia sido o fator fundamental na formação do caráter nacional americano — individualista, democrático, inovador e intrinsecamente expansionista. Quando o censo de 1890 declarou oficialmente o fechamento da fronteira continental, uma questão crucial emergiu: para onde direcionar essa energia expansionista que havia se tornado parte integral da identidade nacional?

 2 –  A Doutrina Monroe.

2.1 O Contexto Hemisférico de 1823.

A proclamação da Doutrina Monroe em 2 de dezembro de 1823 ocorreu em um momento de transformação geopolítica. As antigas colônias ibéricas na América Latina travavam suas guerras de independência (1808-1826), inspiradas pelas revoluções Americana e Francesa. Enquanto isso, as potências europeias da Santa Aliança — Rússia, Prússia, Áustria e França — consideravam intervir para restaurar o domínio espanhol ou estabelecer novas colônias.

A posição dos Estados Unidos era ambivalente. Por um lado, simpatizavam com os movimentos independentistas que espelhavam sua própria experiência revolucionária. Por outro, temiam que a instabilidade regional pudesse atrair intervenção europeia que ameaçasse sua segurança. A solução encontrada por Monroe foi estabelecer dois princípios fundamentais que moldariam a política externa dos Estados Unidos por dois séculos.

  1. O princípio da não-colonização que declarava que os continentes americanos… não estão mais abertos à colonização europeia.
  2. O princípio da não-intervenção que alertava que qualquer tentativa da Europa de estender seu sistema político às Américas seria considerada uma ameaça a paz e a segurança dos Estados Unidos.

Na sua essência original, a doutrina era defensiva e isolacionista. Os Estados Unidos, ainda uma nação jovem com recursos militares limitados, não tinham capacidade — nem inicialmente intenção — de impor sua vontade sobre o resto do hemisfério. Curiosamente, a viabilidade da doutrina dependia do apoio tácito da Royal Navy, que também tinha interesse em manter a América Latina livre de monopólios coloniais para garantir mercados abertos ao seu comércio.

2.2 Protetorado sem Consentimento.

A contradição no cerne da Doutrina Monroe residia em seu caráter unilateral. Monroe declarou-se protetor das nações latino-americanas sem consultá-las, sem pedir sua permissão e sem estabelecer mecanismos de decisão conjunta. Esta conduta estabeleceu um padrão que marcaria as relações interamericanas pelos séculos seguintes: a ideia de que os Estados Unidos sabiam o que era melhor para seus “vizinhos” do sul.

Esta atitude refletia não apenas diferenças de poder, mas também profundas assimetrias culturais e raciais. A visão predominante em Washington via as repúblicas latino-americanas como politicamente instáveis, economicamente atrasadas e racialmente inferiores — portanto, necessitadas de orientação e proteção.

Por décadas após sua proclamação, a Doutrina Monroe permaneceu mais como princípio retórico do que como política ativa. Isso mudaria radicalmente com a virada do século XX, quando os Estados Unidos emergiram como potência industrial e militar capaz de fazer cumprir, pela força se necessário, os princípios que Monroe havia apenas declarado.

 3: A Virada Imperial: Guerra Hispano-Americana e a Emergência como Potência Global (1898).

3.1 O Contexto do Final do Século XIX

O final do século XIX encontrou os Estados Unidos em uma posição paradoxal. Economicamente, haviam superado o Reino Unido como a maior economia industrial do mundo. Sua produção de aço, carvão e manufaturas superava a de qualquer país europeu. Militarmente, porém, permaneciam uma potência essencialmente continental, com capacidade limitada de projeção de poder além de suas costas.

Esta discrepância entre poder econômico e capacidade militar gerou um debate intenso sobre o papel dos Estados Unidos no mundo. De um lado, estavam os isolacionistas que argumentavam que o país deveria focar no desenvolvimento interno. Do outro, expansionistas como o almirante Alfred Thayer Mahan, cuja obra “A Influência do Poder Naval na História” (1890) defendia que o futuro pertencia às potências que controlassem os mares e estabelecessem bases estratégicas globais.

3.2 A Guerra Hispano-Americana: Causas e Consequências

O ponto de virada foi a Guerra Hispano-Americana de 1898. O conflito teve origem na luta cubana pela independência da Espanha, mas foi precipitado pelo misterioso naufrágio do navio de guerra USS Maine no porto de Havana em 15 de fevereiro de 1898. A imprensa sensacionalista americana (na prática conhecida como “yellow journalism”) imediatamente atribuiu o desastre a sabotagem espanhola, criando um clamor público por guerra.

A guerra propriamente dita foi breve — durou apenas dez semanas — e unilateral. A esquadra americana destruiu a frota espanhola nas Filipinas (Batalha da Baía de Manila) e em Cuba (Batalha de Santiago de Cuba). O Tratado de Paris, assinado em 10 de dezembro de 1898, estabeleceu os termos da rendição espanhola:

  • Cuba: Tornou-se protetorado dos Estados Unidos status formalizado pela Emenda Platt de 1901, que dava aos EUA o direito de intervir nos assuntos cubanos.
  • Porto Rico, Guam e Filipinas: Foram cedidos aos Estados Unidos como territórios
  • Havaí: Anexado durante o conflito (Resolução Newlands de 1898)

3.3 Significado Geopolítico da Guerra

A Guerra Hispano-Americana representou múltiplas transformações simultâneas, como segue: Primeiro, marcou a transição dos Estados Unidos de potência continental para potência imperial global. Pela primeira vez, adquiriam territórios ultramarinos habitados por populações não anglo-saxãs que não seriam integradas como estados da União. Segundo, estabeleceu os Estados Unidos como potência naval com capacidade de projeção global. A vitória demonstrou a eficácia das teorias de Mahan sobre poder naval. Terceiro, criou uma infraestrutura imperial no Pacífico e Caribe que exigiria proteção e manutenção, levando logicamente a intervenções futuras. Quarto, estabeleceu um padrão de justificativa ideológica: a guerra foi vendida ao público americano não como conquista imperial, mas como missão humanitária para “libertar” cubanos e filipinos do jugo espanhol.

Em síntese, os Estados Unidos não apenas defendiam o hemisfério de potências externas mas antes, assumiam o papel de potência colonial na região, estabelecendo um protetorado sobre Cuba que duraria até 1934.

 4- O Corolário Roosevelt e a Política do “Big Stick” (1901-1914)

4.1 Theodore Roosevelt e a Reinterpretação da Doutrina Monroe

Sob a presidência de Theodore Roosevelt (1901-1909), a Doutrina Monroe foi reinterpretada de forma agressiva e expansionista. Roosevelt personificava a nova confiança americana: jovem, enérgico, profundamente convencido do destino imperial de seu país e discípulo das teorias navais de Mahan.

A oportunidade para reformular a doutrina surgiu em 1904, durante uma crise financeira na República Dominicana. O país havia acumulado dívidas significativas com credores europeus, que ameaçavam intervenção armada para cobrá-las. Roosevelt viu nisso uma violação potencial da Doutrina Monroe e agiu decisivamente.

Em sua mensagem anual ao Congresso em 6 de dezembro de 1904, Roosevelt anunciou o que ficaria conhecido como o “Corolário Roosevelt” à Doutrina Monroe. Seu raciocínio era simples, mas suas implicações eram revolucionárias: se os Estados Unidos proibiam a Europa de intervir na América Latina para cobrar dívidas ou restaurar a ordem, então tinham a responsabilidade de intervir eles mesmos para garantir que as dívidas fossem pagas e a estabilidade mantida.

4.2 A Política do “Big Stick”

A política ficou conhecida como a do “Big Stick”, baseada no provérbio africano que Roosevelt apreciava: Fale suavemente e carregue um grande porrete; você irá longe. O “porrete” era a Marinha de guerra dos EUA, que Roosevelt modernizou e expandiu agressivamente, criando a Great White Fleet (Grande Frota Branca) que circum-navegou o globo entre 1907 e 1909 para demonstrar o poder naval americano.

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Roosevelt aplicou sua política de forma consistente em toda a região como apresenta o mapa.

  1. 1903: Apoiou a separação do Panamá da Colômbia para garantir os direitos de construção do Canal do Panamá
  2. 1906-1909: Intervenção em Cuba para “restaurar a ordem” durante a Revolução Cubana
  3. 1912-1933: Ocupação da Nicarágua
  4. 1915-1934: Ocupação do Haiti
  5. 1916-1924: Ocupação da República Dominicana

Fonte: International Enciclopedia the First World War.

4.3 O Canal do Panamá: Símbolo da Nova Hegemonia

O Corolário Roosevelt encontrou sua expressão mais concreta no projeto do Canal do Panamá. Roosevelt reconhecia que um canal interoceânico seria vital tanto para o poder naval quanto para o comércio global dos EUA. Quando o Senado colombiano rejeitou o tratado que daria aos Estados Unidos direitos perpétuos sobre uma zona do canal, Roosevelt apoiou um movimento separatista no Panamá.

O novo país, reconhecido imediatamente pelos Estados Unidos, assinou o Tratado Hay-Bunau-Varilla (1903), que concedia aos norte-americanos o controle virtualmente permanente sobre uma Zona do Canal de 10 milhas de largura. O Canal, concluído em 1914 após uma década de construção que custou milhares de vidas, não apenas facilitou o comércio global, mas transformou o Caribe em no “Mare Nostrum Americano

Para proteger essa rota vital, os Estados Unidos estabeleceram uma rede de bases navais e justificaram intervenções frequentes na região sob o argumento de proteger seus interesses estratégicos. A lógica era circular, mas eficaz: o Canal exigia proteção, que por sua vez exigia intervenção, que reforçava o controle sobre a região, que garantia a segurança do Canal.

5: Do “Big Stick” ao “Bom Vizinho”: Evoluções e Continuidades (1914-1945)

5.1 A Primeira Guerra Mundial e o Intervencionismo

O período entre as duas guerras mundiais testemunhou uma expansão, paradoxalmente, tanto do intervencionismo quanto das críticas a ele. A Primeira Guerra Mundial reforçou a posição dos Estados Unidos como potência global, enquanto a Revolução Russa de 1917 introduziu uma nova dimensão ideológica às relações interamericanas: o temor do comunismo.

Na década de 1920, as intervenções americanas continuaram, mas começaram a enfrentar resistência crescente tanto internamente quanto na América Latina. O massacre de haitianos por fuzileiros navais americanos em 1929, por exemplo, gerou críticas ferozes no Congresso e na imprensa.

5.2 A Política do “Bom Vizinho”

A Grande Depressão e a eleição de Franklin D. Roosevelt em 1932 trouxeram mudanças significativas. Em 1933, Roosevelt anunciou a Política do “Bom Vizinho”, prometendo respeito à soberania latino-americana e não-intervenção. Na prática, isso significou o fim das ocupações militares na República Dominicana em 1924, na Nicarágua em 1933 e no Haiti em 1934. Além da revogação da Emenda Platt em 1934 que tinha tornado efetivamente Cuba um protetorado dos Estados Unidos.

No entanto, o “Bom Vizinho” foi mais retórica do que realidade. O poder econômico americano continuou a dominar a região, e quando interesses estratégicos foram considerados ameaçados — como no caso do governo reformista de Jacobo Árbenz na Guatemala em 1954 — a intervenção retornou sob novas formas.

5.3 A Segunda Guerra Mundial e a Consolidação da Hegemonia

A Segunda Guerra Mundial consolidou definitivamente a hegemonia americana no hemisfério. Com a Europa devastada pelo conflito, os Estados Unidos emergiram como a única potência econômica e militar intacta, posição que utilizaram para moldar a ordem internacional pós-guerra através das instituições de Bretton Woods (FMI, Banco Mundial) e do sistema das Nações Unidas.

Na América Latina, isso se traduziu em uma mistura de cooperação e coerção. Por um lado, os Estados Unidos promoveram a aliança militar através do Tratado Interamericano de Assistência Recíproca (TIAR) de 1947. Por outro, começaram a ver qualquer movimento reformista ou nacionalista como potencialmente comunista, preparando o terreno para a intervenção da Guerra Fria.

6: A Guerra Fria: Monroe Vestindo a Roupa Anticomunista (1947-1991)

6.1 A Reconfiguração da Doutrina Monroe

O início da Guerra Fria trouxe uma nova e poderosa justificativa para a intervenção americana na América Latina: o combate ao comunismo. A Doutrina Monroe foi atualizada e enquadrada dentro da Doutrina de Contenção formulada por George F. Kennan, que defendia a necessidade de conter a expansão soviética em todo o mundo.

Qualquer governo reformista, nacionalista ou de esquerda passou a ser visto como uma potencial cabeça-de-ponte de Moscou no Hemisfério Ocidental. Esta lógica justificou algumas das intervenções mais controversas da história americana:

6.2 Casos Emblemáticos da Guerra Fria

Guatemala, 1954: A CIA orquestrou o golpe que derrubou o presidente democraticamente eleito Jacobo Árbenz, cujas reformas agrárias ameaçavam os interesses da United Fruit Company. O operativo PBSUCCESS estabeleceu um padrão: uso de propaganda, apoio a forças opositoras e negação plausível.

Cuba, 1961-1991: Após a Revolução Cubana, os Estados Unidos iniciaram uma campanha multifacetada que incluía a invasão fracassada da Baía dos Porcos (1961), o embargo econômico (iniciado em 1960 e intensificado em 1962), tentativas de assassinato de Fidel Castro e isolamento diplomático.

República Dominicana, 1965: Intervenção militar de 20.000 fuzileiros navais para impedir a volta ao poder do ex-presidente reformista Juan Bosch, sob a alegação de prevenir “outra Cuba”.

Chile, 1973: Apoio financeiro e político da CIA à oposição que desestabilizou o governo de Salvador Allende, culminando no golpe militar de Augusto Pinochet.

América Central, anos 80: Envolvimento profundo nas guerras civis de El Salvador (apoio ao governo) e Nicarágua (apoio aos “Contras”), com o argumento de barrar a expansão sandinista.

6.3 A Sofisticação dos Métodos

Durante a Guerra Fria, a intervenção se sofisticou: menos ocupações militares prolongadas, mais golpes de Estado patrocinados, guerra econômica, operações secretas e apoio a regimes autoritários aliados. A Escola das Américas, estabelecida no Panamá em 1946, treinou milhares de militares latino-americanos em técnicas de contrainsurgência, muitos dos quais depois participaram de governos ditatoriais.

A justificativa ideológica era poderosa, mas frequentemente servia para encobrir interesses econômicos. Como observado por analistas, mesmo durante a Guerra Fria os EUA frequentemente “abandonaram qualquer pretensão de que isso tenha sido feito pelo bem da democracia”, apoiando regimes autoritários desde que fossem anticomunistas.

Para ilustrar, segue o mapa com todas as intervenções dos Estados Unidos apoiando os golpes militares na América Latina.

   Fonte : G Zero.

7: O Pós-Guerra Fria e as Novas Justificativas (1991-2016)

7.1 O “Momento Unipolar” e a Busca por Novas Missões

O colapso da União Soviética em 1991 eliminou a principal justificativa ideológica para a intervenção americana. Nos anos 1990, os Estados Unidos falaram em uma Parceria para as Américas e promoveram iniciativas como a Área de Livre Comércio das Américas (ALCA).

No entanto, a lógica subjacente da Doutrina Monroe não desapareceu; ela se adaptou a novas “ameaças” que justificassem a presença e influência americanas:

7.2 As Novas “Ameaças”

As ‘novas ameaças’ foram identificadas como : narcotráfico, terrorismo e imigração.

 A “Guerra às Drogas”, declarada por Richard Nixon em 1971, ganhou novo impulso nos anos 1990 como justificativa para intervenção. O Plano Colômbia, iniciado em 2000, canalizou mais de 10 bilhões de dólares em ajuda militar e policial, transformando um conflito interno em uma frente da guerra global contra as drogas.

Os ataques de 11 de setembro de 2001 forneceram uma justificativa ainda mais ampla. A “Guerra ao Terror” global se estendeu à América Latina através de iniciativas como a Iniciativa Mérida no México.

O controle dos fluxos migratórios tornou-se uma prioridade de segurança nacional, influenciando políticas para a América Central e justificando intervenções indiretas.

Como podemos notar, não há nada de novo nas narrativas atuais, pois todas ainda declaram os mesmos problemas.

 8: A “Doutrina Donroe”: A Intervenção na Venezuela (2026)

8.1 O Contexto Imediato

A intervenção militar direta na Venezuela em fevereiro de 2026 representa, nas algo sem precedentes, pois pela primeira vez os Estados Unidos intervém diretamente na América do Sul.  A operação que resultou no sequestro do presidente Nicolás Maduro e sua esposa, seguido por seu transporte para julgamento em Nova York, marca uma escalada qualitativa na longa história da intervenção americana na região.

Geograficamente, rompe com um padrão histórico: enquanto no século XX as intervenções diretas se concentraram no Caribe e na América Central, na América do Sul os EUA preferiram métodos indiretos. A ação na Venezuela estabelece um precedente perigoso para a sub-região.

8.2 Características da “Doutrina Donroe

A análise da intervenção revela características distintivas que o próprio governo denomina de  “Doutrina Donroe” — uma fusão dos nomes Donald Trump e James Monroe que sintetiza esta nova fase.

Enquanto intervenções passadas eram justificadas por valores como democracia ou direitos humanos, a ação na Venezuela não houve nenhuma menção a estas questões. A justificativa apresentada — inicialmente narcoterrorismo, depois clientelismo via narcotráfico — mostrou-se insustentável. Como vimos na declaração do Presidente Trump em Mar-a-Lago, a preocupação foi essencialmente na questão do petróleo. Este interesse reside no fato de que a Venezuela detém as maiores reservas comprovadas de petróleo do mundo, e o governo americano deixou claro que busca acesso para empresas norte-americanas. O próprio discurso oficial referiu-se ao “nosso petróleo”, em clara demonstração de apropriação de recursos localizados em outro país soberano.

Se a Doutrina Monroe original visava potências europeias, e durante a Guerra Fria focava no comunismo soviético, a “Doutrina Donroe” mira claramente a República Popular da China. O motivo é que ela tornou-se nas últimas décadas o principal parceiro comercial de vários países latino-americanos, investindo massivamente em infraestrutura através da Iniciativa do Cinturão e Rota.

A intervenção na Venezuela pode ser traduzida na seguinte mensagem: os Estados Unidos não permitirão que a China expanda sua influência no que consideram sua esfera exclusiva. A postagem do Departamento de Estado no X — Este é o NOSSO hemisfério — sintetiza essa mentalidade renovada de posse.

Outra característica que se identifica claramente na Doutrina de Trump está localizada em duas correntes distintas. A primeira é ideológica e é representada pela figura do Secretário de Estado Marco Rubio. Esta corrente tem como objetivo as mudanças de regime na Venezuela, em Cuba e na Nicarágua.

A segunda corrente é transacional representada pelo Presidente Trump cujo interesse está focado em acordos econômicos vantajosos do que apoiar ou promover valores democráticos.

9: Implicações Regionais e Respostas Latino-Americanas

9.1 O Dilema Latino-Americano

A resposta dos países da região à intervenção tem sido limitada, consistindo principalmente em condenações verbais e pedidos de reunião do Conselho de Segurança da ONU. A fragmentação ideológica dificulta uma resposta coordenada: enquanto governos de esquerda condenam veementemente a ação, governos de direita tendem a apoiá-la ou manter silêncio cúmplice.

Esta divisão é habilmente explorada pela estratégia americana, que isola países e os pressiona individualmente. A política de acordos comerciais bilaterais preferenciais com governos alinhados, combinada com sanções contra governos opositores, aprofunda as divisões regionais.

9.2 Brasil e as Interferências Eleitorais e Futuro imediato da Venezuela.

A intervenção na Venezuela expõe um grande risco de termos interferências em processos eleitorais regionais no Brasil. Poderá ocorrer por parte do Governo Trump apoio a candidatos da extrema direita em nosso país, além da pressão econômica e sanções seletivas criando um novo modelo de intervenção indireta, mas eficaz.

Em relação ao cenário venezuelano permanece difuso. Os militares mantêm, até o momento, apoio ao governo chavista, agora liderado interinamente pela vice-presidente Delcy Rodríguez. A Constituição exige eleições em prazos curtos (30 dias se a ausência for permanente, 180 se for temporária), mas o temor de líderes políticos e militares de serem processados e extraditados, como ocorreu com Maduro, atua como fator de coesão.

O governo interino enfrenta o dilema de resistir nacionalmente ou negociar condições que garantam sua sobrevivência política. A retórica inicial de resistência — “não seremos uma colônia” — deu lugar a sinais de disposição para negociar “pelo desenvolvimento”, sugerindo uma acomodação pragmática aos novos fatos no terreno.

Conclusão:

A intervenção na Venezuela de 2026, analisada através da lente histórica da expansão americana e da evolução da Doutrina Monroe, revela-se não como um evento isolado, mas como o capítulo mais recente em uma história de dois séculos. A “Doutrina Donroe” representa tanto continuidade quanto ruptura.

Continuidade na afirmação de hegemonia americana sobre o hemisfério ocidental. Desde a expansão territorial do século XIX até a intervenção de 2026, uma linha conecta a crença no Destino Manifesto, a proclamação unilateral da Doutrina Monroe, o Corolário Roosevelt, as intervenções da Guerra Fria e a ação contemporânea na Venezuela: a convicção de que os Estados Unidos têm direito a determinar os rumos de seu “quintal” estratégico.

Ruptura na declaração da hegemonia estadunidense no Hemisfério Ocidental. O que mudou não é a intenção, mas os métodos e a franqueza com que os interesses são declarados. Enquanto no século XIX falava-se em “Destino Manifesto”, no início do XX em “missão civilizatória”, durante a Guerra Fria em “defesa da democracia”, no século XXI fala-se simplesmente em nosso hemisfério” e “nosso petróleo.

Para a América Latina, o que nos cabe é responder a seguinte questão: como construir soberania coletiva frente a uma potência que nunca abandonou a visão intervencionista?

Este é o nosso desafio histórico, pois a sombra da Doutrina Monroe de 1823 ainda se projeta na nossa região.

André Luiz Varella Neves – Doutor em Ciência Política pela USP e Subchefe do Departamento de Estudos Estratégicos e Relações Internacionais do INEST/UFF. Especialista em Geopolítica e Estratégia dos Estados Unidos, coordena o Laboratório de Estudo da Grande Estratégia dos Estados Unidos (Lab-GEST).

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para dicasdepautaggn@gmail.com. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

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quinta-feira, 25 de setembro de 2025

Discurso de Lula na ONU na última terça-feira, dia 23, ecoou na imprensa internacional na quarta, dia 24

 

Veículos dos EUA, Europa e Ásia repercutem o discurso de Lula na ONU e as sanções externas que ampliam a tensão diplomática do Brasil

Da Redação do Jornal GGN:


A imprensa internacional destacou nesta quarta-feira (24) o discurso do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) na abertura da 80ª Assembleia Geral da ONU, no qual defendeu a democracia e criticou pressões externas. O Brasil também ganhou espaço na cobertura global em razão das sanções impostas pelos Estados Unidos e de temas econômicos que movimentam o cenário interno. Confira:


A repercussão nos Estados Unidos


The New York Times destacou a reação do presidente norte-americano, Donald Trump, após o discurso “contundente” de Lula, na Assembleia Geral da ONU. Também citou o breve encontro entre os líderes nos bastidores do evento.

Já o The Washington Post publicou que Trump aproveitou seu discurso para fazer críticas à ONU e atacar políticas climáticas e de migração — e ressaltou o contato com Lula como ato simbólico.

Reuters fez uma cobertura sobre compromissos econômicos e decisões macro, com reportagem sobre o anúncio de investimento de US$1 bilhão do Brasil no Fundo Global de Florestas Tropicais e também sinalizações do Banco Central quanto à nova etapa de manutenção da taxa Selic.

agência ainda reportou que Trump anunciou uma reunião com Lula na “próxima semana”, após mencionar que os dois tiveram “química excelente” durante contato nos corredores da ONU.

The Associated Press (AP), por sua vez, publicou vídeo com trechos do discurso de Lula na ONU e também uma matéria sobre o impacto das leis de armas no tráfico para o crime organizado no Brasil.

A repercussão na Europa


The Guardian fez uma ampla cobertura do discurso de Lula na ONU, com live-updates e análise do posicionamento do presidente brasileiro contra o que chamou de ameaças autoritárias e pressões externas.

O Le Monde tratou o contexto europeu e global (incluindo críticas a Trump na ONU) e publicou análises sobre a posição do Brasil.

El País destacou o contato entre Lula e Trump e publicou análise sobre o papel do Brasil na COP30.

AFP / BBC / Deutsche Welle (DW) acompanharam o UNGA e repercussões diplomáticas e domésticas; AFP publicou notas sobre mensagens do Brasil.

A repercussão na Ásia


A cobertura oficial chinesa, da Xinhua, enfatizou a Assembleia Geral da ONU em tom de multilateralismo e destacou o papel do Brasil no debate global (reportagens e fotos do primeiro dia da Assembleia).

China Daily e Global Times publicaram os desdobramentos multilaterais e as oportunidades econômicas/ambientais entre China e Brasil, além de comentar as posições de Lula e as reações às retaliações dos EUA.

Times of India noticiou a Assembleia Geral da ONU como parte do balanço global do dia, citando o discurso de Lula.

A mídia russa TASS cobriu a participação do Brasil no contexto BRICS/Assembleia Geral da ONU, com foco em respostas multilaterais.

Nota da redação: Este texto, especificamente, foi desenvolvido parcialmente com auxílio de ferramentas de Inteligência Artificial. A equipe de jornalistas do Jornal GGN segue responsável pelas pautas, produção, apuração, entrevistas e revisão de conteúdo publicado, para garantir a curadoria, lisura e veracidade das informações.

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É o presidente brasileiro de maior prestígio internacional, atualmente reconhecido como uma das principais lideranças globais pela paz.

                                                        Foto de Ricardo Stuckert/PR

Do Jornal GGN:


O Brasil é um país de paradoxos. O reconhecimento, ainda que tímido, dos méritos de Lula pela mídia nacional só ocorreu após a consagração internacional do Bolsa Família e sua liderança no G20 e entre países agrícolas durante a crise de 2008.

O mesmo padrão se repete agora.

Desde o início de sua trajetória presidencial, Lula revelou características políticas marcantes:

  • É um democrata, por convicção e prática.
  • É um social-democrata, que jamais tentou confrontar os pilares do sistema financeiro que herdou.
  • Avança pontualmente ao buscar brechas no orçamento para incluir os mais pobres e fortalecer os movimentos sociais — vistos por ele, corretamente, como pilares da democracia.
  • Mas tem dificuldade em consolidar planos estratégicos de desenvolvimento nacional.
  • Cede excessivamente nas negociações políticas, dentro do modelo de presidencialismo de coalizão.
  • Seus dois primeiros mandatos foram favorecidos pelo boom das commodities, que ampliou o orçamento e permitiu atender simultaneamente ao mercado, aos grandes grupos e às políticas sociais.
  • É, sobretudo, o presidente brasileiro de maior prestígio internacional, atualmente reconhecido como uma das principais lideranças globais pela paz.
  • Contudo, não é o estadista disposto a reformar profundamente o Estado.

A polarização política, intensificada com a ascensão de Lula e do PT, atingiu níveis de irracionalidade preocupantes. Em vez de ser reconhecido como o líder que ajudou a consolidar a democracia, suavizar os excessos do capitalismo e fortalecer os movimentos sociais, Lula passou a ser rotulado como esquerdista e estatista — inclusive por setores da opinião pública considerados racionais, que se informavam pelos grandes veículos de mídia.

Foi alvo da mídia, do Supremo Tribunal Federal, do chamado “partido do TRF4” e de diversos atores institucionais que, apenas recentemente, passaram a reconhecer sua relevância para a democracia brasileira.

Lula tinha o potencial de ser o grande conciliador nacional — capaz de unir uma esquerda moderada e uma direita não radical em torno de um projeto que fortalecesse a classe média, promovesse a ascensão social sem rupturas e equilibrasse regras de mercado com estímulo à organização dos pequenos. Impedido de realizar esse papel no Brasil, sua vocação conciliadora encontrou espaço no cenário internacional, onde hoje é reconhecido como um dos líderes mais influentes do mundo, com uma dimensão geopolítica que ultrapassa a do próprio país.

Em seu discurso no encontro de lideranças internacionais, intitulado “Em Defesa da Democracia, Combatendo Extremismos”, sua conclamação em defesa da democracia soou quase como uma autocrítica. A direita cresceu porque a esquerda parou — não soube como atender às demandas da população. No poder, preocupou-se mais em atender aos interesses dos poderosos do que às necessidades dos oprimidos.

Reeleito, não se deve esperar de Lula as reformas estruturais profundas que o Estado brasileiro necessita para se tornar uma verdadeira democracia social. No entanto, sua presença no poder representa, mais uma vez, a salvação da democracia brasileira — ainda que no limite do tempo.

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terça-feira, 3 de junho de 2025

Gaza: Os campos de concentração biométricos e a hipocrisia neofascista, por Bruno Sgarzini

 

Gaza: Os campos de concentração biométricos

Massacre de 31 palestinos na fila da comida expõe como Israel planeja sua “ajuda humanitária”. Fundação obscura, criada por mercenários dos EUA, a fará com vigilância orwelliana. Objetivo: forçar deslocamentos e consolidar a limpeza étnica

Foto: Mohammed Salem/Reuters

Por Bruno Sgarzini, no Other News | Tradução: Rôney Rodrigues

Uma fundação obscura está prestes a substituir as organizações humanitárias internacionais na entrega de ajuda a Gaza, em meio aos planos israelenses para deslocar milhares de palestinos e uma fome que afeta meio milhão de habitantes de Gaza devido ao bloqueio, ordenado pelas autoridades israelenses desde março deste ano, para pressionar o Hamas a liberar os reféns israelenses. O plano inclui que a entrega de ajuda humanitária seja custodiada por mercenários de duas empresas lideradas por ex-membros da Agência Central de Inteligência (CIA), do Pentágono e da contratante militar Costellis, herdeira da conhecida empresa de mercenários Blackwater.

Depois de proibir a Agência das Nações Unidas para os Refugiados da Palestina no Oriente Médio e bloquear o trabalho de organizações humanitárias internacionais, Israel tenta novamente criar um dispositivo de ajuda humanitária que terceirize sua responsabilidade de garantir direitos alimentares na Faixa de Gaza. Segundo o advogado Itay Epshtain: “as obrigações de Israel como potência ocupante derivam, entre outros, dos artigos 43 e 48 do Regulamento de Haia, e do artigo 59 da Quarta Convenção de Genebra. Se a totalidade ou parte da população de um território ocupado carece de suprimentos suficientes, deve aceitar planos de socorro, em nome e no interesse da população palestina — não em seu próprio interesse —, e deve facilitá-los por todos os meios ao seu alcance. O artigo 59 estabelece que as atividades de socorro devem ser realizadas por organizações humanitárias imparciais e capazes”.

No passado, Israel e Estados Unidos tentaram fazer o mesmo com a construção de um píer para receber ajuda humanitária, que seria dirigido por uma empresa de ex-militares estadunidenses, mas acabou afundando após ser usado para uma operação israelense de resgate de reféns nas mãos do Hamas. Também pretenderam estabelecer o que chamaram de “bolhas humanitárias” em algumas zonas de Gaza, custodiadas por chefes de clãs da Faixa e contratantes militares israelenses, onde seria entregue ajuda humanitária depois que os “beneficiados” passassem suas digitais e rostos por scanners biométricos para verificar que não eram militantes do Hamas. A iniciativa estava dentro do marco do famoso Plano dos Generais, elaborado por militares israelenses, que projetava uma ocupação permanente do norte de Gaza.

E foi vazada para a mídia após uma chamativa nota na revista do Pentágono estadunidense do “especialista” Omer Dostri, porta-voz de Netanyahu desde agosto de 2024. Na publicação, falava-se que um plano como este poderia estabelecer um regime colaboracionista que deslocasse, de forma permanente, o Hamas e a Autoridade Nacional Palestina da administração de Gaza, um objetivo de longa data do governo israelense.

Desta vez, o plano não é tão diferente dos anteriores: o gabinete de Benjamin Netanyahu aprovou a entrega de ajuda humanitária, alimentos e medicamentos, através da Fundação Humanitária de Gaza, uma entidade registrada em fevereiro deste ano na Suíça. Para isso, as Forças de Defesa de Israel (FDI) constroem quatro pontos de distribuição que ficariam a cargo da fundação, segundo imagens de satélite revisadas pelo jornal Haaretz. Três dos pontos estão atrás do corredor Netzarim, que os militares israelenses fortificaram com checkpoints e bases militares para dividir o norte do sul de Gaza.

Segundo Netanyahu, Israel pretende “criar grandes zonas seguras no sul de Gaza. A população palestina se deslocará para lá por sua própria segurança, enquanto nós combatemos em outras zonas”. Para o jornal israelense Haaretz: “os militares israelenses controlarão um perímetro exterior, enquanto contratantes privados assegurarão e operarão um centro de distribuição dentro da zona. Especialistas humanitários estimam que entre 2.000 e 3.000 gazenses cruzarão essas linhas diariamente, após passar por uma identificação biométrica e várias fileiras de soldados armados e contratantes, segundo a formulação atual do plano”. Em seu relatório “Mapeamento de um Genocídio”, a Forensic Architecture afirma que “Israel destruiu 36% da superfície de Gaza apenas para construir pontos militares e estradas para possibilitar uma ocupação de longo prazo”.

Por isso, a Fundação Humanitária de Gaza desempenha um papel chave para apoiar o que é a reedição deste velho plano israelense; que se conjuga com os chamados dos colonos extremistas para instalar assentamentos no norte da Faixa. Segundo um de seus documentos internos, “distribuiria 300 milhões de refeições nos primeiros 90 dias”. A organização planeja alimentar os palestinos por 1,30 dólares por refeição, cifra que inclui o custo de contratar mercenários estrangeiros para proteger os alimentos e as instalações. “A ajuda será distribuída sem consideração de identidade, origem ou afiliação. Não haverá requisitos de elegibilidade”. As FDI “não estarão estacionadas em ou perto dos locais dos centros de distribuição para manter a natureza neutra e civil das operações”, afirma o documento que teria sido elaborado pelo think tank israelense Tachlith.

Não está claro o respaldo financeiro da operação, apoiada também pelo governo Trump. Até a semana passada, nenhum doador estrangeiro havia aportado fundos, segundo o The Financial Times. Uma fonte, consultada pelo meio, revelou que um país se comprometeu a aportar pelo menos 100 milhões de dólares, mas o dinheiro ainda não se materializou. Há sérias dúvidas se essa companhia é apoiada por algumas monarquias árabes, como os Emirados Árabes Unidos, que nas últimas semanas firmaram importantes acordos com os Estados Unidos durante a turnê de Trump pelo Oriente Médio. Até o momento, Dubai negou qualquer adesão ao plano, enquanto mais de 20 países da Europa e Ásia criticaram a iniciativa, entre eles Reino Unido e Alemanha, dois países facilitadores do genocídio em Gaza.

O certo é que a criação da fundação surgiu de um grupo de ex-funcionários de inteligência e defesa dos Estados Unidos e executivos de empresas preocupados com “o desvio da ajuda por parte do Hamas”, segundo documentos internos da proposta revelados pelo The Washington Post. “A operação substituiria as redes de distribuição de ajuda existentes, coordenadas pelas Nações Unidas. Os civis palestinos teriam que viajar aos centros de distribuição e se submeter a controles biométricos de identidade para receber rações das ONGs. Com o tempo, segundo o plano, os palestinos viveriam em complexos vigiados que abrigariam cada um até dezenas de milhares de civis”, de acordo com o jornal estadunidense.

Seis meses antes de Israel e Estados Unidos apoiarem o plano da organização, um documento interno de 198 páginas levantou as limitações que a iniciativa teria: “por se tratar de uma organização completamente nova sem antecedentes de projetos ou conquistas prévias, a fundação requereria uma estratégia de recrutamento meticulosa para atrair organizações humanitárias internacionais e diretores destacados que aportassem ‘sua própria reputação no âmbito humanitário’”. Por isso, em um rascunho interno da fundação, vazado pela empresa, aparecem, em sua diretoria e assessores, figuras como Nate Mook, ex-CEO da World Central Kitchen, a organização humanitária do chef José Andrés, e David Beasley, ex-diretor do Programa Mundial de Alimentos (PMA) da ONU.

Os dois negaram, através de comentários à imprensa, pertencer à fundação em um contexto onde tanto organizações humanitárias quanto as Nações Unidas criticaram a iniciativa por não cumprir os princípios humanitários de imparcialidade, neutralidade e independência. Para o Escritório das Nações Unidas para a Coordenação de Assuntos Humanitários: “a proposta contraria princípios humanitários fundamentais e parece desenhada para reforçar o controle sobre os artigos essenciais como tática de pressão dentro de uma estratégia militar. É perigoso, além disso, pois obriga a população civil a se deslocar para zonas militarizadas para coletar rações, o que põe em perigo a vida, inclusive dos trabalhadores humanitários, ao mesmo tempo que consolida ainda mais o deslocamento forçado”.

Diante do êxodo de personalidades relacionadas ao mundo humanitário por suas reservas éticas (inclusive Tony Blair se distanciou da iniciativa), a fundação ficou composta em sua diretoria por uma multiplicidade de ex-militares, ex-funcionários estadunidenses e figuras desconhecidas, como seu presidente, David Papazian, ex-diretor do Fundo de Interesses Nacionais da Armênia e executivo da companhia aérea low cost Fly Arna Airlines. Entre eles, destacam-se personagens como Jake Wood, diretor-executivo da fundação, um veterano da Marinha dos Estados Unidos que dirigiu a agência de ajuda em casos de desastre Team Rubicon, David Burke, diretor de operações, também um fuzileiro naval aposentado e colega de Wood no Team Rubicon, John Acree, chefe de Missão que foi líder de resposta a desastres e catástrofes da Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (USAID), o tenente-general reformado Mark C. Schwartz, ex-coordenador de Segurança dos Estados Unidos para Israel e a Autoridade Palestina, Raisa Sheynberg, vice-presidente de Assuntos Governamentais na Mastercard que, antes, trabalhou no escritório de Terrorismo e Inteligência Financeira do Departamento do Tesouro e foi diretora do Conselho de Segurança Nacional da Casa Branca para Comércio e Investimentos Internacionais durante o governo Obama.

Um dos temores iniciais dos organizadores do projeto foram as possíveis acusações de que seus centros de distribuição de alimentos e complexos residenciais fossem “campos de concentração com reconhecimento biométrico”, dirigidos por uma organização vinculada a Israel. Ao que parece, apesar das dúvidas sobre a capacidade da “fundação”, o plano segue em marcha e só se permitiu o acesso de ajuda humanitária a Gaza, por parte de organizações internacionais, até que esteja em funcionamento.

A criação dessas “bolhas humanitárias” remonta ao final de 2023, quando a unidade do Ministério da Defesa Israelense encarregada da “ajuda a Gaza” começou a formular planos para “confinar os civis palestinos dentro de zonas seguras enquanto as FDI combatiam os militantes do Hamas do lado de fora”. A ideia de estabelecer “sistemas de identificação biométrica para controlar os palestinos que coletassem a ajuda foi de Liran Tancman, empresário e reservista da unidade de inteligência de sinais 8200 das FDI”, responsável por desenvolver ferramentas de espionagem e uso de IA para atacar os Territórios Palestinos Ocupados, segundo o The Washington Post.

Um elo chave para concretizar a ideia de criar esta fundação foi Phil Reilly, oficial paramilitar aposentado da CIA e ex-chefe de estação da agência no Afeganistão, a quem os funcionários israelenses comentaram seu plano e a intenção de que os Estados Unidos se envolvessem na liderança da iniciativa para evitar vinculações com Tel Aviv (isso explicaria a enorme quantidade de ex-funcionários estadunidenses no conselho da fundação). Por essa razão, a iniciativa foi anunciada em 9 de maio por Mike Huckabee, embaixador dos Estados Unidos em Israel e de boa relação com figuras pró-israelenses como Miriam Adelson, viúva do magnata dos cassinos Sheldon Adelson, um dos principais financiadores de Netanyahu.

Reilly, que planejou nos bastidores a fundação segundo o Washington Post, é o diretor-executivo da Safe Reach Solutions (SRS), uma das duas contratantes militares encarregadas da segurança das “bolhas humanitárias”. A companhia teve presença em Gaza durante o último cessar-fogo entre Hamas e Israel, graças ao apoio dos Estados Unidos, Egito, Qatar e as duas forças beligerantes. Sua origem é opaca, pois, em termos patrimoniais, é uma empresa fantasma da firma de gestão Two Ocean Trust LLC, sediada em Wyoming, segundo uma investigação do analista Jack Poulson. Reilly, por sua vez, foi vice-presidente sênior de atividades especiais da Constellis, empresa surgida de uma fusão da contratante Academi, antes conhecida como Blackwater, e a empresa de segurança privada Triple Canopy. Seu pessoal está repleto de antigos tenentes e comandantes do Pentágono estadunidense.

A outra companhia encarregada da segurança da distribuição é a UG Solutions, fundada pelo ex-boina-verde Jameson Govoni, que “ajudou a estabelecer um programa de vigilância para as Forças Especiais do Pentágono que visava ensinar soldados de operações especiais a realizar vigilância e encontrar células terroristas difíceis de localizar em todo o mundo”. Govoni “antes de fundar a UG, descreveu-se como um degenerado de Boston que se alistou no exército o mais rápido que pôde para infligir dor às pessoas que nos infligiram dor”, segundo o jornal israelense Haaretz. A UG Solution, como a Safe Reach Solution, participou com contratantes durante o último cessar-fogo e teria pago a seus mercenários um total de 1.100 dólares diários, acima do salário oferecido na época pela Blackwater.

O ressurgimento do plano de “bolhas humanitárias”, liderado por essas fundações e empresas, é criticado até por generais israelenses por considerá-lo inviável, segundo o The Washington Post. O paradoxo é que, enquanto o governo de Netanyahu acusa o Hamas de atacar os envios de ajuda humanitária, os militares israelenses permitem no sul de Gaza que gangues de narcotraficantes, afiliadas ao Estado Islâmico (ISIS), saqueiem os caminhões com alimentos e medicamentos que chegam do Egito. Inclusive, Yasser Abu Shabab, traficante de drogas e líder de gangues vinculado ao ISIS, comanda um posto de controle em Rafah em uma zona declarada de “extermínio” pelos militares israelenses, segundo Muhammad Shehada, pesquisador do Conselho Europeu para Relações Exteriores.

O que demonstra uma clara coreografia para desestabilizar os envios de ajuda humanitária internacionais, com o objetivo de que a iniciativa das “bolhas humanitárias”, melhor chamadas de campos de concentração biométricos, seja a única alternativa possível para os palestinos.