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terça-feira, 5 de agosto de 2025

Justiça dos EUA liga Paulo Figueiredo, neto do último ditador militar e conspirador declarado com Bolsonaro e Trump contra o Brasil, a esquema de fraude de bilionário

 

Do ICL, reproduzindo reprotagem da Agência Pública:

Internacional

Justiça dos EUA liga Paulo Figueiredo a esquema de fraude de bilionário

Empresa do influenciador é citada em ação sobre transferência de US$140 mil feita por chinês ex-sócio de Steve Bannon



Por Alice Maciel, Laura Scofield, Maria Martha Bruno, Isabela Dias, Mother Jones – Agência Pública

Em 16 de julho, dias após o anúncio da tarifa de 50% sobre as importações do Brasil para os Estados Unidos (EUA), o influenciador Paulo Figueiredo apareceu em frente à Casa Branca, ao lado de Eduardo Bolsonaro, anunciando que as medidas eram o “início de uma jornada que pode ser tenebrosa para o Brasil”. Ambos haviam saído de uma “rodada de reuniões” em Washington com membros do governo de Donald Trump, dentro de uma campanha para aplicar sanções contra o governo brasileiro e o ministro Alexandre de Moraes. E prometeram que viriam mais sanções.

Publicação de Eduardo Bolsonaro em rede social. Na imagem, ele posa lado a lado com Paulo Figueiredo. (Foto: Reprodução)

Dias depois, Paulo Figueiredo afirmou em um podcast: “Estou 100% convencido de que as tarifas foram um movimento correto para o Brasil. O presidente Trump agiu corretamente e eu sou muito grato a ele”. No fim de julho, Trump formalizou as sanções — com algumas exceções — e também impôs ao ministro Alexandre de Moraes a Lei Magnitsky, relacionando ambas diretamente ao processo contra Jair Bolsonaro. Moraes decretaria a prisão domiciliar de Bolsonaro dias depois, em 4 de agosto.

Enquanto isso, na justiça dos EUA, uma empresa do neto do ditador João Figueiredo é objeto de apuração com base no Código de Falências e na Lei de dívidas e créditos de Nova York. A ação é relacionada a um caso de falência que busca recuperar transferências que teriam sido parte de uma fraude bilionária liderada por um trumpista, o magnata chinês Miles Guo. Ele foi condenado por nove crimes, entre eles lavagem de dinheiro e organização criminosa.

Auto-exilado nos EUA desde 2015, Guo, também conhecido como Guo Wengui, Ho Wan Kwok e Miles Kwok, foi colaborador e financiador de Steve Bannon, ex-estrategista de Donald Trump e aliado da família Bolsonaro. O empresário chinês também é apontado pela Justiça dos EUA como “controlador” da rede social Gettr, que patrocinou eventos em apoio à reeleição de Jair Bolsonaro em 2022. O ex-CEO da Gettr, Jason Miller, também é próximo de Eduardo Bolsonaro.

Detido desde março de 2023, Guo ganhou notoriedade por causa de seu posicionamento crítico ao governo chinês e de apoio à extrema direita dos EUA, ajudando a difundir teorias da conspiração sobre a criação da Covid-19. O Departamento de Justiça dos EUA (DOJ)  também aponta que Guo pagou ao menos US$ 1 milhão para Bannon. Em 2024, reportagem da Mother Jones apurou que o valor foi destinado a serviços de consultoria à rede de empreendimentos de mídia e organizações do chinês, que incluía um grupo fundado por ele e Bannon para servir como um suposto governo paralelo ao Partido Comunista Chinês. Guo foi acusado de ter enganado milhares de seguidores na internet para investir em negócios sob seu controle e desviar mais de US$ 1 bilhão para financiar sua vida de luxo.

Paulo Figueiredo recebeu R$ 770 mil, segundo DOJ

O pedido de apuração na Justiça americana afirma que o pagamento de US$ 140 mil (cerca de 770 mil reais) à empresa de Figueiredo International Treasure Group, registrada na Flórida desde 2017, foi uma transferência fraudulenta. As informações constam em processo que tramita desde fevereiro de 2024 no Tribunal de Falências do Distrito de Connecticut (EUA), ao qual a Agência Pública e a Mother Jones tiveram acesso. O documento aponta que a transferência teria sido feita por uma das empresas de fachada do chinês, a HCHK Technologies Inc.

“Esta transferência foi, na verdade, fraudulenta, porque o devedor [Guo Wengui] a efetuou como parte de seu ‘jogo de fachada’ e foi feita com a intenção de dificultar, atrasar e/ou fraudar os credores do devedor”, diz o processo. O documento não traz a data exata nem a natureza da transação, mas, conforme os registros judiciais, ela teria ocorrido antes de 15 de fevereiro de 2022, quando Guo entrou com um pedido de falência na Justiça. A ação não alega irregularidade por parte do destinatário da transferência, no caso, a empresa de Figueiredo.

Embora tivesse um iate no valor de US$ 37 milhões e morasse em uma cobertura de 15 suítes avaliada em US$ 67,5 milhões no Central Park, em Nova York, no tribunal o chinês afirmou que possuía “ativos insuficientes para pagar suas dívidas e que seu estilo de vida luxuoso é financiado por sua família”. Ele declarou possuir apenas US$ 3.850 em bens, mas foi acusado de ter operado empresas de fachada para ocultar seu patrimônio e declarar falência.

Em março de 2023, Guo foi acusado de 12 crimes, incluindo lavagem de dinheiro, organização criminosa, fraudes eletrônicas e de valores imobiliários. Em julho de 2024, foi condenado por nove deles. Sua rede de “finanças labirínticas”, segundo consta no processo, teria movimentado cerca de 500 contas bancárias em nome de pelo menos 80 entidades ou indivíduos, dentre elas, a HCHK Technologies, por meio da qual teria sido realizada a transferência para a empresa de Figueiredo. A ação que tem a International Treasure Group como ré busca recuperar o valor da transação realizada para a empresa de Figueiredo.

A justiça americana notificou Paulo Figueiredo, mas ele não respondeu no prazo legal previsto e o processo agora corre à sua revelia. Segundo a última atualização da Justiça até a data de publicação desta reportagem, um mediador foi apontado para resolver o caso.

Ditador João Figueiredo, ex-presidente do Brasil (1979-1985)

Um ex-executivo sênior da Gettr contou à reportagem, sob condição de anonimato, que o influenciador bolsonarista participou dos esforços iniciais para lançar a rede social globalmente. Sua atuação na empresa teria acontecido “nos primeiros dias, antes que a documentação corporativa da Gettr fosse concluída.” Ainda segundo o executivo, “amigos em comum trouxeram” Figueiredo à Gettr e ele teria trabalhado “ajudando a recrutar influenciadores de mídias sociais para se juntarem à plataforma” após o seu lançamento. A Gettr já havia admitido à Mother Jones que pagou pessoas de direita para usarem a plataforma.

Procurado pela reportagem, Figueiredo não respondeu às perguntas sobre este e outro processo no qual está citado no Brasil (ver adiante), tampouco sobre sua suposta conexão com a Gettr. O influenciador chamou as perguntas de “babaquice” e ameaçou: “Eu sei bem como lidar com gente assim”.

A Gettr e duas empresas de Steve Bannon (a Warroom Broadcasting & Media Communications LLC e a Bannon Strategic Advisors) também são rés em outras ações relacionadas ao caso. Procurado pela reportagem, Bannon disse que é um “processo de falência padrão — que já dura anos.”

Outro processo acessado pela reportagem alega que a mesma HCHK Technologies, de Guo, e outra empresa de fachada do chinês, a Lexington Property and Staffing Inc., teria transferido US$ 353.269 para o ex-assessor de Trump e ex-CEO da Gettr, Jason Miller. Em resposta no tribunal de falências em maio de 2025, Miller negou qualquer relação entre a transferência em questão” e os crimes cometidos por Guo e “as transferências em questão”. Steve Bannon e Jason Miller são aliados de Eduardo Bolsonaro nos EUA.

Gettr promoveu imagem de Bolsonaro

Desde que chegou ao Brasil, em julho de 2021, a rede social pró-Trump se tornou um espaço de propagação de desinformação do bolsonarismo e entrou na mira da Polícia Federal (PF) no inquérito das milícias digitais, que investiga a existência de uma organização criminosa atuando online contra a democracia brasileira.

O fundador e ex-CEO da Gettr, Jason Miller, veio diversas vezes ao Brasil, e inclusive esteve na manifestação organizada por Jair Bolsonaro em 7 de setembro de 2022 em Copacabana. Naquele ano, o perfil “Gettr Brasil Oficial” promoveu a imagem de Bolsonaro, à época candidato à reeleição. A plataforma fez a cobertura das transmissões ao vivo semanais do presidente; compartilhou informações de mídias bolsonaristas; divulgou a agenda de Bolsonaro e fez lives com seus apoiadores.

 

Perfil da Gettr Oficial divulga evento do 7 de setembro promovido por Jair Bolsonaro e seus apoiadores.

Em 2021, em uma de suas visitas ao Brasil, para participar da CPAC (Conservative Political Action Conference), Miller foi interrogado pela PF, no âmbito do inquérito das milícias digitais. Em entrevista em 2025 para um podcast, Eduardo Bolsonaro deu crédito a Miller por ajudar a “chamar a atenção do presidente Trump para o que está acontecendo no Brasil”.

Para a PF, a rede de apoiadores de Jair Bolsonaro envolvida na difusão de desinformação durante as eleições, como por exemplo nos ataques às urnas eletrônicas, se valeu da mesma estratégia de comunicação utilizada nas eleições de 2016 nos EUA, vencidas por Donald Trump, e creditada a Steve Bannon.

Neto do último presidente da ditadura militar, Figueiredo está entre os 34 denunciados pela Procuradoria-Geral da República (PGR) por tentativa de golpe, mas é o único que ainda não teve a denúncia analisada pelo STF. Ele foi notificado por edital público, uma vez que tem endereço no exterior. Segundo a denúncia, ele teria utilizado sua influência como comentarista da Rádio Jovem Pan para pressionar militares a aderirem às articulações que resultaram no 8 de janeiro de 2023.

Empreendimento com Trump deixou dívida de R$ 15 milhões

Paulo Figueiredo é conhecido do entorno de Trump desde 2013, quando se aliou a ele para construir o Trump Hotel, empreendimento de luxo na Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro. O neto do ditador conta que conheceu o presidente dos EUA em um dos campos de golfe de Trump na Flórida.

No entanto, em 2016, a Trump Organization deixou o projeto antes do fim da construção e semanas após a abertura de investigação sobre o empreendimento. Sob o nome de Lifestyle Laghetto Collection e com diárias que variam de R$ 617 a R$ 1.870 (em baixa temporada), hoje o hotel de frente para o mar funciona normalmente na cidade.

Legenda da rede Laguetto Hoteis divulga ex-Trump Hotel no Rio de Janeiro: “Lifestyle Laghetto Collection: a sua opção de luxo na Barra da Tijuca!”

Até maio de 2025, o empreendimento devia R$ 15 milhões em impostos à prefeitura carioca, mas não pagava com o argumento de estar em recuperação judicial desde 2019. O processo que cobra a dívida tramita na justiça do Rio. O fundo de investimento Polo Special Situations, que emprestou dinheiro ao empreendimento, em 2016, na forma de debêntures (títulos de dívida), cobra o valor de Paulo Figueiredo e de mais oito pessoas físicas e 18 pessoas jurídicas.

Figueiredo foi CEO do grupo Polaris Projetos e Empreendimentos, empresa que fez consultoria para a construção do empreendimento, além de ex-sócio da LSH Barra Empreendimentos Imobiliários S.A., a incorporadora do hotel. Pelo menos quatro executivos atuais da LSH também são cobrados no processo.

Em 2019, Figueiredo foi preso nos EUA no marco da operação Circus Máximus, da Polícia Federal, que investigava um esquema de pagamento de propinas a dirigentes e ex-dirigentes do BRB, banco estatal de Brasília, em troca de investimentos em alguns projetos, entre eles a construção do ex-Trump Hotel.

Sanções e Lei Magnitsky são “missão cumprida”

A Pública revelou que Eduardo Bolsonaro tem Paulo Figueiredo como o “cérebro” por trás das articulações internacionais do deputado, que em março deste ano se licenciou de seu mandato e se mudou para o Texas com a família para se dedicar em tempo integral a convencer o governo de Donald Trump a defender Jair Bolsonaro e aplicar sanções ao ministro Alexandre de Moraes e ao governo brasileiro.

Em julho, quando Trump anunciou uma tarifa de 50% para as exportações brasileiras e relacionou a medida ao julgamento de Bolsonaro, Eduardo e Figueiredo afirmaram que a ação “confirma o sucesso na transmissão daquilo que viemos apresentando com seriedade e responsabilidade”.

De acordo com eles, a medida visa fazer com que o “establishment político, empresarial e institucional” brasileiro, que estaria compactuando com a “escalada autoritária” de Moraes, arque com o “custo dessa aventura”.

Quando a Agência Pública revelou, em abril de 2024, que Eduardo e uma comitiva de deputados estavam articulando por sanções contra o Brasil nos EUA, o deputado gravou um vídeo negando as informações.

Figueiredo já participou de duas audiências na Câmara de Deputados dos EUA. Em maio de 2024, em um subcomitê do Comitê de Assuntos Internacionais da Casa, ele reforçou o pedido por sanções e se negou a responder se repudia o período de 1979 a 1985, quando seu avô, João Figueiredo, foi presidente da ditadura militar brasileira.

Em entrevista à reportagem em junho de 2025, Figueiredo descreveu aquela audiência como um momento de “virada de chave” em sua campanha de “informar” a opinião pública e políticos nos EUA sobre o contexto brasileiro, que ele caracterizou como a deterioração de uma “democracia consolidada.” Este trabalho, segundo Figueiredo, iniciado após as eleições de 2022, envolveu aparições em podcasts e veículos de mídia de direita dos EUA.

Outra frente de atuação foram reuniões com ao menos 40 parlamentares, inclusive para discutir projetos de lei a serem propostos pelos congressistas dos EUA para pressionar as autoridades brasileiras. Ele diz que foram as ações de Alexandre de Moraes que o deram “lugar de fala” para essa atuação.

Figueiredo considera a fase inicial de “conscientização” concluída. De acordo com ele, o retorno de Trump à Casa Branca permitiu iniciar a etapa de “implementação” de políticas públicas, com o objetivo final de aplicar sanções financeiras contra Moraes.

Em junho deste ano, em depoimento à Comissão Tom Lantos de Direitos Humanos do Congresso dos EUA, ele pediu urgência à adoção de sanções contra Alexandre de Moraes pela Lei Magnitsky, conforme anunciado por Marco Rubio. A lei foi sancionada em 2016 pelo ex-presidente Barack Obama e tem sido usada para punir pessoas ligadas a esquemas de corrupção ou acusadas de violações de direitos humanos.

Em 18 de julho de 2025, Moraes e outros sete ministros do STF tiveram os vistos para os EUA suspensos. A Lei Magnitsky foi anunciada apenas para Moraes no dia 30 de julho. “De Moraes é responsável por uma campanha opressiva de censura, detenções arbitrárias que violam direitos humanos e processos politizados — inclusive contra o ex-presidente Jair Bolsonaro”, disse o secretário do Tesouro, Scott Bessent, em comunicado oficial. Eduardo e Figueiredo celebraram a sanção como “missão cumprida“.

Figueiredo vê as articulações do bolsonarismo nos EUA como uma forma de fortalecer o poder do grupo no Brasil. “Eu diria que se o Bolsonaro tivesse feito o trabalho internacional que a gente está fazendo agora, se ele tivesse dado valor, e ele não dava, ele não teria saído do governo, não teria, o Lula não teria chegado ao poder”, disse em uma live no início de 2024.

Ainda que hoje atue ao lado de Eduardo Bolsonaro, o comentarista iniciou sua interação com políticos e autoridades americanas para denunciar a atuação do STF sem o deputado. Em dezembro de 2022, ao lado da ex-deputada Carla Zambelli (PL/SP), ele apresentou uma denúncia e um pedido de medida cautelar contra o tribunal à Corte Interamericana de Direitos Humanos. O pedido não obteve resultados. Neste ano, Zambelli foi cassada por uso indevido dos meios de comunicação e abuso de poder político sobre o processo eleitoral de 2022. A deputada foi presa na Itália na última semana.

quarta-feira, 16 de julho de 2025

A ofensiva de Trump e o fator Lula no plano global, por Luís Nassif

 

Do Jornal GGN:

O inimigo do modelo que norteia Trump é o Brasil, através da liderança individual de Lula, derrotando Bolsonaro, e seu papel no BRICS


Foto: Reprodução/Internet

Ontem participei de uma mesa na reunião anual da Sociedade Brasileira Para o Progresso da Ciência, em Recife, discutindo os rumos da geopolítica mundial e o papel a ser desempenhado pelo país. Foi uma mesa maiúscula, com a presença de Renato Janine, presidente da SBPC, Sérgio Rezende, ex-Ministro de Ciência e Tecnologia, o economista Elias Jabbour, especialista em China, e Luiz Fernandes, Secretário Executivo do Ministério de Ciência, Tecnologia e Inovação.

Vou me retringir à minha apresentação. Depois, comentarei as principais conclusões da mesa.

Procurei mostrar as semelhanças entre o período das três últimas décadas do século 19 com o período atual até a crise de 2008. São períodos de grandes transformações tecnológicas, seguidos de liberalização do capital, criando uma geração de rentistas que tiram o dinamismo da economia britânica – até então hegemônica -, envolvem-se em sucessivas bolhas especulativas.

O modelo tira o dinamismo da economia, aumenta a concentração de renda até ingressar na década de 1920, com o descrédito na democracia ocidental e o surgimento de ideologias alternativas. Esse mesmo processo ocorre nas últimas décadas, até estourar na crise de 2008.

A crise marca o fracasso final do neoliberalismo como alternativa de política pública. Segue-se uma tentativa dos donos do poder de encontrar um outro receituário capaz de desviar a atenção da opinião pública e encontrar bodes expiatórias para o desalento.

Assim como no fascismo italiano e no nazismo alemão, há a adesão das grandes corporações a uma parceria com a ultradireita, transformando o Estado no grande inimigo, valendo-se das novas formas de comunicação (rádio nos anos 20, redes sociais agora) para embaralhar os diagnósticos. O problema deixa de ser a insuficiência de Estado – sugado pelo modelo de concentração de renda – para se transformar no excesso de Estado.

A partir daí, surgem dois fenômenos. De um lado, a ultradireita norte-americana, que fornece a Donald Trump o componente ideológico através de Steve Bannon. De outro, a consolidação das big techs como novos instrumentos de projeção do poder norte-americano.

O novo modelo se baseia na tentativa de privatizar a moeda, através das criptomoedas, e, ao mesmo tempo, eliminar a autonomia dos estados nacionais.

No meio disso tudo, a figura complexa de Donald Trump. Provavelmente o que o move é o modelo que melhor lhe permita acumular riqueza pessoal. Publicamos aqui a denúncia de um trade norte-americano sobre os movimentos de swap entre dólar e real apenas três horas antes de Trump anunciar as tarifas de 50% para o Brasil.

O grande inimigo desse modelo é o Brasil, através da liderança individual de Lula, derrotando Bolsonaro, e de seu papel na consolidaçao do BRICS; e de Alexandre de Moraes, enfrentando o poder das big techs. Desde 2016, Bannon já definia Lula como a maior ameaça ao avanço da direita mundial.

Daí se entende a ofensiva de Trump contra Lula e contra o Supremo Tribunal Federal. Jair Bolsonaro foi apenas um álibi.

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terça-feira, 24 de setembro de 2019

Fracassou o neofascista e militarista ‘contra-sínodo’ sobre a Amazônia, programado por Bolsonaro e Gal. Heleno contra o Sínodo Pan-Amazônico do Vaticano



Jornalista italiano e operador de redes internacionais para a defesa dos direitos humanos na América Latina, Cristiano Morsolin, comenta o governo de Jair Bolsonaro

Foto: Fabio Rodrigues Pozzebom/ Agencia Brasil

do Instituto Humanitas Unisinos – IHU On-line

Fracassou o ‘contra-sínodo’ sobre a Amazônia, programado em Roma por Bolsonaro

Bolsonaro faz cruzada contra a “agenda da esquerda” da Igreja Católica, junto a DuqueSalviniBannon.
O comentário é de Cristiano Morsolin, jornalista italiano e operador de redes internacionais para a defesa dos direitos humanos na América Latina. Co-fundador do OBSERVATÓRIO SELVAS de Milão (Itália), trabalhou na campanha da Conferência Episcopal Italiana “Jubileu 2000” sobre dívida externa, e é colaborador internacional das agências ALAI (Equador), SIR (Vaticano), CIPSI (Roma), Vita (Milão). Autor de vários livros, sendo o mais recente “Cambio civilizatorio y nuevos liderazgos sociales” Ed. Antropos, Bogotá, marzo 2019 – Prologo del Cardenal Turkson. Atualmente, colabora com dom Joaquim Pinzon, bispo de Puerto Leguizamo (Amazônia Colombiana) no caminho para o Sínodo para a Amazônia. O artigo é publicado por EcoDebate, 18-09-2019.
Eis o artigo. 
Governo de Jair Bolsonaro tem a preocupação de que o Sínodo sobre Amazônia se torne mais um palco para críticas ao País na questão ambiental. O receio do Palácio do Planalto é de que o encontro de bispos não se limite a questões religiosas, discutindo também temas relacionados a políticas públicas dos países amazônicos.
Um dois principais organizadores do Sínodo da Amazônia, o cardeal do Peru, Mons. Pedro Barreto, disse que o Presidente Bolsonaro nega a “visão comunitária” ao recusar ajuda internacional a fim de debelar incêndios na Amazônia.
A pergunta principal desta matéria é investigar como é o diálogo dos governos da região amazônica com a Igreja Católica sobre o sínodo sobre a Amazônia.
“Na verdade, não temos este diálogo com os presidentes, porque a Igreja não é vinculante. É um sínodo que, por sua natureza específica, mostrará temas que devem ser estudados. É diferente do que vemos hoje, uma realidade concreta que evidencia todas as implicações políticas e econômicas sobre a Amazônia. É uma alegria ver o presidente da França, (EmmanuelMacron, levantando a voz pelo cuidado com a Amazônia. Mas, por outro lado, também escutamos Bolsonaro. Os políticos e os economistas estão preocupados”, declarou o cardeal Pedro Barreto a “O Globo”.
Indagado se os discursos de Bolsonaro sobre permitir mineração em terra indígena e não demarcar mais nenhuma terra indígena em seu governo colaboram para incentivar a destruição da Amazônia, o cardeal Barreto concordou e disse que empresários que defendem essa posição têm interesses mesquinhos na entrevista com Folha de São Paulo, 28.8.2019 (1). “É uma atitude, me parece, muito intransigente. É ver a Amazônia como propriedade que pode fazer com ela o que melhor me pareça”. “Indiretamente, a posição do presidente Bolsonaro está indicando algo como “a Igreja não se meta em território que não lhe pertence”. Esta é a visão que tememos, não e oficial. Mas aqui temos que dizer com clareza que a Igreja Católica é universal, não tem fronteiras. As fronteiras quem criou foram os homens. A força da missão evangelizadora da Igreja é convocar a todos, se excluir minguem”, disse o cardeal Barreto.
“Eu me alegro com esse comentário de Bolsonaro sobre o Sínodo porque está ratificando o despertar mundial tanto de políticos como de organizações do mundo todo, “agora os filhos da luz são mais astutos de que os filhos das trevas”. Eles estão levantando sua voz e estão expressando sua indignação que há hoje pelo maltrato da natureza, que é um dom de Deus para todos, não para um grupo de privilegiados. Os recursos naturais que Deus pôs no mundo são para todos, não para alguns que se sentem donos, de alguma maneira, por séculos. Ou nos salvamos todos, ou perecemos todos”, disse Barreto.
Barreto contou que em junho (11.6.2019) foi convidado pela Secretaria de Estado do Vaticano para falar com embaixadores dos 9 países amazônicos; o Brasil enviou um representante, não um embaixador. “Ali eu expliquei o que o é a REPAM e disse que não se assustem. Porque a Igreja não é contra a identidade de cada pais. Porque os países que formam a Amazônia, como bioma. A Santa Sé, Secretariado de Estado que tem relação como os países, convocou essa reunião para dissipar as preocupações”. (…) ”Vai chegar um momento em que a população mundial vai dizer: “Você não é dono da Amazônia”. Você (Bolsonaro) não pode desmatar toda Amazônia porque nos afeta a todos”.
Barreto rebateu eventuais críticas à Igreja Católica citando o trabalho missionário na Amazônia: “A Igreja Católica está presente na Amazônia e não vai sair quando se encherem suas malas. A Igreja fica e ficará até o final na Amazônia. Onde estão aqueles seringueiros que afetaram as comunidades indígenas no Peru, na Colômbia, no Equador? Onde estão os empresários que fizeram uma destruição na natureza e destruíram milhares de vidas indígenas? A Igreja continua aí, com suas luzes e com suas sombras, temos que reconhecer”, declarou o cardeal Pedro Barreto que no início de setembro encontrou o diretivo do CELAM em Bogotá.
Protagonismo do Cardeal Hummes
Vaticano vetou a participação de políticos com mandato entre os participantes do Sínodo, negando o pedido do governo brasileiro, principal interessado nas discussões, uma vez que a maior parte do território amazônico pertence ao Brasil.
Numa entrevista ao jornal Estadão, Dom Cláudio Hummes, falando sobre as polêmicas entre o Sínodo da Amazônia e o governo, disse que: “Foi na campanha eleitoral que começou tudo isso. O governo, que se diz de direita, considera a Igreja de esquerda. Mas a Igreja não é partido político. Não é de esquerda. Não aceita essa qualificação, essa etiqueta. A Igreja é para todos”. E, mais adiante: “Esse governo apresentou uma questão sobretudo de soberania nacional. Mas todos sabemos que o Sínodo é da Igreja e para a Igreja. Não é para políticos, militares e outros”.
Órgãos ligados à Conferência Nacional dos Bispos do Brasil CNBB – como o Conselho Indigenista Missionário (Cimi) e a Comissão Pastoral da Terra (CPT) – não economizaram ataques, que continuaram após a eleição e a posse de Bolsonaro na Presidência.
Pastoral Carcerária, por exemplo, distribuiu nota em que critica o pacote anticrime do ministro da Justiça, Sérgio Moro. Durante a campanha, a Pastoral da Terra divulgou relato do bispo André de Witte, da Bahia, que apontou Bolsonaro como um “perigo real”. As redes de apoio a Bolsonaro contra-atacaram espalhando na internet a bravata de que o papa Francisco era “comunista”.
Como resultado, Bolsonaro desistiu de vez da CNBB e investiu incessantemente no apoio dos evangélicos. A princípio, ele queria que o ex-senador e cantor gospel Magno Malta (PR-ES) fosse seu candidato a vice. Eleito, nomeou a pastora Damares Alves, assessora de Malta, para o Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos.
Histórico
A relação tensa entre militares e Igreja Católica começou ainda em 1964 e se manteve mesmo nos governos de “distensão” dos generais Ernesto Geisel e João Figueiredo, último presidente do ciclo da ditadura. A CNBB manteve relações amistosas com governos democráticos, mas foi classificada pela gestão Fernando Henrique Cardoso como um braço do PT. A entidade criticou a política agrária do governo FHC e a decisão dos tucanos de acabar com o ensino religioso nas escolas públicas.
O governo do ex-presidente Lula – que era próximo de dom Cláudio Hummes, ex-cardeal de São Paulo – foi surpreendido, em 2005, pela greve de fome do bispo de Barra (BA), dom Luiz Cappio. O religioso se opôs à transposição do Rio São Francisco. Já com a chegada de Dilma Rousseff, a relação entre a CNBB e o PT sofreu abalos. A entidade fez uma série de eventos para criticar a presidente, especialmente por questões como aborto e reforma agrária. A CNBB, porém, se opôs ao golpe do impeachment, alegando que “enfraqueceria” as instituições.
Espiões nas reuniões preparatórias
O ministro Heleno afirmou que já existe uma “preocupação” do Planalto com as reuniões e os encontros preparatórios do Sínodo sobre a Amazônia, que ocorrem nos Estados. “Há muito tempo existe influência da Igreja e ONGs na floresta”, disse o ministro Augusto Heleno.
O temor do executivo brasileiro é tal que o governo chegou a formular um pedido de participação nos debates do sínodo ao qual o cardeal Cláudio Hummes, bispo emérito de São Paulo, lutador da teologia da liberação e muito próximo ao Papa Francisco, colocou um ponto final de não acolhida da demanda. “Sugeri que o governo acionasse a Embaixada do Brasil na Santa Sé, pois se trata de uma questão diplomática”, indicou o prelado ao jornal.
O jornal O Estado de São Paulo também afirmou que a Agência Brasileira de Inteligência (Abin) procurava, por intermédio de e do envio de agentes de seus serviços, observar as reuniões preparatórias do Sínodo, especialmente nas paróquias de Manaus (Amazonas), Belém e Marabá (Pará) e Boa Vista (Roraima), no coração da Amazônia brasileira. O Gabinete de Segurança Institucional (GSI) desmentiu a informação em um comunicado (2).
O Sínodo está levantando muitas controvérsias
Assembleia Sinodal começa em 6 de outubro; será o ponto focal de um longo processo que deverá continuar nos anos seguintes, aplicando nos diferentes contextos da Pan-amazônia (BolíviaPeruEquadorVenezuelaColômbiaGuianaSurinameGuiana FrancesaBrasil) as decisões do discernimento realizado.
“Surpreende o fato de que as principais críticas venham de membros da Igreja que conhecem muito pouco a Amazônia. Parece que a preocupação não seja tanto com a vida das pessoas nesta região, sua caminhada de fé, seu direito à Eucaristia e à participação cristã: parece que o Sínodo seja outra ocasião para consolidar a controvérsia de alguns setores da hierarquia eclesial contra o magistério do Papa Francisco” escreve o Pe. Dário Bossi, Provincial dos Missionários Combonianos no Brasil, membro da Rede de Igrejas e Mineração e Assessor da REPAM-Brasil.
Mas o Sínodo não busca apenas “novos caminhos para a Igreja”: também se preocupa com a ecologia integral, no grave contexto de emergência climática e de devastação da Amazônia.
O texto-base para os diálogos no Sínodo, chamado de “Instrumento de Trabalho”, conseguiu sintetizar com fidelidade e coragem o grito de dor e denúncia dos povos e comunidades que se sentem cada vez mais afetados e ameaçados por um modelo de desenvolvimento predatório.
Preocupado com essa posição profética da Igreja, que se faz voz das vítimas, o governo brasileiro já levantou sua voz algumas vezes. Os militares comentaram que “as coisas se misturam e o Sínodo escapou para questões ambientais e também tem o viés político”.
Os bispos, por sua vez, recordam a história da Igreja na Amazônia: “Quanto sangue, suor e lágrimas foram derramados na defesa dos direitos humanos e da dignidade, especialmente dos mais pobres e excluídos da sociedade, dos povos originários e do meio ambiente tão ameaçados”, conclui o Pe. Bossi.
Igreja não é braço do PT
Liderança do PT com maior ligação com a Igreja Católica, o ex-ministro Gilberto Carvalho disse que a decisão do governo Jair Bolsonaro de monitorar os bispos que vão participar do Sínodo da Amazônia, em outubro, em Roma, expõe o Brasil ao “ridículo internacional”. Segundo ele, é errado supor que a Igreja é um “braço do PT”, como pretendem setores do governo. Para Carvalho, ao mirar nos bispos, o governo, que tem forte influência evangélica, estimula a divisão religiosa no Brasil e tenta encobrir os problemas ocorridos no início da administração Bolsonaro. “Como brasileiro, fico envergonhado”, disse Carvalho.

“O Sínodo é uma iniciativa da Santa Sé que articula bispos de toda a Amazônia que vai muito além do Brasil. Tem o PeruColômbiaVenezuelaEquador”, concluiu o ex-ministro.
Dizendo esperar que os militares “com bom senso” revejam o que ele chama de “tentativa de criar um Estado policialesco”, Carvalho considera perigosa a ofensiva do governo amparado por evangélicos contra a Igreja Católica.
“Uma notícia dessas ridiculariza o Brasil, além de mostrar a pretensão de criar um Estado policialesco. Ao mesmo tempo põe lenha na fogueira dessa guerra religiosa que eles tentam criar no Brasil. É perigoso separar católicos de evangélicos. Este governo tem um setor evangélico com muito peso e isso é ruim para a laicidade do Estado, para a liberdade religiosa”, afirmou. Carvalho negou que a Igreja seja “um braço do PT”.
Ele lembra que a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) jamais emitiu uma nota oficial em defesa dos governos do PT e que organismos ligados à Igreja como o Conselho Indigenista Missionário (CIMI) e a Comissão Pastoral da Terra (CPT) tiveram postura crítica aos governos Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff, além de lembrar o episódio envolvendo o bispo de Barra (BA), dom Luiz Cappio, que fez greve de fome contra a transposição do Rio São Francisco na gestão Lula.
“Majoritariamente, a Igreja Católica nunca teve ligação com o PT. De jeito nenhum. Sempre foram minoritários os setores da Igreja que tiveram uma ligação mais forte com o PT. Há uma área ligada às comunidades de base que tem pontos de convergência com o partido. Tem gente que foi despertada para a militância a partir de Igreja, mas parceria nunca houve”, disse Carvalho.
“Também nunca houve um documento da CNBB que tenha elogiado os governos do PT. O que houve foram conflitos como a questão do dom Cappio. O Cimi o tempo todo teve uma postura crítica contra o governo Lula. O mesmo Cimi que está criticando o governo Bolsonaro agora.”
Segundo ele, o governo tenta criar uma cortina de fumaça para os problemas ocorridos desde a posse de Bolsonaro.
“Este anúncio de monitoramento obedece a uma tática canhestra de o tempo todo encontrar inimigos, de forma conspirativa. Até para encobrir os problemas que eles têm neste tempo de governo”, afirmou o petista Gilberto Carvalho (3).

Militares e o Conselho Indigenista Missionário (Cimi)

Embora defenda valores tradicionais em temas como casamentosexualidade e família, a Igreja Católica, no Brasil, se distanciou há muito tempo de visões consideradas “de direita” em temas como reforma agrária e povos indígenas.
Na tese de doutorado “Amazônia: pensamento e presença militar“, a cientista política Adriana Aparecido Marques, professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), diz que os militares começaram a se estranhar com a Igreja Católica após a criação do Conselho Indigenista Missionário (Cimi), em 1972.
Até então, segundo a professora, militares e religiosos trabalhavam em conjunto para “integrar” indígenas à sociedade brasileira, fazendo com que abandonassem sua cultura e incorporassem a língua portuguesa e a fé cristã.
As Forças Armadas consideravam o Catolicismo uma religião “nacional” ao passo que desconfiavam de Igrejas evangélicas, vistas como agentes de nações estrangeiras.
Os militares contavam com os missionários católicos para impedir que indígenas na Amazônia deixassem o território brasileiro rumo a países vizinhos, onde missões protestantes vinham oferecendo assistência médica e educacional às comunidades nativas.
A criação do Cimi bagunçou essa lógica. A organização surgiu com o pretexto de preservar a cultura indígena, e não mais catequizar. Padres e missionários católicos passaram a apoiar indígenas em seus pleitos para a demarcação de terras e a expulsão de invasores.
Dois dos principais expoentes do movimento são os bispos eméritos Erwin Krautler, da prelazia do Xingu (PA), e Pedro Casaldáliga, da prelazia de São Félix (MT).
Hoje o órgão diz atuar junto a mais de 180 povos indígenas brasileiros, respeitando o protagonismo dos grupos e “dentro de uma perspectiva mais ampla de uma sociedade democrática, justa, solidária, pluriétnica e pluricultural”.
A nova postura incomodou militares, que sempre se opuseram à existência do que consideram “enclaves étnicos” dentro do Brasil, temendo a criação de Estados autônomos em áreas indígenas.
O advento do Cimi também gerou atritos entre a Igreja e representantes políticos de grandes fazendeiros – animosidade que persiste até hoje.
Outro fator que afastou a Igreja Católica de parte da direita brasileira foi a difusão da Teologia da Libertação, movimento católico que interpreta a fé cristã à luz de problemas sociais como a pobreza e a desigualdade.
A partir dos anos 1970, o movimento participou da disseminação no Brasil das Comunidades Eclesiais de Base. Esses grupos influenciaram o surgimento de movimentos sociais e partidos políticos que se opunham à ditadura militar, como o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) e o Partido dos Trabalhadores (PT), analisou a BBC de Londres (4).
A ideia de declarar a Amazônia um “território supranacional” parece ter pelo menos um apoio tácito do Vaticano.
Com efeito, o chanceler da Pontifícia Academia das Ciências, Dom Marcelo Sánchez Sorondo, recebeu em 2017 no Vaticano o líder ecologista Martin von Hildebrand, arquiteto do projeto “Corredor Anaconda” ou “Corredor AAA”, que criaria um enorme corredor ao longo da bacia do rio Amazonas, desde o Atlântico até os Andes, afastando-o da soberania dos países locais e colocando-o sob o controle da ONU. Neste imenso território, o poder político e administrativo seria dado às comunidades indígenas locais, que por sua vez são controladas pela Coordenadora das Organizações Indígenas da Bacia Amazônica (Coordenadora das Organizações Indígenas da Cuenca Amazônica), uma organização da esquerda indígena.
Ainda mais preocupantes são as potenciais implicações teológicas e eclesiológicas do Sínodo Pan-Amazônico. De fato, a chamada “corrente indígena”, que procura derrubar o trabalho de evangelização realizado pela Igreja ao longo dos séculos, está se tornando cada vez mais dominante. “Antes levamos uma mensagem aos índios para se tornarem como nós”, explica o cardeal peruano Pedro Barreto. “Agora percebemos que somos nós que temos que aprender com eles. Eles não são os únicos a serem convertidos, mas nós. Precisamos aprender com as comunidades indígenas para viver em harmonia com todos, devemos aprender com eles para viver em harmonia com o transcendental”. O cardeal Barreto é vice-presidente da REPAM (Rede Eclesial Pan-Amazônica). Não é de surpreender, portanto, que o movimento da Teologia daLibertação, sempre em busca de oportunidades potencialmente revolucionárias, tenha surgido em massa em favor do Sínodo Pan-Amazônico. Muitos escritos recentes sobre a “teologia indígena da libertação” colocam os índios da Amazônia como os “novos proletários que devem derrubar a ordem estabelecida”, de acordo as criticas da Igreja conservadora (5).
Conclusão
Segundo o jornal The GuardianSteve Bannon declarou ao (ex) ministro do Interior da ItáliaMatteo Salvini, que o Papa Francisco “é o inimigo” e deve ser atacado. O ex-estrategista chefe de Donald Trump, mentor do bolsonarismo, aconselhou o ministro do Interior italiano, Matteo Salvini, a atacar o Papa Francisco sobre a questão da migração, segundo fontes próximas à extrema direita italiana. “Bannon aconselhou o próprio Salvini que o papa atual é uma espécie de inimigo. Ele sugeriu, com certeza, atacar frontalmente”, disse o jornal inglês The Guardian, citando declaração de um representante Liga Anti-imigração da Itália.
The Guardian (6) resgatou uma reunião entre Steve Bannon e Matteo Salvini em 2016, em Washington. Depois disso, Salvini começou a atacar mais duramente o Papa Francisco, mas agora já não é ministro da República da Itália.
Então fracassou o “contra-sínodo” sobre a Amazônia, programado em Roma pelo Bolsonaro, junto a DuqueSalviniBannon.
É uma nova vitória do Papa Francisco, da “diplomacia da paz” do Vaticano frente à aliança internacional conservadora populistaCláudio Hummes – o relator do Sínodo da Amazônia – denunciou o risco que a democracia corre por causa de “poderes muito autoritários” e “desejos de autoritarismo cada vez maior” na “condução da nossa política”.
Em junho (11.6.2019) a Secretaria de Estado do Vaticano convidou para falar com embaixadores dos 9 países amazônicos; Mons. Pietro Parolin declarou: “é um sinodo pastoral. A Santa Sé reitera seu caráter eclesial, mas isso não significa que vamos ignorar a realidade concreta, os problemas experimentados pelos povos na Amazônia e também a questão quea Amazônia é um bem da humanidade, temos que preservá-la”.
Notas:
Por que a Floresta Amazônica pode se tornar foco de crise entre Bolsonaro e a Igreja Católica. André Shalders e João Fellet Da BBC News Brasil em São Paulo.
FONTEInstituto Humanitas Unisinos - IHU On-line